22 de Julho: todos os eleitores deveriam o assistir para ver o que é a extrema-direita

Se você conhece alguém com a pretensão de votar no Bolsonaro, sugira ele/ela assistir o filme “22 de Julho” antes para uma reflexão mais profunda a respeito de uma possível consequência desse ato: dar poder à extrema-direita. Com estreia recente na Netflix, “22 de Julho” revive o pior ataque terrorista da história da Noruega, ocorrido em 2011.

Organizadas pelo norueguês de extrema-direita Anders Behring Breivik, duas ações deixaram 77 mortos — a maioria deles jovens do Arbeiderpartiet (Partido Trabalhista). Eles estavam em um acampamento de verão na ilha de Utoya. O propósito de Breivik, um fanático ultranacionalista de postura fundamentalista cristã e anti-islâmica, era contra-atacar o que ele chama de “invasão” de imigrantes muçulmanos. Tinha um discurso de ódio contra o multiculturalismo.

Ao saber que o candidato à Presidência pelo PSL representa o avanço da extrema-direita no Brasil, o diretor britânico Paul Greengrass conta ter filmado “22 de Julho” justamente para refletir sobre a “atual insurgência do radicalismo conservador”“Se deixarmos esse fogo queimando, esperando que apague sozinho, ele vai se alastrar”, diz o cineasta de 63 anos.

Continue reading “22 de Julho: todos os eleitores deveriam o assistir para ver o que é a extrema-direita”

O Clã: Uma Família Direitista

O clã (Foto: Divulgação)O clã Puccio reza antes da refeição. Enquanto isso, no porão, um refém passa fome.

Ariane Freitas e Ruan de Sousa Gabriel (Exame, 10/12/2015) entrevistaram o diretor do filme argentino O Clã, maior bilheteria de seu país, que mostra a privatização da atividade de sequestro/tortura na transição do Estado ditatorial para o neoliberal.

O ano de 2015 foi bom para cinema latino-americano.

Em Que horas ela volta?, Anna Muylaert, filmou o Brasil a partir da porta da cozinha e retratou as regras veladas que regem a relação entre patrões e empregados e a mudança com a mobilidade social ocorrida no País. A crítica internacional elogiou o filme, que tem boas chances de comparecer à festa do Oscar.

O clube, do diretor chileno Pablo Larraín, aborda os escândalos sexuais e políticos da Igreja Católica, ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim e concorre a um Globo de Ouro.

O júri do Festival de Veneza, presidido pelo cineasta mexicano Alfonso Cuarón, premiou Desde Allá, do cineasta venezuelano Lorenzo Vigas, uma reflexão sobre a homossexualidade e o estereótipo do pai latino, sempre ausente.

A terra e a sombra, do colombiano César Augusto Acevedo foi premiado com a Camera d’Or, concedida a diretores estreantes peloFestival de Cannes, e estreia por aqui na semana que vem.

O filme argentino O clã, de Pablo Trapero, chega finalmente aos cinemas brasileiros e encerra com chave de ouro um ano que foi bem melhor na ficção.

O clã conta a sinistra e real história dos Puccio, uma família de um sequestrador e torturador de presos políticos que “privatiza” essa sua atuação quando o país transita para o neoliberalismo.  No começo dos anos 1980, sequestrou e assassinou vizinhos em San Isidro, bairro nobre nos arredores de Buenos Aires.

Os Puccio formavam uma família “respeitável”, daquelas que reza unida antes das refeições. Aquele tipo de gente ignorante-útil que “bate-a-panela” a favor de golpes da direita como vemos também no Brasil. Lembre-se das Marchas da TFP (Tradição, Família e Propriedade) antes do Golpe de Estado em 1964. De novo?!

Continue reading “O Clã: Uma Família Direitista”

O Nascimento de uma Nação Racista e a Conquista dos Direitos Civis pelos Afroamericanos

Rodrigo Suzuki Cintra é filósofo e doutor em direito pela USP, leciona na Universidade Mackenzie. Publicou belo artigo-resenha cinematográfica, propiciando conhecimento sobre a História do Cinema e ilustrando as práticas da direita racista. É interessante contrapor o filme “O Nascimento de Uma Nação” ao filme recente “Selma” (2014), que registra os 50 anos de uma conquista real da cidadania: o direito ao voto dos afrodescendentes nos EUA.

Em outros termos, esse direito político só foi conquistado, nos EUA, 100 anos após o fim da Guerra Civil, quando houve lá a extinção da escravidão!

O filme Selma mostra os bastidores da marcha das cidades de Selma até Montgomery, no Alabama, em 1965. O episódio é um momento crucial na luta pelo direito de voto dos negros nos EUA, que não era plenamente garantido até então. “Selma” mostra bem a dificuldade de conciliação das muitas posições antagônicas de cada grupo no evento: governo federal (o texano presidente Lyndon Johnson sucessor de John Kennedy), estadual (o racista George Wallace do Alabama), polícia conservadora local, população racista do Alabama, brancos progressistas que aderiram à luta, movimentos negros que defendiam a violência (Malcom X e os Panteras Negras) e especialmente os ativistas liderados por Martin Luther King Jr.. Foram muitas pequenas vitórias e derrotas até a marcha triunfante.

“O discurso começa mal e termina pior. No entanto, é filme genial e uma das maiores referências da história do cinema. “O Nascimento de uma Nação“, do diretor americano D. W. Griffith (1875-1948), completa cem anos e ainda dá o que falar. A questão gira em torno de uma dupla constatação. Formalmente, do ponto de vista estritamente técnico, o filme é absolutamente inquestionável como referência para a linguagem cinematográfica. Porém, o conteúdo da história narrada é altamente problemático: trata-se de um filme racista.

Continue reading “O Nascimento de uma Nação Racista e a Conquista dos Direitos Civis pelos Afroamericanos”

20 Anos Após o Genocídio em Ruanda (por Ban Ki-moon)

Ban Ki-moon é secretário-geral das Nações Unidas. Publicou artigo (Valor, 08/04/14) intitulado 20 Anos Após o Genocídio em Ruanda. Será tema de discussão em meu curso Economia no Cinema 2014, motivado pelo filme “Hotel Ruanda” (assista acima online).
Continue reading “20 Anos Após o Genocídio em Ruanda (por Ban Ki-moon)”

Séries de TV: Anos 60 Cinquenta Anos Após

Recebi a seguinte mensagem de advertência:

Para a turma das antigas!!!

Só para os (MUITO) maiores de 18 anos…

É uma amostra das séries de TV norte-americanas que existiam na época da infância da “geração 68”, nascida no baby-boom após a II Guerra Mundial. Coincidiu também com o início de transmissão da própria TV nos anos 50. Vale a lembrança para comparar com as séries da TV atual.

Não há mais herois do faroeste. Há apenas anti-herois contemporâneos: traficante de drogas (Breaking Bad), terrorista (Homeland), político corrupto (House of Cards), detector de mentiras (Lie to Me)… E a gente gosta!

Telinha X Telona = Cinema-Adulto X Cinema-Infanto-Juvenil

Séries de TV

João Luiz Rosa (FSP, 23/12/13) avalia que a internet mudou a maneira de ver televisão ao permitir que as pessoas assistissem em outras telas – como as de computadores, celulares e tablets – o que antes só podia ser visto no televisor. Serviços de vídeo on-line como o da Netflix mostraram que não já não era preciso chegar em casa para ver filmes e séries, ao mesmo tempo em que os espectadores descobriam, encantados, que podiam usar até aparelhos de videogame para acessar alguns de seus programas favoritos.

Mas todo esse barulho deixou de lado outra discussão, que agora começa ganhar a dimensão apropriada – é a própria produção da TV, ou seja, o conteúdo, aquilo que atrai o espectador para a frente da tela, seja ela de que natureza for. Não é só como se assiste TV, mas o que se assiste.

Nos Estados Unidos, o entusiasmo em relação à produção atual é tanto que muitas pessoas no setor estão convictas de que a TV americana ingressou no que seria sua terceira fase de ouro – a primeira teria ocorrido no início dos anos 50 e a segunda, na década de 80.

Continue reading “Telinha X Telona = Cinema-Adulto X Cinema-Infanto-Juvenil”

Filhinhos do Papai

Para os roteristas e cineastas brasileiros buscarem inspiração, vale ler a reportagem de David Luhnow (The Wall Street Journal apud Valor, 20/06/13) reproduzida abaixo.

“É fácil identificá-los percorrendo as ruas dos enclaves ricos da Cidade do México em seus carros esporte. Os rapazes usam o cabelo penteado para trás com brilhantina e camisas de grife com os três primeiros botões abertos. As mulheres exibem bolsas e óculos de sol de marcas caras. Quase sempre são seguidos por um utilitário esportivo negro repleto de seguranças armados.

No México eles são chamados de “juniores” – os filhos e filhas da elite do país, jovens cujo amor pelas grifes de luxo só não é tão grande quanto seu senso de ter direito a tudo. Ao se tornarem adultos, os juniores passam a dominar os altos escalões dos negócios e da política. Eles moram em mansões rodeadas de muros altos, viajam em jatinhos particulares e parecem completamente intocáveis – e fora de contato com a realidade, num país que luta contra a pobreza e a violência.

Continue reading “Filhinhos do Papai”