Casta dos Sábios (ou Sabidos) Tecnocratas

Maeli Prado (FSP, 18/02/18) escreveu uma reportagem que me surpreendeu face minha experiência profissional como Vice-Presidente da Caixa. Em março de 2004, meu salário líquido era R$ 11.675,00 e ganhava mais R$ 2.782,00 como conselheiro de Administração da Caixa Vida e Previdência (CVPREV). Este total de R$ 14.500,00 é o que ganho hoje (líquido) como Professor Titular da Universidade Estadual de Campinas, dado o redutor imposto pelo governador-candidato a fake de “caçador-de-marajás”. Já vimos esse filme — e ele não termina bem!

Para ter uma base comparativa, em julho de 2002, eu ganhava como Professor Livre-Docente, R$ 4.262,94, ou seja, na Caixa passei a receber quase três vezes mais. Quando saí da Caixa, ganhava R$ 20.579 e mais R$ 3.045 da CVPREV: R$ 23.624. Este valor estava abaixo do teto constitucional dado pelos vencimentos dos ministros do STF.

Este valor representava cerca de ⅓ dos salários dos banqueiros membros da Diretoria Executiva da FEBRABAN (na qual eu fui representante da Caixa de 2003 a 2007), sem contar os bônus milionários. A Caixa não pagava bônus, quando muito um 14o. salário como PLR, embora o lucro da Tesouraria da VIFIN (minha vice-presidência) chegasse a atingir 68% do total da Caixa — média de R$ 9 bi / ano antes das “reservas”, durante meus quatro anos lá. Eu me dava como satisfeito, dado o custo de oportunidade…

The Times They Are A-Changin’. Entre os cinco bancos estatais federais, o BNDES é a instituição que paga a maior remuneração aos seus diretores. Dados obtidos pela Folha de São Paulo por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que o salário fixo da diretoria do banco é R$ 80.110,10, e o do presidente, R$ 87,4 mil.

Quando se soma a esse valor a remuneração variável, que depende de metas alcançadas, a renda média por mês é equivalente a R$ 105 mil, valor referente a 2016, último dado disponibilizado pelo banco. Segundo o BNDES, os executivos não tiveram aumento de salário em 2017. Snif, snif… eu ganho o mesmo valor nominal desde 2012, embora tenha alcançado o topo da carreira universitária. Continuar a ler

Contra o Redutor do Salário Confiscado pelo Governador de São Paulo

PELA IMPLANTAÇÃO DO TETO SALARIAL DE CARREIRA EM SÃO PAULO E APROVAÇÃO DA PEC 5

Colegas:
A nossa campanha pelo teto salarial de carreira para o funcionalismo público paulista vive nesta semana um momento decisivo.

Há quase quatro anos, estamos lutando para que o teto salarial de carreira estabelecido na Constituição Federal e já vigente na quase totalidade dos Estados brasileiros seja implantado também no Estado de São Paulo. No nosso Estado, o teto salarial ainda é estabelecido arbitrariamente pelo ocupante ocasional do posto de governador.

Nesta semana, a expectativa de docentes e servidores técnico-administrativos da UNICAMP, UNESP e USP, ao lado de funcionários públicos estaduais de várias categorias também atingidas, é ver pautada e aprovada, pelo plenário da Assembleia Legislativa do Estado de SP, o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) n. 5, que lá tramita já há quase dois anos.

Essa PEC estabelece um plano real e plenamente factível de implantação do teto salarial previsto pela Constituição Federal (através da Emenda Constitucional n. 47, de 2005), qual seja, de 90,25% do teto federal, algo em torno de R$ 30 mil em valores atuais (salário bruto integral e sem “penduricalhos”). Continuar a ler

O discreto medo dos eleitores assombra as castas

Achei muito interessante o artigo de Edward Luce (Financial Times apud Valor, 08/02/2018) para ser submetido a um exercício intelectual de sua releitura sob a ótica da estratificação social por castas de natureza ocupacional. Cada casta destaca seus valores morais e posicionamentos políticos. Permite-nos entender melhor os conflitos de interesses entre elas e os preconceitos mútuos. Com isso, podemos analisar de forma mais adequada o resultado eleitoral nos EUA — e avaliar o possível resultado aqui em Terrae Brasilis.

Começo substituindo o título “O discreto terror que assombra a burguesia dos EUA” por “O discreto terror dos eleitores que assombra as castas dos EUA“. Deixa de fazer a referência ao filme de Luís Bunuel “O Discreto Charme da Burguesia“, mas corresponde mais aos fatos.

As castas são sistemas tradicionais, hereditários ou sociais de estratificação com base em classificações tais como a etnia, a cultura, a ocupação profissional, etc. Casta é uma forma de estratificação social caracterizada pela endogamia (inclusive corporativa entre colegas de profissão), pela transmissão hereditária de um estilo de vida que frequentemente inclui um ofício (profissão), status e ritual relacionado a certa hierarquia. Suas interações sociais são consuetudinárias (habituais), baseadas nos costumes. Faz exclusão social levando em conta artificiais noções culturais de pureza, esnobando os “impuros”.

Tomo a liberdade de reescrever o artigo abaixo, substituindo classes sociais por castas, para terror dos dogmáticos que não abrem mão da categoria marxista “luta de classes”. Mas os fundamentalistas não conseguem explicar o conflito interno entre “as elites norte-americanas” da mesma classe de riqueza.

Antes, vale ter uma informação: Bill Clinton é um ex-aluno da Universidade de Georgetown, onde foi membro das sociedades Kappa Kappa Psi and Phi Beta Kappa e ganhou uma bolsa de estudos Rhodes para estudar na Universidade de Oxford. Ele é casado com Hillary Rodham Clinton. Ambos os Clintons receberam diplomas de Direito da Universidade Yale, onde se conheceram. Portanto, oriundos da casta dos sábios universitários, emigraram para a casta dos oligarcas governantes.

Donald Trump, por sua vez, nasceu e cresceu no Queens, um dos cinco distritos da cidade de Nova York, e recebeu um diploma de bacharel em economia da Wharton School da Universidade da Pensilvânia em 1968. Em 1971, recebeu de seu pai, Fred Trump, o controle da empresa de imóveis e construção Elizabeth Trump & Son, renomeando-a para The Trump Organization.

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Big Data: Estatísticas em Tempo Real

Robin Wigglesworth (Financial Times apud Valor, 02/02/18) informa que, quando Alberto Cavallo era criança na Argentina, no fim dos anos 80, o país latino-americano sofria mais uma de suas crises ocasionais. A inflação era desenfreada, o que tornava uma tarefa simples, como ir ao mercado, uma corrida diária frenética.

Cavallo e sua mãe iam ao banco todos os dias retirar os pesos suficientes para as compras necessárias e mantinham o resto das economias no banco, em dólares. Depois, corriam ao mercado local e compravam o que precisavam o mais rápido possível, na esperança de chegar à caixa registradora antes que o preço fosse remarcado.

“Se não chegássemos à caixa registradora a tempo, então tínhamos que voltar ao banco e começar tudo de novo”, recorda.

Mas a experiência plantou as sementes do que se tornaria uma dos experimentos mais intrigantes no mundo normalmente sossegado da estatística econômica: uma tentativa de usar o surgimento do “big data”, bases com enormes volumes de dados, para aprimorar, complementar e, talvez em algum momento, substituir as formas tradicionais de estatísticas, que ainda informam e moldam os pontos de vista de autoridades econômicas, políticos e acadêmicos e guiam investimentos de trilhões de dólares.

Cavallo hoje é professor de Economia Aplicada no Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde comanda o Billion Prices Project com Roberto Rigobon, outro professor do instituto. O projeto começou em 2006, durante um período em que o governo argentino era acusado de manipular os dados da inflação.

Os professores Cavallo e Rigobon perceberam que, reunindo os dados dos preços na internet, podiam criar um indicador mais preciso e atualizado da inflação real no país. Após a mudança de governo em 2015-2016, a Argentina passou a divulgar um índice mais preciso da inflação. Continuar a ler

Em Defesa de Carreira de Mérito na Caixa

Fiquei extremamente melancólico com as notícias vindas da Caixa Econômica Federal, instituição financeira pública federal (100% das ações do Tesouro Nacional) em que tive orgulho de ser vice-presidente entre fevereiro de 2003 e maio de 2007, durante o primeiro mandato do governo Lula. O estado de tristeza profunda e apatia sentido continuamente por mim se justifica pela maneira em se conduziu (e continuará sendo conduzido) o processo de seleção de quadros dirigentes dessa instituição fundamental para implementação de políticas públicas no País.

Hoje (19/01/2018), o Conselho de Administração (CA) da Caixa reúne-se para aprovar o novo estatuto da instituição financeira. Nele está previsto a contratação de uma consultoria externa para fazer a seleção e avaliação técnica dos executivos que almejam ocupar o cargo de vice-presidente. Somente depois dessa seleção prévia, os executivos serão submetidos à aprovação do CA. Para a presidência do banco, a indicação continuará sendo feita pelo presidente da República.

Atualmente, o CA da Caixa conta com sete representantes, sendo cinco do Ministério da Fazenda, um do Planejamento e um dos empregados da instituição. A presidente é a secretária do Tesouro e o vice-presidente é o presidente-executivo do banco, nomeado por indicação de um partido político da base governista que deu o golpe semi parlamentarista no regime presidencialista.

O relatório da investigação independente realizada pelo escritório Pinheiro Neto na Caixa, a pedido da própria instituição, registra um e-mail do gabinete do então vice-presidente Michel Temer para um vice-presidente, pedindo uma nomeação para cargo de superintendente regional. O documento detalha, por exemplo, que o ex-ministro Geddel Vieira Lima (e ex-VP da Caixa) monitorava de perto operações de interesse de parlamentares “cobrar por fora”. O relatório também cita que alguns VPs mantinham reuniões com o ex-deputado Eduardo Cunha. Continuar a ler

Economia Humana

Miguel Bacic me enviou outra resenha do livro resenhado no post O que a Economia pode aprender com as Humanidades: https://www.weforum.org/es/agenda/2017/07/economia-con-un-rostro-de-humanidades

Em uma pesquisa realizada em 2006, os professores universitários americanos foram questionados se era melhor ter conhecimento de vários campos de estudo ou de um único. Entre os professores de Psicologia, 79% estavam entusiasmados com o aprendizado interdisciplinar, assim como 73% dos sociólogos e 68% dos historiadores.

Os menos entusiasmados? Economistas: apenas 42% dos entrevistados disseram que concordaram com a necessidade de entender o mundo através de uma lente multidisciplinar. Como um observador disse sem rodeios: “Os economistas, literalmente, pensam que não têm nada para aprender com os outros”!

Pelo caminho, os economistas se beneficiarão muito se expandirem o foco. Ao lidar com o que acontece com os seres humanos, a Economia tem muito a aprender com as Humanidades. Não só seus modelos poderiam ser mais realistas e suas previsões mais precisas, mas as políticas econômicas poderiam ser mais efetivas e mais justas.

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Nota de Pesar com o Falecimento do Regis Bonelli

Apesar de ser um leitor e admirador de sua obra, eu só tive três oportunidades de encontrar, pessoalmente, o Regis Bonelli. Minha primeira chefe, no IBGE, era sua amiga e me convidou para um almoço com ele, especialmente para me apresentá-lo. Tive ótima impressão de sua gentileza e educação.

Depois, foram em duas oportunidades de falar no IBRE-FGV em 2015. Eu o lembrei daquele nosso encontro, no final dos anos 70, e ele me tratou com a maior consideração.

Fica o seu exemplo de que um verdadeiro intelectual deve ser uma pessoa cortês e aberta para o diálogo, especialmente com quem não comunga de todas suas ideias.

Reproduzo abaixo os links enviados por JRA (José Roberto Afonso) com sua obra. Continuar a ler