Panorama da Economia Mundial

A Carta IEDI 786 informa que o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou recentemente, no “Panorama da Economia Mundial” (World Economic Outlook – WEO) de abril, seu cenário atual para o desempenho econômico global, que prevê uma retomada de dinamismo, em contraste com o tom pessimista das duas edições anteriores. Este contexto, se confirmado, favorecerá a economia brasileira após a pior recessão da sua história, muito embora o Fundo tenha reduzido a projeção de crescimento da economia brasileira em 2017 de mero 0,5% para 0,2%.

O FMI projeta uma expansão de 3,5% da economia mundial em 2017, implicando um impulso após dois anos de desaceleração (3,4% em 2014, 3,2% em 2015 e 3,1% em 2016) e o melhor desempenho desde 2012. Além disso, o Fundo espera que essa trajetória ascendente persista em 2018 (+3,6%). Notar, todavia que o ritmo de expansão global continuará num patamar inferior ao registrado no boom que precedeu a crise financeira global (2003 a 2007), bem como no biênio imediatamente posterior (2010-2011). Em contraste, o Banco Mundial, no seu relatório anual “Perspectivas para a Economia Global” (Global Economic Prospects) divulgado em janeiro estima um crescimento de 2,7%, ou seja, uma desaceleração de 0,4 p.p. frente ao ano anterior. Continue reading “Panorama da Economia Mundial”

Resultado Primário, Gasto com Juros e Dívida Líquida do Setor Público

A rodada de queda nas taxas de juros de mercado — veja acima o exemplo no dia 15 de maio de 2017 — tinha puxado a taxa de juro real para baixo de 4% pela primeira vez desde outubro de 2013, antes do Efeito Temer. O Mercado já percebeu que a manutenção de um golpista no cargo de Presidente da República só trará instabilidade para a economia brasileira: Fora Temer!

A renda fixa teve ontem (18/05/17) um dia em que as taxas futuras negociadas na BM&F tiveram altas recordes e a diferença entre os juros com vencimentos em janeiro de 2019 e janeiro de 2021 – uma medida de risco – sofreu o maior aumento em pelo menos uma década. Além disso, carteiras que seguem os preços de títulos atrelados à inflação (NTNs) amargaram a maior desvalorização em dois anos.

O caos tomou conta do mercado desde a abertura. As taxas de Depósito Interfinanceiro (DI) alcançaram limites de máximas na BM&F, que decidiu elevar a tolerância de alta. Ainda assim, os DIs voltaram aos picos, o que fez os negócios entrarem em leilão em vários momentos.

A turbulência no mercado de derivativos foi vista também nas operações do segmento de balcão, no qual investidores correram para se desfazer de títulos públicos, buscando minimizar as fortes perdas contabilizadas na marcação a mercado desses papéis. A pressão foi tamanha que o Tesouro Nacional precisou não só cancelar a oferta de Letras do Tesouro Nacional (LTN) e Letras Financeiras do Tesouro (LFT) prevista, como também anunciar leilões de compra e venda de LTN, Notas do Tesouro Nacional-Série F (NTN-F) e Notas do Tesouro Nacional-Série B (NTN-B) de hoje até a próxima terça.

A partir de agora, com a zeragem de posições ordenada no pânico, posições mais seguras e de curtíssimo prazo serão as mais demandadas. Isso pode se traduzir em aplicações em LFT e operações compromissadas. A súbita reversão de expectativas deve desestimular operadores a assumir novas posições vendidas em juros.

Aquela baixa de juros, ocorrida anteriormente ao Efeito Temer — um presidente omisso quanto à denuncia de obstáculos à justiça torna-se cúmplice de crime comum –, foi resultado da redução do swap de juro de 360 dias, que é negociado a 8,8%, o menor desde o fim de junho de 2013. Descontando dessa taxa um Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 4,7% projetado pelos próximos 12 meses, chega-se ao juro real “ex ante, de 3,92% aa. Há um mês, o juro real estava na casa de 4,80%.

A rodada de queda nos juros de mercado acontecia em meio a um aumento nas apostas de que o Comitê de Política Monetária (Copom) poderia acelerar o ritmo de redução da Selic, hoje em 11,25%, no encontro do dia 31 de maio de 2017.

Eduardo Campos (Valor, 16/05/17) informou que O Mercado mantinha entre 8,25% e 8,50% aa a projeção para a taxa Selic no fim deste e do próximo ano. Confirmada tal expectativa, seria possível projetar uma economia com o custo da dívida pública entre R$ 120 bilhões a R$ 130 bilhões no período. Mas esse vetor positivo da redução do gasto com juro não se traduzirá em diminuição da Dívida Líquida do Setor Público (DLSP), pois o menor gasto com o juro é consumido pelo aumento da dívida, já que o governo não estima entregar um superávit primário até 2020. Assim, o déficit continua maior do que o ganho gerado pela queda do juro.

A trajetória da Selic é um dos principais fatores condicionantes da dívida pública. Segundo o BC, cada redução de 1 ponto percentual na taxa básica, mantida por 12 meses, reduz a dívida em R$ 22 bilhões. A Selic já caiu 3 pontos percentuais desde outubro, quando estava em 14,25% ao ano. Outros vetores relevantes são:

  1. o comportamento do câmbio e
  2. a evolução da inflação.

Continue reading “Resultado Primário, Gasto com Juros e Dívida Líquida do Setor Público”

CUT: Salário é Custo e Demanda

No beabá dos economistas, é obrigatório compreender que salário é, simultaneamente, custo e demanda. Os empresários defendem o auto interesse microeconômico, cortando custos, mas o reflexo macroeconômico é corte na demanda por seus produtos à venda…

Arícia Martins (Valor, 08/05/17) informa que uma das principais pressões de custos sobre a indústria de transformação está perdendo força e pode ajudar o setor a recuperar alguma competitividade este ano. O chamado Custo Unitário do Trabalho (CUT — sigla sugestiva, não?), indicador que mede a relação entre a folha de salários e o valor da produção física, subiu 1,2% no ano passado, menor alta desde 2010, quando havia aumentado 1,1%. Em 2015, a medida que representa a quantidade de trabalho usado para produzir uma unidade de produto avançou 20,6%.

Os cálculos são da MCM Consultores e consideram a folha de pagamento nominal da indústria, com base em dados da extinta Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salário, do IBGE, e da massa de rendimentos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. Usando a folha de pagamentos real, o CUT teve redução de 7% em 2016, depois de ter crescido 10,6% no ano anterior. Ambas as medidas são em moeda local.

A principal explicação para o movimento de alívio é a deterioração do mercado de trabalho, afirma Bernardo Dutra, economista da MCM e autor dos cálculos. Os movimentos do CUT, tanto na época de alta quanto de baixa, são explicados pela massa de rendimentos, uma vez que a produtividade no Brasil cresce muito pouco.

Depois de um longo período de pressão – de 2003 a 2016, o custo nominal da hora trabalhada acumulou alta de 213% e o custo real, 40%, ambos medidos em reais – o arrefecimento dos salários está contribuindo para reduzir a inflação. Em outro exercício, a consultoria observa que há uma correlação positiva e significativa entre a evolução do CUT e do IPCA acumulado em 12 meses.

Continue reading “CUT: Salário é Custo e Demanda”

Encolhimento do Fluxo Comercial do Brasil

Assis Moreira (Valor, 13/04/17) informa que o comércio exterior do Brasil encolheu US$ 188 bilhões em quatro anos, calculado em dólar, como resultado do preço menor das matérias-primas e forte recessão no país, conforme dados da OMC.

As importações caíram US$ 107 bilhões em quatro anos, passando de US$ 250 bilhões em 2013 para US$ 143 bilhões no ano passado. As exportações caíram US$ 57 bilhões, de US$ 242 bilhões para US$ 185 bilhões. A balança de serviços caiu US$ 24 bilhões no período.

Entre os grandes emergentes com maior volume de comércio, a Rússia perdeu US$ 394 bilhões nas trocas com o resto do mundo no período; a Índia, US$ 155 bilhões; e o México, US$ 13 bilhões.

Continue reading “Encolhimento do Fluxo Comercial do Brasil”

Comparando Recessões: 1996-2003 (Era Neoliberal) X 2015-2017 (Volta da Velha Matriz Neoliberal)

Naercio Menezes Filho, professor titular – Cátedra IFB e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, é professor associado da FEA-USP. Publicou artigo (Valor, 17/03/17) comparando recessões. Apesar de não concordar com o simplório e ideológico diagnóstico — “esse é o tamanho do estrago que foi feito pelas políticas econômicas equivocadas (nova matriz econômica) do governo Dilma” –, reproduzo-o abaixo.

 “A crise atual está tendo efeitos sociais importantes. A taxa de desemprego atingiu mais de 12% esse ano, deixando mais de 12 milhões de pessoas sem emprego. Como essa crise se compara com períodos de baixo crescimento no passado recente? O que há de diferente no comportamento do mercado de trabalho hoje em dia? Quais são as perspectivas para o futuro próximo?

O período compreendido entre 1996 e 2003 pode servir de comparação para o que vem pela frente, apesar da situação atual ser bem pior do que naquela época. Naquele período de sete anos o país ficou estagnado em termos de bem-estar, já que o PIB per capita em 2003 foi praticamente igual ao de 1996. Também houve queda de salários e aumento de desemprego.

É claro que hoje em dia a situação é bem pior. [Com a volta da Velha Matriz Neoliberal] Houve queda brutal do PIB em 2015 e 2016 e o PIB per capita em 2016 foi quase 10% menor do que em 2013. Supondo um crescimento próximo a zero em 2017, o PIB terá que crescer 2% ao ano até 2025 para que o PIB per capita retorne ao nível de 2013. Esse é o tamanho do estrago que foi feito pelas políticas econômicas equivocadas (nova matriz econômica) do governo Dilma.

[FNC: vejam o que causa a cegueira ideológica dos “coxinhas”: este diagnóstico é contraditório com os próprios números que apresentam!]

Continue reading “Comparando Recessões: 1996-2003 (Era Neoliberal) X 2015-2017 (Volta da Velha Matriz Neoliberal)”

Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014) X Era Neoliberal II (2015-2016)

Arícia Martins (Valor, 10/03/17) mostra dados que comprovam que a volta da Velha Matriz Neoliberal levou à queda (inédita desde 2003) do consumo das famílias, observado em 2016, de 4,2%. Assim, levou o componente mais relevante do Produto Interno Bruto (PIB) pelo lado da demanda de volta a níveis de 2011!

Ao contrário do ocorrido nas recessões mais recentes, porém, a massa de rendimentos caiu menos do que o consumo, descompasso que pode representar um alento à atividade este ano.

Pelos cálculos da LCA Consultores, incluindo, além da massa de renda do trabalho (a combinação entre o salário médio real e o número de trabalhadores), a de benefícios previdenciários, a massa de renda real das famílias diminuiu 3,2% entre 2015 e 2016 – um ponto a menos do que o PIB. Considerando 2014 como base, a demanda privada teve redução de 8,2%, enquanto a massa de rendimentos caiu 6,4%.

Na série da LCA, com início em 1998, o consumo caminhou acima da renda de 2003 a 2011. Essa “vantagem”, alcançada graças ao aumento das concessões de crédito, foi zerada no período de 2012 a 2014, quando os dois indicadores tiveram comportamento bastante próximo. A partir de 2015, com o louvado Joaquim Levy no comando de um ajuste fiscal neoliberal, ele provocou um contexto de grave recessão e a demanda das famílias passou a mostrar retração mais acentuada do que a renda.

Continue reading “Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014) X Era Neoliberal II (2015-2016)”

Contas Nacionais de 2016: Paralisia do Governo Temeroso contra Grande Depressão

O PIB totalizou R$ 6,267 trilhões em 2016. O PIB per capita, ou seja, a divisão do PIB pela população do país, teve queda de -4,4%, alcançando R$ 30.407.

Os investimentos sofreram mais ainda pelo locaute empresarial no ano do golpe, reduzindo 10,2% no acumulado do ano. O consumo das famílias, pressionado pelo aumento contínuo do desemprego, desde janeiro de 2015, e pela interrupção do endividamento das famílias, despencou -4,2% no mesmo período, queda ainda maior do que a contração de -3,9% já registrada em 2015.

Estas são apontadas como as principais razões para o empobrecimento dos brasileiros que não possuem riqueza financeira. Os que têm ganharam renda do capital, de maneira a compensar eventual perda de renda do trabalho, com a média da taxa básica de juros de 14,1% ao ano em 2016, que foi ainda superior à de de 2015, cuja média anual foi de 13,3%.

Impulsionadas pela desvalorização da moeda nacional, principalmente no início do ano, as exportações expandiram 1,9% em 2016, enquanto as importações caíram 10,3%.

O consumo do governo, gasto público que substitui o gasto privado durante Grande Depressão, não propiciou elevação da demanda agregada no país, pois também teve queda no ano passado, de 0,6%, embora menor do que a registrada um ano antes, de 1,1%, quando Joaquim Levy era Ministro da Fazenda.

Este estelionato eleitoral, devido à pressão política da casta dos comerciantes-industriais-financistas, sinalizou a volta da Velha Matriz Neoliberal de depressão e desemprego, com o corte dos gastos públicos e o fim da política de crédito anticíclica praticada pelos bancos públicos.

Em 2016, o PIB caiu 3,6% em relação ao ano anterior, queda ligeiramente menor que a ocorrida em 2015, quando havia sido de 3,8%. Houve recuo na agropecuária (-6,6%), na indústria (-3,8%) e nos serviços (-2,7%). O PIB totalizou R$ 6.266,9 bilhões em 2016.

O PIB caiu 0,9% no 4º trimestre de 2016 frente ao 3º trimestre, levando-se em consideração a série com ajuste sazonal. É o oitavo resultado negativo consecutivo nesta base de comparação. A agropecuária cresceu 1,0%, enquanto que a indústria (-0,7%) e os serviços (-0,8%) recuaram.

Na comparação com o 4º trimestre de 2015, o PIB sofreu contração de 2,5% no último trimestre de 2016, o 11º resultado negativo consecutivo nesta base de comparação. Houve queda na agropecuária (-5,0%), na indústria (-2,4%) e nos serviços (-2,4%). O ano 2016 foi um desastre político e econômico!

A publicação completa da pesquisa do IBGE pode ser acessada aqui.

Continue reading “Contas Nacionais de 2016: Paralisia do Governo Temeroso contra Grande Depressão”