Brasil em Movimento: História do Futuro em Construção

Maria Borba, Natasha Felizi e João Paulo Reys, no livro “Brasil em movimento – Junho de 2013”, entrevistaram Daniel Aarão Reis. Ele não concorda com a ideia de “traços estruturais” que se mantêm ao longo de tantos séculos. Pode fazer a história parecer congelada, e a história, como disse antes, é sempre mudança, variação.

Feita a ressalva, o passado precisa ser considerado, porque há aspectos que, modificando-se, adaptando-se e transformando-se, marcam especificidades. A perspectiva do “saque” [extrativismo], de sugar tudo que se possa no mínimo tempo possível, foi construída no mundo colonial e, mesmo modificada, é uma característica do capitalismo brasileiro que se estende por toda a sociedade, tendo implicações nas concepções de “público” e de “privado”.

A noção de hierarquia também vem entranhada desde remotos tempos. Para os “de baixo”, a Lei e o Pau. Para os “de cima”, embargos infringentes. A “aristocratização” de nossas elites dominantes− do mundo dos negócios ao mundo político − é outra expressão atual de um processo histórico que tem fundamentos coloniais.

A crueldade com que se tratam os “não cidadãos” [párias] − embora já tenha sido consagrada juridicamente a ideia de que “todos são iguais perante a lei” − é também outra característica relevante e naturalizada. Basta ver como se tortura alegremente nas cadeias deste vasto país. E, pior, como ainda se admite a tortura como “recurso”− uma concepção que perpassa diferentes classes, do topo à base da escala social.

A partir da proclamação da República, e sobretudo desde a ditadura varguista do Estado Novo, estruturou-se também uma tendência de “pacto entre elites” às custas das camadas populares que se desdobra com notável incidência. Continuar a ler

Brasil em Movimento: Daniel Aarão Reis da Luta Armada à Luta Democrática

Maria Borba, Natasha Felizi e João Paulo Reys, no livro “Brasil em movimento – Junho de 2013”, perguntaram a Daniel Aarão Reis: “O que pensa sobre a história e o futuro do sistema partidário brasileiro e a “crise da representação”?

Em sociedades complexas, a representação torna-se um fenômeno incontornável. De fato, a história política evidencia que os momentos quentes de extrema participação não duram no tempo. Trata-se de definir uma pauta de controle dos representantes, incluindo-se aí, entre outras medidas:

  1. a limitação temporal dos mandatos;
  2. a interdição do instituto das reeleições, em todos os níveis;
  3. a limitação de rendimentos e mordomias diversas dos parlamentares;
  4. a “desestatização” dos partidos políticos, que devem se tornar autofinanciáveis;
  5. a proibição do troca-troca de legendas e das coligações proporcionais.

Ao mesmo tempo, devem-se criar também instrumentos de controle do poder judiciário e dispositivos que permitam iniciativas legislativas por parte dos cidadãos(iniciativa legislativa popular).

A respeito do crescimento e transformações do PT, desde sua fundação até a conquista do governo federal, Daniel Aarão Reis diz ter escrito longo artigo a respeito, publicado no terceiro volume da História das Esquerdas no Brasil, organizado por ele e pelo professor Jorge Ferreira, também da UFF. Nele procurou estudar as metamorfoses que, gradativamente, foram fazendo do PT, que nasceu com propósitos reformista-revolucionários, um partido de gestão da ordem capitalista vigente. Continuar a ler

Brasil em Movimento: Visão Holística e Multidisciplinar de Carlos Lessa

Maria Borba, Natasha Felizi e João Paulo Reys, no livro “Brasil em movimento – Junho de 2013”, entrevistaram o Professor Carlos Lessa. Ele diagnosticou: “temos problemas sérios, mas menos que outros países do mundo. Muito menos problemas que a China, por exemplo, que apesar de ter um desempenho espetacular tem 500 milhões de pessoas no campo, ganhando 1/3 do que se ganha na cidade. A Índia é um horror, tem 160 idiomas, três religiões grandes, dezenas de pequenas, e eles se matam entre si. A Rússia, outro horror! Mas têm bomba atômica, submarino, e o Brasil não. Entendeu?

Se tivéssemos bomba atômica, esse secretário de Justiça americano não vinha para cá cagar regra para a Dilma. Nenhum deles faz essas coisas com a China, com a Índia ou a Rússia. Somos muito frágeis. O que temos, por incrível que pareça, é um povão maravilhoso. Fala o mesmo idioma do Norte ao Sul, não tem dialeto.

A gente não valoriza as coisas brasileiras. Eu vi agora um imbecil na Feira de Frankfurt, dizendo que o Brasil mestiço nasceu do estupro da índia e da negra pelo português. A África era um horror, os primeiros suprimentos de escravos do Brasil foram vendidos pelos donos de escravos de lá, e quando acabou o material que eles tinham começaram a se armar para capturar outros e vender para os traficantes portugueses. Existe uma idealização.

Mas não tratamos bem os nossos negros, não incorporamos os ex-escravos. Não incorporamos nada, a tragédia social brasileira não é étnica, é uma tragédia social real e geral. Claro que somos mestiços. Somos o povo mais bacana do planeta, só que agora fazemos o exercício de avacalhar. Continuar a ler

Brasil em Movimento: Carlos Lessa do Nacional-Desenvolvimentismo ao Social-Desenvolvimentismo

Maria Borba, Natasha Felizi e João Paulo Reys, no livro “Brasil em movimento – Junho de 2013”, entrevistaram o Professor Carlos Lessa. Ele disse: “não se consegue afirmar uma nação se você não tiver uma coesão social em torno de um projeto nacional. Não temos coesão nenhuma porque a maior parte da garotada quer ir para Miami.”

Em vez de ver o projeto de desenvolvimento econômico apenas como continuidade com dependência de trajetória (“a história importa”), ele destaca a ruptura. Não há desenvolvimento equilibrado, é impossível. A história parece equilibrada em alguns momentos, mas não é.

Se você projetasse o futuro para depois do século XV, diria que a Península Ibérica seria o centro do mundo, e ela já começava a entrar em decadência. A Holanda, no final do século XVI, seria o centro do mundo − e ela já entrava em decadência por causa da hegemonia inglesa. A Inglaterra da segunda metade do século XIX, quando 50% da população do território mundial estava em colônias britânicas, já estava sendo roída pelos Estados Unidos. Não há equilíbrio na história; isso só existe na física newtoniana, que não é aplicável à história. História é dialética, não é lógica formal.

Podemos ficar muito pior ou podemos dar um salto e avançar. “O que está acontecendo agora é uma descontinuidade, sim. Prefiro a manifestação [de junho de 2013] com todos os poréns, porque ela traz a possibilidade de transformação; enquanto que como está não vai transformar, o Brasil está se degradando, você não tem ideia do retrocesso industrial que atravessamos. Continuar a ler

Dados Estatísticos, Memórias, Objetividade e Subjetividade

Quadro 5 – Organizações de esquerda no Brasil por faixa etária,

anos 1960 e 1970

No Posfácio do livro “O Fantasma da Revolução Brasileira” (São Paulo: Editora UNESP; 2ª. Edição Revista e Ampliada; 2005), Marcelo Ridenti reconhece: os estudos sobre o tempo da ditadura são cada vez mais numerosos, tratam dos mais diversos temas, analisados de ângulos distintos, como se pode constatar no amplo levantamento bibliográfico realizado por Carlos Fico em Além do golpe – versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar(2004).

A reconstituição histórica do período ditatorial tem sido possível em parte pela consulta ao material depositado em instituições públicas, como os antigos arquivos do DEOPS, abertos em vários estados, o Arquivo Edgard Leuenroth da Unicamp, o Centro de Documentação e Memória da Unesp, o Arquivo Nacional (sede do Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil [1964-1985] – Memórias Reveladas), entre outros.

Mas ainda depende, em certa medida, da boa vontade de integrantes daquele regime ou de seus herdeiros cederem a pesquisadores documentos teoricamente públicos, mas guardados em arquivos pessoais. Foi o que ocorreu, por exemplo, há alguns anos com o arquivo do general Bandeira, aberto parcialmente a jornalistas, e depois com o arquivo extraordinário de Heitor Ferreira, doado a Elio Gaspari. Parte significativa da documentação oficial da época segue escondida, como é o caso dos documentos sobre a guerrilha do Araguaia.

A já referida obra de Gaspari sobre a ditadura e dois de seus principais representantes, Geisel e Golbery, trata também do tema da esquerda armada, usando ampla bibliografia e documentação. Seu tom geral reforça o senso comum que se vem difundindo e consolidando, especialmente na grande imprensa: a violência da esquerda e da direita teriam sido as duas faces da mesma moeda. Teria havido um surto terrorista de esquerda, combatido pelo terrorismo de Estado. No entanto, Gaspari (2002a, 2002b) considera este último muito mais grave. Continuar a ler

Autocrítica na Prática do PT: Aliança de Todos os Democratas contra a Extrema-Direita

Marcos Nobre, no livro “Choque de democracia – Razões da revolta”, diz ser possível resumir seu diagnóstico em uma formulação ambivalente. Tanto o “neoliberalismo” do período FHC como o que se chama de “lulismo” são figuras do pemedebismo, são configurações mais avançadas dessa cultura política inerentemente conservadora.

Mas são também momentos e figuras da construção do social-desenvolvimentismo que se cristalizou a partir do segundo mandato de Lula. Se a própria consolidação do social-desenvolvimentismo só se deu acoplada a certa instrumentalização do pemedebismo, isso acabou levando também a tornar o pemedebismo algo de “normal” e “aceitável”, algo de “justificável” em vista da conquista de avanços sociais.

“Mas isso não torna aceitável barganhar menos desigualdade pela aceitação de uma cultura política de baixo teor democrático. As duas coisas têm de vir juntas. Se se abstrai de um desses aspectos, o que se perde é a própria possibilidade de crítica e transformação, de diagnóstico e ação.”

“Em ambiente democrático, essa primazia da desigualdade levou à construção de um modelo de sociedade social-desenvolvimentista, um modelo que, ainda em estado de esboço, sem contornos definidos, remonta ao período da Constituinte de 1988. Esse modelo se consolidou na era Lula, de tal maneira que se pode dizer que, nesse momento, não apenas a transição democrática se completou, mas igualmente a transição para um novo modelo de sociedade, diferente e distinto do anterior, do nacional-desenvolvimentismo.”

A cultura política essencialmente conservadora é a ideologia do pemedebismo normalizado. E trata-se aqui, antes de tudo, da crítica dessa ideologia, de maneira a abrir caminho para um aprofundamento do social-desenvolvimentismo. Continuar a ler

Relembrando a Ditadura Militar e Civil (1964-1984)

No Posfácio do livro “O Fantasma da Revolução Brasileira” (São Paulo: Editora UNESP; 2ª. Edição Revista e Ampliada; 2005), Marcelo Ridenti salienta o tema da ditadura ter voltado ao debate público pelo menos desde a publicação da saga histórico jornalística de Elio Gaspari (2002a, 2002b, 2003a, 2003b). Torna-se muito oportuno agora, durante uma eleição onde o regime militar poderá se estabelecer, novamente, se sair vitorioso o ex-capitão do exército brasileiro e seu vice-general.

Lentamente, em determinados círculos, foi-se consolidando a interpretação de que a ditadura não teria sido tão repressiva, com muitos aspectos a serem valorizados, como se fosse possível tomar a parte sem o todo. Isso ficaria patente em um polêmico editorial da Folha de S.Paulo, de 17 de fevereiro de 2009, quando usou a expressão “ditabranda”.

Já se disse a obra de Gaspari, por um lado, ter iniciado um período de revisão historiográfica para recuperar a importância da ação política dos militares. Por outro lado, ela fornece provas de o extermínio de opositores armados ter sido uma política de Estado. Polêmicas à parte, Gaspari foi feliz nos títulos da coleção: “ditadura envergonhada”, “ditadura escancarada”, “ditadura encurralada” e “ditadura derrotada”, ou seja, em diferentes fases e com variações institucionais, sempre foi uma ditadura. Continuar a ler