Nomenklatura à Brasileira: PT-PSDB

Cristiano Romero (Valor, 31/03/22) narra alguns fatos desconhecidos sobre nomeação de sábios-tecnocratas, no primeiro governo Lula.

No início do segundo ano do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Presidência da República, estourou o primeiro caso ruidoso de corrupção do governo petista. O escândalo envolvia assessor direto do então poderoso ministro José Dirceu.

Ainda que se soubesse da ocorrência de malfeitorias em gestões do partido em prefeituras, o episódio surpreendeu petistas, simpatizantes e oposicionistas. A ética, como ocorre com frequência em eleições no Brasil, foi a principal bandeira das campanhas do PT nos pleitos de 1989 a 2002.

O desgaste foi debitado inteiramente na conta de Zé Dirceu, que, além de exercer o papel tradicional do chefe da Casa Civil (coordenação de todos os ministérios, análise prévia dos principais atos de governo, formatação de projetos de lei, medidas – provisórias etc.), era o responsável pela articulação política. Por essa razão, o ministro era o principal alvo da oposição para enfraquecer Lula.

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Assédio Estrangeiro por Profissionais de TI e Ciências dos Dados

Bárbara Bigarelli (Valor, 03/03/22) publicou reportagem oportuna para a elaboração de estratégias profissionais para jovens na hora de escolha de aprendizagem e profissão.

No fim de janeiro, um gerente de projetos de uma consultoria de tecnologia de Teresina (PI) viralizou no Twitter ao contar que perdeu dois funcionários para empresas estrangeiras. “Ambos são jovens, um aliás tem 23 anos, vão ganhar de R$ 30 mil a R$ 45 mil, contando a conversão do dólar, trabalhando em home office – em Belém (PA) e Sete Lagoas (MG)”.

Desde outubro, cinco profissionais de sua empresa, a maioria desenvolvedores, aceitaram propostas semelhantes. “Nós pagamos salário competitivo, de R$ 13 mil a R$ 15 mil para seniores, oferecemos flexibilidade e benefícios, mas enquanto o real estiver desvalorizado assim, não vejo como empresas brasileiras reterem esses talentos.”

Recrutadores e diretores de tecnologia confirmam esse assédio estrangeiro, intensificado em 2021 com a consolidação do modelo de trabalho remoto. Tem muitos clientes americanos e europeus procurando para contratar profissionais aqui no Brasil, de forma remota, e esta tendência não deve diminuir.

O trabalho remoto ampliado na pandemia abriu as portas para a internacionalização desses profissionais e o avanço da digitalização em negócios do mundo todo causou uma demanda desenfreada. O perfil mais demandado é o de desenvolvedor sênior – com bom nível de comunicação em inglês, ao menos cinco anos de experiência e capacidade de trabalhar remotamente com autonomia.

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Por qual razão há tão poucas economistas?

Tim Harford (FT, 30/08/21) publicou um artigo sobre tema de interesse de minhas colegas amigas — e meu.

Quando Elinor Ostrom se tornou a primeira mulher a receber o Prêmio Nobel de Economia, em 2009, ela brincou: “Não serei a última”. Desde então, ela provou estar certa, mas ainda assim era espantosamente tarde para se chegar a tal marco. Somado a esse constrangimento está o fato de que Ostrom, que morreu em 2012, recebeu o prêmio apesar de estar de fora da corrente principal das ciências econômicas. Isso significa que a economia tem um problema com as mulheres? E as mulheres têm um problema com economia?

No início do verão, a Royal Economic Society publicou um relatório que analisa o desequilíbrio de gênero na área da economia no Reino Unido. O quadro não é encorajador. O trabalho acadêmico sobre economia continua a ser uma atividade predominantemente masculina, e quanto mais alto o cargo, mais ele é dominado por homens.

Parte do problema é a precariedade dos empregos acadêmicos de começo de carreira em todos os campos e as exigências de publicação de trabalhos em um ritmo frenético no momento em que muitas mulheres pensam em tirar licença-maternidade

As mulheres são 32% dos estudantes universitários de Economia (eram 27% em 1996) e 26% por cento dos economistas que trabalham na área acadêmica (ante 18% em 1996). Ao longo de um quarto de século, o ritmo desse avanço não é inspirador. Também é uma má notícia para a Economia. A economista Diane Coyle, professora de políticas públicas em Cambridge, coloca a questão de forma sucinta: “Não é possível produzir ciências sociais de qualidade se você é tão pouco representativo da sociedade”.

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Formação e Mercado de Trabalho de Economistas. Baixe o Livro.

A Lei nº 1.411, de 13 de agosto de 1951, dispõe sobre a profissão de Economista. Em seu Art. 3º reza: para o provimento e exercício de cargos técnicos de Economia e Finanças, na administração pública, autárquica, paraestatal, de economia mista, inclusive bancos, cujos acionistas forem os Governos Federal e Estadual, nas empresas sob intervenção governamental ou nas concessionárias de serviço público, é obrigatória a apresentação do diploma de bacharel em Ciências Econômicas, ou título de habilitação.

Portanto, comemoramos neste mês 70 anos da minha profissão. É data inesquecível, para mim, porque no próximo mês comemorarei 70 anos de vida. Outra coincidência é, neste ano, constatei ter exatos 50 anos de estudos em Economia. Iniciei meu curso de graduação na FACE-UFMG em 1971, depois de ter feito o vestibular único no Estádio “Mineirão”, com todos os candidatos sentados na arquibancada dura de concreto.

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Conclusão da Sobrevivência como um Economista Não-Mainstream

As ideias de David Colander, neste breve guia [Surviving as a Non-Mainstream Economist], sobre como um jovem economista tem chances de subir em carreira acadêmica podem ser resumidas em quatro pontos:

1. Decida o que é a boa Economia: tome isso como seu objetivo final, mas faça com a busca por esse objetivo ser limitada pelo ambiente institucional. Inicialmente, trabalhe naquilo dito pelo ambiente institucional atual ser para você trabalhar, pelo menos o suficiente para ter sucesso nesse ambiente institucional. Trabalhe em ideias às quais o ambiente institucional atual não valoriza caso você disponha de tempo, mas trate esse trabalho como um luxo, não como sua pesquisa principal.

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Realidades para Publicação Acadêmica

Você se pergunta: como alguém iniciante publica nessas revistas “certas”? Você não faz isso lendo um artigo, obtendo uma ideia desse artigo e trabalhando dois anos em cima de seu artigo. 

A razão é: o que é publicado geralmente era de interesse no ano passado. Provavelmente, não será do interesse do próximo ano, quando você estiver finalmente pronto para enviar seu artigo. 

A publicação de um artigo de revista acadêmica [muito vista e pouco lida] é, em muitos aspectos, uma lápide para um debate econômico, não uma abertura dele.

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Realidades para se manter em um Emprego Acadêmico

Geralmente, as regras de permanência em uma escola não são as estabelecidas às claras. Em sua discussão inicial com essas escolas, é importante descobrir quais são as regras reais para tomar posse no cargo. Embora seja, novamente, difícil de generalizar, David Colander tenta.

1. Frequentemente, o ensino recebe uma classificação muito mais baixa nos critérios de promoção em lugar da pesquisa. As regras declaradas geralmente incluem uma divisão uniforme entre ensino, serviço e pesquisa. Mas as regras reais são, frequentemente, 75% de pesquisa, 20% sendo amigável com as pessoas certas, 5% com ensino.

2. Pesquisa raramente significa ensinar pesquisa relevante. Pesquisa significa publicar “em certas” revistas. Os periódicos “certos” diferem entre as escolas, mas a regra geral é: quanto mais alta a classificação do periódico em alguma classificação, mais “correto” ele provavelmente será. (Por isso, existem tantas classificações alternativas; pode-se escolher a classificação capaz de atender ao seu propósito.) 

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Realidades do Mercado de Ensino para Economistas

O mercado de ensino para economistas, como qualquer outro mercado de trabalho, tem características próprias. Alguns dos mais relevantes para alunos de pós-graduação, segundo David Colander, em Surviving as a Non-Mainstream Economist, são:

1. A contratação geralmente é feita com base em credenciais, não em qualificações reais. Quanto mais graduada for a pessoa, mais provável será uma oferta de uma escola de nível médio.

2. Recomendações de pessoas importantes são extremamente importantes. Entrevistas de alto nível no campus de uma Universidade são quase sempre baseadas em ligações pessoais de um conselheiro atestando isso – o candidato é um cliente potencial. Existem poucos profissionais walk-ons [acima de qualquer suspeita] na Economia. Além disso, é importante reconhecer: todas as cartas de recomendação devem ser positivas; até mesmo uma ligeira observação negativa pode prejudicar significativamente se você estiver no grupo geral de candidatos.

3. Contatos informais – e telefonemas de seus conselheiros e amigos – são importantes para o candidato ser considerado para certo emprego.

4. Depois de ser considerado apto para um emprego, o fator determinante mais importante para conseguir um emprego é a impressão causada nos tomadores de decisão. É muito útil conhecer suas pesquisas e suas abordagens antes de apresentar um artigo publicado.

5. A situação geral do mercado de trabalho, em áreas específicas, desempenha um grande papel nas suas chances de ser contratado no mercado geral.

6. Os mercados de trabalho são segmentos internos às escolas. Existe muito mais flexibilidade para novas contratações em vez de para aceitar mudanças laterais, isto é, mudança de escola pelo docente após alguns anos. Assim, é importante escolher uma escola com a qual você seja compatível em longo prazo.

7. As nomeações temporárias, ao atenderem às qualificações exigidas pelas escolas. costumam ter uma pista privilegiada para empregos com estabilidade permanente, caso tal emprego apareça. No entanto, empregos temporários com foco no ensino, em uma universidade voltada para a pesquisa, são inevitavelmente empregos sem saída.

8. Se você deixar a escola após um período de tempo, provavelmente se mudará para uma escola de classificação inferior. Se você deseja mudar de escola muito cedo, é mais difícil conseguir um emprego em comparação a quando você acabou de entrar no mercado de trabalho, após a pós-graduação.

Devido à natureza interna do mercado de trabalho, a escolha inicial da escola é muito importante para o seu sucesso. Deve ser escolhido com conhecimento específico de quais são as reais expectativas de ensino e pesquisa da escola.

 Se você quer fazer a carreira em Economia do seu jeito, e isso difere do jeito tradicional, aceite o emprego em uma escola onde as pessoas estão abertas à sua abordagem, não o emprego na escola de melhor classificação a oferecer um.

Encontrando um Compromisso Aceitável como Economista

Se alguém concordar com David Colander, em Surviving as a Non-Mainstream Economist, sobre essas diferenças entre o que se faz e o que se deveria fazer, a verdadeira questão é até qual ponto se deve fazer “bom trabalho” e até qual ponto a estrutura institucional recompensa. 

Ao sair por aí e conversar com alunos de pós-graduação e jovens professores, Colander fica continuamente surpreso com a ingenuidade de muitos deles. Eles pensam na profissão de economista como: 

  1. pura busca acadêmica na qual a busca pela verdade será recompensada, 
  2. o trabalho de qualidade sobrepujará o trabalho de não qualidade e 
  3. as pessoas serão julgadas pelos méritos de seu ensino e pesquisa. 

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Incentivos Institucionais para Carreira Docente em Economia

– “Então, o que você está nos aconselhando a fazer é focar no ensino e fazer pesquisa orientada para o ensino, certo?”

– “Errado, errado, errado”, diz David Colander, pegando outro uísque. “Lembre-se do dito no início de nossa conversa [Surviving as a Non-Mainstream Economist]. Para decidir como seguir a Economia, você deve primeiro decidir o que a Economia deveria ser, mas essa decisão é simplesmente uma decisão preliminar para decidir como se deveria realmente trabalhar em Economia.

Para decidir como aplicar a Economia, você deve relacionar o que acredita dever ser feito com os incentivos institucionais para fazer o que o levará à frente. Se praticar Economia da maneira acreditada por você necessária de ser feito levar você a ser expulso da profissão, então não é uma boa estratégia para seguir adiante em Economia. 

A realidade é, se você quiser sobreviver, terá de seguir a carreira em Economia de uma forma a satisfazer as restrições institucionais. Do contrário, você não sobreviverá como economista. 

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Papel da Pesquisa em Bom Ensino

Adam Smith, Karl Marx, Joseph Schumpeter e John Maynard Keynes

Visto o ensino ser fundamental, sob o ponto de vista de David Colander, pode-se pensar ele dar pouca importância à pesquisa. Essa crença seria errada por duas razões. 

A primeira é ele gostar de pesquisa abstrata. Essa é a razão pela qual foi inicialmente atraído pela Economia: foi pago para jogar todos esses jogos divertidos com nenhuma relevância para nada. Ele ainda gosta de colocar seus dois centavos quando jogo com esses quebra-cabeças. 

No entanto, depois de Colander “jogar o jogo” da Economia por um tempo, ele perdeu um pouco do seu prazer e parecia estar cada vez mais distante da realidade. Começou a olhar para a profissão de economia do ponto de vista da sociedade. Foi quando escreveu o livro Why Aren’t Economists as Important as Garbagemen? (Sharpe Publishing, 1991).

Essencialmente, ficou convencido de a profissão de economista estar extraindo renda da sociedade, e não produzindo o suficiente dos serviços desejados e precisados pela sociedade de ser ensinado como raciocínio econômico. Tudo isso não quer dizer a pesquisa abstrata não ter função. 

Mas não é o aspecto da Economia, segundo Colander acredita, mais valorizado pela sociedade, nem é o tipo de pesquisa a obter altas classificações em avaliações de estabilidade no emprego, em escolas de Artes Liberais, nem em escolas de pós-graduação.  Para o desenvolvimento dessas ideias, ver Colander and R. Brenner (editors). Educating Economists. University of Michigan Press, 1992 

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Uma conversa em fim da noite entre velho e jovens professores economistas

O cenário: um saguão de hotel por volta das 23h, após uma conferência de economia. Estou aí com um scotch. Alguns jovens professores assistentes estão sentados lá comigo.

– “Tudo bem, Colander”, diz um deles. “Você é um grande moralizador. Então, como a Economia deve ser seguida?”

“Meu primeiro conselho é o meu aviso-padrão sempre ao dar um conselho: – Ouça esse conselho, mas não necessariamente o siga.”

Tendo me absolvido da culpa – e eu a sentiria se alguém realmente seguisse meu conselho –, vou direto ao realmente importante.

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