Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014) X Era Neoliberal II (2015-2016)

Arícia Martins (Valor, 10/03/17) mostra dados que comprovam que a volta da Velha Matriz Neoliberal levou à queda (inédita desde 2003) do consumo das famílias, observado em 2016, de 4,2%. Assim, levou o componente mais relevante do Produto Interno Bruto (PIB) pelo lado da demanda de volta a níveis de 2011!

Ao contrário do ocorrido nas recessões mais recentes, porém, a massa de rendimentos caiu menos do que o consumo, descompasso que pode representar um alento à atividade este ano.

Pelos cálculos da LCA Consultores, incluindo, além da massa de renda do trabalho (a combinação entre o salário médio real e o número de trabalhadores), a de benefícios previdenciários, a massa de renda real das famílias diminuiu 3,2% entre 2015 e 2016 – um ponto a menos do que o PIB. Considerando 2014 como base, a demanda privada teve redução de 8,2%, enquanto a massa de rendimentos caiu 6,4%.

Na série da LCA, com início em 1998, o consumo caminhou acima da renda de 2003 a 2011. Essa “vantagem”, alcançada graças ao aumento das concessões de crédito, foi zerada no período de 2012 a 2014, quando os dois indicadores tiveram comportamento bastante próximo. A partir de 2015, com o louvado Joaquim Levy no comando de um ajuste fiscal neoliberal, ele provocou um contexto de grave recessão e a demanda das famílias passou a mostrar retração mais acentuada do que a renda.

Continue reading “Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014) X Era Neoliberal II (2015-2016)”

Contas Nacionais de 2016: Paralisia do Governo Temeroso contra Grande Depressão

O PIB totalizou R$ 6,267 trilhões em 2016. O PIB per capita, ou seja, a divisão do PIB pela população do país, teve queda de -4,4%, alcançando R$ 30.407.

Os investimentos sofreram mais ainda pelo locaute empresarial no ano do golpe, reduzindo 10,2% no acumulado do ano. O consumo das famílias, pressionado pelo aumento contínuo do desemprego, desde janeiro de 2015, e pela interrupção do endividamento das famílias, despencou -4,2% no mesmo período, queda ainda maior do que a contração de -3,9% já registrada em 2015.

Estas são apontadas como as principais razões para o empobrecimento dos brasileiros que não possuem riqueza financeira. Os que têm ganharam renda do capital, de maneira a compensar eventual perda de renda do trabalho, com a média da taxa básica de juros de 14,1% ao ano em 2016, que foi ainda superior à de de 2015, cuja média anual foi de 13,3%.

Impulsionadas pela desvalorização da moeda nacional, principalmente no início do ano, as exportações expandiram 1,9% em 2016, enquanto as importações caíram 10,3%.

O consumo do governo, gasto público que substitui o gasto privado durante Grande Depressão, não propiciou elevação da demanda agregada no país, pois também teve queda no ano passado, de 0,6%, embora menor do que a registrada um ano antes, de 1,1%, quando Joaquim Levy era Ministro da Fazenda.

Este estelionato eleitoral, devido à pressão política da casta dos comerciantes-industriais-financistas, sinalizou a volta da Velha Matriz Neoliberal de depressão e desemprego, com o corte dos gastos públicos e o fim da política de crédito anticíclica praticada pelos bancos públicos.

Em 2016, o PIB caiu 3,6% em relação ao ano anterior, queda ligeiramente menor que a ocorrida em 2015, quando havia sido de 3,8%. Houve recuo na agropecuária (-6,6%), na indústria (-3,8%) e nos serviços (-2,7%). O PIB totalizou R$ 6.266,9 bilhões em 2016.

O PIB caiu 0,9% no 4º trimestre de 2016 frente ao 3º trimestre, levando-se em consideração a série com ajuste sazonal. É o oitavo resultado negativo consecutivo nesta base de comparação. A agropecuária cresceu 1,0%, enquanto que a indústria (-0,7%) e os serviços (-0,8%) recuaram.

Na comparação com o 4º trimestre de 2015, o PIB sofreu contração de 2,5% no último trimestre de 2016, o 11º resultado negativo consecutivo nesta base de comparação. Houve queda na agropecuária (-5,0%), na indústria (-2,4%) e nos serviços (-2,4%). O ano 2016 foi um desastre político e econômico!

A publicação completa da pesquisa do IBGE pode ser acessada aqui.

Continue reading “Contas Nacionais de 2016: Paralisia do Governo Temeroso contra Grande Depressão”

Grande Depressão Continua Sem Reação do Governo Golpista

desempenho-da-atividade-2016ibc-br-2016juros-nominais-e-reais-jan-2017dolar-comercial-fev-2017gasto-contido-em-jan-2017freio-nos-gastos-municipais-em-2016queda-do-investimento-estatal

Com queda de 0,89% do Produto Interno Bruto entre o terceiro e o quarto trimestres, na série com ajuste sazonal, a atividade encerrou 2016 com redução de 3,6%, conforme o Monitor do PIB da Fundação Getulio Vargas, depois de encolher 3,8% em 2015 com a volta da Velha Matriz Neoliberal comandada por Joaquim Levy. Os dois anos de depressão sem precedentes históricos arrastaram o produto de volta ao nível de 2011.

Sergio Lamucci (Valor, 22/02/17) informa que o volume investido pelas estatais federais e pela União encolheu com força nos últimos três anos, puxado especialmente pela redução das despesas da Petrobras. Em 2013, os gastos com investimentos do governo federal e das estatais do setor produtivo totalizaram R$ 173,3 bilhões, o equivalente a 3,25% do PIB, bem acima dos R$ 118,8 bilhões, ou 1,9% do PIB, registrados em 2016.

A queda mais expressiva foi das despesas de capital do grupo Petrobras, que recuaram de quase R$ 100 bilhões, ou 1,86% do PIB, em 2013 para R$ 47,8 bilhões, ou 0,76% do PIB, segundo números do Ministério do Planejamento. Isso ajuda a explicar a forte queda da formação bruta de capital fixo (medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e equipamentos, construção e pesquisa) em 2015 e 2016, um dos motivos para a retração da economia nos últimos dois anos.

A política de tecnocrata neoliberal, dirigindo a Petrobras, coloca toda prioridade nela continuar a reduzir o seu nível de endividamento. Isto indica que o investimento da empresa deverá seguir baixo neste ano e provavelmente também no próximo ano eleitoral. No caso da União, o teto de gastos sugere que as despesas de capital também tendem a ser contidas, para que o limite seja cumprido.

Continue reading “Grande Depressão Continua Sem Reação do Governo Golpista”

Debate sobre o Juro Disparatado no Brasil

dados-percentuais

Depois de passar pelo concurso para Professor Titular do IE-UNICAMP, no início de março de 2015, fui gentilmente convidado pelo IBRE-FGV, sob direção do Luiz Guilherme Schymura, para um seminário com os professores-pesquisadores seniores desta importante instituição. Queriam que eu respondesse três questões-chave formuladas pelo meu ex-colega Samuel Pessôa.

Ele me dirigiu perguntas aparentemente simples:

  1. Por que a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada?
  2. Por que, apesar da taxa nominal básica de juros ser tão elevada, a taxa da inflação permanece muito elevada?
  3. Por que, apesar da taxa nominal básica de juros ser tão elevada, a taxa de poupança permanece muito baixa?

De imediato, em vez de dizer clichês a respeito, respondi-lhe que não se pode tratar com simples palavras uma questão complexa. É necessário estudar reflexões teóricas e evidências empíricas para tentar dar uma resposta mais consistente.

O encontro no IBRE-FGV-RJ foi muito profícuo com respeito mútuo entre economistas com formações teóricas distintas. Tanto foi proveitoso que o IBRE-FGV me convidou para outra apresentação em seguida.

Depois desta segunda apresentação, recebi um convite para participar de uma experiência inédita no debate intelectual brasileiro recente: economistas ortodoxos e heterodoxos debaterem um tema comum importante para a economia brasileira. Continue reading “Debate sobre o Juro Disparatado no Brasil”

Capital Circulante

teoria-da-relatividade

Em uma cidade, os habitantes, endividados, estão vivendo à custa de crédito.

Por sorte, chega um gringo e entra no único hotel.

O gringo saca uma nota de R$100,00, põe no balcão e pede para ver um quarto.

Enquanto o gringo vê o quarto, o gerente do hotel sai correndo com a nota de R$100,00 e vai até o açougue pagar suas dívidas com o açougueiro.

O açougueiro, pega a nota e vai até um criador de suínos a quem deve e paga tudo.

O criador, por sua vez, pega também a nota e corre ao veterinário para liquidar sua dívida.

O veterinário, com a nota de R$100,00 em mãos, vai até ao puteiro pagar o que devia a uma prostituta. Em tempos de crise, essa profissão também aceita trabalhar a crédito.

A prostituta sai com o dinheiro em direção ao hotel, lugar onde levava seus clientes. Como ultimamente não havia pago pelas acomodações, paga a conta de R$100,00.

Nesse momento, o gringo chega novamente ao balcão, pede sua nota de R$100,00 de volta, agradece, diz não ser o que esperava e sai do hotel e da cidade.

Ninguém ganhou um tostão, porém, agora todos saldaram suas dívidas e podem deixar de cortar gastos!

Moral da história: quando o dinheiro circula, não há por que temer… a crise!

Déficit na Previdência Social Devido à Grande Depressão

rgps-2016-15

O déficit do Regime Geral de Previdência Social disparou em 2016, fechando o ano em R$ 149,7 bilhões, alta de 74,5% na comparação com o rombo de R$ 85,8 bilhões registrado em 2015. Em valores corrigidos pela inflação, esse déficit foi de R$ 151,9 bilhões em 2016, o maior da série iniciada em 1995.

A maior parte do rombo deve ser atribuída a questões conjunturais, como a queda do emprego, que tem impacto fortemente negativo na arrecadação. A questão estrutural do envelhecimento da população ainda está pesando pouco nas contas, processo que deve se intensificar nas próximas décadas.

O problema é que o governo golpista, propositalmente, mistura as coisas para o público leigo achar que “o envelhecimento já chegou e a relação população ativa/inativa já despencou”! Com isso, espera que a opinião pública não barre a aprovação da proposta da reforma da Previdência no terceiro trimestre do ano corrente. Segundo o governo golpista, o objetivo da reforma não é acabar com o déficit, mas estabilizar as despesas previdenciárias em torno de 8% do PIB nas próximas décadas.

A perspectiva do governo golpista é tentar aprovar a proposta nos moldes em que ela foi encaminhada ao Congresso pelo Poder Executivo, mas o Poder Legislativo será o palco de discussões da proposta. Lembrem-se que 2017 é um ano pré-eleitoral. Não vote em congressista que retirar seus direitos sociais!

Continue reading “Déficit na Previdência Social Devido à Grande Depressão”

Finanças Públicas em 2016: Por Muito Menos “Justificou-se” (sic) Um Golpe…

deficit-historico-em-2016divida-bruta-2012-2016

O Setor Público Consolidado encerrou 2016 com um déficit primário de R$ 155,791 bilhões. O resultado do ano equivale a 2,47% do PIB, recorde histórico, e é ainda pior que o déficit de R$ 111,2 bilhões (1,85% do PIB) visto em 2015. Sendo que, em dezembro de 2015, o déficit tinha sido elevado em R$ 71,729 bilhões sob a pressão do TCU para o pagamento das chamadas “pedaladas fiscais”. Era mero pretexto para o golpe parlamentarista que se avizinhava…

No ano, os Estados, municípios e suas estatais registraram um superávit primário de R$ 4,519 bilhões ou 0,07% do PIB, enquanto o governo central teve um déficit de R$ 160,309 bilhões ou 2,54% do PIB.

A meta de déficit para o setor público consolidado para o ano era de R$ 163,942 bilhões ou 2,64% do PIB. Para o governo central, a meta era de um déficit R$ 170,5 bilhões, ou 2,75% do PIB e para os entes subnacionais a proposta era de superávit de R$ 6,554 bilhões.

A proposta inicial do Governo Dilma para o ano, antes do golpe, era de um superávit de R$ 30,5 bilhões ou 0,5% do PIB, sendo R$ 24 bilhões do governo central. Os golpistas mudaram a meta para um número absurdo sob o beneplácito do Congresso cúmplice. Para 2017, a proposta é de novo déficit de R$ 139 bilhões!

Continue reading “Finanças Públicas em 2016: Por Muito Menos “Justificou-se” (sic) Um Golpe…”