Universidade Administrada

Na coletânea de ensaios e entrevista “A ideologia da Competência” de Marilena Chaui (organizador André Rocha. Belo Horizonte: Autêntica Editora; São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2014. Escritos de Marilena Chaui: 3), a filósofa critica também o molde contemporâneo da Universidade. Edito o ensaio abaixo.

Analisando os movimentos estudantis de 1968 na Europa, muitos deles viram o fim da ilusão liberal, amplamente compartilhada pela esquerda, da educação como igual direito de todos e da seleção meritocrática, baseada na aptidão e no talento individuais.

Por imposição econômica se elevou ao aumento do tempo de escolarização. O propósito foi manter boa parte da mão de obra fora do mercado, estabilizando salários e empregos.

Por imposição das transformações na divisão social do trabalho e no processo de trabalho, ampliaram-se os quadros técnico-administrativos.

Então, a universidade europeia “se democratizou”, abrindo suas portas para um número crescente de alunos que anteriormente teriam completado a escolaridade no liceu. Essa “democratização” acionou um conjunto de contradições que jaziam implícitas e vieram à tona em 1968. Continuar a ler

Ideologia da Competência

Marilena Chaui teve seu clássico ensaio “A ideologia da competência”, publicado na coletânea também sob o mesmo título (organizador: André Rocha. Belo Horizonte: Autêntica Editora; São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2014. Escritos de Marilena Chaui: 3). Trata-se de uma versão revista e ampliada do texto originalmente publicado em: O que é ideologia (São Paulo: Editora Brasiliense, 1981). Edito-o em seguida.

A ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (ideias e valores) e de normas ou regras (de conduta) indicadores aos membros de uma sociedade de:

  1. o que devem pensar e como devem pensar,
  2. o que devem valorizar e como devem valorizar,
  3. o que devem sentir e como devem sentir,
  4. o que devem fazer e como devem fazer.

Ela é, portanto, um corpo explicativo (representações) e prático (normas, regras, preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador. Sua função é dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem jamais atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes a partir das divisões na esfera da produção econômica.

Pelo contrário, a função da ideologia é ocultar:

  1. a divisão social das classes,
  2. a exploração econômica,
  3. a dominação política e
  4. a exclusão cultural.

A ideologia oferece aos membros da sociedade o sentimento da identidade social, fundada em referenciais identificadores, como a Humanidade, a Liberdade, a Justiça, a Igualdade, a Nação. Como salienta Marx, o primeiro a analisar o fenômeno ideológico, a ideologia é a difusão para o todo da sociedade das ideias e dos valores da classe dominante como se tais ideias e valores fossem universais e aceitos como tais por todas as classes. Continuar a ler

Democracia, Populismo e Nacionalismo

Hélio Schwartsman, no livro “Pensando Bem… um olhar original a respeito de liberdade, religião, história, política, violência, comportamento, educação, ciência”, diz a ideia mestra da democracia é ela constituir uma espécie de autogestão coletiva– o tal do governo do povo, para o povo e pelo povo.

“Não se pode, por outro lado, desprezar os riscos de um entrosamento muito profundo entre governantes e a população. O mais óbvio é o populismo, no qual se sacrificam objetivos de longo prazo em troca de aprovações momentâneas, geralmente programadas para coincidir com eleições. Embarcar nesse tipo de lógica compromete a racionalidade econômica de um governo, que se torna incapaz de definir prioridades e passa a perseguir metas inconciliáveis, gerando pequenos e grandes desastres.

Isso significa que a democracia é uma miragem? A pergunta é capciosa.”

Hélio Schwartsman pensa ela funcionar, mas não porque maiorias sejam portadoras da verdade. A democracia vem dando certo porque consegue canalizar os conflitos sociais para formas não violentas de disputa. Tem ainda o dom de fazer com as visões mais extremadas do espectro político se anularem pelo voto, deixando a decisão para os setores moderados. [Esta hipótese sem comprovação por evidências talvez seja falsa.] Ela também transforma a sociedade em um grande experimento cujos atores podem aprender com seus erros.”

Percebe-se também em Hélio Schwartsman a expressão do atávico medo da elite intelectual paulistana em relação ao chamado por ela de “populismo”. O argumento esnobe contra qualquer coisa favorável ao povo é clássico na retórica reacionária. Continuar a ler

Complexidade da História

Hélio Schwartsman, no livro “Pensando Bem… um olhar original a respeito de liberdade, religião, história, política, violência, comportamento, educação, ciência”,  é mais feliz ao interpretar a complexidade da história.

“Durante boa parte do século XX, prevaleceram concepções que enfatizam os grandes movimentos. Aí se incluem os marxistas, com a luta de classes e o materialismo histórico, a turma dos Annales, com sua ‘longue durée’ e o pessoal da geopolítica, para quem características topográficas, climáticas e demográficas são decisivas. Somam-se a eles os chamados institucionalistas ao destacarem o papel de estruturas como tipo de governo, grau de liberdade, eficiência do Judiciário etc.”

Representantes de todas essas escolas produziram boas análises, com grande poder explicativo e geradoras de interessantes insights. Todos os elementos citados e outros não citados têm sua importância. Mas isso é tudo?

No rastro dos proponentes da chamada história contrafactual as if [e se] –, Hélio Schwartsman levanta a hipótese imaginária: se o nacionalista sérvio Gavrilo Princip não tivesse assassinado o arquiduque Francisco Ferdinando em 1914, não teria havido a Primeira Guerra, nem consequentemente a tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia, nem a assunção de Hitler na Alemanha. Princip, sozinho, responde pelas mortes de milhões de pessoas.

[Fernando Nogueira da Costa: é regra compulsória em jornalismo a individualização, baseada no argumento “não existe história sem rosto”. Por exemplo, a seleção brasileira joga coletivamente todo o jogo, porém, os jornais destacam “o craque do jogo”; um setor de atividade econômica tem bom desempenho, mas os jornalistas louvam um empresário; a economia sofre um problema macro-social, mas o “bode-expiatório” é um fulano, em geral, o(a) Presidente(a); etc.]

Se os achados dos cientistas estudiosos de sistemas complexos valem para a história, pequenas variações podem produzir resultados dramáticos – e isso sem contrariar as tais das forças profundas da História. Trata-se da dependência de trajetória caótica. Continuar a ler

Luditas contra Desemprego Tecnológico: Luta Perdida em Anacronismo

Hélio Schwartsman, no livro “Pensando Bem… um olhar original a respeito de liberdade, religião, história, política, violência, comportamento, educação, ciência”, diz: “entre os interesses de uma classe e os da sociedade, são os segundos que devem prevalecer”.

Vai um pouco mais longe e afirma: “deveria ser obrigatório para o poder público disponibilizar na internet e de forma gratuita todos os serviços hoje ofertados por profissionais e instituições que podem ser condensados em algoritmos. Isso vale para obrigações fiscais, previdenciárias, registros públicos e procedimentos jurídicos. É ridículo obrigar as partes a contratarem advogados para realizar inventários extrajudiciais e divórcios consensuais, por exemplo”.

Se essas facilidades ao cidadão se disseminassem, precisaríamos de menos contadores, escriturários, cartórios e advogados, para ficar apenas no mundo da burocracia). Haveria desemprego nessas categorias. É duro, mas é assim que o capitalismo funciona.

Como já descrevera Joseph Schumpeter em meados do século passado, a chegada de novas tecnologias destrói velhas empresas, antigos modelos de negócios e até mesmo profissões. Pode ser ruim para essas pessoas, mas das inovações, em última instância, a sociedade extrai a prosperidade. Continuar a ler

Trindade Impossível: Liberdade, Igualdade e Paternidade

Hélio Schwartsman em seu livro “Pensando Bem… um olhar original a respeito de liberdade, religião, história, política, violência, comportamento, educação, ciência”(São Paulo: Editora Contexto, 2016. 304 p.) informa: “A manter-se o atual ritmo de queda da desigualdade entre homens e mulheres no Brasil, elas só vão ganhar o mesmo que eles em 2085. A igualdade nos cargos de diretoria e conselho de grandes empresas só virá em 2213, e, na Câmara dos Deputados, no ainda mais longínquo 2254.” O que está acontecendo?

A explicação padrão das alas mais radicais do movimento feminista é conhecida: discriminação. Hélio Schwartsman até acha o preconceito responder por uma parte do fenômeno, mas ela é pequena. O argumento dele é mercantil: “se empresas pudessem mesmo obter de um funcionário o mesmo rendimento pagando 30% menos, como quer a narrativa feminista, não há muita dúvida de que apenas mulheres seriam contratadas. O compromisso das firmas com o lucro tende a ser maior do que com o machismo”.

Daí deduz o mais provável ser o rendimento feminino não ser o mesmo do masculino. Aqui temos duas possibilidades:

  1. ou mulheres não são tão boas quanto homens no que fazem;
  2. ou não dão ao emprego a mesma prioridade deles.

A segunda alternativa parece mais verossímil, para o autor, a crer no desempenho escolar. Argumenta ele ser uma prévia do preparo para o trabalho e “elas são na média bem melhores do que eles”. Não indica sua fonte de informações para afirmar tal coisa. Principalmente, ele se esquece de analisar o conceito de média, ou seja, os expoentes com altos cargos hierárquicos podem ter se destacado com melhor desempenho escolar e profissional.

De fato, Hélio Schwartsman reconhece “quando se levam em conta fatores como jornada de trabalho, tipo de emprego escolhido, intervalos para a gravidez, disponibilidade para viagens, para horas extras etc., a diferença entre [mulheres e homens] cai bastante”. Continuar a ler

Livre Arbítrio entre a Liberdade de Escolha e o Prejuízo a Terceiros

Hélio Schwartsman, no livro “Pensando Bem… um olhar original a respeito de liberdade, religião, história, política, violência, comportamento, educação, ciência”, discute a ideia fundamental do livro “Big Data: uma revolução que transformará vidas, trabalho e pensamento”, de Viktor Mayer-Schonberger e Kenneth Cukier.

A dificuldade de obter dados sempre foi um obstáculo para a Ciência. Para contorná-la, desenvolvemos conceitos como amostragem e as ferramentas estatísticas para interpretá-los. Mas hoje, com o avanço das tecnologias da informação, é relativamente fácil armazenar quantidades antes inimagináveis de dados e analisá-los, descobrindo correlações das quais nem suspeitávamos.

Isso muda a forma de fazer ciência e de ganhar dinheiro. O sucesso da Amazon, Spotfy, Netflix, YouTube, Google, etc. está em oferecer ao cliente aquilo sugerido por seu algoritmo como objeto de desejo para consumo ou desfrute.

Os autores, embora reconheçam virtudes no big data, apontam os muitos riscos envolvidos. No plano epistemológico, correlação não é causa. Para descobrir o porquê das coisas, ainda precisaremos de teorias e experimentos controlados.

No campo da filosofia, as coisas são mais inquietantes. Os modelos se sofisticam e ficam melhores em prever comportamentos. Já conseguimos identificar motoristas com maior probabilidade de provocar acidentes, pessoas mais propensas a ficar doentes e criminosos com mais chance de reincidir. “Como devemos usar essas informações? Podemos punir preventivamente o sujeito que está prestes a cometer um delito? Será que a autonomia e o livre-arbítrio sobrevivem à era do big data?Continuar a ler