Dez Teses para Reinventar as Esquerdas

Imagem: Jasu Hu

Só uma nova política anticapitalista, bem distinta da que prevaleceu nos séculos passados, pode enfrentar a crise civilizatória. Mas mesmo os partidos renovadores precisam mudar. “A política de proximidade é a chave para o futuro”, diz sociólogo

OUTRAS PALAVRASPÓS-CAPITALISMO

Por Boaventura de Sousa Santos

Doutorado em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale e Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa.

Publicado 21/02/2022 às 20:14 – Atualizado 21/02/2022 às 20:37

As eleições gerais do dia 30 de janeiro em Portugal tiveram resultados surpreendentes. O Partido Socialista (PS) ganhou as eleições com maioria absoluta. Portugal será, a partir de agora, o único país europeu com um governo de maioria absoluta de um só partido de esquerda.

Os dois partidos à esquerda do PS tiveram os piores resultados de sempre. O Partido Comunista (PCP), que tinha doze deputados no parlamento, passa a ter metade; e o Bloco de Esquerda (BE), que tinha dezanove deputados, passa a ter cinco. O BE passa de terceira força política para quinta e o PCP, de quarta para sexta.

As posições destes partidos passaram a ser ocupadas por forças de ultradireita, uma de inspiração fascista (Chega), agora terceira força política, da família da extrema-direita europeia e mundial; e outra de recorte hiper-neoliberal, darwinismo social puro e duro, ou seja, a sobrevivência do mais forte (Iniciativa Liberal), agora quarta força política.

Os resultados eleitorais mostram: a esquerda à esquerda do PS perdeu a oportunidade histórica que granjeou depois de 2015 ao construir uma solução de governo de esquerda que ficou conhecida por geringonça (PS, BE, PCP), uma solução que travou a austeridade imposta pela solução neoliberal da crise financeira de 2008 e lançou o país numa recuperação econômica e social modesta mas consistente. Esta solução começou a precarizar-se em 2020 e colapsou em finais de 2021 com a rejeição do orçamento apresentado pelo governo. Foi isso que levou às eleições antecipadas de 30 de janeiro.

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A história do PT e o futuro da democracia

Michal Laub (Eu & FdS – Valor Econômico, 11/11/22) resenhou o livro de Celso Rocha de Barros,

1.“O poder não se toma, se constrói.” A frase, muito ouvida em debates de intelectuais petistas nos anos 1980 e 1990, é citada num trecho de “PT, uma história”, do sociólogo Celso Rocha de Barros, que comecei a ler na semana anterior ao segundo turno (Companhia das Letras, 488 págs.).

Difícil não pensar nela depois da vitória de Lula, quando vimos uma espécie de apocalipse cognitivo em protestos nas estradas, nas cidades. Um grupo chora e canta para comemorar a suposta prisão de Alexandre de Moraes. Uma evangélica reza ao saber que foi decretado o Estado de Defesa. Nada disso teria chance de ocorrer num ambiente conservador quinze, talvez dez anos atrás – não com personagens usando essa linguagem, mostrando essa percepção da realidade.

Como surgiu o atual extremismo? Há explicações para todo gosto, indo do marxismo ortodoxo (que falará das crises econômicas, dos paradoxos do capitalismo tardio que criou a internet) ao tecnicismo psicologizante (para quem o vilão é apenas o WhatsApp ou o TikTok, com seus efeitos histéricos que independem de contexto).

O mais provável é que a resposta seja mista: há razões estruturais para a descrença nas instituições representativas, mas também certa aleatoriedade no ambiente onde ela se expressa – uma forma de comunicação inédita, que obedece a lógicas às vezes imprevistas até por quem projeta algoritmos e plataformas.

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PT, uma História: livro de Celso Rocha de Barros

Maria Cristina Fernandes_ A trajetória de um partido improvável _ Eu & _ Valor Econômico (14/10/2022) escreveu um artigo-resenha sobre o livro de Celso Rocha de Barros em “PT, uma história” (Companhia das Letras, 2022).

Ambos são conhecidos pelo diminutivo de seus nomes, presidiram os maiores sindicatos de metalúrgicos do país, de São Bernardo do Campo e de São Paulo e, no mesmo ano, elegeram-se para comandar as duas maiores centrais sindicais do país, CUT e Força Sindical. Em 2 de outubro, o destino dos deputados federais Vicente Paulo da Silva (PT-SP) e Paulo Pereira da Silva (SD-SP) voltou a se cruzar.

Depois de cinco e quatro mandatos consecutivos, respectivamente, tanto Vicentinho quanto Paulinho ficarão fora da próxima legislatura. Some-se aí o insucesso da reeleição de Orlando Silva (PCdoB-SP), o parlamentar mais próximo de uma terceira central sindical, a CTB, e se configura o quadro de desempenho da bancada sindical. Do auge, em 2010, quando fez 81 parlamentares, restarão 33, uma redução de um quarto em relação à atual legislatura da Câmara dos Deputados.

No mesmo 2 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva fez seu melhor primeiro turno das seis eleições presidenciais de que participou, mas foi surpreendido pela resiliência do bolsonarismo que colocou o presidente da República no segundo turno a uma distância inferior à projetada pela campanha petista e pelos institutos de pesquisa.

O resgate daquilo que se passou entre a emergência dos metalúrgicos na política e a vantagem apertada de Lula na nona disputa presidencial do partido é tema de Celso Rocha de Barros em “PT, uma história” (Companhia das Letras, 2022). Como previu Perry Anderson, ao defini-lo como o único partido de massas surgido do movimento sindical depois da Segunda Guerra Mundial, nunca foi uma história previsível.

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As Falsas Simetrias para Justificar Terceira Via

No caso brasileiro, Thomás Zicman de Barros e Miguel Lago, coautores do livro Do que falamos quando falamos de populismo (São Paulo: Companhia das Letras. Edição do Kindle; 2022) oferecem. um exemplo claro de outro expediente a que a palavra “populismo” se presta.

Como foi feito no outdoor em Uberaba, esse termo serve para criar uma simetria entre Lula e Bolsonaro — que, como veremos, é falsa até a raiz. A ideia principal reproduzida no anúncio publicitário exibido em Uberaba é a de o populismo ser uma doença e Bolsonaro e Lula serem ambas opções indesejáveis e similares.

Não é de admirar uma peça de propaganda transmitir uma mensagem tão simplista e tão reducionista de um fenômeno político. Essa é a linguagem desse tipo de material.

Surpreende, no entanto, os comentários de jornalistas e políticos, ao se apropriarem do termo, sigam uma acepção tão rasa quanto a do outdoor. Grandes empresas de comunicação costumam publicar editoriais com afirmações nessa mesma linha: “bolsopetismo em festa”, “único caminho para derrotar o populismo”, “uma escolha muito difícil”, entre tantas outras.

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Um Espectro ronda o Mundo: o Espectro do Populismo

Thomás Zicman de Barros e Miguel Lago, coautores do livro Do que falamos quando falamos de populismo (São Paulo: Companhia das Letras. Edição do Kindle; 2022), analisam um anúncio político típico da Terceira Via: “Eu quero um Brasil sem covid, sem Bolsonaro, sem Lula e livre do populismo.”

Esses são os dizeres de um outdoor montado em Uberaba (MG) pelo movimento político Livres, em setembro de 2021. Foi muito veiculado nas redes sociais.

Deixando claro o sentimento de repúdio dos autores da peça publicitária, os rostos de Jair Messias Bolsonaro (à direita) e Luiz Inácio Lula da Silva (à esquerda) aparecem rabiscados.

A mensagem não poderia ser mais eloquente:  em primeiro lugar se deseja um Brasil sem covid-19 — isto é, um Brasil saudável, sem pandemia, sem doença, sem vírus. Do vocabulário da saúde logo se passa para o da política, com o termo “sem Bolsonaro” equivalendo ao “sem covid” — ou seja, o atual presidente da República comparado a uma doença.

A mensagem reforça o mesmo tom quando se agrega à frase o “sem Lula” — o ex-presidente da República, que recuperou seus direitos políticos em março de 2021 e se tornou um forte candidato na disputa pelo Palácio do Planalto, seria um mal equivalente a Bolsonaro e à pandemia.

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História do Populismo no Brasil

Em tempos recentes, a palavra “populismo” tem se tornado muito mais frequente no noticiário, porém as palavras não surgem do nada. As palavras, e sobretudo o significado lhes atribuído, têm uma história.

Antes de Thomás Zicman de Barros e Miguel Lago, coautores do livro Do que falamos quando falamos de populismo (São Paulo: Companhia das Letras / Edição do Kindle; 2022), se debruçarem sobre o populismo, é preciso compreender o contexto no qual esse termo entrou para o vocabulário dos brasileiros. Afinal, embora hoje seja empregada com tanta naturalidade, ainda que com pouquíssimo rigor, essa palavra nem sempre fez parte da nossa linguagem corrente.

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Uma História e Uma Definição de Populismo

Thomás Zicman de Barros e Miguel Lago são coautores do livro Do que falamos quando falamos de populismo (São Paulo: Companhia das Letras / Edição do Kindle; 2022).

Nesse emaranhado de usos tão vagos e instrumentalizados, os especialistas não teriam algo a nos dizer? Os intelectuais não conseguiriam tomar distância das disputas políticas mais mesquinhas e nos explicar, afinal, o que é o populismo?

Sem dúvida, o interesse pelo populismo também é grande entre os analistas. Há uma avalanche editorial sobre o tema — um “hype” populista na academia, como alguns dizem. Apesar disso — e talvez justamente por causa disso —, o sentido desse termo permanece muito vago.

Em meio à cacofonia, há acadêmicos segundo os quais “populismo” é um conceito essencialmente contestado, com definições imprecisas, não consensuais e de utilidade analítica questionável. De qualquer forma, essa confusão não é de hoje.

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Corredor Estreito entre o Estado de Direito da Sociedade Civil e o Estado de Exceção da Sociedade Política sob Militares

Diego Viana (Valor, 01/07/22) entrevistou um dos dois coautores do livro “Por que as nações fracassam”, publicado em 2012 nos Estados Unidos. O Brasil foi citado como exemplo de sociedade onde se construía instituições inclusivas graças a um consenso nacional.

Os autores, o cientista político James A. Robinson, da Universidade de Chicago, e o economista Daron Acemoglu, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), mostravam admiração pela coalizão de forças democráticas reunida a partir dos anos 1970 para redemocratizar o país e iniciar a Nova República sob o signo da inclusão.

“Parecia que estava surgindo algo realmente novo”, afirma Robinson, em entrevista ao Valor. Para o cientista político, especializado em política da América Latina e da África, a instabilidade brasileira a partir de 2013, com escândalos de corrupção e o esfacelamento de partidos tradicionais, não chega a ser surpreendente, já que o processo de democratização das sociedades se dá, muitas vezes, com “dois passos para frente e um para trás”.

Robinson adverte, porém, que também é possível dar dois, ou até três passos para trás, algo que não é incomum na América Latina. O exemplo mais preocupante, diz, é o da Nicarágua. Por outro lado, Robinson interpreta as vitórias de Gabriel Boric, no Chile, e Gustavo Petro, na Colômbia, como reflexos da democratização das sociedades desses países. Sua maior preocupação, hoje, está nos Estados Unidos, onde a sociedade excessivamente polarizada pode abrir espaço para que o Estado atue sem controle.

Por que as nações fracassam” está sendo relançado no Brasil pela Intrínseca junto com outro livro da dupla, “O corredor estreito”, publicado nos EUA em 2019. As duas obras são complementares, segundo Robinson, porque o primeiro livro busca mostrar a relação inseparável entre instituições econômicas inclusivas e instituições políticas igualmente inclusivas; já o segundo mostra como a construção dessas instituições ocorre historicamente.

Construir sociedades democráticas e prósperas é um processo demorado, incerto e reversível, argumentam os autores. Por um lado, há sociedades fracas, dominadas por governos fortes, como em regimes ditatoriais. Por outro, há governos fracos, em que a sociedade age sem controle do governo, como em muitos países da África. Entre esses dois cenários, está o “corredor estreito” onde um lado exerce controle sobre o outro e a democracia floresce.

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Sociedade Age e Democracia Reage

A identificação dos brasileiros com o espectro ideológico de esquerda cresceu e alcança hoje 49% da população, segundo o Datafolha. O percentual abrange ideias sobre comportamento, valores e economia. É o mais alto da série histórica para a pesquisa, iniciada em 2013.

De 2017, ano seguinte ao golpe, quando foi realizado o levantamento anterior, para cá, o perfil ideológico mudou: antes havia uma divisão mais igualitária entre direita (40%) e esquerda (41%). Agora, sofrendo com um desgoverno de extrema-direita, incapaz de atender à demanda social, o igualitarismo se tornou a opção é predominante.

A pesquisa, feita a partir de respostas dos entrevistados a perguntas sobre temas que separam as duas visões de mundo —como drogas, armas, criminalidade, migração, homossexualidade, intervenção governamental na economia e impostos—, mostra 34% têm ideias próximas à direita e 17% se localizam ao centro.

Segundo pesquisa Datafolha, em dezembro de 2021, o Partido dos Trabalhadores é o preferido de 28% dos entrevistados. Em um muito distante segundo lugar, aparecem empatados PSDB e MDB, ambos com 2% cada um. Empatados tecnicamente com eles, PDT e PSOL têm cada um 1%. Os demais partidos não chegaram a pontuar, ou seja, 2/3 da população brasileira não têm preferência partidária.

Não à toa, corresponde grosso modo à última pesquisa eleitoral do Datafolha: Lula tem 48% das intenções de voto e Bolsonaro, 27%. Na sequência, em patamar mais baixo de intenção de voto estão Ciro Gomes (PDT), com 7%, André Janones (Avante), com 2%, Simone Tebet (MDB), com 2%. Considerando os votos válidos, quando são excluídos os votos em branco ou nulo e os indecisos, Lula alcança 54% das menções e Bolsonaro, 30%. Este não agrada mais nem mesmo a todos os brasileiros conservadores.

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Liszt Vieira: A Democracia Reage

Há 40 anos, conheci Liszt Vieira ao participar de seu comitê eleitoral em 1982. Foi a primeira campanha realizada por militantes do PT. A eleição de 1974 ficou marcada na história política da esquerda brasileira como uma guinada com o abandono da tática de luta armada em favor da estratégia democrática.

A eleição de 1982 ficou registrada como a primeira na qual a Geração 68 colocou em pauta temas libertários como ecologia, feminismo, homossexualismo, antirracismo. Em uma campanha na qual se marcou época, conseguimos eleger Liszt Vieira como o primeiro deputado estadual “verde” por um partido “vermelho”.

As candidaturas concorrentes nos chamavam de “veados verdes”. Desenhei e uma namorada costurou para mim um viadinho verde em cetim na camiseta para provocar. Eu era o disk jockey das festas temáticas com as quais arrecadamos todo o dinheiro gasto na campanha vitoriosa.

Depois, Liszt participou de debates sobre a criação do Partido Verde e esteve entre os fundadores da Rede Sustentabilidade. Deixou o partido por conta de sua personalização política. O culto à personalidade ainda é um problema a ser superado pela esquerda.

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Exercícios de Imaginação por 451

Heloisa Starling é autora do artigo-resenha sobre o livro :

Arendt, Hannah
Pensar sem corrimão 
Org. Jerome Kohn; Trad. Beatriz Andreiuolo, Daniela Cerdeira, Pedro Duarte, Virginia Starling; Rev. técnica Eduardo Jardim.Bazar do Tempo • 640 pp • R$ 92

“Pare e pense.” No outono de 1955, essa frase deu a partida, na Universidade da Califórnia, em Berkeley, para o mais original curso ministrado por Hannah Arendt. Ela não era desconhecida em Berkeley. Ao contrário, a publicação de As origens do totalitarismo, em 1951, forneceu à autora, quase de imediato, um reconhecimento acadêmico incomum.

O inglês continuava sofrível, as aulas geralmente percorriam os pensadores a quem ela sempre retornava — Maquiavel, Hobbes, Rousseau, Montesquieu, Locke, Tocqueville, Marx — e os cursos vinham embalados em títulos como “Palestras: de Maquiavel a Marx”; “Vico e a teoria da história”; “Proposições morais básicas na política: São Paulo, Santo Agostinho, São Tomás, Dante, Maquiavel, Francis Bacon”; “Política e filosofia: Platão, Aristóteles, Parmênides”.

Chovia aluno. E Arendt devia sentir-se zonza com a forte impressão que provocava entre a estudantada ansiosa e interessada que acorria às suas aulas e palestras, em qualquer campus onde pisasse.  

Mas, em Berkeley, ela exagerou — o curso era incomum demais. Destinado aos universitários de graduação, tinha o formato de um seminário semanal com duas horas de duração, intitulado “Questões contemporâneas”. Logo na primeira sessão, Arendt expôs o roteiro do que aconteceria ao longo do semestre; deve ter provocado calafrios.

Os alunos precisariam construir a biografia de um personagem imaginário — homem ou mulher — nascido em fins do século 19, interessado em determinados eventos políticos do século 20. O biografado não poderia ser nem protagonista nem ativista político; tampouco seria um alienado, alguém que se posicionasse confortavelmente à margem da sociedade. Era apenas um observador: vivia o cotidiano, escrutinava os acontecimentos. 

Foi só o começo. Arendt formulou marcos de referência panorâmicos para os eventos que o personagem teria necessariamente de observar. O cardápio incluía “Primeira Guerra Mundial”, “Pós-guerra”, “Espírito da revolução”, “Totalitarismo”, “Segunda Guerra Mundial”, “Formas de resistência”. O último marco, “Mundo contemporâneo”, foi subdividido em “Sociedade de massas” e “Ciência e política”. De quebra, preparou uma bibliografia insólita até mesmo para seus próprios padrões. Combinava história, teoria política e um bocado de literatura: entre outros, Faulkner, Brecht, Hemingway, T. E. Lawrence, Pasternak, Orwell, René Char, Camus.    

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Ditadura Modelo Exportação por 451

João Roriz é o autor da resenha do livro:

Simon, Roberto. O Brasil contra a democracia: a ditadura, o golpe no Chile e a Guerra Fria na América do Sul São Paulo; Companhia das Letras • 584 pp • R$ 104,90

Convidado a pensar a condução das relações internacionais pela ditadura, o embaixador George Maciel começou sua palestra assim: “tenho a nítida impressão, em primeiro lugar, de que, de todas as áreas do governo, a política externa brasileira foi das menos afetadas pelo regime militar de 1964, tanto na sua formulação quanto na sua execução”. Na avaliação do diplomata, com o tempo, a política externa do período teria até “evoluído positivamente” para chegar a uma “quase normalidade”.

Em março de 1994, um evento no Rio de Janeiro reuniu Leonel Brizola, Roberto Campos, Franco Montoro, Márcio Moreira Alves e outros personagens que colaboraram com ou lutaram contra a ditadura brasileira. Intitulado “1964 – 30 anos depois”, os palestrantes consideraram, com a distância do tempo, as consequências do regime militar na política, no direito, na economia, na cultura e na sociedade brasileira. 

Convidado a pensar a condução das relações internacionais pela ditadura, o embaixador George Maciel começou sua palestra assim: “tenho a nítida impressão, em primeiro lugar, de que, de todas as áreas do governo, a política externa brasileira foi das menos afetadas pelo regime militar de 1964, tanto na sua formulação quanto na sua execução”. Na avaliação do diplomata, com o tempo, a política externa do período teria até “evoluído positivamente” para chegar a uma “quase normalidade”.

A tese de que o Itamaraty teria passado incólume ao autoritarismo do regime militar brasileiro persistiu para além do fim do regime e ainda consta em livros sobre a política externa brasileira. Além de não corresponder aos fatos, essa tese impossibilita uma análise crítica do autoritarismo que persiste nas instituições e na circulação de ideias no Brasil. 

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