Com Partido versus Sem Partido

Em pesquisa espontânea, segundo Datafolha (15/09/21), 38% ainda não sabem em quem votará e 10% preanunciam votar branco/nulo. Para comparar: o percentual de votos brancos e nulos, no segundo turno da eleição presidencial em 28/10/2018, foi de 9,6%, o maior já registrado na história brasileira após a ditadura militar.

A soma dos votos nulos e brancos com as abstenções (não comparecimento às urnas) foi de cerca de 42,4 milhões (30,9%), ou seja, 104,7 milhões votaram: 55% no eleito e 45% no Fernando Haddad (PT). Com apenas 5,351 milhões de votos a mais, entre os inválidos, o candidato do PT venceria. 

Na pesquisa para primeiro turno, na eleição do próximo ano, Lula supera o candidato sem partido (segundo colocado) em todos os quesitos: gênero, idade, escolaridade, faixas de renda, regiões, Estado de São Paulo, regiões metropolitanas e interior, religião, cor e orientação sexual. Só não o supera na religião evangélica (34% X 38%) e nas duas faixas de renda mais altas, embora tenha mais do dobro (54% X 20%) na faixa menor renda (abaixo de 2 salários mínimos: SM), onde está 51% do eleitorado e 37% X 31% na faixa 2-5 SM com 35%, ou seja, vence no decisivo 86% mais pobres. 

Entre os mais ricos, fica abaixo (25% X 42%) na classe média alta [5-10 SM] e na faixa mais rica (23% X 42%). Porém, os pesos dessas são, respectivamente, 7% e 3%, representando só 10% do eleitorado. 

Por isso, é necessário qualificar quando se afirma “o apoio dos ricos leva à vitória eleitoral”. Isto era mais relevante quando o financiamento das campanhas era realizado com recursos de Pessoas Jurídicas, mas diminuiu com a permissão de apenas haver financiamento eleitoral de Pessoas Físicas. 

A “beleza da democracia” é a soberania ser exercida pelos votos do povo. A massa popular opta, periodicamente, pela alternância de poder.

Continuar a ler

Democracia Eleitoral contra Mau Governo

Na Tradição Aristotélica, o Poder Paternal vem da Natureza e se exerce pelo interesse dos filhos. O Poder Despótico cria antagonismo para associar e defender “os amigos” e desagregar e combater “os inimigos”, em vale-tudo pelo interesse do tirano.

O Poder Político, ao agir pelo interesse de quem governa e de quem é governado, ocorre apenas nas formas corretas de Governo. Nas viciadas, o poder só é exercido em benefício dos governantes.

O Poder Político se diferencia do Poder Paternal e do Poder Despótico por se basear no consenso democrático – e não apenas no interesse dos governantes. Esta é a distinção entre mau e bom governo. Por isso, a péssima avaliação do atual (des)governo no Brasil.

Superando essa tradição, isto é, mantendo o positivo e afastando o negativo, outros discursos políticos dividiram o mundo em sujeito ativo, em um polo, e sujeito passivo em outro. Assim, o Poder Econômico coloca ricos contra pobres por conta da abundância versus a penúria.

O Poder Político contrapõe fortes e fracos.
O primeiro baseia-se na posse de armas para exercer a força física como poder de coerção pela realidade objetiva.

Continuar a ler

Povo elegerá Lula no Primeiro Turno

Como tinha feito na pesquisa de intenções de votos do Datafolha em junho, fiz uma análise também da pesquisa divulgada na semana passada (15.09.21). Descobri algo surpreendente: a diminuição da classe de renda mais pobre. Por qual razão? Como não tem justificativa, só posso levantar hipóteses. Veja em “tela cheia” o trabalho completo em arquivo PowerPoint:

Fernando Nogueira da Costa – Números de Votos ou Fatores Eleitorais 15.09.2021

Aliás, em função de sua divulgação, fui convidado para o comentar em um programa no canal no YouTube da TV 247, no dia 24/09/21. Veja na gravação acima, aproximadamente a partir dos 45 minutos: https://www.youtube.com/brasil247

Um dos erros comuns na análise da “história do futuro” é extrapolar a “previsão do passado”. De acordo com a Neuroeconomia, nós, seres humanos, não temos nenhuma sensibilidade para o crescimento exponencial ou porcentual. Temos de usar a calculadora ou, para taxas de crescimento pequenas, o truque da duplicação no tempo.

Esse truque é dividir o número 70 pela taxa de crescimento em porcentagem. Alguns exemplos o deixará compreensível. A inflação está crescendo 10% a cada 12 meses. Afinal, o que são 10% ao ano?

Calcule, rapidamente, a duplicação no tempo: 70 / 10 = 7 anos. Em 7 anos, a moeda nacional terá apenas a metade do valor, ou seja, o estoque de riqueza não corrigido perderá 50% de seu poder aquisitivo.

Os juros compostos crescem 7% ao ano. Intuitivamente, não entendemos esse dado, mas 70 / 7 = 10 anos.Traduzindo, o alerta é o seguinte: “A riqueza financeira dos ricaços duplicará a cada dez anos”. É alarmante essa desigualdade social!

Finalmente, um último exemplo: a economia necessita crescer 5% a cada ano.Isso não interessa à população? 70 / 5 = 14 anos. Interessa sim, pois “a renda da economia dobrará em 14 anos!”

Continuar a ler

Ponderação e Moderação: Fatores de Eleição São…

Ponderação é a característica da pessoa ao se comportar com reflexão. Ocorre quando há meditação estratégica por parte de quem possui bom senso e age com prudência.

É particularidade daquilo, de fato, importante ou relevante. Verifica a emergência ou a configuração a partir de disputa entre forças oponentes em um sistema complexo.

Em Matemática, é o peso utilizado para aumentar (multiplicar) determinadas grandezas, fazendo as mesmas revelarem maior ou menor relevância. Nas divulgações de pesquisas eleitorais fazem falta as ponderações.

Farei, neste artigo, uma releitura ponderada das últimas pesquisas do Datafolha. É necessário transformar imensas tabelas, divulgadas em pdf, para calcular em Excel. 

Desde logo, a distribuição dos eleitores por faixas de renda familiar mensal é: até 2 SM: 57%; 2-5 SM: 31%. Os “ricos” acima de 5 SM só têm 10% dos votos e 2% se recusam a declarar renda. Esta é a beleza da democracia: alternância de poder decidida por votos da maioria. É quando os pobres se apoderam e os ricos têm de lhes prestar atenção.

Continuar a ler

Autonomia Financeira e Dependência Tecnológica

Confira o Anexo Estatístico no arquivo pdf:

FERNANDO N. COSTA – Autonomia Financeira e Dependência Tecnológica

Ignácio Rangel, em seu livro clássico “A Inflação Brasileira”, publicado em 1963, defendia a implantação plena do capitalismo financeiro no Brasil ser uma necessidade básica para o desenvolvimento do país. Reconhecia a dificuldade da defesa pública de sua tese.

“Não será fácil explicar ao homem da rua todo o nosso desenvolvimento e nossa própria soberania nacional dependerem de ser levado a bom termo o trabalho desses banqueiros com interesse pela indústria ou desses industriais com interesse pelo negócio do dinheiro, entre os quais, devemos destacar o próprio Estado. Ele é o maior banqueiro e, afinal, é o primeiro candidato aos recursos financeiros a serem mobilizados” (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; 1963; página XVII).

Rangel foi precursor em diversos temas. Advogado, ao fazer a conexão entre o Direito e a Economia, leu “O Capital Financeiro” (1911) de Rudolf Hilferding e anteviu o capitalismo financeiro brasileiro como a fusão de capital industrial e capital financeiro.

Hoje, 60 anos após, vemos a gradual ampliação do mercado de capitais no Brasil. Mescla-se com a economia de endividamento bancário. O processo de abertura de capital (IPO) amplia as possibilidades de ofertas subsequentes de ações (follow-on). As empresas não-financeiras capitalizadas têm maior probabilidade de ganhar economia de escala e maior rentabilidade patrimonial com a alavancagem financeira, isto é, uso de recursos de terceiros.

Continuar a ler

BHC: Brasil – Haiti – Cuba

Correlação significa uma semelhança ou relação entre duas coisas, pessoas ou ideias. É uma semelhança ou equivalência existente entre duas hipóteses, situações ou objetos diferentes. No campo da Estatística e da Importação, atemática, a correlação se refere a uma medida entre duas ou mais variáveis relacionadas.

Tem nexos os acontecimentos marcantes, noticiados na semana passada, ocorridos no Brasil, Haiti e Cuba? Uma relação espúria é uma relação estatística existente entre duas variáveis, mas onde não existe nenhuma relação causa-efeito entre elas. Essa relação pode ocorrer por pura coincidência ou por causa de uma terceira variável.

É comum o erro, no jornalismo e na academia, de se apontar uma causalidade entre tudo antecedente e o consequente. É feita a “previsão do passado” com pressuposta linha de causalidade desde uma linha-de-partida imaginada até a linha-de-chegada conhecida. 

O historicismo ex-post (após os fatos transcorridos) aponta uma causalidade hipotética. Porém, daí não se desdobra em uma narrativa da “história do futuro”, quando não há regularidade possível de extrapolação.

No decorrente debate público, chamaram-me a atenção duas hipóteses a serem testadas.

Jaques Wagner (PT-BA) defendeu a diminuição da fragmentação partidária. “Hoje, o Brasil só tem menos partidos se comparado ao Haiti, uma democracia devastada. É impossível conduzir um país com 35 partidos. Temos de trabalhar no sentido de compactarmos os partidos e tornarmos a Presidência pelo menos exequível”.

Maria Rita Kehl, no site “A Terra é Redonda”, escreveu o seguinte no seu artigo “Vai pra Cuba”. “Apesar da pobreza sem ser miséria, não temos de comparar Cuba com o Brasil, mas com o Haiti. Sem o socialismo, Cuba seria um Haiti. Não temos de comparar a população de Havana com a das classes médias brasileiras, mas com a das nossas favelas”.

Continuar a ler

Reacionários contra Fim da Isenção Fiscal de Dividendos

O indivíduo reacionário é contra quaisquer avanços sociais ou políticos. Quando é militante, torna-se adepto de uma ideologia antidemocrática, porque se opõe à democracia.

Esta é o regime político onde a soberania é exercida pelo povo. Os cidadãos são os detentores do poder e confiam parte desse poder ao Estado, preferencialmente, via Poderes Republicanos – e não o Poder das Armas –, para responder à demanda social.

Quem é reacionário sempre se opõe às quaisquer reformas progressistas em favor do povo, por exemplo, uma reforma na estrutura tributária regressiva brasileira. Nela, em comparação à renda, os pobres pagam proporcionalmente mais impostos em relação aos pagos pelos ricos ao comprar os mesmos bens.

Quase ½ da arrecadação tributária (43%) advém de impostos sobre bens e serviços, por exemplo, ICMS. A carga tributária sobre a folha de salários representa 28% sobre a total, sobre renda 22%, sobre a propriedade 5% e sobre transações financeiras 2%.

A carga tributária bruta em 2019 foi 33% do PIB, descontando-se as transferências para Previdência e Assistência Social, além dos Subsídios ao capital (18%), a primeira carga líquida se reduz para 15%. Descontando-se dela as despesas com juros pagos pelo endividamento público (5%), a segunda carga tributária líquida, para arcar com os serviços públicos, era 10% do PIB.

A carga tributária média em países da OCDE em 2018 era 34,3%. Sobre a renda, lucro e ganho de capital era 11,4%, enquanto a do Brasil era 7%, acima apenas da Estônia também com isenção de dividendos; sobre folha de salários (inclusive contribuições para Previdência Social) era 10% contra 9% no Brasil; sobre propriedade 2% contra 1,5% no Brasil. A carga tributária da OCDE só estava abaixo da do Brasil na regressiva sobre bens e serviços: 11% contra 14,3%. A mais elevada é a da Hungria, onde também preside um populista de direita conservador.

Pelas DIRPF2020-AC2019 (veja tabela acima), 1,1% dos declarantes brasileiros têm mais de 50% de rendimentos isentos. Eles se situam nas faixas acima de 60 salários mínimos mensais e têm bens e direitos per capita progressivamente superior a R$ 2 milhões. No topo da pirâmide de renda e riqueza, 26.162 declarantes (0,1%) atingem R$ 69 milhões acumulados e recebem rendimentos per capita mensal de R$ 1,3 milhões.

Continuar a ler

Inovação Disruptiva na Vida Profissional-Pessoal

Inovação Disruptiva é a destruição criativa com invenção, adoção de uma possibilidade tecnológica ainda não tentada, novos produtos ou novas fontes de matérias primas. Os indivíduos empreendedores são aqueles capazes de mobilizar capital, avaliar projetos, administrar riscos, monitorar a gestão, fazer bons negócios, redirecionar os recursos de velhos para novos canais.

Com crédito farto e barato e um ambiente de negócios com direitos de propriedade, livre-comércio e câmbio estável garantidos, terá alavancagem financeira de seu negócio. Seu novo lucro operacional estará acima das despesas financeiras com o endividamento e elevará a rentabilidade patrimonial sobre seu capital próprio.

Essas são as três ideias-chaves do Joseph Schumpeter (1883-1950). Explicam o dinamismo sistêmico do capitalismo. Possibilitam uma reflexão sobre a vida econômica.

Outras ideias-guias foram encontradas pela Economia da Felicidade. Dinheiro e prestígio ou poder acabam no topo do sistema pessoal de valores, à frente da família e dos amigos, de modo equivocado. Quem prioriza o dinheiro, para consumir todos os bens, faz escolhas equivocadas de modo sistemático.

Trazem mais felicidade os relacionamentos afetivos com outras pessoas. O sentimento de fazer algo de útil ou altruísta (amor ao próximo ou ausência de egoísmo) vem em seguida. De acordo com circunstâncias penosas, isto é, quando as perdemos, verificamos quanto são também cruciais a liberdade e a saúde.

Os economistas da felicidade só desejam afastar a atitude da busca cega de riqueza para a melhoria das condições de vida reais. Felicidade se produz com atividades diversas, viver em sociedade com fraternidade, concentração no aqui-e-agora, ter expectativas realistas e bons pensamentos, além de não exagerar na busca da felicidade. A felicidade cotidiana, na realidade, se encontra no trabalho criativo e não alienante.

É uma argumentação equivocada tratar a felicidade como uma simples sensação privada, sem uma ligação intrínseca a viver bem. Devemos nos preocupar com a vida boa – e deixar a felicidade surgir por si mesma em certos momentos.

Continuar a ler

Concentração da Riqueza Financeira desde o Golpe

Nós, adeptos do social-desenvolvimentismo, teremos de lidar com uma outra realidade financeira, a partir de 2023, caso Lula seja eleito e tome posse, superando a ameaça de golpe paramilitar-miliciano. Seremos capazes de fazer o tempo retroceder?! 

Então, é bom “já ir” (sic) acostumando a lidar com a transição em direção a uma mesclagem da “velha” economia de endividamento público com a “nova” economia de mercado de capitais. Os direitos de propriedade ou concessões de serviços de utilidade pública, adquiridos durante o processo de privatização, não serão revertidos.

Por isso, temos de entender muito bem como funcionará a economia de mercado de capitais misturada com a economia de endividamento público e bancário. Por exemplo, elaborei uma tabela com a mudança de portfólio dos clientes do segmento Private Banking.

Os 121.100 ricaços brasileiros possuíam R$ 1,7 trilhão em riqueza financeira em abril de 2021. O saldo per capita era R$ 14 milhões.

Em dezembro de 2015, véspera do golpe, tinham per capita R$ 6,5 milhões. No fim do governo golpista temeroso, já tinham R$ 8,9 milhões per capita. Portanto, desde então, cada qual somou mais de R$ 5 milhões nos últimos 28 meses!

Continuar a ler

Financês

Charlatões agem como se tivessem algum conhecimento. Aprenderam a se apresentar, aparentemente, como os sábios.

Conta-se uma estória para ilustrar. Um motorista de um ganhador do Prêmio Nobel da Química o acompanhava em uma turnê de palestras. Depois de assistir uma série delas, ele lhe disse já ser capaz de o substituir no palco, pois ele dizia sempre a mesma coisa. O acadêmico aceitou a proposta, pegou o boné de seu motorista e sentou na plateia.

Foi tudo bem até abrir o debate. Na primeira pergunta capciosa, o motorista respondeu: – Eu me admiro de você se dirigir a mim com uma pergunta cuja resposta até meu motorista sabe! Responda aí, fulano!

O charlatanismo no mercado financeiro exige apenas o conhecimento de algumas palavrinhas-mágicas do “financês”. Pronunciando-as, você não será entendido pelos leigos, mas será visto como sério candidato ao cargo de economista-chefe de um banco de negócios, quanto mais se tiver circulado pela porta-giratória do Banco Central do Brasil.

Continuar a ler

Priva-te de Private

Privar é impedir ou tirar alguma coisa de alguém, por exemplo, privar um cidadão de seus direitos civis. Significa também estar em convivência íntima ou conviver, como é o caso de ricaços privar da intimidade dos governantes. Em contrapartida, dá a ideia de “impor-se privações” ou abster-se.

Abstinência é o ato de se privar de alguma coisa, em prol de algum objetivo, por exemplo, abstinência de alimento por razão de crise de desemprego. É uma decisão, muitas vezes forçada, capaz de fazer o indivíduo abrir mão de algo essencial, como também de dispensável como beber, fumar ou consumir drogas.

As alterações físicas e psicológicas causadas pela abstinência são conhecidas como síndrome de abstinência. Ela é caracterizada por sintomas como mal-estar, ansiedade, irritabilidade, hipertensão, insônia, náusea, agitação, taquicardia, etc.

Com mais de um ano de pandemia e distanciamento humano, os sobreviventes estão sob alta pressão, sofrendo distúrbios emocionais. Nunca foram tantos os relatos de ansiedade e depressão por excesso de trabalho, chamado de burnout [esgotamento], entre os profissionais.

A importância de zelar pela saúde mental dos colaboradores tem de ser internalizada pelos empresários, assim como a segurança física dos trabalhadores. A incidência de acidentes de trabalho caiu quando entenderam a necessidade de preveni-los, até para evitar prejuízos materiais. Agora, os casos de estresse e depressão já́ são a segunda causa de pagamento de auxílio-doença.

Continuar a ler