Formação e Mercado de Trabalho de Economistas. Baixe o Livro.

A Lei nº 1.411, de 13 de agosto de 1951, dispõe sobre a profissão de Economista. Em seu Art. 3º reza: para o provimento e exercício de cargos técnicos de Economia e Finanças, na administração pública, autárquica, paraestatal, de economia mista, inclusive bancos, cujos acionistas forem os Governos Federal e Estadual, nas empresas sob intervenção governamental ou nas concessionárias de serviço público, é obrigatória a apresentação do diploma de bacharel em Ciências Econômicas, ou título de habilitação.

Portanto, comemoramos neste mês 70 anos da minha profissão. É data inesquecível, para mim, porque no próximo mês comemorarei 70 anos de vida. Outra coincidência é, neste ano, constatei ter exatos 50 anos de estudos em Economia. Iniciei meu curso de graduação na FACE-UFMG em 1971, depois de ter feito o vestibular único no Estádio “Mineirão”, com todos os candidatos sentados na arquibancada dura de concreto.

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Conclusão da Sobrevivência como um Economista Não-Mainstream

As ideias de David Colander, neste breve guia [Surviving as a Non-Mainstream Economist], sobre como um jovem economista tem chances de subir em carreira acadêmica podem ser resumidas em quatro pontos:

1. Decida o que é a boa Economia: tome isso como seu objetivo final, mas faça com a busca por esse objetivo ser limitada pelo ambiente institucional. Inicialmente, trabalhe naquilo dito pelo ambiente institucional atual ser para você trabalhar, pelo menos o suficiente para ter sucesso nesse ambiente institucional. Trabalhe em ideias às quais o ambiente institucional atual não valoriza caso você disponha de tempo, mas trate esse trabalho como um luxo, não como sua pesquisa principal.

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Realidades para Publicação Acadêmica

Você se pergunta: como alguém iniciante publica nessas revistas “certas”? Você não faz isso lendo um artigo, obtendo uma ideia desse artigo e trabalhando dois anos em cima de seu artigo. 

A razão é: o que é publicado geralmente era de interesse no ano passado. Provavelmente, não será do interesse do próximo ano, quando você estiver finalmente pronto para enviar seu artigo. 

A publicação de um artigo de revista acadêmica [muito vista e pouco lida] é, em muitos aspectos, uma lápide para um debate econômico, não uma abertura dele.

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Realidades para se manter em um Emprego Acadêmico

Geralmente, as regras de permanência em uma escola não são as estabelecidas às claras. Em sua discussão inicial com essas escolas, é importante descobrir quais são as regras reais para tomar posse no cargo. Embora seja, novamente, difícil de generalizar, David Colander tenta.

1. Frequentemente, o ensino recebe uma classificação muito mais baixa nos critérios de promoção em lugar da pesquisa. As regras declaradas geralmente incluem uma divisão uniforme entre ensino, serviço e pesquisa. Mas as regras reais são, frequentemente, 75% de pesquisa, 20% sendo amigável com as pessoas certas, 5% com ensino.

2. Pesquisa raramente significa ensinar pesquisa relevante. Pesquisa significa publicar “em certas” revistas. Os periódicos “certos” diferem entre as escolas, mas a regra geral é: quanto mais alta a classificação do periódico em alguma classificação, mais “correto” ele provavelmente será. (Por isso, existem tantas classificações alternativas; pode-se escolher a classificação capaz de atender ao seu propósito.) 

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Realidades do Mercado de Ensino para Economistas

O mercado de ensino para economistas, como qualquer outro mercado de trabalho, tem características próprias. Alguns dos mais relevantes para alunos de pós-graduação, segundo David Colander, em Surviving as a Non-Mainstream Economist, são:

1. A contratação geralmente é feita com base em credenciais, não em qualificações reais. Quanto mais graduada for a pessoa, mais provável será uma oferta de uma escola de nível médio.

2. Recomendações de pessoas importantes são extremamente importantes. Entrevistas de alto nível no campus de uma Universidade são quase sempre baseadas em ligações pessoais de um conselheiro atestando isso – o candidato é um cliente potencial. Existem poucos profissionais walk-ons [acima de qualquer suspeita] na Economia. Além disso, é importante reconhecer: todas as cartas de recomendação devem ser positivas; até mesmo uma ligeira observação negativa pode prejudicar significativamente se você estiver no grupo geral de candidatos.

3. Contatos informais – e telefonemas de seus conselheiros e amigos – são importantes para o candidato ser considerado para certo emprego.

4. Depois de ser considerado apto para um emprego, o fator determinante mais importante para conseguir um emprego é a impressão causada nos tomadores de decisão. É muito útil conhecer suas pesquisas e suas abordagens antes de apresentar um artigo publicado.

5. A situação geral do mercado de trabalho, em áreas específicas, desempenha um grande papel nas suas chances de ser contratado no mercado geral.

6. Os mercados de trabalho são segmentos internos às escolas. Existe muito mais flexibilidade para novas contratações em vez de para aceitar mudanças laterais, isto é, mudança de escola pelo docente após alguns anos. Assim, é importante escolher uma escola com a qual você seja compatível em longo prazo.

7. As nomeações temporárias, ao atenderem às qualificações exigidas pelas escolas. costumam ter uma pista privilegiada para empregos com estabilidade permanente, caso tal emprego apareça. No entanto, empregos temporários com foco no ensino, em uma universidade voltada para a pesquisa, são inevitavelmente empregos sem saída.

8. Se você deixar a escola após um período de tempo, provavelmente se mudará para uma escola de classificação inferior. Se você deseja mudar de escola muito cedo, é mais difícil conseguir um emprego em comparação a quando você acabou de entrar no mercado de trabalho, após a pós-graduação.

Devido à natureza interna do mercado de trabalho, a escolha inicial da escola é muito importante para o seu sucesso. Deve ser escolhido com conhecimento específico de quais são as reais expectativas de ensino e pesquisa da escola.

 Se você quer fazer a carreira em Economia do seu jeito, e isso difere do jeito tradicional, aceite o emprego em uma escola onde as pessoas estão abertas à sua abordagem, não o emprego na escola de melhor classificação a oferecer um.

Encontrando um Compromisso Aceitável como Economista

Se alguém concordar com David Colander, em Surviving as a Non-Mainstream Economist, sobre essas diferenças entre o que se faz e o que se deveria fazer, a verdadeira questão é até qual ponto se deve fazer “bom trabalho” e até qual ponto a estrutura institucional recompensa. 

Ao sair por aí e conversar com alunos de pós-graduação e jovens professores, Colander fica continuamente surpreso com a ingenuidade de muitos deles. Eles pensam na profissão de economista como: 

  1. pura busca acadêmica na qual a busca pela verdade será recompensada, 
  2. o trabalho de qualidade sobrepujará o trabalho de não qualidade e 
  3. as pessoas serão julgadas pelos méritos de seu ensino e pesquisa. 

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Incentivos Institucionais para Carreira Docente em Economia

– “Então, o que você está nos aconselhando a fazer é focar no ensino e fazer pesquisa orientada para o ensino, certo?”

– “Errado, errado, errado”, diz David Colander, pegando outro uísque. “Lembre-se do dito no início de nossa conversa [Surviving as a Non-Mainstream Economist]. Para decidir como seguir a Economia, você deve primeiro decidir o que a Economia deveria ser, mas essa decisão é simplesmente uma decisão preliminar para decidir como se deveria realmente trabalhar em Economia.

Para decidir como aplicar a Economia, você deve relacionar o que acredita dever ser feito com os incentivos institucionais para fazer o que o levará à frente. Se praticar Economia da maneira acreditada por você necessária de ser feito levar você a ser expulso da profissão, então não é uma boa estratégia para seguir adiante em Economia. 

A realidade é, se você quiser sobreviver, terá de seguir a carreira em Economia de uma forma a satisfazer as restrições institucionais. Do contrário, você não sobreviverá como economista. 

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Papel da Pesquisa em Bom Ensino

Adam Smith, Karl Marx, Joseph Schumpeter e John Maynard Keynes

Visto o ensino ser fundamental, sob o ponto de vista de David Colander, pode-se pensar ele dar pouca importância à pesquisa. Essa crença seria errada por duas razões. 

A primeira é ele gostar de pesquisa abstrata. Essa é a razão pela qual foi inicialmente atraído pela Economia: foi pago para jogar todos esses jogos divertidos com nenhuma relevância para nada. Ele ainda gosta de colocar seus dois centavos quando jogo com esses quebra-cabeças. 

No entanto, depois de Colander “jogar o jogo” da Economia por um tempo, ele perdeu um pouco do seu prazer e parecia estar cada vez mais distante da realidade. Começou a olhar para a profissão de economia do ponto de vista da sociedade. Foi quando escreveu o livro Why Aren’t Economists as Important as Garbagemen? (Sharpe Publishing, 1991).

Essencialmente, ficou convencido de a profissão de economista estar extraindo renda da sociedade, e não produzindo o suficiente dos serviços desejados e precisados pela sociedade de ser ensinado como raciocínio econômico. Tudo isso não quer dizer a pesquisa abstrata não ter função. 

Mas não é o aspecto da Economia, segundo Colander acredita, mais valorizado pela sociedade, nem é o tipo de pesquisa a obter altas classificações em avaliações de estabilidade no emprego, em escolas de Artes Liberais, nem em escolas de pós-graduação.  Para o desenvolvimento dessas ideias, ver Colander and R. Brenner (editors). Educating Economists. University of Michigan Press, 1992 

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Uma conversa em fim da noite entre velho e jovens professores economistas

O cenário: um saguão de hotel por volta das 23h, após uma conferência de economia. Estou aí com um scotch. Alguns jovens professores assistentes estão sentados lá comigo.

– “Tudo bem, Colander”, diz um deles. “Você é um grande moralizador. Então, como a Economia deve ser seguida?”

“Meu primeiro conselho é o meu aviso-padrão sempre ao dar um conselho: – Ouça esse conselho, mas não necessariamente o siga.”

Tendo me absolvido da culpa – e eu a sentiria se alguém realmente seguisse meu conselho –, vou direto ao realmente importante.

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Economista Não Convencional

No próximo dia 28 de setembro completarei 70 anos de vida, a idade da profissão dos economistas em razão da data da promulgação da lei nº 1.411, em 13 de agosto de 1951. Ela regulamentou a profissão de economista no Brasil e estabeleceu as normas de sua organização. Predestinado, comecei a estudar Economia há 50 anos, em 1971!

Como homenagem à data da categoria profissional, farei a partir deste artigo uma série de posts sobre economistas.

Apresentarei essa série de posts com base em uma tradução do artigo “Sobrevivendo como economista não convencional” de autoria do David Colander (Middlebury College). Apresenta boas reflexões sobre o chamado “economista heterodoxo”, exilado em certos (e poucos) ambientes acadêmicos pluralistas.

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Economia: necessidade de auto-exame de seus desequilíbrios raciais, de gênero e diversidade geográfica (por Dani Rodrik)

No início de sua carreira, o economista Joseph Stiglitz teve uma prolongada estada no Quênia, onde foi surpreendido por várias coisas estranhas no funcionamento da economia local. A parceria nas colheitas era uma dessas anomalias. Se os agricultores eram obrigados a entregar metade de sua colheita aos proprietários, perguntou-se Stiglitz, isso não seria um grande incentivo fiscal e, portanto, reduziria a eficiência? Por que esse sistema persistiu?

A saga de Stiglitz para resolver esse paradoxo levou-o a desenvolver suas teorias seminais sobre informação assimétrica, pelas quais ele mais tarde receberia o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas. “O tempo que passei no Quênia”, relembrou ele, “foi fundamental para o desenvolvimento de minhas ideias sobre a economia da informação”.

Da mesma forma, o economista Albert O. Hirschman estava na Nigéria quando observou um comportamento que considerou intrigante. A companhia ferroviária, há muito um monopólio público, começou a enfrentar a concorrência de caminhoneiros privados. Mas em vez de responder a essa pressão enfrentando suas muitas e flagrantes ineficiências, a empresa simplesmente se deteriorou ainda mais. A perda de consumidores, raciocinou Hirschman, negou à empresa estatal um feedback valioso.

Essa observação sobre o transporte ferroviário na Nigéria foi a semente que se transformou em seu livro extraordinariamente influente, “Exit, Voice and Loyalty” (Saída, Voz e Lealdade). (Hirschman também merecia o Prêmio Nobel, mas nunca o recebeu.)

Essas histórias atestam o valor da capacidade de ver o mundo em toda a sua variedade. As ciências sociais são enriquecidas quando a sabedoria recebida é confrontada com comportamento ou resultados “anômalos” em ambientes desconhecidos e quando a diversidade das circunstâncias locais é completamente levada em consideração.

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Formação Anacrônica da Casta dos Militares Brasileiros

Ítalo Nogueira (FSP, /05/21) fez reportagem investigativa sobre os valores morais conservadores da casta dos militares brasileiros.

Pedro Amorim, 17, fala em estabilidade financeira e em servir à pátria. Um emprego seguro também motiva Eduarda Nicolau, 20, a seguir o sonho que nasceu pelo fascínio com a farda quando criança. Thiago Pimenta, 19, nunca imaginou seguir uma profissão diferente da do pai, militar da reserva, e mantém o desejo após ouvir em casa que, na carreira, “não ficaria rico, mas também não seria pobre”.

Os três estudam para tentar ingressar na EsPCEx (Escola Preparatória de Cadetes do Exército), porta de entrada para a Aman (Academia das Agulhas Negras). Essa é a escola responsável pela formação dos oficiais do Exército Brasileiro que podem alcançar o generalato, o topo da carreira. Foi lá onde se formaram o presidente Jair Bolsonaro, em 1977, e todos os oficiais ocupantes temporários de cargos políticos no governo federal.

A estabilidade financeira e a vocação militar são os principais motivos declarados pelos jovens que decidem disputar um dos concursos mais concorridos do país. No ano passado foram 40.545 inscritos na prova da EsPCEx, para 440 vagas em jogo. A relação candidato-vaga para homens era 77 e, para mulheres, 244 —a taxa para Medicina na USP no ano passado foi de 154 candidatos por vaga.

A elite do Exército tem origem principalmente em famílias de classe média, segundo dados divulgados em tese de doutorado do coronel Denis de Miranda pela PUC-RJ em 2018. Embora em queda, o número de filhos de militares ingressantes na Aman segue alto: eram 44% em 2017, tendo chegado a 60% em 1993.

O conservadorismo é um traço marcante entre os jovens em busca do oficialato do Exército, segundo professores de cursos preparatórios para o exame. Por esses cursos passaram 78% dos aprovados na EsPCEx em 2016, de acordo com dados do estudo de Miranda.

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