A Bolsa ou A Vida

A Grande Guerra (1914-1918), a Grande Depressão (1929-1939) e a ascensão do nazi fascismo (1919 e 1939) foram consequências diretas das tentativas de organizar a economia global com base no liberalismo de mercado. Esta hipótese foi defendida por Karl Polanyi (1886-1964) em seu livro clássico “A Grande Transformação” (1944).

O neofascismo tupiniquim não tem sido também uma reação política de parcela inculta da população às lamentáveis consequências socioeconômicas da volta do neoliberalismo desde 2015? Paradoxalmente, resultou em uma aliança oportunista entre a casta dos militares e a dos mercadores. Daí o preposto atuante como “Posto Ipiranga”, centralizador de tudo sob seu ministério da Economia, com o propósito de tornar o Estado mínimo e O Mercado autorregular a si e também a sociedade!

Karl Polanyi destacava, ao longo da história, sempre a economia esteve incrustada na sociedade. Criticava qualquer espécie de determinismo econômico.

Rejeitava, em consequência, a concepção da economia como sistema autossuficiente de relacionamentos entre mercados capazes de ajustarem entre si a oferta e a procura através do mecanismo dos preços relativos. Economistas ortodoxos ainda adotam essa ideia do modelo de equilíbrio geral. Não reconhecem, exceto na crise, a necessidade do auxílio dos governos para superar as falhas do funcionamento do livre-mercado.

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Efeitos e Defeitos dos Encadeamentos

Semelhante ao acontecido com uma epidemia, o Efeito Contágio se dá quando o ocorrido na economia de um país provoca a sensação daquilo também poder ocorrer em todos os países inseridos na economia mundial, ou seja, globalizados. Efeito Demonstração ou Imitação é a tendência dos países de menor desenvolvimento socioeconômico de tentar reproduzir em seu território os hábitos de consumo e de vida dos países mais desenvolvidos, acarretando pressões sobre as importações.

Efeito Dominó ocorre quando algum acontecimento econômico se encadeia com outro, provocando efeito semelhante e assim sucessivamente, “até todas as peças do jogo de dominó” sejam derrubadas. Por exemplo, a falência de uma grande empresa pode provocar o mesmo efeito em várias outras empresas, acarretando daí uma crise geral.

Esse Efeito Dominó se une ao Efeito Imitação quando quebra um banco de porte significativo. Provoca inquietação em clientes de outros bancos com características semelhantes. Perguntam-se: “se aquele do mesmo tamanho do meu quebrou, por que o meu também não pode quebrar?” Aí ocorre o Efeito Manada.

Por isso, “há bancos grandes demais para quebrar”, quando a Autoridade Monetária tem de o salvar por conta do risco de crise sistêmica com corrida bancária generalizada. Tem de salvar o banco, não o banqueiro. Este deve ser desapropriado de suas ações por conta da bancarrota. Todo banco opera com recursos de terceiros – acumulações de todas as Pessoas Físicas e Pessoas Jurídicas –, cuja responsabilidade de zelar é compartilhada com (e regulada por) o Banco Central.

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Desempenho dos Bancos Públicos sob a Ideologia do Estado Mínimo

A ideia-fixa do “Posto Ipiranga”, oportunista ex-banqueiro de negócios com “carta-branca” do capitão para fazer o que quiser no comando centralizado do ministério da Economia, é até 2022, se cumprir todo o mandato, deixar o Estado mínimo. Além de cortar os direitos previdenciários e salariais dos servidores públicos. Isto permitiria, em tese neoliberal, o corte de gastos públicos e, em consequência, menores impostos.

Em sua cartilha ortodoxa, parece só constar o conceito de “crowding-out”, isto é, um Efeito Esvaziamento do setor privado pelo setor público. Em visão estática, se o Estado deixasse um vácuo, a economia brasileira não se esvaziaria por conta da ocupação automática por parte do setor privado. Ledo engano. As Contas Nacionais de 2019 já registraram a falta de dinamismo econômico. A economia brasileira rasteja sem o investimento público substituir o investimento privado inibido por pessimismo.

Ele pouco se importou. Quanto à taxa de câmbio, apenas disse, no dia 5 de março: “Eu estou dizendo que é um câmbio que flutua, se eu fizer muita besteira, ele pode ir para esse nível” [R$ 5]. Dez dias depois, dito e feito: passou esse nível. Ele não renunciará face ao reconhecimento público e notório da “muita besteira” feita por ele?!

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Falácia da Sorte do Iniciante

Após uma semana de crash nas bolsas de valores em todo o mundo, e a maior queda ocorrendo no Brasil, Maria Luíza Filgueiras (Valor, 17/03/2020) informa, conforme levantamento da Economática, as desvalorizações consecutivas na bolsa brasileira já́ levarem 44 ações a ser negociadas abaixo de seu valor patrimonial. A cotação não reflete sequer os valores dos ativos próprios dessas empresas.

A relação do Preço e Valor Patrimonial da Ação (P/VPA) é inferior a 1 em uma série de ações do setor financeiro, como Banco do Brasil, Bradespar, Banrisul, ABC Brasil e Banco BMG. A ação preferencial da Petrobras negocia a 0,68 do valor patrimonial e a ação ordinária da estatal representa só 70% desse valor.

Abaixo do valor patrimonial, muitas companhias optam por programas de recompra de ações, para tentar conter a desvalorização e mostrar ao investidor confiança no futuro da empresa. Prevista pela Lei das S.A. e regulada pela CVM, a recompra permite às companhias abertas adquirir suas ações para manter em tesouraria – ou mesmo cancelá-las. Isso beneficia os acionistas, pois reduz a base acionária com direito a receber os dividendos por seu lucro. Ganham seus executivos ao sugerirem essa medida para o Conselho de Administração ou à Assembleia Geral da Empresa.

Há questionamento dessa atitude como espécie de manipulação do “livre-mercado”. Algumas companhias usam seu caixa para só́ defender o preço da ação. Talvez fosse melhor preservar o caixa para a oportunidade de comprar barato um concorrente.

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Consequência Financeira de Crise Sistêmica

Retorno sobre o patrimônio, retorno sobre patrimônio líquido, rentabilidade patrimonial, rentabilidade líquida ou retorno sobre o capital (em inglês: Return On Equity, ROE) são as denominações de um indicador financeiro percentual. Ele se refere à capacidade de uma empresa em agregar valor a ela mesma utilizando os seus próprios recursos ou, caso alavancada, somando os recursos de terceiros.

No primeiro caso, refere-se ao quanto ela consegue crescer usando nenhum outro recurso além daquele já possuído. No segundo caso, compara essa rentabilidade com aquela obtida pelo maior lucro líquido, depois de deduzidas as despesas financeiras pelo uso de capital de terceiros, em relação ao próprio patrimônio líquido. Se essa nova rentabilidade superar a taxa de juro cobrada por essa tomada de empréstimos, vale a pena arriscar com a alavancagem financeira.

O ROE é frequentemente utilizado por investidores, acionistas, financeiras, e outras entidades para acompanhar o potencial e estabilidade de uma empresa. Para se calcular o ROE, multiplica-se a margem líquida de uma empresa por seu giro de ativos e pela sua alavancagem financeira:

ROE = (Lucro Líquido/Vendas) X (Vendas/Ativos) X (Ativos/Patrimônio Líquido) = Lucro Líquido/Patrimônio Líquido

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Estagdesigualdade: Estagnação do Fluxo de Renda e Concentração do Estoque de Riqueza

Diversas metáforas são utilizadas para ilustrar os conceitos de fluxo e estoque. Estoque representa um volume/valor dimensionado em determinado instante no tempo. Fluxo significa uma quantidade mensurada durante determinado período de tempo. Ou estoque mede a quantidade existente em determinado momento, enquanto fluxo mede a variação ao longo de um período dessa quantidade estocada.

Outra metáfora é a da torneira e do tanque. Fluxo seria a quantidade de água injetada através da torneira no tanque. Estoque seria a quantidade de água acumulada no tanque. Se há um ralo aberto, há um fluxo de saída. Se for menor, comparado ao fluxo de entrada, o resultado líquido será o gradual enchimento do tanque.

Ainda há aquela analogia com a diferença entre retrato – uma imagem – e filme – uma sequência de imagens retratadas, durante certo tempo, visualizada em velocidade maior. O estoque seria ilustrado pela imagem “congelada” (ou estática), enquanto o fluxo seria a impressão da imagem em movimento.

Daí o explicador didático salta para apresentar fluxo e estoque em Economia: o fluxo, denominado PIB (Produto Interno Bruto), seria o valor adicionado em rendas (salário, lucro, juro e aluguel) durante o ano. Sua variação anual é estimada pela diferença entre o saldo do fim do ano e o do ano anterior. Já o estoque seria a riqueza.

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Motivações Microeconômicas para Fusões e Aquisições

A aquisição é um dos tipos mais comuns de “operações societárias”, juntamente com as fusões, incorporações e cisões, fazendo parte da lógica de movimento do capitalismo. Nessa operação, uma sociedade aberta é absorvida por outra, assumindo esta todos seus direitos e obrigações.

Quando a sociedade adquirida deixa de existir, ocorre uma incorporação. Se ela continuar com personalidade jurídica própria, ocorre a aquisição propriamente dita.

A aquisição é “horizontal” quando a empresa adquirida for do mesmo ramo de negócios. É “vertical” quando se trata da aquisição de uma empresa em estágio diferente do mesmo processo produtivo. E conglomeração ocorre quando a adquirida for de outra área de atuação.

Empresas podem ter várias razões para entrar em um programa de fusões e aquisições. Precisam obter ganhos de escala por sua sobrevivência só ser possível com grandes escalas de produção ou de prestação de serviços, exigindo a consolidação das empresas dentro de um ou de vários setores econômicos. Propicia ter acesso à inovação sob forma de novas tecnologias, processos, recursos complementares ou mercados.

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