Bitcoin: Nova Forma para Velha Especulação

A visão liberal da história enxerga qualquer moeda apenas como uma mercadoria a mais, escolhida segundo critério de comodidade e/ou segurança por um sistema econômico auto regulável, sem a arbitrária intervenção estatal. Assim, a história monetária se reduziria à pesquisa das distintas características essenciais ou requisitos físicos da moeda-mercadoria.

Nesse sentido, essa visão se confunde com a numismática, isto é, a ciência que se ocupa das moedas. Numisma é a moeda cunhada por senhores feudais, daí a etimologia da expressão “senhoriagem”: tributo que se pagava como reconhecimento de um senhorio. Referia-se ao direito que o concessionário da cunhagem da moeda pagava ao soberano. Na época contemporânea, se transformou na diferença entre o valor real – poder aquisitivo de fato – e o valor nominal da moeda: aquele com que o Estado emissor paga seus funcionários e fornecedores.

Na verdade, os atributos físicos requisitados para ser uma moeda pouco importam para nos entendermos sua essência. Por exemplo, a pedra-moeda, na Ilha de Yap, na Micronésia, não oferecia muita facilidade de manuseio e transporte como ocorre quando pequena quantidade corresponde a grande valor. Esculpia-se a moeda e a fincava na terra como símbolo de riqueza atribuída pela comunidade aos detentores.

Obs.: há legenda em inglês ou espanhol, clicando no canto direito inferior.

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Métodos de Análise Econômica – Parte III

Experiências Didáticas como Professor: 

Métodos de Análise Econômica – Parte I

Métodos de Análise Econômica – Parte II

Métodos de Análise Econômica – Parte III

Aprendizagem Proativa

Economia Interdisciplinar e Riqueza Imobiliária

Nas seguidas experiências didáticas, dentro do curso sobre Métodos de Análise Econômica, acrescentamos a economia aplicada e o uso de indicadores macroeconômicos. Antes já tínhamos apresentado a estratégia social-desenvolvimentista com a política social ativa e os investimentos em economia do petróleo.

Fizemos reflexões sobre a história do financiamento do desenvolvimento da economia brasileira para avaliar o potencial do capital de origem trabalhista no capitalismo de estado neocorporativista no Brasil. Contrapusemos o conceito de funding (composição passiva de financiamento) à ideia ortodoxa de necessidade de poupança prévia ao investimento.

Enfrentamos o debate com a ortodoxia sobre poupança: por que é tão baixa na economia brasileira? Ora, desde que ela se tornou rastejante, pelos curtos voos-de-galinha, abatidos em plena decolagem pela política de stop-and-go da Autoridade Monetária, o ritmo de crescimento da renda não supera muito a evolução do padrão de consumo dos brasileiros tão diversos entre si. É simples assim.

Mas creio que o curso ficou mais “redondo” quando o tornei mais prático, focalizando métodos e instrumentos de análise de conjuntura econômica através de indicadores de instituições nacionais e multilaterais. Baseie-me na experiência que obtive quando, no início de minha carreira profissional (1978-1985), trabalhei por sete anos no IBGE, para transmitir meu conhecimento de fontes de informações e uso de banco de dados. Continue reading “Métodos de Análise Econômica – Parte III”

Métodos de Análise Econômica – Parte II

O Ensino de Ciência Econômica, depois de sua depuração, ocorrida ao longo do século XX, afastou-se das Ciências Humanas e Sociais Afins. Foi uma vã tentativa de ganhar status científico com seu uso da linguagem matemática das Ciências Exatas. Separou-se em Microeconomia e Macroeconomia. A primeira trata das decisões dos agentes econômicos, a segunda, da resultante sistêmica dessas diversas decisões. Porém, hoje, necessita reconstituir-se e transitar da formação de profissionais especialistas para a de generalistas, retomando a metodologia interdisciplinar inicial.

Está sendo retomado o caráter multidisciplinar do conhecimento dos primórdios da Economia Política ao se empenhar em conhecer o comportamento humano na tomada de decisões econômicas de comprar, vender ou investir. Áreas distintas da Ciência estão somando esforços e recursos para estruturar a área de pesquisa destinada a cumprir essa tarefa: a Neuroeconomia.

Meu objetivo, na segunda vez que ofereci a disciplina Métodos de Análise Econômica, foi debater essa evolução científica. Queria que os alunos entendessem como as teorias econômicas ortodoxas se desdobraram a partir de uma metodologia abstrato-dedutiva. Sempre foram questionadas pela rival metodologia histórico-indutiva. Hoje, a fronteira dos economistas é o reconhecimento da complexidade interdisciplinar de seu objeto. Discuti com os estudantes o método didático propício a aprender tal complexidade, buscando o interesse desta geração nativa digital.

Analisamos os métodos de partição da realidade – O Todo – em alguns conceitos e teorias básicos, pela ordem, da Política, da Sociologia e da Psicologia. Conhecemos as metodologias das Ciências Afins à Ciência Econômica com a verificação da possibilidade de reincorporá-las (ou não), ao final, em uma análise multidisciplinar, macrossocial, sistêmica e estruturalmente complexa, com fundamentos em Psicologia Econômico-Comportamental, Sociologia Econômica e Darwinismo Econômico. Continue reading “Métodos de Análise Econômica – Parte II”

Métodos de Análise Econômica – Parte I

O portal do IE-UNICAMP pode ser aproveitado também como um espaço de compartilhamento de experiências didáticas entre seus professores, socializando o conhecimento a respeito com todos os colegas lusófonos. Nesse sentido, neste post, quero narrar meu aprendizado no curso de Métodos de Análise Econômica na graduação desse Instituto.

Sim, aprendizado, pois tenho comigo que o bom curso é aquele em que a gente, isto é, o professor aprende junto aos alunos. Aliás, desconfio que prossigo dando aulas por causa desse fator motivacional: eu aprendo o que ensino, antes e durante o curso, com as leituras prévias e as interações com os estudantes. Em síntese, o melhor método de aprendizagem é ensinar! Por isso as más línguas (práticas) dizem que, “quem sabe, faz, quem não sabe, ensina”

Fui convidado a oferecer essa disciplina obrigatória no último semestre na grade da graduação do IE-UNICAMP em 2013. Já acumulei cinco anos de experiência. Cansei da repetição? Não, pois em cada ano incorporei alguma inovação, seja no conteúdo, seja na forma de o ministrar.

Quando me convidou, a coordenadora da graduação me disse que sob esse título se propunha um curso similar ao outrora chamado Política e Planejamento Econômico. Ora, pensei cá comigo, planejamento perdeu mesmo o prestígio a ponto de deixar de nomear uma disciplina para futuros economistas… Continue reading “Métodos de Análise Econômica – Parte I”

Cadeia Produtiva e Rede de Relacionamentos do Agronegócio Brasileiro

Como blogueiro generalista, sempre tive ânsia de conhecimento a respeito da dimensão efetiva do agronegócio brasileiro. Será que, de fato, “agro é tudo”, como afirma a propaganda televisa? Será que tem lastro econômico a força congressual da bancada ruralista com 207 deputados? A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) é uma das maiores e mais organizadas bancadas da Câmara dos Deputados com tamanho cerca de três vezes maior do que qualquer um dos grandes partidos políticos.

Perguntava a meus colegas especialistas em agropecuária qual era o tamanho da agroindústria e eles estimavam até em 42% do PIB. Eu, como bom mineiro, desconfiava da veracidade dessa estimativa que superava a soma do percentual da agropecuária em 2016 (5,5%) e de toda a indústria geral (21,2%), mas eu me calava…

Eu não tinha dúvida que a agroindústria era uma cadeia produtiva estratégica, seja para o balanço comercial, seja para a alimentação da população. A exportação do agronegócio é estimada em cerca de 45% do total brasileiro e a importação em quase 10% (veja quadro abaixo). No acumulado do ano 2017 até outubro, o Balanço Comercial do Agro registrou superávit de US$ 70,2 bilhões, 13% superior ao mesmo período de 2016. O Balanço Comercial Brasileira Total no acumulado dos primeiros nove meses do ano obteve saldo positivo de US$ 58,5 bilhões, ou seja, o superávit do agronegócio compensa o déficit comercial dos demais setores predominantemente importadores.

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Programa Neoliberal de Governo: Mistura Paradoxal

A expressão “contradição em termos” é tradução literal da expressão latina contradictio in terminis. Uma contradição nos próprios termos é uma expressão cuja composição contém elementos que se opõem. Por exemplo, a ideologia do individualismo propor um programa governamental para reger a vida coletiva da Nação.

À primeira vista, o anarquismo é uma teoria política mais radical e coerente do que o liberalismo, pois afirma ser a sociedade uma instituição independente do poder do Estado. Adota uma teoria social e política que não aceita a submissão da sociedade aos poderes governamentais e/ou à autoridade do Estado e uma prática que propõe uma ação coletiva ou movimento social que se opõe, radicalmente, ao governo do Estado.

Já o neoliberalismo econômico defende uma intervenção limitada do Estado no plano educacional e econômico. Ele é uma redefinição do liberalismo político clássico a partir de teorias econômicas neoclássicas.

O neoliberalismo pode ser uma corrente de pensamento e uma ideologia, ou seja, uma forma de ver e julgar o mundo social, ou um movimento político-intelectual organizado, que realiza reuniões, conferências e congressos. Sendo esse movimento militante contrário ao movimento trabalhista, seja socialdemocrata, seja comunista, suas teses foram adotadas pela direita organizada. Individualistas se tornaram direitistas e estão entre os principais defensores das ideias ultraliberais Friedrich A. Hayeck e Ludwig von Mises (Escola Austríaca) e Milton Friedman (Escola Monetarista).

Já apareceu, em pesquisa eleitoral para campanha presidencial do próximo ano, um candidato representante da casta dos guerreiros-militares mais bem posicionado do que os candidatos neoliberais. Embora na extrema-direita ideológica, está sendo abordado, oportunisticamente, por economistas neoliberais. Eles os oferecem um lastro doutrinário favorável ao financiamento de sua campanha eleitoral por gente de O Mercado. Vale então esquematizar, didaticamente, essas (poucas e simplórias) ideias. Continue reading “Programa Neoliberal de Governo: Mistura Paradoxal”

Aprendizagem Proativa

No meu curso de graduação, na FACE-UFMG, eu já criticava o método didático puramente expositivo adotado por professores. Quando tomei conhecimento do Método Paulo Freire, elevou minha consciência a respeito do método “bancário”, aquele que faz depósitos na mente do aluno para tentar sacar nas provas de memorização. O educador Paulo Freire desenvolveu um método para a alfabetização de adultos que alfabetizou 300 cortadores de cana-de-açúcar em apenas 45 dias. O processo educativo se deu em apenas quarenta horas de aula e sem cartilha.

Freire criticava o sistema tradicional de alfabetização, o qual utilizava a cartilha como ferramenta central da didática para o ensino da leitura e da escrita. As cartilhas ensinavam pelo método da repetição de palavras soltas ou de frases criadas de forma forçosa ou fonética, por exemplo, “Ivo (ou Eva) viu a uva”.

As etapas do Método Paulo Freire são três:

  • Primeira, investigação, é a busca conjunta do professor e do aluno das palavras e temas mais significativos da vida do aluno, dentro de seu universo vocabular e da comunidade onde ele vive.
  • Segunda, tematização: é o momento da tomada de consciência do mundo, através da análise dos significados sociais dos temas e palavras.
  • Finalmente, problematização: etapa em que o professor desafia e inspira o aluno a superar a visão acrítica do mundo, adotando uma postura consciente frente a ele.

Na minha primeira experiência docente, no primeiro semestre do meu curso de Mestrado, fui como professor-convidado a Poços de Caldas. O sucesso foi tão grande junto aos alunos rebeldes e o fracasso tão retumbante junto aos conservadores que fui logo convidado a nunca mais voltar à Poços de Caldas! Continue reading “Aprendizagem Proativa”