Desinflação do Tomate

A realidade se encarregou de provar que houve overdose de juros, levando à maior concentração de riqueza financeira, inclusive nos próprios arbitradores do COPOM. Beneficiaram, em última análise, ao próprio enriquecimento financeiro sob o falso argumento que, via extermínio da demanda agregada, se controla qualquer choque inflacionário, inclusive o ocorrido por “acidente climático” (seca no tucanês) com consequente quebra de oferta de alimentos. Finalmente, li os economistas do Departamento Econômico da Gradual Investimentos, André Guilherme Pereira Perfeito e Camila de Caso,  mostrando que “o rei está nu!”

Embora o IPCA de outubro de 2017 tenha se registrado ligeiramente abaixo da mediana das projeções e acelerado 0,42% no mês, em 12 meses mantém os recordes de baixa em 2,7%, o menor patamar para o mês desde 1999.

O resultado benigno da inflação ao consumidor do nosso principal índice não é exatamente resultado da ação tempestiva do nosso Banco Central, se bem que é inegável – mas também impossível de calcular com previsão – que a postura do atual COPOM tenha ancorado certos ruídos de médio prazo.

O fato é que o IPCA está caindo de maneira relevante devido à dois fatores exógenos à Autoridade Monetária. Continue reading “Desinflação do Tomate”

Crescimento da Produção X Crescimento do Emprego: Como se define Recessão/Depressão?


Na série histórica do IBGE-PNADC de março de 2012 a agosto de 2017, o número de pessoas desocupadas atingiu o mínimo de 6,052 milhões em dezembro de 2013. Esse “pleno emprego” (sic) manteve-se até dezembro de 2014: 6,452 milhões. O máximo do desemprego foi atingido em março de 2017: 14,176 milhões pessoas desocupadas. Nessa data, a população na força do trabalho era 103,123 milhões, logo, a taxa de desemprego atingiu 13,75% da PEA.

 informam que a recessão, iniciada no segundo trimestre de 2014 e transformada em Grande Depressão com a volta da Velha Matriz Neoliberal em 2015, terminou no final do ano passado. Ela foi a mais severa que o país viveu desde, pelo menos, o início dos anos 1980.

O Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos), grupo formado pela FGV (Fundação Getulio Vargas), se reuniu no dia 27/10/2017 e estabeleceu que a economia brasileira começou a sair do fundo do poço no último trimestre de 2016.

Com a decisão do colegiado – que determina [melhor seria dito “que avalia“] o início e o fim de períodos de expansão e queda da atividade no Brasil –, ficou estabelecido que a recessão durou 11 trimestres, levando o PIB (Produto Interno Bruto) a uma queda acumulada de 8,6%.

A severidade de uma recessão é medida por dois critérios:

  1. sua duração em trimestres e
  2. o tamanho da queda acumulada da produção econômica.

Bolha de Commodities Infla-Desinfla-Reinfla: Crescimento Insustentável da Economia Brasileira

Demanda Externa => arranque
Demanda Interna => sustentação

A Carta IEDI 811 resenha o Panorama da Economia Mundial (World Economic Outlook – WEO) de outubro de 2017, divulgado pelo FMI. Ele prevê um crescimento de 3,6% da economia mundial em 2017 frente ao percentual de 3,2% em 2016.

Diagnosticar que “as perspectivas para a economia brasileira também melhoraram desde abril, passando de um crescimento previsto de 0,2% para 0,7% em outubro de 2017, ou seja, uma taxa muito baixa e insuficiente para elevar o dinamismo da região como um todo” é querer “vender otimismo”. Os principais fatores subjacentes a essa revisão foram:

  1. o bom desempenho da safra agrícola e
  2. os pequenos efeitos dinamizadores sobre o consumo das famílias dos saques das contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) autorizados em maio.

Contudo, a projeção para 2018 foi rebaixada de 1,7% em abril para 1,5% em função de:

  1. o desempenho medíocre do investimento e
  2. as incertezas políticas provocadas pelo golpe semi parlamentarista de corruptos.

O maior ritmo de expansão das economias avançadas e emergentes e em desenvolvimento exerceu pressão altista sobre os preços das commodities primárias, o que, por sua vez, favoreceu o desempenho exportador dos países exportadores desses bens. Contudo, embora as cotações estejam bem acima do patamar registrado em 2016, a trajetória ascendente foi revertida entre fevereiro e agosto de 2017 (datas de fechamento dos cenários de abril e outubro) nos mercados de commodities energéticas e agrícolas, enquanto os preços metais registraram alta moderada.

Dos US$ 107,7 bilhões embarcados pelo Brasil no primeiro semestre de 2017, mais de 30% – US$ 34,8 bilhões – foram em minério de ferro, petróleo e soja. Enquanto a exportação do grão subiu 20% de janeiro a junho deste ano em relação a iguais meses de 2016, a de minério de ferro quase dobrou, com alta de US$ 4,7 bilhões para US$ 8,9 bilhões. A venda de petróleo mais do que dobrou no mesmo período, de US$ 4 bilhões para US$ 9,2 bilhões.

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Herança Maldita do Golpe Depressivo: Reformas Neoliberais e Informalidade

Thais Carrança (Valor, 02/10/17) informa que o aumento da informalidade no mercado de trabalho será um dos legados da mais longa e profunda crise econômica registrada no Brasil. Apesar da queda na taxa de desemprego, desde o pico de 13,7% e 14,2 milhões de desempregados de março de 2017, a informalidade mantém trajetória de crescimento, o que aponta para uma piora qualitativa do mercado de trabalho, como resultado da prolongada recessão.

A taxa de informalidade da mão de obra chegou a 46,4% no segundo trimestre, valor mais alto já registrado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, cuja série histórica começa em 2012. Desde o segundo trimestre de 2014 – considerado o início da recessão pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace) – o avanço foi de 2,6 pontos percentuais.

A crise reverteu a tendência anterior de queda da informalidade. Do primeiro trimestre de 2012 ao segundo trimestre de 2014, a taxa de informalidade havia recuado de 45,7% a 43,9%, queda de 1,8 ponto percentual. Continue reading “Herança Maldita do Golpe Depressivo: Reformas Neoliberais e Informalidade”

Preferência por Liquidez em vez de Emprego para os 13 milhões desocupados

É assustadora a evolução dos Saldos de Operações Compromissadas realizadas pelo Banco Central do Brasil:

31/12/04: R$ 46,2 bilhões

29/12/06: R$ 60,0 bilhões

31/12/09: R$ 427,9 bilhões

31/12/14: R$ 791,6 bilhões

31/12/15: R$ 894,5 bilhões

31/12/16: R$ 1.026,4 bilhões

31/08/17: R$ 1.136,6 bilhões

No primeiro mandato do Governo Lula, era razoável o uso desse instrumento de política monetária. No segundo, justificava-se pela esterilização do impacto monetário da aquisição das reservas cambiais e conversão de dólares em reais. No primeiro mandato do Governo Dilma, mal aconselhada por economistas não-financistas, houve uma “barbeiragem” com a troca forçada de títulos da dívida pública pós-fixados por prefixados, levando os grandes carregadores dessa dívida se refugiarem em operações compromissadas com juros fixados no dia-a-dia. 

Na última Nota Econômico-Financeira para Imprensa sobre Mercado Aberto, emitida pelo BCB, referente a agosto de 2017, ele anuncia que “as operações compromissadas, excluídas as realizadas com o Banco Central, alcançaram médias diárias de R$ 1,0 trilhão e de 6.360 operações. As operações intradia apresentaram médias diárias de R$ 3,3 bilhões e de 9 operações. As operações overnight corresponderam a 99,4% do total das operações compromissadas, com médias diárias de R$ 1,0 trilhão e de 6.296 operações”.

Em agosto de 2017, o BCB contabilizava 25,69% do total de R$ 4.422,99 bilhões aplicados em títulos de dívida pública (ou R$ 1,136 trilhão) em operações de mercado aberto. Continue reading “Preferência por Liquidez em vez de Emprego para os 13 milhões desocupados”

Queda da Inflação: Redução dos Preços de Alimentos no Domicílio

O boxe do Relatório de Inflação do Banco Central do Brasil divulgado em setembro de 2017, sob o título acima, analisa o comportamento recente da taxa de inflação. Sua grande queda foi provocada pela Grande Depressão ou pela superação da Grande Seca, com uma grande safra de alimentos, decorrente de fator climático benigno no ano corrente? Se foi isso, o BCB confessa ter cometido uma “barbeiragem na política monetária” com overdose de juros para combater quebra de oferta por acidentalidade climática!

A inflação em doze meses, medida pelo IPCA, registrou forte ciclo de aceleração e arrefecimento nos últimos anos, quando avançou de 6,41%, em dezembro de 2014, para 10,71%, em janeiro de 2016, e recuou para 2,46%, em agosto de 2017 (Gráfico 1). Nesse contexto, este boxe analisa o recente ciclo de inflação com base em estimativas de persistência, que permitem comparar a velocidade de ajuste dos preços dos segmentos do IPCA após a incidência de choques.

A persistência da inflação de um determinado setor pode ser calculada pela soma dos componentes autoregressivos. Quanto maior a dependência da série em relação às suas próprias defasagens, maior sua persistência.

Foram estimadas a persistência de:

  1. a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA);
  2. a inflação dos segmentos alimentação no domicílio, monitorados, bens industriais e serviços; e
  3. a média das medidas de núcleo de inflação calculadas pelo Banco Central.

As estimativas mencionadas encontram-se no Gráfico 2 (eixo horizontal), que relaciona estes resultados com as respectivas médias mensais da aceleração inflacionária ocorridas de dezembro de 2014 a janeiro de 2016. No Gráfico 3, encontra-se a comparação entre a persistência e a desinflação mensal média observada de janeiro de 2016 a agosto de 2017.

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