O Investimento Público é Socialismo?!

Continua a conversa entre o economista Michael Hudson e o jornalista Pepe Escobar sobre aspectos econômicos do conflito China X EUA:

Michael Hudson: Não há como reconstruir a infraestrutura porque, para começar, o sistema bancário nos Estados Unidos subsidiou por cem anos a economia de lixo, dizendo ser preciso equilibrar o orçamento. Se o governo cria crédito, é inflacionário; como se quando os bancos criassem, não fosse inflacionário. Bem, o efeito monetário é o mesmo, não importa quem cria o dinheiro. 

[Hudson deveria se atentar o efeito inflacionário do crédito depender da fase do ciclo econômico, isto é, se há ou não excesso de capacidade produtiva não utilizadas.]

Biden já disse: o presidente Trump obteve um grande déficit, vamos obter um monte de superávits ou um saldo orçamentário. Ele estava defendendo isso o tempo todo. Essencialmente, Biden está dizendo: temos de aumentar o desemprego em 20%, reduzir os salários em 20%, encolher a economia em cerca de 10% para os bancos não perderem dinheiro.

[Hudson já estava na oposição ao governo democrata antes de ele ter iniciado! Apenas com base em sua retórica pós-keynesiana.]

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Debate sobre Contabilidade Nacional com Base Teórica Marxista

Continua a conversa entre o economista Michael Hudson e o jornalista Pepe Escobar sobre aspectos econômicos do conflito China X EUA:

“O que encontrei na China é algo muito estranho. Alguns anos atrás, em Pequim, eles tiveram a primeira conferência marxista internacional, onde eu era o orador principal e estava falando sobre a discussão de Marx sobre a história da Teoria da Renda, no Volume II e Volume III do Capital. Marx discute toda a Economia Clássica, inspiradora de sua visão. Adam Smith, Ricardo, Malthus, John Stuart Mill e a própria Teoria da Mais-Valia de Marx foram realmente a primeira História do Pensamento Econômico escrita, embora só tenha sido publicada depois de sua morte.

Bem, houve um pouco de desconforto com alguns dos marxistas na conferência. E então, eles convidaram para a próxima vez meu colega David Harvey vir falar sobre o marxismo no Ocidente.

Bem, David deu o discurso de abertura e encerramento da conferência e disse: “você tem de ir com sua leitura além do volume I do Capital. O Volume I foi o escrito por Marx como seu acréscimo à Economia Clássica. Disse haver exploração no emprego industrial do trabalho, bem como na busca de renda. Então, ele disse: agora, depois de feita minha introdução, até aqui, deixe-me falar sobre como funciona o capitalismo nos volumes II e III. Os volumes II e III são sobre arrendamento e finanças! 

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“A China está ganhando riqueza à moda antiga, produzindo-a”: frase retórica e impressionista de Michael Hudson

Continua a conversa entre o economista Michael Hudson e o jornalista Pepe Escobar sobre aspectos econômicos do conflito China X EUA:

Então, segundo Michael Hudson, “você poderia dizer a América foi além do capitalismo industrial, e neoliberais a chamam de sociedade pós-industrial, mas você poderia chamá-la de sociedade neo-feudal. Você poderia chamá-la de sociedade neo-rentista ou de escravidão por dívida, mas não é capitalismo industrial”.

[Essa é a hipótese de Hudson. Ele não apresenta dados e fatos para a defender como uma tese comprovada depois de tentativa de falseamento. É impressionista – e não verificada, de fato, com o método científico.]

“E, nesse sentido, não há rivalidade entre a China e a América. Esses são sistemas diferentes, cada qual seguindo seu próprio caminho. É melhor eu deixar Pepe começar a partir daí”.

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China versus Estados Unidos

Franklin Frederick compartilhou comigo uma conversa entre o economista Michael Hudson e o jornalista Pepe Escobar sobre aspectos econômicos do conflito China X EUA:

Se você ler o que as escolas de negócios do final do século 19 ensinaram, por exemplo, Simon Patten na Wharton School, é muito parecido com o socialismo. Na verdade, é muito parecido com o que a China está fazendo. De fato, a China está seguindo, nos últimos 30 ou 40 anos, praticamente, o mesmo caminho de enriquecimento seguido antes pelos Estados Unidos.

[Nesse caso, além de não analisar a China ser uma economia exportadora, Hudson comete o pecado não científico do anacronismo: consiste em erro cronológico, quando determinados conceitos, objetos, pensamentos, costumes e eventos são usados para retratar uma época diferente daquela à qual de fato pertencem. O anacronismo é caracterizado pelo desalinhamento e falta de correspondência entre as particularidades das diferentes épocas, quando fatores próprios de cada tempo são, erroneamente, misturados em uma mesma narrativa. 

China está na ponta, entre outras atividades, em tecnologia de transportes como trem-bala e automóveis elétricos, muito mais avançada em relação ao estágio atual dos Estados Unidos. A indústria contemporânea se misturou com serviços, assim como nos países exportadores de commodities ela se misturou na agroindústria ou no processamento das indústrias extrativas minerais e de hidrocarbonetos.]

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Falso Debate: Capitalismo Industrial versus Capitalismo Financeiro

Analiso o capitalismo como um sistema complexo emergente das interações entre seus subsistemas. São compostos pelas diversas atividades econômico-financeiras. O sistema capitalista, antes da Revolução Industrial, exploradora da força de trabalho na linha de produção, já era financeiro e comercial.

O subsistema bancário não é uma coisa inútil ou desnecessária ao capitalismo. É um componente-chave, dada sua importância social em atender a todos cidadãos com suas funções básicas: pagamentos, gestão das reservas financeiras e financiamentos.

É uma mitificação falar em uma recente “fase do capitalismo financeiro” ou “financeirização”. Rudolf Hilferding, em seu livro clássico, “O Capital Financeiro”, publicado em 1911, já salienta ambos os processos de concentração, o dos bancos e o das indústrias, não só se desenvolvem simultaneamente, como também há entre eles interação positiva capaz de fazê-los acumular mais com fusões e aquisições. 

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Papel-Moeda: Espécie em Extinção por Conta dos Pagamentos Digitais

Fernanda Bompan (Valor, 04/01/2021) informa: o volume de pagamentos digitais pode ficar perto de dobrar nos próximos cinco anos no Brasil. Segundo estudo da consultoria Accenture, essas transações podem saltar da casa de US$ 360 bilhões para US$ 650 bilhões por ano até 2026 com a aceleração do processo de digitalização dos meios de pagamento em curso no país, incluindo a popularização do Pix, e a entrada de mais pessoas no sistema financeiro.

Comparado a países como Reino Unido, Estados Unidos e China, o Brasil é bastante incipiente no movimento, mas tende a levar a uma utilização cada vez menor do dinheiro em espécie.

Na China, por exemplo, as carteiras digitais estão substituindo rapidamente os pagamentos em dinheiro em espécie. Segundo a consultoria, 76% das transações em 2019 no país foram originadas de carteiras móveis, ante 12% em 2014. Isso porque os consumidores chineses já estão acostumados a usar aplicativos móveis e códigos QR para pagar em restaurantes e lojas há alguns anos.

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Em Defesa de Políticas Expansionistas Fiscais e Monetárias

J. Bradford DeLong, ex-secretário adjunto do Tesouro dos EUA é professor de Economia na Universidade da Califórnia em Berkeley e pesquisador associado do Bureau Nacional de Pesquisa Econômica. Escreveu artigo (Valor, 29/12/2020) afirmando, se os sucessos e fracassos das políticas econômicas da última geração nos ensinam alguma coisa, é as políticas expansionistas fiscais e monetárias ainda estarem entre as ferramentas mais poderosas das quais dispomos para esse fim de retomada do crescimento da renda e do emprego.

Muito poucas pessoas que votaram no presidente dos Estados Unidos Donald Trump na eleição de 2020 são plutocratas que se beneficiaram de seu corte de impostos e dos republicanos no Congresso, ou mesmo aspirantes a plutocratas que podem esperar se beneficiar dele no futuro. Alguns eleitores de Trump, sem dúvida, estão muito focados na indicação de juízes de direita na bancada federal. Mas muitos entre os 74 milhões que votaram em Trump o fizeram por outros motivos.

A única razão que a maioria deles compartilha é que Trump foi presidente durante um período em que a economia dos EUA proporcionou consideráveis aumentos salariais para a típica família americana. Antes da pandemia da covid-19 – e do absoluto fracasso do governo Trump em administrá-la – os salários nos Estados Unidos cresciam mais rápido do que em qualquer outro momento desde que Bill Clinton foi presidente.

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Era de Instabilidade: Cinco Forças do Futuro Pós-covid-19

Martin Wolf (FT, 18/12/2020) avalia: o covid-19 acelerou o mundo rumo ao futuro. Aqui estão cinco forças que estavam em ação antes da covid-19, se intensificaram durante a pandemia e ainda estarão afetando o mundo em 2025, e por bem mais além.

Primeira: tecnologia. A marcha da tecnologia da computação e das comunicações continua modelando nossas vidas e a economia. Hoje, as comunicações em banda larga, somadas ao Zoom e a softwares similares de videoconferência possibilitaram que um número imenso de pessoas trabalhe em casa.

Em 2025, é provável uma parte, possivelmente a maioria, dessa transferência para fora dos escritórios ser revertida. A reversão, porém, não será completa. As pessoas terão capacidade (e permissão) para trabalhar fora do escritório. Inevitavelmente, isso incluirá não apenas trabalhadores nos próprios países, mas também no exterior, normalmente, com salários mais baixos. O resultado provavelmente será um aumento desestabilizador na chamada “imigração virtual”.

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Atraso Histórico na Era Neoliberal: Brasil cresce apenas 2,2% na década, mundo avança 30,5%

Gustavo Patu (FSP, 19/12/2020) informa: em poucos dias o Brasil completará 40 anos em que sua economia cresce abaixo do ritmo mundial. No período, nunca essa disparidade foi tão grande quanto nesta década prestes a acabar.

De 2011 a 2020, o país empobreceu em termos absolutos e relativos. Seu PIB (Produto Interno Bruto) terá crescido não mais de 2,2%, se considerada uma projeção de queda de 4,5% neste ano —em razão do impacto da Covid-19— feita pelo Ministério da Economia.

No mesmo período, segundo cálculos do FMI (Fundo Monetário Internacional), o PIB global terá crescido 30,5%, mesmo com recuo semelhante ao brasileiro neste 2020.

A taxa de 2,2% numa década, que seria fraca até como um resultado anual, é bem inferior à do crescimento da população brasileira ao longo desses dez anos, estimada pelo IBGE em 8,7%. Em outras palavras, a renda média nacional por habitante encolheu.

Para além da estatística, a cifra se traduz em óbvia perda de bem-estar da população, mensurável em índices como os de desemprego e pobreza.

Significa, ainda, o país ter se distanciado mais profundamente do padrões mundiais de riqueza e desenvolvimento.

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Política Fiscal Expansionista com Afrouxamento Monetário para Retomada do Crescimento

André Lara Resende (Valor, 11/12/2020) utiliza de Argumento de Autoridade para defender a hora ser da política fiscal expansionista com ênfase nos investimentos públicos. É o proposto por grandes nomes da formulação econômica americana.

No dia 1o de dezembro, duas das instituições mais influentes de Washington, a Brookins e o Peterson Institute, promoveram um seminário para reavaliar o papel da política fiscal. Jason Furman e Larry Summers, ambos professores da Universidade de Harvard, respectivamente ex-presidente do Conselho Econômico de Obama e ex- secretário do Tesouro de Clinton, prepararam o texto que serviu de base para a discussão1. Para o debate foram convidados, além dos ilustres autores, Ben Bernanke, Olivier Blanchard e Kenneth Rogoff. Bernanke presidiu o Fed durante a grande crise financeira de 2008, Blanchard e Rogoff foram economistas-chefes do FMI. Os três são renomados acadêmicos, doutorados pelo MIT, professores das Universidades de Harvard e Princeton. Estamos falando do que é a melhor expressão do cruzamento entre a academia e a tecnocracia, a fina flor da formulação e da execução da política econômica americana.

A conclusão do seminário, como disse Summers e, em seguida, Blanchard repetiu no Twitter, é que estamos diante de uma mudança de paradigma. Cesse tudo que a antiga musa canta, saem as políticas de austeridade e a busca do equilíbrio orçamentário. A tão decantada relação dívida/PIB é um indicador enganoso, deve ser desconsiderado. A hora é de uma política fiscal expansionista com ênfase nos investimentos públicos.

Essa já vem sendo a tese defendida pelo FMI. A diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, e a economista-chefe, Gita Gopinath, deram recentemente entrevistas defendendo o uso da política fiscal, tanto para amenizar a crise provocada pela pandemia como para garantir uma recuperação sustentada uma vez passada a crise.

Contra a corrente e sofrendo severas críticas, venho batendo nessa tecla desde antes da pandemia. Sustento que a combinação de uma política de juros altíssimos, conduzida pelo Banco Central desde a estabilização da inflação, com o Real em 1994, até muito recentemente, combinada com uma obsessão de equilibrar as contas públicas através de aumento da carga tributária e de corte dos investimentos, foi razão do baixo crescimento da economia nestes últimos 25 anos. Mas, antes de analisar o caso do Brasil, vejamos o que dizem Furman e Summers.

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Brasil líder em Superávit Agrícola

Assis Moreira (Valor, 30/11/2020) informa: o Brasil se consolidou nos últimos 25 anos como o maior exportador líquido (diferença entre exportações e importações) de produtos agropecuários do mundo, apesar do persistente protecionismo e de crescentes barreiras sanitárias e fitossanitárias no comércio global de alimentos. Isso foi confirmado em um levantamento recém-concluído pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Reforça as perspectivas dessa tendência, confirmada firmemente a partir do ano 2000, ainda se aprofundar.

O secretariado da OMC preparou o estudo para o aniversário dos 25 anos do acordo agrícola costurado pela entidade, e o Brasil é, certamente, um de seus pontos de destaque. Se já era o maior exportador mundial de commodities como açúcar, café e suco de laranja em 1995, nas décadas seguintes o país assumiu a liderança também nos embarques de soja, o produto agrícola mais comercializado no mercado internacional, e se firmou como um dos maiores do planeta também em milho, algodão e carnes.

Entre 1995 e 2019, as exportações globais de produtos agrícolas mais que triplicaram, de US$ 286 bilhões para US$ 1,051 trilhão. E os principais concorrentes brasileiros perderam participações de mercado, enquanto as do país aumentaram.

A América do Norte, dominava quase 30% das exportações agrícolas mundiais em 1995. Seu percentual recuou para 22% em 2019. Os Estados Unidos eram os maiores exportadores mundiais, com 22,2% do total em 1995, caíram para o segundo lugar, com participação de 13,8%.

No ranking das exportações, a liderança passou a ser da União Europeia (16,1%), mas graças à colaboração dos 28 países do bloco, e o Brasil, assumiu de vez o terceiro lugar (7,8%). Com a arrancada brasileira e o avanço de países como a Argentina, a participação das Américas do Sul e Central nas exportações agrícolas totais aumentou de 14,5% para 17,6% de 1995 a 2019.

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Fuga de Capitais

Luiz Fernando de Paula, Barbara Fritz e Daniela Prates são, respectivamente, professor de Economia da UFRJ, professora de Economia da Freie Universitat Berlin, e economista sênior da Unctad — além de ser minha ex-aluna e ex-colega. Publicaram artigo (Valor, 19/10/2020) competente como os economistas heterodoxos brasileiros são, embora sem achar muito espaço na “grande” imprensa brasileira, especialmente, no jornalismo econômico neoliberal.

“Pode-se identificar três ondas principais de fluxos de capitais desde a década de 1990 para economias emergentes (EMs):

  1. a primeira começa no início e termina no final desta década com uma sequência de crises cambiais na América Latina, Leste Asiático e a Rússia;

2. uma segunda onda inicia-se com o novo milênio, terminando com uma parada abrupta em 2008 com a Crise Financeira Global (CFG);

3. por fim, desencadeado por políticas de afrouxamento quantitativo do Fed um terceiro ciclo começa a partir de meados de 2009, com fluxos de capitais cada vez maiores e diversificados e aumento da participação de não-residentes em aplicações em moeda local nos mercados domésticos das economias emergentes.

A pandemia da covid-19 levou a uma forte reversão nos fluxos de capitais para as EMs. A alta incerteza relacionada à propagação da pandemia aumentou os temores sobre o futuro, desencadeando saídas de portfólio sem precedentes dessas economias, atingindo primeiro os mercados acionários e, na sequência, os mercados de títulos públicos, resultando em deflação nos preços das ações, um aumento acentuado nos spreads e abrupta depreciação das moedas domésticas.

As saídas líquidas de capitais das economias emergentes somaram US$ 104,8 bilhões durante a crise da covid-19, mais de três vezes os US$ 33,0 bilhões registrados na CFG, em ambos considerando os 90 dias após o início do evento, e resultou em uma forte desvalorização cambial entre o final de fevereiro e final de março de 2020, tendência que persistiu em algumas EMs.

No entanto, desde abril de 2020, esse movimento perdeu ímpeto com a recuperação parcial dos influxos de portfólio de capital para as EMs, o que fez com que os preços de muitos ativos retornassem mais perto aos níveis anteriores. Como os bancos centrais das grandes economias avançadas injetaram quantidades sem precedentes de liquidez em suas economias, os investidores globais tiveram pouca escolha a não ser buscar maiores rendimentos nas EMs.

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