Fim da História? (por Edward Amadeo)

As empresas no Brasil e em outros países da América Latina têm sido mais lucrativas do que na China e em outros mercados da Ásia com crescimento econômico bem mais elevado, segundo um estudo da Comissão para América Latina da Economia Alemã (LADW) com a consultoria McKinsey.

Análise de milhares de empresas em todo o mundo mostra que, entre 2000 e 2017, o Ebitda médio (lucro antes de juros, impostos e amortização, uma medida de rentabilidade da empresa utilizada por investidores) foi de 14% no Brasil e 18% na Argentina no setor industrial, comparado a 11% na Malásia e 8% na China.

Em 2017, a rentabilidade nos mercados latino-americanos foi similar ou maior se comparada à obtida em outras economias emergentes em setores como financeiro, imobiliário, industrial e “utilities” (gás, água e eletricidade).

Sobretudo as grandes companhias na América Latina têm superado outros emergentes em termos de rendimento, embora as taxas de crescimento na região variem apenas entre 2% e 2,5% por ano, em comparação com até 10% anuais nos países asiáticos no período.

Edward Amadeo (Valor, 24/06/19) avalia a história mundial recente.

Há 20 anos, o Ocidente comemorava o “fim da história”, os Bancos Centrais (BCs) comemoravam a “grande moderação” e a China sua entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC).

O Fim da História” é o título do livro de Francis Fukuyama para designar a
supremacia do modelo de democracia liberal depois da debacle da União
Soviética e a queda do muro de Berlin. A Grande Moderação é o título de uma
palestra de Ben Bernanke ao se referir à suavização dos ciclos econômicos
resultante do ganho de credibilidade dos BCs. Pela OMC a China ingressou no mundo cada vez mais interligado do comércio e do investimento entre empresas.

Não mais. Em vários países, os líderes políticos vêm desafiando as instituições da democracia liberal, os BCs vêm pelejando para reativar o crescimento e atingir suas metas de inflação, e a China está em guerra comercial e tecnológica com os EUA.

O que se passou nesses 20 anos? Continuar a ler

Rendas Per Capita Comparadas no Tempo e no Espaço

Sergio Lamucci (Valor, 21/05/19) informa: o Brasil perdeu terreno em relação a outros emergentes nas últimas décadas, distanciando-se do nível de renda dos países desenvolvidos, em vez de se aproximar. Com o baixíssimo crescimento da produtividade, o PIB per capita brasileiro corresponde hoje a pouco mais de um quarto do americano. Em 1980, equivalia a quase 40%. Nesse período:

  • o PIB per capita do Chile passou de 27,4% para 41,5% do indicador dos EUA;
  • o da China, de 2,5% para 28,9%; e
  • o da Coreia do Sul, de 17,5% para 66%.

Os números levam em conta o critério de paridade do poder de compra (PPP, na sigla em inglês), com base em estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Coordenador de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Armando Castelar diz: o Brasil está ficando mais pobre em termos relativos, na comparação com outros países. O país fica mais distante dos países de renda alta, como os EUA, em vez de ficar mais próximo. Nesse sentido, é um processo inverso ao desenvolvimento. “É um processo de subdesenvolvimento não em relação a si mesmo, mas em relação ao resto do mundo.” O critério de paridade de poder de compra busca eliminar as diferenças de custo de vida, facilitando a comparação entre os países.

Em 1980, o PIB per capita brasileiro era de US$ 11.372, equivalendo a 39% do americano. Em 2018, era apenas 26% maior do que em 1980. Os US$ 14.359 do ano passado equivalem a 25,8% do PIB per capita dos EUA. No mesmo período, o PIB per capita sul-coreano cresceu 623%, e o chileno, 189%. O indicador americano, mesmo partindo de um nível bem mais alto em 1980, aumentou 91% nesse intervalo.

O desempenho do PIB per capita brasileiro recente tem sido ainda pior. Nos últimos anos, o país sofreu uma gravíssima recessão, que durou do segundo trimestre de 2014 ao quarto trimestre de 2016, e a economia cresceu apenas 1,1% em 2017 e também em 2018. Depois de bater no pico de US$ 15.562 em 2014, o PIB per capita do Brasil recuou nos três anos seguintes, ficando praticamente estável no ano passado, quando subiu 0,4%. Continuar a ler

Fraternidade – Missões Humanitárias Internacionais

Quase dois anos de pesquisa minuciosa resultaram no livro “Fraternidade – Missões Humanitárias Internacionais”, verdadeiro mapa das últimas crises humanitárias que têm impactado o mundo. O lançamento foi realizado na sexta-feira, 29 de março, na sede da entidade que deu nome e conteúdo à obra.  Missões humanitárias realizadas entre 2011 e 2018 por voluntários da FFHI, no Brasil e em mais 16 países da África, América, Ásia, Europa e Oriente Médio, são o foco do trabalho da autora Ana Regina Nogueira. Os relatos devem surpreender a maioria dos brasileiros, que pouco sabem sobre o trabalho ou a existência da FFHI, instituição presente em 18 países com mais de 60 mil colaboradores pelo mundo.

O terremoto no longínquo Nepal foi o primeiro chamado para a então recém-criada missão humanitária da FFHI. Acabou ajudando a estabelecer o modelo que hoje se replica em todas as missões realizadas pela instituição. O chamado ‘modelo em rede’ envolve um pequeno grupo treinado em metodologias e práticas de socorro, resgate e sobrevivência, que se desloca para episódios que causaram morte, sofrimento e riscos para os sobreviventes.

No local, o grupo se une a outras instituições e grupos organizados, implementando meios de superar as situações encontradas, sejam elas causadas por ocorrências naturais como furacões, terremotos e enchentes, atuação humana como nos rompimentos das barragens de Mariana e Brumadinho, ou razões políticas, como guerras e crises que geram movimentações humanas.

Experiência da autora

A ação missionária não tem credo nem convicções políticas, mas um ‘chamado interno’ de humanidade, explica Ana Regina Nogueira. “Trabalhei lado a lado com o co-fundador da Fraternidade, José Trigueirinho, e depois de muitas ponderações, veio a ideia de um livro sobre as missões nos primeiros meses de 2017. Ali começou uma série de 222 entrevistas pessoais, a maioria extensa. Acredito no olho-no-olho e apostei nesse método”, recorda.

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Crônica da Crise da Dívida Anunciada

Assis Moreira (Valor, 21/01/19) informa: com a dívida global perto de US$ 250 trilhões, o mundo nunca esteve tão endividado. A discussão atual é como os tomadores de empréstimos e os mercados emergentes “irão desarmar suas bombas-relógio”.

A dívida global é agora três vezes maior que o tamanho da economia mundial. Cresceu mais de 12% (US$ 27 trilhões) desde 2016, alcançando US$ 244 trilhões no terceiro trimestre de 2018. É equivalente a 318% do PIB, ligeiramente inferior ao pico de 320% no terceiro trimestre de 2016, conforme o Instituto Internacional de Finanças (IIF), entidade que representa as instituições financeiras.

O endividamento de governos e companhias chegou a níveis recordes relativo ao PIB, atraindo a atenção dos bancos centrais ao redor do mundo. Os dois segmentos representam mais de 75% do aumento da dívida global desde 2008.

A dívida total dos governos passou de US$ 65 trilhões em 2018, de US$ 37 trilhões há uma década, concentrado sobretudo entre países desenvolvidos. No mesmo período, a fatura a pagar das companhias não financeiras passou de US$ 27 trilhões a US$ 72 trilhões, sendo 92% do PIB, sobretudo nos mercados emergentes.

A elevação da dívida em outros setores tem sido menor: o crédito para as famílias cresceu mais de 30% para US$ 46 trilhões, e do setor financeiro aumentou 10% para US$ 60 trilhões.

Segundo o IIF, desde 2016 o endividamento cresceu mais rapidamente nas famílias nos mercados emergentes, totalizando US$ 12 trilhões. A China é responsável por 45% ou US$ 6,8 trilhões em termos normais. O crédito também explodiu para famílias na Índia, México, Coreia, Malásia e República Tcheca, além de países desenvolvidos como a França, Bélgica e Finlândia.

De acordo com o IIF, no caso da Brasil a dívida das famílias equivale a 27,2% do PIB, das empresas não financeiras fica em 40,6%, do governo chega a 87,3% e do setor financeiro é de 35,1% do PIB. O grosso dessas dívidas é em real. No caso específico das corporações não financeiras, 16,8% da dívida é em moeda estrangeira. Continuar a ler

Cenário 2019: Política Externa

Assis Moreira (Valor, 12/12/18) avalia: o próximo ano promete confusões na cena internacional, dependendo de como vai evoluir a relação entre os Estados Unidos e a China, as maiores potências globais. De seu lado, o governo de Jair Bolsonaro quer recuperar influência brasileira no exterior. No entanto, sua política externa deverá navegar na defensiva.

Na campanha, Bolsonaro usou uma retórica inflamada, sugerindo alinhamento com os EUA, jogou suspeita sobre fluxos de investimento e comércio da China, assumiu postura de confrontação com Venezuela e Cuba, defendeu a revisão do Acordo de Paris (sobre mudanças climáticas) e a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém.

A retórica diminuiu de tom, uma vez eleito. Mas retrocessos retóricos ou práticos têm um custo. Não basta a percepção sobre a política econômica – que é boa, até agora. A imagem do Brasil estará muito associada, sobretudo nas democracias ocidentais, a temas como ambiente e direitos humanos. A capacidade de o país gerar simpatia deteriorou-se. Os primeiros ataques mais incisivos contra o novo governo certamente virão de fora, de uma oposição bem aparelhada no exterior desde o impeachment de Dilma Rousseff.

Bolsonaro chega ao poder num contexto de reconcentração do poder no mundo. Primeiro, com certos elementos da volta de bipolaridade, em que os EUA e a China ocupam espaços de potências diferentes dos demais.

No imediato segundo plano vem a Rússia, graças a seu arsenal de mísseis nucleares. Vladimir Putin continua a praticar uma política geopolítica ofensiva pelo qual restabelece parte do poder que a União Soviética tinha em sua zona de influência.

Vem em seguida outro grupo, em que a Europa tem força econômica, soft power, mas está enfraquecida. Atravessa uma crise política que não deixa um bom presságio. Ninguém sabe quanto tempo mais Angela Merkel poderá governar a Alemanha. Emmanuel Macron perdeu a credibilidade para fazer grandes reformas depois das reações violentas de rua na França. Com Theresa May, que enfrenta contestação ao acordo sobre o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), a questão é se ela ainda será a chefe de governo na semana seguinte. A Itália está nas mãos de populistas de direita que causam tremores no mercado.

No patamar seguinte estão emergentes como Índia e Brasil, cada um com momentos diferentes. A Índia cresce bem economicamente, mas enfrenta sempre muitas debilidades decorrentes da pobreza em que vive. E a tensão é permanente com a China.

Na América Latina, há uma orientação mais de centro-direita. Já o México vai na direção oposta do Brasil pela primeira vez em décadas, com um governo de esquerda populista. E não se pode excluir as chances de Cristina Kirchner voltar ao poder na Argentina.

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Baixa Produtividade na América Latina X Robótica e Automação no Resto do Mundo

Raquel Balarin (Valor, 04/12/18) alerta sobre o efeito de ausências ou atrasos no trabalho sobre a produtividade. O jornalista Michael Reid, da revista “The Economist“, classificou essas dificuldades de “entorno do trabalho”. É uma das oito grandes questões que, segundo ele, têm contribuído para que a produtividade na América Latina patine nas últimas décadas (ver quadro).

Apesar de diferentes governos e economias diversas, a América Latina carrega o traço comum da baixa produtividade, mesmo quando os números da região são comparados aos de outros países emergentes ou a setores em que o bloco tem vantagens competitivas, como mineração. A média do produto por trabalhador na região está abaixo de 50% em relação à média dos Estados Unidos em nove de dez setores estudados.

O CAF – Banco de Desenvolvimento da América Latina lançou há menos de um mês um dos mais amplos estudos sobre a região, “Instituciones para la productividad“, disponível (em espanhol) em bit.ly/2zFrzao. Download grátis em:  Instituciones para la Produtividad

Para o banco, o tema é chave para o crescimento econômico e social da América Latina nos próximos anos, porque a região enfrenta:

  1. o fim do “boom” das matérias-primas com participação importante nos 4,1% de crescimento da região entre 2003 e 2012 (0,9% entre 2013 e 2017) e
  2. uma mudança demográfica relevante, com redução da força de trabalho até 2040. Continuar a ler

Da Economia do Endividamento à Economia de Mercado de Capitais: Risco de Dolarização

O sonho dos Chicago’s Oldies é Terrae Brasilis deixar de ser uma economia de endividamento e se tornar uma colônia norte-americana com uma economia de mercado de capitais. O risco nessa transição à marcha forçada (e ordem unida militar) é se tornar uma economia dolarizada à la Argentina.

Explico a razão de ser dessa hipótese. Historicamente, depois de deixar de ser predominantemente de base imobiliária (terras rurais e imóveis urbanos), com a modernização conservadora do regime militar aliado à casta dos reformistas neoliberais à la Roberto Campos (avô), a riqueza brasileira passou a deter um portfólio lastreado principalmente em títulos de dívida pública de elevadíssima liquidez.

Isso permitiu a plantação de “jabuticaba”: uma moeda indexada, isto é, corrigida por índice de preços, capaz de se tornar uma reserva de valor mesmo em regime de alta inflação. Constituiu uma barreira à fuga de capitais para o dólar. Essa fuga ocorreu na Argentina, uma economia fundamentalmente primário-exportadora e recebedora de dólares tal como o agronegócio brasileiro. Este pesa 1/5 do PIB do Brasil ao integrar sua cadeia produtiva na indústria e em serviços. A indústria geral brasileira produz 21,5% do PIB, sendo composta de extrativa mineral (1,5%), transformação (11,8%), produção e distribuição de eletricidade, gás, água e esgoto (2,7%) e construção (5,2%).

A indústria é igualmente o maior setor produtivo na economia da Argentina: 19% do PIB. Também está integrado à agricultura, sendo a metade das exportações industriais do país de natureza agrícola. Os principais setores em termos de valor de produção são: processamento de alimentos e bebidas (um dos cinco maiores produtores de vinho do mundo), veículos automóveis e autopeças, produtos de refinaria, biodiesel, produtos químicos e farmacêuticos, aço e alumínio, máquinas agrícolas e industriais, e aparelhos eletrônicos. Em 2011, a indústria automotiva produziu 829.000 veículos e exportou 507 mil, principalmente para o Brasil. O país, em contrapartida, exportou um número um pouco maior para a Argentina. O Mercosul une o mercado automobilístico.

O país vizinho possui o 8º. maior território no mundo, mas sua população alcança 44 milhões de pessoas, pouco mais de 1/5 do tamanho da brasileira. Seu PIB nominal atinge US$ 585 bilhões enquanto o brasileiro chega a US$ 1.772 bilhões (FMI). Em Paridade de Poder de Compra (PPC), o do Brasil (US$ 3.246 bilhões) é o oitavo e o da Argentina (US$ 922 bilhões) o 28º.

Qual é a diferença marcante entre as riquezas pessoais na Argentina e no Brasil? Lá o comportamento coletivo típico é guardar dólares como reserva de valor. Essa atitude defensivo-especulativa contamina os “contratos de gaveta” no mercado imobiliário. São compromissados em dólares. Continuar a ler