Populismo

Em busca da razão populista

O populismo tende a negar qualquer identificação ou classificação com a dicotomia direita/esquerda. Trata-se de um movimento multiclassista, embora nem todo movimento multiclassista possa ser considerado populista. O populismo, provavelmente, desafia qualquer definição abrangente.

O populismo inclui, usualmente, componentes contrastantes, tais como:

  • a reivindicação da igualdade de direitos políticos e da participação universal das pessoas comuns,
  • mas funde-se com algum tipo de autoritarismo, frequentemente, sob uma liderança carismática.

Ele inclui também:

  1. demandas socialistas ou pelo menos demanda da justiça social,
  2. uma vigorosa defesa da pequena propriedade,
  3. componentes fortemente nacionalistas, e
  4. a negação da importância da classe.

O populismo é acompanhado pela afirmação dos direitos das pessoas comuns de enfrentarem os interesses de grupos privilegiados, habitualmente considerados “inimigos do povo e da nação”. Continuar a ler

A Razão Populista

Ernesto Laclau

Ernesto Laclau nasceu na Argentina, em 1935. Foi professor emérito de teoria política na Universidade de Essex (Grã-Bretanha). Licenciou-se em história pela Universidade de Buenos Aires e fez seu doutorado na Inglaterra nos anos 1970. Morreu em abril de 2014 em Sevilha, na Espanha. É autor de Política e Ideologia na Teoria Marxista (Paz e Terra, 1978), Hegemony and Socialist Strategy (Verso, 1985) e Emancipação e Diferença (EdURJ, 2011).

A razão populistaSob o rótulo de “populismo“, o pensamento político tem caracterizado manifestações em que o povo estabelece conexão direta com uma liderança, desestabilizando a democracia representativa.

Mas para Ernesto Laclau a flexibilidade com que o conceito é aplicado a situações as mais contraditórias, tanto à direita, como à esquerda, revela a dificuldade de entender o populismo.

Ernesto Laclau, um dos mais respeitados filósofos políticos latino-americanos, que morreu no ano passado, revê no livro – A Razão Populista (São Paulo: Editora Três Estrelas; 2013) – a literatura histórica e filosófica sobre o populismo, sobre a psicologia das massas e os movimentos populares. Ele demonstra que o populismo não é uma ideologia nem uma conduta irracional, mas segue uma lógica específica, relacionada às identidades coletivas e às demandas sociais. Continuar a ler

Pensamento do Intelectual Liberal-Tucano

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Comprei e li o livro Tribunos, profetas e sacerdotes : Intelectuais e ideologias no século XX (1a. ed. — São Paulo : Companhia das Letras, 2014. 226 páginas) de autoria de Bolívar Lamounier para entender o pensamento do intelectual liberal-tucano e o surgimento de ódio antipetista. Essa identificação fica nomeada logo nos “Agradecimentos”, quando além de enumerar vários intelectuais participantes do Governo FHC, agradece explicitamente também ao Instituto de Estudos de Política Econômica Casa das Garças (vulgo “Ninho de Tucanos”), ao Instituto Fernando Henrique Cardoso e ao Programa de Mestrado em Direito e Desenvolvimento da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro.

Porém, ele chega ao ataque direto ao seu alvo apenas na página 174, depois de longo “cerca Lourenço”: “a fundação do Partido dos Trabalhadores é o fato a destacar na virada dos anos 1970 para os 1980. Reunindo egressos da luta armada, setores do sindicalismo, uma parte do clero, católicos de esquerda e, naturalmente, um grande número de estudantes e intelectuais, o PT apresentava-se como o ‘novo’: uma forma de fazer política sem precedente na história brasileira”.

Ironiza o basismo que se insurgiu contra o caciquismo dos partidos tradicionais como o do PSDB: “orientar-se-ia produção uma rigorosa pureza ética, combatendo a corrupção e o clientelismo; em seu funcionamento interno, observaria à risca o ideal romântico da democracia direta, consubstanciado no assembleísmo e num discurso evocativo do mandato imperativo”. Não entende a diferença entre o centralismo democrático e as decisões tomadas em um elegante jantar de FHC, Serra, talvez Alckmin, e, antes, Tasso Jeiressati, agora, Aécio… Só. Continuar a ler

Intelectual como Tribuno do Liberalismo

Bolívar Lamounier

Com o livro Tribunos, profetas e sacerdotes : Intelectuais e ideologias no século XX (1a. ed. — São Paulo : Companhia das Letras, 2014. 226 páginas), Bolívar Lamounier retoma o papel de ideólogo do liberalismo, assumindo o papel político de uma corrente dos intelectuais.

Usa o termo liberalismo em sua acepção predominantemente política, distinto do liberalismo econômico que adota política econômica pró-mercado não intervencionista, abrangendo:

  1. os fundamentos teóricos e
  2. os modelos organizacionais da democracia representativa.

Em sua defesa, assume uma falsa antinomia, supondo o monopólio liberal da defesa da liberdade e democracia: “quem diz liberalismo diz antiliberalismo; quem diz democracia diz ditadura, autoritarismo e totalitarismo.” É uma falsa dicotomia (e sectário) colocar tudo de bom de um lado (o seu lado) e tudo de ruim no outro lado (o do adversário ideológico). Esse liberalismo “parlamentar” não responde, por exemplo, à demanda social por igualdade e fraternidade. O intervencionismo econômico justifica-se pelo igualitarismo, seja entre riquezas das Nações, seja entre rendas de regiões e indivíduos. Continuar a ler

Tribunos, Profetas e Sacerdotes : Intelectuais e Ideologias no Século XX

Tribunos Profetas e Sacerdotes

Bolívar Lamounier é graduado em Sociologia e Política pela Universidade Federal de Minas Gerais com pós-doutorado em Ciência Política pela Universidade da Califórnia em Los Angeles. Apresenta-se como PhDeus por ser autor e organizador de diversos livros, entre os quais “Os Partidos e as Eleições no Brasil”, em coautoria com Fernando Henrique Cardoso. Este foi publicado em 1975, no ano seguinte à derrota eleitoral imposta ao regime militar pelos eleitores brasileiros, inflamados pelos movimentos sociais organizados, em circunstância da retomada inflacionária advinda do “primeiro choque de petróleo”. Entretanto, Lamounier superestima o papel dos intelectuais, tipo “FHC”, e subestima o papel dos indivíduos anônimos militantes nos movimentos sociais em certas circunstâncias.

Bolívar Lamounier dá essa impressão no livro Tribunos, profetas e sacerdotes : Intelectuais e ideologias no século XX (1a. ed. — São Paulo : Companhia das Letras, 2014. 226 páginas). De cara, ele reconhece que “como substantivo, o termo intelectual aparece com um claro objetivo de rotular e desqualificar adversários numa contenda pública”. Continuar a ler

Entendendo o Poder

Castas Valores e Ocupações

A abordagem sociológica conjunta marxista-weberiana é a base do livro de David Priestland, Uma Nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro, Sábio (São Paulo; Companhia das Letras; 2014). Porém, tem um ponto fraco: ela se preocupa demais com as estruturas e organizações sociais e tem muito pouco a dizer sobre a cultura e a experiência subjetiva.

Se quisermos entender o Poder, precisamos compreender:

  1. de que modo os membros das redes de Poder pensam e agem, e
  2. por que seus valores podem ter uma atração mais ampla, para além do seu próprio grupo, com o predomínio cultural que Antônio Gramsci chamou de hegemonia.

Com Priestland defende em seu livro, não é apenas o poder político e econômico do comércio que explica a influência da Economia de Livre Mercado, desde os anos 1970, quando houve o fim do Acordo de Bretton Woods e o regime de câmbio tornou-se flexível ou flutuante. É também a sua capacidade de convencer as elites e os eleitorados de que essa visão de mundo é correta. Continuar a ler

Uma Nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro, Sábio

Um Nova História do Poder

David Priestland, nascido na Inglaterra em 1964, é professor de História na Universidade de Oxford desde 1992. Publicou um extraordinário ensaio (São Paulo; Companhia das Letras; 2014) sob o título acima, em que que procura estabelecer as bases para soluções da crise que vivemos, convidando a repensar nossa história.

Só podemos começar a resolver nossos problemas atuais se tivermos uma visão clara do passado. A história é o único guia que temos para o futuro. Assim, antes de avançar, temos que retroceder, para entender:

  1. como chegamos aqui,
  2. o que deu errado e
  3. por quê.

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