Formação do Economista no Brasil Contemporâneo

tdie-279

Resumo: O objetivo deste artigo — TDIE-279 – Formação do Economista no Brasil Contemporâneo — é apresentar alternativas metodológicas para o ensino de Economia no Brasil contemporâneo.

A análise do conteúdo dos cursos é realizada em três níveis de abstração:

  1. Ciência Econômica Abstrata ou Economia Pura,
  2. Economia Aplicada,
  3. Arte da Economia.

Cada um deles se divide entre:

  1. Economia Positivao que é – e
  2. Economia Normativao que deveria ser.

A principal proposta é de superação da formação “ortodoxa” dos economistas brasileiros por uma atualizada com a nova fronteira teórica pluralista e interdisciplinar.

Como argumentação em defesa da hipótese de que a formação contemporânea, em tempos de crise, deve ser mais generalista, exigindo maior abertura teórica e tolerância ideológica, faz uma breve análise da história do pensamento econômico brasileiro e examina a situação dos cursos e do profissional formado por eles.

MotivaçãoCarta Convite da ANGE ao Fernando Nogueira da Costa

cartaz_ange_2016Programação do XXXI Congresso da ANGE

Para Pregar Corte de Salários É Necessário Novo-Desenvolvimentista?

salarios-do-setor-publico-e-do-setor-privado Um efeito positivo da Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014), com hegemonia de um partido de origem trabalhista na coalizão presidencialista, afinal traída e golpeada, foi a melhor distribuição da renda do trabalho, em que pese o agravamento da concentração da riqueza financeira e imobiliária. Outro foi a recuperação dos salários dos servidores públicos que tinham sido aviltados na Era Neoliberal (1995-2002).

Paradoxalmente, supostos aliados dos social-desenvolvimentistas, os economistas novos-desenvolvimentistas, além de pregar o choque cambial-choque inflacionário-choque de juros, passaram a defender o corte não só dos salários reais com esse triplo choque, mas também dos salários nominais do setor público! Surge logo a pergunta, com aliados como estes, quem precisa de inimigos como os neoliberais?

Bresser-Pereira, no artigo “Reflexões sobre o Novo Desenvolvimentismo e o Desenvolvimentismo Clássico” (Revista de Economia Política, vol. 36, nº 2 (143), pp. 237-265, abril-junho/2016), já tinha criticado que “o social-desenvolvimentismo não só carece do status de sistema teórico, mas também comete graves erros de política econômica e revela incapacidade de compreender os problemas políticos envolvidos no desenvolvimento econômico. Essa incapacidade origina-se em sua dificuldade para compreender a lógica do desenvolvimento capitalista – uma lógica frequentemente perversa, mas da qual o formulador de políticas não pode fugir. Tome-se por exemplo as crises econômicas e o custo dos ajustes macroeconômicos. Recaem sobre os trabalhadores, cujos salários são reduzidos, e sobre os rentistas, cujas taxas de juros e preços dos ativos caem, e não sobre os lucros, já que o objetivo do ajuste é restaurar a taxa de lucro”.

Sem dúvida, os social-desenvolvimentistas lutam para escapar dessa lógica – e fazer com que o custo do ajuste atinja principalmente os rentistas. Achamos que é possível alcançar esse objetivo, simplesmente, reduzindo-se a disparidade da taxa de juros. Contra essa instituição econômica extrativista – a maior taxa de juro do mundo fixada, arbitrariamente, pelo Banco Central do Brasil – que todos os desenvolvimentistas deveriam se aliar – e não digladiar uns contra os outros.

Decorrente desse argumento que a lógica perversa é inelutável, os novos-desenvolvimentistas propõem-se a defender, aliando-se assim aos neoliberais, o corte de gastos com pessoal no governo! Continue reading “Para Pregar Corte de Salários É Necessário Novo-Desenvolvimentista?”

Mudança no Teto Salarial do Servidor Público no Estado de São Paulo

DIRPF 2014-13

Declarantes por faixa de SMObs.: dados por declarante (per capita) com valores em R$ (rendimento anual).

Completarei, em 28 de setembro de 2016, sessenta e cinco anos de idade. Eu poderia me aposentar desde novembro de 2011. Porém, considerando a responsabilidade social da minha atividade intelectual como educador e pesquisador em dedicação exclusiva que exerço no IE-UNICAMP — e ainda me honram os convites para palestras em outras Universidades e Sindicatos –, persevero como professor.

No entanto, sinto certa indignação por minha situação profissional. Atingi, depois de 30 anos de carreira docente, a maior titulação acadêmica possível com base em produção científica publicada e defesa de quatro teses originais perante bancas julgadoras em concursos públicos: Professor-Titular. Apesar de ter direito a ganhos brutos de 32 salários mínimos, recebo líquido, depois de todos os descontos, inclusive plano de saúde, com grau de confisco de 50%, cerca de 16 salários mínimos!

Com o aumento do custo de vida, em 2015, ficou difícil manter um padrão de vida do tipo Classe B, isto é, acima de R$ 11.600 em renda familiar. Somando com a Classe A, seriam 25% da população nessas duas classes — leia em Velha Classe Média: Mobilidade Social para Classes A e B. Tenho em meu orçamento doméstico a manutenção de duas residências: a minha em Campinas e a dos meus filhos que trabalham e estudam em São Paulo.

Obviamente, sei que é uma remuneração acima do que recebe 99% da população ocupada, mas pelo menos 8% dos contribuintes (2,233 milhões na tabela acima) estão em faixas superiores desse rendimento líquido, i. é, acima de 20 salários mínimos.

Porém, minha indignação é pelo Redutor Constitucional que o governador de São Paulo (Estado gerador da maior renda no País) impôs, arbitrariamente, na carreira universitária baseada em mérito acadêmico: R$ 4.332,29 por mês ou cerca de R$ 52.000 por ano! Sinto-me lesado em algo pelo que batalhei toda minha vida: alcançar independência financeira apenas com meu trabalho na Universidade.

A referência para o teto da remuneração de servidores públicoscasta dos sábios-tecnocratas — é o rendimento da casta da aristocracia governante, no caso, o dos Ministros do Supremo Tribunal Federal. Sem considerar demais benesses (auxílio-moradia, automóvel com motorista e combustível, plano de saúde, passagens aéreas, etc.). Eles tiveram aumento de 16,38%, com o salário passando dos atuais R$ 33.763 para R$ 39.293,38, ou seja, 44,65 salários mínimos.

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Economista: Agente Racional

Número de Concluintes em Áreas de Negócios

Há racionalidade em se tornar um economista? De acordo com a Tabela de Salários no Brasil, elaborada pela consultoria Robert Half e publicada pela revista Exame, o salário inicial de um economista é de R$ 3.000,00, podendo chegar a R$ 40.000,00:

  • Economista Júnior: R$ R$ 3.000,00 a R$ 6.000.00
  • Economista Pleno: R$ 6.000,00 a R$ 10.000,00
  • Economista Sênior: R$ 10.000,00 a R$ 20.000,00
  • Economista Chefe: R$ 20.000,00 a R$ 40.000,00

O levantamento salarial do site de empregos Catho indica que o cargo de economista tem salário a partir de 3 mil reais, podendo chegar a 6,5 mil reais. A média salarial nacional para a posição de economista, segundo o site, é de R$ 3.780,21.

O site SALARIÔMETRO (http://www.salarios.org.br/#/salariometro) indica que o valor R$ 3.694,00 representa o salário médio inicial para a ocupação CBO 251215 – Analista Financeiro (economista) com o perfil escolhido nesta consulta. Foi calculado com base em todas as 1398 contratações observadas entre nov/2015 e abr/2016. Já com base nas 436 contratações observadas na faixa de idade de 25 a 29 anos, o valor era de R$ 3.822,00. Com base nas 43 contratações observadas de profissionais na faixa de idade de 50 a 64 anos, o valor era de R$ 4.914,00. Continue reading “Economista: Agente Racional”

Pergunta-Chave: Economistas são necessários?

Relação:C:V 1991-1996-2002Número de Cursos Matrículas e Concluintes 1990-95-2002A queda da relação candidato / vaga do curso de Economia em IES privada vem desde a Era Neoliberal (1990-2002) como a Tabela 3 acima indica. Em que pese isso, a oferta de vagas em faculdades privadas continuou se expandindo.

Em 2014, formaram-se 5.569 economistas, ou seja, número abaixo do de 2002 (7.654) e pouco acima do de 1990 (5.343) — ver Tabela 4. Grosso modo, nesse quarto de século, é possível estimar que graduou-se um número próximo de 150 mil economistas. Será que todos estão ocupados? Exercem a profissão?

Face ao debate a respeito dos motivos da queda da demanda por cursos de Economia que não pertencem a centros de ensino de excelência, é comum se confundir demanda por formação em Ciências Econômicas com demanda do mercado de trabalho. Para essa hipótese ser verdadeira, os adolescentes-vestibulandos teriam informações perfeitas sobre flutuações da conjuntura econômica! E, sendo assim, dispensariam estudar Economia… Continue reading “Pergunta-Chave: Economistas são necessários?”

Profissão: Economista

Área de Negócios 2003 X 2014

Coordenadores de Ensino têm se queixado da queda da demanda de vestibulandos pelo Curso de Economia. Muitos cursos ficam em torno da média, por exemplo, da Universidade Estadual de Londrina (UEL): 3 candidatos / vaga (C/V). Em 2015, PUC-SP ficou com C/V de 2,3 e a PUC-RJ, 4,9 (541 por 110). Esta aumentou para 5,3 em 2016. No caso da UFRJ, em 2010, teve 1.292 candidatos para 160 vagas, ou seja, C/V de 8,1. Em 2011, diminuiu a oferta de vagas para 120 e com 1.389 candidatos aumentou sua relação para 11,6. Ela fica na Praia Vermelha.

Na Praia de Botafogo, a FGV/EPGE – Escola Brasileira de Economia e Finanças, apenas no período diurno, conceito 5 (Máximo) no ENADE, obteve relação C/V de 15,1 no vestibular de 2015. A FGV/EESP – Escola de Economia de São Paulo, cobrando mensalidade de R$ 3.506,00, exigindo período integral, também obteve relação C/V de 15 no primeiro vestibular do mesmo ano 2015.

Por sua vez, o INSPER, cujo valor da mensalidade para Administração e Economia durante o ano de 2016 é R$ 3.920,00, enquanto o de Engenharia é R$ 3.136,00, oferece 150 vagas em Administração (concorrência de 6,62 candidatos/vaga) e 75 em Economia (concorrência de 4,81 candidatos/vaga). Seu aluno pode obter dupla titulação em Administração e Economia, cumprindo horário integral (manhã e tarde) com apenas um ano a mais de estudo. Com apenas mais um ano de pagamento dessa mensalidade, ele pode se graduar em ambos os cursos. Como isso é possível? O INSPER afirma que sua grade curricular é fortemente integrada.

A FUVEST 2016, encarregada do vestibular da USP, anunciou para Economia, Administração, Ciências Contábeis e Atuária em São Paulo 590 vagas para 5745 candidatos, ou seja, a relação C/V de 9.7. Para Economia Empresarial e Controladoria em Ribeirão Preto, respectivamente, 63; 373; e 5,9. Para Economia em Piracicaba: 40; 299; e 7,5. Para Economia em Ribeirão Preto: 40; 465; e 11,6.

O IE-UNICAMP tem uma trajetória histórica distinta em termos de sua demanda comparada com a desses cursos. No vestibular de 1996, ofereceu 70 vagas e teve 1.190 inscritos: C/V de 17. Em 2003, já com a ampliação de mais 35 vagas em Curso Noturno, teve neste a C/V de 21,2 e aumentou no Integral para 21,5. Em 2015, aumentou neste Integral para 24,4 e em 2016 para 25,6. No Noturno, nesses últimos anos, C/V de 21,7 e 26,1. Em outras palavras, sua graduação (“heterodoxa”, sic) se destaca por ter demanda “fora-da-curva”, isto é, com inclinação positiva e crescente! Continue reading “Profissão: Economista”

Formação Tardia da Sub-Casta dos Sábios-Universitários no Brasil

Evolução das Estatísticas do Ensino Superior no Brasil 1962-1998Gráfico 1962-1998

O atraso cultural de nosso País está revelado na história brasileira da formação tardia da sub-casta dos sábios-universitários. Ela se diferencia da casta dos sábios-pregadores ou sacerdotes de outrora. Está bem ilustrada no gráfico acima. Antes da “modernização conservadora” da ditadura, ocorrida após o Golpe Militar de 1964, só se formaram 19.049 profissionais universitários em 1963. Eram 4,3 alunos matriculados por docente.

Depois da retomada da democracia, no final dessa série temporal, em 1998, essa relação já tinha se multiplicado para 12,9. E a sub-casta recebia 274.384 profissionais universitários no ano. No total acumulado nesses 35 anos já tinham se formado 5.954.028 universitários no País que possuía população total de 169,5 milhões de habitantes. Essa minoria (elite intelectual?) era apenas 4%.

Vejamos outros aspectos quantitativos dessa história. Continue reading “Formação Tardia da Sub-Casta dos Sábios-Universitários no Brasil”