O grande filme de terror do ano não é uma ficção (por Dodô Azevedo)

O grande filme de terror do ano não é uma ficção. É um documentário brasileiro no qual um assassino confesso detalha como matava e incinerava os corpos de militantes brasileiros de esquerda a mando da extrema direita, em ligação clandestina com nosso governo federal e setores da elite de nossa sociedade civil.

O grande filme de terror do ano não é uma ficção. Nele, o matador Claudio Guerra, explica friamente que não cometia os assassinatos por ódio aos militantes de esquerda. Apenas cumpria ordens. Era leal aos mandantes dos crimes. Com isso, recebia em troca, além de bônus salariais depositados em contas clandestinas falsificadas pelos próprios bancos que financiavam seu grupo de extermínio, presentes como casas de praia e fazendas, o que lhe garantiam uma boa vida. Em certo momento, revela o lugar onde os militares escondiam clandestinamente centenas de fuzis de última geração usados para o combate a militantes de esquerda.

O grande filme de terror do ano não é uma ficção. Exibe uma longa conversa entre o ex-delegado do DOPS Claudio Guerra, que nos anos 70, matou e ocultou corpos de militantes de esquerda durante a ditadura civil militar instalada no Brasil. “Pastor Cláudio”, dirigido por Beth Formaggini, que entra em cartaz nesta quinta-feira nos cinemas, escandaliza e aterroriza o espectador não pelo o que é nele revelado. Mas por não nos surpreender. Tudo ali já desconfiávamos. Já até sabíamos. Mas não fizemos, como sociedade civil, nada para contestar. Fomos cúmplices. Somos cúmplices. As denúncias do Pastor Guerra já foram inclusive investigadas e confirmadas pela Polícia Federal, poucos anos atrás. Nosso reflexo é insuportável.

O grande filme de terror do ano não é uma ficção. E não fala apenas do passado. Claudio Guerra, o matador arrependido que tornou-se pastor evangélico e fala o tempo inteiro com uma Bíblia na mão revela que a máquina de extermínio criada durante a ditadura civil militar não parou de funcionar com o fim do regime. Seguiu como máquina de extermínio “da bandidagem carioca”, na prática pobres de periferia, e transformou-se, no Rio de Janeiro, em organizações fundadas por militares que com o intuito de provir segurança paralela para empresas e comunidades e a contravenção do jogo do Bicho. Tempo em que as milícias surgiram como organizações fundadas por militares, prometendo provir segurança paralela para empresas e comunidades. Continuar a ler

Todos sabem: ex-emprego e ex-amor

Todos sabem: o maior problema brasileiro no presente não é a reforma da Previdência Social. Este será um grande problema no futuro. O maior desafio atual é a retomada do crescimento da renda e do emprego. Mas a respeito disso o governo do capitão-miliciano não toma nenhuma providência. É obsessivo com a previdência – e “o PT”.

Todos sabem: a taxa de desocupação (12,4%) no trimestre móvel encerrado em fevereiro de 2019 representa uma enorme população desocupada (13,1 milhões). Em média, 1/5 das famílias brasileiras têm problema com desemprego de um de seus três membros, provavelmente, a do chefe de família.

Todos sabem: a idade média da população e a estagnação econômica do país dificultam a recolocação profissional. O tempo passa e cada vez mais o desempregado vê também amigos, vizinhos ou parentes sem emprego. Bate o desespero. É um melodrama social.

Todos sabem: o gasto público deve substituir o gasto privado quando as expectativas empresariais estão pessimistas, mesmo incorrendo em maior déficit e endividamento público. A retomada do crescimento do PIB, puxado pelo investimento estatal, reverte essas expectativas e, mais adiante, eleva a arrecadação fiscal e as folhas de pagamento, aumentando também as contribuições previdenciárias.

Todos sabem: fazer ajuste fiscal com base em corte de gastos públicos e corte de salários é um equívoco. Em visão imediata, corta custos, mas ao mesmo tempo corta a demanda agregada. Este sofisma da composição revela mais uma vez: “o que é bom para as partes nem sempre é positivo para o todo”. A lógica individual não é a mesma do coletivo. Continuar a ler

Vice

Uma resenha do filme “Vice” (concorrente a 8 prêmios Oscar, inclusive como melhor filme e melhor ator principal) da Folha de S.Paulo critica o diretor Adam McKay (“A Grande Aposta” em 2015) porque ele teria ficado “obcecado em desancar a direita americana, valendo-se de certa estridência e, não raro, de algum maniqueísmo”.

Ora, ora, ora, os fatos ainda estão na memória recente. Caberia ao crítico apenas dizer se foram falseados ou não nesse filme interpretativo de fatos reais. Dick Cheney foi o 46º vice-presidente dos Estados Unidos durante o governo George W. Bush, filho de ex-presidente, de janeiro de 2001 a janeiro de 2009. Ele foi a figura-chave na imperial política externa americana no período.

A partir de mentiras, aproveitando-se do clima de comoção pelo ataque às “duas torres gêmeas”, em NYC, estimulou uma “Guerra ao Terror” contra o Iraque. O impacto nas cotações do petróleo era favorável aos seus apoiadores. Elaborou os falsos argumentos sobre uma pressuposta conexão entre o regime de Saddam Hussein e a Al-Qaeda, assim como a existência de armas de destruição em massa no Iraque.

Desde 11 de setembro de 2001, os EUA tentaram impor essa estratégia de vingança ao resto do mundo, mas só conseguiu apoio do submisso primeiro-ministro inglês Tony Blair. Em março de 2003, ele decidiu em conjunto com o presidente norte-americano George W. Bush atacar o Iraque. Enviou tropas britânicas, conjuntamente com os militares norte-americanos, para depor Saddam Hussein.

O filme mostra filmes e fotos da época das invasões do Afeganistão e do Iraque, mostrando o bombardeio indiscriminado a civis, assim como a tortura humilhante de suspeitos na base de Guantánamo. Cheney aprovou e defendeu tal política. Continuar a ler

O Abraço da Serpente

Assisti no aplicativo Telecine este filme argentino-colombiano-venezuelano, totalmente original, cujos protagonistas são nativos da América pré-colombiana. INDICADO AO OSCAR 2016: FILME ESTRANGEIRO. Passa-se na Amazônia colombiana. O último sobrevivente de uma tribo trabalha com dois exploradores estrangeiros ao longo de 40 anos. Juntos, supostamente, eles buscam “uma rara planta medicinal”.

Karamakate, outrora um poderoso xamã da Amazônia, é o último sobrevivente de seu povo. Vive em isolamento voluntário nas profundezas da selva.

Os anos de solidão absoluta o tornam vazio, privado de emoções e memórias. Sua vida sofre uma reviravolta quando chega ao seu esconderijo remoto Evan, um etnobotânico alemão em busca da Yakruna, uma poderosa planta capaz de ensinar a sonhar.

O xamã decide acompanhar o estrangeiro em sua busca. Juntos embarcam em uma viagem ao coração da selva amazônica, onde passado, presente e futuro se confundem, fazendo-o aos poucos recuperar suas memórias. Essas lembranças trazem uma dor profunda capaz de libertar Karamakate quando ele transmitir o conhecimento ancestral que antes parecia destinado a perder-se para sempre.

Com essa narrativa on the road (em canoa por afluentes amazônicos) o filme com belíssima fotografia preto-e-branco vai fazendo comentários sobre a cultura de posse dos brancos e desapropriação da cultura nativa. O contexto é o da Guerra Mundial quando o extrativismo estrangeiro da borracha levava a escravidão ou a morte aos nativos

Em tempos de assassinato coletivo em plena Igreja Católica e assédio sexual, estupro, crime com base no constrangimento a relações sexuais por meio de violência ou grave ameaça religiosa, violação, ou qualquer ato libidinoso contra a vontade da vítima, em nome de João de Deus, recomendo a reflexão.

Veja emO Abraço da Serpente