Nós contra Eles: Reducionismo da Complexidade à Luta Binária

Jorge Luís Borges disse: “Existem somente os indivíduos: tudo o mais – as nacionalidades e as classes sociais – é mera comodidade intelectual”. Ele tinha ½ razão!

Não existem apenas indivíduos como supõe o individualismo metodológico intuitivo: “ver o mundo em torno do próprio umbigo”. Como cada qual possui essa tendência natural, esse método tende a estabelecer as explanações sobre os fenômenos sociais, políticos ou econômicos. Somente são consideradas adequadas pela ortodoxia se colocadas em termos de crenças, atitudes e decisões dos indivíduos.

O princípio do holismo metodológico postula os conjuntos sociais terem objetivos maiores ou funções impróprias a serem reduzidos às crenças, atitudes e ações dos indivíduos. Sua complexidade sistêmica nasce da emergência das interações entre todos seus componentes.

Se as ações humanas são impulsionadas (mas também delimitadas) por normas, estas instituições (formais ou informais) compõem igualmente o campo de estudo da investigação social. A explanação da Ciência Social Aplicada deveria ocorrer em termos das motivações e intenções de indivíduos, moldadas por regras e instituições, mas, em processo de retroalimentação, a visão holística pondera o peso de cada nódulo, dentro de uma rede de fluxos de encadeamentos. Parte da visão do todo para ir às partes.

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Ciclos de Vida

Ciclos de Vida se referem, em princípio, às fases nas quais se divide o período de vida de um indivíduo. O ciclo se estende do nascimento até a morte, embora religiões o tratem com um ente social antes do nascimento ao condenar o aborto em qualquer situação. Outras religiões têm fé na existência da alma depois da morte – em outro mundo, seja paradisíaco, seja infernal.

Alma penada é o espírito de pessoas falecidas ainda com compromissos por cumprir na vida terrena. Regressam a ela, sob transfigurações do sobrenatural ao natural, apelando ao socorro e à oração de familiares e amigos. Cruz credo!

Extrapola-se o ciclo de vida às etapas definidas em cada sociedade ou civilização. Do individualismo metodológico se dá um passo ao ponto de vista social ou holismo metodológico. As etapas do ciclo de vida de um indivíduo marcam a sua preparação para assumir papéis sociais e institucionais. Porém, de acordo com o grau de desenvolvimento econômico e cultural da sociedade, cada povo tem a delimitação dessas etapas históricas de forma diferente.

A esperança de vida de pessoa nascida no início do século XX, no Brasil, era a “idade de Cristo”: 33 anos. Se nascida em 2018, tinha expectativa de viver, em média, até os 76,3 anos. A expectativa de vida dos homens era 72,8 anos em 2018, enquanto a das mulheres era 79,9 anos. A maior expectativa de vida foi encontrada em Santa Catarina, 79,7 anos, e a menor no Maranhão, 71,1 anos.

Uma pessoa idosa, tendo completado 65 anos em 2018, teria a maior expectativa de vida (20,4 anos) no Espírito Santo. Por outro lado, em Rondônia, a expectativa de vida seria de mais 16,1 anos. Ganhará 4 anos a mais de vida ao se mudar para o Espírito Santo?! Não tem garantia… Temos de lembrar: “enquanto existirmos, a morte não existe, mas, quando a morte existir, não existiremos”.

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Previsão do Passado para contar a História do Futuro

A maior ambição humana é inventar a “máquina do tempo”: viajar ao passado para verificar o que aconteceu, de fato, e ao futuro para observar o que acontecerá a fim de voltar ao presente e traçar um cenário com 100% de certeza. Imagine o efeito riqueza da descoberta individual de quando se iniciará o ciclo de alta de um ativo e de quando se reverterá a bolha inflada pelo comportamento de manada em busca da profecia autorrealizável. O especulador com certeza sairá do ciclo de alta exatamente antes do crash, vendendo tudo ao fim do boom! Acumulará todo o capital possível ao ter comprado mais barato e vendido mais caro, seguindo a Regra de Ouro do comércio!

História não é Ciência. Esta se divide em Ciência Pura com o mais alto nível de abstração e Ciência Aplicada com a reincorporação das demais áreas de conhecimento abstraídas para a elaboração de teorias puras em certa área disciplinar. Ambas são pré-requisitos para tomar melhores decisões práticas. A História busca as reconstituições dessas decisões em circunstâncias datadas e localizadas. Não é seu objetivo principal a análise dinâmica ao longo do tempo, mas sim o corte temporal para estudo do caso escolhido.

Já os economistas, os sociólogos, os cientistas políticos e outros profissionais das Ciências Sociais e Humanas, até mesmo médicos, pesquisam a evolução histórica. Aplicam seus conhecimentos conceituais específicos para elaborar, por exemplo, uma interpretação do Brasil ou traçar os caracteres da identidade nacional. Em síntese, os historiadores objetivam uma reconstituição; os demais buscam explicação.

Historiadores pesquisam fontes primárias: documentos oficiais ou não, cartas ou qualquer outra fonte de informação criada no tempo estudado por autoridade ou pessoa com conhecimento pessoal direto dos eventos. Serve como fonte original da informação sobre a época. Elas são distintas de fontes secundárias. Estas, geralmente elaboradas pelos cientistas sociais, citam, comentam ou constroem conclusões baseadas nas fontes primárias levantadas pelos historiadores.

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Marx segundo Schumpeter: Crise Cíclica ou CGC (Crise Geral do Capitalismo)

Joseph Schumpeter, em seu livro “História da Análise Econômica” (1954), salienta a superprodução de Teorias das Crises e a posterior eliminação de suas ideias mais ingênuas. Nota também diversas Teorias de Subconsumo aparecerem quase como contrapartida da impossibilidade lógica de uma superprodução em todos os setores de atividade, dado o encadeamento de insumos e produtos. Critica as Teorias das Perturbações Ocasionais, ou seja, os casuísmos explicativos para situações datadas e localizadas, mas não passíveis de generalização.

O passe teórico seguinte na História do Pensamento Econômico foi a descoberta do ciclo e o aparecimento tanto das teorias monetárias quanto das teorias do investimento em relação à evolução cíclica. Mesmo uma Teoria de Superconsumo ou outra de Ciclos de Colheitas não estiveram ausentes de trabalhos estatísticos para levantamento numérico do problema da oscilação do crescimento econômico.

Sua impressão é de nenhum autor ter contemplado todos os componentes interconectados de um sistema complexo, cujas interações possibilitam as configurações de ciclos sequenciais com suas crises periódicas. Permanece o desafio de os combinar em uma estrutura teórica integrada, mesmo sendo esta provisória, dada a possibilidade de surgimento de novos elementos, seja pela inovação tecnológica, seja pela inovação financeira.

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Moeda, Crédito e Ciclos segundo Schumpeter

Recuperarei aqui o dito por Joseph Schumpeter, em seu livro “História da Análise Econômica” (1954), a respeito da elaboração progressiva de Teorias do Ciclo. Os primeiros fatos a respeito das crises notados pela imprensa e público aos quais se atribuem efeitos como falências e desemprego são o colapso do crédito e o estoque de mercadorias invendáveis aos preços de oferta. Daí os leigos em Economia são adeptos inveterados das “teorias” (ou melhor, explicações) monetárias e da superprodução.

Embora o fenômeno da superprodução possa se destacar na imagem histórica de certas crises econômicas, segundo a Lei de Say – “a oferta cria a própria demanda” – nenhuma explicação causal pode ser tirada dele: não haveria sentido em dizer a crise ter acontecido por todos os setores terem produzido em demasia. Sua contribuição foi negar a possibilidade de haver superprodução de bens finais se antes houve esgotamento da capacidade produtiva de bens intermediários e sem haver importações para atendimento da demanda final em uma economia fechada. Relaciona-se esse fechamento às súbitas mudanças nos canais do comércio internacional.

Maior importância teve ela como tentativa de demarcar a busca de análise científica dos ciclos econômicos. No entanto, Say deduziu equivocadamente se uma superprodução geral não era a explicação, então, uma superprodução parcial poderia estar na base do problema. Algumas mercadorias não foram vendidas porque seus fornecedores não tiveram condições de as produzir mais, ou seja, a superprodução aparente deles provocava a subprodução delas. Esta é a Teoria das Crises pela Desproporcionalidade.

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Capital e Dívida: Ciclos de Endividamento

Estarei hoje (29/11/19) no programa de Pós-Graduação do Curso de Ciências Econômicas: Economia, Desenvolvimento e Integração da
Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), em Foz do Iguaçú. A ideia é realizar um debate acadêmico com o seguinte tema:  Estratégias macroeconômicas para retomada do desenvolvimento. O outro debatedor será o prof. Leonardo Burlamaqui.

Download de minha apresentação: FERNANDO N. COSTA – Ciclos de Endividamento – UNILA- Foz do Iguaçú 29.11.19

Eu a transcrevi no artigo abaixo.

Li uma “frase esperta” não me lembro onde: “Tentar analisar o capitalismo e
deixar de lado bancos, dívidas e dinheiro é como tentar analisar voos de pássaros e ignorar eles terem asas. Boa sorte!

Alguns autores da literatura de “financeirização” consideram o capital financeiro como improdutivo. Por definição, se restringe à circulação e à troca de propriedades privadas. Por isso, desejam cindi-lo do capitalismo! Ora, o capital-dinheiro é acumulado previamente e daí contrata a força do trabalho despossuída e/ou livre para se vender, criando a relação de produção capitalista. O capitalismo é um sistema financeiro complexo com múltiplos componentes interagindo, entre outros, capital e dívida.

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