Comparação entre Individualismo e Holismo Metodológico

No meu livro recém-lançado, Complexidade Brasileira: Abordagem Multidisciplinar (baixe-o em:  https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2018/12/13/livro-para-download-gratuito-complexidade-brasileira-abordagem-multidisciplinar/), adoto uma visão holista (ou holística): abordagem, no campo das Ciências Humanas e Naturais, cuja prioridade é o entendimento integral dos fenômenos. Tomo-a em oposição ao procedimento analítico no qual os componentes de um sistema são tomados isoladamente – e não em interações. A abordagem sociológica e política da economia brasileira, no caso do meu livro, parte da sociedade global e não do indivíduo.

E daí? Qual é a implicação dessa diferença metodológica na tomada de decisões práticas?

Talvez um exemplo real seja mais esclarecedor em lugar do uso de muitas palavras ou conceitos abstratos. Dois professores titulares das universidades estaduais paulistas, um médico na USP, outro economista na UNICAMP, portanto, com o mesmo salário expropriado pelo redutor-constitucional do governador de São Paulo, tomaram decisões distintas em junho de 2015. O primeiro comprou um apartamento para investimento (61 m2), na Vila Madalena – São Paulo, por R$ 550.000,00.

Desde abril ele pesquisava a oportunidade: a variação do Índice FIPEZAP indicava os preços dos imóveis terem se elevado 29,05% de junho de 2012 até aquele mês, superando a variação do CDI no período de 28,8%. Além disso, seus colegas, os amigos e o cunhado contavam vantagens sobre seus investimentos imobiliários. Não desconfiou de, geralmente, as pessoas se vangloriarem dos ganhos e omitirem as perdas. Continuar a ler

Conflitos e Alianças entre Castas

O Movimento Integralista foi fundado por Plínio Salgado quando, no dia 7 de outubro de 1932, lançou um manifesto à nação. Na sua primeira afirmação, quanto à concepção do universo e do homem, diz: “Deus dirige os destinos dos povos, o Homem deve praticar sobre a terra as virtudes que o elevam e o aperfeiçoam. O Homem vale pelo trabalho, pelo sacrifício em favor da Família, da Pátria e da Sociedade”. Definiu a trilogia marcante de toda a trajetória do movimento fascista tupiniquim: Deus, Pátria e Família.

O culto de Deus, da Pátria e da Família se alongou até a TFP, registrada como Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. É uma organização civil de inspiração católica tradicionalista, fundada no Brasil em 1960 pelo professor catedrático, deputado federal Constituinte em 1934, escritor e jornalista paulista Plinio Corrêa de Oliveira. Ela é pautada na tradição católica e no combate às ideias maçônicas, socialistas e comunistas. Foi ativista em favor do golpe militar de 1964.

Foram membros destacados da TFP alguns herdeiros da dinastia monarquista Orléans e Bragança. Em 2019, assumirá Luiz Philippe Maria José Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orléans e Bragança, herdeiro e ativista de extrema-direita, como deputado federal pelo estado de São Paulo. Paradoxalmente, foi eleito na eleição republicana de 2018 (aquela do Whatsapp) pelo Partido Social Liberal (PSL), com 118 457 votos.

O presidente eleito batizou a coligação PSL-PRTB de sustentação de sua candidatura à Presidência de “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. O slogan não faz menção ao fato do Estado brasileiro ser laico. É outro paradoxo porque, após a proclamação da República pela casta dos militares, em 15 de novembro de 1889, contra aquela dinastia monarquista, Ruy Barbosa redigiu o Decreto 119-A, de 7 de janeiro de 1890, separando o Estado e a Igreja Católica Romana no Brasil.

O lema “Ordem e Progresso” na bandeira do Brasil é inspirado pelo lema positivista: “Amor como princípio e ordem como base; o progresso como meta“. O positivismo de Auguste Comte influenciou a alta oficialidade do exército e alguns membros da burguesia brasileira, participantes do movimento republicano no final do século XIX.

Declarações do capitão reformado explicitam sua hierarquia de valores. Em primeiro lugar, coloca a família ou o clã Bolsonaro. Depois, quando os filhos vão para o primeiro aparelho de socialização, a escola deve ser sem partido (e gêneros), e com as mesmas ideias religiosas impostas pela família de origem sem diversidade. Escola com ciência não teria sentido porque a Bíblia já diz tudo necessário a saber. Daí parte para a rígida hierarquia militar, quebrada por colocar generais a seu serviço no ministério. “Brasil acima de tudo” se refere à ideologia de coesão nacional e “Deus acima de todos” coroa sua postura contra o laicismo. Um gaiato explicitaria o implícito: “acima disso tudo só os United States!”. Continuar a ler

Complexidade Brasileira: Baixe o Livro

Em destaque

Em 2018, tirei Licença-Prêmio e todas as férias vencidas e acumuladas ao longo dos meus 33 anos como professor do IE-UNICAMP. Dediquei-me a participar do debate público-eleitoral em sites como o Jornal GGN, Brasil Debate e Carta Maior, além deste blog pessoal (Cidadania & Cultura), ao escrever posts analíticos da conjuntura econômica e política.

Além dessa atividade, minha prioridade neste ano foi organizar três livros para publicação. Um foi impresso pela Editora Contexto (“Métodos de Análise Econômica”) com organização de minhas crônicas econômicas por ordem de abstração. Compre com desconto (R$ 50,92) em: Editora Contexto – Métodos de Análise Econômica.

Outros dois foram publicados, gratuitamente, de modo eletrônico como e-books em pdf e epub. Um deles foi o “Ensino de Economia na Escola de Campinas: Memórias”, disponível em: http://www.eco.unicamp.br/index.php/50-anos/473-ensino-de-economia-na-escola-de-campinas-memorias.

Outro, “Complexidade Brasileira: Abordagem Multidisciplinar”, foi recém lançado, também para download gratuito, uma nova tendência face à crise das livrarias e editoras brasileiras. Tem a finalidade de ainda participar, no rescaldo da luta político-eleitoral, do debate da resposta à pergunta-chave do Renato Russo (vocalista da Legião Urbana): “que País é este?!”.

Você poderá baixá-lo, clicando em: https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2018/12/13/livro-para-download-gratuito-complexidade-brasileira-abordagem-multidisciplinar/ Continuar a ler

Riqueza Familiar como Fonte de Financiamento de Infraestrutura

Obs.: em 2018, vem sobressaindo os papéis voltados para infraestrutura (18,7%), decorrentes das emissões das debêntures incentivadas, e aqueles relacionados a investimento ou aquisição de participação societária, que registraram uma parcela de 9,2%, a maior participação destes títulos no total das emissões desde 2015.

O volume captado das debêntures de infraestrutura através da Lei nº 12.431, alcançou R$ 21,6 bilhões até outubro, contra R$ 8,7 bilhões no mesmo período do ano passado. As pessoas físicas, investidores com isenção de imposto de renda nessas aplicações, apresentaram uma menor participação e adquiriram 18,1% do volume total, contra 39,2% no mesmo período em 2017. Os intermediários e demais participantes ligados à oferta são os maiores subscritores destes papéis, com 45%. Este movimento de subscrição é recente. Em 2017, até outubro, esses participantes detinham 29,3% do volume ofertado.

Em síntese, os bancos ofertantes de “garantia firme” nas operações estruturadas de  lançamento primário de debêntures de infraestrutura colocam 45% em carteira própria (como alternativa ao crédito corporate), 37% em carteiras de administração de recursos de terceiros (fundos), e apenas 18% para Pessoas Físicas de alta fortuna.

Participei da banca julgadora da Tese de Doutorado, Investidores Institucionais Locais, Novos Padrões de Acumulação de Riquezas e Alternativas ao Financiamento de Infraestrutura, ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Econômico do IE-UNICAMP por Guilherme Nogueira Lopes, cujo orientador foi meu colega Prof. Dr. Francisco Luiz Cazeiro Lopreato. Quando me deparo com uma tese com 320 páginas, eu me lembro de um aforismo sem juízo: “ser academicista é acreditar em acumulo ser aprofundamento e chatice ser precisão”. Continuar a ler

Impessoalidade no Trato da Coisa Pública

Só fui aprender esse termo jurídico – “impessoalidade”: qualidade, caráter ou condição de impersonalidade– quando estive em Brasília na alta administração de um banco público, a vice-presidência de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal, entre janeiro de 2003 e junho de 2007. Eu antes o entendia como a ausência de originalidade ou banalidade.

Aí está uma contradição no próprio termo: todo eleito como presidente quer, pelo contrário, deixar “sua marca na história do Brasil”. Em princípio, deseja sua personalidade ser reconhecida pelas próximas gerações. E não ser jogado na “lata-de-lixo da história”, onde encontrará muitos antecessores.

Nem sempre o eleito (e muito menos o nomeado) é um estadista. Este é uma pessoa versada nos princípios ou na arte de governar. É pessoa ativamente envolvida em conduzir os negócios de um governo ou moldar a sua política como um verdadeiro homem de Estado. Exerce liderança política com sabedoria e sem limitações partidárias.

Outra contradição é esta: os militantes partidários de sua campanha, em geral, almejam uma “boquinha” poderosa, senão se locupletar, ou seja, se tornar rico ou mais abastado, pelo menos enriquecer a família, o clã e/ou sua dinastia. O nepotismo é o favoritismo pelo poder público para com parentes. O familismo brasileiro acha justo, quando alcança aquilo visto como o maior Poder da República, deixar de ser republicano!

Visa, muitas vezes, apenas tornar-se cheio de riquezas. Cumular, encher-se, abarrotar-se de dinheiro público – ou de dinheiro privado em nome de “troca de favores”. Continuar a ler

Viés da Auto Atribuição de Riqueza

Compare os dois imóveis anunciados acima, ambos com o valor de R$ 60 milhões à vista — epa, a ilha é um tiquinho mais barata, vou comprá-la! –, porém, o apartamento na Avenida Vieira Souto em Ipanema-RJ só tem 590 m2 de área útil e a ilha em Angra dos Reis mais 16 edificações têm mais de 2.000 m2 de área construída. Qual valor você atribuiria à cada qual? É um bom exemplo como valores subjetivos ou emocionais são influentes nas precificações.

Escrevi artigo a respeito, postado originalmente em:

https://jornalggn.com.br/noticia/vies-da-auto-atribuicao-de-riqueza-por-fernando-nogueira-da-costa

Em 2017, o rendimento médio mensal domiciliar per capita no país foi de R$ 1.511, ou seja, em família típica de 3 pessoas seria R$ 4.533 o ponto central da classe média de renda.  As menores médias foram no Nordeste (R$ 984) e Norte (R$ 1.011), regiões onde quase metade da população (respectivamente, 49,9% e 48,1%) tinha rendimento médio mensal domiciliar per capita de até meio salário mínimo. Estas são algumas informações da Síntese de Indicadores Sociais 2018, publicada na primeira semana de dezembro.

Em 2017, os 10% das pessoas com os maiores rendimentos (de todas as fontes) do país acumulavam 43,1% da massa total desses rendimentos, enquanto os 40% com os menores rendimentos detinham apenas 12,3%. Esse estrato do topo concentrava 3,51 vezes mais rendimentos do que a base, razão conhecida como o Índice de Palma. Nessa mesma comparação, o Distrito Federal foi a unidade da federação mais desigual, onde os 40% das pessoas com os menores rendimentos acumularam 8,4% da massa e os 10% das pessoas com os maiores rendimentos detinham 46,5%. Em 2017, a razão entre esses dois valores chegou a 5,57 no DF, e superou as outras 26 unidades da federação.

Entre os 10% mais ricos, em 2017, entre 90% e 95% o rendimento médio mensal real de todos os trabalhos era R$ 5.214, entre 95% e 99%, R$ 9.782, e no top 1% mais rico, R$ 27.213. Vamos arbitrar essas serem as rendas, respectivamente, da classe média (ou varejo tradicional), classe média alta (ou varejo de alta renda) e ricos. Os ricaços (do segmento de clientes bancários Private Banking) são 123.370 CPFs, cada qual com a riqueza financeira per capita de R$ 8,466 milhões em setembro de 2018. Fazem parte de 58.258 grupos familiares, cada qual com quase 18 milhões de reais em saldo médio.

A classe média pode ser vista como composta pelos 7,5 milhões clientes do varejo tradicional. Cada um tem em média pouco mais de R$ 46 mil reais em investimentos financeiros. A classe média alta, isto é, os 4 milhões clientes do varejo de alta renda possuíam, em média per capita, pouco mais de R$ 181 mil. Continuar a ler

Distopia Brasileira

Ano de 2022. Os Estados Unidos do Brasil comemoram ter trocado as 27 estrelas de sua bandeira por apenas uma. Não cabia a 51ª. estrela na dos Estados Unidos da América. Oficialmente declarado Estado Livre Associado do Brasil, tal como Porto Rico, passou a ser um território não incorporado dos Estados Unidos das Américas (acrescentado), localizado na América do Sul. Acima da Pátria, só Deus – e acima de todos os EUA. Abaixo os 200 anos de independência! Seriam comemorados neste ano…

Seus habitantes não possuem representação no Congresso e nem participam das eleições presidenciais norte-americanas. Ao mesmo tempo, os brasileiros ganharam o status de cidadãos norte-americanos, sujeitos ao serviço militar e às leis federais, porém, têm o impedimento de lá trabalhar, dado o excesso de latinos em disputa de vagas de trabalho manual mal remunerado.

Dentro do acordo de servidão voluntária, o governador brasileiro continuará a ser nomeado para um mandato de quatro anos, escolhido na dinastia estabelecida pelo clã Bolsonaro. Garantidos pelo menos mais três mandatos, o único dissidente deste regime evangélico-militar foi o midiático ministro da Justiça, dado seu projeto de ser tornar governador desta nova colônia norte-americana. Certamente, um providencial encarceramento na República de Curitiba o levará à voluntária autocrítica.

De 2018 a 2022, a política brasileira foi dominada por um partido defensor da associação voluntária com os EUA. O PSL, favorável à transformação do Brasil em estado norte-americano, ganhará em troca pelo menos mais três nomeações para governador. Aliás, o sistema partidário é uma excrescência, dada a demasiada quantidade de partidos, foi fragmentado em excesso, tornou-se uma superfluidade. Desequilibra a harmonia de um todo dominado pelas quatro bancadas de interesses (BBBB) sem fidelidade partidária.

Desde a campanha de 2018, o projeto foi apresentado, de maneira límpida, tornando desnecessária a perda de tempo em debatê-lo: criar um quadrúpede chamado Brasil apoiado por quatro patas. Para ganhar a eleição, as duas patas dianteiras: bíblia e bala, tendo na retaguarda o boi e a banca. Para governar, trocam de posições, ficando na linha-de-frente o agronegócio e os bancos de negócios, e colocando o projeto sob a garantia ou do evangelismo ou do armamentismo. As quatro bancadas foram contempladas em seus interesses corporativos via nomeações. Continuar a ler