Palavras

Como Escrever Bem, livro de autoria de William Zinsser, publicado em 1976, finalmente, em 2017, foi traduzido pela Editora Três Estrelas. Continuo apresentando minhas anotações de sua leitura.

Evite jargão, seja jornalês, seja economês. É uma mistura de palavras vulgares, palavras inventadas e chavões tão difundidos que dificilmente um escritor consegue evitar seu uso inconsciente ou fácil.

Para não ser um escrevinhador qualquer, combata esses lugares-comuns. Você nunca deixará a sua “marca no mundo” como escritor se não desenvolver respeito pelas palavras e uma curiosidade quase obsessiva em relação aos vários matizes de seus significados.

Eu adoro dicionários, especialmente, os etimológicos! De onde vêm as palavras? Continue reading “Palavras”

Estilo de Escrita

Como Escrever Bem, livro de autoria de William Zinsser, publicado em 1976, finalmente, em 2017, foi traduzido pela Editora Três Estrelas. Continuo apresentando minhas anotações de sua leitura.

Os escritores mostram-se com maior naturalidade quando escrevem na primeira pessoa. A escrita é uma relação íntima entre duas pessoas levada ao papel e ela será tão boa quanto a sua capacidade de preservar a sua humanidade. Por isso, Zinsser estimula a escrita na primeira pessoa, seja do singular (“eu” e “mim”), seja do plural (“nós” e “nossos”). Abandone a terceira pessoa ou o sujeito indefinido. Continue reading “Estilo de Escrita”

Como Escrever Bem por William Zinsser

Este livro foi publicado em 1976, chegando agora à terceira geração de leitores, tendo suas vendas superado mais de um milhão de exemplares. Finalmente, em 2017, foi traduzido e publicado pela Editora Três Estrelas no Brasil.

As preocupações de William Zinsser como professor se modificaram. Ficou mais interessado em coisas intangíveis que produzem bons textos: confiança, prazer, intenção, integridade. Seus alunos pretendem usar a escrita para tentar entender quem eles são e qual a herança que carregam dentro de si.

Facilitada pelos processadores de texto em computadores, a essência do escrever é reescrever. Apenas escrever fluentemente não significa escrever bem.

Bons escritores adoram a possibilidade de remexer em suas frases, podando, revisando e remodelando. Escritores ruins se tornaram ainda mais verborrágicos com a facilidade de escrever em computadores pessoais.

Este livro sobre o ofício de escrever não teve seus princípios modificados desde que foi escrito há quarenta anos. Escrever exige o velho e duro hábito de pensar com originalidade e o manejo das velhas ferramentas da língua. Continue reading “Como Escrever Bem por William Zinsser”

O Triste Fim de Policarpo Quaresma, Herói do Brasil

Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1881. Faleceu, em 1922, aos 41 anos, também no Rio. Era filho de João Henriques de Lima Barreto, filho de uma antiga escrava e de um madeireiro português, e de Amália Augusta, filha de escrava e agregada da família Pereira Carvalho. Suas duas avós eram escravas.

Ao nascer, a familia morava próxima ao Largo do Machado, e seu pai ganhava a vida como tipógrafo. Aprendeu a profissão no Imperial Instituto Artístico, que imprimia o periódico “A Semana Ilustrada“. Sua mãe foi educada com esmero, sendo professora da 1ª à 4ª série. Ela faleceu quando ele tinha apenas 6 anos e João Henriques trabalhou muito para sustentar os quatro filhos do casal.

João Henriques era monarquista, ligado ao visconde de Ouro Preto, padrinho do futuro escritor. Talvez suas lembranças saudosistas do fim do Período Imperial no Brasil, bem como as remotas lembranças da Abolição da Escravatura, na infância, tenham vindo a exercer influência sobre a visão crítica de Lima Barreto sobre o regime republicano. Continue reading “O Triste Fim de Policarpo Quaresma, Herói do Brasil”

Ser do Contra — e A Favor da Direita?!

Passei o fim-de-semana com amigos cariocas e tive tempo para me atualizar em fofocas sobre “ex-companheiros”:

“Fulano, aquele esquerdista radical-chic, morador da Zona Sul, herdeiro de Sicrano, agora diz que odeia o Lula!”

“Mas por que”, pergunto eu, “se Lula tem seu lugar garantido na história do Brasil e Fulano nunca deixou sua marca no mundo, sequer ensinou algum coisa positiva a alguém, assinou um mísero artigo ou publicou um pequeno livro?! Quem verá seus rastros além do seu tempo de vida?”

Acho que, lendo uma divertida crônica de Gregório Duvivier, passei a entender. É apenas uma moda passageira. Alguém fazendo gênero para seu reduzido mundinho do feicebuque

Antes de ler a crônica, é bom se informar sobre o que é ser hipster:

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Raduan Nassar, um dos (poucos) sábios do País

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Vale ainda registrar o comentário de Luiz Fernando Zanin Oricchio (Estadão, 18 Fevereiro 2017) a respeito de: “a coragem e a oportunidade da fala de Raduan Nassar ao receber o Prêmio Camões são evidentes. Mas é preciso também fixar a qualidade e a lucidez de suas palavras.

Raduan destacou desmandos atuais e tocou em tema-tabu ao citar a omissão do Supremo ao longo da ditadura civil-militar (1964-1985). Ligando-a aos tempos atuais, lembrou a participação ativa do Judiciário na condução do golpe de 2016. E falou da ligação do governo Temer com o neoliberalismo “concentrador de riquezas”, que é a sua verdadeira razão de ser. Ou seja, disse o que tinha de ser dito.

Ao tentar responder, Roberto Freire (último a falar, portanto detentor da última palavra), mostrou apenas despreparo. Insinuou que o prêmio ao escritor seria um presente do governo e que o agraciado, portanto, estaria sendo ingrato.

Ora, o Camões é um prêmio conjunto dos Estados do Brasil, Portugal e países africanos lusófonos. Não é uma benesse do governo Temer.

E, portanto, não há qualquer descortesia em recebê-lo e criticar o governo. Assim como, cidadãos, temos o direito de usufruir das obrigações do Estado, como saúde, educação, segurança, etc, sem precisarmos, por isso, dizer amém ao governo.

Que, como todo governo, legítimo ou ilegítimo, é circunstancial e passageiro. O que não é nem circunstancial e nem passageiro é o legado de quem escreveu livros como Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera.”

Rafael Cariello (piauí, julho de 2012) publicou uma reportagem investigativa, daquelas importantes que ainda se preservam nesta revista do herdeiro do clã Moreira Salles, o João. Ainda bem que este país tem umas (poucas) dinastias que cultivam a cultura… Reproduzo-a abaixo.

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O Empréstimo (por Machado de Assis)

machado-de-assisVou divulgar uma anedota, mas uma anedota no genuíno sentido do vocábulo, que o vulgo ampliou às historietas de pura invenção. Esta é verdadeira; podia citar algumas pessoas que a sabem tão bem como eu. Nem ela andou recôndita, senão por falta de um espírito repousado, que lhe achasse a filosofia. Como deveis saber, há em todas as cousas um sentido filosófico. Carlyle descobriu o dos coletes, ou, mais propriamente, o do vestuário; e ninguém ignora que os números, muito antes da loteria do Ipiranga, formavam o sistema de Pitágoras. Pela minha parte creio ter decifrado este caso de empréstimo; ides ver se me engano.

E, para começar, emendemos Sêneca. Cada dia, ao parecer daquele moralista, é, em si mesmo, uma vida singular; por outros termos, uma vida dentro da vida. Não digo que não; mas por que não acrescentou ele que muitas vezes uma só hora é a representação de uma vida inteira? Vede este rapaz: entra no mundo com uma grande ambição, uma pasta de ministro, um banco, uma coroa de visconde, um báculo pastoral. Aos cinquenta anos, vamos achá-lo simples apontador de alfândega, ou sacristão da roça. Tudo isso que se passou em trinta anos, pode algum Balzac metê-lo em trezentas páginas; por que não há de a vida, que foi a mestra de Balzac, apertá-lo em trinta ou sessenta minutos? Continue reading “O Empréstimo (por Machado de Assis)”