Diretora do Vídeo-Clipe Nina Torres Costa

Diretora Nina Torres Costa

No meu tempo de Colégio Estadual, o conhecimento de francês era obrigatório. Então, dizia-se: “pour épater le bourgeois“… Hoje, em bolsonarês estúpido, se diz: “prá enchê o saco da direita, taoquei?

Um vídeo-clipe da minha filha de 25 anos como diretora seria lançado ontem no programa Fantástico da TV Globo. No entanto, ela preferiu louvar o cast da casa… Compartilho a “ideologia de gênero” acima.

Letra da Música “Mulheres não têm que chorar”:

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Explicando O Poder do Voto (Documentário na Netflix)

Em 1776, 56 homens assinaram um documento alegando algo radical: “todos os homens são criados iguais e todos os governos obtêm seus poderes justos do consentimento dos governados”. Esses dizeres foram inscritos na Constituição dos Estados Unidos. 

A contradição, desde logo, foi o Direito do Voto não ter sido concedido para todos seres humanos nascidos/naturalizados nos Estados Unidos, mas apenas para os donos de seres humanos. Votar era um privilégio exclusivo de homens brancos com propriedade, destacadamente os escravistas. 

Quando George Washington foi eleito o primeiro presidente da República norte-americana, no máximo 20% dos governados podiam votar. A luta para decidir e declarar o voto ser um direito – e não um privilégio – é ainda um desafio.

Primeiro, após a Guerra Civil (1860-1865), os negros conquistaram o direito ao voto, retirado logo após no Sul. Depois, em 1920, as mulheres e os nativos indígenas o conquistaram. Em 1971, a idade de voto caiu de 21 para 18 anos. Em 2016, cerca de 90% dos maiores de 18 anos nos EUA podia votar, mas só 56% exerceu o direito.

Os Estados Unidos ficaram abaixo da maioria dos países desenvolvidos em participação dos eleitores. Com a pandemia não há como fugir do debate sobre a votação no Império militar, econômico e cultural. O atual presidente com o risco de ser derrotado já anuncia o voto eleitoral ser fraudado, não disposto a reconhecer seu fracasso.

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Parasita

Esta resenha escrita por Pedro Butcher (Valor 08/11/2019) contém spoiler. Porém, eu a reproduzo abaixo para quem já assistiu o inusual filme — mistura de gêneros com comentários sociais críticos — e como recomendação de assistir para quem ainda não teve a oportunidade de assisti-lo.

“Vivemos um tempo de extremos, não muito apropriado às sutilezas. Se polarizações demandam paciência para manter a sanidade, exigem, também, um posicionamento. É preciso saber de que lado se está.

Um ambiente assim representa um desafio especial para quem trabalha com cinema. Não deixa de ser extremamente significativo que, em 2019, o circuito comercial tenha recebido três filmes com respostas à altura para os desafios de tempos extremos: o brasileiro “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles; o americano “Coringa”, de Todd Philips, e, agora, o coreano “Parasita”, de Bong Joon-ho.

São trabalhos que não podem ser propriamente chamados de sutis, mas que, dentro de um quadro que exige uma tomada de posição evidente, as sutilezas se fazem ver de outras maneiras.

“Bacurau”, “Coringa” e “Parasita” são “diretos” e “simples” no que querem dizer e, ao mesmo tempo, complexos em suas estruturas. Em alguns momentos, chegam a causar espanto detalhes que os filmes trazem em comum, como certos traços de comportamento de personagens, a importância que os objetos ganham na narrativa, o uso pontual da música e, no caso dos filmes brasileiro e coreano, as referências aos EUA. Todos são também atualíssimos, mas recorrendo a um fazer cinematográfico que remete a outra época (os anos 70, em especial).

O mais forte elo entre os filmes é uma visão política que aborda, de maneiras distintas, a luta de classes. Em “Parasita”, tudo começa quando o jovem filho de uma família pobre consegue trabalho como professor particular de uma jovem filha de família rica. A família pobre, cujos pais estão desempregados e os filhos estão fora da universidade por falta de dinheiro, aos poucos passa a fazer parte do corpo de empregados da família rica. Continuar a ler

Origens dos EUA, o Coringa e o Ocaso da Supremacia Branca (por Franklin Frederick)

«Nas raízes do capitalismo encontram-se não apenas a escravidão e a supremacia branca, mas também o ‘ethos’ do gangster.» (Gerald Horne)

O filme ‘Coringa’ apresenta um fenômeno contemporâneo presente em vários países, mas que só pode ser compreendido em sua complexidade através da história das origens dos EUA.

O historiador Afro-Americano Gerald Horne argumenta no livro ‘The Counter- Revolution of 1776: Slave Resistance and the origins of the United States of America’ que o movimento pela independência dos EUA nasceu, por um lado, do receio das classes ricas da colônia de um crescente movimento abolicionista na metrópole, a Inglaterra, que poderia acabar com a base de sua riqueza – os escravos. Por outro lado, a Inglaterra também impedia o avanço dos colonos para o oeste, que deveria permanecer como território indígena. Para Horne, a guerra pela independência dos EUA  foi em parte uma ‘contra-revolução’ liderada pelos ‘pais fundadores’ com o objetivo de preservar o seu direito de escravizar outros povos, sobretudo africanos, e de continuar a expandir a jovem nação para o oeste, roubando mais terras dos povos indígenas onde implantar mais trabalho escravo.

Em um outro livro, ‘The Apocalypse of Settler Colonialism: The Roots of Slavery, White Supremacy and Capitalism in 17th Century North America and the Caribbean’, Horne resumiu assim este processo:

«(…) em 1776, eles (os pais fundadores ou a elite econômica da colônia) deram o último golpe e exibiram o seu novo patriotismo ao expulsar Londres (o poder colonial) das colônias ao sul do Canadá, convencendo os iludidos e ingênuos – até hoje – de que esta pura manobra para se apossar de terras, escravos e lucro tenha sido de alguma maneira um grande salto adiante para a humanidade.»

Neste contexto ocorreu um outro processo de relevância fundamental para os dias de hoje: o nascimento do poderio militar dos EUA. O exército dos EUA teve sua origem na guerra pela independência contra os britânicos, que foi também uma guerra contra a imensa maioria de escravos africanos que se aliaram ao Império Britânico – que prometeu a sua liberdade – e contra os muitos povos indígenas que também se aliaram aos britânicos – conscientes do que viria à seguir para eles assim que a nova república se tornasse independente. E com efeito, logo após a vitória contra os britânicos e a paz estabelecida, o recém criado exército dos EUA  engajou-se em sua nova tarefa: a guerra genocida contra os povos indígenas para garantir a expansão territorial da nova república. Continuar a ler

Alegoria a um Populista de Direita

Confira cenas do filme ‘Silvio e os Outros’

Agora, quando estamos convivendo novamente com a cultura brega de um populista de direita ocupante do cargo maior da República, vale assistir o filme do cineasta italiano Paolo Sorrentino com espécie de alegoria à biografia do ex-primeiro-ministro e magnata das telecomunicações Silvio Berlusconi.

Silvio e os Outros”  é o título no Brasil para o original franco-italiano: “Loro“.

Suas festas “bunga-bunga”, com multidões de prostitutas  seminuas, parecem moldadas para as sequências em câmera lenta de hedonismo e exuberância visual pelas quais o diretor ganhou fama com “A Grande Beleza”, vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2014.

Originalmente dividido em duas partes, foram reunidas em 151 minutos (2:30 h) na cópia disponível na web. Cobre o período entre 2006 e 2010, um ano antes de Berlusconi renunciar ao segundo mandato como primeiro-ministro.

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