Hollywood há 100 anos conta as mesmas seis histórias

 

“Críticos culturais, estudiosos da narrativa, professores de oficinas de escrita criativa e demais especialistas no tema não chegam a um acordo sobre quantas são (três?, cinco?, sete?). Mas todos assumem que, ao menos em nosso âmbito, o da cultura ocidental, há uma série de tramas básicas, esquemas narrativos ou meta-argumentos. Neles se encaixam quase todas as ficções contemporâneas, dos romances ao cinema, passando pelo teatro, as séries e até mesmo a ópera.

Hollywood, em especial, costuma ser acusada, não sem fundamento, de usar e reciclar deliberadamente esses padrões básicos, essas histórias contadas milhões de vezes. Combina-os, amadurece-os, enriquece-os e os serve de novo como se fossem pratos recém-cozidos, e não um guisado rançoso feito de sobras roídas até a náusea.

Já os formalistas russos, encabeçados por um dos pais do moderno estudo da narrativa, Vladimir Propp, insistiam em que a frase do Eclesiastes, “nada novo sob o sol”, é tão desanimadora quanto exata. A originalidade é uma pretensão ingênua e vazia. Tudo já foi inventado. Após milênios de tradição narrativa, seja oral, escrita ou audiovisual, todas as histórias essenciais já foram contadas, e a única coisa que resta é combiná-las e refiná-las, se possível de um jeito criativo.

Propp distinguia 31 funções narrativas básicas, ou seja, 31 elementos concretos. Combinados entre si, servem de base ou de estrutura profunda a qualquer narração. Da combinação entre estes elementos sairiam todas as meta-histórias concebíveis.

Depois de repassar de maneira superficial o que se escreveu a respeito, chegamos à conclusão (provisória, claro, pois o tema é complexo e não se esgota em um par de parágrafos) as seis abaixo são as que o cinema em geral, e Hollywood em particular, vem nos contando toda vez, lá se vai mais de século. Continuar a ler

30 livros nacionais inspiradores de roteiros de filmes

O site Design do Escritor postou em 30 de maio de 2019 uma lista de 30 livros transformados em roteiros de filmes. Como penso retomar a experiência de ensinar Economia com Cinema, no próximo ano, registro aqui essa lista inspiradora para eu organizar um Programa e Bibliografia. Aliás, no último curso sobre Brasil no Cinema, usei o Policarpo Quaresma e a Hora da Estrela.

É comum classificar filmes por roteiros originais ou roteiros inspirados em obras literárias. Essas adaptações muitas vezes causam certo incômodo aos apaixonados pelos livros. De qualquer forma, o ponto positivo sempre fica para a cultura do cinema e do livro. Eles se conectam e podem trazer mais leitores e cinéfilos para ambos. Quem é culto sempre aprecia o trio livro, cinema e música!

Confira abaixo 30 livros nacionais com roteiros adaptados para cinema. Continuar a ler

22 de Julho: todos os eleitores deveriam o assistir para ver o que é a extrema-direita

Se você conhece alguém com a pretensão de votar no Bolsonaro, sugira ele/ela assistir o filme “22 de Julho” antes para uma reflexão mais profunda a respeito de uma possível consequência desse ato: dar poder à extrema-direita. Com estreia recente na Netflix, “22 de Julho” revive o pior ataque terrorista da história da Noruega, ocorrido em 2011.

Organizadas pelo norueguês de extrema-direita Anders Behring Breivik, duas ações deixaram 77 mortos — a maioria deles jovens do Arbeiderpartiet (Partido Trabalhista). Eles estavam em um acampamento de verão na ilha de Utoya. O propósito de Breivik, um fanático ultranacionalista de postura fundamentalista cristã e anti-islâmica, era contra-atacar o que ele chama de “invasão” de imigrantes muçulmanos. Tinha um discurso de ódio contra o multiculturalismo.

Ao saber que o candidato à Presidência pelo PSL representa o avanço da extrema-direita no Brasil, o diretor britânico Paul Greengrass conta ter filmado “22 de Julho” justamente para refletir sobre a “atual insurgência do radicalismo conservador”“Se deixarmos esse fogo queimando, esperando que apague sozinho, ele vai se alastrar”, diz o cineasta de 63 anos.

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O Clã: Uma Família Direitista

O clã (Foto: Divulgação)O clã Puccio reza antes da refeição. Enquanto isso, no porão, um refém passa fome.

Ariane Freitas e Ruan de Sousa Gabriel (Exame, 10/12/2015) entrevistaram o diretor do filme argentino O Clã, maior bilheteria de seu país, que mostra a privatização da atividade de sequestro/tortura na transição do Estado ditatorial para o neoliberal.

O ano de 2015 foi bom para cinema latino-americano.

Em Que horas ela volta?, Anna Muylaert, filmou o Brasil a partir da porta da cozinha e retratou as regras veladas que regem a relação entre patrões e empregados e a mudança com a mobilidade social ocorrida no País. A crítica internacional elogiou o filme, que tem boas chances de comparecer à festa do Oscar.

O clube, do diretor chileno Pablo Larraín, aborda os escândalos sexuais e políticos da Igreja Católica, ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim e concorre a um Globo de Ouro.

O júri do Festival de Veneza, presidido pelo cineasta mexicano Alfonso Cuarón, premiou Desde Allá, do cineasta venezuelano Lorenzo Vigas, uma reflexão sobre a homossexualidade e o estereótipo do pai latino, sempre ausente.

A terra e a sombra, do colombiano César Augusto Acevedo foi premiado com a Camera d’Or, concedida a diretores estreantes peloFestival de Cannes, e estreia por aqui na semana que vem.

O filme argentino O clã, de Pablo Trapero, chega finalmente aos cinemas brasileiros e encerra com chave de ouro um ano que foi bem melhor na ficção.

O clã conta a sinistra e real história dos Puccio, uma família de um sequestrador e torturador de presos políticos que “privatiza” essa sua atuação quando o país transita para o neoliberalismo.  No começo dos anos 1980, sequestrou e assassinou vizinhos em San Isidro, bairro nobre nos arredores de Buenos Aires.

Os Puccio formavam uma família “respeitável”, daquelas que reza unida antes das refeições. Aquele tipo de gente ignorante-útil que “bate-a-panela” a favor de golpes da direita como vemos também no Brasil. Lembre-se das Marchas da TFP (Tradição, Família e Propriedade) antes do Golpe de Estado em 1964. De novo?!

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O Nascimento de uma Nação Racista e a Conquista dos Direitos Civis pelos Afroamericanos

Rodrigo Suzuki Cintra é filósofo e doutor em direito pela USP, leciona na Universidade Mackenzie. Publicou belo artigo-resenha cinematográfica, propiciando conhecimento sobre a História do Cinema e ilustrando as práticas da direita racista. É interessante contrapor o filme “O Nascimento de Uma Nação” ao filme recente “Selma” (2014), que registra os 50 anos de uma conquista real da cidadania: o direito ao voto dos afrodescendentes nos EUA.

Em outros termos, esse direito político só foi conquistado, nos EUA, 100 anos após o fim da Guerra Civil, quando houve lá a extinção da escravidão!

O filme Selma mostra os bastidores da marcha das cidades de Selma até Montgomery, no Alabama, em 1965. O episódio é um momento crucial na luta pelo direito de voto dos negros nos EUA, que não era plenamente garantido até então. “Selma” mostra bem a dificuldade de conciliação das muitas posições antagônicas de cada grupo no evento: governo federal (o texano presidente Lyndon Johnson sucessor de John Kennedy), estadual (o racista George Wallace do Alabama), polícia conservadora local, população racista do Alabama, brancos progressistas que aderiram à luta, movimentos negros que defendiam a violência (Malcom X e os Panteras Negras) e especialmente os ativistas liderados por Martin Luther King Jr.. Foram muitas pequenas vitórias e derrotas até a marcha triunfante.

“O discurso começa mal e termina pior. No entanto, é filme genial e uma das maiores referências da história do cinema. “O Nascimento de uma Nação“, do diretor americano D. W. Griffith (1875-1948), completa cem anos e ainda dá o que falar. A questão gira em torno de uma dupla constatação. Formalmente, do ponto de vista estritamente técnico, o filme é absolutamente inquestionável como referência para a linguagem cinematográfica. Porém, o conteúdo da história narrada é altamente problemático: trata-se de um filme racista.

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Séries de TV: Anos 60 Cinquenta Anos Após

Recebi a seguinte mensagem de advertência:

Para a turma das antigas!!!

Só para os (MUITO) maiores de 18 anos…

É uma amostra das séries de TV norte-americanas que existiam na época da infância da “geração 68”, nascida no baby-boom após a II Guerra Mundial. Coincidiu também com o início de transmissão da própria TV nos anos 50. Vale a lembrança para comparar com as séries da TV atual.

Não há mais herois do faroeste. Há apenas anti-herois contemporâneos: traficante de drogas (Breaking Bad), terrorista (Homeland), político corrupto (House of Cards), detector de mentiras (Lie to Me)… E a gente gosta!