Escolha da Ocupação

Em meus cursos sobre Finanças Comportamentais para Trabalhadores, o trabalho de avaliação de aprendizagem solicita aos alunos um planejamento da vida financeira de hoje até o túmulo. Suas apresentações orais são realizadas em um debate divertido e instrutivo.

Com a recorrência da lista de desejos dos alunos dos cursos de extensão – profissionais já graduados – elaborei um mnemônico, útil para facilitar a memorização, e o apresentei a outra turma. Os Cinco Cês da Classe C: são Consumo (Carro e Celular), Casa com Cachorro, Casar, Cruzar e Criar Crianças.

Logo, alguns alunos propuseram ampliar o mnemônico de modo irônico quanto à vidinha besta padronizada. “Ceis” (com C) ou “Cete” (também com C) “Çonhos” (com C cedilha) da Classe C, isto é, típicos da Classe Média, são aqueles acrescentados de Cer (com C) Celebridade, Cabelo Chapinha, Comida, Churrasco, Chocolate, Cerveja, Cachaça, e Cruzeiro como símbolo do status de viajar. Se este último designasse o meu time, algum mano gritaria Corinthians!

Mas essa ironia em relação a Cruzeiro poderia ser vista como esnobismo. Professor diz: “passaporte não é diploma”. Ele tenta valorizar e cobrar dos outros o adquirido por ele: Cultura. Este seria outro Cê, mas custa muito conseguir. Tem ainda de se incentivar mais um Cê: Complementar Previdência. Outros alunos sugeriram: Cexo (com C)! C*, C******. Censura. Continuar a ler

Minha Escolha de Trabalho Não Alienante

Ipanema – RJ – 1953

Era uma vez, uma criança caçula de três irmãos da geração baby-boom, nascidos em série, eu um ano e dois meses depois do meu irmão ainda bebê. Eu era muito tímido diante da reação dos outros à minha ocupação de lugar.

De modo geral, minha infância foi feliz, cercado de proteção materna e com um pai médico provedor. Nossos avós maternos levavam-nos nos fins de semana para uma fazenda, onde desfrutávamos a liberdade de viver em harmonia com a natureza. Passávamos férias nas praias cariocas com os avós paternos.

Até um dia acontecer meu primeiro “ponto de ruptura”: acompanhar meu irmão mais velho no Jardim de Infância. Vi a “escola maternal” como um mundo hostil, cercado de crianças competitivas. Todas desejavam os “bens da moda”, queriam se apossar o tido pelos outros.

Chorei, esperneei, berrei. Agarrava-me à mão de minha mãe, ficava no canto sofrendo até ela vir me salvar daquele ambiente confuso de disputa e rivalidade. Essa batalha se prolongou até um armistício. O acordo entre mãe e filho, para a suspensão temporária da vivência com aquelas hostilidades de crianças envolvidas em disputa, exigiu eu assumir um dever. Eu estudaria com ela, diariamente, até me alfabetizar. Depois, quando tivesse sete anos, entraria no primeiro ano da Escola Fundamental ABC – hoje, o ensino primário.

Aproveitei feliz a trégua. No meu “recreio”, subia o pé-de-caqui, no quintal de minha casa, vizinha ao do Jardim de Infância. Lá eu tinha um bom posto de observação do “território inimigo”: o pátio de recreação dos meus ex-colegas. Observava acuradamente seus comportamentos, suas táticas, as lideranças e os subordinados. Esboçava minha estratégia para o futuro retorno.

Fui alfabetizado com a letra redonda da caligrafia de minha mãe e o hábito de leitura das histórias-em-quadrinhos e os clássicos infanto-juvenis adquiridos por meu pai. Entre outros heróis de capa-e-espada, Robin Hood – roubar dos ricos suas extorsões dos pobres – se tornou meu guia-espiritual em defesa da justiça social.

BH – 3 anos e 7 meses

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Língua Culta versus Manias, Cacoetes e Erros de Linguagem

Pedro Cafardo é editor-executivo do Valor Econômico. Publicou um útil artigo sobre manias, cacoetes e erros que infestam os textos de jornalistase, em decorrência, os de estudantes de Economia, acrescento eu. É escolha de cada um sujeitar a língua a cacoetes de ocasião, em geral, de mau gosto. Uma “língua culta” é visivelmente mais elegante do que a profusão de erros, inclusive ortográficos, que infestam os comentários deselegantes na rede social.

Não podemos achar que nos comportamos de modo correto quando nos comportamos como os outros. Assim, quanto mais pessoas acharem uma ideia correta, mais correta essa ideia será — o que, naturalmente, é absurdo.

Devemos dispensar a língua coloquial e estar atentos ao suposto “jargão profissional”Charlatões são pessoas que agem como se tivessem algum conhecimento. Aprenderam a se apresentar e escrever, aparentemente, como os sábios. Copiam inclusive seus vícios de linguagem, por exemplo, “robusto”, “eficiente” e “eficaz” para qualificar qualquer ação de O Mercado.

Certa vez fui chamado a atenção por uma amiga que, em uma palestra, usei “a nível de“. Era uma prática comum entre meus colegas professores o uso dessa expressão. Hoje, dói no ouvido quando alguém não emprega “no nível“. Em longo prazo, espero não ler ou escutar “a longo prazo“…

Reproduzo abaixo a crônica que nos alerta de erros recorrentes na escrita. Continuar a ler

Casta dos Sábios (ou Sabidos) Tecnocratas

Maeli Prado (FSP, 18/02/18) escreveu uma reportagem que me surpreendeu face minha experiência profissional como Vice-Presidente da Caixa. Em março de 2004, meu salário líquido era R$ 11.675,00 e ganhava mais R$ 2.782,00 como conselheiro de Administração da Caixa Vida e Previdência (CVPREV). Este total de R$ 14.500,00 é o que ganho hoje (líquido) como Professor Titular da Universidade Estadual de Campinas, dado o redutor imposto pelo governador-candidato a fake de “caçador-de-marajás”. Já vimos esse filme — e ele não termina bem!

Para ter uma base comparativa, em julho de 2002, eu ganhava como Professor Livre-Docente, R$ 4.262,94, ou seja, na Caixa passei a receber quase três vezes mais. Quando saí da Caixa, ganhava R$ 20.579 e mais R$ 3.045 da CVPREV: R$ 23.624. Este valor estava abaixo do teto constitucional dado pelos vencimentos dos ministros do STF.

Este valor representava cerca de ⅓ dos salários dos banqueiros membros da Diretoria Executiva da FEBRABAN (na qual eu fui representante da Caixa de 2003 a 2007), sem contar os bônus milionários. A Caixa não pagava bônus, quando muito um 14o. salário como PLR, embora o lucro da Tesouraria da VIFIN (minha vice-presidência) chegasse a atingir 68% do total da Caixa — média de R$ 9 bi / ano antes das “reservas”, durante meus quatro anos lá. Eu me dava como satisfeito, dado o custo de oportunidade…

The Times They Are A-Changin’. Entre os cinco bancos estatais federais, o BNDES é a instituição que paga a maior remuneração aos seus diretores. Dados obtidos pela Folha de São Paulo por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que o salário fixo da diretoria do banco é R$ 80.110,10, e o do presidente, R$ 87,4 mil.

Quando se soma a esse valor a remuneração variável, que depende de metas alcançadas, a renda média por mês é equivalente a R$ 105 mil, valor referente a 2016, último dado disponibilizado pelo banco. Segundo o BNDES, os executivos não tiveram aumento de salário em 2017. Snif, snif… eu ganho o mesmo valor nominal desde 2012, embora tenha alcançado o topo da carreira universitária. Continuar a ler

Contra o Redutor do Salário Confiscado pelo Governador de São Paulo

PELA IMPLANTAÇÃO DO TETO SALARIAL DE CARREIRA EM SÃO PAULO E APROVAÇÃO DA PEC 5

Colegas:
A nossa campanha pelo teto salarial de carreira para o funcionalismo público paulista vive nesta semana um momento decisivo.

Há quase quatro anos, estamos lutando para que o teto salarial de carreira estabelecido na Constituição Federal e já vigente na quase totalidade dos Estados brasileiros seja implantado também no Estado de São Paulo. No nosso Estado, o teto salarial ainda é estabelecido arbitrariamente pelo ocupante ocasional do posto de governador.

Nesta semana, a expectativa de docentes e servidores técnico-administrativos da UNICAMP, UNESP e USP, ao lado de funcionários públicos estaduais de várias categorias também atingidas, é ver pautada e aprovada, pelo plenário da Assembleia Legislativa do Estado de SP, o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) n. 5, que lá tramita já há quase dois anos.

Essa PEC estabelece um plano real e plenamente factível de implantação do teto salarial previsto pela Constituição Federal (através da Emenda Constitucional n. 47, de 2005), qual seja, de 90,25% do teto federal, algo em torno de R$ 30 mil em valores atuais (salário bruto integral e sem “penduricalhos”). Continuar a ler

O discreto medo dos eleitores assombra as castas

Achei muito interessante o artigo de Edward Luce (Financial Times apud Valor, 08/02/2018) para ser submetido a um exercício intelectual de sua releitura sob a ótica da estratificação social por castas de natureza ocupacional. Cada casta destaca seus valores morais e posicionamentos políticos. Permite-nos entender melhor os conflitos de interesses entre elas e os preconceitos mútuos. Com isso, podemos analisar de forma mais adequada o resultado eleitoral nos EUA — e avaliar o possível resultado aqui em Terrae Brasilis.

Começo substituindo o título “O discreto terror que assombra a burguesia dos EUA” por “O discreto terror dos eleitores que assombra as castas dos EUA“. Deixa de fazer a referência ao filme de Luís Bunuel “O Discreto Charme da Burguesia“, mas corresponde mais aos fatos.

As castas são sistemas tradicionais, hereditários ou sociais de estratificação com base em classificações tais como a etnia, a cultura, a ocupação profissional, etc. Casta é uma forma de estratificação social caracterizada pela endogamia (inclusive corporativa entre colegas de profissão), pela transmissão hereditária de um estilo de vida que frequentemente inclui um ofício (profissão), status e ritual relacionado a certa hierarquia. Suas interações sociais são consuetudinárias (habituais), baseadas nos costumes. Faz exclusão social levando em conta artificiais noções culturais de pureza, esnobando os “impuros”.

Tomo a liberdade de reescrever o artigo abaixo, substituindo classes sociais por castas, para terror dos dogmáticos que não abrem mão da categoria marxista “luta de classes”. Mas os fundamentalistas não conseguem explicar o conflito interno entre “as elites norte-americanas” da mesma classe de riqueza.

Antes, vale ter uma informação: Bill Clinton é um ex-aluno da Universidade de Georgetown, onde foi membro das sociedades Kappa Kappa Psi and Phi Beta Kappa e ganhou uma bolsa de estudos Rhodes para estudar na Universidade de Oxford. Ele é casado com Hillary Rodham Clinton. Ambos os Clintons receberam diplomas de Direito da Universidade Yale, onde se conheceram. Portanto, oriundos da casta dos sábios universitários, emigraram para a casta dos oligarcas governantes.

Donald Trump, por sua vez, nasceu e cresceu no Queens, um dos cinco distritos da cidade de Nova York, e recebeu um diploma de bacharel em economia da Wharton School da Universidade da Pensilvânia em 1968. Em 1971, recebeu de seu pai, Fred Trump, o controle da empresa de imóveis e construção Elizabeth Trump & Son, renomeando-a para The Trump Organization.

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Big Data: Estatísticas em Tempo Real

Robin Wigglesworth (Financial Times apud Valor, 02/02/18) informa que, quando Alberto Cavallo era criança na Argentina, no fim dos anos 80, o país latino-americano sofria mais uma de suas crises ocasionais. A inflação era desenfreada, o que tornava uma tarefa simples, como ir ao mercado, uma corrida diária frenética.

Cavallo e sua mãe iam ao banco todos os dias retirar os pesos suficientes para as compras necessárias e mantinham o resto das economias no banco, em dólares. Depois, corriam ao mercado local e compravam o que precisavam o mais rápido possível, na esperança de chegar à caixa registradora antes que o preço fosse remarcado.

“Se não chegássemos à caixa registradora a tempo, então tínhamos que voltar ao banco e começar tudo de novo”, recorda.

Mas a experiência plantou as sementes do que se tornaria uma dos experimentos mais intrigantes no mundo normalmente sossegado da estatística econômica: uma tentativa de usar o surgimento do “big data”, bases com enormes volumes de dados, para aprimorar, complementar e, talvez em algum momento, substituir as formas tradicionais de estatísticas, que ainda informam e moldam os pontos de vista de autoridades econômicas, políticos e acadêmicos e guiam investimentos de trilhões de dólares.

Cavallo hoje é professor de Economia Aplicada no Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde comanda o Billion Prices Project com Roberto Rigobon, outro professor do instituto. O projeto começou em 2006, durante um período em que o governo argentino era acusado de manipular os dados da inflação.

Os professores Cavallo e Rigobon perceberam que, reunindo os dados dos preços na internet, podiam criar um indicador mais preciso e atualizado da inflação real no país. Após a mudança de governo em 2015-2016, a Argentina passou a divulgar um índice mais preciso da inflação. Continuar a ler