Dia de Luta das Mulheres Negras Latino-Americanas

Li o texto da Magda Barros Biavaschi e Marilane Oliveira Teixeira: Desigualdades, Feminismo e Teorias Libertadoras. Foi publicado em: 

http://www.justificando.com/2021/07/15/desigualdades-feminismo-e-teorias-libertadoras-mulheres-que-combinaram-de-nao-morrer/

Minha primeira impressão, talvez preconceituosa, foi ser mais uma denúncia marxista do capitalismo, no caso, focado na tentativa de defender sua hipótese – “sem trabalho doméstico, os trabalhadores não se reproduzem e, sem trabalhadores, o capital não pode ser reproduzido” – como uma tese. No sentido de reprodução sexual, esse postulado seria um axioma sem necessidade de ser demonstrado.

As coautoras cometem um erro metodológico de análise. Afirmam uma contribuição dado pelo marxismo ao feminismo seria um “método para compreender as bases materiais das relações sociais de desigualdade, exploração e opressão”.

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Economia da Boa Vida em lugar da Economia da Felicidade

Criador do chamado paradoxo felicidade-renda, ao qual foi conferido seu nome, e pioneiro no estudo da relação entre satisfação pessoal e dinheiro, Richard A. Easterlin chega aos 95 anos, completados em janeiro, batendo na mesma tecla que o inspira desde 1974, quando publicou seu primeiro estudo sobre a questão. Um aumento de renda pode significar no curto prazo uma maior sensação de bem-estar, mas a médio e longo prazos não é o dinheiro que traz felicidade, diz ele, que se considera feliz em parte por se dedicar exatamente a esmiuçar o tema, como disse ao Valor, por e-mail.

Seu mais recente livro, “An Economist’s Lessons on Happiness – Farewell Dismal Science!” (“Lições de um economista sobre felicidade – Adeus, ciência triste!”, em tradução livre), entrou na lista das 16 melhores obras de economia do primeiro semestre de 2021 do “Financial Times”, na seleção feita por Martin Wolf, o principal analista econômico do jornal. Wolf destaca: mais e mais pessoas estão aceitando um ponto fundamental das teses de Easterlin – de ser possível medir (e produzir) a felicidade, e é tarefa dos governos promovê-la, em vez de mirar apenas o aumento da renda.

Download:

Richard A. Easterlin – An Economist’s Lessons On Happiness_ Farewell Dismal Science! -Springer (2021)

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Exercícios de Imaginação por 451

Heloisa Starling é autora do artigo-resenha sobre o livro :

Arendt, Hannah
Pensar sem corrimão 
Org. Jerome Kohn; Trad. Beatriz Andreiuolo, Daniela Cerdeira, Pedro Duarte, Virginia Starling; Rev. técnica Eduardo Jardim.Bazar do Tempo • 640 pp • R$ 92

“Pare e pense.” No outono de 1955, essa frase deu a partida, na Universidade da Califórnia, em Berkeley, para o mais original curso ministrado por Hannah Arendt. Ela não era desconhecida em Berkeley. Ao contrário, a publicação de As origens do totalitarismo, em 1951, forneceu à autora, quase de imediato, um reconhecimento acadêmico incomum.

O inglês continuava sofrível, as aulas geralmente percorriam os pensadores a quem ela sempre retornava — Maquiavel, Hobbes, Rousseau, Montesquieu, Locke, Tocqueville, Marx — e os cursos vinham embalados em títulos como “Palestras: de Maquiavel a Marx”; “Vico e a teoria da história”; “Proposições morais básicas na política: São Paulo, Santo Agostinho, São Tomás, Dante, Maquiavel, Francis Bacon”; “Política e filosofia: Platão, Aristóteles, Parmênides”.

Chovia aluno. E Arendt devia sentir-se zonza com a forte impressão que provocava entre a estudantada ansiosa e interessada que acorria às suas aulas e palestras, em qualquer campus onde pisasse.  

Mas, em Berkeley, ela exagerou — o curso era incomum demais. Destinado aos universitários de graduação, tinha o formato de um seminário semanal com duas horas de duração, intitulado “Questões contemporâneas”. Logo na primeira sessão, Arendt expôs o roteiro do que aconteceria ao longo do semestre; deve ter provocado calafrios.

Os alunos precisariam construir a biografia de um personagem imaginário — homem ou mulher — nascido em fins do século 19, interessado em determinados eventos políticos do século 20. O biografado não poderia ser nem protagonista nem ativista político; tampouco seria um alienado, alguém que se posicionasse confortavelmente à margem da sociedade. Era apenas um observador: vivia o cotidiano, escrutinava os acontecimentos. 

Foi só o começo. Arendt formulou marcos de referência panorâmicos para os eventos que o personagem teria necessariamente de observar. O cardápio incluía “Primeira Guerra Mundial”, “Pós-guerra”, “Espírito da revolução”, “Totalitarismo”, “Segunda Guerra Mundial”, “Formas de resistência”. O último marco, “Mundo contemporâneo”, foi subdividido em “Sociedade de massas” e “Ciência e política”. De quebra, preparou uma bibliografia insólita até mesmo para seus próprios padrões. Combinava história, teoria política e um bocado de literatura: entre outros, Faulkner, Brecht, Hemingway, T. E. Lawrence, Pasternak, Orwell, René Char, Camus.    

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Ditadura Modelo Exportação por 451

João Roriz é o autor da resenha do livro:

Simon, Roberto. O Brasil contra a democracia: a ditadura, o golpe no Chile e a Guerra Fria na América do Sul São Paulo; Companhia das Letras • 584 pp • R$ 104,90

Convidado a pensar a condução das relações internacionais pela ditadura, o embaixador George Maciel começou sua palestra assim: “tenho a nítida impressão, em primeiro lugar, de que, de todas as áreas do governo, a política externa brasileira foi das menos afetadas pelo regime militar de 1964, tanto na sua formulação quanto na sua execução”. Na avaliação do diplomata, com o tempo, a política externa do período teria até “evoluído positivamente” para chegar a uma “quase normalidade”.

Em março de 1994, um evento no Rio de Janeiro reuniu Leonel Brizola, Roberto Campos, Franco Montoro, Márcio Moreira Alves e outros personagens que colaboraram com ou lutaram contra a ditadura brasileira. Intitulado “1964 – 30 anos depois”, os palestrantes consideraram, com a distância do tempo, as consequências do regime militar na política, no direito, na economia, na cultura e na sociedade brasileira. 

Convidado a pensar a condução das relações internacionais pela ditadura, o embaixador George Maciel começou sua palestra assim: “tenho a nítida impressão, em primeiro lugar, de que, de todas as áreas do governo, a política externa brasileira foi das menos afetadas pelo regime militar de 1964, tanto na sua formulação quanto na sua execução”. Na avaliação do diplomata, com o tempo, a política externa do período teria até “evoluído positivamente” para chegar a uma “quase normalidade”.

A tese de que o Itamaraty teria passado incólume ao autoritarismo do regime militar brasileiro persistiu para além do fim do regime e ainda consta em livros sobre a política externa brasileira. Além de não corresponder aos fatos, essa tese impossibilita uma análise crítica do autoritarismo que persiste nas instituições e na circulação de ideias no Brasil. 

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Brasil: Paciente em Estado de Negação

Amália Safatle (Valor, 21/05/21) escreveu reportagem com certa repercussão. O Brasil já nutria uma péssima autoimagem, que agora está evoluindo para um comportamento autodestrutivo.

Fosse o Brasil uma pessoa, dificilmente se levantaria do berço esplêndido para se deitar em um divã. É preciso admitir a existência de problemas para buscar um tratamento psicanalítico, mas esse sujeito se encontra em estado de negação. O negacionismo, palavra tão em voga, decorre da tentativa de fugir do trauma, um núcleo perturbador, constitutivo do sujeito, que portanto todo mundo tem, em maior ou menor grau. Mas, em vez de atravessar seu trauma, essa pessoa prefere contornar o sofrimento e optar por ideias exógenas, que lhe são mais convenientes.

Essa saída cobra seu preço. O sujeito age como um adolescente, embora já esteja envelhecendo, tendo acumulado questões não resolvidas de um passado doloroso, marcado por violência, autoritarismo e desilusões em série. A idade adulta chegou da pior forma, tornando esse indivíduo melancólico ou até mesmo depressivo. Mas há caminhos de cura – se o paciente aceitar ajuda terapêutica.

Este é um conjunto de visões descritas por psicanalistas convidados pelo Valor a imaginar um certo paciente Brasil, seus traços de personalidade, dores e crises. O exercício de imaginação foi encarado como um jogo por alguns, como Ricardo Goldenberg. Outros, como Sérgio de Castro, membro da Escola Brasileira de Psicanálise, viram como válida a extensão da psicologia individual para uma dimensão social.

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Futuro da Complexidade ou Esperando por Carnot

Na opinião de Melanie Mitchell, no livro “Complexidade”, a Ciência de Sistemas Complexos está se ramificando em duas direções distintas. Ao longo de um ramo, as ideias e ferramentas da pesquisa da complexidade serão refinadas e aplicadas em uma variedade cada vez mais ampla de áreas específicas. 

Neste livro, vimos maneiras pelas quais ideias e ferramentas semelhantes estão sendo usadas em campos tão dísparescomo Física, Biologia, Epidemiologia, Sociologia, Ciência Política e Ciência da Computação, entre outros. Algumas áreas não cobertas nesse livro, nas quais essas ideias estão ganhando cada vez mais destaque, incluem Neurociência, Economia, Ecologia, Climatologia e Medicina – as sementes da Complexidade e da Ciência Transdisciplinar estão sendo amplamente plantadas.

O segundo ramo, mais controverso, é ver todos esses campos de um nível superior, de modo a perseguir teorias matemáticas explicativas e preditivas. Elas tornam mais rigorosas as semelhanças entre Sistemas Complexos e podem descrever e prever fenômenos emergentes. 

[Equações representam relações de trocas mútuas (ou em pares), mas não interações múltiplas em grande escala e simultâneas. A palavra miríade costuma ser aplicada no sentido figurado para representar uma quantidade elevada de alguma coisa, mas de valor indefinido.]

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Cinco Perguntas-Chave sobre Complexidade

Como você pode deduzir da ampla variedade de tópicos abordados por Melanie Mitchell, neste livro sobre “Complexidade”, o que podemos chamar de Ciência de Sistemas Complexos Modernos é, como seus antepassados, ainda não um todo unificado, mas sim uma coleção de partes díspares com alguns conceitos sobrepostos. O que atualmente unifica diferentes esforços sob esta rubrica são questões comuns, métodos e o desejo de fazer Matemática rigorosa e contribuições experimentais, indo além das analogias menos rigorosas, características desses campos anteriormente. 

Tem havido muito debate sobre o que é, se é alguma coisa, a Moderna Ciência de Sistemas Complexos. Ela está contribuindo hoje? O que faltou nos esforços anteriores? Até qual ponto está tendo sucesso?

Existe um amplo espectro de opiniões sobre esta questão. Recentemente, um pesquisador chamado Carlos Gershenson enviou uma lista de perguntas sobre sistemas complexos para um conjunto de seus colegas (inclusive Mitchell) e planeja publicar as respostas em um livro chamado Complexidade: 5 Perguntas. As perguntas são:

  1. Por que você começou a trabalhar com sistemas complexos?
  2. Como você definiria complexidade?
  3. Qual é o seu aspecto / conceito favorito de complexidade?
  4. Na sua opinião, qual é o aspecto / conceito de complexidade mais problemático?
  5. Como você vê o futuro da complexidade?

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Raízes da Pesquisa de Sistemas Complexos

A busca por princípios comuns a governarem sistemas complexos tem uma longa história, particularmente na Física, mas a busca por tais princípios tornou-se mais proeminente nos anos após a invenção dos computadores. Já na década de 1940, alguns cientistas propuseram existirem fortes analogias entre computadores e organismos vivos.

Na década de 1940, a Josiah Macy, Jr. Foundation patrocinou uma série de reuniões científicas interdisciplinares com títulos intrigantes, incluindo “Mecanismos de feedback e sistemas causais circulares em sistemas biológicos e sociais”, “Mecanismos teleológicos na sociedade” e “Mecanismos teleológicos e circulares Sistemas Causais”.

Essas reuniões foram organizadas por um pequeno grupo de cientistas e matemáticos. Eles estavam explorando princípios comuns de sistemas complexos amplamente variados. 

Um dos principais motores deste grupo foi o matemático Norbert Wiener, cujo trabalho sobre o controle de armas antiaéreas durante a Segunda Guerra Mundial o convenceu de a ciência subjacente a sistemas complexos em Biologia e Engenharia não dever se concentrar na massa, energia e , isto é, os conceitos da Física, mas sim os conceitos de feedback, controle, informação, comunicação e propósito (ou “teleologia”).

Além de Norbert Wiener, a série de conferências da Fundação Macy incluiu vários luminares científicos da época, como John von Neumann, Warren McCulloch, Margaret Mead, Gregory Bateson, Claude Shannon, W. Ross Ashby, entre outros. 

As reuniões levaram Wiener a batizar uma nova disciplina de Cibernética, cuja etimologia é a palavra grega para “timoneiro”, isto é, “quem controla um navio”. Wiener resumiu a Cibernética como “o campo de entrada da Teoria do Controle e da Comunicação, seja na máquina ou no animal”.

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Sobre Teorias Unificadas e Princípios Gerais

O termo Teoria Unificada (ou Grande Teoria Unificada, curiosamente abreviada como GUT), geralmente, se refere a um objetivo da Física: ter uma única teoria capaz de unificar as forças básicas do universo. A Teoria das Cordas é uma tentativa de GUT, mas não há consenso na Física de a Teoria das Cordas funcionar ou mesmo existir um GUT.

Imagine a Teoria das Cordas estar correta e seja o GUT da Física, há muito procurado. Isso seria uma conquista extremamente importante, mas não seria o fim da Ciência e, em particular, estaria longe de ser o fim da Ciência de Sistemas Complexos. 

Os comportamentos de Sistemas Complexos de interesse não são compreensíveis no nível de partículas elementares ou cordas de dez dimensões. Mesmo se esses elementos constituíssem toda a realidade, eles seriam o vocabulário errado para explicar a complexidade. 

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O Passado e o Futuro das Ciências da Complexidade

Em 1995, o jornalista de Ciências John Horgan publicou um artigo na Scientific American, indiscutivelmente a principal revista de Ciência popular do mundo, atacando o campo de sistemas complexos em geral e o Santa Fe Institute em particular. Seu artigo foi anunciado na capa da revista sob o rótulo “A complexidade é uma fraude?

O artigo continha duas críticas principais. 

Primeiro, na opinião de Horgan, era improvável o campo dos sistemas complexos descobrir quaisquer princípios gerais úteis.

Segundo, ele acreditava a predominância da modelagem por computador tornava a complexidade uma “Ciência livre de fatos”. 

Além disso, o artigo deu vários golpes menores, chamando a Complexidade de “Ciência pop” e seus pesquisadores de “complexologistas”. Horgan especulou até a respeito de o termo “complexidade” ter pouco significado, mas ser mantido por seu “valor de relações públicas”.

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Evolução de Modo Complexo

No capítulo I do livro “Complexidade”, Melanie Mitchell perguntou: “Como a evolução produziu criaturas com tamanho contraste entre sua simplicidade individual e sua sofisticação coletiva?” 

Na verdade, conforme ilustrado pelos exemplos vistos nesse livro, quanto mais de perto se olha para os sistemas vivos, mais surpreendente parece tal complexidade intrincada ter sido formada pelo acúmulo gradual de mutações favoráveis ​​ou caprichos de acidentes históricos. Este mesmo argumento tem sido usado desde o tempo de Charles Darwin até o presente por crentes na criação divina ou outros meios sobrenaturais de “design inteligente”.

As questões de como, por que e até mesmo se a evolução cria complexidade, e como a complexidade na Biologia pode ser caracterizada e medida, ainda estão muito abertas. Uma das contribuições mais importantes da pesquisa de sistemas complexos nas últimas décadas foi demonstrar novas maneiras de abordar essas questões antigas. 

Neste capítulo 18, Mitchell descreve algumas das recentes descobertas em genética e a dinâmica da regulação genética. Elas estão nos dando surpreendentes novos insights sobre a evolução de sistemas complexos.

Frequentemente, na Ciência, novas tecnologias podem abrir uma comporta de descobertas. Elas mudam a visão dos cientistas sobre um campo de estudo previamente estabelecido.

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Mistério da Escala

Os capítulos 15 e 16 do livro de Melanie Mitchell, “Complexidade”, mostraram como o Pensamento em Rede está tendo efeitos profundos em muitas áreas da Ciência, particularmente a Biologia. 

Recentemente, um tipo de Pensamento em Rede levou a uma solução proposta para um dos mistérios mais enigmáticos da Biologia: a maneira como as propriedades dos organismos vivos se adaptam ao tamanho. Trata-se do escalonamento em Biologia.

O dimensionamento descreve como uma propriedade de um sistema será alterada se uma propriedade relacionada for alterada. O mistério da escala na Biologia diz respeito à questão de como a energia média usada por um organismo durante o repouso, isto é, a taxa metabólica basal, escala com a massa corporal do organismo. 

O metabolismo, a conversão de alimentos, água, ar e luz em energia utilizável pelas células, constituem o processo-chave subjacente a todos os sistemas vivos. Essa relação é extremamente importante para entender como a vida funciona.

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