Narrativas da Causas de Grande Recessão de 2007-9

A figura acima mostra a frequência de aparecimento da frase “Grande Depressão” por ano. Para notícias e jornais (1900-2016, da ProQuest), é o número de artigos com essa frase como um percentual de todos os artigos daquele ano. Para livros (1900-2008, do Google Ngrams), é o número de ocorrências da frase (maiúscula) dividido pelo número total de palavras no banco de dados daquele ano, em porcentagem.

Segundo Robert J. Shiller, em Narrative Economics, a crise financeira mundial de 2007-2009 tem sido chamada de “Grande Recessão” como uma referência à “Grande Depressão” dos anos 1930. Certamente, a narrativa da Grande Depressão foi repentinamente colocada na atenção nacional como nunca antes, não desde os anos 1930, como mostra o gráfico acima.

A figura sugere muito mais atenção foi dada em 2009 para a “Grande Depressão” durante a Grande Depressão em si, embora deva-se ter cuidado para entender as pessoas ainda não a chamaram de Grande Depressão como aconteceu. Eles certamente tinham narrativas ligadas à Depressão, associadas a palavras incomuns a esse período. Por exemplo, “linha de apoio” é uma expressão cujo Google Ngrams mostra ter crescido rapidamente em uso nos livros de 1929 a 1934, e ter decaído de forma constante desde então.

O interesse na Grande Depressão em 2009 também é confirmado na contagem de pesquisas do Google Trends, embora não tão drasticamente quanto na figura acima. Isso não significa as pessoas estarem subitamente mais interessadas em Franklin Roosevelt ou The New Deal. As contagens mostram praticamente nenhum aumento no interesse por esses detalhes da história.

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Narrativas Econômicas (por Robert Shiller)

Narrative Economics by Robert J. Shiller (Cowles Foundation Discussion Paper No. 2069 – Cowles Foundation For Research In Economics – Yale University – http://Cowles.Yale.Edu/ January 2017), ganhador do Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel de 2013, passou a ser uma referência para debate entre os economistas. É seu discurso presidencial proferido na 129ª reunião anual da American Economic Association, no dia 7 de janeiro de 2017, em Chicago.

Ele analisa a epidemiologia das narrativas relevantes para as flutuações econômicas. O cérebro humano sempre esteve muito sintonizado com as narrativas, factuais ou não, para justificar ações contínuas, até mesmo ações básicas como gastar em consumo ou investir. As histórias motivam e conectam as atividades a valores e necessidades profundamente sentidas. As narrativas “se tornam virais” e se espalham longe, até mesmo em todo o mundo, com impacto econômico.

A Depressão de 1920-21, a Grande Depressão dos anos 1930, a chamada “Grande Recessão” de 2007-9 e a controversa situação político-econômica atual são consideradas os resultados das narrativas populares de seus respectivos tempos. Embora essas narrativas sejam fenômenos profundamente humanos e difíceis de serem estudados de maneira científica, a análise quantitativa pode nos ajudar a entender melhor essas epidemias no futuro.

Por economia narrativa, Shiller quer dizer o estudo da disseminação e dinâmica de narrativas populares, as histórias, particularmente aquelas de interesse e emoção humanos, e como elas mudam através do tempo, para entender as flutuações econômicas. Continuar a ler

Dimensões das Narrativas Normal e Anormal

Robert J. Shiller, em Narrative Economics, conta: o psicólogo Jerome Bruner enfatizou a importância das narrativas. Por sua análise, não devemos supor as ações humanas serem dirigidas em resposta a fatos puramente objetivos:

“Eu não acredito em alguém realmente encarar os fatos. Do ponto de vista de um psicólogo, não é assim de acordo com os fatos como as pessoas se comportam, como sabido de nossos estudos de percepção, memória e pensamento. Nossos mundos factuais são mais como armários cuidadosamente arrumados em lugar de uma floresta virgem inadvertidamente se entrou.”

Narrativas são construções humanas. São misturas de fato e emoção e interesse humano em outros detalhes estranhos. Todos formam uma impressão na mente humana.

Psiquiatras e psicólogos reconhecem a doença mental ser frequentemente uma forma extrema de comportamento normal, ou seja, uma perturbação estreita das faculdades mentais humanas normais. Assim, podemos aprender sobre as complexidades do processamento cerebral normal da narrativa humana, observando os fenômenos narrativos anormais. Os neurocientistas Young e Saver (2001) listaram algumas de suas formas variadas: narração travada, desajustamento, desnarração, confabulação.

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Narrativas como Obras Criativas Essencialmente Humanas

Robert J. Shiller, em Narrative Economics, comenta: prever o sucesso dos trabalhos criativos com o público é uma tarefa extremamente difícil, fundamentalmente relacionada ao desafio de sermos capazes de prever as taxas de contágio das narrativas.

Não observamos com precisão os processos mentais e sociais possíveis de criar contágio. Por exemplo, é amplamente sabido a previsão do sucesso dos filmes, antes de serem lançados, é bastante difícil (Litman, 1983).

Jack Valenti, ex-presidente da Motion Picture Association of America, disse:

“Com toda a experiência, com todos os instintos criativos das pessoas mais sábias em nossos negócios, ninguém, absolutamente ninguém pode lhe dizer o que um filme vai fazer no mercado… Não, até o filme se abrir em um teatro escuro e as luzes surgirem entre a tela e o público, você pode dizer esse filme estar com sucesso garantido.”

Por analogia, a razão pela qual os escritores extraem citações, especialmente as citações de tamanho de parágrafo, e as exibe – como Shiller acabou de fazer é muitas vezes para transmitir uma narrativa, para dar ao leitor um senso histórico de uma narrativa passada. Ela teve impacto e pode ter impacto novamente no leitor, se for repetido, assim como se foi redigido com perfeição.

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Papel das Narrativas em Geral e nas Ciências Sociais e Humanas

Figura 1. JSTOR conta por campo de artigos contendo a palavra “narrativa” como um percentual de todos os artigos no campo, todo o banco de dados deixado e o ano de 2010-2016 apenas, certo.

Robert J. Shiller, em Narrative Economics, narra: “quando nós, como economistas, queremos entender os eventos econômicos mais significativos de nossa história, como a Grande Depressão dos anos 1930, ou recessões subsequentes, ou políticas voltadas à riqueza e à pobreza, raramente nos concentramos nas narrativas predominantes a respeito deles. Temos ficado para trás de outras disciplinas, atendendo à importância das narrativas (Figura 1).

Embora todas as disciplinas usem mais as narrativas, desde 2010, a Economia (e as Finanças) permanecem mais lentas. Isto é apesar dos pedidos de atenção dos economistas à “dinâmica social” e aos “modelos populares” (Shiller 1984); para uma nova “culturnômica” (Michele 2005); ou “humanomics” (McCloskey 2016); ou para mais “narratividade” na economia (Morson e Schapiro 2017). Nós vemos pouco uso de enormes bancos de dados de palavras escritas possíveis de serem usados ​​para estudar narrativas.

O campo da história sempre teve uma apreciação por narrativas. No entanto, os historiadores também precisam ser lembrados algumas vezes: uma compreensão profunda da história requer imputar o que estava na mente das pessoas capazes de construir a história, o que suas narrativas foram.

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Mitologia Liberal em Costumes versus Mitologia Neoliberal em Economia

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), demonstra:  a modernidade não rejeita a pletora de narrativas herdada do passado. E sim, abre um mercado para elas. O humano moderno está livre para experimentá-las todas, escolhendo e combinando a seu gosto.

Algumas pessoas não aguentam tanta liberdade e incerteza. Os movimentos totalitários modernos, como o fascismo, reagiram violentamente contra o mercado de “ideias duvidosas”. Superaram até mesmo religiões tradicionais na exigência de fé absoluta em uma única narrativa.

A maioria das pessoas modernas, no entanto, começou a gostar do mercado livre de crenças. O que você faz quando não sabe qual o sentido da vida nem em qual narrativa acreditar? Você santifica a própria capacidade para escolher. Você está para sempre no papel de consumidor nesse mercado religioso, com a liberdade de escolher o que quiser, examinando os produtos que tem diante de si, e… os adquirindo ao bel prazer.

Segundo a mitologia liberal, se você ficar por bastante tempo nesse grande mercado livre, cedo ou tarde vai vivenciar a epifania liberal e se dará conta do verdadeiro significado da vida.

Todas as histórias disponíveis em oferta no mercado livre são falsas. O significado da vida não é um produto já pronto para uso. Não há um roteiro divino, e nada fora de mim pode emprestar significado a minha vida. Sou eu quem imbuo significado em tudo mediante minhas livres escolhas e meus próprios sentimentos. Continuar a ler

Brasil Acima de Todos, Deus Acima de Tudo: Lema Fascista

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), avalia: todas as histórias de deuses em que as pessoas hoje acreditam — seja a lista de divindades (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_divindades), a Nação ou a Revolução — estão incompletas, cheias de buracos e eivadas de contradições. Por isso as pessoas raramente depositam toda sua fé numa única narrativa. Em vez disso, mantêm um portfólio com várias narrativas e diversas identidades, passando de uma para outra quando surge necessidade. Essas dissonâncias cognitivas são inerentes a quase todas as sociedades e movimentos.

Considere um típico adepto do ultraconservador norte-americano Tea Party. Ele de algum modo concilia isso com uma fé ardente em Jesus Cristo, com uma firme objeção a políticas de bem-estar social do governo e um firme apoio à National Rifle Association.

Jesus não foi mais incisivo quanto a ajudar os pobres em lugar de quanto a armar você até os dentes? Isso pode parecer incompatível, mas o cérebro humano tem muitos nichos e compartimentos, e alguns neurônios [Tico e Teco] simplesmente não falam com outros. Continuar a ler