Identidade Nacional: Qualé?

selo_debrunNo final da década de 80, Michel Debrun trabalhava na introdução de um livro sobre a identidade nacional brasileira, que permanece inédito até hoje. O Jornal da  Unicamp publicou (Identidade: Tema Central de Michel Debrun) alguns excertos do  esboço dessa introdução, cuja versão integral pode ser consultada nos arquivos do  Centro de Lógica da Unicamp.

Nestes apontamentos, Debrun delineia sua concepção do modelo identitário brasileiro e tece considerações sobre seus principais traços. Neste momento de um golpe jurídico-midiático-parlamentarista em andamento no Brasil e de intolerância e ódio mútuos entre “coxinhas” e “mortadelas”, vale resgatar suas observações de um arguto observador estrangeiro da cena brasileira.

O que é ser brasileiro? Será mesmo que faz sentido falar desse “ser”? É fácil afirmar a existência da nação brasileira, se atentarmos apenas para os aspectos geográficos, jurídicos ou diplomáticos. E definir a identidade brasileira como o atributo, a etiqueta do conjunto populacional, ou dos indivíduos, que vivem dentro desse quadro formal. Mas parece que Nação e identidade nacional exigem algo mais. Como, por exemplo, um consenso em torno de certos valores, e uma diferença entre ele e outros tipos de consenso, ou entre diferentes consensos nacionais. Ora, desde os fins do século XIX, muitos têm duvidado seja da coesão brasileira seja da diferença específica do Brasil. Continue reading “Identidade Nacional: Qualé?”

Neofascistas da Rede Social: Analfabetos Políticos

Jean Wyllys

Há uma hipótese, ainda não comprovada ou falseada, de que a geração de jovens mal formados em “faculdades de segunda linha” teria obtido consciência política, após 2003, como opositora de O Governo (PT, Lula e Dilma). Isto porque teria sido formada com ideologia neoliberal típica de pessoas emergentes que se supõem ser empreendedoras apenas com sua mobilidade social!

Leitora acrítica de revistas direitistas tipo Veja e jornais repletos de colunistas manipuladores da opinião pública, como O Globo, Estadão e Folha, crê em tudo que assiste na TV e escuta nos púlpitos. Ela não teria repertório de informações suficiente para analisar o que era antes de 2003 e, principalmente, na época da ditadura militar (1964-1984) no Brasil. Uma amostra dessa falta de cultura geral foi o panfleto escrito por “três patetas” (procuradores do MP paulista) em que confundem Engels com Hegel!

Púlpito é tribuna geralmente elevada, situada lateralmente dentro de uma igreja, de onde o sacerdote faz o sermão aos fiéis. Em igrejas católicas, geralmente, é coberta por uma cúpula que concentra a voz do orador, dirigindo-a para baixo, isto é, para “os fieis” submissos. Nas catedrais e paróquias mais prósperas, costuma ser ricamente decorada. Em templos protestantes, os bispos discursam em palco com microfone em punho, vociferando a pregação religiosa motivacional para os crentes.

No livro de Márcia Tiburi (1970- ), “Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro” (1a . ed. – Rio de Janeiro : Record, 2015), o deputado Jean Wyllys escreveu o relevante prefácio. Compartilho, de maneira editada, abaixo. Continue reading “Neofascistas da Rede Social: Analfabetos Políticos”

Direita, Volver! Vou ver…

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Este livro da Fundação Perseu Abramo — http://novo.fpabramo.org.br/sites/default/files/Direita%20volver%20Final.pdf — constitui uma primeira tentativa de mapear o fenômeno do retorno da direita à cena política no Brasil, situando-o no contexto histórico e internacional. Procura traçar um quadro abrangente dele, que levasse em conta suas múltiplas dimensões e aspectos.

Mas trata-se, é bom dizer desde logo, de um esforço preliminar, em dois sentidos.

Primeiro, com os estudos reunidos procura explorar o campo da direita no Brasil, tal como ele se mostra agora, e esboçar alguns elementos de interpretação que ajudem a entender sua emergência e seu significado. Mas está inteiramente ausente do livro a pretensão de explicar o fenômeno e muito menos avançar em recomendações sobre como tratá-lo em termos práticos.

Segundo, embora envolva vários colaboradores, este livro não resulta de um esforço coletivo, em termos estritos. Dada a urgência imposta pela conjuntura brasileira nesta quadra histórica, não dispúnhamos de tempo hábil para promover encontros e debates, a fim de apurar os nossos argumentos e dar-lhes maior unidade.

O livro reflete, assim, a vontade comum em responder ao desafio intelectual e político lançado pela reemergência da direita desinibida entre nós. Mas os capítulos foram redigidos isoladamente por seus respectivos autores, a quem corresponde todo o mérito pelo trabalho realizado. No mesmo sentido, a responsabilidade pelo livro em seu conjunto, e suas eventuais falhas, é assumida exclusivamente aos organizadores, como eles afirmam abaixo. Continue reading “Direita, Volver! Vou ver…”

Como Conversar Com Um Fascista

Como conversar com um fascista

Sinais do nosso tempo: o livro de Márcia Tiburi (1970- ), “Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro” (1a . ed. – Rio de Janeiro : Record, 2015) tornou-se um best-seller. Seus textos – artigos publicados na revista Cult – têm um propósito filosófico-político: pensar com os leitores sobre questões da cultura política experimentada diariamente, de um modo aberto, sem cair no jargão acadêmico. O jargão assombra muita gente leiga, limitando o alcance público da reflexão.

É com a linguagem que fazemos Filosofia. A Filosofia é um acontecimento da linguagem. A linguagem disponível é a “língua de todo mundo” que usamos diariamente para nos comunicar e nos expressar. Mas existe um jeito de reunir os “jogos de linguagem”, um elemento que constrói o “comum”: o diálogo.

Talvez isso que atraia leitores para o livro. Insistir em uma “filosofia em comum” com seus pares, gente do lado que, na gana de fazer oposição desenfreada a um governo que alcançou o quarto mandato eleitoral, passou a ter um comportamento fascista. Quando a conversa não é um simples consenso, é necessário muito esforço para obter diálogo.

Porém, a formação da subjetividade para o diálogo é algo que importa quando desejamos uma sociedade democrática, quando o autoritarismo cresce e aparece. Diálogo é a forma específica do ativismo filosófico. A democracia que salvaguarda os direitos e impede a violência está ameaçada em todos os espaços da cultura, das instituições e do cotidiano. Não podemos fingir que nada está acontecendo enquanto muitos descobrem essa verdade na própria pele.

“O pensamento não é neutro: ou ele é confirmação do estado de coisas, ou é crítico e transformador das subjetividades na direção de um pensamento lúcido entrelaçado a práticas lúcidas em tempos obscurantistas.” Em nome disso que o livro de Marcia Tiburi, “Como conversar com um fascista”, foi escrito.

Na ótima Apresentação feita por Rubens Casara, que aqui compartilharei de maneira editada, ele afirma que as diversas manifestações neofascistas e o crescimento de posturas autoritárias indicam que não há razão para temer o ovo da serpente, pois a serpente já existe e está dentro de cada um de nós. Em outras palavras, há uma tradição autoritária, uma cultura discriminadora, que coloca cada um na posição de um fascista em potencial. Continue reading “Como Conversar Com Um Fascista”

Comprovação da Tese de Jessé Souza: a inteligência (sic) brasileira demoniza o Estado, enquanto o povão o santifica.

Estado X Mercado

É impressionante como a leitura maniqueísta do mesmo texto por leitores de ideologias antagônicas torce e distorce a favor de cada qual. O que o escritor escreve nas linhas o antagonista lê o oposto nas entrelinhas!

Este parece ser o caso das últimas resenhas do livro de Jessé Souza publicadas por Sérgio Lamucci (Valor, 10/02/16) e Marcus André Melo (FSP, 31/01/16). O primeiro respalda o credo liberal de seu jornal e o segundo também não trai seu locus profissional: Marcus André Melo é professor titular de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco e foi professor visitante nas universidades Yale e MIT.

Ambos buscam rebater o mal entendimento da alegação do sociólogo Jessé Souza, no livro recém publicado — https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2016/01/17/a-tolice-da-inteligencia-brasileira-como-o-pais-se-deixa-manipular-pela-elite/ –, de que haveria “uma demonização do Estado na sociedade brasileira“. Atirando no alvo errado, porque leram e não entenderam o correto, eles acabam por comprovar o acerto do título! 

Dão a impressão de não terem refletido profundamente nem sobre o título do livro ao generalizar para “a sociedade brasileira” o que Jessé Souza designa, especificamente, para “os (supostos) indivíduos de grande inteligência, cabeça, cérebro, sumidade”. Assim, Melo acha que contra-argumenta bem ao dizer que, “pelo contrário, na história do Brasil o poder e o papel do Estado têm sido exaltados, em contraste com a tradição da democracia liberal”.

Ora, ora, o que Jessé Souza aponta é a divisão ideológica nesse olhar para a sociedade brasileira:

  • a inteligência dos párias brasileiros (e seus defensores), que dependem de (e defendem) os gastos sociais do Estado, e
  • a desinteligência de sua casta de sábios, que — como sacerdotes prestadores de serviços à casta de comerciantes-financistas — se ocupam em pregar, continuamente, o credo liberal contra o Estado desenvolvimentista e a favor do Estado mínimo.

Confira as duas resenhas neoliberais abaixo. Antes, lembre-se que maniqueísta é aquele que:

  1. pertence à seita do maniqueísmo — qualquer visão do mundo que o divide em poderes opostos e incompatíveis;
  2. crê no dualismo religioso ou filosófico;
  3. só concebe o bem e o mal em termos absolutos.

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PiG (Partido da Imprensa Golpista): “O Quarto Poder: Uma Outra História”

PHA - O Quarto PoderTrecho do livro de Paulo Henrique Amorim “O Quarto Poder: Uma Outra História” – um subtítulo muito bem escolhido, pois resume seu conteúdo – uma imperdível história da manipulação de informações por parte da mídia brasileira:

“Este livro dá opinião.

Mas, procura evitar, porque prefere informação a opinião.

Opinião, mesmo, dou em meu blog Conversa Afiada.

Este livro trata do PiG, Partido da Imprensa Golpista, expressão que difundi no Conversa Afiada.

O PiG é composto de O Globo, Folha, Estadão e seus subprodutos.

A Abril não é propriamente do PiG, porque a “aristocracia” do PiG jamais aceitou os judeus italianos da Abril em seus salões.

A Abril e a Veja se incorporavam ao PiG por interesse. E pelos mesmos interesses eram aceitos, desde que ficassem na cozinha.”

Outro trecho de Paulo Henrique Amorim, no capítulo do livro “O Quarto Poder: Uma Outra História”, intitulado Jornalismo de economia: ralo e falso. Continue reading “PiG (Partido da Imprensa Golpista): “O Quarto Poder: Uma Outra História””

A Invenção do Povo Judeu

 

A Invenção do Povo JudeuA Invenção do Povo Judeu: da Bíblia ao Sionismo (São Paulo: Benvirá; 2011) ficou 19 semanas na lista de livros mais vendidos em Israel, em 2008. Ele é alvo de polêmica acirrada onde quer que seja lançado. Neste trabalho iconoclasta, ao questionar a identidade dos judeus como nação, o historiador Shlomo Sand, assumidamente judeu, sugere as bases para uma nova visão do futuro político da “Terra Prometida”.

Amparado em farta pesquisa, apresentada em 555 páginas, o autor questiona o discurso historiográfico canônico e formula a tese de que os judeus sempre formaram comunidades religiosas importantes em diversas regiões do mundo, mas não constituem uma nação portadora de uma origem única. O conceito de Estado-Nação é, portanto, posto em xeque, assim como a ideia de Israel como um Estado pertencente aos judeus do mundo todo – aqueles que escolheram outra pátria em vez de retornar à terra de seus ancestrais.

Para o autor, Israel deveria reconhecer seus habitantes, sejam eles israelenses ou palestinos. Publicado em dez línguas, este é um livro questionador, e por isso mesmo necessário, assim como todos os que se propõem a lançar novas luzes sobre a História e seus mitos. Continue reading “A Invenção do Povo Judeu”