Prefácio de Joseph Stiglitz à Edição Portuguesa do Livro de Karl Polanyi “A Grande Transformação”

karl-polanyiÉ difícil – e seria provavelmente um erro – tentar sequer resumir em poucas linhas uma obra tão complexa. Embora certos aspectos do vocabulário e da teoria econômica de um livro escrito há meio século possam tornar hoje a sua leitura menos acessível, as questões e perspectivas formuladas por Polanyi não perderam a sua pertinência.

Entre as suas teses centrais contam-se ideias como as que nos dizem que:

  1. não há mercados autorregulados que possam alguma vez funcionar, e
  2. as suas falhas, não só ao nível do funcionamento interno, mas também nas consequências que acarretam (por exemplo, para os pobres), são de tal ordem que a intervenção do governo se torna necessária.
  3. ao mesmo tempo, o ritmo das transformações é de decisiva importância na determinação das consequências em causa.

A análise de Polanyi torna claro que as doutrinas muito difundidas da teoria do gota a gota (trickle-down economics) – segundo a qual todos, incluindo os pobres, beneficiam do enriquecimento de uns poucos – dificilmente são confirmadas pelas história. Continue reading “Prefácio de Joseph Stiglitz à Edição Portuguesa do Livro de Karl Polanyi “A Grande Transformação””

Obra-Prima de Sociologia Econômica: A Grande Transformação

polanyi-karl-the-great-transformationRui Santos, em outra apresentação de A Grande Transformação, de Karl Polanyi (1886-1964): Questões de Interpretação, em sua edição portuguesa (Lisboa, Edições 70),  afirma que, em praticamente todos os artigos de discussão sobre A Grande Transformação de Karl Polanyi, seus autores apontam algumas ambiguidades das suas proposições que permitem leituras e apropriações diversas e, por vezes, contraditórias.

O exemplo mais importante dessas ambiguidades é a questão, frequentemente referida, da contradição sobre o caráter incrustado ou desincrustado das economias capitalistas reais.

Por um lado, Polanyi afirma que, nas sociedades em que predomina a troca mercantil, os mercados deixaram de estar incrustados em outras instituições sociais e, ao invés, foram estas que passaram a estar incrustadas naqueles. Essa seria a definição por excelência de A Grande Transformação.

É esta a interpretação criticada, quando se afirma que as economias de mercado contemporâneas estão mais incrustadas do que os substantivistas pretendiam. Foi igualmente objeto de crítica ao conceito de incrustação, argumentando-se que “todas as economias estão incrustadas”. É também uma interpretação acolhida em textos introdutórios da nova Sociologia Econômica, que marcam a sua diferença relativamente a Polanyi precisamente pela extensão do conceito à análise das economias de mercado e dos próprios mercados.

Por outro lado, A Grande Transformação classifica também a sociedade regulada por mercados livres e concorrenciais como uma «utopia» do pensamento econômico e político liberal, que uma vez imposta à sociedade pela força política imediatamente geraria rupturas insustentáveis na integração social. Continue reading “Obra-Prima de Sociologia Econômica: A Grande Transformação”

Projeto Social e Político de A Grande Transformação

liberalismo-x-anarquismoNão é simples, segundo Diogo Ramada Curto, Nuno Domingos, Miguel Bandeira Jerônimo, na Introdução ao livro “A Grande Transformação”, encontrar um projeto social e político definido na concepção o autor. A luta de Polanyi contra uma noção da economia desincrustada da sociedade não assume uma forma visível, suscitando diversas questões.

No contexto atual, o seu pensamento surge sobretudo como meio de legitimar a ação reguladora do Estado na economia enquanto via de defesa da sociedade à escala nacional contra os processos de globalização, de mercantilização e desregulação laboral e fiscal.

O legado de Polanyi é muitas vezes lido lado a lado com uma tradição econômica que, em termos genéricos, podemos vincular ao trabalho de Keynes. A ideia geral de defesa da sociedade, que encontrou no Estado uma poderosa ferramenta de intervenção, exprimia a necessidade de uma estabilidade social propícia ao desenrolar das atividades produtivas. A manutenção da estabilidade social assentou, neste quadro, na manutenção de um contrato social. Continue reading “Projeto Social e Político de A Grande Transformação”

Origens do Pensamento de Karl Polanyi

for-a-new-westDiogo Ramada Curto, Nuno Domingos, Miguel Bandeira Jerónimo, na Introdução ao livro “A Grande Transformação”, a obra de Polanyi continuará a suscitar duas interrogações a que só investigações de caráter analítico mais aprofundadas poderão dar uma resposta satisfatória.

A primeira diz respeito às origens do seu pensamento. Ora, para reconstituir a genealogia das suas ideias e retomar a questão clássica – e muitas vezes falaciosa em história intelectual – das influências a que Polanyi foi sujeito, haverá que considerar pelo menos três núcleos. Continue reading “Origens do Pensamento de Karl Polanyi”

Programas de Pesquisa de Karl Polanyi

a-grande-transformac%cc%a7a%cc%83omapa-mental-do-cap-1-de-polanyiEntre 1947 e 1953, Karl Polanyi ensinou História Econômica na Universidade de Columbia. Na sua expressão mais simples, o ambicioso projeto de pesquisa coordenado por Polanyi, mas que contava com a colaboração de muitos outros especialistas, seguia dois eixos principais.

Primeiro, tratava-se de continuar a criticar os economistas pelo excesso de atenção nos mecanismos da economia de mercado, no interior dos quais os preços sinalizariam as flutuações na oferta e na procura e permitiriam o seu ajustamento «automático».

Opunha-lhes o olhar do antropólogo que procurava ligar tais mecanismos com os quadros culturais que lhes correspondiam, o modo como eram reconhecidos pelos homens, as suas funções sociais, a sua história e as instituições que lhes diziam respeito.

Na diversidade de noções de reciprocidade e redistribuição, registradas pela etnografia, Polanyi encontrou a tradução de diferentes padrões sociais e econômicos, que respondiam às expectativas de agentes individuais. Neste sentido, o padrão da escolha individual adequado ao mercado livre constituíra-se como um mero produto do Ocidente no século XIX.

Esta última constatação conduz Diogo Ramada Curto, Nuno Domingos, Miguel Bandeira Jerónimo, na Introdução ao livro “A Grande Transformação” de Karl Polanyi,  ao segundo aspecto em causa: será possível, fora do mundo ocidental, seguir outros comportamentos, motivos e sistemas econômicos capazes de pôr em causa as teorias da modernização e do desenvolvimento econômico que se encontravam, então, no seu auge? Continue reading “Programas de Pesquisa de Karl Polanyi”

Três Aspectos Essenciais da Obra A Grande Transformação

a-gt-de-karl-polanyiDiogo Ramada Curto, Nuno Domingos, Miguel Bandeira Jerônimo, na Introdução ao livro “A Grande Transformação” de Karl Polanyi, se centram em três aspectos essenciais da obra.

Primeiro, há que considerar o sentido de um processo caracterizado pela extensão das relações de mercado: à medida que estas se foram tornando mais densas e difusas, as relações próprias da vida em comunidade e em família foram sendo subordinadas à lógica do mercado, passando a economia de mercado a assumir uma vida própria, governada pelas leis propostas pelos economistas clássicos e por Marx.

De modo mais concreto, o mesmo processo de transformação traduziu-se em:

  1. uma rejeição do sistema de beneficência e ajuda aos pobres, e
  2. na sua substituição por um mercado capaz de atribuir um preço ao trabalho, forçando homens e mulheres a viver de uma remuneração, por mais miserável que fosse.

O resultado é que a acumulação capitalista se passou a processar a uma escala até então inédita, que só teve paralelo nos processos de expropriação, deslocação forçada, desemprego e na destruição das relações e instituições sociais em que estavam anteriormente incrustadas:

  1. as atividades econômicas,
  2. o estatuto social,
  3. o orgulho no ofício e
  4. a própria expressão cultural do trabalho.

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A Grande Transformação: As Origens Políticas e Econômicas do Nosso Tempo

a-gt-de-kpA Grande Transformação, de Karl Polanyi (1886-1964): Questões de Interpretação, em sua edição portuguesa (Lisboa, Edições 70), tem Prefácio escrito por Joseph Stiglitz, Introdução de Fred Block e Ensaios Introdutórios com coautoria de Diogo Ramada Curto, Nuno Domingos, Miguel Bandeira Jerônimo. Por serem muito instrutivos, vou resumi-los em uma série de posts.

Karl Polanyi nasceu em Viena, em 1886, no seio de uma família judaica. O seu pai foi um engenheiro e empresário húngaro ligado à rede ferroviária. A sua mãe, também de origem russa, desempenhou papel de relevo nos círculos intelectuais e políticos de Budapeste. Quem com ele conviveu atribui diretamente à figura materna – irmã de um rabino que rompeu com as suas origens judaicas para descobrir o credo cristão – a influência decisiva na formação de uma atitude radical, qualquer que seja o sentido atribuído a tal expressão. Continue reading “A Grande Transformação: As Origens Políticas e Econômicas do Nosso Tempo”