Executivos versus Empresas e Arrocho Salarial

Remuneração de Executivos

Letícia Arcoverde (Valor, 07/04/2016) informa que a remuneração executiva nas empresas brasileiras não está alinhada com resultados financeiros que geram valor e trazem retorno aos acionistas, segundo um estudo da consultoria PwC e da Fundação Getulio Vargas (FGV) com 134 companhias de capital aberto. A maioria delas (76%) não registrou geração de valor e teve queda no lucro líquido, mas ainda assim aumentou a remuneração fixa e variável de seus altos executivos.

As organizações incluídas no estudo compõem o Índice de Governança Corporativa da Bovespa, e estão listadas no Novo Mercado ou nos níveis 1 e 2 da bolsa. Das companhias analisadas, 42% apresentaram faturamento acima de R$ 3 bilhões em 2014. Não foram incluídas instituições financeiras, por causa das diferenças nas regras contábeis. A pesquisa teve como base os demonstrativos financeiros e os formulários de referência, que incluem informações sobre remuneração executiva, publicados entre 2010 e 2015.

A principal medida usada pelos autores para fazer a comparação foi o valor econômico criado, compreendido pela capacidade de a empresa gerar lucro operacional suficiente para cobrir os custos do capital total aplicado no negócio. Também foi analisado o custo de oportunidade do acionista, levando em conta o retorno em dividendos e a valorização da ação no período. “Há diferença entre lucro e geração de valor”, diz Oscar Malvessi, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV.

Apenas 24% das empresas registraram geração de valor entre 2010 e 2014, período das informações analisadas. O valor de mercado dessas companhias aumentou 78%, enquanto naquelas que não geraram valor ele encolheu 4%. Nas primeiras, o lucro líquido cresceu 31%, e nas outras, caiu mais do que pela metade. As companhias que geram valor também apresentaram maior retorno total ao acionista, que inclui o pagamento de dividendos e a variação do valor de mercado da empresa. Nelas, essa taxa líquida foi de 3,2%, enquanto nas outras chegou a -8,5%.

Em todos os casos, no entanto, a remuneração executiva aumentou cerca de 30% no período. Para João Lins, sócio da PwC, é importante entender a correlação entre remuneração do alto escalão e o processo de geração de valor da empresa, pois a grande justificativa para os pacotes de executivos é o conceito de “pay for performance”, que atrela a remuneração variável do profissional ao desempenho de curto e longo prazo. O estudo mostrou, entretanto, que a parcela variável sofreu poucas mudanças no período analisado, mesmo quando o resultado das companhias deixou a desejar. Muitas vezes a empresa mantém a parcela variável ou aumenta a fixa para não perder o executivo.

Segundo aos autores, mesmo nas empresas que geraram valor a remuneração não apresentou um alinhamento perfeito com o desempenho do negócio. Nas companhias capazes de gerar valor, no entanto, os profissionais ganharam mais – a mediana da remuneração total nessas empresas, em 2014, por exemplo, foi de R$ 2,05 milhões, enquanto nas que não geraram valor foi de R$ 1,82 milhão. “O alinhamento e a adoção desse conceito é bom para o executivo, para o acionista e para o país, pois gera empresas mais sólidas”, dizem.

O único indicador que apresentou resultado positivo no período foi o crescimento da receita líquida, que teve incremento de 37% nas empresas que geraram valor e de 20% nas outras. O Ebitda também se manteve relativamente estável no período nas empresas que não geraram valor (uma queda de 3%), e teve incremento de 36% nas que geraram valor. Ao analisar os indicadores usados pelas empresas na hora de definir a remuneração variável, o Ebitda foi o mais presente nas empresas que não geraram valor, em cerca de metade delas, enquanto nas que geram valor, ele foi usado apenas em 21% para incentivos de curto prazo, e 28% nos de longo prazo. Na opinião de Malvessi, contudo, o Ebitda é um conceito parcial e muito simples para ser definidor de performance. Ele só reflete um pedaço de geração de caixa.

O desenho dos pacotes de remuneração se mostrou similar nos dois tipos de companhia: cerca de 45% de salário-base, um terço de remuneração variável de curto prazo e cerca de 20% de incentivos de longo prazo. Para os autores do estudo, isso indica que as companhias que conseguem tirar bom desempenho de seus executivos não se apoiam apenas nas parcelas de remuneração variável e fixa. Ela tem que refletir estratégia, modelo de gestão, governança corporativa e ser capaz de atrair e reter os executivos que me interessam, valorizando os comportamentos mais importantes para o resultado. Basear-se em benchmarks de mercado não é suficiente.

Mais comum nos EUA, onde o controle das empresas é mais pulverizado, uma cobrança maior dos acionistas por informações é fundamental para tornar esses processos mais transparentes e claros. Essa figura do acionista “ativista” está apenas começando a surgir no Brasil. Nos formulários de referência, documento onde as empresas incluem dados de remuneração, apenas 34% informam como funcionam os mecanismos de compensação variável.

Os autores refutam a justificativa, recorrente no Brasil, de que a divulgação de dados de remuneração podem representar um risco para a segurança dos profissionais. “O que interessa para o mercado não são os valores, mas a transparência na gestão. É explicar critérios e formatos”, diz Lins. Na opinião de Malvessi, a forma como as companhias mensuram os indicadores precisa ter mais concepção técnica. “Hoje, elas não contemplam o acionista”, diz.

Prova disso é a existência limitada de comitês de remuneração nos conselhos de administração, mesmo nas empresas que foram capazes de gerar valor. Entre elas, 59% possuem comitê, contra 50% das que não geraram valor. Apenas 30% das empresas que geraram valor e 24% das que não geraram valor têm a composição considerada ideal segundo recomendações de governança corporativa – um misto de membros do conselho e consultores especialistas. Ainda mais grave, em 7% das empresas que não geraram valor o comitê que vai discutir a remuneração executiva é formado só por diretores.

Reajustes Salariais 2010-2015

Enquanto isso, as negociações salariais entre patrões e trabalhadores resultaram em um reajuste médio de 0,23%, em termos reais, em 2015. É o menor percentual desde 2004, quando havia ficado em 0,61%. Em 2014, o aumento real foi de 1,34%. O balanço de 708 negociações salariais, divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), leva em conta indústria, comércio e serviços. Agropecuária e setor público não entram nos cálculos. O principal fator para o resultado pouco favorável aos trabalhadores foi o forte aumento da inflação, além da recessão econômica e a alta do desemprego.

“Em 2015, além de uma conjuntura econômica adversa, com indicadores gerais muito negativos, tivemos um salto da inflação”, disse José Silvestre Prado de Oliveira, coordenador de relações sindicais do Dieese, que usa como base para a inflação o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), de 11,28%, no ano passado. No período, 52% dos reajustes ficaram acima da inflação, 29,9% foram iguais ao INPC e 18,1% ficaram abaixo. Em 2014, 90,2% ficaram acima, 7,3% foram iguais e apenas 2,4% ficaram abaixo.

A piora da atividade industrial fez os reajustes serem menores no Sudeste do que nas outras regiões. São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo têm a maior concentração de indústrias no Brasil. O setor já vinha sofrendo “há quatro, cinco anos” e viu a situação se agravar ainda mais em 2015, o que contribuiu para os menores reajustes nesses Estados.

No Sudeste, 42,2% dos reajustes (em todos os setores) ficaram acima do INPC, 33,6% foram iguais e 24,2%, menores. A região que apresentou melhor desempenho foi o Sul, com 59,8% dos reajustes acima do INPC, 26,5% iguais e 3,7% menores. Em seguida, vêm Nordeste (60,3% acima, 22,9% iguais e 16,8% abaixo) Norte (57,4% acima, 21,3% iguais e 21,3% abaixo), Centro-Oeste (54% acima, 20% iguais e 26% abaixo).

No mesmo período, 45% dos reajustes da indústria ficaram acima do INPC, 36% foram iguais e 19% ficaram abaixo. Como comparação, o comércio teve 53,4% dos reajustes maiores do que a inflação, 31,9% foram iguais e 14,7%, menores. Já os serviços tiveram 61,5% de reajustes maiores, 20,1% iguais e 18,4% menores.

Para 2016, a expectativa é que conjuntura econômica continue complicando as negociações, mas a desaceleração da inflação pode ajudar a firmar acordos melhores. Dois pontos que podem fazer com que os trabalhadores tenham algum ganho real maior neste ano: a inflação com “tendência de queda” e o desemprego crescendo “em ritmo menos acelerado”. Além disso, fatores como a eventual queda da taxa de juros e a melhora do câmbio podem ajudar na recuperação da indústria, o que abriria espaço para maiores reajustes no setor.

No entanto, haverá neste ano uma inversão nas categorias que receberão maiores ajustes. Em 2015, as mais beneficiadas foram aquelas que têm data-base no primeiro semestre, como construção civil, transportes e mineração. O motivo foi a alta da inflação a partir da metade do ano, o que tirou ganhos de categorias que recebem o reajuste na segunda parte do ano, como metalúrgicos, bancários e petroleiros.

Agora, as categorias que recebem aumento no primeiro semestre vão pegar a inflação em 9%, 8,5%, mas as do segundo devem pegar algo em torno de 6%, 7%. Isso dará maiores ganhos a essas últimas categorias.

Processo de “Pejotização”: de Salários Tributados para Lucros e Dividendos Isentos

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Marta Watanabe (Valor, 07/03/16) divulga estudo de José Roberto Afonso, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre-FGV), e de Paulo Vales, engenheiro e consultor de empresas, comprovando que parcela importante dos empregados com carteira assinada, principalmente os de alta renda, está se transformando em pessoa jurídica. Essa mudança estrutural do mercado de trabalho tende a se agravar com a recessão e compromete o subsídio cruzado do regime previdenciário, sistema pelo qual os trabalhadores de maiores salários financiam os de renda mais baixa.

Para Afonso, os dados da Pnad trimestral, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já mostram o efeito da recessão sobre essa mudança estrutural. Segundo a Pnad, os trabalhadores do setor privado com carteira assinada representavam 39,2% da população ocupada no fim de 2013. No trimestre encerrado em novembro do ano passado, dado mais recente disponível, a fatia caiu para 38,4%. No mesmo período o trabalhador por conta própria avançou na participação de 23,2% para 24,5%.

“O desemprego cresceu inicialmente entre aqueles assalariados de maior renda. Há uma troca clara e rápida de posição entre aqueles ocupados com carteira assinada relativamente aos trabalhadores por conta própria”, diz Afonso.

A crise tende a acentuar a migração de trabalhadores com maior renda para o grupo das pessoas jurídicas. Essa transformação, porém, acontece há mais de uma década. O levantamento foi realizado para a Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp).

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Eco-nomista e Narciso

Ranking 1 a 10Ranking 11 a 25Ranking 26 a 293Havia um ortodoxo chamado Narciso. Sua Academia, ansiosa por saber o destino profissional do estudante, consultou à deusa Capes, que emitiu um parecer via double-blind peer review:

Será ele reconhecido por revisão paritária ou arbitragem (refereeing em inglês)?

Desde que não leia a si mesmo, respondeu Capes. Assim, a Academia providenciou que o estudante dileto nunca lesse seu texto publicado em português.

O jovem acreditou ter uma inteligência única – e sua Academia cuidou de divulgar essa auto validação ilusória. Ele passou a ser admirado por todos ortodoxos quantos encontrava. Embora nunca tivesse lido o próprio texto, pressentia, pelas reações dos seus pares, que era inteligente; mas não conseguia ter certeza, e dependia que lhe dissessem quão inteligente era para se sentir confiante e seguro. Assim, tornou-se um profissional muito voltado para si mesmo. Continue reading “Eco-nomista e Narciso”

Remunerações de Executivos

Ganhos de remuneraçãoRemunerações de Financistas 2015Letícia Arcoverde (Valor, 10/08/15) informa que os cargos gerenciais da área de vendas estão entre os que mais tiveram ganho salarial neste ano na comparação com 2014, segundo estudo de remuneração da empresa de recrutamento Michael Page. Clique aqui para acessar o estudo. Os setores de tecnologia e de seguros também se destacaram em meio ao momento econômico turbulento, que resultou em salários de diversos setores e funções em queda ou com aumentos mais tímidos que o ano passado.

O estudo analisou os rendimentos fixos brutos de mais de 500 cargos de média e alta gerência, com base em entrevistas realizadas com mais de 100 mil profissionais ao longo dos últimos 12 meses. Os dados não descontam o valor da inflação no período.

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O Começo do Fim (por José Tadeu Jorge)

Campus UNICAMPO reitor da UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas, José Tadeu Jorge, 62 anos, doutor em Ciência de Alimentos, depois de muito tempo batalhar,  obteve “direito à resposta” na Folha de S.Paulo. Esta publicou uma reportagem leviana ao obter na Justiça o direito de publicar os nomes e salários de todos os professores da Unicamp. Não publicou nada sobre o ponto-chave da questão do teto salarial artificial.

Para que? Só serviu para mostrar como a política de “caçador de marajás” (sic), trazida por Collor ao imaginário nacional, encontra hoje um adepto na figura do Governador de São Paulo, potencial candidato à Presidente na eleição de 2018. O subsídio atual do governador paulista, de R$ 21.600, é o terceiro mais baixo da Federação, superior apenas aos do Ceará e do Espírito Santo. Com essa ruptura da carreira meritocrática, um Professor em Universidade Federal pode ganhar cerca de R$ 12 mil a mais do que um docente de mesmo nível em Universidade Estadual Paulista.  Reproduzo o artigo publicado na FSP, em 27 de agosto de 2015, abaixo. Continue reading “O Começo do Fim (por José Tadeu Jorge)”

Formar Cidadãos, Novos-Ricos ou Mão-de-Obra Barata?

TraineeOs programas de trainee das “Big Four“, grandes consultorias formadoras de pretendentes a se tornarem “novos-ricos”, atraem milhares de jovens todos os anos. Na EY, são cerca de cem mil inscritos para aproximadamente 800 vagas. Na PwC, a média é de 35 mil interessados a cada edição, para até 700 vagas. Na Deloitte o número de inscritos fica em cerca de 50 mil e, desses, mais ou menos 600 ingressam na consultoria a cada ano. Já na KPMG, a última edição do programa reuniu 27 mil interessados para 560 vagas.

Após o término do programa de trainee, 95% permanecem nas consultorias e, após esse período, o “turnover” na empresa fica em torno de 18%. Para quem fica, o cargo gerencial chega entre seis e sete anos e com 11 anos de carreira é possível se tornar sócio ou diretor executivo. Quantos restaram de sua turma com um turnover de quase 1/5 por ano?

E em que tipo de cidadão o “sobrevivente” novo-rico tende a se transformar? Veja, leia, e reflita.

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Teto Salarial nas Universidades Paulistas (por Alcir Pécora e Francisco Foot Hardman)

Salários da Unicamp

Neste último mês, a questão do teto salarial dos servidores na USP, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” (Unesp) tem sido apresentada da mesma forma forçada e escandalosa – da qual, até agora, O Estado de S. Paulo tem sido uma grata exceção. Mais do que isso, já em editorial de 19/4/2014 (página A3)– disponível em http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,os-salarios-da-usp-imp-,1155916 – apresentava argumentos sólidos para inibir qualquer tentativa demagógica de tratar o assunto. Infelizmente, não foi o bastante. Quando há má-fé e tendenciosidade, é difícil que a razão prevaleça.

O primeiro ponto a considerar quando se fala em teto para os servidores universitários paulistas é que, segundo a Constituição federal, a matéria da educação pública superior deve ser tratada em termos nacionais, para a toda Federação, e não de forma regional. É o que está reforçado em extenso parecer, de 2013, do ex-ministro do STF Eros Grau. A prevalecerem como critério para tetos federal, estaduais e municipais os subsídios respectivos dos juízes do Supremo, dos governadores e dos prefeitos, poderia haver, em tese, 27 tetos estaduais e 5.600 tetos municipais – um contrassenso lógico, jurídico e social.

Ponderando, entre outros aspectos, o caráter nacional do conceito de educação pública superior, o Congresso Nacional aprovou a Emenda Constitucional n.º 47, em 2005, revendo a Emenda n.º 41, de 2003, que havia estabelecido aquela plêiade contraditória de tetos e subtetos. Facultava-se agora às unidades federativas, mediante emenda estadual, por decisão soberana de cada Assembleia Legislativa, ter como parâmetro o teto nacional, mas limitado a 90,25% deste, que equivalia ao subsídio máximo estabelecido para desembargadores dos Tribunais de Justiça dos Estados.

Pois bem, nestes dez anos de vigência da Emenda n.º 47, nada menos que 20 das 27 unidades federativas aprovaram a revisão constitucional dos tetos estaduais. São Paulo ficou de fora, ao lado de mais seis Estados: Alagoas, Ceará, Espírito Santo, Rondônia, Pará e Paraíba. Note-se ainda que nestes dois últimos Estados o subsídio do governador está em situação de paridade com o dos desembargadores, tornando desnecessária qualquer alteração. Portanto, a situação mais discrepante concentra-se apenas em cinco estados, entre eles, São Paulo. O subsídio atual do governador paulista, de R$ 21.600, é o terceiro mais baixo da Federação, superior apenas aos do Ceará e do Espírito Santo. Continue reading “Teto Salarial nas Universidades Paulistas (por Alcir Pécora e Francisco Foot Hardman)”