Financiamento Monetário do Gasto Público para Enfrentar Coronacrise

Meu colega do IE-UNICAMP, Giuliano Contento de Oliveira, publicou artigo (Valor, 22/04/2020) sobre esse debate referente à MMT (Moderna Teoria da Moeda) aplicada à  atual crise de liquidez.

“Diante da profunda crise econômica e social engendrada pela pandemia do coronavírus no Brasil, a chamada “coronacrise”, têm surgido propostas que, em outros contextos, seriam classificadas como despropositadas ou, até mesmo, indecentes.

Certamente, uma das mais importantes delas diz respeito ao financiamento do gasto público mediante emissão monetária. Até mesmo o insuspeito ex-presidente do Banco Central do Brasil (BCB) Henrique Meirelles defendeu essa medida recentemente, sem meias palavras.

Essa estratégia poderia ser uma forma de, a um só tempo, realizar os gastos públicos necessários para o enfrentamento da “coronacrise” e impedir que a dívida bruta do setor público atinja patamar ainda mais elevado no fim de 2020, em torno de 100% do PIB, ante seus potenciais efeitos indesejados. Afinal, os gastos do governo para o combate à “coronacrise” já têm suscitado sugestões de medidas voltadas para um amplo e rigoroso ajuste fiscal passada a pandemia, o que pode levar a economia brasileira a mais uma década perdida, em razão da supressão dos investimentos públicos e do sucateamento ainda maior dos serviços oferecidos pelo estado.

Por isso, a sociedade precisa ter ciência e conhecimento de quais são as alternativas existentes para o financiamento desses gastos (ou de parte deles), de modo a poder escolher as melhores dentre as opções existentes de forma consciente.

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Financiamento Monetário do Déficit Fiscal: Dinheiro Lançado de Helicóptero

Adair Turner, chefe da Comissão de Transição Energética do Reino Unido, foi chefe da Comissão de Serviços Financeiros de 2008 a 2012. Seu livro mais recente é “Entre a Dívida e o Diabo”. Publicou artigo (Valor, 23/04/2020) oportuno sobre tema da hora: emissão monetária para financiar gastos sociais em crise deflacionária como a atual.

Em resposta à pandemia da covid-19:

  1. o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) comprará quantias ilimitadas de títulos do Tesouro americano,
  2. o Banco da Inglaterra, 200 bilhões de libras (US$ 250 bilhões) de títulos do governo britânico, e
  3. o Banco Central Europeu (BCE), € 750 bilhões de bônus da zona do euro.

Quase certamente, os bancos centrais acabarão proporcionando financiamento monetário para custear déficits fiscais. A única dúvida é se devem tornar isso explícito.

A política monetária, por si só, é claramente impotente nas circunstâncias atuais. Os bancos centrais cortaram taxas referenciais de juros, e as compras de bônus vêm pressionando para baixo os rendimentos dos papéis de longo prazo. Ninguém acredita, no entanto, que essas baixas taxas de juros motivarão aumentos nos gastos dos consumidores ou nos investimentos das empresas.

Em vez disso, a queda no crescimento econômico será neutralizada (da melhor forma possível) por:

  1. aumentos nos gastos governamentais em saúde,
  2. apoio direto à renda dos trabalhadores demitidos e
  3. impostos mais baixos.

Isso resultará em déficits fiscais sem precedentes. Na teoria, financiar esses déficits por meio da venda de bônus governamentais poderia elevar o rendimento dos bônus, potencialmente anulando a força dos estímulos. Mas com os bancos centrais comprando bônus e pressionando os rendimentos para baixo, os governos poderiam captar tudo o que precisassem a taxas de juros baixíssimas. Continuar a ler

Investimentos em Infraestrutura: Necessários e Oportunos

Marcelo Allain é sócio-diretor do BR Infra Group. Publicou artigo (Valor, 27/04/2020) com um bom esquema do debate atual sobre “desafios da infraestrutura diante das crises“.

A crise da covid-19 tem sido muito mais intensa e rápida do que se poderia imaginar. Além do tremendo impacto na saúde pública, diversos setores da economia precisaram se adaptar aos tempos de pandemia. O setor mais atingido foi o de aeroportos, com queda de 90% do número de voos, passando por mobilidade urbana (cerca de 60% de queda), rodovias (cerca de 30% de redução no tráfego) e energia elétrica (consumo 8% menor), entre outros.

A recente crise, que se iniciou com a saída do ministro Mandetta, a aproximação do governo ao “Centrão”, as denúncias do ex-ministro Moro e o desencontrado pronunciamento do presidente Bolsonaro, traz grave instabilidade política a um quadro já esgarçado na infraestrutura. A seguir, analisamos cinco desafios a serem superados. Continuar a ler

Reação dos Conservadores contra a Volta do Desenvolvimentismo

A piada-pronta é: “Guedes faltou à aula sobre gastos para desenvolvimento!

Na Escola de Chicago monetarista, provavelmente, ele não estudou nem a teoria nem a história dos ciclos econômicos. Obsessivo com austeridade fiscal, para não emitir nem dívida pública nem moeda, quando estamos em uma crise deflacionária sem risco de inflação, ele é totalmente desqualificado para o cargo de “super-ministro da Economia”. Ainda é mais sem ter os conhecimentos necessários para aplicar durante um ciclo depressivo como o atual.

Mas seus arautos na “grande” imprensa brasileira não se cansam de cantarolar a estúpida ladainha neoliberal. Pregam a continuidade do austericídio: contra a expansão da dívida pública acima de tudo!

Por exemplo de porta-voz do governo pró-negócios de O Mercado, confira as colunas da diretora adjunta da redação do jornal Valor Econômico.

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New Deal e Plano Marshall à Brasileira: Pró-Brasil ou Pró-Business

A pandemia do coronavírus tem levado a convergências políticas até poucos meses inimagináveis em um país polarizado como o Brasil. Pelo menos duas ações aprovadas até agora no Congresso – o seguro de R$ 600 para os trabalhadores informais e a distribuição de alimentos da merenda escolar a quase 39 milhões de crianças e adolescentes da rede pública de ensino – são fruto de um amplo debate entre partidos de esquerda e centro, preocupados com a falta de comando nacional.

Muitas dessas propostas de políticas públicas brotaram da Fundação Perseu Abramo (FPA), a instituição criada pelo PT em 1996 para pesquisa e formação política. Agora comandada por Aloizio Mercadante, ex-ministro da Casa Civil e da Educação no governo Dilma Rousseff, a fundação vai se dedicar integralmente à formulação de políticas públicas e saídas para a crise. Continuar a ler

Os respiradores da Magnamed, o BNDES e o esforço coletivo da inovação (por Marcelo Miterhof)

O projeto do BNDES, quando era, de fato, desenvolvimentista, foi mobilizar capital de diversos investidores para investir em startups, de modo a compartilhar os riscos.

Marcelo Miterhof é economista do BNDES. Foi meu orientando na Pós-Graduação do IE-UNICAMP. Infelizmente, o artigo abaixo não reflete necessariamente a opinião do banco.

Na semana passada, o Ministério da Saúde fechou com uma empresa brasileira a compra de 6500 ventiladores pulmonares, que é o equipamento central das UTIs para tratar de pacientes com o vírus Corona. Num contexto em que os países tendem a entrar no modo “farinha pouca, meu pirão primeiro” – vide o conflito sobre as máscaras descartáveis que iriam para Alemanha, França e Brasil, mas ficaram mesmo é com os Estados Unidos – é sorte termos uma empresa nacional capacitada a fabricar esses complexos equipamentos que salvam vidas, no caso a Magnamed.

Seria sorte mesmo? Para entender, vale contar brevemente a história da empresa.

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Grande Depressão de 2008: Muito Além do Subprime

Daniel Yergin, no livro “A busca: Energia, Segurança e a Reconstrução do Mundo Moderno” (Rio de Janeiro: Editora Intrínseca; original “The Quest: Energy, Security, and the Remaking of the Modern World” publicado em 2011), salienta: o que estava acontecendo na economia também reduziria a demanda por petróleo.

Hoje se acredita a Grande Recessão, pelo menos nos Estados Unidos, ter começado em dezembro de 2007, bem antes da maioria das pessoas a reconhecerem, em 15 de setembro de 2008, com a quebra do Banco Lehman Brothers.

Foi principalmente uma recessão do crédito, resultado do endividamento excessivo, do excesso de alavancagem financeira, de derivativos, da grande quantidade de dinheiro barato, do excesso de confiança — tudo isso gerou bolhas no mercado imobiliário e em outros ativos nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.

Porém, o aumento do preço do petróleo foi um fator determinante para a recessão. Entre junho de 2007 e junho de 2008, os preços do petróleo dobraram — um aumento de US$ 66 — em termos absolutos, um crescimento bem maior do antes visto nos choques do petróleo anteriores, desde a década de 1970.

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