André Lara Resende: Camisa de Força Ideológica

Célia Gouvea Franco (Valor, 03/06/22) entrevistou André Lara Resende a propósito do seu livro recém-lançado.

Teoria macroeconômica e democracia. Taxas de juros e o papel do Estado. Liberalismo e inflação. O impacto da estagnação e da desigualdade na radicalização da população. Temas como estes, aparentemente sem estreita relação entre si, são o cerne do novo livro de André Lara Resende, um dos economistas mais conhecidos do Brasil, em parte pela sua participação fundamental na criação do Plano Real, mas também por ter passado, nos últimos, a defender a tese de ser preciso repensar a teoria macroeconômica preponderante – em especial a política monetária.

“Camisa de força ideológica” foi lançado pelo selo Portfolio-Penguin da Companhia das Letras. É um livro curto, de apenas 128 páginas.

Nas últimas semanas, circularam informações de André Lara Resende ter sido procurado para participar da campanha petista à Presidência. “Não fui procurado. Tive contato e conversas informais com pessoas ligadas ao presidente Lula. Não tenho intenção de participar de nenhuma campanha. Eu me vejo como um intelectual público com obrigação de conversar e colaborar para o entendimento de como organizar a economia para o desenvolvimento do país diante dos desafios do século XXI.”

Em 11 de fevereiro, o Valor publicou um ensaio de Lara Resende, “extraído” por ele do livro agora lançado. São textos bem diferentes. Toda uma discussão sobre os atuais riscos à democracia, por exemplo, consta do livro e não fazia parte do artigo publicado no jornal.

Camisa de força ideológica” foi escrito antes do artigo. Resolveu editar um ensaio a partir do livro para ser publicado mais rapidamente. A nova obra é um resumo das críticas feitas à teoria macroeconômica, mas vai além disso.

Continuar a ler

Aprender a Pensar

O que significa “aprender a pensar”?

Seria uma questão de aprender certas habilidades intelectuais, como a leitura fluente, a lógica ou a expressar-se claramente?

Exigiria familiaridade com alguns textos transcendentais ou fatos históricos?

Talvez consista em corrigir certos preconceitos capazes de obscurecerem nosso discernimento?

Recentemente, Tim Harford (Financial Times apud Valor, 19/06/22) leu um ensaio instigante do psicólogo Barry Schwartz, mais conhecido pelo livro “O Paradoxo da Escolha”. Escrevendo há alguns anos no jornal “The Chronicle of Higher Education”, Schwartz argumentou: um dos objetivos do ensino universitário, em especial o ensino de artes liberais, é ensinar os alunos a pensar. O problema é: “ninguém sabe realmente significado disso”.

Schwartz propõe suas próprias ideias. Ele mostra mais interesse em virtudes intelectuais em lugar de habilidades cognitivas. “Todos os traços que discutirei têm uma dimensão moral fundamental”, diz, antes de argumentar a respeito de nove virtudes:

1. amor à verdade;

2. honestidade quanto às próprias deficiências;

3. imparcialidade;

4. humildade e vontade de procurar ajuda;

5. perseverança;

6. coragem;

7. ouvir com atenção;

8. empatia e olhar por meio de outros pontos de vista; e, por fim,

9. sabedoria quando não se peca pelo excesso em nenhuma dessas outras virtudes.

Se uma pessoa é altamente versada e brilhantemente racional, mas deixa a desejar nessas outras virtudes, por ser 1. indiferente à verdade, 2. negar os próprios erros, 3. preconceituosa, 4. arrogante, 5. facilmente desencorajada, 6. covarde, 7. desdenhosa, 8. narcisista e 9. propensa a todo tipo de excesso.

Poderia essa pessoa realmente ser descrita como alguém com a sabedoria de pensar?

Sem dúvida, seria o tipo de pessoa inadequada para colocar no comando de qualquer coisa.

Continuar a ler

Sociedade Age e Democracia Reage

A identificação dos brasileiros com o espectro ideológico de esquerda cresceu e alcança hoje 49% da população, segundo o Datafolha. O percentual abrange ideias sobre comportamento, valores e economia. É o mais alto da série histórica para a pesquisa, iniciada em 2013.

De 2017, ano seguinte ao golpe, quando foi realizado o levantamento anterior, para cá, o perfil ideológico mudou: antes havia uma divisão mais igualitária entre direita (40%) e esquerda (41%). Agora, sofrendo com um desgoverno de extrema-direita, incapaz de atender à demanda social, o igualitarismo se tornou a opção é predominante.

A pesquisa, feita a partir de respostas dos entrevistados a perguntas sobre temas que separam as duas visões de mundo —como drogas, armas, criminalidade, migração, homossexualidade, intervenção governamental na economia e impostos—, mostra 34% têm ideias próximas à direita e 17% se localizam ao centro.

Segundo pesquisa Datafolha, em dezembro de 2021, o Partido dos Trabalhadores é o preferido de 28% dos entrevistados. Em um muito distante segundo lugar, aparecem empatados PSDB e MDB, ambos com 2% cada um. Empatados tecnicamente com eles, PDT e PSOL têm cada um 1%. Os demais partidos não chegaram a pontuar, ou seja, 2/3 da população brasileira não têm preferência partidária.

Não à toa, corresponde grosso modo à última pesquisa eleitoral do Datafolha: Lula tem 48% das intenções de voto e Bolsonaro, 27%. Na sequência, em patamar mais baixo de intenção de voto estão Ciro Gomes (PDT), com 7%, André Janones (Avante), com 2%, Simone Tebet (MDB), com 2%. Considerando os votos válidos, quando são excluídos os votos em branco ou nulo e os indecisos, Lula alcança 54% das menções e Bolsonaro, 30%. Este não agrada mais nem mesmo a todos os brasileiros conservadores.

Continuar a ler

Liszt Vieira: A Democracia Reage

Há 40 anos, conheci Liszt Vieira ao participar de seu comitê eleitoral em 1982. Foi a primeira campanha realizada por militantes do PT. A eleição de 1974 ficou marcada na história política da esquerda brasileira como uma guinada com o abandono da tática de luta armada em favor da estratégia democrática.

A eleição de 1982 ficou registrada como a primeira na qual a Geração 68 colocou em pauta temas libertários como ecologia, feminismo, homossexualismo, antirracismo. Em uma campanha na qual se marcou época, conseguimos eleger Liszt Vieira como o primeiro deputado estadual “verde” por um partido “vermelho”.

As candidaturas concorrentes nos chamavam de “veados verdes”. Desenhei e uma namorada costurou para mim um viadinho verde em cetim na camiseta para provocar. Eu era o disk jockey das festas temáticas com as quais arrecadamos todo o dinheiro gasto na campanha vitoriosa.

Depois, Liszt participou de debates sobre a criação do Partido Verde e esteve entre os fundadores da Rede Sustentabilidade. Deixou o partido por conta de sua personalização política. O culto à personalidade ainda é um problema a ser superado pela esquerda.

Continuar a ler

Ciências Comportamentais para Políticas Públicas

Richard Thaler 

Pablo Acosta é economista líder de Desenvolvimento Humano para o Brasil do Banco Mundial e doutor em Economia pela Universidade de Illinois (EUA). Sua coluna (FSP, 21/02/22) foi escrita em colaboração com seus colegas do Banco Mundial Juliana Neves Soares Brescianini, analista de operações, e Luis A. Andrés, líder de programa do setor de Infraestrutura. Compartilho-a abaixo.

Tradicionalmente, os gestores elaboram políticas públicas tendo como base um agente econômico racional, ou seja, uma pessoa capaz de avaliar cada decisão, maximizando sua utilidade para interesse próprio. Ignoram, porém, as poderosas influências psicológicas e sociais que afetam o comportamento humano e desconsideram que pessoas são falíveis, inconstantes e emocionais: têm problemas com autocontrole, procrastinam, preferem o status quo e são seres sociais. É com base nesse agente “não tão racional” que as ciências comportamentais se apresentam para complementar a forma tradicional de fazer política.

Por exemplo: já nos aproximamos da marca de dois anos desde a declaração pela Organização Mundial da Saúde de estado de pandemia da Covid-19 em 11 de março de 2020. Foram anos desafiadores para governos, empresas e indivíduos.

Mas apesar de 2021 ter apresentado sinais de recuperação, há ainda um longo e árduo caminho a ser percorrido para retornar ao menos às condições pré-pandemia. Não apenas na saúde, mas também no equilíbrio das economias, no aumento da produtividade, na retomada de empregos, na recuperação das lacunas de aprendizagem, na melhora do ambiente de negócios, no combate às mudanças climáticas, etc.

Obviamente, essa não é uma tarefa simples para governos e organizações. Poderíamos encarar esses desafios de forma diferente e adaptar a maneira de fazer políticas públicas para torná-las mais eficientes e custo-efetivas, aumentando seus impactos e alcance?

Continuar a ler

Outros Livros de Autoajuda Financeira

Além dos livros indicados pelo site Investidor Sardinha, no post anterior, existem outros livros sobre investimentos capazes de contribuir com o seu aprendizado do mercado financeiro. Por exemplo:

1- Interpretação das Demonstrações Financeiras (Benjamin Graham): é um livro mais técnico recomendado sobretudo para os investidores já com experiência de investidores e desejosos de aprender sobre a análise contábil de uma empresa e como verificar seus balanços.

2- Finanças Comportamentais (Aquiles Mosca): com uma linguagem didática e de fácil compreensão, o autor explica sobre as tendências comportamentais dos participantes do mundo das Finanças. Fala sobre como elas funcionam e como elas podem ajudar ou prejudicar os investidores.

3- Os Ensaios de Warren Buffett (Warren Buffett): ele é considerado como um dos maiores investidores do mundo, sendo assim, um livro de sua autoria é recomendado para as pessoas com desejo de aprender um pouco sobre a sua Filosofia de Investimentos.

4- Casais Inteligentes Enriquecem Juntos (Gustavo Cerbasi): muitos casais brigam por causa do dinheiro ao invés de unirem suas forças em prol do aumento do patrimônio em conjunto. Portanto, se você é casado ou pretende se casar, esse pode ser um livro muito útil.

5- Filosofias de Investimento (Aswath Damodaran): neste livro são abordadas diferentes filosofias de investimentos, possíveis de ajudar os investidores ainda sem definirem suas próprias filosofias.

Continuar a ler

Dicas de Livros para Investidores Iniciantes

Os livros sobre investimentos são muito importantes para as pessoas interessadas pela área. Os livros são como portas abertas para o conhecimento acerca de algo. 

Todo investidor famoso já abriu a porta do conhecimento através dos livros. Warren Buffet, inclusive, um dos maiores investidores do mundo indica vários. E vários autores o “psicografam”…

Invariavelmente, os investidores precisam “beber da água do conhecimento” através da literatura sobre Finanças Pessoais. Nathalia Arcuri, Primo Rico, Bruni Perini e outros influentes Youtubers já indicaram vários livros. Esta é a lista de livros indicados por Raul Sena, CEO e fundador do site Investidor Sardinha.

Os livros digitais são acessíveis a todos. Para quem quer se aventurar no mundo dos investimentos, ler bons livros é fundamental. 

Muitas pessoas, entrando nesse mundo, perguntam sobre livros. Dessa forma, essa é uma lista de indicações. Porém, não se limite a ela. Depois de ler os livros aqui indicados, vá além e busque novos autores e novas portas se abrirão.

Raul Sena apresenta sua lista de 10 melhores livros sobre investimentos. Alguns desses livros falam um pouco sobre a vida pessoal do autor, como ele fez para chegar aos milhões de dólares. Predominam autores estrangeiros, portanto, dizendo respeito ao mercado de ações norte-americano: uma realidade bastante distinta da brasileira.

Eu, Fernando Nogueira da Costa, acrescentarei no fim de outra lista, no próximo post, minha Cartilha de Finanças Pessoais, usado como guia do meu curso sobre Finanças Comportamentais para Planejamento da Vida Financeira.

Isso é importante para entender como a teoria pode ser aplicada à prática. Alguns livros são como um Manual, com ensinamentos importantes sobre investimentos.

Continuar a ler

Antônio Barros de Castro (1938-2011)


Dezembro 2021 I Homenagens

Caríssimas pesquisadoras e pesquisadores,
Alcançamos a nossa última troca de mensagens, assim concluímos este projeto de disseminação do acervo virtual do grande pesquisador, crítico social e professor Antonio Barros de Castro.

Momento oportuno para homenagens. Primeiro a Anna Jaguaribe e seu legado, pioneira do estudo da China no Brasil e que morou no país asiático como pesquisadora entre 1998 e 2003, amiga próximade Castro. Sentimos o pesar da perda recente desta pesquisadora e aproveitamos para trazer a sua última fala profissional em 26 de agosto, na ‘Semana Dez Anos sem Antonio Barros de Castro’.

Na sequência, a última aula de Castro no Instituto de Economia da UFRJ e mais. Ao final, acesso facilitado aos conteúdos dos e-mails anteriores.Em nome da Direção do INCT-PPED e instituições parceiras, agradecemos a sua companhia nessa rápida jornada pelo conhecimento produzido por Castro.


 “O conhecimento não pode ter mordaça”
Antonio Barros de Castro (1938-2011)
 

Divulgação Científica INCT-PPED
Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia
de Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento

“O fato que ele coloca, em primeiro lugar, o paradigma de Prebisch de cabeça para baixo para explicar o que é a transição de um mundo atlântico para um novo mundo asiático, sobretudo um mundo sinocêntrico, é uma coisa absolutamente genial. É um verdadeiro break through a construção do que é esse mundo sinocêntrico por parte do Antonio [Barros de Castro]”.
Anna Jaguaribe (1949-2021)
Director Institute for Brazil-China Studies
Instituto de Economia UFRJ
Sobre o ensaio “In China’s Mirror” 
Principais publicações de Anna Jaguaribe >

HOMENAGENS

A última aula de Antonio Barros de Castro l 
Por Eduardo F. Bastiana e Fabio de Silos Sá EarpbSeis dias antes de seu falecimento, o professor Antonio Barros de Castro proferiu a primeira aula de seu curso na pós-graduação do Instituto de Economia da UFRJ, a qual seria a última de sua vida…

Ao Mestre com saudade l 
Por Luiz Cláudio Dias Reis
Com a morte de Antonio Barros de Castro, o Brasil perde um de seus mais ilustres economistas, cujo viés desenvolvimentista foi apurado, ao longo dos anos, em aprofundados estudos pesquisas e em projetos profissionais que ficaram marcados pela elevada criatividade.

Emerência do professor Antonio Barros de Castro l 
Por Ricardo Bielschowsky
Trata-se de uma mente privilegiada, brilhante, que está sempre agregando construções analíticas engenhosas ao debate brasileiro. Castro é um argumentador incisivo, por escrito e no debate oral. Isso aparece de formas distintas, por exemplo, nas discussões com os pares intelectuais, ou na transmissão do conhecimento aos alunos.

Um Economista no labirinto: um obituário de Antonio Barros de Castro l 
Por Luiz Carlos Delorme Prado e Eduardo F. Bastian

Financiado por uma bolsa da Rockefeller Foundation, recém-graduado em economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Castro passou dois anos na Europa, estudando em Londres, na London School of Economics (LSE), e em Paris, onde acompanharia cursos de estatística com Edmond Malinvaud no Centre d’Études de Programmes Économiques.

ANTERIORES

05 I A emergência chinesa como ruptura
04 I Análises socioeconômicas do Brasil de 1982 a 2000
03 I Aqueles que se conformam com a situação vigente interrompem a cadeia lógico-evolutiva
02 I Para projetar o futuro é preciso olhar para o passado
01 I Uma reconciliação entre interesse privado e interesse social
00 I Pesquisadores que pensem a sociedade e não têm medo de se posicionar criticamente

Gostou do conteúdo?
Encaminhe este e-mail aos seus contatos
SOBRE O REPOSITÓRIO ÁGORA

A Plataforma Antonio Barros de Castro – “O Pensamento de Antonio Barros de Castro: Passado, Presente e Caminhos Futuros” – é um repositório virtual que tem como objetivo a organização e disponibilização de toda a produção intelectual, publicada e não publicada, do economista Antonio Barros de Castro, falecido em agosto de 2011. Espera-se que esse material seja utilizado para a produção de novo conhecimento, nas suas mais várias formas e conteúdo, sem restrições de propriedade intelectual, desde que reconhecida a sua origem.

Antonio Barros de Castro foi economista, Professor Emérito da UFRJ, Professor Titular do Instituto de Economia da UFRJ, Ex-Presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), ex-diretor do Banco, Consultor do Centro Empresarial Brasil-China, Economista da CEPAL, Professor Visitante do Institute for Advanced Study de Princeton (USA), Professor Visitante de várias Universidades no mundo (Oxford, Munique, Universty of California Berkeley, entre outras), autor de numerosos livros, capítulos de livros e artigos.

Os arquivos, organizados e disponibilizados, seguem a convenção de Creative Commons e Science Commons”, podendo ser livremente acessados.
Livros publicados isentos de direito autoral;
Artigos publicados em Revistas acadêmicas;
Artigos publicados em jornais de ampla circulação;
Artigos e Editoriais do Boletim de Conjuntura do Instituto de Economia (UFRJ);
Entrevistas (desde 1983) e artigos de imprensa sobre o autor;
Coluna quinzenal publicada no Jornal Folha de São Paulo.

Ray Dalio: História de Vida, Carreira e Princípios

ray_dalio_dar_ouvidos_a_pessoas_desinformadas_e_pior_do_l1yv4wj

Ray Dalio é famoso tanto por sua empresa e carreira de sucesso, quanto por seguir na sua empresa Princípios polêmicos para seus críticos conservadores. 

Ele é um investidor bilionário e fundador sócio do Bridgewater Associates. É considerada como a mais lucrativa e a maior gestora de hedge funds do mundo todo. Dessa forma, a companhia possui cerca de 1.500 funcionários e mais de US$ 140 bilhões sob a sua gestão. 

Através de suas estratégias de investimento, a Bridgewater Associates se tornou o maior fundo hedge do mundo. Um fundo hedge é um fundo de investimento multimercado.  

Além de ser dono da Bridgewater, Ray Dalio lançou livros famosos. Os livros tratam sobre assuntos inspiradores para outros investidores, mas, também, trazem princípios considerados extremos por algumas pessoas. Um desses princípios é a da transparência ao extremo.

Continuar a ler

Ascensão dos Charlatões (por Peter Burke)

Artigo publicado em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/ascensao-dos-charlatoes/

Vivemos numa era de charlatões?

Já se disse muitas vezes que escritores possuem sensibilidade particular para as mudanças culturais de seu tempo. Portanto, a publicação em língua inglesa, nos últimos anos, de dois romances intitulados Charlatans – um de Robin Cook, outro de Jezebel Weiss – pode ser um sinal de alerta de que isso esteja acontecendo.

Talvez esses livros sejam um aviso para que tomemos cuidado com esses indivíduos que, em número crescente, prometem o que não podem cumprir, arrogam-se qualidades que não possuem ou oferecem produtos nada confiáveis, como notícias falsas, remédios suspeitos e trapaças online. A lista desses mestres da ilusão (para usar uma expressão bem-educada) pode incluir também alguns evangelizadores, curandeiros e políticos, bem como, convém não esquecer, certos intelectuais.

O que explica a proliferação dos charlatões em nosso tempo?

Uma das respostas possíveis é que ela resulta das pressões e da sedução exercidas pelos meios de comunicação, sobretudo a televisão e as redes sociais. Mas em que medida essa tendência, essa “charlatanização” da vida pública (para cunhar, agora, um termo pesado) deve nos alarmar?

Continuar a ler

Dia de Luta das Mulheres Negras Latino-Americanas

Li o texto da Magda Barros Biavaschi e Marilane Oliveira Teixeira: Desigualdades, Feminismo e Teorias Libertadoras. Foi publicado em: 

http://www.justificando.com/2021/07/15/desigualdades-feminismo-e-teorias-libertadoras-mulheres-que-combinaram-de-nao-morrer/

Minha primeira impressão, talvez preconceituosa, foi ser mais uma denúncia marxista do capitalismo, no caso, focado na tentativa de defender sua hipótese – “sem trabalho doméstico, os trabalhadores não se reproduzem e, sem trabalhadores, o capital não pode ser reproduzido” – como uma tese. No sentido de reprodução sexual, esse postulado seria um axioma sem necessidade de ser demonstrado.

As coautoras cometem um erro metodológico de análise. Afirmam uma contribuição dado pelo marxismo ao feminismo seria um “método para compreender as bases materiais das relações sociais de desigualdade, exploração e opressão”.

Continuar a ler

Economia da Boa Vida em lugar da Economia da Felicidade

Criador do chamado paradoxo felicidade-renda, ao qual foi conferido seu nome, e pioneiro no estudo da relação entre satisfação pessoal e dinheiro, Richard A. Easterlin chega aos 95 anos, completados em janeiro, batendo na mesma tecla que o inspira desde 1974, quando publicou seu primeiro estudo sobre a questão. Um aumento de renda pode significar no curto prazo uma maior sensação de bem-estar, mas a médio e longo prazos não é o dinheiro que traz felicidade, diz ele, que se considera feliz em parte por se dedicar exatamente a esmiuçar o tema, como disse ao Valor, por e-mail.

Seu mais recente livro, “An Economist’s Lessons on Happiness – Farewell Dismal Science!” (“Lições de um economista sobre felicidade – Adeus, ciência triste!”, em tradução livre), entrou na lista das 16 melhores obras de economia do primeiro semestre de 2021 do “Financial Times”, na seleção feita por Martin Wolf, o principal analista econômico do jornal. Wolf destaca: mais e mais pessoas estão aceitando um ponto fundamental das teses de Easterlin – de ser possível medir (e produzir) a felicidade, e é tarefa dos governos promovê-la, em vez de mirar apenas o aumento da renda.

Download:

Richard A. Easterlin – An Economist’s Lessons On Happiness_ Farewell Dismal Science! -Springer (2021)

Continuar a ler