Preocupação com Desigualdade ou com Pobreza e Injustiça?

Steven Pinker, no livro “O novo Iluminismo: Em defesa da razão, da ciência e do humanismo” (São Paulo: Companhia das Letras; 2018), diz: com certeza, pode haver razões para nos preocuparmos com a desigualdade em si, não apenas com a pobreza. Talvez a maioria das pessoas seja como Igor, e sua felicidade dependa de como se comparam com seus vizinhos, e não com do quanto elas possuem em termos absolutos.

Quando os ricos enriquecem demais, todos os outros se sentem pobres, portanto, a desigualdade reduz o bem-estar, embora todos se tornando mais ricos ao longo do tempo em uma mesma sociedade. Essa é uma ideia antiga da Psicologia Social, com várias designações, como Teoria da Comparação Social, grupos de referência, ansiedade de status e privação relativa.

No entanto, é preciso manter a ideia em perspectiva. Entre ser uma mulher analfabeta em um país pobre, presa ao seu vilarejo, com alta mortalidade infantil e baixa esperança de vida como a maioria das pessoas de seu convívio ou ser uma mulher instruída em um país rico, onde os filhos crescem e viverá até os oitenta anos, porém empacada na classe média baixa, é equivocada esta última não estar em melhores condições. Seria uma perversidade concluir ser preferível não tentar melhorar a vida da primeira porque isso poderia melhorar a vida de seus vizinhos ainda mais e ela não se tornaria mais feliz.

De qualquer modo, o experimento mental é irrelevante, pois na vida real a habitante no país rico quase certamente é mais feliz. Ao contrário da velha crença de as pessoas prestarem tanta atenção nos seus conterrâneos mais ricos a ponto de viverem reajustando seu medidor interno de felicidade de acordo com uma linha de referência, sem se importar com o quanto sua situação seja boa, Pinker demonstra as pessoas mais ricas e as pessoas de países mais ricos são (em média) mais felizes comparadas às mais pobres e em lugar dos habitantes de países mais pobres.

[Fernando Nogueira da Costa: esse debate é melhor realizado pela crítica da Economia da Boa Vida à Economia da Felicidade.]

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Desigualdade

Steven Pinker, no livro “O novo Iluminismo: Em defesa da razão, da ciência e do humanismo” (São Paulo: Companhia das Letras; 2018), afirma: em países desenvolvidos, na segunda década do século XXI, a desigualdade econômica virou obsessão.

A nova sabedoria convencional afirma: o 1% mais rico ficou com todo o crescimento econômico nas décadas recentes, enquanto os demais não progrediram ou estão afundando lentamente. Se for assim, a explosão de riqueza, documentada no seu capítulo a respeito, não merece ser celebrada, pois não terá contribuído para o bem-estar geral da humanidade.

A desigualdade econômica é uma questão das mais atacadas pela esquerda há muito tempo. Ganhou relevo depois do início da Grande Recessão em 2007.

Porém, a candidatura de Donald Trump saiu vencedora em 2016 com o discurso segundo o qual os Estados Unidos tinham se tornado “um país de Terceiro Mundo” e a culpa pelo declínio da sorte da classe trabalhadora estava não em Wall Street e no 1%, mas na imigração e no comércio exterior.

Os extremos do espectro político, exaltados com a desigualdade econômica por razões diferentes, se encontraram. Seu ceticismo comum em relação à economia moderna ajudou a eleger o presidente americano mais radical à direita dos últimos tempos.

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Prosperidade e Paz

Steven Pinker, no livro “O novo Iluminismo: Em defesa da razão, da ciência e do humanismo” (São Paulo: Companhia das Letras; 2018), afirma: o Iluminismo também trouxe a primeira análise racional da prosperidade. Seu ponto de partida não foi a maneira como a riqueza é distribuída, e sim a questão primordial de como a riqueza surge.

Baseado em influências francesas, holandesas e escocesas, Smith observou: é impossível criar produtos em abundância com um agricultor ou artesão trabalhando sozinho. Isso depende de uma rede de especialistas.

Eles aprenderam, cada qual, a produzir a sua mercadoria com a maior eficiência possível. Eles combinam e trocam os frutos de seu engenho, sua habilidade e seu trabalho. Em um exemplo famoso, Smith calculou que um fabricante de alfinetes, labutando só, poderia produzir no máximo uma peça por dia, ao passo que em uma oficina onde “um homem puxa o fio, outro o endireita, um terceiro o corta, um quarto o afia, um quinto o aplaina na ponta para receber a cabeça”, eles produziriam quase 5 mil unidades.

A especialização só funciona em um mercado onde permite aos especialistas trocar seus bens e serviços. Smith explicou: a atividade econômica era uma forma de cooperação mutuamente benéfica (um jogo de soma positiva, no jargão atual), quando cada um recebe em troca algo mais valioso para si em lugar daquilo cedido. Por meio dessa permuta voluntária, as pessoas beneficiam outras beneficiando a si mesmas.

Como Smith escreveu, “não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos o nosso jantar, e sim da consideração de cada qual pelo seu próprio interesse. Em vez de apelarmos à sua humanidade, dirigimo-nos ao seu auto interesse”.

Smith não quis dizer as pessoas serem de um egoísmo implacável, nem tampouco deveriam ser. Ele foi um dos mais perspicazes analistas da solidariedade humana em toda a história. Apenas afirmou: em um mercado, a tendência de um indivíduo a cuidar de sua família e de si mesmo pode atuar em benefício de todos.

A troca pode tornar toda uma sociedade não apenas mais rica, como também mais cordial, pois em um mercado eficaz é mais barato comprar em lugar de roubar as coisas. As outras pessoas lhe têm mais serventia vivas do que mortas.

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Ouse entender!

Steven Pinker, no livro “O novo Iluminismo: Em defesa da razão, da ciência e do humanismo” (São Paulo: Companhia das Letras; 2018), afirma o tema primordial do iluminismo ser a razão. A razão é inegociável.

Se você começar a discutir por que devemos viver (ou qualquer outra questão), exige suas respostas, independentemente de quais forem elas, serem sensatas ou justificadas ou verdadeiras. Portanto, outras pessoas terão de acreditar nelas também. Você estará comprometido com a razão e com a avaliação das suas crenças segundo critérios objetivos.

Se existiu algo que os pensadores do Iluminismo tiveram em comum foi a exigência de aplicar vigorosamente o critério da razão para entender o mundo, em vez de recorrer a geradores de ilusão como a fé, o dogma, a revelação, a autoridade, o carisma, o misticismo, o profetismo, as visões, as intuições ou a análise interpretativa de textos sagrados.

Foi a razão capaz de levar a maioria dos pensadores iluministas a repudiar a crença em um Deus antropomórfico e atento aos assuntos humanos. A aplicação da razão revelou os relatos de milagres serem duvidosos. Os autores de livros sagrados tinham lá as suas falhas demasiado humanas. Os eventos naturais aconteciam sem levar em conta o bem-estar das pessoas. Diferentes culturas acreditavam em deidades mutuamente incompatíveis, nenhuma das quais com probabilidade menor de ser obra da imaginação.

Entretanto, nem todos os pensadores iluministas eram ateus. Alguns eram deístas (em contraste com os teístas): para eles, Deus pôs o universo em movimento e então deixou de interferir, permitindo-o se desenvolver de acordo com as leis da natureza. Outros eram panteístas: usavam “Deus” como sinônimo de leis da natureza. Mas poucos apelavam para o Deus legislador e milagroso das Escrituras.

Muitos autores atuais confundem a defesa iluminista da razão com a afirmação implausível de que os seres humanos são agentes perfeitamente racionais. Nada poderia estar mais distante da realidade histórica. Pensadores iluministas estavam muito conscientes das nossas paixões e fraquezas irracionais. Asseveravam: só expondo as fontes comuns de insensatez poderíamos ter esperança de superá-las. A aplicação deliberada da razão era necessária justamente porque nossos hábitos comuns de pensamento não eram muito razoáveis.

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O novo Iluminismo: Em defesa da razão, da ciência e do humanismo

O princípio iluminista de podermos aplicar a razão e a solidariedade para aprimorar o desenvolvimento humano pode parecer óbvio, banal, antiquado. Steven Pinker escreveu o livro “O novo Iluminismo: Em defesa da razão, da ciência e do humanismo” (São Paulo: Companhia das Letras; 2018) porque se deu conta de não ser o caso. Na realidade atual, os ideais da razão, da ciência, do humanismo e do progresso necessitam de uma defesa entusiasmada.

Não damos o devido valor às suas benesses: recém-nascidos viverem por mais de oito décadas, mercados abarrotados de alimentos, água limpa, dejetos desaparecidos, comprimidos capazes de debelar uma infecção dolorosa, filhos não mandados para a guerra, filhas com possibilidade de andar na rua em segurança, críticos de poderosos não sendo presos ou fuzilados, o conhecimento e a cultura mundiais disponíveis no bolso da camisa. Mas tudo isso são realizações humanas, e não direitos cósmicos inatos.

Na memória de muitos leitores deste livro — e na experiência de pessoas em partes menos afortunadas do planeta —, guerra, carestia, doença, ignorância e ameaça letal são uma parte natural da existência. Sabemos os países poderem regredir a essas condições primitivas, portanto é um perigo não darmos o devido valor às realizações do Iluminismo.

Pinker é lembrado frequentemente da necessidade de reafirmar os ideais do Iluminismo também chamado de humanismo, sociedade aberta, liberalismo cosmopolita ou clássico. É porque o esquecimento da dimensão do progresso humano pode levar a sintomas piores se comparado apenas à angústia existencial. Pode levar ao ceticismo com relação às instituições inspiradas no Iluminismo que asseguram esse progresso — por exemplo, a democracia liberal e as organizações de cooperação internacional — e direcionar as pessoas para alternativas atávicas.

Os ideais do Iluminismo são produtos da razão humana, mas vivem em conflito com outras facetas da nossa natureza: lealdade à tribo, acato à autoridade, pensamento mágico, atribuição de infortúnio a elementos malfazejos.

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Evolução dos Sistemas Complexos Emergentes de Interações de Múltiplos Componentes

Ervin Laszlo no livro “A Ciência e o Campo Akáshico: Uma teoria integral de tudo” conta: ele precisava encontrar uma resposta na linha de frente da Ciência à pergunta sobre:

  1. como os sistemas são constituídos e
  2. como eles se relacionam uns com os outros,
  3. como eles mudam e evoluem.

Ele entendia os princípios gerais, e a teoria geral dos sistemas esclareceu-lhe sobre as relações entre sistemas e ambientes. Ainda necessitava a chave para entender como essas relações podem levar a uma evolução integrativa e, em seu todo, irreversível na biosfera, e no universo como um todo.

Para sua surpresa, essa chave foi fornecida por uma disciplina a cujo respeito ele conhecia pouco na época: a termodinâmica do não-equilíbrio. O especialista em termodinâmica Ilya Prigogine, russo de nascimento e laureado com o prêmio Nobel, apresentou o conceito de “estruturas dissipativas”, sujeitas a “bifurcações” periódicas, forneceu a dinâmica evolutiva buscada por Ervin Laszlo.

Depois de discutir esse conceito com Prigogine, seu trabalho passou a focalizar aquilo chamado de “Teoria Geral da Evolução”. O tipo básico de entidade povoadora do mundo transformou-se, em seu pensamento, do “organismo” e do “sistema geral” na “estrutura dissipativa”. Ela se bifurca não-linearmente em um sistema termodinamicamente aberto em evolução. O mundo começava a fazer mais e mais sentido. Continuar a ler

Mais de Quatro Décadas à Procura de uma Teoria Integral de Tudo: Uma Retrospectiva Autobiográfica

A Ciência e o Campo Akáshico é o produto de mais de quatro décadas de procura por significado no âmbito da ciência” afirma Ervin Laszlo no último capítulo de seu livro “A Ciência e o Campo Akáshico: Uma teoria integral de tudo”.

Seu interesse permanente é o de encontrar uma resposta para perguntas como, por exemplo: “Qual é a natureza do mundo?” e “Qual é o significado da minha vida no mundo?” São questões tipicamente filosóficas — embora a maioria dos filósofos acadêmicos da atualidade prefira encaminhá-las a teólogos e poetas —, mas ele não procurou respondê-las por meio da filosofia teórica ou da religião, mas através da Ciência.

Ervin Laszlo era um bem-sucedido pianista de concertos, nunca se matriculou para obter um grau acadêmico, para o qual ele não reconhecia nenhum uso concebível.

Em 1959, depois do nascimento de seu primeiro filho, virou uma nova página: ele se propus a empreender, com propósito e empenho, leituras e pesquisas sistemáticas. O que era, até então, um hobby favorito, tornou-se uma busca metódica.

Começou com os fundamentos da Ciência no pensamento grego clássico e daí ele se voltou para os fundadores da Ciência Moderna antes de chegar à Ciência Contemporânea. Ele não estava interessado nem nos detalhes técnicos, difíceis no treinamento dos profissionais de ciência — técnicas de pesquisa, observação e experimentação —, nem em controvérsias a respeito de delicados aspectos metodológicos ou históricos.

Eu queria ir direto ao âmago da questão: descobrir o que uma determinada ciência poderia lhe dizer a respeito do segmento da natureza investigado por ela. Isso exigia muito trabalho preparatório. As descobertas eram inesperadamente escassas, e consistiam em alguns conceitos e enunciados, normalmente apresentados no final de longos tratados matemáticos e metodológicos. Continuar a ler