Círculo Vicioso: Corte de Gastos – Grande Depressão – Queda de Arrecadação

Ribamar Oliveira (Valor, 28/08/17) avalia que os dados sobre a arrecadação de tributos federais em julho reforçam um fenômeno para o qual os técnicos da Receita Federal ainda não têm uma explicação. O pagamento de impostos e contribuições pelas entidades financeiras desabou também em julho de 2017.

No caso do Imposto de Renda (IRPJ) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), os pagamentos caíram 66,7%, em termos reais, na comparação com julho de 2016. No caso da Contribuição para o Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), a queda real no mês passado foi de 38,8%, na mesma comparação.

Somente com esses quatro tributos (IRPJ, CSLL, PIS e Cofins) as entidades financeiras pagaram R$ 3,864 bilhões a menos no mês passado na comparação com julho de 2016. Não consta que a lucratividade das instituições financeiras tenha caído tanto. Então, qual será a explicação? Continue reading “Círculo Vicioso: Corte de Gastos – Grande Depressão – Queda de Arrecadação”

Autoengano: Torturar Números para Confessarem “Otimismo”

“Correlação é causalidade”?! Se fosse, a causa do câncer seria beber água, pois todos os seres humanos que morreram de câncer bebiam água… Para sua cura, bastaria não beber água!

Uma coisa que acontece depois da outra não significa que aconteceu por causa da outra, necessariamente. Este é o viés do historicismo: método em que se organiza uma narrativa histórica a partir do ponto-de-chegada. Daí, organiza os fatos, desde certo início, de maneira encadeada, logicamente, em causas-e-efeito, de acordo com hipótese apriorística do historiador. Este não colhe (ou esconde) dados que falseariam sua hipótese. Nesse viés de confirmação — ou auto validação ilusória –, o historiador se transforma em um vidente do passado!

Os romanos chamavam esse método de que o antecedente é causa do subsequente (não necessariamente “consequente”) de “post hoc ergo propter hoc” [“depois disso, logo causado por isso”].

Compare os gráficos acima com o abaixo e indague qual é a correlação maior do PIB: com o investimento (FBCF) ou com o consumo das famílias?

No curto prazo, isto é, em período de mercado, principalmente em situação de excesso involuntário de estoques, a demanda de crédito aparece amplamente como insensível às variações dos custos de juros. No médio prazo, ou seja, período de produção, tal processo, cumulativamente, reverte expectativas, leva à suspensão de decisões de produção, férias coletivas, dispensa de empregados. No longo prazo, dito período de investimento, o aumento da capacidade ociosa provoca adiamento de decisões de investimento, recessão e desemprego. Veja o fluxograma lógico-temporal abaixo:

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PIB caiu 1,4% no Comparativo em 12 Meses: Lei de Say

 

TAXA DE INVESTIMENTO (FBCF/PIB) no 2º trimestre de 2017 = 15,5%
TAXA DE POUPANÇA (POUP/PIB) no 2º trimestre de 2017 = 15,8%

Estatísticas Econômicas Produto: Contas Nacionais Trimestrais

O Produto Interno Bruto (PIB) variou 0,2% na comparação do segundo contra o primeiro trimestre de 2017, na série com ajuste sazonal. Na comparação com o segundo trimestre de 2016, o PIB variou 0,3%. No acumulado em quatro trimestres, o PIB caiu 1,4% em relação aos quatro trimestres imediatamente anteriores. Já no primeiro semestre de 2017, o PIB apresentou variação nula em relação ao primeiro semestre de 2016. Em valores correntes, o PIB no segundo trimestre de 2017 alcançou R$ 1,639 trilhão. Veja a pesquisa completa aqui.

Os economistas ultraliberais conseguiram submeter a economia brasileira à Lei de Say: sem crédito “em excesso” (sic), investimento = poupança! Resultado temeroso: equilíbrio entre a oferta agregada e a demanda agregada, ou seja, sem inflação de demanda, porém com depressão e desemprego!

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Por Linhas Tortas: As Tortas Linhas da Folha de S.Paulo

 

EDITORIAL DA FSP (29/08/2017), abaixo reproduzido, além do antipetismo típico da direita esnobe paulistana, demonstra o analfabetismo econômico do mainstream, i.é, da “corrente principal da Economia” — autodenominação dos economistas ortodoxos. Estes são fiéis seguidores da Ética Protestante e do Espírito do Capitalismo do século XIX, quando ainda se guardava “poupança” debaixo do colchão.

A economia do endividamento bancário não tinha  evoluído, há dois séculos, com o uso generalizado de cheques, a câmara de compensação, a expansão da rede de agências e a carteira de redesconto, ou seja, empréstimos de liquidez contra corridas bancárias. Essas instituições ganharam fôlego no século seguinte, quando o processo urbano-industrial superou a sociedade tipicamente rural.

Porém, o pensamento doutrinário de “tementes de Deus” permaneceu. A parcimônia individual continua sendo vista como uma virtude moral mesmo em sociedades consumistas como as anglo-saxônicas, cujo padrão de consumo colonizou a sociedade brasileira.

Os crentes ignoram o Paradoxo da Parcimônia: se todos poupam, todos acabam com menor poupança por causa do processo queda de vendas – capacidade produtiva ociosa – queda de investimentos – queda de renda. Face a esta, mesmo mantendo-se a cesta básica de consumo, registra-se menor poupança macroeconômica ex-post.

A Escola Austríaca abomina o crédito por causa disso. Botando fé na Lei de Say, os ultra-liberais almejam que os bancos sejam apenas canalizadores de poupança para o investimento, isto é, meros intermediários financeiros. Dessa forma, manter-se-ia o equilíbrio entre a oferta agregada e a demanda criada por ela e não haveria inflação de demanda fomentada por crédito extra.

Os neoliberais não percebem que o segredo dos negócios capitalistas é trabalhar com recursos de terceiros para obter maior escala e rentabilidade patrimonial face aos recursos próprios. Em outras palavras, eles desconhecem que a alavancagem financeira dá dinamismo à economia de mercado!

Os “sábios-sacerdotes pregadores da poupança” se escandalizam com os estímulos ao consumo. Revelam idiotice, não tendo consciência do mal que fazem a sua reputação nem aos outros que estão desempregados. É urgente a necessidade de estimular crédito ao consumo para ocupar a imensa capacidade produtiva ociosa na economia brasileira. Só depois disso que haverá estímulo para decisões de investimento com reversão das expectativas pessimistas quanto às vendas.

Deus não escreve certo em linhas tortas. O problema é que os economistas da “corrente principal” (sic) não sabem ler suficientemente bem

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Impactos da Demanda Externa por Commodities e Produção de Petróleo

O melhor diagnóstico da atual conjuntura política foi apresentado por meu ex-colega do IE-UNICAMP, Luiz Felipe Alencastro: Parlamentarismo troncho já existe no país, diz historiador.

Também meu ex-colega (desde o Mestrado na UNICAMP em 1975), Júlio Gomes de Almeida, diretor do Iedi, informa que o balanço comercial total registrou, em junho de 2017, superávit de US$ 36,216 bilhões, resultado recorde da série histórica, com início em 1989. “Temos um boom de commodities que foi responsável pela alta total do balanço, ao mesmo tempo que a indústria de transformação está praticamente sem déficit. Essa combinação é rara”, disse. O emprego no resto do mundo está se recuperando. Veja acima o caso europeu. Daí melhora a demanda externa.

Mas, do lado das exportações, o destaque positivo foi setor de média-alta tecnologia, com avanço de 18,6% nas vendas externas. A alta foi puxada pelos embarques de veículos automotores, reboques e semirreboques, que avançou 36,2% no acumulado do ano, para US$ 7,5 bilhões.

Editorial (Valor, 01/07/17) dá uma atualização sintética sobre o mercado de trabalho desde o fim de 2014. Veio do IBGE o anúncio de que a taxa de desemprego ficou em 13% no segundo trimestre de 2017, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). Essa taxa é o dobro de dezembro de 2014, final da Era Social-Desenvolvimentista. A volta da Velha Matriz Neoliberal dobrou o desemprego! Continue reading “Impactos da Demanda Externa por Commodities e Produção de Petróleo”

Golpe Quebra A Espinha Dorsal da Economia Brasileira!

“Quebramos a espinha dorsal da inflação nos últimos 12 meses”, disse o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, logo após a divulgação do relatório trimestral de inflação — o Banco Central divulgou o Relatório Trimestral de Inflação do segundo trimestre de 2017 (clique para ler o relatório, para ver a apresentação) –, que trouxe a projeção de 3,8% para o IPCA deste ano, abaixo da meta de 4,5%.

O ex-economista-chefe do Itaú-Unibanco se engana redondamente. Ele e seu chefe — o ex-presidente do Bank of Boston –, oportunistas políticos que aceitaram os cargos oferecidos por um governo golpista ilegítimo, quebraram a espinha dorsal da economia brasileira! Sem crescimento da renda e com 14 milhões de desempregados, caiu a demanda agregada de maneira criminosa em termos sociais!

 

 Confira o gráfico acima a respeito do desemprego. E ainda tem economista querendo culpar a Nova Matriz Macroeconômica e salvar a política econômica adotada pelo colega neoliberal, Joaquim Levy, a partir de janeiro de 2015, que o governo ilegítimo atual também segue…

A revisão da estimativa do Banco Central (BC) para o PIB de 2017 mostra um quadro desanimador para a demanda doméstica, excluindo a variação de estoques. No Relatório de Inflação divulgado, o BC manteve a projeção de um crescimento de 0,5%, mas promoveu mudanças nos componentes do indicador. Pelas novas previsões, o conjunto formado pelo consumo das famílias, pelo consumo do governo e pelo investimento deve subtrair 0,2 ponto percentual do crescimento de 0,5% esperado para este ano. No documento de março, esse conjunto teria uma contribuição positiva de 0,6 ponto.

Pelas novas projeções do BC, todo o crescimento pelo lado da demanda neste ano virá da variação de estoques. A estimativa da autoridade monetária implica uma colaboração de 0,7 ponto percentual dos estoques para a expansão da economia neste ano. Continue reading “Golpe Quebra A Espinha Dorsal da Economia Brasileira!”

Efeito Temer: Fim do Autoengano

Sergio Lamucci (Valor, 16/06/17) avalia que a nova crise política aumentou as chances de o investimento encolher pelo quarto ano consecutivo. Com as incertezas causadas pelas dúvidas quanto à continuidade do governo do golpista Michel Temer, a confiança dos empresários deve ser afetada, prejudicando as perspectivas para a retomada da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e equipamentos, construção civil e inovação.

Nesse cenário de indefinição, algumas instituições reduziram as projeções para o investimento em 2017, passando a projetar uma nova queda para o componente da demanda que mais apanhou nos últimos anos. Para se ter uma ideia, a FBCF recuou nada menos que 29,8% em relação ao nível do terceiro trimestre de 2013.

Na série do IBGE das contas nacionais que se inicia em 1996, não há registro de uma queda remotamente parecida. A FBCF encolheu quase 20% no quarto trimestre de 2008 e no primeiro trimestre de 2009, na esteira da crise financeira global, mas logo se recuperou – nos últimos três meses de 2009, já havia superado o nível vigente no terceiro trimestre de 2008. Continue reading “Efeito Temer: Fim do Autoengano”