Capitalização por Juros Nominais Compostos e não por Juros Reais

Costumo ler os artigos de Fernando Torres. São mais técnicos e menos ideológicos se comparados aos demais colunistas. Além de experiência em jornalismo econômico, formado na ECA-USP, com MBA na FIA, ele é mestrando em Contabilidade pela FEA-USP.

No entanto, no artigo “Justiça e Injustiça do Regime Previdenciário de Capitalização” (Valor, 07/03/19), ele se utiliza de um conceito (juros reais, isto é, recebidos acima da inflação) para estimar “quanto uma contribuição mensal de R$ 2,64 mil sobre um salário bruto de R$ 10 mil por mês, aplicado ao longo de 40 anos, e com juro real de 4% ao ano, geraria de estoque de riqueza acumulada para a pessoa: R$ 3 milhões”.

“Quem acumular essa quantia e aos 65 anos se aposentar, tendo ainda expectativa de sobrevida de 19 anos, conforme a tábua atual do IBGE, conseguirá renda mensal de R$ 9,26 mil, em cenário de juros reais de 2% ao ano na fase de recebimento, ou de R$ 12,68 mil mensais, caso conseguisse fazer a reserva render 4% acima da inflação também durante a aposentadoria”. Por que a mudança desse parâmetro para esse outro ciclo de vida individual?

Mas o problema maior não é esse, mas sim a aplicação (usual também por parte de economistas) do conceito de “ilusão monetária”. Ele adverte contra o engano das pessoas quando, em regime inflacionário, interpretam como aumento de seu poder aquisitivo qualquer aumento nominal de juros recebidos. Se ele for expressivo em termos nominais, mas sendo abaixo da taxa de inflação, induz a uma ilusão monetária.

Não é questão de ser heterodoxo, mas sim de rever a aplicação dessa ideia à minha experiência prática. Minha hipótese a ser defendida com argumentos e evidências estatísticas, neste artigo, é o conceito de juros reais não ser tão relevante para um assalariado de renda acima do teto do INSS quanto é o de salário real. Este se refere a um fluxo de renda variável, aquele supostamente simularia o valor presente real do futuro estoque nominal de capital. Continuar a ler

Passado, Presente e Futuro da Humanidade

Durante o carnaval, completei a leitura da trilogia de Yuval Noah Harari. O historiador, com apoio na biologia evolucionária darwinista, nos descreve com clareza o passado (Sapiens), o presente (Homo Deus) e o futuro (21 Lições para o Século 21) da humanidade.

Um modelo linear supõe as espécies da raça humana como dispostas em uma linha reta de descendência e dá a impressão equivocada de sempre apenas um tipo de animal humano ter habitado a Terra. Todas as espécies anteriores foram teriam sido meros modelos mais antigos de nós mesmos. Sem modéstia alguma, nos autodenominamos Homo sapiens (“homem sábio”). Não parecemos ser tão sábios assim…

Porém, entre 2 milhões de anos e 10 mil anos atrás, a ciência comprova o mundo ter sido habitado por várias espécies humanas ao mesmo tempo. Há 100 mil anos foi habitado por pelo menos seis espécies humanas diferentes. A peculiaridade é nossa exclusividade atual e não a multiplicidade de espécies em nosso passado.

Há 150 mil anos a África Oriental era povoada por Sapiens já com nosso tamanho de cérebros. A Teoria da Miscigenação conta uma história de atração, sexo e miscigenação. Quando os imigrantes africanos se espalharam pelo mundo, eles procriaram com outras populações humanas. As pessoas, hoje, seriam o resultado dessa miscigenação.

Uma visão oposta, chamada de Teoria da Substituição, conta uma história de incompatibilidade, repulsa e até mesmo genocídio. Sapiens e Neandertais, entre outras espécies humanas tinham pouco interesse sexual uns pelos outros.  Se cruzassem, não poderiam produzir descendentes férteis. Segundo essa teoria, sapiens substituíram todas as populações humanas anteriores sem se misturar com nenhuma delas. Continuar a ler

Servidor Público

Desde a volta dos neoliberais ao Poder Executivo, devido ao golpe de 2016, os servidores públicos têm sido tratados como fossem “privilegiados”. Atacam as carreiras de Estado. A perseguição política, apelidada de “despetização” por um ex-deputado do baixo clero e ministro no governo do capitão, visa em última análise levar todos ao regime de capitalização. Desestimulará o futuro ingresso de talentos, via concursos públicos, para uma carreira antes promissora em termos de mobilidade social e de estabilidade no emprego, justamente, para evitar demissões motivadas por alternâncias de poder.

Aliás, graças a esses servidores a máquina pública continua a funcionar, apesar dos incompetentes eleitos ou nomeados para cargos políticos de representação. Eles têm know-how (“sabem como”), isto é, um conjunto de conhecimentos práticos adquiridos por formação qualificada e experiência profissional. Mas possuem também o “know-why” (“sabem o porquê”), isto é, conhecem o motivo porque as ações públicas, inclusive fiscais e diplomáticas, são feitas de determinada maneira. Não à toa a ESAF (Escola de Administração Fazendária) e o Instituto Rio Branco se destacam na formação de quadros de excelência, no Brasil, embora o atual ministro de Relações Exteriores seja um “cisne negro” para falsear essa impressão. Ou ele é uma “ovelha negra”?

Na França, uma “grande école” é um estabelecimento de ensino superior, cujo recrutamento de seus alunos é realizado por concurso seletivo disputadíssimo por assegurar a formação de alto nível para quadros do Estado francês. A qualidade da formação dessas instituições confere a seus alunos grande prestígio. Nelas é preparada a maior parte da elite política e científica francesa. Entre seus ex-alunos incluem-se políticos de primeiro escalão e altos executivos de instituições públicas e privadas. As primeiras faculdades desse tipo foram criadas pelo Estado em meados do século XVIII, com o objetivo de fornecer as capacitações técnicas e militares para os altos cargos.

Entre as preocupações do confucionismo estão o saber, a moral, a política e a pedagogia. Conhecida pelos chineses como “ensinamentos dos sábios”, o confucionismo também tem uma continuidade histórica. É considerado uma filosofia, ética social, ideologia política, tradição literária e um modo de vida. Confúcio compila e organiza antigas tradições da sabedoria chinesa e elabora uma doutrina assumida como oficial na China por mais de 25 séculos. Combatido como reacionário durante a Revolução Cultural chinesa (1966-1976), o confucionismo, cuja peça-básica é o amor ao conhecimento, retomou seu papel-chave após as mudanças políticas realizadas por Deng Xiaoping no país. Dá caráter moral a funcionários de Estado, submetidos a rigoroso exame de méritos, para assessorar o governo e os representantes populares.

Aqui, em contraste, o Messias se formou na Academia Militar das Agulhas Negras em 1977. Tornou-se conhecido do público em 1986, quando escreveu um artigo para a revista Veja no qual reclamava dos baixos salários de oficiais militares. Por causa disso, foi preso por quinze dias. Absolvido dois anos depois, ingressou na reserva em 1988 com o posto de capitão, para concorrer à Câmara Municipal do Rio de Janeiro naquele ano. Com votos dos soldados rasos e policiais militares, foi reeleito por seis vezes durante seus 27 anos na Câmara dos Deputados. Ficou conhecido por sua postura corporativista e de extrema-direita ao expressar simpatia pela ditadura militar e a defesa das práticas de tortura. Criou um clã político e virou presidente com discurso de ódio em WhatsApp. Continuar a ler

Quem pergunta demais descobre o que não quer

O czar da Economia pronunciou o título deste artigo. É uma lapidar sentença de um governo moribundo em apenas dois meses.

Foi na posse da mais jovem presidente da história do IBGE, a economista Susana Cordeiro Guerra, 37 anos, inexperiente em gestão de pesquisas estatísticas. Nascida em San Francisco (EUA), foi criada no Rio e pertence a uma família com negócios no ramo imobiliário. Formada na Universidade de Harvard em 2003, Susana fez doutorado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês). Bastou para ser nomeada por um governo do partido do laranjal, ou seja, sem quadros técnicos, o fato dela ser amiga da filha do ministro Paulo Guedes.

Favoritismo e nepotismo: este é o governo do capitão. Nepotismo é um termo utilizado para designar o favorecimento de parentes ou amigos próximos em detrimento de pessoas mais qualificadas. Diz respeito à nomeação para cargos públicos e políticos.

“Quem pergunta demais descobre o que não quer”. O super-ministro não quer “descobrir” o Brasil. Algumas informações sobre a realidade brasileira lhe são inconvenientes. Por exemplo, qual é a fortuna obtida por banqueiros de negócios sem nunca terem adicionado valor produtivo de renda e emprego à economia, só apropriado em transferências de propriedades. Ele ainda não liberou os dados do imposto de renda 2018-AC 2017. É de interesse público, porém, revelar “que país é este”.

O ministro é um reducionista. Reduz temas complexos, desconhecidos por ele, a uma frase “ixxxpiiierta” (à la humor carioca), ou seja, revela uma cultura oral de orelhada. Afirmou “países ricos” terem questionários censitários mais enxutos se comparados ao brasileiro. Ora, encurtar questionários não reduzirá custos da pesquisa, assim como receita de vendas de prédios não pagará o orçamento bilionário. E a comparação é inadequada, porque os países ricos dispõem de muito mais dados administrativos acessíveis ao público, substituindo parcialmente ao Censo. Não é o caso do Brasil. Continuar a ler

Frente Ampla Progressista

No artigo “O que é ser de esquerda hoje?”, postado no site da Carta Maior, lancei a clássica pergunta: “O que fazer aqui-e-agora?”. Respondi: “uma Frente Ampla da Esquerda à la Uruguai e Portugal”. Neste artigo aprofundo o exame da questão.

De início, amplio a proposta para uma Frente Ampla Progressista (FAP). A estratégia é, justamente, sair do gueto e ampliar a aliança de modo a conseguir inclusive o apoio dos liberais clássicos. Ao aceitar a economia de mercado como um motor da evolução sistêmica, a esquerda pactua com os liberais a defesa do mecanismo de mercado competitivo. Aprende a regular apenas contra o excesso de exploração, sem a travar com excesso de regulação supostamente protecionista, mas prejudicial à abertura comercial e à multiplicação de empregos pelo componente de exportações líquidas.

Para tanto, percebe a alternativa – capitalismo de compadrio – ter levado ao favorecimento corrupto. A estratégia para essa luta deixa de ser uma súbita mudança revolucionária e passa a ser o gradualismo, lento ou rápido a depender das circunstâncias, em um processo incremental de luta em defesa de ideais éticos.

Em visão holística, a realidade passa a ser vista pelos revisionistas da nova esquerda como permanente “movimento social”: a ampliação gradual de conquistas de direitos (civis, políticos, sociais, econômicos e de minoria) da cidadania. Sendo para todos os cidadãos, independentemente de classes sociais ou castas profissionais, dialeticamente, transforma quantidade em qualidade, isto é, cria um novo modo de vida e produção. Continuar a ler

Irracionalismo e Evolução sistêmica (uma tréplica)

Em resposta à réplica postada em:   http://brasildebate.com.br/irracionalismo-e-evolucao-sistemica-uma-resposta/ 

Para o irracionalismo, o mundo não é inteiramente acessível ao conhecimento. Ele contém um resíduo ininteligível e inexplicável. A Ciência se esforça para explicá-lo pouco a pouco através de permanente teste de hipóteses. Enquanto elas se sustentam empiricamente, permanecem como explicativas. Alterado o contexto, com nova auto-organização de um sistema complexo, as velhas hipóteses são descartadas e substituídas por outras mais adequadas ao novo ambiente natural e institucional.

Talvez seja essa necessária auto subversão das ideias, principalmente daquilo aprendido como dogmas no passado, o incômodo de Elias Jabbour, professor adjunto da FCE-UERJ, com meu artigo “Revisionismo e Evolução sistêmica”, postado também no portal do Brasil Debate. Eu agradeço suas críticas. Temos de superar nossa incapacidade de escutar o outro fora da nossa câmara de eco. Será a forma de ultrapassar a cultura de ódio em vigor no País – e expressa especialmente na rede social. Por que não retomarmos uma necessária formação cidadã para o debate público, de início, entre os próprios companheiros posicionados à esquerda?

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O que é ser de esquerda hoje? O que fazer aqui-e-agora?

Em país onde não há um sistema bipartidário, cada qual contendo diversas tendências, mas sim um sistema partidário muito fragmentado – e nem sempre por razões ideológicas, mas sim por interesses programáticos ou personalistas –, em geral, há um segundo turno eleitoral para a escolha de mandatários de cargos majoritários. Aí, então, ocorre forçosamente uma polarização binária entre “direita” e “esquerda”.

Na última eleição brasileira, seja pela incapacidade de aliar-se, seja pela necessidade de renovar-se com novas lideranças populares, a esquerda foi derrotada pela predominância do chamado “antipetismo” após três mandatos – e um golpe. Uma reação equivocada de cada ala seria buscar se distinguir mais ainda em uma autofagia com o auto isolamento partidário. Depois do filtro, terminaria tão “puro”, ideologicamente, quanto pode ser só um indivíduo.

A distinção política entre “direita” e “esquerda”, argumentava Norberto Bobbio, em meados dos anos 90, continuava a servir como pontos de referência indispensáveis. Partia da constatação de os homens, por um lado, serem todos iguais entre si. De outro, cada indivíduo é diferente dos demais. “Quem considera mais importante, para a boa convivência humana, aquilo comum capaz de os unir, em uma coletividade, está na margem esquerda – e pode ser corretamente chamado de igualitário. Quem acha relevante, para a melhor convivência, a diversidade e/ou a competitividade, está na margem direita e, em geral, defende a meritocracia benéfica a si e seus pares”.

O reducionismo faz a seguinte distinção. São de esquerda as pessoas interessadas pela eliminação das desigualdades sociais. A direita insiste na convicção de as desigualdades serem naturais e, enquanto tal, não são elimináveis.

O que há de comum, naturalmente, entre os diversos seres humanos? Todos têm os quatro instintos básicos: de sobrevivência, sexual de reprodução, de competição e de proteção. Talvez se pudesse deduzir: indivíduos com o instinto de competição exacerbado, como os caçadores, guerreiros e coletores do passado e os mercadores do presente, tendem para a direita. Por sua vez, indivíduos com o instinto de proteção social pronunciado, antes pastores e agricultores comunitários, teriam em sua herança genética uma tendência de se colocarem à esquerda. Entretanto, estes tiveram de aprender a guerrear em defesa contra aqueles predadores ou conquistadores. É importante ressaltar: a troca de mercadorias, isto é, “a economia de mercado”, sempre existiu entre comunidades cooperativas pacíficas com abertura comercial. Continuar a ler