Desigualdade Educacional e de Renda: Retroalimentação

A melhoria na distribuição de renda, ocorrida na Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014), com hegemonia de um partido de origem trabalhista e apoio popular e de intelectuais à adoção de uma política social ativa, já foi revertida. O Brasil retomou sua característica maior: a desigualdade social. Os eleitores lúcidos necessitam convencer os demais a respeito de um Estado de bem-estar social ser aqui necessário e possível.

Já há bastante evidências empíricas de a formação hierárquica da casta de guerreiros-militares não ser um modelo adequado para os demais cidadãos. Sua lógica de ações é baseada em violência, vingança, coragem, fama, glória, etc. Aliás, esses são também valores típicos de atletas profissionais. Só um ministro da Educação muito inculto, e ressentido face à inteligência da casta dos sábios-universitários, se submete ao comando de espalhar Colégios Militares e tirar autonomia das Universidades Federais.

O Poder Militar dessa casta da farda, historicamente, pressiona as demais. Por exemplo, arrancou do Poder Político ou Legislativo, ou seja, da casta dos oligarcas de gravata no Congresso Nacional, mais privilégios na carreira profissional, se comparada à dos civis. Depois destes terem cortados direitos trabalhistas e previdenciários destes, o projeto de reforma da Previdência dos militares, originalmente proposto pelo governo do capitão, foi ampliado para os praças, cadetes e sargentos das Forças Armadas terem os mesmos aumentos salariais dos generais para felicidade geral nos quarteis.

A suavização da regra de transição beneficia principalmente os policiais militares dos Estados, onde é possível se aposentar com 25 anos de serviço, mas também atingirá as Forças Armadas. O relator estendeu as regras da reforma aos policiais e bombeiros militares, carreiras estaduais não inicialmente contempladas no projeto do governo. A regra de transição, a partir da sanção da reforma, durará 25 anos. Só́ a partir de 2044 serão exigidos os 30 anos como militar para aposentadoria especial.

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Economia Comportamental para Superação da Crise do Pensamento Econômico

No livro “Animal Spirits – How Human Psychology Drives The Economy, And Why It Matters For Global Capitalism”, os coautores George A. Akerlof & Robert J. Shiller, afirmam: a vida ocasionalmente tem seus momentos reveladores.

Para a economia mundial, o dia 29 de setembro de 2008, há onze anos, foi um daqueles marcantes momentos reveladores. O Congresso dos EUA recusou, embora mais tarde tenha se revertido, a aprovação do plano de resgate de US $ 700 bilhões proposto pelo secretário do Tesouro Henry Paulson. O índice da bolsa Dow Jones caiu 778 pontos. Os mercados de ações caíram em todo o mundo. De repente, o que parecia apenas uma possibilidade remota – uma repetição da Grande Depressão – passou a ser uma perspectiva real.

A Grande Depressão foi a tragédia do século passado. Nos anos 30, levou ao desemprego em todo o mundo. Então, como se a Depressão em si não tivesse causado sofrimento suficiente, o vácuo de poder criado levou à Segunda Guerra Mundial. Mais de 50.000.000 morreram prematuramente.

Uma repetição da Grande Depressão é agora uma possibilidade, porque economistas, governo e público em geral se tornaram complacentes nos últimos anos. Eles esqueceram as lições da década de 1930. Naqueles tempos difíceis, aprendemos como a economia realmente funciona. Também aprendemos o papel adequado do governo em uma economia capitalista robusta.

Este livro “Animal Spirits – How Human Psychology Drives The Economy, And Why It Matters For Global Capitalism” recupera essas lições, além de oferecer uma revisão moderna. Para ver como a economia mundial entrou em seu vínculo atual, é necessário entender essas lições. Mais importante ainda, precisamos entendê-los para saber agora o que deve ser feito.

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Ciência Econômica: Teste Científico de Hipóteses para Comprovar Pressupostos Ideológicos

Mohsen Javdani & Ha-Joon Chang fizeram a pesquisa e escreveram o relatório intitulado “Who Said or What Said? Estimating Ideological Bias in Views Among Economists”, recém-publicado em julho de 2019. Sua conclusão está apresentada abaixo.

“Utilizamos um experimento controlado randomizado on-line envolvendo economistas em 19 países para examinar a influência do viés ideológico e de autoridade nas opiniões dos economistas. Os economistas participantes de nossa pesquisa foram convidados a avaliar declarações de economistas de destaque sobre diferentes tópicos.

No entanto, a atribuição da fonte para cada declaração foi randomizada sem o conhecimento dos participantes.  Para cada declaração, os participantes receberam uma fonte mainstream, uma fonte menos / não mainstream ou nenhuma fonte.

Concluímos o nível de concordância relatado dos economistas com as declarações ser significativamente menor quando as declarações são atribuídas aleatoriamente a fontes menos / não convencionais. Estas mantêm visões ou ideologias amplamente conhecidas capazes de as colocarem a diferentes distâncias da Economia convencional, mesmo quando essa distância é maior ou relativamente pequena.

Além disso, nós descobrimos a remoção da atribuição de origem também reduzir significativamente o nível de concordância com as declarações. Continuar a ler

O que os economistas ainda têm de aprender

Mark Cliffe (Valor, 10/09/2019) escreveu o artigo reproduzido abaixo.

“A macroeconomia foi uma das vítimas da crise financeira mundial de 2008. Os modelos macroeconômicos convencionais não previram a calamidade nem a explicaram de forma coerente, com o que foram incapazes de mostrar como os danos deveriam ser reparados. Apesar disso, grande parte da profissão continua em estado de negação, ansiando pela volta ao “normal” e tratando a crise, na prática, como se tivesse sido apenas uma interrupção inconveniente.

Isso precisa mudar. Embora a recuperação econômica tenha criado raízes, suas fragilidades estruturais sinalizam que a macroeconomia ainda precisa urgentemente de uma reformulação. A recuperação dos últimos anos levou muitas pessoas a uma falsa sensação de segurança, porque foi resultado de políticas monetárias incomuns que transcenderam a mentalidade predominante de “equilíbrio geral”.

Além disso, os modelos econômicos pré-crise têm suado bastante para conseguir lidar com a desestabilização desencadeada pelas tecnologias digitais emergentes. A economia digital é caracterizada pelo aumento nos retornos de escala, graças aos quais as gigantes da tecnologia conseguem rapidamente se aproveitar dos chamados “efeitos de rede” para dominar um conjunto cada vez maior de mercados. Isso tem virado de ponta-cabeça modelos de negócios vigentes e transformado os comportamentos de formas que deixam macroeconomistas e autoridades econômicas lutando – muitas vezes sem sucesso – para acompanhar o ritmo.

Consequentemente, a crença generalizada de a atividade econômica ser capaz de, por si só, seguir um ciclo regular em torno a uma tendência estável de crescimento não é muito útil além do curtíssimo prazo. Em vez disso, as interrupções econômicas que estamos vivendo colocam em evidência um fato óbvio, mas que os modelos prevalecentes desconsideram: o futuro é, essencialmente, incerto e nem todos os riscos são quantificáveis. Continuar a ler

Quem disse ou o que disse? Estimando o viés ideológico nas visões de economistas

Mohsen Javdani é do Department of Economics, University of British Columbia – Okanagan, Canada. Ha-Joon Chang é da Faculty of Economics, University of Cambridge, Cambridge, UK. Ambos fizeram a pesquisa e escreveram o relatório resumido abaixo em artigo intitulado “Who Said or What Said? Estimating Ideological Bias in Views Among Economists”, recém-publicado em julho de 2019.

Existe um longo debate sobre a influência da ideologia na Economia. Surpreendentemente, no entanto, não há evidências empíricas concretas para examinar essa questão crítica. Usando um experimento controlado randomizado on-line envolvendo economistas em 19 países, examinaram o efeito do viés ideológico nas opiniões dos economistas.

Os participantes foram convidados a avaliar declarações de economistas de destaque em diferentes tópicos, enquanto a atribuição de fonte para cada declaração foi randomizada sem o conhecimento dos participantes. Para cada declaração, os participantes receberam uma fonte principal, uma fonte menos / não convencional ideologicamente diferente ou nenhuma fonte. Concluíram caso alterassem as atribuições de fonte do mainstream para menos / não mainstream ou removê-las reduz significativamente o acordo relatado pelos economistas com as declarações.

Isso contradiz a autoimagem dos economistas. Eles imaginam objetividade a respeito de si mesmos, com 82% dos participantes relatando, ao avaliar uma afirmação, prestar atenção apenas ao seu conteúdo.

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Debate Midiático no Brasil: Boicote a Economistas Desenvolvimentistas

Compartilho abaixo, valendo mais pela indicação de leitura do artigo, cujo link está à disposição, a reportagem de Cyro Andrade (Valor, 20/09/2019) sobre a investigação empírica de Ha-Joon Chang e Mohsen Javdani mostrando o viés ideológico influenciando ideias e julgamentos de economistas. Aqui, uns defendem a aliança da casta dos mercadores com a dos militares, outros apoiam a da casta dos trabalhadores com a dos sábios-intelectuais.

Ora, esta defesa de interesses de castas diversas é o óbvio ululante, basta ler o próprio jornal Valor, O Globo ou ver Globo News! Essa rede só dá colunas para economistas neoliberais preconceituosos contra os colegas social-desenvolvimentistas. Eles usam e abusam dos maus argumentos listados no quadro acima.

“Economistas da ala de pensamento hoje dominante em seu meio profissional, dentro e fora da academia, tendem a se considerar os campeões da racionalidade. Sua concepção estritamente positivista da disciplina, de inspiração chamada neoclássica, os distinguiria de qualquer outro paradigma econômico: são objetivos, imparciais e nem um pouco ideológicos — atributos com que emolduram sua inabalável ortodoxia.

No entanto, como comprovaram em investigação empírica inédita os economistas Mohsen Javdani, professor na Universidade de British Columbia, no Canadá, e Ha- Joon Chang, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, não faltam evidências de o viés ideológico, entendido como inclinação preconcebida para determinadas valorações cognitivas e normativas, influenciar ideias e julgamentos dos economistas, indistintamente, sejam ortodoxos ou heterodoxos.

Convidados para participar do estudo, opinaram 2.425 economistas de 19 países (47 brasileiros), sendo 92% PhDs em economia. O artigo que Javdani e Chang escreveram a respeito “Who Said or What Said? Estimating Ideological Bias in Views Among Economists”, com detalhada exposição metodológica, pode ser baixado ou lido em: https://www.researchgate.net/publication/330845922_Who_Said_or_What_Said_Estimating_Ideological_Bias_in_Views_Among_Economists. Continuar a ler

Redução da Jornada de Trabalho Semanal para quatro dias: bandeira-de-luta

BBC News Brasil (FSP, 07/09/19) fez uma reportagem sobre tema defendido por mim como um novo direito da cidadania a ser conquistado: a redução da jornada de trabalho semanal para quatro dias.

A história é familiar: um trabalhador finalmente se aposenta e se sente perdido sobre como preencher longos dias sem ocupação. Para as pessoas que dão muito valor a identidades profissionais, a rotina sem trabalho nada mais é que uma versão pálida da vida.

Andrew Yang, pré-candidato presidencial democrata nos EUA, expressa alguns dos medos comuns sobre a falta de trabalho quando diz: “Está claro pelos dados, pelo senso comum e pela experiência humana que muitas, muitas pessoas não ficam bem sem trabalho. Ficamos ociosos e oferecemos menos, apesar de termos mais tempo. E, com o tempo, tendemos a jogar videogames e a beber mais. A sociedade geralmente se sai muito mal sem trabalho“.

No entanto, não há consenso de que o emprego remunerado seja a chave para uma vida ativa.

O conceito japonês de “ikigai“, por exemplo, expressa “felicidade na vida“, ou o “motivo de acordar de manhã”. Entre as mulheres e homens japoneses pesquisados em 2010, menos de um terço citou o trabalho como ikigai.

Hobbies, relacionamentos e trabalho não-remunerado: tudo isso pode resultar em uma vida rica e significativa. A ponto de a aposentadoria poder se tornar até um conceito estranho, como acontece em Okinawa, no Japão, uma cidade cujos moradores são conhecidos por terem vida longa.

Por outro lado, para muitas pessoas em empregos precários, com baixos salários ou com recursos limitados de aposentadoria, preocupar-se com a vida fora do trabalho pode ser um luxo inacessível. Continuar a ler