Crash à 1929 Anunciado por Juros Baixos e Especulação em Ações com Maus Fundamentos

O volume aplicado pelas pessoas físicas em produtos financeiros aumentou 8,4% neste ano e alcançou R$ 3,1 trilhões em setembro de 2019. Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), a soma representa as posições de mais de 79 milhões de contas dos segmentos de varejo e de “private banking” das instituições financeiras do país.

O desempenho foi puxado pelo varejo de alta renda, com crescimento 14,3%, e pelo private banking, com 13,3%. Já o varejo tradicional apresentou recuo de 2,6% de dezembro de 2018 para cá.

De acordo com a entidade, essa queda está parcialmente associada ao reenquadramento de clientes feito por muitas instituições. O ajuste resultou na migração de investidores do varejo tradicional para o de alta renda. Os bancos definem seus critérios de segmentação nessas duas categorias. Por exemplo, o Personnalité do Itaú exige volume de negócios acima de R$ 100.000 para ser cliente no varejo de alta renda e R$ 10.000.000 para se tornar Private Banking.

No varejo, os fundos de investimentos tiveram o maior crescimento no ano, de 9,1%, liderados pelos multimercados e pelas carteiras de ações, com altas de 23,8% e 80,4%, respectivamente. Os fundos imobiliários tiveram aumento de 69%, enquanto a alocação direta em ações subiu 39,8%.

Os produtos mais conservadores, como poupança e CDB, registraram desempenhos inferiores na comparação com o ano anterior. Enquanto o CDB teve recuo de 0,1%, a poupança cresceu 3,2%. O resultado da caderneta foi impulsionado pela liberação do saque do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), indo direto para a poupança.

Enquanto uma parte imprudente da classe média brasileira especula na Bolsa de Valores de São Paulo, transitando da renda fixa para a renda variável, outra alternativa é especular com compra de dólar. Ele já alcança R$ 4,20 com o repatriamento de capitais estrangeiros — e a fuga de capital do Brasil isolado no mundo em função de suas rupturas diplomáticas.

Tal como antes de 90 anos atrás, com o baixo juros no mundo, há nova máxima em Wall Street. A Bolsa de Valores de Nova York iniciou a semana com recorde.

O mundo caminha para um ambiente onde os extremos do populismo se tornarão ainda mais radicais, e no qual haverá “uma ausência de efeitos das políticas monetárias”, segundo o bilionário Ray Dalio, em entrevista à rede americana CNBC. O co-presidente da Brigdewater Associates, maior “hedge fund” do mundo, com US$ 160 bilhões em ativos sob gestão, classificou o período no qual os mercados estão entrando como desafiador.

“Os bancos centrais globais não têm como baixar mais as taxas e vamos entrar em um período mais desafiador de uma batalha entre extremos no populismo. Será um ambiente capaz de provocar grande impacto nos mercados, com ausência de efeito da políticas monetárias e exacerbação de conflitos vistos no mundo.” Na avaliação do investidor, “estamos indo em direção a um ambiente como uma guerra”.

O gestor chamou novamente a atenção para os desequilíbrios gerados pela política de dinheiro fácil adotadas pelos BCs. “Os investidores estão inundados de dinheiro, comprando retornos muito baixos ou sonhos em lugar de lucros no mercado de ações”.

Continuar a ler

Desalavancagem Financeira das Empresas Não-Financeiras

Raquel Brandão (Valor, 04/11/2019) informa: a redução dos juros no país e o maior acesso ao mercado de dívida ajudaram a melhorar a saúde financeira das companhias, mas esse “quadro clínico” mais otimista ainda está bastante restrito às grandes companhias. Os resultados do terceiro trimestre ainda deverão mostrar esse diagnóstico.

O segundo trimestre de 2019 reforçou a tendência de queda do endividamento das empresas. A relação entre dívida líquida e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (EBITDA, na sigla em inglês) nas empresas de capital aberto chegou ao patamar de 1,97 vez no acumulado de 12 meses encerrados ao fim de junho. Observando os últimos oito anos, esse indicador só esteve mais baixo do que isso em 2011, quando chegou a 1,49 vez.

Os dados do terceiro trimestre começaram a ser divulgados pelas empresas. Eles deverão reforçar essa trajetória, segundo o professor e pesquisador Carlos Rocca, mas também deverão manter sem grandes mudanças um panorama muito menos animador: a geração de caixa das médias e pequenas empresas ainda não supera as despesas financeiras. Continuar a ler

Baixa Taxa de Retorno / Custo de Capital: Investimento Privado Paralisado

Be-a-bá keynesiano: Quando não há gasto privado por conta das expectativas negativas, o gasto público em investimentos em infraestrutura e subsídios em financiamento de habitações de interesse social tem de o substituir. Só assim haverá o arranque para crescimento da renda e emprego.

Mais da metade das cias. abertas pequenas e médias  ainda têm geração de caixa inferior às despesas financeiras.

Hugo Passarelli (Valor, 18/10/2019) informa: a lenta recuperação do investimento, iniciada a partir de 2016 e sustentada pelo setor privado, perdeu fôlego no segundo trimestre deste ano corrente com a equipe econômica ultra-liberal inerte. Embora as taxas de retorno estejam mais atraentes para as empresas que desejam investir, o alto nível de incerteza e as perspectivas de baixo crescimento da economia jogaram contra a continuidade de melhora do indicador.

As conclusões são de estudo Centro de Estudos do Mercado de Capitais (Cemec) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), elaborado a partir das demonstrações financeiras de 240 empresas de capital aberto e de 421 companhias fechadas.

De 2016 a 2018, a taxa da investimento mostrou leve alta, de 14,97% para 15,42% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo as estimativas do estudo. O processo se interrompeu no ano encerrado no segundo trimestre, quando o indicador retrocedeu a 15,14% do PIB. O levantamento do Cemec-Fipe analisa os dados nos 12 meses terminados a cada trimestre para evitar distorção nas comparações.

Com a retração dos investimentos públicos, a retomada teria de ser capitaneada pelo setor privado, mostra o estudo. As companhias, fechadas e abertas, aumentaram seus investimentos de 2016 a 2018 de 1,79% para 3,46% do PIB. A maior parte do bolo cabe às empresas de capital aberto. Elas ampliaram a cifra de 1,1% do PIB em 2016 para 2,65% no período anual encerrado no primeiro trimestre deste ano. No segundo trimestre de 2019, porém, o indicador caiu a 2,5% do PIB.

Continuar a ler

Queda dos Encargos Financeiros do Endividamento Público abre espaço para Investimentos Públicos

Os gastos com pagamentos de juros da dívida pública ficaram abaixo de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) pela primeira vez desde outubro de 2014. De acordo com dados divulgados no fim de setembro pelo Banco Central, essa despesa atingiu 4,96% do PIB nos últimos 12 meses encerrados em agosto de 2019.

Mesmo com a trajetória declinante dessa rubrica, a dívida bruta do governo geral voltou a subir e chegou a 79,8% do PIB, a maior da série do Banco Central, iniciada em dezembro de 2006. A equipe econômica considera preocupante nível de dívida acima dos 80% do PIB e tem sempre alertado para o fato de que o país tem um dos maiores níveis de endividamento entre as economias emergentes, o que reduziria o potencial de crescimento do país. Nas estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), a média da dívida bruta dos emergentes deve ficar em 53,4% do PIB neste ano.

Ora, troque as operações compromissadas do BACEN (R$ 1,254 trilhão ou 17,8% do PIB) por depósitos voluntários remunerados na Autoridade Monetária como ocorre nos demais países!

A queda na conta de juros reflete:

  1. o saldo positivo do BC nas operações de swap cambial,
  2. a queda da taxa Selic e
  3. também o recuo da inflação em 12 meses. Continuar a ler

28 milhões Pessoas Subutilizadas em Julho de 2019: Sem Perspectiva de Retomada do Crescimento da Renda e do Emprego pela Inação do Governo

No trimestre encerrado em julho de 2019, a taxa de desocupação (11,8%) recuou 0,6 pontos percentuais (p.p.) em relação ao trimestre de fevereiro a abril de 2019 (12,5%) e caiu 0,5 p.p. na comparação com o mesmo trimestre de 2018 (12,3%).

Indicador / Período Mai-jun-jul 2019 Fev-mar-abr 2019 Mai-jun-jul 2018
Taxa de desocupação 11,8% 12,5% 12,3%
Taxa de subutilização 24,6% 24,9% 24,4%
Rendimento real habitual R$2.286 R$2.311 R$2.290
Variação do rendimento real habitual em relação a: -1,0% (queda) -0,1% (estabilidade)

população desocupada (12,6 milhões de pessoas) recuou 4,6% (menos 609 mil pessoas) frente ao trimestre anterior e ficou estatisticamente estável em relação a igual período de 2018 (12,8 milhões).

população ocupada (93,6 milhões de pessoas) cresceu em ambas as comparações e é a maior da série: 1,3% (mais 1.219 mil pessoas) em relação ao trimestre anterior e 2,4% (mais 2.218 mil pessoas) na comparação como o mesmo período de 2018.

A população fora da força de trabalho (64,8 milhões de pessoas) permaneceu estável tanto na comparação com o trimestre anterior quanto na comparação com o mesmo período do ano anterior.

taxa composta de subutilização da força de trabalho (24,6%) caiu 0,4 p.p em relação ao trimestre anterior (24,9%) e manteve-se estável frente ao mesmo período de 2018 (24,4%).  

população subutilizada (28,1 milhões) não teve variação significativa frente ao trimestre anterior e subiu 2,6% (mais 703 mil pessoas) frente ao mesmo tri de 2018.

O número de pessoas desalentadas (4,8 milhões) não mostrou variação significativa em ambas as comparações. O percentual de pessoas desalentadas em relação à população na força de trabalho ou desalentada foi de 4,4%, repetindo o recorde da série e mantendo estabilidade em ambas as comparações.

O número de empregados no setor privado com carteira assinada (exclusive trabalhadores domésticos) foi de 33,1 milhões de pessoas, ficando estável em ambas as comparações. Por outro lado, o número de empregados sem carteira assinada (11,7 milhões de pessoas) atingiu novo recorde, subindo em ambas as comparações: 3,9% (mais 441 mil pessoas) frente ao trimestre anterior e 5,6% (mais 619 mil pessoas) em relação ao mesmo trimestre de 2018.

O número de trabalhadores por conta própria (24,2 milhões) bateu novo recorde da série histórica e subiu nas duas comparações: 1,4% (mais 343 mil pessoas) frente ao trimestre anterior e 5,2% (mais 1,2 milhão de pessoas) frente ao mesmo período de 2018.

rendimento médio real habitual (R$ 2.286) caiu 1,0% frente ao trimestre anterior e não teve variação significativa frente ao mesmo trimestre de 2018. Já a massa de rendimento real habitual (R$ 208,6 bilhões) ficou estável em relação ao trimestre anterior e cresceu 2,2% (mais R$ 4,5 bilhões) frente ao mesmo período de 2018. Continuar a ler

Stop-and-Go ou “Voo Curto de Galinha”: Persistência da Estagdesigualdade

Gráfico 1 – variação do PIB, considerados quatro trimestres encerrados no 2º trimestre de cada ano em relação ao mesmo período do ano anterior
2009

Segundo o IBGE, o Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB), 2º trimestre de 2019, cresceu 0,4% em relação ao trimestre anterior. Sob a ótica da demanda, cresceram, na análise do Instituto, o consumo das famílias, 0,3%, e a formação bruta de capital fixo (investimentos), 3,2%.  Observado o período de doze meses, a variação do PIB a preços de mercado alcançou 1%. É inferior à observada em 2018 e, considerada série iniciada em 2008, ano da crise financeira internacional, a economia brasileira anda aos cambaleios desde 2015.

A mídia comercial se mostrou efusiva com o PIB.  Cada qual em seu portal, a Folha de São Paulo destacou: investimentos “impulsionam alta”. O Valor Econômico escreveu: “economia brasileira surpreende e cresce”. O Estado de São Paulo deu: “fica acima do esperado”.

Em verdade, o esperado era de 0,2% para o trimestre e o alcançado, 0,4%. A benevolência com o resultado pode ter sido motivada pelo anúncio no mesmo dia, feito pela Argentina de Macri, da reestruturação da dívida de curto prazo dada a incapacidade de pagamento. A visão econômica de Macri, em final de quatro anos de mandato com recessão econômica, é parelha à do governo brasileiro. PIB comemorado não apaga o fato de que a indústria brasileira mais encolhe do que cresce.

Gráfico 2 – variação do PIB Indústria, considerados quatro trimestres encerrados 2º trimestre de cada ano em relação ao mesmo período do ano anterior

Segmento muito empregador, a construção, parte da indústria na análise do PIB, registrou no acumulado em quatro trimestres, encerrados no 2º de 2019, queda de 0,9%. A queda na construção é constante desde 2015. Na séria histórica (Gráfico 3), o melhor resultado foi o de 2010, 15% positivo.

Gráfico 3 – Gráfico 2 – variação do PIB Construção, considerados quatro trimestres encerrados 2º trimestre de cada ano em relação ao mesmo período do ano anterior

Continuar a ler

Consequências Econômicas da Operação Lava-Jato

Luiz Fernando de Paula é professor do IE/UFRJ e Coordenador do Geep/Iesp/UERJ. Rafael Moura é doutorando de Ciências Políticas do Iesp/UERJ. São coautores do artigo (Valor, 28/08/19) reproduzido abaixo.

“No dia 1o de janeiro de 2011, quando o então presidente Lula entregou a faixa
presidencial para Dilma Rousseff, o ambiente envolvendo o Brasil era de
enorme otimismo. Tamanho otimismo parecia corroborado por bons
indicadores até então: no plano econômico, o país acabava de registrar uma
impressionante taxa de crescimento do PIB na ordem de 7,5% ao ano, uma das
maiores vistas na Nova República. Concomitantemente, em plena crise
financeira global, o governo adotara um conjunto de medidas anticíclicas a
partir do final de 2008 que permitiram uma rápida recuperação econômica e
contínua queda dos níveis de desemprego. Na esfera política, Dilma herdava uma enorme popularidade e base congressual relativamente confortável para a implementação de sua agenda.

Anos depois, o quadro se reverteu dramaticamente. No plano econômico, o crescimento marcante na década de 2000 deu lugar a uma desaceleração gradual seguida de forte recessão em 2015 e 2016, acompanhada de agudo aumento do desemprego (de 4,9% em fins de 2014 para 11,2% em maio de 2016 quando a presidente deixa o cargo). Já na esfera política, o cenário das eleições altamente polarizadas de 2014 se deteriorou e assistiu a mobilizações contra Dilma Rousseff e o PT, para além da relação cada vez mais conflituosa entre o Poder Executivo e o Legislativo, capitaneado por Eduardo Cunha. O desfecho desse quadro foi a deposição da mandatária via um contestado processo de impeachment, tendo como alegação o discutível argumento de “pedaladas fiscais”.

Intimamente imbricada a toda essa turbulência econômica e política do país esteve a Operação Lava-Jato, formalizada a partir de 2014 e com forte impacto tanto para a crise política quanto econômica. A Operação se mostrou nevrálgica para o desfecho visto em duas cadeias produtivas até então pujantes e interligadas da economia: a de petróleo e gás e a de construção civil.

Não é tarefa fácil estimar o impacto agregado da Operação Lava-Jato sobre a economia. Consultorias tais como GO Associados e Tendências, por exemplo, calculam algo em torno de 2 a 2,5% de contribuição nas retrações do PIB de 2015 e 2016 respectivamente, em função dos impactos nos setores metalomecânico, naval, construção civil e engenharia pesada cujas perdas podem totalizar até R$ 142 bilhões. Continuar a ler