Tramas da Narrativa

livrosNo livro de Francine Prose, “Para ler como um escritor”, chama a atenção de Ítalo Morriconi a presença do romance no Capítulo 5 (Narração) e no 6 (Personagem). Fazendo uma apreciação sintética das lições que esses capítulos nos passam, constatamos que o elemento central observado é o ponto de vista. Para contar uma história rica de nuances e análises subjacentes, é preciso elaborar o ponto de vista.

Que tipo de olhar vamos lançar sobre o personagem? Que tipo de câmera guiará o olhar do leitor, aproximando-o e afastando-o da interioridade dos personagens, assim como de suas manifestações exteriores?

Prose enfatiza a diversidade possível de olhares, para além dos básicos focos em primeira e em terceira pessoa. Ela também destaca o dinamismo possível do ponto de vista, comentando trechos que ilustram o deslizamento entre pontos de vista diferenciados, às vezes dentro de um único parágrafo.

E aponta para a variedade possível do foco narrativo em primeira pessoa, que tendemos a ver como simplesmente um “eu” narrando, quando na verdade pode fazer parte de jogos mais sofisticados. Continue reading “Tramas da Narrativa”

Ficção Realista: Aparente Contradição em Termos

italo-moriconiNo posfácio do livro “Para ler como um escritor”, Ítalo Morriconi diz que há dois elementos, trabalhados por Francine Prose em dois de seus capítulos mais sugestivos, que são tão importantes quanto o ponto de vista na tarefa de dar ao narrador e à narrativa o poder de impressionar o leitor. São eles o detalhe (Capítulo 8) e o gesto (Capítulo 9).

No terreno da literatura francesa, Roland Barthes analisou o detalhe como técnica fundamental na criação do “efeito de real” pela descrição realista. Entenda-se bem: chamo aqui de realista, em literatura, basicamente uma ficção que fala de coisas reais, portanto como o que se opõe às narrativas oníricas ou fantásticas. Uma ficção realista quer parecer real, apesar de totalmente inventada.

Ora, o que tanto Barthes quanto Francine Prose enfatizam é que uma boa descrição realista não depende da exaustividade de inventário e sim da precisão no detalhe. Morriconi crê que o dado novo trazido por Prose nessa questão está no fato de chamar atenção não apenas para o efeito “de real”, e sim para o sentido de efeito exercido por qualquer narrativa (ficcional ou real) sobre o espírito e o corpo do leitor.

Seja o texto realista ou não, seja a narrativa real ou ficcional, aquilo que fica mais rapidamente guardado na memória de quem lê ou ouve é o detalhe altamente significativo. Somente através do detalhe preciso se poderá criar uma cena perfeitamente visualizável pelo leitor. Continue reading “Ficção Realista: Aparente Contradição em Termos”

Do Clássico ao Cult

para-ler-como-escritor-livro-francine-proseNo posfácio do livro de Francine Prose, “Para ler como um escritor”, escrito por Ítalo Morriconi, este diz que, originadas em qualquer tempo, clássicas são as obras imperdíveis, aquelas que sabemos que vale a pena ler, mesmo não as tendo ainda lido. E vale a pena lê-las a qualquer momento, antes ou depois de outras mais antigas, muito anteriores, pouco anteriores ou posteriores.

Vale até mesmo lê-las em resumos e adaptações, como aperitivo para mergulhos futuros na obra original e completa, a “coisa em si”. Adaptações infantis ou juvenis de grandes clássicos podem ser boas colaboradoras na formação de leitores, embora de jovens bem escolarizados se espere que possam ler a obra original.

Clássicos são eternos, mas alguns envelhecem. Com o tempo, alguns são esquecidos, perdem o apelo, deixam de ser clássicos. Saem das prateleiras e vão para o fundo do baú.

A queda de um ou outro clássico no esquecimento mostra que o desgaste natural, assim como peças pregadas por ironias da história, faz com que o cânone literário de uma língua, nação ou cultura seja algo dinâmico, que sofre alterações. Ocorre não só a eliminação de obras que de repente passam a ser encaradas como caducas demais ou irrelevantes, mas também a agregação de outras, “redescobertas” e “resgatadas” da poeira de velhos arquivos e bibliotecas. Continue reading “Do Clássico ao Cult”

Crônica Brasileira

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No posfácio do livro de autoria de Francine Prose, “Para ler como um escritor: Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los” (Rio de Janeiro; Zahar; 2006), escrito por Ítalo Morriconi, ele afirma que “podemos assinalar um traço de personalidade muito presente na formação literária brasileira. Trata-se da crônica como gênero de prosa artística em pé de igualdade com o conto, na grande família das narrativas curtas.

Como leitores brasileiros, todos nós começamos lendo as crônicas de Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Rubem Braga, entre muitos outros. Mais recentemente, um Luis Fernando Verissimo, um Caio Fernando Abreu, um Ignácio de Loyola Brandão – entre tantos e tantas, do Oiapoque ao Chuí. A crônica é o ar que a arte da prosa respira no Brasil. Fomos alimentados por crônicas na escola e buscamos cronistas em nossas primeiras incursões autônomas pelo mundo da leitura. Continue reading “Crônica Brasileira”

Para ler como um escritor

para-ler-como-um-escritorO prefácio e o posfácio do livro de autoria de Francine Prose, “Para ler como um escritor: Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los” (Rio de Janeiro; Zahar; 2006) foram escritos por Ítalo Morriconi. Ele o apresenta dizendo que “Para ler como um escritor” proporciona uma espécie de viagem visceral por obras-primas da literatura.

Tem tudo de manual, de guia, de livro-texto especificamente orientado:

  • para quem está se colocando na posição de escritor aprendiz ou iniciante, assim como
  • para quem deseja perceber a literatura com os olhos livres do escritor e não com as lentes grossas do intelectual ou do ideólogo acadêmico.

Seu modo visceral de ser conduz o leitor pelas entranhas do texto de prosa ficcional sem apelar para categorias macro de compreensão, sem camisas de força apriorísticas. Aqui, a indução prevalece sobre a dedução. Literatura não como ciência, mas como exercício de sensibilidade.

O método é o “close reading”, a leitura atenta, a leitura densa, a leitura linha a linha, cuja meta é evidenciar como grandes escritores do passado e do presente obtiveram e continuam a obter resultados literários apreciáveis e diversificados através desse ou daquele jeito de fazer.

A lei maior de Francine Prose é: aprendemos através de exemplos. Não para imitá-los (isso também, um pouco), mas para refletir intensamente sobre eles. Como tratar a frase? Como e por que quebrar um parágrafo? Como avaliar o impacto de uma palavra? Como apresentar uma personagem ao leitor? Continue reading “Para ler como um escritor”

Nova Estética: Três Notas Sobre Blogs e o Plágio (por Charles Kiefer)

resenha-livro-para-ser-escritor-charles-kiefer-editora-leya“Não escrevo este rápido e conciso texto com pressa. Mas ele poderá ser lido rapidamente.

Ele deve ser lido rapidamente, que os bytes e os neurônios têm pressa, muita pressa.

Porque a nossa atual locomotiva chama-se internet. E ela é rápida, muito rápida.

Além de gerar palavras novas – os dinossauros as chamavam neologismos –, essa nova machina exige textos curtos, parágrafos curtos, frases curtas.

Hoje, com um olhar retrospectivo, podemos ver a revolução industrial parindo novas formas artísticas, a short storie, a crônica, o folhetim, o romance policial, o romance psicológico, o romance de aventuras.

Com um olhar prospectivo, podemos ver um novo gênero, ainda sem nome, retorcendo-se na tela do computador.”

[Trecho de: Charles Kiefer. Para ser escritor. São Paulo; Leya, 2010.] Continue reading “Nova Estética: Três Notas Sobre Blogs e o Plágio (por Charles Kiefer)”

O Ato de Escrever

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O ato de escrever é a arte de sentar-se em uma cadeira e enfrentar o desafio de deparar-se com uma página ou um arquivo em branco. O que escrevi, escrevi…

Gostaria de não saber escrever. Mas quem me dera saber bem escrever!

Escrever sem o esforço da criatividade corresponde a ser lido sem prazer.

Escrever divinamente significa sofrer como o diabo…

O escritor pode se arriscar, pois aqui quase ninguém lê…

Escrevo pelos outros ou por necessidade pessoal? Simplesmente, tenho vontade de escrever e, então, escrevo.

Escrever para si só? Só se for narcisista ao extremo! Escrever é a esperança de, porventura, atrair um(a) leitor(a), encantá-lo(a), ser amado(a)…

Escrever por vaidade não tem nenhuma criatividade, pois já se sabe a priori tudo que dirá sobre si.

Escrever é cortar. Reduzir. Sintetizar. Dizer as mínimas palavras necessárias de serem ditas.

Escrever não é nada mais do que aproveitar o tempo sobrante para ter tempo de refletir que este tempo está acabando – e você quer deixar uma lembrança dele. Continue reading “O Ato de Escrever”