Crônica da Morte Econômica Anunciada… Com Otimismo!

 Balanço positivo porque os reajustes salariais superaram uma taxa de inflação acumulada no ano de 2,95%?!

Os seguidores deste modesto blog pessoal pode conferir que eu tento sempre usar gráficos e números para sustentar o que falo a respeito da economia brasileira com evidências empíricas. Acho insuportável o uso abusivo de adjetivos apologéticos para “dourar a pílula econômica amarga” que os leitores engolem no dia a dia. Por isso, evito ler e ver comentaristas econômicos louvadores de O Mercado e, agora, O Governo Temeroso!

Chato é que mesmo nos títulos dos gráficos a mídia impressa brasileira briga contra os números e dá manchete com uma leitura enganadora do leitor. Confira o exemplo acima e abaixo. O Brasil tem uma taxa de desemprego disparatada, de três a quatro vezes maior do que a taxa do México, mais da metade dos desempregados na América Latina, e o jornal alardeia: “Brasil lidera recuperação na América Latina”!

Trata o leitor como estúpido que não sabe ver os significados dos números: a estatística real é a de 2017 e as de 2018 e 2019, logicamente, são meras previsões imaginárias. Ora, alguém sabe quem presidirá o País e como será o governo brasileiro em 2019?!

Eu concordo com a crítica de Roberto Zagha, Simão Silber e Carlos Luque, professores da FEA- USP, aos comentaristas econômicos. Publicaram artigo (Valor, 29/01/18) afirmando: “Confundimos as coisas. A recuperação cíclica pode ter chegado. Mas o crescimento não está no horizonte.”

Criticamente, comentaram:

“Os comentaristas econômicos se convenceram de que o Governo é a ameaça mor ao país e declararam Guerra ao Governo. Criaram o mito de que setor público significa vícios e setor privado, virtudes. Aderiram ao diagnóstico de que as políticas econômicas do governo atual não somente salvaram a economia de uma crise fiscal, mas também a puseram nos trilhos do crescimento. O controle da situação fiscal – e não a profunda recessão e a apreciação cambial – permitiu os juros mais baixos dos últimos 20 anos e restaurou a confiança do setor privado o que se traduzirá em mais investimento e mais crescimento.

  • Ignoraram o alerta do presidente do Banco Central: “Para bater no investimento, a confiança tem que passar o obstáculo da capacidade ociosa que ainda é muito grande” (Folha de São Paulo, agosto 2017).
  • Ignoraram que as políticas atuais não resolveram o problema fiscal, que piorou. Desde 2015 os déficits primários continuaram acima de 2% do PIB e a dívida pública em relação ao PIB, 57,2% em janeiro de 2015, atingiu 74,4% em outubro de 2017, devendo chegar a 90% do PIB no início da próxima década.
  • Ignoraram que na ausência de crescimento não há resolução possível do problema fiscal.
  • Também ignoraram que cortes de gastos governamentais não constituem uma estratégia de crescimento.
  • Mais importante, ignoraram a dura realidade de que o PIB per-capita está agora 10% abaixo do nível de 2014 e a previsão é de que só em 2023 retornará ao nível de 2014, mesmo num cenário otimista de crescimento. Mais uma década perdida.

Os comentaristas econômicos parecem entusiasmados pelas reformas econômicas. Cada má notícia é ignorada, e cada boa é magnificada. A falta de justificativa teórica ou empírica às políticas do governo não merece atenção. Discutem-se números insignificantes com grande seriedade. Se o consenso Focus sobre a inflação ou o crescimento em 2018 ou 2019 mudam numa decimal, isto vira notícia. Merece artigos de jornais, e é discutido nos relatórios de bancos e na televisão.”

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Impopularidade Temerosa: 12,3 milhões de Pessoas Desocupadas e Desmanche da Previdência Social

A taxa desemprego no país fechou o último trimestre de 2017 em 11,8%, divulgou o IBGE nesta quarta-feira (31/01/18). Com isso, a taxa média anual passou de 11,5% em 2016 para 12,7% em 2017, a maior da série histórica da pesquisa, iniciada em 2012.

O índice oficial de emprego, medido pela pesquisa Pnad Contínua, sofreu queda em relação ao trimestre encerrado em setembro, quando a taxa esteve em 12,4%.

O país fechou 2016 com uma taxa de 12% – taxa que em período equivalente do ano passado foi 0,7 ponto percentual maior.

No acumulado do ano passado, o país teve 12,3 milhões de pessoas desocupadas, que são desempregados em busca de recolocação. Esse contingente caiu 0,3% frente a 2016, ou 31 mil pessoas a menos. Continue reading “Impopularidade Temerosa: 12,3 milhões de Pessoas Desocupadas e Desmanche da Previdência Social”

Trabalho por Conta Própria

Ana Conceição (Valor, 05/01/18) informa que, após dois anos da mais severa recessão da história, um traço bem brasileiro apareceu com força e levou os dados de desemprego a surpreender os analistas no ano passado: a capacidade de “se virar” e inventar maneiras de sobreviver. Nada menos que 2 milhões de pessoas foram trabalhar por conta própria ou conseguiram um emprego sem carteira assinada.

Foram “bicos” e pequenos negócios — e não a criação de vagas com carteira assinada — que permitiram uma pequena queda na taxa de desemprego, de 13,7% no auge, em março de 2017, para 12% em novembro do ano passado.

Os analistas estimavam que diante de tamanha crise o desalento fosse se aprofundar, com mais pessoas desistindo de encontrar uma fonte renda. Eles chegavam a falar em uma “retomada sem empregos” e, no início do ano passado, projetavam uma taxa de desocupação entre 13% e 13,5% para o fechamento de 2017.

Mas já na virada do primeiro para o segundo semestre, o índice cedia de forma contínua. O contingente de informais passou a superar o grupo dos que trabalham regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). A expectativa para este ano é que as vagas formais possam voltar a surgir, mas ainda de forma moderada. Continue reading “Trabalho por Conta Própria”

Desastre Provocado pela “Equipe de Ouro” Neoliberal do Governo Golpista

O “pato amarelo” da FIESP golpeou um governo democrático e não alçou voo com o governo golpista. Com a Grande Depressão provocada por choque tarifário inflacionário, overdose de juros, fim de política de crédito público, e corte de gastos públicos, brevemente, para elevar os impostos, alegará que a arrecadação fiscal caiu. Veremos novamente o “pato amarelo” inflado e a FIESP “pagando almoço” para a atuação do Movimento Brasil Livre, financiado e apoiado pelas empresas Koch, os mesmos que sempre financiaram o Tea Party nos Estados Unidos?

Eduardo Belo (Valor, 29/12/17) informa o tamanho da conta paga pela indústria pelo apoio ao projeto político do presidente emedebista da FIESP: os principais setores da indústria de máquinas apenas torcem para se desgarrar da baixa média projetada para o Produto Interno Bruto (PIB). Depois de perder 45% do faturamento desde 2013 e encolher 3% em 2017, os fabricantes de bens de capital projetam expansão de 5% a 8% em 2018.

Os únicos motivos para previsão otimista são a baixa base de comparação e a retomada dos investimentos. Ainda assim a retomada dos investimentos se dará mais em função dos gargalos acumulados na economia após três anos de recessão. Continue reading “Desastre Provocado pela “Equipe de Ouro” Neoliberal do Governo Golpista”

Contas Nacionais Trimestrais – 3o. 2017

O Produto Interno Bruto (PIB) variou 0,1% no 3º trimestre de 2017 frente ao 2º trimestre de 2017, na série com ajuste sazonal. Em relação a igual período de 2016, o crescimento foi de 1,4%. No acumulado em quatro trimestres terminados no 3º trimestre de 2017, o PIB registrou queda de 0,2%, frente aos quatro trimestres imediatamente anteriores. Já acumulado do ano até o mês de setembro, o PIB cresceu 0,6%, em relação a igual período de 2016.

Em valores correntes, o PIB alcançou R$ 1,641 trilhão, no 3º trimestre de 2017, sendo R$ 1,416 trilhões referentes ao Valor Adicionado e R$ 225,8 bilhões aos Impostos sobre Produtos Líquidos de Subsídios.

As informações completas sobre as Contas Trimestrais podem ser acessadas aqui.

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Apropriação do Valor Adicionado e Crise das Empresas Não-financeiras em 2013-2015

Os Demonstrativos do Valor Adicionado (DVA) compõem as informações contábeis das empresas como a principal fonte de informações. Esta permite separar o valor adicionado líquido em: (i) Pessoal; (ii) Tributos; (iii) Bancos; (iv) Acionistas; (v) Lucros Retidos. Estas informações mostram a remuneração dos fatores (salários e benefícios, juros, aluguéis, impostos e lucros) que são fluxos de renda em pagamento da sociedade. Esses fluxos, em parte, retornam às empresas na forma de demanda por produtos e serviços. Quanto à parte que não retorna, pois é investida em bancos, leva à demanda de novos empréstimos bancários por parte das empresas não-financeiras. Esta é a abordagem da circulação.

A participação de 129 empresas de capital aberto do setor industrial, amostra examinada por Júlio Sergio Gomes de Almeida, Luís Fernando Novais, e Marco Antônio Rocha, em A fragilização financeira das empresas não financeiras no Brasil pós-crise (Campinas; Texto para Discussão 281 do IE-UNICAMP; outubro de 2016), em relação ao valor adicionado, aos impostos e as aquisições de ativos imobilizados contabilizados no PIB, dá a dimensão da importância destas companhias para a economia brasileira. Na média do período 2013 a 2015, o valor adicionado por este conjunto contribuiu anualmente com 8,4% da riqueza adicionada na economia, com 11,4% do investimento e com 20,5% dos impostos arrecadados pelo governo.

A evolução a cada ano desta participação mostra que a grande empresa industrial tem um comportamento bastante pró-cíclico, ou seja, avança nos períodos de expansão econômica e se retraí nos períodos de retração. Em 2015, a participação do valor adicionado, dos investimentos e dos impostos deste conjunto de empresas no PIB caiu, respectivamente para 8,2%, 10,5% e 18,1%. Continue reading “Apropriação do Valor Adicionado e Crise das Empresas Não-financeiras em 2013-2015”

Rentabilidade, Margens de Lucro, Estrutura Patrimonial e Endividamento de Empresas Não-financeiras Pré-Golpe

O Texto para Discussão 281 (Campinas; IE-UNICAMP; outubro de 2016), intitulado A fragilização financeira das empresas não financeiras no Brasil pós-crise, com coautoria de Júlio Sergio Gomes de Almeida, Luís Fernando Novais, e Marco Antônio Rocha, caracteriza o período 2010-2015 – o de criação de condições econômicas necessárias para o ambiente político do golpe de Estado – por um crescente comprometimento das receitas operacionais com as despesas financeiras.

Em 2010, a participação das despesas financeiras líquidas na receita operacional para o conjunto de empresas passou de 2,4% em 2010, para 8,3% em 2015. O lucro operacional no início do período cobria três vezes o serviço das dívidas e, em 2015, esse percentual foi de apenas 0,3% ou 1/3.

Tomando o total da variação cambial e monetário sobre os fluxos de caixa e sobre o estoque da dívida pode-se observar o crescimento da magnitude dos efeitos cambiais sobre a situação de caixa das empresas. Do lado das margens de lucro, o peso da variação monetária e cambial líquida na receita operacional contribuiu para a expressiva queda na rentabilidade líquida.

Ainda que os efeitos sejam bem heterogêneos dentro da amostra – variando entre setores com ganhos significativos por conta do câmbio e setores com perdas acumuladas ao longo de todo período – no total as perdas foram crescentes ao longo do período. O que ressalta a importância do comportamento da taxa de câmbio em definir o desempenho das empresas não financeiras no pós-crise. Quando a moeda nacional se aprecia, elas perdem competitividade face aos importados. Quando passa a ser depreciada, mesmo gradualmente após julho de 2011, e de forma abrupta em 2015, as endividadas em dólares têm um choque de custos financeiros.

De forma geral, pode-se dizer que um conjunto de fatores atuou diretamente na redução da rentabilidade das empresas analisadas. A dependência em relação à acumulação interna de lucros como forma de autofinanciamento cria uma relação estreita entre rentabilidade e capacidade de financiamento de novos investimentos pelo setor produtivo. Continue reading “Rentabilidade, Margens de Lucro, Estrutura Patrimonial e Endividamento de Empresas Não-financeiras Pré-Golpe”