Economia Comportamental: Heterodoxia incorporada ao Mainstream

Tim Harford (Financial Times, 10/01/2020) publicou reportagem sobre o foco dos principais economistas da atualidade. Disciplina vem incluindo diferentes objetos de pesquisa, novas ferramentas e diversidade, embora tímida, de etnia e gênero de estudiosos.

O Prêmio Nobel de Economia Robert Solow disse ter muito tempo desde quando se sentia “incomodado” com o fato de a maioria das pessoas, até as mais estudadas, não ter “uma ideia clara do que é a economia e do que fazem os economistas”.

Solow nasceu no Brooklyn, em 1924, em uma “família de classe média baixa”, como ele descreve, e foi criado durante a Grande Depressão. Embora seu pai não tenha sofrido de falta de trabalho, Solow diz, desde os oito anos, ter consciência da constante preocupação sentida pelos pais e de “que as preocupações deles eram puramente econômicas sobre o que iria acontecer, sobre como conseguiriam chegar ao fim do mês”.

Essa consciência iria modelar sua forma de pensar ao longo da vida. Ele ganhou uma bolsa para Harvard aos 16 anos e começou a carreira acadêmica na qual ele chegaria ao ponto mais alto de seu campo, o Nobel, em 1987, por suas contribuições para a teoria do crescimento econômico. Apesar da aclamação, Solow, hoje com 95 anos, continuava sentindo que, para o público em geral, seu assunto de estudo era frustrantemente nebuloso. Então, há alguns anos, em um jantar com amigos, sentou por acaso ao lado da fotógrafa Mariana Cook. Ela havia concluído pouco tempo antes um projeto fotografando 92 matemáticos, desde vencedores da Medalha Fields até jovens em início de carreira.

Solow sugeriu ela embarcar em uma série similar de retratos, mas de economistas – e Mariana aceitou. Como ele escreve na introdução do livro resultante da conversa (“Economists”, Yale University Press, importado), que contém 90 retratos em preto e branco feitos por Mariana ao longo de três anos: “A ideia solta se tornou uma realidade, e eu me vi envolvido de diversas formas. Naturalmente, tive que me perguntar: Será que fazer um livro de retratos de acadêmicos economistas era algo útil ou razoável ou mesmo são de se fazer?”.

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Desemprego Tecnológico em Bancos

Nicholas Comfort (Bloomberg — Frankfurt 28/12/2019) informa: bancos em todo o mundo fazem demissões no maior ritmo em quatro anos para reduzir custos em resposta a uma economia em desaceleração e adaptação à tecnologia digital.

Este ano, mais de 50 instituições financeiras anunciaram planos para cortar 77.780 empregos, o maior número desde as 91.448 demissões em 2015, segundo registros de empresas e sindicatos.

Os cortes em 2019 elevam o total de demissões nos últimos seis anos para mais de 425.000. O número provavelmente é maior porque muitos bancos eliminam empregos sem divulgar os dados.

O Morgan Stanley é a mais recente empresa a buscar eficiência no fim do ano, com o corte de cerca de 1.500 empregos, segundo pessoas a par do assunto. O presidente do banco, James Gorman, havia dito que as demissões representam cerca de 2% da força de trabalho.

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Redução da Jornada Semanal de Trabalho com Manutenção da Renda do Trabalho para Redistribuir a Produtividade Robótica

Diego Viana (Valor, 22/11/19) informa: a quarta Revolução Industrial – termo para se referir à era dos robôs e dos algoritmos – parece mudar não só a disponibilidade e a demanda de empregos, mas também o entendido por trabalho. Nos últimos meses, tentando prever como vai ser a realidade do trabalho com a quarta Revolução Industrial, além da OIT, foram lançados estudos não só do próprio Fórum Econômico Mundial, mas também da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

As preocupações desses relatórios podem ser reunidas em cinco categorias:

  1. Primeiro, a automatização, porque transfere tarefas cada vez mais sofisticadas aos computadores, eliminando também postos inteiros.
  2. Em seguida, as condições de trabalho, que se tornam mais duras à medida que a competição global é maior e os profissionais têm de responder a exigências mais rigorosas.
  3. Terceiro, os impactos sobre a seguridade social, particularmente a aposentadoria, já que os modelos de contribuição e os conceitos tradicionais de empregado, desempregado e aposentado já perderam boa parte do sentido.
  4. Quarto, o desequilíbrio entre corporações globais, de posse de algoritmos e sistemas automatizados, e o poder de pressão dos sindicatos e da legislação do trabalho.
  5. Por fim, o possível paradoxo entre a pressão para expandir a oferta de trabalho (e consumo), em tempos de transição climática, e os limites anunciados no meio-ambiente.

Há vários cenários possíveis, desde o mais desesperador, quando uma pequena elite trabalha intensamente e todo o resto da sociedade é transformado em seres humanos inúteis, até aquele onde as sociedades se preparam, como a Alemanha vem tentando fazer. No entanto, preparar-se não é fácil, porque ainda não está claro como o mundo do trabalho vai receber o impacto das transformações tecnológicas, demográficas e ambientais. Continuar a ler

Carta Aberta ao Idiota Nomeado Ministro da Educação

Carta Aberta ao Preposto Ministro da Educação

Por Felipe Rosa frosa@if.ufrj.br em 24/09/19

Caro ministro,

Em entrevista recente ao jornal Estado de São Paulo o senhor afirmou, entre outras coisas, que as universidades brasileiras têm “muito desperdício” relacionado a “politicagem, ideologização e balbúrdia”, que algumas “têm Cracolândia”, que no Brasil “todo mundo quer uma bolsinha” e, finalmente, que seu filho estudaria em Portugal, ou no Chile, ou “fora do Brasil”, mas “na federal de Minas é que não vai”.

Ao ouvir acusações e críticas tão sérias quanto essas, poderia-se imaginar que o senhor teria diversos exemplos de malversação de bolsas e pedras de crack pra mostrar, mas qual não é a nossa surpresa ao descobrir que o número de vezes que o senhor visitou alguma universidade pública enquanto ministro é… zero! Nenhuma vez! Donde apenas resta concluir o senhor – o ministro da educação mais ignorante em universidades da história do Brasil – só as conhecer pelos escritos do “guru” Olavo de Carvalho. Aliás, este visita as universidades brasileiras na mesma frequência… Não conseguiu concluir um Ensino Superior.

Ao dizer que todos queremos “uma bolsinha”, não pense não percebermos sua intenção de passar à população a imagem de que somos uns “encostados” em busca da proverbial “boquinha”. O Brasil hoje é o 14º maior produtor de conhecimento do mundo, com cerca de 80 mil artigos publicados apenas no ano passado e mais de 10 milhões de citações a nós desde 1996. A maioria esmagadora de todo esse trabalho só foi possível graças às agências de fomento, entre elas o CNPq e a CAPES.

Nos diga uma coisa, ministro: de onde você acha que veio a viabilidade do pré-sal? Nosso programa de vacinas? A conexão entre o vírus da zika e a microcefalia? O senhor acha que essas coisas “caíram do céu”? Pois nós estamos aqui pra te dizer que, em vez de praticar “doutrinação comunista” (ou qualquer bobagem que o valha), estamos trabalhando para que mais desses avanços se materializem e beneficiem a população brasileira.

Finalmente, com relação a estudar ou não na Universidade Federal de Minas Gerais, essa é uma decisão que cabe apenas ao senhor e seu filho. Por outro lado, o senhor deveria saber que, de acordo com o ranking do Times Higher Education, enquanto o Chile tem 8 universidades entre as 1000 melhores do mundo e Portugal tem 13, o Brasil tem 15 (e, entre elas, a UFMG).

Assim sendo, desdenhar da universidade pública brasileira tem pouco a ver com números e muito a ver com uma severa síndrome de vira-lata a afligir membros representativos do governo do capitão reformado.

Ministro, quando tiver uma oportunidade de ficar calado, aproveite-a. E trabalhe.

Atenciosamente,

Felipe Rosa, diretor da AdUFRJ e vice-presidente eleito

* Repliquem, por favor, esta carta. Não é possível o discurso desse mentiroso contumaz e preposto Ministro da Educação passe sem contraponto. Os professores universitários estão “apedrejados nas ruas” (rede social) sob o canto raivoso dos evangélicos hipócritas e ignorantes desse país!

Desigualdade Educacional e de Renda: Retroalimentação

A melhoria na distribuição de renda, ocorrida na Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014), com hegemonia de um partido de origem trabalhista e apoio popular e de intelectuais à adoção de uma política social ativa, já foi revertida. O Brasil retomou sua característica maior: a desigualdade social. Os eleitores lúcidos necessitam convencer os demais a respeito de um Estado de bem-estar social ser aqui necessário e possível.

Já há bastante evidências empíricas de a formação hierárquica da casta de guerreiros-militares não ser um modelo adequado para os demais cidadãos. Sua lógica de ações é baseada em violência, vingança, coragem, fama, glória, etc. Aliás, esses são também valores típicos de atletas profissionais. Só um ministro da Educação muito inculto, e ressentido face à inteligência da casta dos sábios-universitários, se submete ao comando de espalhar Colégios Militares e tirar autonomia das Universidades Federais.

O Poder Militar dessa casta da farda, historicamente, pressiona as demais. Por exemplo, arrancou do Poder Político ou Legislativo, ou seja, da casta dos oligarcas de gravata no Congresso Nacional, mais privilégios na carreira profissional, se comparada à dos civis. Depois destes terem cortados direitos trabalhistas e previdenciários destes, o projeto de reforma da Previdência dos militares, originalmente proposto pelo governo do capitão, foi ampliado para os praças, cadetes e sargentos das Forças Armadas terem os mesmos aumentos salariais dos generais para felicidade geral nos quarteis.

A suavização da regra de transição beneficia principalmente os policiais militares dos Estados, onde é possível se aposentar com 25 anos de serviço, mas também atingirá as Forças Armadas. O relator estendeu as regras da reforma aos policiais e bombeiros militares, carreiras estaduais não inicialmente contempladas no projeto do governo. A regra de transição, a partir da sanção da reforma, durará 25 anos. Só́ a partir de 2044 serão exigidos os 30 anos como militar para aposentadoria especial.

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Economia Comportamental para Superação da Crise do Pensamento Econômico

No livro “Animal Spirits – How Human Psychology Drives The Economy, And Why It Matters For Global Capitalism”, os coautores George A. Akerlof & Robert J. Shiller, afirmam: a vida ocasionalmente tem seus momentos reveladores.

Para a economia mundial, o dia 29 de setembro de 2008, há onze anos, foi um daqueles marcantes momentos reveladores. O Congresso dos EUA recusou, embora mais tarde tenha se revertido, a aprovação do plano de resgate de US $ 700 bilhões proposto pelo secretário do Tesouro Henry Paulson. O índice da bolsa Dow Jones caiu 778 pontos. Os mercados de ações caíram em todo o mundo. De repente, o que parecia apenas uma possibilidade remota – uma repetição da Grande Depressão – passou a ser uma perspectiva real.

A Grande Depressão foi a tragédia do século passado. Nos anos 30, levou ao desemprego em todo o mundo. Então, como se a Depressão em si não tivesse causado sofrimento suficiente, o vácuo de poder criado levou à Segunda Guerra Mundial. Mais de 50.000.000 morreram prematuramente.

Uma repetição da Grande Depressão é agora uma possibilidade, porque economistas, governo e público em geral se tornaram complacentes nos últimos anos. Eles esqueceram as lições da década de 1930. Naqueles tempos difíceis, aprendemos como a economia realmente funciona. Também aprendemos o papel adequado do governo em uma economia capitalista robusta.

Este livro “Animal Spirits – How Human Psychology Drives The Economy, And Why It Matters For Global Capitalism” recupera essas lições, além de oferecer uma revisão moderna. Para ver como a economia mundial entrou em seu vínculo atual, é necessário entender essas lições. Mais importante ainda, precisamos entendê-los para saber agora o que deve ser feito.

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Ciência Econômica: Teste Científico de Hipóteses para Comprovar Pressupostos Ideológicos

Mohsen Javdani & Ha-Joon Chang fizeram a pesquisa e escreveram o relatório intitulado “Who Said or What Said? Estimating Ideological Bias in Views Among Economists”, recém-publicado em julho de 2019. Sua conclusão está apresentada abaixo.

“Utilizamos um experimento controlado randomizado on-line envolvendo economistas em 19 países para examinar a influência do viés ideológico e de autoridade nas opiniões dos economistas. Os economistas participantes de nossa pesquisa foram convidados a avaliar declarações de economistas de destaque sobre diferentes tópicos.

No entanto, a atribuição da fonte para cada declaração foi randomizada sem o conhecimento dos participantes.  Para cada declaração, os participantes receberam uma fonte mainstream, uma fonte menos / não mainstream ou nenhuma fonte.

Concluímos o nível de concordância relatado dos economistas com as declarações ser significativamente menor quando as declarações são atribuídas aleatoriamente a fontes menos / não convencionais. Estas mantêm visões ou ideologias amplamente conhecidas capazes de as colocarem a diferentes distâncias da Economia convencional, mesmo quando essa distância é maior ou relativamente pequena.

Além disso, nós descobrimos a remoção da atribuição de origem também reduzir significativamente o nível de concordância com as declarações. Continuar a ler