Vale a pena ser pejotizado?

Meus filhos são de uma geração de universitários recém-formados sem a opção de ser contratado por empresa privada com carteira de trabalho assinada. Restam-lhes a única opção de aceitar a “pejotização”. Esta é a prática de constituição de sociedades prestadoras de serviços de profissões regulamentadas em detrimento das relações de emprego com direitos trabalhistas.

Perguntam-me: o que fazer?

À primeira vista, dados das declarações de impostos de renda de Pessoa Física demonstra o vantajoso (em termos individuais) fenômeno da “pejotização”, pois são 772.923 declarantes como dirigentes, presidentes, diretores de empresa industrial, comercial ou de prestação de serviços. Mesmo com em número bem superior, a média per capita de rendimentos desses dirigentes fica só abaixo da de Jornalistas, Médicos e Engenheiros. A posse de riqueza per capita é inferior apenas da dos 7.770 jornalistas.

Graças aos grandes percentuais de rendimentos isentos, todas as ocupações recebem um rendimento per capita mensal muito superior ao da maioria dos colegas profissionais não pejotizados.

O fenômeno da pejotização ocorre como mecanismo alternativo para submissão de rendas do trabalho de profissionais liberais à sistemática de tributação das pessoas jurídicas. Ele é motivado por:

  1. a significativa vantagem tributária e
  2. a redução do custo administrativo com a desobrigação das exigências trabalhistas.

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Aptidão para ser Empreendedor ou Capitalista

Nunca pensei em empreender um negócio próprio ou viver da exploração do trabalho de outras pessoas. Quando visitei a Serra Gaúcha e tive contatos com empresários, o Superintendente de Negócios Regionais da Caixa me chamou atenção para algo jamais destacado por meus professores.

Lá, com os imigrantes de origem italiana e alemã, havia uma cultura de empreendedorismo. Seu filho tinha mudado para Porto Alegre com o objetivo de cursar Administração de Empresas na UFRGS, mas se desapontou por lhe ensinarem apenas a ser trabalhador, ou seja, um futuro empregado e não um patrão. Desistiu e voltou à terra natal para colocar foco na aprendizagem do empreendedorismo.

“Caiu minha ficha”: também no IE-UNICAMP, inclusive por não oferecer curso de Gestão em seu âmbito institucional, a gente só formava futuros assalariados. Pela prioridade tecnológica, apenas em 2011 passaram a ser oferecidos cursos de Gestão de Empresas, ministrados no novo campus de Limeira – e não no campus de Campinas. Lá, os alunos dedicam-se ao estudo e prática dos aspectos relacionados à criação, diagnóstico, planejamento e execução de atividades em empresas com e sem fins lucrativos e de diferentes setores da economia a partir de uma perspectiva ética e interdisciplinar.

O curso se apoia em uma unidade metodológica caracterizada por interdisciplinaridade. Compreende a interação com o mundo real não se dar de forma disciplinar por meio do entendimento e aplicação de conceitos derivados de áreas puras de conhecimento.

Para a formação de um profissional integral, o curso de Gestão de Empresas conta com disciplinas abrangentes do conhecimento das disciplinas de humanidades e o desenvolvimento de pensamento crítico acerca da realidade. O curso possui um Núcleo Básico Geral Comum no qual contempla diversas disciplinas da área de Ciências Humanas e Sociais. Esse é um diferencial: formar um gestor de empresas culto e com capacidade de elaboração de estratégias, enfim, um líder. Continuar a ler

Escolha de Valores Éticos Profissionais

Cada empresa tem uma motivação e uma identidade específica. Uma empresa se destaca das outras não só pela sua área de atuação, mas também pelo claro desenvolvimento e divulgação da sua missão, visão e valores. Por exemplo, a Caixa busca ir além de ser um banco, mas ser uma instituição para todos os brasileiros, promovendo a inclusão social e trabalhando para atender com a mesma atenção todos os cidadãos. Ao contribuir significativamente para melhorar a vida das pessoas, principalmente as de baixa renda, o servidor público da Caixa cumpre uma missão social.

Assim, os valores de uma empresa consistem em comportamentos determinantes da forma de sua gestão. Uma empresa sustentável em longo prazo costuma estar alicerçada em valores como honestidade, responsabilidade social, integridade, inovação, sustentabilidade, transparência, inspiração, flexibilidade, entre outros.

Essas normas e princípios devem ser passados como exemplos dos superiores hierárquicos para outros trabalhadores da empresa, de modo a atenderem à demanda social. Os valores éticos de uma empresa são uma parte crucial da sua cultura organizacional.

Na vida em sociedade, os valores morais são essenciais. Ditam os comportamentos individuais, a forma de interação entre seus membros, e daí a emergência de certa ordem no cotidiano social. Os valores sociais estão focados no desenvolvimento da cidadania, a partir de direitos e deveres de modo a melhorar a vida em sociedade. Continuar a ler

Escolha da Ocupação

Em meus cursos sobre Finanças Comportamentais para Trabalhadores, o trabalho de avaliação de aprendizagem solicita aos alunos um planejamento da vida financeira de hoje até o túmulo. Suas apresentações orais são realizadas em um debate divertido e instrutivo.

Com a recorrência da lista de desejos dos alunos dos cursos de extensão – profissionais já graduados – elaborei um mnemônico, útil para facilitar a memorização, e o apresentei a outra turma. Os Cinco Cês da Classe C: são Consumo (Carro e Celular), Casa com Cachorro, Casar, Cruzar e Criar Crianças.

Logo, alguns alunos propuseram ampliar o mnemônico de modo irônico quanto à vidinha besta padronizada. “Ceis” (com C) ou “Cete” (também com C) “Çonhos” (com C cedilha) da Classe C, isto é, típicos da Classe Média, são aqueles acrescentados de Cer (com C) Celebridade, Cabelo Chapinha, Comida, Churrasco, Chocolate, Cerveja, Cachaça, e Cruzeiro como símbolo do status de viajar. Se este último designasse o meu time, algum mano gritaria Corinthians!

Mas essa ironia em relação a Cruzeiro poderia ser vista como esnobismo. Professor diz: “passaporte não é diploma”. Ele tenta valorizar e cobrar dos outros o adquirido por ele: Cultura. Este seria outro Cê, mas custa muito conseguir. Tem ainda de se incentivar mais um Cê: Complementar Previdência. Outros alunos sugeriram: Cexo (com C)! C*, C******. Censura. Continuar a ler

Minha Escolha de Trabalho Não Alienante

Ipanema – RJ – 1953

Era uma vez, uma criança caçula de três irmãos da geração baby-boom, nascidos em série, eu um ano e dois meses depois do meu irmão ainda bebê. Eu era muito tímido diante da reação dos outros à minha ocupação de lugar.

De modo geral, minha infância foi feliz, cercado de proteção materna e com um pai médico provedor. Nossos avós maternos levavam-nos nos fins de semana para uma fazenda, onde desfrutávamos a liberdade de viver em harmonia com a natureza. Passávamos férias nas praias cariocas com os avós paternos.

Até um dia acontecer meu primeiro “ponto de ruptura”: acompanhar meu irmão mais velho no Jardim de Infância. Vi a “escola maternal” como um mundo hostil, cercado de crianças competitivas. Todas desejavam os “bens da moda”, queriam se apossar o tido pelos outros.

Chorei, esperneei, berrei. Agarrava-me à mão de minha mãe, ficava no canto sofrendo até ela vir me salvar daquele ambiente confuso de disputa e rivalidade. Essa batalha se prolongou até um armistício. O acordo entre mãe e filho, para a suspensão temporária da vivência com aquelas hostilidades de crianças envolvidas em disputa, exigiu eu assumir um dever. Eu estudaria com ela, diariamente, até me alfabetizar. Depois, quando tivesse sete anos, entraria no primeiro ano da Escola Fundamental ABC – hoje, o ensino primário.

Aproveitei feliz a trégua. No meu “recreio”, subia o pé-de-caqui, no quintal de minha casa, vizinha ao do Jardim de Infância. Lá eu tinha um bom posto de observação do “território inimigo”: o pátio de recreação dos meus ex-colegas. Observava acuradamente seus comportamentos, suas táticas, as lideranças e os subordinados. Esboçava minha estratégia para o futuro retorno.

Fui alfabetizado com a letra redonda da caligrafia de minha mãe e o hábito de leitura das histórias-em-quadrinhos e os clássicos infanto-juvenis adquiridos por meu pai. Entre outros heróis de capa-e-espada, Robin Hood – roubar dos ricos suas extorsões dos pobres – se tornou meu guia-espiritual em defesa da justiça social.

BH – 3 anos e 7 meses

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Língua Culta versus Manias, Cacoetes e Erros de Linguagem

Pedro Cafardo é editor-executivo do Valor Econômico. Publicou um útil artigo sobre manias, cacoetes e erros que infestam os textos de jornalistase, em decorrência, os de estudantes de Economia, acrescento eu. É escolha de cada um sujeitar a língua a cacoetes de ocasião, em geral, de mau gosto. Uma “língua culta” é visivelmente mais elegante do que a profusão de erros, inclusive ortográficos, que infestam os comentários deselegantes na rede social.

Não podemos achar que nos comportamos de modo correto quando nos comportamos como os outros. Assim, quanto mais pessoas acharem uma ideia correta, mais correta essa ideia será — o que, naturalmente, é absurdo.

Devemos dispensar a língua coloquial e estar atentos ao suposto “jargão profissional”Charlatões são pessoas que agem como se tivessem algum conhecimento. Aprenderam a se apresentar e escrever, aparentemente, como os sábios. Copiam inclusive seus vícios de linguagem, por exemplo, “robusto”, “eficiente” e “eficaz” para qualificar qualquer ação de O Mercado.

Certa vez fui chamado a atenção por uma amiga que, em uma palestra, usei “a nível de“. Era uma prática comum entre meus colegas professores o uso dessa expressão. Hoje, dói no ouvido quando alguém não emprega “no nível“. Em longo prazo, espero não ler ou escutar “a longo prazo“…

Reproduzo abaixo a crônica que nos alerta de erros recorrentes na escrita. Continuar a ler

Casta dos Sábios (ou Sabidos) Tecnocratas

Maeli Prado (FSP, 18/02/18) escreveu uma reportagem que me surpreendeu face minha experiência profissional como Vice-Presidente da Caixa. Em março de 2004, meu salário líquido era R$ 11.675,00 e ganhava mais R$ 2.782,00 como conselheiro de Administração da Caixa Vida e Previdência (CVPREV). Este total de R$ 14.500,00 é o que ganho hoje (líquido) como Professor Titular da Universidade Estadual de Campinas, dado o redutor imposto pelo governador-candidato a fake de “caçador-de-marajás”. Já vimos esse filme — e ele não termina bem!

Para ter uma base comparativa, em julho de 2002, eu ganhava como Professor Livre-Docente, R$ 4.262,94, ou seja, na Caixa passei a receber quase três vezes mais. Quando saí da Caixa, ganhava R$ 20.579 e mais R$ 3.045 da CVPREV: R$ 23.624. Este valor estava abaixo do teto constitucional dado pelos vencimentos dos ministros do STF.

Este valor representava cerca de ⅓ dos salários dos banqueiros membros da Diretoria Executiva da FEBRABAN (na qual eu fui representante da Caixa de 2003 a 2007), sem contar os bônus milionários. A Caixa não pagava bônus, quando muito um 14o. salário como PLR, embora o lucro da Tesouraria da VIFIN (minha vice-presidência) chegasse a atingir 68% do total da Caixa — média de R$ 9 bi / ano antes das “reservas”, durante meus quatro anos lá. Eu me dava como satisfeito, dado o custo de oportunidade…

The Times They Are A-Changin’. Entre os cinco bancos estatais federais, o BNDES é a instituição que paga a maior remuneração aos seus diretores. Dados obtidos pela Folha de São Paulo por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que o salário fixo da diretoria do banco é R$ 80.110,10, e o do presidente, R$ 87,4 mil.

Quando se soma a esse valor a remuneração variável, que depende de metas alcançadas, a renda média por mês é equivalente a R$ 105 mil, valor referente a 2016, último dado disponibilizado pelo banco. Segundo o BNDES, os executivos não tiveram aumento de salário em 2017. Snif, snif… eu ganho o mesmo valor nominal desde 2012, embora tenha alcançado o topo da carreira universitária. Continuar a ler