Ensaios sobre o Materialismo Darwiniano

Interdisciplinar desde o subtítulo, que se refere ao conceito ainda pouco assimilado de “materialismo darwiniano”, este livro me interessa muito, pois leciono no Doutorado do IE-UNICAMP a disciplina Economia Interdisciplinar, em que uma parte se refere à Economia Evolucionária ou método de analise da Biologia Darwiniana aplicada à economia.

Oscar Pilagallo (Valor, 17/11/17) resenha o novo livro de José Eli da Veiga que reconstitui a turbulenta relação entre o evolucionismo de Charles Darwin (1809-1882) e as ciências humanas, e a projeta para um futuro em que pontes acadêmicas ainda em construção ligam as duas grandes áreas de conhecimento.

Em quatro ensaios de complexidade crescente, mas sempre vazados em formulações elegantes, “Amor à Ciência” parte do grande mal-entendido que marcou os anos seguintes ao lançamento, em 1859, de “A Origem das Espécies“, o livro mais importante do naturalista britânico. Continue reading “Ensaios sobre o Materialismo Darwiniano”

Vantagem Humana

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Reinaldo José Lopes (FSP, 11/10/2017) resenhou o livro:

A Vantagem Humana: Como Nosso Cérebro se Tornou Superpoderoso

Autora Suzana Herculano-Houzel
Tradutora Laura Teixeira Motta
Editora Companhia das Letras
Quanto R$ 54,90 (352 págs.)

Quem abrir ao acaso o livro “A Vantagem Humana“, nova obra da neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, corre o risco de achar que está diante de um livro de culinária exótica, cuja especialidade é a técnica de preparo de sopa… de cérebro.

O exotismo é inegável (os “ingredientes” incluem miolos de camundongo, macaco, girafa, elefante), bem como o ar gastronômico da narrativa. Mas a receita que realmente interessa a Suzana e seus colegas é a que permitiu o surgimento do sofisticado prato da cognição humana.

Transformar massa encefálica em papa foi só um meio para tentar:

  1. decifrar a estrutura básica do cérebro e
  2. explicar como nos tornamos primatas capazes de inventar a agricultura, a escrita e os smartphones.

A resposta, segundo a cientista e colunista da Folha:

  1. não é que o nosso cérebro seja o maior de todos (baleias, golfinhos e elefantes têm massa cerebral superior à média humana),
  2. nem que o nosso órgão seja o mais avantajado em relação ao tamanho do corpo.

A vantagem do Homo sapiens viria do número absoluto de neurônios no córtex, a região mais externa do cérebro, que supera em muito o que se vê em qualquer outro animal. [Fernando Nogueira da Costa: embora parte dos animais humanos, que faz bullying na rede social, aparenta ter apenas “2 neurônio” (sic, sem S)…]

MISTÉRIO DOS MIOLOS

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Vossos Velhos da Dayse Torres na Final do Prêmio Jabuti!

O Prêmio Jabuti, principal troféu literário do país, divulgou ontem (03/10/17), a lista de livros que concorrem à sua final. A categoria romance mostra uma hegemonia da Companhia das Letras -que tem crescido nos prêmios literários deste ano, em especial nesse gênero. Sete dos dez selecionados são da editora.

Entre os selecionados, está “Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas”, de Elvira Vigna, escritora morta em julho que era uma das principais vozes da literatura contemporânea brasileira.

Com ela, concorrem o escritor Cristovão Tezza, com “A Tradutora” (Record), e Bernardo Carvalho, com “Simpatia pelo Demônio” (Companhia das Letras). Ambos são colunistas da Folha.

Na lista também aparecem “Descobri que Estava Morto” (Tusquets), de João Paulo Cuenca, e “Machado” (Companhia das Letras), de Silviano Santiago, entre outros. A única casa menor é a @linkeditora, cujo romance “Tristorosa”, de Eugen Weiss, foi eleito.

Já em outras categorias importantes há mais diversidade. Em contos e crônicas, concorrem a “Caixa Rubem Braga” (Autêntica), com crônicas organizadas por André Seffrin, Bernardo Buarque de Hollanda e Carlos Didier; “Sul” (ed. 34), de Veronica Stigger; “Trinta e Poucos” (Companhia das Letras), de Antonio Prata (também colunista da Folha); e “Vossos Velhos“, de Dayse Torres, em edição do autor.

Dayse Torres é minha companheira e/ou esposa há 33 anos! Estou muito orgulhoso!

Fernando e Dayse – 1985

Leia mais:

https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2016/11/23/vossos-velhos/

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Economia da Felicidade

Aloisio Campelo Junior é economista e Superintendente de Estatísticas Públicas da FGV/IBRE. Publicou artigo (Valor, 21/09/17) sobre tema que dei palestras recentemente: Conversa com Fernando Nogueira da Costa – Economia da Felicidade e da Boa Vida. Registro sua resenha da literatura abaixo.

“O historiador israelense Yuval Harari argumenta em seu best seller “Homo Deus” que a busca pela felicidade será um dos três grandes temas da agenda humana para este século. Ele tem boa chance de estar correto em sua previsão.

Nos últimos 20 anos, medidas de bem-estar subjetivo tornaram-se populares na avaliação do progresso social e econômico das nações, na forma de informação suplementar a indicadores tradicionais como PIB e IDH. A profusão de estudos sobre o assunto levou ao batismo de um novo ramo, a Economia da Felicidade. A relevância dos resultados obtidos até aqui e esperados para o futuro pode ser atestada pelos diversos projetos conduzidos por nações e órgãos multilaterais voltados à compreensão dos fatores determinantes do bem-estar e suas consequências para a política econômica, muitos deles envolvendo prêmios Nobel. Continue reading “Economia da Felicidade”

Do avarento

Os utopianos, habitantes da ilha Utopia, na concepção de Thomas More, em 1516, chamam volúpia todo o estado ou todo movimento da alma e do corpo, nos quais o homem experimenta uma deleitação natural.

Não é sem razão que eles acrescentam a palavra natural, porque não é semente a sensualidade, é também a razão que nos atrai para as coisas naturalmente deleitáveis. Por isto, devemos compreender os bens que se podem procurar sem injustiça, os gozos que não privem de um prazer mais vivo e que não arrastem consigo nenhum mal.

coisas fora da natureza, que os homens, por uma convenção absurda, intitulam prazeres (como se tivessem o poder de transformar a essência tão facilmente como modificam as palavras). Essas coisas, longe de contribuir para a felicidade, são outros tantos obstáculos em seu caminho. Aos que seduzem, elas impedem gozarem satisfações puras e verdadeiras, viciam o espírito, preocupando-o com a ideia de um prazer imaginário.

Há, com efeito, uma quantidade de coisas, às quais a natureza não juntou nenhuma doçura, as quais ela chegou até a misturar de amargura. No entanto, os homens as olham como altas volúpias de algum modo necessárias à vida, apesar de, na sua maioria, serem essencialmente más e só estimular as paixões perversas.

Os utopianos classificam nessa espécie de prazeres bastardos, a vaidade daqueles que se crêem melhores porque usam uma roupa mais bonita. A vaidade desses tolos é duplamente ridícula. Continue reading “Do avarento”

Da Sabedoria dos Utopianos

Nossos insulares da Utopia, segundo Thomas Morus, adquirem tais sentimentos de desprezo da riqueza, parte no estudo das letras, parte na educação que recebem no seio de uma República cujas instituições são formalmente opostas a todas as nossas espécies e gêneros de extravagância.

É verdade que um número muito pequeno é dispensado dos trabalhos materiais [manuais], entregando-se exclusivamente à cultura do espírito. São, como já disse, aqueles que, desde a infância, demonstraram aptidões raras, um gênio penetrante, vocação científica. Mas nem por isso se deixa de dar uma educação liberal a todas as crianças. E a grande massa dos cidadãos – homens e mulheres – consagra, cada dia, seus momentos de repouso e liberdade aos trabalhos intelectuais.

Os utopianos aprendem as ciências em sua própria língua, rica e harmoniosa intérprete fiel do pensamento. Ela é difundida, mais ou menos alterada, sobre uma grande extensão do globo.

Os utopianos nunca tinham ouvido falar de filósofos tão famosos no mundo. Entretanto, fizeram as mesmas descobertas que os visitantes estrangeiros, no terreno da música, da aritmética, da dialética, da geometria. Continue reading “Da Sabedoria dos Utopianos”

Da Economia dos Utopianos

Toda a república utopiana é como uma única e mesma família, afirma Thomas Morus no livro “Utopia” (1516).

A ilha é sempre abastecida por dois anos, na incerteza de uma boa ou má colheita para o ano seguinte. Exportam-se para fora da ilha os gêneros supérfluos, tais como trigo, mel, lã, linho, madeiras, matérias para tinturas, peles, cera, sebo, animais.

A sétima parte dessas mercadorias é distribuída aos pobres do país para onde se exporta. O resto é vendido a um preço moderado. Este comércio permite à Utopia importar não somente objetos de necessidade, o ferro, por exemplo, como, também, uma massa considerável de ouro e prata.

Desde que os utopianos praticam este negócio que acumularam uma quantidade incrível de riquezas. É por isso que lhes é indiferente, hoje, vender a vista ou a prazo.

Habitualmente, recebem vales em pagamento, mas não se fiam em assinaturas individuais. Os vales devem estar revestidos das formas legais e garantidos à fé e selo da cidade que os aceita. No dia do vencimento, a cidade signatária exige o reembolso aos devedores particulares. O dinheiro é depositado no tesouro público e o seu valor é garantido até que os credores utopianos o reclamem.

Estes não reclamam quase nunca o pagamento da dívida inteira. Acreditariam cometer uma injustiça, tirando a um outro uma coisa que lhe é necessária e que para ele é inútil. Continue reading “Da Economia dos Utopianos”