Formação Anacrônica da Casta dos Militares Brasileiros

Ítalo Nogueira (FSP, /05/21) fez reportagem investigativa sobre os valores morais conservadores da casta dos militares brasileiros.

Pedro Amorim, 17, fala em estabilidade financeira e em servir à pátria. Um emprego seguro também motiva Eduarda Nicolau, 20, a seguir o sonho que nasceu pelo fascínio com a farda quando criança. Thiago Pimenta, 19, nunca imaginou seguir uma profissão diferente da do pai, militar da reserva, e mantém o desejo após ouvir em casa que, na carreira, “não ficaria rico, mas também não seria pobre”.

Os três estudam para tentar ingressar na EsPCEx (Escola Preparatória de Cadetes do Exército), porta de entrada para a Aman (Academia das Agulhas Negras). Essa é a escola responsável pela formação dos oficiais do Exército Brasileiro que podem alcançar o generalato, o topo da carreira. Foi lá onde se formaram o presidente Jair Bolsonaro, em 1977, e todos os oficiais ocupantes temporários de cargos políticos no governo federal.

A estabilidade financeira e a vocação militar são os principais motivos declarados pelos jovens que decidem disputar um dos concursos mais concorridos do país. No ano passado foram 40.545 inscritos na prova da EsPCEx, para 440 vagas em jogo. A relação candidato-vaga para homens era 77 e, para mulheres, 244 —a taxa para Medicina na USP no ano passado foi de 154 candidatos por vaga.

A elite do Exército tem origem principalmente em famílias de classe média, segundo dados divulgados em tese de doutorado do coronel Denis de Miranda pela PUC-RJ em 2018. Embora em queda, o número de filhos de militares ingressantes na Aman segue alto: eram 44% em 2017, tendo chegado a 60% em 1993.

O conservadorismo é um traço marcante entre os jovens em busca do oficialato do Exército, segundo professores de cursos preparatórios para o exame. Por esses cursos passaram 78% dos aprovados na EsPCEx em 2016, de acordo com dados do estudo de Miranda.

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“Boquinha” da Elite Econômica da Casta dos Mercadores

Juliana Schincariol (Valor, 12/04/2021) informa: os Conselheiros de Administração, eleitos na assembleia da Petrobras, terão a missão de ajudar a construir a estratégia de uma das maiores empresas do país. Apesar da visibilidade e do status que o cargo traz, o salário não está entre os maiores das companhias que compõem o Ibovespa. As informações constam em levantamento elaborado pelo ex-diretor da Previ e especialista em governança, Renato Chaves, em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV).

Na petroleira, os gastos com o Conselho de Administração foram de quase R$ 3 milhões no ano passado. Na assembleia de hoje, serão eleitos oito nomes para o conselho de um total de 11. No sentido oposto, empresas como Natura (R$ 81,1 milhões) e Bradesco (R$ 90,8 milhões) são as que mais gastaram com estes representantes em 2020. Em muitos casos, os ganhos vão além dos salários e se multiplicam com a participações em comitês, por exemplo.

Considerando apenas o pagamento de salários de conselheiros, a estatal desembolsou R$ 1,6 milhão em 2020. Não há remuneração por comitês, mas “outros gastos” e “cessação de cargos” (remuneração por outra função, em geral da diretoria) quase dobram o gasto total para R$ 2,9 milhões. Todos os números do levantamento constam nos formulários de referência de 2019 e de 2020 das companhias. Apenas na Natura, os dados foram colhidos das demonstrações financeiras.

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Economia Prateada, Etarismo e Multigerações

Lucianne Carneiro (Valor, 29/03/2021) informa: um novo estudo da Fundação Dom Cabral (FDC), do projeto FDC Longevidade, com apoio técnico da Hype50+, aponta as dez profissões do futuro ligadas ao fenômeno da longevidade. Algumas já são realidade hoje, como cuidadores de idosos e geriatras, mas tendem a ter um aumento de demanda nos próximos anos. Outras começam a ganhar espaço ou tendem a se desenvolver, como conselheiros de aposentadorias, curadores de memórias pessoais e especialistas em adaptação de casas.

A economia prateada, em alusão aos cabelos grisalhos da terceira idade, oferece oportunidades de ocupações diversificadas tanto em relação à área de formação – saúde, economia, arquitetura – quanto ao nível de instrução – alguns exigem curso superior e outros não.

O potencial deste mercado é claro pelos números envolvidos. No Brasil, as pessoas com mais de 60 anos já ultrapassam em número as crianças. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, no fim de 2020, o país tinha quase 39 milhões de pessoas com mais de 60 anos (18,4% da população) e 35,2 milhões até 13 anos de idade (16,6%). A parcela de idosos tende a crescer.

“É fato que existe um mercado consumidor crescente com o aumento da expectativa de vida, mas quem quiser trabalhar nessa área deve entender como a longevidade muda a trajetória da sociedade. Na verdade, todo mundo precisa entender. A longevidade é uma causa”, diz a coordenadora do FDC Longevidade Michelle Queiroz Coelho.

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Sociedade de Executivos: Concentração de Renda e Misoginia

Misoginia é a repulsa, desprezo ou ódio contra as mulheres. Esta forma de aversão à mulher é centrada em uma visão sexista. Coloca a mulher em uma relação de subalternidade em relação ao homem.

O desprezo ou ódio dirigido às mulheres está diretamente relacionado com a violência praticada contra a mulher. A misoginia é a principal responsável por grande parte dos assassinatos de mulheres, também conhecido por feminicídio, que configura-se como formas de agressões físicas e psicológicas, mutilações, abusos sexuais, torturas, perseguições, entre outras violências relacionadas direta ou indiretamente com o gênero feminino.

Barbara Bigarelli (Valor, 11/03/2021) informa: embora os Conselheiros de Administração não tenham escapado da redução temporária de remuneração em 2020, por conta da pandemia, um novo estudo aponta: nos últimos dois anos eles passaram a ganhar mais no Brasil. De 2018 para 2020, considerando apenas honorários fixos, os Presidentes de Conselhos de Administração (PCA) tiveram um aumento médio de 19% na remuneração e os conselheiros de 14%.

O pacote total de pagamento inclui fixos, incentivos de curto prazo (ICP) e ações. Nele, o aumento foi de 33% para PCA e 24% para conselheiros. Os dados foram levantados pela consultoria Korn Ferry. Foram ouvidas 83 empresas sendo 32% com receita líquida acima de R$ 1 bilhão a R$ 5 bilhões em 2019 – 21% da amostra atua na indústria, 20% no varejo, 10% em serviços e 10% no setor financeiro.

A pesquisa também indica: a remuneração total de um PCA representa, em média, 34%, do pacote total que o CEO de sua empresa recebe. Considerando o controle acionário, nas empresas com controle familiar, o pacote pago ao presidente do conselho é acima da média, chegando a 51% do pago ao CEO.

De forma geral, os pacotes de remuneração dos conselheiros estão crescendo muito mais que a inflação e muito mais que os dos executivos.

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Conflito de Interesses: Casta dos Mercadores X Casta dos Sábios-Tecnocratas

Ana Luiza de Carvalho (Valor, 24/11/2020) informa: a remuneração média dos membros dos Conselhos de Administração de companhias de capital fechado no Brasil é de R$ 10 mil a R$ 15 mil, segundo dados da 1a Pesquisa Remuneração de Conselheiros em Empresas de Capital Fechado, promovida pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). A pesquisa ouviu 269 conselheiros de administração e conselheiros consultivos no país.

Observação: isto é um “bico”, ou seja, uma remuneração complementar da casta dos mercadores com salários e bônus elevadíssimos em termos anuais. O temido por ela não a perda de status social com a comparação com a casta dos sábios-tecnocratas, mas sim a ameça de um reforma tributária acabar com o privilégio de isenção de lucros e dividendos ou mesmo impor um Imposto sobre Grande Fortuna. Por isso, prega contra os servidores públicos, para o corte de gastos do setor público retirar essa ameaça.

O estudo do IBGG foi motivado pela curiosidade dos profissionais acerca das práticas de remuneração em empresas fechadas. No caso das companhias de capital aberto, os dados são públicos e frequentemente relatados em pesquisas da área.

A remuneração é sempre um dado sensível e há muito receio de passar essas informações. Então, a pesquisa estruturou os valores dentro de uma faixa e entrou em contato com os próprios contatos do Instituto pedindo apoio.

A pesquisa aponta: 82,5% dos conselheiros são remunerados em seus cargos. Do total de entrevistados, 25% recebem entre R$ 10 mil e R$ 15 mil. Nos extremos, 12,4% dos conselheiros afirmam terem rendimentos de até R$ 5 mil mensais, enquanto 11,7% faturam mais de R$ 30 mil em seus cargos.

No caso de presidentes dos Conselhos, 27,6% recebem entre R$ 20 e R$ 25 mil, enquanto 17,2% possuem remuneração de até R$ 5 mil mensais. No outro extremo, com montante superior a R$ 30 mil, estão 10,3% dos presidentes dos colegiados.

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Economistas Negros Bem-Sucedidos por Igualdade de Oportunidades

Érika Fraga (FSP, 28/11/2020) informa: Sergio Luiz da Silva, 49, e Natalie Victal, 31, são economistas negros bem-sucedidos no mercado financeiro em São Paulo. Desde 2011, ele é sócio da AZ Quest, gestora de fundos de investimentos cujas carteiras somam R$ 18 bilhões. Antes, passou por instituições como GAP Asset Management, Citibank e Merrill Lynch.

Ela atua, desde 2019, como economista da Garde, empresa que administra R$ 4,5 bilhões em ativos. Após concluir o mestrado na PUC-Rio, em 2014, trabalhou em outras três empresas do setor: Kyros, Kondor e BlueLine.

O termo “a exceção da exceção” se encaixa na trajetória de profissionais como Sergio e Natalie no Brasil, onde, embora sejam 55,4% da população, só 11% dos negros com mais de 25 anos têm ensino superior, contra 24,9% de brancos.

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Economistas Sectários: Colaboradores Relutantes

The Economist – 14/11/2020

Para os epidemiologistas, 2020 foi uma prova de fogo. Os economistas deveriam ter sido capazes de se relacionar com empatia. Há pouco mais de uma década suas próprias práticas e previsões foram submetidas aos duros olhos do público após a crise financeira global. Em vez disso, a relação entre as duas disciplinas tem sido difícil.

 Alguns economistas até questionaram se os epidemiologistas estavam intelectualmente equipados para o ensaio. “Quão inteligentes são eles? Quais são as suas pontuações gre médias?” perguntou-se Tyler Cowen da George Mason University em abril. O snootiness é lamentável. 

Os desafios colocados pela pandemia do coronavírus – e aqueles ainda por vir, conforme as vacinas são distribuídas – clamam por cooperação. Mas com muita frequência, quando os economistas se aventuram em outras áreas acadêmicas, sua chegada parece mais uma força de invasão desajeitada do que uma missão diplomática útil.

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Brasil: Maior Desigualdade Educacional

Ana Estela de Sousa Pinto informa: o Brasil é o país onde terminar o ensino superior garante a maior vantagem salarial em relação ao ensino médio completo e ao incompleto, entre 37 avaliados pela OCDE, grupo de nações entre as mais ricas do mundo.

O dado faz parte de um estudo lançado no dia 08/09/2020, com estatísticas comparáveis sobre educação em 46 países —além dos 38 membros da organização, foram incluídos dados de Brasil, China, Rússia, Índia, Indonésia, Argentina, Arábia Saudita e África do Sul.

Ensino superior (incluindo graduados e pós-graduados) garante ao brasileiro uma remuneração média 144% acima da dos que terminaram o ensino médio. Em comparação com os que não concluíram o ensino médio, a remuneração dos graduados é mais que o triplo (258% acima).

A vantagem obtida com um diploma de faculdade no Brasil fica muito acima da média dos países da OCDE, de 54% e 89%, respectivamente. Continuar a ler

Precarização do Mercado de Trabalho

O país perdeu 1,2 milhão de empregos com carteira assinada no primeiro semestre deste ano e o desempenho só não foi pior porque as contratações dos chamados intermitentes, funcionários trabalhando por hora ou por um período determinado, se mantiveram positivas ao registrar a criação de 20,5 mil novos postos de trabalho no período.

Com a pandemia, muitos empresários recorreram a esses contratos tanto para preencher com rapidez e de forma temporária postos de funcionários que faziam parte do grupo de risco ou que contraíram a covid-19 como para atender ao aumento da demanda em setores que fazem parte dos serviços essenciais, como supermercados e farmácias.

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Casta dos Sábios-Tecnocratas sob ameaça da Aliança entre Casta dos Mercadores e Casta dos Militares

Francisco Góes (Valor, 20/07/2020) informa: em seu processo de desmanche, provocado pelo discurso de ódio dos neoliberais, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançou, oficialmente, um plano de demissão voluntária. A iniciativa, chamada de Plano de Estímulo à Aposentadoria 2020, busca atrair 10% do quadro de empregados, de 2.623 pessoas.

Avaliações preliminares de técnicos do banco indicam, porém, ser difícil atingir a meta. O benefício máximo total para quem aderir não poderá passar de R$ 600 mil.

Um dos entraves a uma maior participação dos empregados no plano pode estar no fato de que o BNDES, além de pagar salários elevados na administração pública, tem um programa de participação nos lucros e resultados (PLR) que poderia compensar a indenização prevista no Plano de Estímulo à Aposentadoria. O argumento se baseia na perspectiva de que o BNDES continue pagando PLRs nos próximos exercícios. A participação dos empregados nos resultados tem caído nos últimos anos. Continuar a ler

AI, AI, AI… AAI: Agentes Autônomos de Investimento e Home Office de Bancários

Adriana Cotias (Valor, 29/06/2020) informa: a ferida aberta entre Itaú e XP, após o banco, em horário nobre da TV, apontar o dedo para potenciais conflitos na oferta de investimentos via agentes autônomos expõe dilemas que há tempos vêm sendo discutidos pelo setor. Enquanto a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) revisa regras disciplinadoras da atividade desses profissionais, a Anbima, representante do mercado de capitais e de investimentos, tem trabalhado em algumas frentes para trazer mais transparência na relação de quem está na linha de frente com o cliente, seja o assessor independente, o gerente de agência ou o consultor.

Os agentes autônomos não estão debaixo da asa da autorregulação, mas as corretoras e distribuidoras de valores sim, bem como os bancos. Com base na experiência internacional, a ideia é dar mais clareza aos investidores sobre a forma de remuneração de quem faz a distribuição, segundo o presidente da Anbima. Esse é um dos temas da consulta pública da CVM realizada no ano passado.

A própria XP se antecipou ao começar a abrir o comissionamento dos assessores plugados à sua plataforma. A ideia da Anbima é essas informações chegarem a investidores de todos os canais: agências, consultorias de investimentos ou autônomos.

Mas não adianta dar transparência se não for de maneira clara. Se você compara coisas diferentes vira desinformação. A questão é como padronizar informações e definir o nível de abertura a determinados mercados, de forma que o investidor entenda quanto está pagando para a instituição A ou B quando escolhe um produto. Como a CVM pode criar regra própria para isso, a Anbima deve esperar as diretrizes regulatórias para coordenar as mudanças.

Uma das críticas ao modelo de distribuição dos agentes é que, como a remuneração vem exclusivamente do comissionamento pago pelas corretoras pelos produtos que vendem, há incentivo para que privilegiem os mais rentáveis ao seu negócio e não necessariamente ao investidor. Potencialmente replicam conflitos historicamente observados na rede bancária. Continuar a ler

Potencial de Teletrabalho em Casa: Home Office ou Homework?

O estudo “Potencial de Teletrabalho na Pandemia: Um Retrato no Brasil e no Mundo” foi feito em parceria pelos pesquisadores Felipe Martins e Geraldo Góes, do Ipea, e José Antônio Sena, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

As medidas de distanciamento social adotadas para conter a disseminação do vírus levam à necessidade da avaliação de quantos trabalhos podem ser realizados remotamente, em casa. Esta Nota Técnica classifica a viabilidade do chamado homework, ou teletrabalho, para todas as profissões da Classificação de Ocupações para Pesquisas Domiciliares (COD) – utilizada na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua – e vincula essa classificação às contagens de empregos ocupacionais.

Utilizaram a metodologia desenvolvida por Dingel e Neiman (2020), de aplicação das classificações ocupacionais a 86 países, onde se mostra as economias de baixa renda terem uma parcela menor de trabalho possível ser realizados remotamente.

Nesse estudo, o Brasil ocupou a 47ª posição, com um percentual de 25,7% de teletrabalho. Na adequação desse trabalho para o Brasil, utilizando a COD, constataram 22,7% dos empregos no Brasil podem ser realizados inteiramente em casa, com variações significativas entre as diferentes Unidades da Federação (UFs) e os tipos de atividades ocupacionais.

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