Pedalar para não cair

Pedalada virou uma palavra estigmatizada no Brasil por seu mau uso como pretexto para dar uma capa de rito legal ao golpe contra a Presidenta eleita. Pedalada fiscal foi o motivo alegado para encobrir a verdadeira razão de não eleitos – partidos de oposição aliados a Cunha e Temer – ocuparem o Poder Executivo. Foi um subterfúgio referente à operação extremamente comum em uma economia de mercado: o crédito. No caso, ele teria sido concedido dos bancos públicos ao governo em função do atraso de reembolso dos pagamentos de programas sociais essenciais para a população brasileira.

A ironia da metáfora ciclista é ela não ter funcionado, nas circunstâncias políticas brasileiras, como a ação de “pedalar para não cair”. Dilma caiu. Entretanto, a designação de um objeto (bicicleta) ou ação referida a ele (pedalar) referente à designação de outra qualidade (movimento ao longo do espaço e do tempo) ocorre porque tem com o primeiro uma relação de semelhança. A economia de mercado é movida para o futuro com base na manutenção do crédito.

Crédito é confiança concedida, crença alimentada pelas qualidades de uma pessoa ou projeto. Refere-se à segurança imaginada de alguém ou algum modelo de negócios ser capaz de gerar benefícios para o credor. Este é o beneficiário de compensações.

Iniciou-se, historicamente, como reserva moral de confiabilidade conferida a uma ou mais pessoas – “os irmãos de crença” – e posta em certo prazo e/ou condições. Ganhou impessoalidade e confiabilidade perante uma autoridade com bom nome e reputação. Banqueiros judeus medievais passaram a conceder crédito a príncipes ou burgueses cristãos. No entanto, muitos se valeram de suas condições para os calotear na hora de pagamento dos juros ou a amortização dos empréstimos.

O juro tão condenado no cristianismo medieval (e na esquerda “anti-financeirização”) é a quantia remuneradora de um credor pelo uso de seu dinheiro por parte de um devedor durante um período determinado. Como o devedor lucrará com aquele dinheiro de outrem, ele paga uma percentagem sobre o que lhe foi emprestado para compensar o custo de oportunidade do credor. Senão, este poderia fazer bom uso dos próprios recursos. Continue reading “Pedalar para não cair”

10 Anos Depois: Sociedade Partida

Efemérides recordam os acontecimentos sucedidos em um mesmo dia, em diferentes épocas. Efêmero significa “apenas por um dia”, por exemplo, em 15 de setembro de 2008. Refere-se a algo passageiro, transitório, de curta duração. Todas as situações efêmeras têm a característica de não durarem muito, de acabarem passado pouco tempo. Porém, passaram-se dez anos e “a maior crise mundial desde a de 1929” ainda não passou. Aquela propiciou circunstâncias favoráveis ao crescimento do nazi fascismo. E a atual?

Movimentos sociais de protesto contra o socorro aos bancos norte-americanos à custa de endividamento público incentivaram o ultraconservador Tea Party, pelo lado republicano, e o Occupy Wall Street, do lado da esquerda estadunidense. Operários desempregados, seja nos Estados Unidos, seja na Europa, engrossaram a xenofobia contra imigrantes e votaram em candidatos direitistas. O neofascismo surgiu.

Sob pressão política, os bancos centrais do centro do mundo colocaram US$ 15 trilhões em seus balanços e garantiram a Grande Recessão não se transformar em Grande Depressão similar à de 1929, no centro do capitalismo mundial. Conservaram baixas as taxas de juros.

O Fed (Banco Central dos Estados Unidos) adotou o afrouxamento monetário com o resgate de títulos de dívida pública colocados antes nas carteiras de bancos. Ele priorizou o combate ao desemprego. O BCE (Banco Central Europeu), pressionado pelo conservadorismo fiscal (austeridade) da Alemanha, a maior economia europeia, exigiu sacrifícios enormes à população da periferia da União Europeia, especialmente, dos PIIGS: Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha [Spain].

A surpresa para muitos economistas monetaristas foi essa enorme “facilidade de monetização” da dívida pública norte-americana não ter resultado em inflação corrente. Foi a “pá-de-cal” na secular Teoria Quantitativa da Moeda. Finalmente, foi matada e enterrada! Continue reading “10 Anos Depois: Sociedade Partida”

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Livro para Download Gratuito: Ensino de Economia na Escola de Campinas – Memórias

O ensino de Economia na Unicamp – Universidade Estadual de Campinas está comemorando seus 50 anos. Em homenagem, como ex-aluno da segunda turma do Mestrado, iniciada em 1975, e professor contratado desde 1985, escrevi minhas Memórias a respeito de seu ensino. São memórias da formação de uma corrente de pensamento socioeconômico brasileiro.

ApresentaçãoDownload em epub ou pdf no Portal do IE-UNICAMP

Baixe o livro em pdfEnsino de Economia na Escola de Campinas

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Casta de Farda, Casta de Toga e Casta da Pena

 

O FEBEAPA – Festival de Besteiras Assoladoras do País – retomou com força no debate público-eleitoral. Desde declarações descabidas do representante da casta de farda, tipo “eu nunca fiz mal a ninguém”, depois de incentivar “metralhar os petralhas”, até o açodamento da casta de toga para consumar a perseguição política ao candidato favorito do eleitorado, passando pelo desmascaramento da narrativa ilusória da casta da pena. Dá pena. Idiota é quem não tem consciência do mal feito a si e aos outros com seus atos impensados.

Mau argumento tipicamente usado nesse debate por quem não tem contra-argumento lógico-racional é o ad hominem (ataque ao homem): desqualificação do interlocutor por não ser especialista ou por juízo negativo de suas intenções. Por exemplo, entrevistadores da Globo, seja no Jornal Nacional, seja na Globo News, atacam a pessoa, em vez da 
opinião dela, com a intenção de desviar a discussão e desacreditar a proposta desse oponente, considerado a priori contra os interesses da casta dos mercadores. Imputam-lhe uma “culpa por associação”, visando desacreditar uma ideia ao associá-la a algum indivíduo (por exemplo, Lula) ou grupo (por exemplo, petistas) malvisto em determinadas redes sociais (direitistas).

Costumeiramente, cometem a Falácia Genética quando um argumento é desvalorizado ou defendido não por seu mérito, mas somente por causa da origem da pessoa a defendê-lo. A priori, se for dos petistas está errada, se for da “equipe de ouro (isto é, de O Mercado) do FHC” está correta.

Mas não são só os preconceituosos da Globo. Também colunistas da “grande” imprensa abusam da “arma da pena”, aquela do 4º. Poder: deter palanques em suas colunas sem contrapartes para o debate plural de ideias. Leia o comentário preconceituoso do MAG na FSP:

“Petistas comemoraram nas redes sociais o desempenho de Fernando Haddad em entrevista à Globonews na noite de quinta-feira [6/9/18 – disponível no aplicativo Globosat Play ou no YouTube acima]. (…) Compreende-se que sua performance tenha agradado a militantes de classe média e da esquerda caviar que acompanharam o programa. Haddad comportou-se como um advogado de seu partido esgrimindo argumentos do tipo inteligentes e articulados (…) para condenar as assimetrias que se impuseram com a condenação de Lula e denunciar o papel dos derrotados por Dilma, a começar pelo tucano Aécio Neves, na articulação de uma conspiração para invalidar o resultado das urnas. Haddad falou para uma plateia de gente educada progressista, que é o seu forte. (…) Haddad, goste-se ou não, é coxa. É hoje o mais tucano, no sentido histórico, dos petistas. Na entrevista, arrumadinho, parecia uma espécie de new FHC do quem sabe new PT.”

Essa reação destemperada ilustra o citado ataque ad hominem e, pior, o despeito por os tucanos verem o Haddad como uma ameaça à quebra do pressuposto monopólio da intelligentia brasileira, no caso dos paulistanos, a uspiana. Na verdade, Haddad desmontou o discurso monocórdico da casta da pena. Continue reading “Casta de Farda, Casta de Toga e Casta da Pena”

Econofísica II: Economia como Sistema Complexo e Dinâmico e a Física de Einstein

Estamos na segunda década do século XXI e a Econofísica ortodoxa sequer chegou à Teoria da Relatividade, isto é, ao século XX. Os estudos feitos pelo físico alemão Albert Einstein definem uma relação entre o espaço e o tempo, sendo ambos de caráter relativo e não estático. O tempo não é igual para todos, podendo variar de acordo com a velocidade, a gravidade e o espaço. Logo, o espaço e o tempo não são grandezas absolutas, mas sim subjetivas.

Para os economistas mecanicistas, “para toda ação há sempre uma reação oposta de igual intensidade”. Todas as forças econômicas existem em pares: se um agente econômico exerce seu poder de mercado sobre outro agente, então, o segundo simultaneamente exerce uma força no primeiro. Em um idílico mundo idealizado sob competição perfeita, ambas forças aparentam ser iguais e opostas. Nesse caso, rigorosamente, não cabe nem o termo ação, porque não implica em movimento.

De acordo com essa Terceira Lei de Isaac Newton, a atração gravitacional entre os agentes econômicos levaria a economia de livre-mercado quase automaticamente ao equilíbrio geral caso não houver nenhuma força motora extra mercado atuante contra esse movimento. E assim permaneceria em estado de repouso ou em movimento uniforme.

Tem de manter isso, viu? Os temerosos adotam a austeridade, a parcimônia e o sacrifício social em nome da manutenção do status quo idealizado, ou melhor, favorável a eles. Continue reading “Econofísica II: Economia como Sistema Complexo e Dinâmico e a Física de Einstein”

Econofísica I: Sistema de Preços Relativos e a Física de Isaac Newton

O sistema de preços relativos é considerado a pedra-de-toque do pensamento econômico ultraliberal: um meio de avaliar, padrão ou referência para a Economia. No sistema econômico de livre-mercado, os preços têm a função de equilibrar as decisões de milhões de indivíduos de interesses muitas vezes competitivos, assegurando coesão à economia como um todo. Considerando as variações dos preços, os empresários podem decidir por quais bens ou serviços (e em qual quantidade) suas empresas devem produzir, estimando a demanda por esses bens através dos indicadores de seus preços em relação a outros.

Essa concepção microeconômica teria se inspirado na Teoria da Relatividade de Albert Einstein? Resumidamente, a Teoria da Relatividade afirma: o tempo não é igual para todos, podendo variar de acordo com a velocidade, a gravidade e o espaço. Embora seja uma ideia inspiradora a ser aplicada em Economia – como farei em próximo artigo – parece-me os preços relativos se remeterem mais às Leis de Isaac Newton.

Física é um termo com origem no grego “physis” com significado de “natureza”. Essa ciência estuda supostas leis regentes de fenômenos naturais suscetíveis de serem examinados pela observação ou experimentação, procurando enquadrá-los em esquemas lógicos. Baseada em teorias racionais e experimentos laboratoriais, suas teorias se dividem entre a mecânica clássica (descrição do movimento de objetos), a mecânica quântica (determinação de medidas de grandezas), a relatividade (relações do espaço-tempo e a gravidade) e o eletromagnetismo (estudo da eletricidade e magnetismo).

A Econofísica é campo de estudo em busca de relacionar ou explicar fenômenos econômicos com auxílio de técnicas da Física. Geralmente as técnicas utilizadas para este propósito envolvem dinâmica não linear, processos estocásticos e incertezas. Continue reading “Econofísica I: Sistema de Preços Relativos e a Física de Isaac Newton”

Castas em Ocupações Principais

“Gente de bem” bate panela vazia? É “bem-nascida”, isto é, herdeira? É a “sorte-do-berço” determinante de seu bem-estar? É self-made man, alguém que se fez por si próprio, com seu esforço, pelas boas qualidades intrínsecas ao seu DNA ou adquiridas em seu ambiente familiar-educacional? É o instinto humano básico da competição ou o da proteção que a caracteriza? São boas escolas, bons professores, boa rede de relacionamento social, ou bons privilégios sociais, por exemplo, isenção fiscal em seus rendimentos, os determinantes básicos do $uce$$o?

Os Grandes Números DIRPF 2017 Ano Calendário 2016, recentemente publicados pela Receita Federal, permitem reflexões sobre essas questões relativas ao enriquecimento pessoal. A tabela acima apresenta um ranking de ocupações principais dos declarantes em que estimei os rendimentos totais (tributáveis, exclusivos e isentos) per capita, deduzindo os mensais, além do patrimônio líquido per capita, descontando as dívidas dos bens e direitos.

Nessa média dá para verificar a extraordinária mobilidade social de certa ocupação. Devido em parte ao pequeno número, que dilui menos a concentração da riqueza, os 2.625 Diplomatas, que se situavam em quinto lugar no ranking de bens e direitos no ano anterior (DIRPF 2016-AC2015), no ano seguinte, com dois declarantes a menos (2.623), tiveram aumento cerca de 40% no patrimônio líquido per capita. Isso os levou a superar até o Titular de Cartório que tinha a maior riqueza no ano anterior. Resta para consolo deste “infeliz” que ele permanece, disparado, como o mais rico em renda, quase o dobro do segundo e do terceiro colocado, respectivamente, Membro do Ministério Público e Membro do Poder Judiciário e Tribunal de Contas (argh). Os Diplomatas ocuparam a quarta posição no ranking de renda, talvez por receberem em dólares. A cotação do dólar chegou a atingir R$ 4,16 e ficou acima de R$ 3,50 até o dia do golpe em 12 de maio de 2016.

Depois dessas, dá para ver no ranking que outras boas ocupações, em Terrae Brasilis, estão em castas poderosas. São as pertencentes a Poder Judiciário, Poder Fiscalizador, Poder Econômico, Poder Midiático ou Poder das “Celebridades” (Atletas ou Artistas). Senão, resta como boa ocupação cuidar dos poderosos: Médicos, Pilotos… Aliás, conclui-se que Poder é ter o poder de determinar a própria renda. Continue reading “Castas em Ocupações Principais”