Beleza da Democracia

Na tensa véspera do primeiro turno da eleição de 2022, é necessário recorrer ao apoio emocional dos companheiros, para combater a insônia e a depressão. São provocadas pelas notícias de ataques à mão armada por parte de intolerantes com as diferenças ou divergências políticas. Nesse sentido, o humor é fundamental.

Contra a contínua, quase diária, divulgação de pesquisas com base científica, um sujeito ignorante anuncia não aceitar sua derrota esperada na apuração dos votos por conta de sua amostra… visual! Argumenta: em todos os comícios dele, vê muitos apoiadores…

O defensor do “Datapovo” questiona: “o Datafolha entrevistou 6.754 eleitores em todo o Brasil, distribuídas em 343 municípios, mas o Brasil tem mais de 5.600!” Em resposta, foi lhe sugerido: “quando você for fazer seu próximo exame de sangue, pede para tirar todo seu sangue…”

Análise de pesquisa eleitoral exige certa sutileza quanto às sobreposições dos dados. Por exemplo, na ânsia pela reeleição (e imunidade investigativa), ele lidera a rejeição entre os candidatos à Presidência da República: 52% não votariam de jeito nenhum no atual presidente, indica o Datafolha de 22/09/22.

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Redes Políticas por Proximidade e Raízes do Neofascismo em Santa Catarina

Nossos laços com outras pessoas influenciam, entre outros fatores, a evolução da situação econômico-financeira e política. As cadeias de interconexões se ramificam como raios, configurando padrões intricados por toda a sociedade humana.

Em uma rede social, o número de laços com outros seres humanos e a complexidade da ramificação aumentam em escala crescente. Quando pessoas estão conectadas em vastas redes, a influência social vai muito além das pessoas conhecidas.

Se influenciarmos nossas interconexões, e elas influenciarem seus outros laços, nossas ações coletivas podem, potencialmente, influenciar pessoas desconhecidas por nós. Os seres humanos se reúnem em ações coletivas para via Política realizar o não possível de se fazer sozinho.

Em campanha eleitoral, interessa-nos descobrir a origem das convicções políticas das pessoas e examinar como a tentativa de certa pessoa de resolver um problema social ou político influencia outros militantes e conquista votos dos eleitores. As redes prospectadas por cientistas sociais são muito mais complicadas, se comparadas às redes elétricas ou às redes de neurônios, por exemplo, porque os nós nessas teias sociais são seres humanos pensantes e reativos – e não células ou átomos passivos.

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Análise do Discurso de Ódio

João Cezar de Castro Rocha, professor da UERJ, é um intelectual militante por uma causa pública: o desvendamento da emergência do neofascismo no Brasil. Publicou, em 2021, o livro Guerra Cultural e Retórica do Ódio: Crônicas de Um Brasil Pós-Político.

Neste breve artigo-resenha de seu livro, tentarei descrever suas ideias-chave em palavras simples para os leitores-eleitores ainda indecisos tomarem suas decisões de maneira esclarecida. Como todo defensor da democracia, respeitador da alternância de poder via eleitoral, prescrita pela Constituição brasileira, ele reconhece: “a agenda da campanha bolsonarista, conservadora e até mesmo reacionária nos costumes, neoliberal na condução da economia e de orientação política de direita — ou até mesmo de extrema-direita — foi aprovada pelos eleitores do presidente”.

O eleito por acaso usou todo seu mandato presidencial para alcançar a meta da reeleição e manter a imunidade sua e de sua família, acusada de maneira documentada por uso de dinheiro frio de origem obscura para enriquecimento imobiliário. Expôs sua ausência de programa de união nacional sem ter nenhum tipo de (auto)censura e ditou sua retórica belicosa sequer com cuidados diplomáticos. É desqualificado para o cargo!

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Revisão Histórica para Nova Estratégia

O noticiário do jornalismo econômico está anunciando vários fatores determinantes de novo cenário futuro. Não se trata apenas de a esperada alternância de poder ser tratada como normal, em democracia eleitoral, e como criminoso quem não a acatar.

Para enfrentar o desafio de um novo mandato presidencial progressista, em contexto distinto do acontecido entre 2003 e 2010, é necessária a revisão histórica para elaboração de uma nova estratégia social-desenvolvimentista com políticas sociais ativas e política econômico-financeira capaz de incorporar novos fatos e dados. Não devemos “brigar contra os números”!

O diretor-adjunto de redação do jornal Valor Econômico critica a chamada Nova Matriz Macroeconômica (NME) em sua coluna, semanalmente, desde a fase de demonização do governo Dilma para (de)formar uma opinião pública de maneira ela ser favorável ao golpe contra a democracia e o presidencialismo. Na última, publicada em 01/09/22, acusa algumas proposições do líder das pesquisas, o petista Luiz Inácio Lula da Silva serem itens da Nova Matriz Econômica (NME).

Embora tenha chegado a menor taxa de desemprego (4,8%) da PME (Pesquisa Mensal de Emprego realizada em seis regiões metropolitanas), ele engana os leitores ao responsabilizar a NME, supostamente porque ela “jogou o Brasil na mais longeva e profunda recessão de sua história”. Ora, a Grande Depressão ocorreu com a volta da Velha Matriz Neoliberal (VMN) através de Joaquim Levy, em 2015, e seu prosseguimento com Henrique Meirelles (2016-2018) e o inominável Posto Ipiranga (2019-2022).

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Desglobalização, Inflação e Desfinanceirização (sic)

O noticiário do jornalismo econômico está anunciando uma transição para novo contexto internacional. A Organização Mundial do Comércio (OMC) aponta para uma estagnação no crescimento das exportações e importações nos próximos meses.

Ela mostra tendência de queda nas exportações de produtos automotivos e componentes eletrônicos e no frete aéreo. No primeiro semestre de 2022, o comércio internacional cresceu apenas 1,4% em volume.

A menor demanda global já diminuiu a pressão sobre a capacidade dos navios e reduziu os custos de embarques de mercadorias antes com problema de carência de containers. As taxas nas rotas para a China tiveram queda de 40% em um ano.

Ela, considerada a maior nação comerciante do mundo, medição por meio do fluxo comercial de exportações e importações em relação ao PIB, voltou a ter uma imposição de novo de lockdown em grandes áreas de produção e exportação, como Shenzhen, Dalian e Guangzhou. Visa combater à nova onda de covid-19, surgida nesse polo de indústria tecnológica no sul do país.

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Conflito de Interesses no Agronegócio

A publicação do Mapa da Pesquisa Eleitoral do IPEC por Estados e Regiões provocou comentários críticos ao atraso dos Estados do Sudoeste brasileiro.

Fora os ex-territórios em fronteiras do Norte com diminutos eleitorados (RR 0,2%, AC 0,4%, RO 0,8% dos eleitores), Lula não lidera apenas no DF (1,4%), no MT (1,6%) e em SC (3,5%). Está em empate técnico com vantagem numérica para o desqualificado ocupante atual do cargo de Presidente da República no MS (1,3%), GO (3,1%) e PR (5,4%).

Lula lidera em 14 estados, inclusive nos dois maiores (SP 22,2% e MG 10,4%), e tem também empate técnico com vantagem numérica no ES (1,9%), RS (5,5%) e Rio de Janeiro (8,2%). Lembremos: ao contrário dos Estados Unidos, aqui não há a regra “the winer takes it all”, ou seja, uma vitória implicar em ganhar todos os votos/delegados do Estado.

Esses comentários críticos ao atraso provocaram reações sob a alegação dos estados do Oeste estarem apresentando maior crescimento demográfico, econômico e, principalmente, das exportações. Em 2000, MS, MT, RO, AC e RR respondiam por 4,0% da população do Brasil e por 2,5% das exportações. Em 2021, aumentaram para 4,6% da população e 10,9% das exportações do Brasil.

Os indignados defenderam, em vez de classificá-los como “atrasados”, ser preciso buscar entender a dinâmica desses Estados e apresentar uma agenda política melhor frente à atual para essa região.

Também reagi contra o economicismo deles ao afirmar: a economia não determina diretamente a política. Votar contra uma candidatura social e nacionalmente progressista em nome de suposta defesa dos interesses dominantes nessas regiões do agronegócio a meu ver é sim sintoma bairrista de atraso político e cultural.

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Investimento em Infraestrutura: BNDES e/ou Mercado de Capitais?

Para um próximo governo social-desenvolvimentista, é crucial os economistas apoiadores desse rumo fazerem e debaterem, publicamente, um diagnóstico preciso com sua melhor capacidade analítica teórico-conceitual das evidências empíricas. A retomada do crescimento econômico da renda e emprego, de maneira sustentada em longo prazo, depois de quatro décadas da economia brasileira rastejante com o fim da Era Desenvolvimentista (1950-1980), será a provável escolha da maioria dos eleitores.

Superar essa Era Neoliberal (1980-2022) exigirá o exame cuidadoso dos dados e fatos da tentativa-e-erro no interregno da primeira experiência social-desenvolvimentista (2003-2014). Certamente, o legado de políticas sociais ativas como Bolsa-Família, Minha Casa Minha Vida, ProUni, SUS, entre outras, são consensuais de serem retomadas.

O desafio será, então, conceder incentivo ao investimento multiplicador de renda e emprego, de maneira planejada e coordenada, para provocar efeitos encadeamentos intersetoriais a partir de núcleos estratégicos ou prioritários. O ponto de partida é uma análise crítica daquele passado histórico para obter um futuro com mais acertos e menos erros. Estes são esperados, em todas as primeiras experiências, e corrigíveis.

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Rever Conceitos… e Preconceitos

A tendência deflacionária, ocorrida nas três últimas décadas, com a tendência de queda da taxa de salário pelo aumento massivo da força de trabalho explorada, em escala global, possibilitou fase de baixa na taxa de inflação e, em consequência, na taxa de juro. Por isso, houve fuga da renda fixa para a renda variável (ações) ou imóveis.

Inflou bolhas especulativas até suas explosões. Para a não diluição das participações acionárias, houve financiamento de recompra de ações através de emissão de dívida corporativa (debêntures) com pagamento de juros nesses títulos de dívida direta.

Meus companheiros de esquerda, críticos como eu da ideia de as desigualdades serem naturais e insuperáveis, ficaram muito impressionados com a concentração da riqueza financeira. No entanto, para superar a desigualdade social, é necessário rever os (pre)conceitos contra o subsistema financeiro, integrado ao sistema capitalista e interativo com o subsistema produtivo.

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Ciclo de Financeirização ou de Desalavancagem Financeira?

Também na Ciência Econômica temos de nos colocar contra o negacionismo científico. Seu método – observação, questionamento, hipótese, experimentação, análise dos resultados dos testes e conclusão – tem de ser praticado inclusive contra o dito até por companheiros de esquerda, no caso, autores e/ou adeptos da literatura da chamada “financeirização”.

Os cientistas seguem o Método Científico ao tentarem se aproximar da verdade (transitória ou configurada) e, para tanto, partindo da observação empírica. Uma convincente narrativa lógico-causal pode contar uma estória convincente à primeira vista, porém falsa perante outros conceitos teóricos ou alongamento histórico da visão.

Por exemplo, o fenômeno da “financeirização” não descreveria apenas um ciclo transitório ou uma configuração periódica a ser logo superado(a), quando passar essa fase de desalavancagem financeira, onde “a política monetária empurra corda”? A taxa de juro ficou baixa, face a uma inflação sob controle em todos os países avançados, apesar do longo “afrouxamento monetário” e… nada de recuperação ou retomada do crescimento econômico sustentado em longo prazo!

Aí, quando a economia ultrapassar a fase de normalização, haverá nova alavancagem financeira, bolha, auge, depressão até outra fase de desalavancagem financeira. Em Finanças, alavancagem designa a elevação da rentabilidade patrimonial sobre o capital próprio através de endividamento. Resulta em maior economia de escala (e lucro) com a participação de capital de terceiros na estrutura do capital da empresa.

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Tendências Demográficas versus Ciclo de Financeirização

Uma série temporal é uma coleção de observações feitas, sequencialmente, ao longo do tempo. Seus componentes são três:

  1. a tendência capta os componentes permanentes em mais longo prazo;
  2. o ciclo é observado em ondas, sem regularidade constante no tempo de altas e baixas, em torno de uma linha de tendência de crescimento ou descenso;
  3. a sazonalidade é dada por padrões regulares na série de tempo como estações climáticas (chuvas ou secas), anuladas se comparadas as de um ano com as de outros, porque comumente existem a cada ano.

Durante essa tendência inercial, poderá haver choques. Economista é acostumado ou treinado a pensar em sistema de preços relativos, logo, choque seria uma variação súbita de um preço relativamente a outros. Por exemplo, é o caso de choque cambial.

Podem ser choques de demanda, como o choque monetário, um afrouxamento causado por baixa da taxa de juro básica, ou choques de oferta. No caso de uma quebra de oferta, por uma estação de seca em lugar de uma esperada estação chuvosa ou por uma quebra de cadeias produtivas (pelo distanciamento social) e comerciais (pela carência súbita ou temporária de containers para transporte internacional via navegação marítima), o controle da demanda agregada por meio da política monetária é um erro crasso. Afinal, ele passará se aguardar pacientemente…

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O Banqueiro Comunista: Leia o Artigo na RBEMF

Poucas profissões são mais estigmatizadas senão a minha de banqueiro, em particular, sou mais por ser comunista! Sempre fui retratado como uma figura mesquinha, gananciosa e desalmada. Shylock, personagem central de “O Mercador de Veneza”, peça teatral de Shakespeare, é visto como meu arquétipo.

Arquétipo é um conceito da Psicologia, utilizado para representar padrões de comportamento associados a um personagem ou papel social. Esse conceito foi desenvolvido por Carl G. Jung.

Para ele, os arquétipos estão no inconsciente coletivo e por isso são percebidos de maneira similar por todos. São uma herança psicológica, resultante das experiências de milhares de gerações de seres humanos no enfrentamento das situações cotidianas.

As imagens dos arquétipos são encontradas em mitos, lendas, na literatura, nos filmes e aparecem nos nossos sonhos de enriquecimento. Vou aqui explicar o meu arquétipo, O Banqueiro Comunista.

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Partido dos Trabalhadores e/ou Partido dos Evangélicos

O Partido dos Trabalhadores (PT) é igual e oposto ao Partido dos Evangélicos (PE)? São dois partidos políticos no sentido de serem instrumentos para ações coletivas em busca de poder republicano em um Estado constitucionalmente laico?

Tinham o mesmo número de simpatizantes, segundo a Datafolha anterior, porém, o PE percentualmente tinha menos trabalhadores e mais crentes entre os 10% mais ricos em renda familiar mensal no Brasil. Na pesquisa feita em 18.08.22 houve elevação do número de eleitores simpatizantes do PT para 42,2 milhões frente aos 39,1 milhões de crentes. Mas 1/5 dos evangélicos são simpatizantes do Partido dos Trabalhadores.

A Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, em 17/04/2019, tinha 202 deputados e 9 senadores. Tinha deputados de 19 partidos, inclusive 4 eram do PT, comprovando ocupar diversos espaços institucionais.

Embora chamada de evangélica, ela inclui parlamentares com fé católica, espírita ou ainda quem não assume nenhuma religião. O Partido Liberal (PL), partido atual do presidente passageiro, tem a maior representatividade, com 42 parlamentares. O Republicanos, vinculado à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), e o Partido Social Democrático (PSD), vêm em sequência, com 29 e 28 signatários, respectivamente.

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