28 milhões Pessoas Subutilizadas em Julho de 2019: Sem Perspectiva de Retomada do Crescimento da Renda e do Emprego pela Inação do Governo

No trimestre encerrado em julho de 2019, a taxa de desocupação (11,8%) recuou 0,6 pontos percentuais (p.p.) em relação ao trimestre de fevereiro a abril de 2019 (12,5%) e caiu 0,5 p.p. na comparação com o mesmo trimestre de 2018 (12,3%).

Indicador / Período Mai-jun-jul 2019 Fev-mar-abr 2019 Mai-jun-jul 2018
Taxa de desocupação 11,8% 12,5% 12,3%
Taxa de subutilização 24,6% 24,9% 24,4%
Rendimento real habitual R$2.286 R$2.311 R$2.290
Variação do rendimento real habitual em relação a: -1,0% (queda) -0,1% (estabilidade)

população desocupada (12,6 milhões de pessoas) recuou 4,6% (menos 609 mil pessoas) frente ao trimestre anterior e ficou estatisticamente estável em relação a igual período de 2018 (12,8 milhões).

população ocupada (93,6 milhões de pessoas) cresceu em ambas as comparações e é a maior da série: 1,3% (mais 1.219 mil pessoas) em relação ao trimestre anterior e 2,4% (mais 2.218 mil pessoas) na comparação como o mesmo período de 2018.

A população fora da força de trabalho (64,8 milhões de pessoas) permaneceu estável tanto na comparação com o trimestre anterior quanto na comparação com o mesmo período do ano anterior.

taxa composta de subutilização da força de trabalho (24,6%) caiu 0,4 p.p em relação ao trimestre anterior (24,9%) e manteve-se estável frente ao mesmo período de 2018 (24,4%).  

população subutilizada (28,1 milhões) não teve variação significativa frente ao trimestre anterior e subiu 2,6% (mais 703 mil pessoas) frente ao mesmo tri de 2018.

O número de pessoas desalentadas (4,8 milhões) não mostrou variação significativa em ambas as comparações. O percentual de pessoas desalentadas em relação à população na força de trabalho ou desalentada foi de 4,4%, repetindo o recorde da série e mantendo estabilidade em ambas as comparações.

O número de empregados no setor privado com carteira assinada (exclusive trabalhadores domésticos) foi de 33,1 milhões de pessoas, ficando estável em ambas as comparações. Por outro lado, o número de empregados sem carteira assinada (11,7 milhões de pessoas) atingiu novo recorde, subindo em ambas as comparações: 3,9% (mais 441 mil pessoas) frente ao trimestre anterior e 5,6% (mais 619 mil pessoas) em relação ao mesmo trimestre de 2018.

O número de trabalhadores por conta própria (24,2 milhões) bateu novo recorde da série histórica e subiu nas duas comparações: 1,4% (mais 343 mil pessoas) frente ao trimestre anterior e 5,2% (mais 1,2 milhão de pessoas) frente ao mesmo período de 2018.

rendimento médio real habitual (R$ 2.286) caiu 1,0% frente ao trimestre anterior e não teve variação significativa frente ao mesmo trimestre de 2018. Já a massa de rendimento real habitual (R$ 208,6 bilhões) ficou estável em relação ao trimestre anterior e cresceu 2,2% (mais R$ 4,5 bilhões) frente ao mesmo período de 2018. Continuar a ler

Stop-and-Go ou “Voo Curto de Galinha”: Persistência da Estagdesigualdade

Gráfico 1 – variação do PIB, considerados quatro trimestres encerrados no 2º trimestre de cada ano em relação ao mesmo período do ano anterior
2009

Segundo o IBGE, o Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB), 2º trimestre de 2019, cresceu 0,4% em relação ao trimestre anterior. Sob a ótica da demanda, cresceram, na análise do Instituto, o consumo das famílias, 0,3%, e a formação bruta de capital fixo (investimentos), 3,2%.  Observado o período de doze meses, a variação do PIB a preços de mercado alcançou 1%. É inferior à observada em 2018 e, considerada série iniciada em 2008, ano da crise financeira internacional, a economia brasileira anda aos cambaleios desde 2015.

A mídia comercial se mostrou efusiva com o PIB.  Cada qual em seu portal, a Folha de São Paulo destacou: investimentos “impulsionam alta”. O Valor Econômico escreveu: “economia brasileira surpreende e cresce”. O Estado de São Paulo deu: “fica acima do esperado”.

Em verdade, o esperado era de 0,2% para o trimestre e o alcançado, 0,4%. A benevolência com o resultado pode ter sido motivada pelo anúncio no mesmo dia, feito pela Argentina de Macri, da reestruturação da dívida de curto prazo dada a incapacidade de pagamento. A visão econômica de Macri, em final de quatro anos de mandato com recessão econômica, é parelha à do governo brasileiro. PIB comemorado não apaga o fato de que a indústria brasileira mais encolhe do que cresce.

Gráfico 2 – variação do PIB Indústria, considerados quatro trimestres encerrados 2º trimestre de cada ano em relação ao mesmo período do ano anterior

Segmento muito empregador, a construção, parte da indústria na análise do PIB, registrou no acumulado em quatro trimestres, encerrados no 2º de 2019, queda de 0,9%. A queda na construção é constante desde 2015. Na séria histórica (Gráfico 3), o melhor resultado foi o de 2010, 15% positivo.

Gráfico 3 – Gráfico 2 – variação do PIB Construção, considerados quatro trimestres encerrados 2º trimestre de cada ano em relação ao mesmo período do ano anterior

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Consequências Econômicas da Operação Lava-Jato

Luiz Fernando de Paula é professor do IE/UFRJ e Coordenador do Geep/Iesp/UERJ. Rafael Moura é doutorando de Ciências Políticas do Iesp/UERJ. São coautores do artigo (Valor, 28/08/19) reproduzido abaixo.

“No dia 1o de janeiro de 2011, quando o então presidente Lula entregou a faixa
presidencial para Dilma Rousseff, o ambiente envolvendo o Brasil era de
enorme otimismo. Tamanho otimismo parecia corroborado por bons
indicadores até então: no plano econômico, o país acabava de registrar uma
impressionante taxa de crescimento do PIB na ordem de 7,5% ao ano, uma das
maiores vistas na Nova República. Concomitantemente, em plena crise
financeira global, o governo adotara um conjunto de medidas anticíclicas a
partir do final de 2008 que permitiram uma rápida recuperação econômica e
contínua queda dos níveis de desemprego. Na esfera política, Dilma herdava uma enorme popularidade e base congressual relativamente confortável para a implementação de sua agenda.

Anos depois, o quadro se reverteu dramaticamente. No plano econômico, o crescimento marcante na década de 2000 deu lugar a uma desaceleração gradual seguida de forte recessão em 2015 e 2016, acompanhada de agudo aumento do desemprego (de 4,9% em fins de 2014 para 11,2% em maio de 2016 quando a presidente deixa o cargo). Já na esfera política, o cenário das eleições altamente polarizadas de 2014 se deteriorou e assistiu a mobilizações contra Dilma Rousseff e o PT, para além da relação cada vez mais conflituosa entre o Poder Executivo e o Legislativo, capitaneado por Eduardo Cunha. O desfecho desse quadro foi a deposição da mandatária via um contestado processo de impeachment, tendo como alegação o discutível argumento de “pedaladas fiscais”.

Intimamente imbricada a toda essa turbulência econômica e política do país esteve a Operação Lava-Jato, formalizada a partir de 2014 e com forte impacto tanto para a crise política quanto econômica. A Operação se mostrou nevrálgica para o desfecho visto em duas cadeias produtivas até então pujantes e interligadas da economia: a de petróleo e gás e a de construção civil.

Não é tarefa fácil estimar o impacto agregado da Operação Lava-Jato sobre a economia. Consultorias tais como GO Associados e Tendências, por exemplo, calculam algo em torno de 2 a 2,5% de contribuição nas retrações do PIB de 2015 e 2016 respectivamente, em função dos impactos nos setores metalomecânico, naval, construção civil e engenharia pesada cujas perdas podem totalizar até R$ 142 bilhões. Continuar a ler

Política Expansão de Demanda (keynesiana) versus Política de Oferta (neoliberal)

Fabio Graner (Valor, 31/07/18) informa: a necessidade de políticas de demanda, em especial o uso da taxa de juros, tem sido negligenciada pelos governos nos últimos anos e é um dos fatores que explicam o baixo crescimento econômico após a grave recessão de 2015/2016. A recuperação do país após esse ciclo negativo, com estagnação do crescimento per capita, tem sido a mais lenta desde o final do século XIX, com custos sociais e fiscais, como a perda de arrecadação do governo em torno de dois pontos percentuais do PIB.

A análise consta de artigo técnico de 19 páginas elaborado pelos economistas Manoel Pires, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Bráulio Borges, da LCA Consultores e do Ibre, e Gilberto Borça Júnior, pertencente ao corpo de economistas do BNDES.

Eles fazem comparações com outros episódios após recessões severas no Brasil e no mundo. O movimento atual de retomada é atipicamente lento. Passados 20 trimestres, ou seja, cinco anos, a economia ainda se encontra 5,3% abaixo de seus patamares pré-recessão. Se considerarmos que na média das nove recessões desde 1980, transcorrido tal intervalo de tempo, o PIB já estaria cerca de 8,1% acima de seu patamar pré-crise, o atual processo de recuperação mostra uma economia ainda 12,4% abaixo de seu padrão histórico de retomada. Até mesmo nas recessões de 1981-83 e 1989-92, comparáveis ao ciclo de 2014/16, a economia já havia retomado o nível anterior ao tombo entre dois e três anos depois de atingido o ‘fundo do poço’. Continuar a ler

Prioridade: Retomada do Crescimento em lugar de Combate à Inflação

Uma boa política econômica previne o crescimento excessivo de dívida e a inflação de ativos com políticas macroprudenciais e política fiscal rígida. Uma má política econômica é permissiva com novos investimentos financiados por dívida de especuladores, p.ex., imobiliários, apostando na tendência de alta dos preços com juros baixos demais.

José Roberto Campos (Valor, 30/07/19) aponta corretamente: onze anos após o início da maior crise financeira desde os anos 1930, a inflação mantém-se em seu patamar mais baixo em todo o mundo.

O fenômeno é global. A inflação média nos maiores países emergentes é hoje um quinto da existente entre 1980 e 2008.

Nesse período pré-crise, a média inflacionária (medida pelos gastos pessoais de consumo) nos Estados Unidos foi de 2,6%, o PIB cresceu 3,4% ao ano e o título do Tesouro de 10 anos pagava 6,5%. Hoje, a inflação é de 1,6%, o PIB cresce 2,1% e o título de 10 anos rende 2,4%.

No Brasil, o IPCA nos doze meses encerrados em julho foi de 3,37% e os juros básicos nominais (Selic) de 6,5%, são os menores em décadas. A inflação ficará pelo terceiro ano consecutivo abaixo da meta e o juro real projetado (com swap pré 360 dias), de 1,66% em 26 de julho, se aproxima do menor: 1,54% em dezembro de 2012.

A desinflação brasileira, porém, guarda relação menos direta com a queda estrutural dos preços nos países desenvolvidos. Em 2015, o IPCA foi de 10,67%, devido ao choque inflacionário provocado pela inflação de alimentos, uma quebra de oferta devido à seca, respondida equivocadamente com um choque de juros. Somaram-se o choque tarifário e/ou em preços administrados (+18%) e o choque cambial. Toda essa “política levyana” resultou da pressão do lobby de O Mercado para a volta da Velha Matriz Neoliberal. Depois, o locaute empresarial criou o ambiente para o golpe semi-parlamentarista. Deu no atual desastre econômico e político.

A política de afrouxamento monetário dos BCs dos países avançados acumulou US$ 15 trilhões em expansão de liquidez. A inflação não saiu do lugar: foi a “pá-de-cal” no enterro definitivo do monetarismo. Mas também “dinheiro farto e barato” não leva ao crescimento durante armadilha de liquidez.

Em lugar de estagflação surgiu a estagdesigualdade. O desaquecimento das economias e a queda inflacionária foram a troca para evitar o pior, a Grande Depressão. Mas, para alegria dos ricaços, não evitou maior concentração de renda e riqueza. Continuar a ler

Hiato do Produto: Aumento da Capacidade Ociosa

Arícia Martins (Valor, 18/07/19) informa: a freada na recuperação da atividade elevou ainda mais a capacidade ociosa existente na economia no primeiro trimestre, principalmente na indústria. Em uma estimativa inédita, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV) calculou o hiato do produto, que mede a diferença entre o crescimento efetivo e o potencial, para os setores econômicos. De acordo com esse indicador, o setor industrial é o que opera com maior ociosidade no momento. O Ibre é a única instituição que tem estimativas para a série do hiato desde 1980.

Segundo os pesquisadores Claudio Considera, Elisa Carvalho de Andrade e Juliana Carvalho da Cunha Trece, o PIB efetivo se distanciou ainda mais do potencial: a diferença entre eles aumentou de 3,7% no quarto trimestre de 2018 para 4,7% nos primeiros três meses deste ano. O cálculo é uma média dos seis métodos estatísticos mais usados pelos economistas para estimar o hiato do produto.

A correlação desta média com o hiato do produto extraído pela função de produção é de 86%. Nessa métrica bastante utilizada, se mostra um hiato negativo de 5,6% pelos números do Ibre. Chega-se ao crescimento potencial da economia somando todos os fatores de produção:

  1. a produtividade total dos fatores,
  2. o estoque de capital físico e
  3. o capital humano (trabalho).

Essa medida tem um sentido econômico, as outras são pura e simplesmente estatística. Continuar a ler

Inflação Trienal Média: 1915-2019

Sergio Lamucci (Valor, 08/07/19) informa: a média da inflação ao consumidor acumulada em três anos está no menor nível desde meados dos anos 1930. No período de 2017, 2018 e 2019 – considerando a projeção do consenso de mercado para este ano -, a média do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deverá ficar em 3,5%, a mais baixa desde os 2,4% de 1932 a 1934, segundo levantamento de Armando Castelar, coordenador de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

A combinação de forte contenção de gastos e crédito públicos, expectativas
inflacionárias sob controle e grande ociosidade na economia ajuda a entender o comportamento benigno dos índices de preços ao consumidor, na visão de Castelar. Além disso, a forte inércia contribui para manter os indicadores em níveis modestos, ao propagar a inflação baixa do passado para o futuro. Para alguns analistas, um IPCA repetidamente inferior à meta perseguida pelo Banco Central (BC), num cenário de recuperação muito lenta da economia, indica que os juros estão consideravelmente mais altos do que deveriam.

Uma inflação baixa como a do último triênio é um sinal de uma “realidade nova” da economia brasileira. Os 3,5% da média de 2017 a 2019 são a meta de inflação para 2022, definida na semana passada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Uma média da inflação em três anos de 3,5% tem uma força de ancoragem das expectativas muito grande. Para 2019, o consenso de mercado aponta um IPCA de 3,8%, abaixo da meta de 4,25%. Para voltar a uma inflação tão baixa quanto a do último triênio, é preciso voltar aos tempos da Grande Depressão.

Na visão do economista ortodoxo, a grande transformação dos últimos anos é a recessão provocada pela mudança na política fiscal e na política do crédito público. As despesas não financeiras do governo federal cresceram de 1998 a 2015 a um ritmo anual de 6% acima da inflação; de 2016 para cá, a expansão em termos reais (descontada a inflação) tem sido próxima de zero. Além disso, os bancos públicos jogam na retranca.

Nesse novo quadro, a inflação e os juros tendem a ser estruturalmente mais baixos. Mantido esse quadro de gastos e crédito públicos contidos, os juros e o custo de financiamento para empresas e famílias serão menores, algo essencial em cenário onde caberia ao setor privado tomar a liderança do crescimento, mas nada vai acontecer sem o planejamento estratégico do setor público. Continuar a ler