Mercado de Capitais X BNDES

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A falsa hipótese dos neoliberais, não comprovada pelos dados existentes, é que a retração do BNDES levará à ocupação do vácuo pelo mercado de capitais brasileiro. O “sonho dos PhDeuses” é edificar, em um processo de Tropicalização Antropofágica Miscigenada, um mercado de capitais similar ao norte-americano! É o que aprenderam nos States: “tudo que é bom para os USA, é bom para o Brasil”…

Aqui, o volume no mercado de capitais chega a ser influenciado pela estratégia de captação de uma única companhia. No entanto, a ANBIMA avalia, p.ex., que “o número de ofertas de Notas Promissórias pode sinalizar que, com a expectativa de redução mais acentuada das taxas de juros, as empresas estejam optando por instrumentos de curto prazo, visando a troca por dívidas de custos ainda mais baixos nos próximos meses, com possível alongamento dos vencimentos”.

Do total do volume captado com notas promissórias em 2017, 70,5% dos recursos foram para companhias de capital aberto, o que representa uma mudança de perfil em comparação a 2016, quando houve equilíbrio entre as captações de companhias abertas (50,3%) e fechadas (49,7%).

De janeiro a agosto de 2017, as operações no mercado de capitais doméstico chegaram a R$ 93,3 bilhões, um crescimento expressivo (59%) em comparação ao mesmo período do ano passado. O avanço das ofertas foi puxado pelas ações, 275% superiores às de 2016, seguidas das notas promissórias (154%), FIDCs (153%) e debêntures (32,5%). Os CRIs e CRAs foram os únicos instrumentos que tiveram queda nos volumes captados, de 63% e 1,6%, respectivamente. Continue reading “Mercado de Capitais X BNDES”

8 mitos (ou 7 Erros e Um Equívoco) de Sábio Tecnocrata

Marcos Mendes, Chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda, faz pelo menos uma mitificação em documento oficial do governo golpista “20 Mitos sobre a Reforma da Previdência“.

Argumenta que:

  1. a Previdência é o principal componente da despesa primária da União, respondendo em 2017 por 57% do total;
  2. recursos só podem ser usados para pagar os juros da dívida pública se o governo consegue fazer superávit primário, o que não ocorre desde 2013;
  3. assim, não se pode afirmar que o governo tem desviado recursos que seriam destinados à Previdência Social para pagar juros;
  4. o não pagamento de juros da dívida pública é o mesmo que calote, o que afugentaria os investidores que carregam a imensa dívida bruta;
  5. a reforma da Previdência Social representa uma sinal de solvabilidade do governo — capacidade de pagamento de sua dívida;
  6. quanto maior o déficit da Previdência, mais recursos o governo precisa tomar emprestado;
  7. isso significa que sobra menos dinheiro para ser emprestado para empresas que querem investir e às famílias que querem consumir;
  8. o resultado é taxa de juros mais elevada, menos crescimento econômico, menos emprego e menos renda.

Esses oitos mitos (ou 7 Erros e Um Equívoco) do sábio tecnocrata demonstram a incompetência da atual equipe econômica, nomeada pelo governo golpista, embora ela seja louvada cotidianamente pelos “célebres midiáticos neoliberais” desde o golpe em 2016. Ela aprofundou a maior depressão da história econômica e os idiotas, que não têm consciência do mal que fazem a si e ao País, ainda a exaltam! Continue reading “8 mitos (ou 7 Erros e Um Equívoco) de Sábio Tecnocrata”

O Mundo Idealizado Com Equilíbrio

O que nós, economistas, aprendemos nas cartilhas ortodoxas é simplório. Parece dar-nos status científico, pois, inspirado no método de análise mecanicista da Física newtoniana, é lógico-racional, tipo causa-e-efeito que seguimos em uma série sequencial de variáveis agregadas. Nesse método estático-comparativo, hipoteticamente, saltamos de um espaço a outro, isto é, pulamos entre equilíbrios, sem considerarmos o tempo processual dessas transições. Fechando a economia dentro de um modelo de equilíbrio geral, simplesmente, abstraímos 50% das duas dimensões físicas: espaço e tempo!

Então, a Ciência Econômica ainda não chegou ao método da Teoria da Relatividade, ou seja, ao século XX. Einstein observou o deslocamento relativo, deduzindo que o tempo e a posição são conceitos relativos. Observadores em movimento relativo, uns aos outros, vivenciam o espaço e o tempo de forma diferente. Não há simultaneidade absoluta. O universo é constituído por relações. Nós, economistas, ficamos parados no tempo: a visão mecanicista do mundo que a Ciência Econômica continua a adotar foi substituída por uma interpretação baseada nas interações entre diversos componentes de um sistema complexo.

Economia como sistema complexo é muito difícil de ser reduzida a equações matemáticas. Logo, estas estão sendo substituídas por ferramentas computacionais de visualização de redes, cadeias e interconexões que ajudam a desvendar sua complexidade. Em uma visão holística, observamos todo o sistema complexo e daí escolhemos os nódulos-chave da rede de relacionamentos e as esferas de influência que mais importam. Continue reading “O Mundo Idealizado Com Equilíbrio”

Vínculos entre Complexidade Econômica, Instituições e Desigualdade de Renda

Assisti, no IE-UNICAMP, no dia 9 de agosto de 2017, interessante palestra de Dominik Hartmann da The MIT Media Lab de Cambridge – USA, Fraunhofer Center for International Management and Knowledge Economy IMW de Leipzig – Germany, e da University of Leipzig – Germany. Em coautoria com Miguel R. Guevara e Cristian Jara-Figueroa (ambos da Universidad de Playa Ancha, Valparaíso – Chile e Universidad Técnica Federico Santa María de Valparaíso – Chile), Manuel Aristaran e César Hidalgo (ambos do MIT), todos assinaram o texto Linking Economic Complexity Insitutions and Income Inequality. WD_May2017 [Vinculando Complexidade Econômica, Instituições e Inequidade de Renda], em maio de 2017.

Defendem com uso de big data (mega banco de dados) e bons argumentos que a mistura de produtos de um país prevê o seu subsequente padrão de diversificação e crescimento econômico. Eles se colocam a seguinte pergunta-chave: esse mix de produtos também pode prever a desigualdade de renda do país?

Para responde-la, eles combinam métodos de Econometria, Ciência da Rede e Complexidade Econômica. Mostram que os países que exportam produtos complexos, com maior valor agregado propiciado por conhecimento tecnológico e múltiplos encadeamentos de insumos-produtos, medidos pelo Índice de Complexidade Econômica, têm níveis mais baixos de desigualdade de renda que os países que exportam produtos mais simples.

Com a análise de regressão multivariada, mostram que a complexidade econômica é, significativamente, previsora da desigualdade de renda – quanto menor aquela, pior esta última. Essa relação é robusta ao controle de medidas agregadas de renda, instituições, concentração na pauta de exportação e capital humano.

Além disso, apresentam uma medida que associa um produto a um nível de desigualdade de renda igual ao Índice de Gini médio dos países que exportam esse produto, ponderada pela participação do produto na pauta de exportação do país. Usam essa medida junto com a rede de produtos relacionados, ou “espaço de produtos”, para ilustrar como o desenvolvimento de novos produtos está associado a mudanças na desigualdade de renda.

Essas descobertas mostram que a Complexidade Econômica captura informações sobre o nível de desenvolvimento de uma economia que é relevante para as formas como uma economia gera e distribui sua renda. Além disso, esses achados sugerem que a estrutura produtiva de um país pode limitar seu alcance de bem-estar pela desigualdade de renda. Para socialização desse novo conhecimento, os autores colocaram seus resultados disponíveis para consulta através de um recurso on-line que permite aos usuários visualizar a transformação estrutural de mais de 150 países e suas mudanças associadas na desigualdade de renda durante 1963-2008. Continue reading “Vínculos entre Complexidade Econômica, Instituições e Desigualdade de Renda”

Advogado-do-Diabo em Defesa do Populismo

Depois de atuar como advogado-do-diabo em defesa de uma reflexão mais profunda sobre Financeirização (Advogado do Diabo em Favor da Financeirização) e Desindustrialização (Advogado do Diabo em Favor da Desindustrialização), desta feita dei uma entrevista para a gente pensar mais sobre o real significado de Populismo. No fundo, por que ele é maldito? Ou mal-amado? Não é uma questão de esnobismo?

Significado de esnobismo: s.m. Admiração inautêntica por tudo aquilo que está em voga nos ambientes que passam por refinados. / Tendência para desprezar os humildes e apreciar exageradamente a elite. / Ato de demonstrar falsa e exagerada superioridade; pernosticismo, afetação: esnobismo intelectual.

Exemplo desse esnobismo é a declaração do Armínio Fraga, ex-operador de George Soros, ex-presidente do Banco Central do FHC, ex-futuro ministro da Fazenda do Aecim, o candidato corrupto para quem trabalhou nas eleições de 2014, em entrevista (FSP, 08/08/17). Ele já ameaça a escolha democrática dos eleitores brasileiros: “Se a mudança imprimida na direção da política econômica [pelos golpistas] for mantida, consolida uma coisa muito boa” [grande depressão, desemprego para 14 milhões de pessoas, corte de direitos trabalhistas, etc.], diz. “Mas pode acontecer o contrário, uma guinada populista, e ir tudo para o brejo.”

Diz, em seu palanque no PIG, “temer [ato falho] que a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na campanha de 2018 elimine qualquer chance de um debate consistente sobre os rumos do país“.  Esse golpista neoliberal não se emenda: abomina a democracia, tem pavor do voto popular.

Viva o populismo! Morra o neoliberalismo!

Link para entrevista:
http://www.ihu.unisinos.br/569216-economia-populista-e-aquela-voltada-ao-bem-estar-social-entrevista-especial-com-fernando-nogueira-da-costa

A revista da Unisinos completa dedicada ao tema (online ou em pdf) pode ser baixada em: http://www.ihuonline.unisinos.br/edicao/508

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Razão do Ódio Neoliberal ao Crédito

Fonte: Elaboração dos gráficos por André Guilherme Pereira Perfeito (Flash Econômico – Gradual Investimentos)

Eu não entendia bem porque na Era Neoliberal houve queda contínua na relação crédito / PIB de 32% em 1995 para 26,1% em 2002. Sempre a gente tem dúvida se algo equivocado é fruto da ignorância ou da má fé. Geralmente, tem as duas causas.

Podia ser então incompetência dos gestores dos bancos públicos, no período, nomeados um por ser “amigo-do-rei”, isto é, do ministro da Fazenda, outro por ser conterrâneo do vice. Mas talvez se somasse a essa nomenclatura a missão de aproveitar a oportunidade para privatização dos bancos estaduais e restruturação dos bancos públicos federais. Só não foi adiante a privatização desses bancos pela reação do movimento sindical e das corporações contra o Relatório Booz-Allen Hamilton-FIPE-USP.

Até que a relação crédito / PIB cai de 54,5% em 2015 para 48,6% em 2017. Ficam claras, então, com a volta da Velha Matriz Neoliberal, a inação – a falta de ação, de trabalho, indecisão, inércia – e a inanição – um estado de debilidade extrema provocado por falta de capital. O Tesouro Nacional, depois de exigir durante anos a fio quase a metade de seus lucros como pagamento de dividendos para a elevação do superávit primário, leva agora os bancos federais, dos quais detém o controle acionário, a consumirem as próprias reservas para se manterem vivos. Perdem poder de alavancagem financeira. Esta é o segredo do negócio capitalista: usar capital de terceiros para dar escala a seus negócios particulares, pagando juros menores do que a rentabilidade obtida.

Ledo engano o meu achar o que (não) movia os neoliberais era apenas o interesse pecuniário na “privataria”. A má fé envolve também crença doutrinária – e religiosa. Continue reading “Razão do Ódio Neoliberal ao Crédito”

Do Country ao Caipira: Percurso de Conhecimento e Empatia

Fui aluno bolsista, escolhido por concurso e com exigência de mérito para manter a bolsa de estudos, durante minha graduação na FACE-UFMG. Inesquecível foi receber a primeira bolsa e correr à loja para comprar meu primeiro disco: Willy and the Poor Boys, lançado em 1969 pela banda de country rock californiana Creedence Clearwater Revival.

Gostava dessa fusão do rock com a música country, um verdadeiro revival, pois o Rock and Roll, antecedente do rock, tinha nascido de uma combinação do Rhythm and Blues com a música Country and Western, uma fusão evidente no rockabilly dos anos 1950. Anotei, então, meu primeiro (e último) “modelo de economista”: R&R = R&B + C&W. 🙂

Essa paixão pelo rock me despertou o desejo de conhecer suas raízes. Quando o blues rural afrodescendente, em versão urbana com guitarras elétricas, reuniu-se com a música rural dos brancos pobres e/ou cowboys do Oeste, teve início uma revolução nos costumes – e na tolerância étnica. Essa miscigenação resultou em música popular norte-americana tão boa quanto a brasileira, pois ambas compartilharam as mesmas raízes nos ritmos africanos. Continue reading “Do Country ao Caipira: Percurso de Conhecimento e Empatia”