Cenário 2019: Política Externa

Assis Moreira (Valor, 12/12/18) avalia: o próximo ano promete confusões na cena internacional, dependendo de como vai evoluir a relação entre os Estados Unidos e a China, as maiores potências globais. De seu lado, o governo de Jair Bolsonaro quer recuperar influência brasileira no exterior. No entanto, sua política externa deverá navegar na defensiva.

Na campanha, Bolsonaro usou uma retórica inflamada, sugerindo alinhamento com os EUA, jogou suspeita sobre fluxos de investimento e comércio da China, assumiu postura de confrontação com Venezuela e Cuba, defendeu a revisão do Acordo de Paris (sobre mudanças climáticas) e a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém.

A retórica diminuiu de tom, uma vez eleito. Mas retrocessos retóricos ou práticos têm um custo. Não basta a percepção sobre a política econômica – que é boa, até agora. A imagem do Brasil estará muito associada, sobretudo nas democracias ocidentais, a temas como ambiente e direitos humanos. A capacidade de o país gerar simpatia deteriorou-se. Os primeiros ataques mais incisivos contra o novo governo certamente virão de fora, de uma oposição bem aparelhada no exterior desde o impeachment de Dilma Rousseff.

Bolsonaro chega ao poder num contexto de reconcentração do poder no mundo. Primeiro, com certos elementos da volta de bipolaridade, em que os EUA e a China ocupam espaços de potências diferentes dos demais.

No imediato segundo plano vem a Rússia, graças a seu arsenal de mísseis nucleares. Vladimir Putin continua a praticar uma política geopolítica ofensiva pelo qual restabelece parte do poder que a União Soviética tinha em sua zona de influência.

Vem em seguida outro grupo, em que a Europa tem força econômica, soft power, mas está enfraquecida. Atravessa uma crise política que não deixa um bom presságio. Ninguém sabe quanto tempo mais Angela Merkel poderá governar a Alemanha. Emmanuel Macron perdeu a credibilidade para fazer grandes reformas depois das reações violentas de rua na França. Com Theresa May, que enfrenta contestação ao acordo sobre o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), a questão é se ela ainda será a chefe de governo na semana seguinte. A Itália está nas mãos de populistas de direita que causam tremores no mercado.

No patamar seguinte estão emergentes como Índia e Brasil, cada um com momentos diferentes. A Índia cresce bem economicamente, mas enfrenta sempre muitas debilidades decorrentes da pobreza em que vive. E a tensão é permanente com a China.

Na América Latina, há uma orientação mais de centro-direita. Já o México vai na direção oposta do Brasil pela primeira vez em décadas, com um governo de esquerda populista. E não se pode excluir as chances de Cristina Kirchner voltar ao poder na Argentina.

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Baixa Produtividade na América Latina X Robótica e Automação no Resto do Mundo

Raquel Balarin (Valor, 04/12/18) alerta sobre o efeito de ausências ou atrasos no trabalho sobre a produtividade. O jornalista Michael Reid, da revista “The Economist“, classificou essas dificuldades de “entorno do trabalho”. É uma das oito grandes questões que, segundo ele, têm contribuído para que a produtividade na América Latina patine nas últimas décadas (ver quadro).

Apesar de diferentes governos e economias diversas, a América Latina carrega o traço comum da baixa produtividade, mesmo quando os números da região são comparados aos de outros países emergentes ou a setores em que o bloco tem vantagens competitivas, como mineração. A média do produto por trabalhador na região está abaixo de 50% em relação à média dos Estados Unidos em nove de dez setores estudados.

O CAF – Banco de Desenvolvimento da América Latina lançou há menos de um mês um dos mais amplos estudos sobre a região, “Instituciones para la productividad“, disponível (em espanhol) em bit.ly/2zFrzao. Download grátis em:  Instituciones para la Produtividad

Para o banco, o tema é chave para o crescimento econômico e social da América Latina nos próximos anos, porque a região enfrenta:

  1. o fim do “boom” das matérias-primas com participação importante nos 4,1% de crescimento da região entre 2003 e 2012 (0,9% entre 2013 e 2017) e
  2. uma mudança demográfica relevante, com redução da força de trabalho até 2040. Continuar a ler

Da Economia do Endividamento à Economia de Mercado de Capitais: Risco de Dolarização

O sonho dos Chicago’s Oldies é Terrae Brasilis deixar de ser uma economia de endividamento e se tornar uma colônia norte-americana com uma economia de mercado de capitais. O risco nessa transição à marcha forçada (e ordem unida militar) é se tornar uma economia dolarizada à la Argentina.

Explico a razão de ser dessa hipótese. Historicamente, depois de deixar de ser predominantemente de base imobiliária (terras rurais e imóveis urbanos), com a modernização conservadora do regime militar aliado à casta dos reformistas neoliberais à la Roberto Campos (avô), a riqueza brasileira passou a deter um portfólio lastreado principalmente em títulos de dívida pública de elevadíssima liquidez.

Isso permitiu a plantação de “jabuticaba”: uma moeda indexada, isto é, corrigida por índice de preços, capaz de se tornar uma reserva de valor mesmo em regime de alta inflação. Constituiu uma barreira à fuga de capitais para o dólar. Essa fuga ocorreu na Argentina, uma economia fundamentalmente primário-exportadora e recebedora de dólares tal como o agronegócio brasileiro. Este pesa 1/5 do PIB do Brasil ao integrar sua cadeia produtiva na indústria e em serviços. A indústria geral brasileira produz 21,5% do PIB, sendo composta de extrativa mineral (1,5%), transformação (11,8%), produção e distribuição de eletricidade, gás, água e esgoto (2,7%) e construção (5,2%).

A indústria é igualmente o maior setor produtivo na economia da Argentina: 19% do PIB. Também está integrado à agricultura, sendo a metade das exportações industriais do país de natureza agrícola. Os principais setores em termos de valor de produção são: processamento de alimentos e bebidas (um dos cinco maiores produtores de vinho do mundo), veículos automóveis e autopeças, produtos de refinaria, biodiesel, produtos químicos e farmacêuticos, aço e alumínio, máquinas agrícolas e industriais, e aparelhos eletrônicos. Em 2011, a indústria automotiva produziu 829.000 veículos e exportou 507 mil, principalmente para o Brasil. O país, em contrapartida, exportou um número um pouco maior para a Argentina. O Mercosul une o mercado automobilístico.

O país vizinho possui o 8º. maior território no mundo, mas sua população alcança 44 milhões de pessoas, pouco mais de 1/5 do tamanho da brasileira. Seu PIB nominal atinge US$ 585 bilhões enquanto o brasileiro chega a US$ 1.772 bilhões (FMI). Em Paridade de Poder de Compra (PPC), o do Brasil (US$ 3.246 bilhões) é o oitavo e o da Argentina (US$ 922 bilhões) o 28º.

Qual é a diferença marcante entre as riquezas pessoais na Argentina e no Brasil? Lá o comportamento coletivo típico é guardar dólares como reserva de valor. Essa atitude defensivo-especulativa contamina os “contratos de gaveta” no mercado imobiliário. São compromissados em dólares. Continuar a ler

Viva México: Pobre México tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos

Assisti várias séries no Netflix filmadas no México. A última foi Narcos: México sobre o Cartel de Guadalajara. Será este o futuro do Brasil com o crime organizado relacionado ao narcotráfico entranhado no aparelho de Estado, inclusive dominando a casta da farda?

Marsílea Gombata (Valor, 17/07/18) informa: desde a implementação do Nafta, a economia mexicana sofreu uma profunda transformação, na qual o petróleo tem cada vez menos peso e os setores de indústria e serviços crescem.

Petróleo bruto e derivados correspondiam em 1995 a 9% das exportações do México e hoje não chegam a 4%, de acordo com o Atlas de Complexidade Econômica, da Universidade Harvard. Produtos manufaturados atualmente respondem por 70% do total exportado. Os EUA são destino de 80% das exportações mexicanas.

O setor de serviços, cada vez mais proeminente, é hoje responsável por 60% do PIB. Os ramos mais importantes são os setores financeiro, de turismo e transporte voltado para o comércio exterior.

Relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), do início do mês, mostra que nas últimas décadas, a estrutura produtiva do México passou por mudanças orientadas por políticas públicas, nas quais a manufatura destinada à exportação foi a principal protagonista.

Apesar de o início da orientação exportadora do México estar associada a programas de fomento industrial com as indústrias “maquiladoras”, depois da adesão do México ao Gatt e a abertura comercial impulsionada pelo Nafta, o setor manufatureiro começou a ser o principal destino de investimentos estrangeiros. O documento destaca que entre 2010 e 2017, o setor manufatureiro, em especial a indústria automotiva, eletrônica e aeroespacial, foi responsável por 54% das entradas de investimento estrangeiro direto (IED). Continuar a ler

Guerra Comercial entre EUA e China

Andre Soares é non-resident fellow do Adrianne Arsht Latin America Center do Atlantic Council e ex- Coordenador do Conselho Empresarial Brasil-China. Alerta para o Brasil, como um dos maiores beneficiados deste embate comercial entre EUA e China, estar atento ao transcorrer desta guerra comercial.

“Antes de entrar nos impactos no Brasil, vale a pena entender o que já está na mesa. Desde o início da guerra comercial, os EUA impuseram um aumento de tarifas de 10% a US$ 250 bilhões em importações, o que representa quase 50% do total das importações vindas da China. Além disso, os americanos têm demonstrado grande preocupação com o avanço chinês em segmentos de alta tecnologia, como robótica, inteligência artificial e comércio digital. Para tentar conter os chineses, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, sigla em inglês) tem se utilizado da seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que prevê sanções para empresas e governos que tenham causado algum dano à economia americana.

Na última atualização de sua investigação contra os chineses, o USTR ampliou ao escopo de causas de danos na economia americana a alegação de que a China tem roubado e manipulado os direitos de propriedade intelectual de empresas americanas, assim como forçado as empresas americanas presentes na China a transferir tecnologia para empresas chinesas. Esta atualização também ataca os investimentos chineses no exterior e suas aquisições de empresas europeias de tecnologia.

Apesar do relatório ainda não indicar claramente que tipo de sanções seriam impostas contra as empresas chinesas, ele estabelece as bases legais para os americanos imporem restrições à atuação das empresas de tecnologia chinesas no exterior, restringindo assim seu catch-up tecnológico e avanços em mercados desenvolvidos. Também neste sentido, o governo americano buscou modernizar a atuação do Comitê de Investimentos Estrangeiros dos EUA, que agora possui abrangência para vetar projetos de fusão e aquisição de empresas estrangeiras que possuam participação minoritária em empresas americanas. Esse é um mecanismo para barrar o ingresso do capital chinês em fundos de venture capital e startups do Vale do Silício. Continuar a ler

“Chinalização” da Pauta Exportadora Brasileira e Risco de Submissão aos EUA

Marta Watanabe e Álvaro Fagundes (Valor, 12/11/18) avaliam: a disputa comercial liderada pelo americano Donald Trump contra a China já é sentida pelo Brasil. O país nunca foi tão dependente das exportações para o país asiático como neste ano.

Os chineses, de janeiro a outubro de 2017. já respondiam pela compra de 22,5% dos embarques brasileiros. Ampliaram a fatia para 26,8% nos dez primeiros meses deste ano.

Como resultado do conflito comercial com os EUA, a China comprou mais produtos básicos brasileiros (grãos, carnes e minério, por exemplo). Quase metade deles (47,7%, ou US$ 47,3 bilhões) foi para o país asiático, no acumulado até outubro, um avanço de 6,1 pontos percentuais em relação a igual período do ano passado. O desempenho fez os chineses aumentarem sua vantagem como maior parceiro comercial do Brasil. Os EUA, segundo lugar nas exportações, têm menos da metade: 12%.

Desde 2001, as exportações de commodities não estavam tão concentradas em um único destino. Naquele ano, a União Europeia respondeu por 50,6% das vendas brasileiras de commodities, que somaram US$ 13,2 bilhões no período, mas em uma pauta muito menor. As commodities já representam US$ 99,2 bilhões das vendas de janeiro a outubro deste ano.

As exportações totais para os chineses aumentaram em 28,8% neste ano (para US$ 53,2 bilhões), ritmo muito maior que os 8,5% no total das exportações – sem os chineses, a alta foi de 2,6%. A maior dependência vem num momento de tensão nas relações sino-brasileiras em razão das declarações do presidente eleito, Jair Bolsonaro, que durante a campanha demonstrou que vê com restrições os investimentos chineses. Continuar a ler

Por que o País está Atrasado: Falta de Capacidade de Inovação e Autonomia Tecnológica

 

Paulo Gala deu a dica em seu blog: as analises de complexidade também tem boa aderência para explicar diferenças de renda entre regiões dentro dos diversos continentes. Estudo recente do FMI, reproduzido abaixo, destaca esse padrao de complexidade  dos vários sistemas produtivos mundo afora: Crescimento na América Latina e no Caribe – Questão de Complexidade.

“O crescimento na América Latina e no Caribe vem sofrendo uma desaceleração significativa nos últimos anos. Parte dessa desaceleração aparenta ser permanente, como apontam as mais recentes projeções de médio prazo feitas pelo FMI. Infelizmente essa história parece bem familiar, considerando as históricas dificuldades da região para melhorar seu desempenho comparativo em termos de crescimento.

Sem contar a “década de ouro” de 2003–11, período em que a alta dos preços das commodities impulsionou uma forte expansão econômica, por que a região não tem sido capaz de sustentar taxas de crescimento elevadas o suficiente para recuperar o atraso em relação às economias mais avançadas? Parte da resposta está no êxito modesto da América Latina em diversificar sua produção para incluir bens mais intensivos em conhecimento — ou complexos.

Em um estudo recente, Ricardo Hausmann e Cesar Hidalgo introduziram o conceito de complexidade econômica como um fator determinante do crescimento e desenvolvimento a longo prazo. O conceito busca medir o conhecimento produtivo de um país a partir da variedade e sofisticação dos bens exportados. Economias mais complexas tendem a exportar uma variedade maior de produtos, e esses produtos tendem a ser mais intensivos em conhecimento. Dada a dependência considerável da América Latina em relação às exportações de commodities, é tentador concluir que a falta de diversificação e complexidade constitui um importante obstáculo ao crescimento.

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