Castas em Ocupações Principais

“Gente de bem” bate panela vazia? É “bem-nascida”, isto é, herdeira? É a “sorte-do-berço” determinante de seu bem-estar? É self-made man, alguém que se fez por si próprio, com seu esforço, pelas boas qualidades intrínsecas ao seu DNA ou adquiridas em seu ambiente familiar-educacional? É o instinto humano básico da competição ou o da proteção que a caracteriza? São boas escolas, bons professores, boa rede de relacionamento social, ou bons privilégios sociais, por exemplo, isenção fiscal em seus rendimentos, os determinantes básicos do $uce$$o?

Os Grandes Números DIRPF 2017 Ano Calendário 2016, recentemente publicados pela Receita Federal, permitem reflexões sobre essas questões relativas ao enriquecimento pessoal. A tabela acima apresenta um ranking de ocupações principais dos declarantes em que estimei os rendimentos totais (tributáveis, exclusivos e isentos) per capita, deduzindo os mensais, além do patrimônio líquido per capita, descontando as dívidas dos bens e direitos.

Nessa média dá para verificar a extraordinária mobilidade social de certa ocupação. Devido em parte ao pequeno número, que dilui menos a concentração da riqueza, os 2.625 Diplomatas, que se situavam em quinto lugar no ranking de bens e direitos no ano anterior (DIRPF 2016-AC2015), no ano seguinte, com dois declarantes a menos (2.623), tiveram aumento cerca de 40% no patrimônio líquido per capita. Isso os levou a superar até o Titular de Cartório que tinha a maior riqueza no ano anterior. Resta para consolo deste “infeliz” que ele permanece, disparado, como o mais rico em renda, quase o dobro do segundo e do terceiro colocado, respectivamente, Membro do Ministério Público e Membro do Poder Judiciário e Tribunal de Contas (argh). Os Diplomatas ocuparam a quarta posição no ranking de renda, talvez por receberem em dólares. A cotação do dólar chegou a atingir R$ 4,16 e ficou acima de R$ 3,50 até o dia do golpe em 12 de maio de 2016.

Depois dessas, dá para ver no ranking que outras boas ocupações, em Terrae Brasilis, estão em castas poderosas. São as pertencentes a Poder Judiciário, Poder Fiscalizador, Poder Econômico, Poder Midiático ou Poder das “Celebridades” (Atletas ou Artistas). Senão, resta como boa ocupação cuidar dos poderosos: Médicos, Pilotos… Aliás, conclui-se que Poder é ter o poder de determinar a própria renda. Continue reading “Castas em Ocupações Principais”

Redução da Jornada de Trabalho para 9 Horas em 4 Dias Semanais

Fiquei feliz por encontrar no livro de Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação, A Boa Política: Ensaios sobre a Democracia na Era da Internet (São Paulo; Companhia das Letras; 2017), exatamente a mesma ideia que eu defendo. É a prova de que, quando uma ideia é racional, qualquer inteligência pode chegar a ela. Em todo tempo e lugar ela é apropriada, se for abstrata; caso seja concreta ou prática, cabe aqui-e-agora.

A conta que eu fiz é a seguinte. Em um ano há 365 dias e, durante suas 52 semanas, há 252 “dias úteis”, descontando 102 dias de fim de semana e 9 feriados.

Descontando 22 dias úteis de férias, sobrariam 230 X 8 horas = 1.840 horas de trabalho por ano. Considerando 30 anos de trabalho, são 55.200 horas trabalhadas na vida ativa.

Se a Reforma da Previdência aumentar cinco anos de vida ativa, serão mais 9.200 horas de trabalho até se aposentar, totalizando 64.400 horas, pagando mais contribuições, mas tendo menos “vida inativa” até o falecimento. Os trabalhadores só perderão.

Contrapartida para a expansão dos anos de trabalho: negociar 48 semanas X 36 horas = 1.728 horas anuais. Considerando 35 anos de trabalho, seriam 60.480 horas trabalhadas na vida ativa. Então, elevaria em 5.280 horas a carga de trabalho anterior, mas os trabalhadores teriam mais um dia livre na semana.

A dedução utópica, isto é, crítica à realidade atual, é que, tendo menos um dia sem trabalho alienante, os trabalhadores terão três dias para lazer criativo, ou seja, para criar um produto de trabalho com o qual se identifica. Um exemplo é fazer um curso de extensão para alavancagem da carreira profissional. Outro: praticar um hobby em que demonstre sua habilidade pessoal, seja como artesão, seja como esportista. Dessa forma, cada trabalhador-artesão se identificará com o resultado final – e será feliz. Continue reading “Redução da Jornada de Trabalho para 9 Horas em 4 Dias Semanais”

Experiência de Vida versus Modelo Abstrato de Ciclos de Vida Financeira

O modelo básico de ciclos de vida financeira, proposto por Franco Modigliani, economista americano de origem italiana, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1985, parte da pressuposição de que as pessoas, em geral, seguem um padrão de acumulação de patrimônio.  O gráfico acima, encontrado na web, o ilustra.

As pessoas começam suas vidas profissionais, geralmente, na faixa dos 20 anos de idade, ganhando pouco.

Após os 30 anos, entram em seu estágio de maior ascensão profissional com promoções e aumentos salariais, o que propicia maior acumulação do patrimônio, assumindo-se que as obrigações familiares, nesta fase da vida, costumam não ser tão grandes.

Entre 40 e 50 anos, começam a ficar mais conservadoras, com foco maior na preservação do patrimônio já acumulado. Com isso, a curva de crescimento de ganhos de capital, por causa da suposta relação proporcional entre risco e retorno, começa a cair.

Assim segue até chegar na idade da aposentadoria em que se supõe que a pessoa para de acumular patrimônio e começa a usar o antes acumulado para sua subsistência. Aí, a curva reverte, apontando para a exaustão do patrimônio líquido financeiro.

Pois bem, ultrapassei a idade de aposentadoria (65 anos) e minha experiência vivenciada, até agora, falseia essa hipótese. Será um “cisne negro”? Por que minha vida real colide com esse modelo abstrato de Ciclos de Vida Profissional-Financeira? Continue reading “Experiência de Vida versus Modelo Abstrato de Ciclos de Vida Financeira”

Teoria do Ciclo da Vida

A Teoria do Ciclo da Vida, elaborada por Franco Modigliani, diz respeito às motivações para demanda em longo prazo de ativos financeiros pelas Finanças Pessoais. É uma Teoria Geral, isto é, generalizável para todos os seres humanos com acesso ao mercado financeiro em todas economias de mercado?

Essa teoria parte do pressuposto (falseável) de que há queda da renda na Terceira Idade – a da aposentadoria – e por isso há a indução à acumulação prévia de ativos financeiros a fim de manter um padrão estável de consumo ao longo da vida. É verdadeira essa hipótese para os casos de capitalismo tardio, quando o Estado toma a frente do desenvolvimento, e cria, necessariamente, uma casta de sábios tecnoburocratas e outros servidores públicos, nas áreas de educação, saúde e segurança pública, entre outras?

Para atrair talentos e pagar menos na vida ativa do que as remunerações na iniciativa particular, o Estado tem de oferecer uma carreira profissional com estabilidade no emprego, ou seja, não sujeita às vicissitudes políticas das mudanças partidárias na casta dos oligarcas governantes. Além disso, paga proventos na vida inativa similares aos da vida ativa, pois o funcionalismo do setor público não tem a capacidade de acumulação com sobras de renda similares às dos seus colegas que trabalham no setor privado.

Os Phdeuses com formação neoliberal norte-americana reagem a esse questionamento habitual dos brasileiros desenvolvimentistas. Dizem que “no Brasil temos o hábito de questionar a validade de teorias globais em prol de conjecturas locais”. Usando a irônica classificação de “jabuticaba”, supostamente uma árvore frutífera nativa na Mata Atlântica brasileira, acham que “a crítica à Teoria do Ciclo de Vida é apenas uma visão do curto-prazismo tupiniquim”.

Ora, se assim fosse, em função do regime de alta inflação em conjunto com a instabilidade cambial e política brasileira, já se justificaria como racional esse comportamento míope que enxerga perto, mas não longe. É necessário baixar o nível de abstração para se aplicar uma teoria à realidade de cada lugar e tempo. Continue reading “Teoria do Ciclo da Vida”

Distopia

O termo utopia, em geral, é usado para denominar construções imaginárias de sociedades perfeitas, de acordo com os princípios filosóficos de seus idealizadores. Em sentido mais limitado, significa toda doutrina social que aspira a uma transformação da ordem social existente de acordo com os interesses de determinados grupos ou classes sociais.

Utopia é um país idealizado por Thomas More/Morus, escritor inglês (1480-1535), onde haveria uma sociedade organizada de forma racional, cujos bens seriam compartilhados por todas as pessoas. Estas passariam seu tempo livre envolvidos com trabalho criativo, e não alienante. Assim, esta sociedade viveria em paz com plena harmonia de interesses.

É possível reler o livro Utopia, publicado em 1516, como sendo uma crítica à realidade, pois, na primeira parte, Morus tece duras críticas à sociedade real em que vive, aspirando por uma sociedade perfeita. Na segunda parte, encontra-se a descrição de uma ilha idealizada com uma sociedade constituída com base na razão humana.

Então, a primeira parte se refere à Economia Positiva: “o que é”. Economia Normativa é “o que deveria ser”. Essa distinção entre uma (diagnóstico) e outra (receita) surgiu tanto da aplicação do método dedutivo-racional à Ciência Econômica, quanto da indução a partir de dados fornecidos pela experiência sensível. Esse é o método histórico-indutivo.

É possível fazer um exercício mental para resolver todos os problemas de um país? Uma única razão humana poderia resolver com isenção as questões do compartilhamento do bem comum? O grande risco das deduções racionais é, tanto seu autor, quanto eventuais discípulos, ambos passarem acreditar piamente em seu reducionismo abstrato.

Crentes fanáticos supõem sua crença ser superior às demais, adotadas por outros agrupamentos. Justificam, assim, a tentativa de implantá-la em um oportunista golpe de força legal, submetendo todos os cidadãos à própria doutrina.

Distopia é uma palavra do âmbito da Medicina que caracteriza a localização anormal de um órgão. O termo é de origem grega, formado por “dys” que significa “mau, ruim” e pelo radical “topos” que significa “lugar”. Do grego “ou+topos”, utopia significa “lugar que não existe”. É contraposto como crítica a um lugar existente.

Em Filosofia, através da mesma raiz etimológica, surge o termo distopia (ou antiutopia) como o oposto de utopia. A distopia é um pensamento filosófico que caracteriza uma sociedade imaginária controlada pelo Estado ou por outros meios extremos de opressão, criando condições de vida insuportáveis aos indivíduos. Normalmente, refere-se à realidade da sociedade atual, mas idealizada em condições extremas no futuro.
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Discurso dos Privilégios: Nova Roupagem para o Velho Discurso da Competência

Aprendemos com a filósofa Marilena Chauí, professora da USP, que o conservadorismo das posições conquistadas, segundo o “discurso da competência”, dependeria da ambição (ou da arrogância) do indivíduo se acreditar superior aos outros (“por se dizer mais competente, eficaz e sério”), em sociedade de desiguais. A condição para o prestígio e a eficácia do discurso da competência como discurso do individualismo, componente chave do credo neoliberal, depende da aceitação tácita da incompetência das outras pessoas, enquanto sujeitos sociais e políticos, por acreditar apenas no mérito próprio e exclusivo.

O filósofo prussiano Immanuel Kant (1724-1804) define a palavra esclarecimento como a saída do Homem de sua menoridade, responsabilidade a ser assumida por ele próprio. Ele define essa menoridade como a incapacidade de ele fazer uso do próprio entendimento da coisa pública.

A permanência do ser humano na menoridade se deve ao fato de ele não ousar pensar. A covardia ou a preguiça mental são duas causas que o leva a essa recusa. Um outro motivo é o comodismo: é bastante cômodo permanecer na área de conforto. Na verdade, é cômodo que existam pessoas que pensem e façam tudo, tomando decisões em nosso lugar. Porém, quando permanecemos na menoridade, somos incapazes de tomar nossas próprias decisões e fazer nossas escolhas. Continue reading “Discurso dos Privilégios: Nova Roupagem para o Velho Discurso da Competência”

Bitcoin: Nova Forma para Velha Especulação

A visão liberal da história enxerga qualquer moeda apenas como uma mercadoria a mais, escolhida segundo critério de comodidade e/ou segurança por um sistema econômico auto regulável, sem a arbitrária intervenção estatal. Assim, a história monetária se reduziria à pesquisa das distintas características essenciais ou requisitos físicos da moeda-mercadoria.

Nesse sentido, essa visão se confunde com a numismática, isto é, a ciência que se ocupa das moedas. Numisma é a moeda cunhada por senhores feudais, daí a etimologia da expressão “senhoriagem”: tributo que se pagava como reconhecimento de um senhorio. Referia-se ao direito que o concessionário da cunhagem da moeda pagava ao soberano. Na época contemporânea, se transformou na diferença entre o valor real – poder aquisitivo de fato – e o valor nominal da moeda: aquele com que o Estado emissor paga seus funcionários e fornecedores.

Na verdade, os atributos físicos requisitados para ser uma moeda pouco importam para nos entendermos sua essência. Por exemplo, a pedra-moeda, na Ilha de Yap, na Micronésia, não oferecia muita facilidade de manuseio e transporte como ocorre quando pequena quantidade corresponde a grande valor. Esculpia-se a moeda e a fincava na terra como símbolo de riqueza atribuída pela comunidade aos detentores.

Obs.: há legenda em inglês ou espanhol, clicando no canto direito inferior.

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