Ciência em Aceleração 

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Stephen Trombley, em “50 pensadores que formaram o mundo moderno: perfis de cinquenta filósofos, cientistas, teóricos políticos e sociais e líderes espirituais marcantes cujas ideias definiram a época em que vivemos” (tradução de Breno Barreto. Rio de Janeiro: LeYa, 2014), afirma que “a Teoria da Relatividade de Einstein nos deu um ponto de vista privilegiado, a partir do qual podemos enxergar o progresso do pensamento em nossa época. Ao longo dos dois mil anos em que os homens olharam para o mundo pelos olhos de Aristóteles, Ptolomeu (90-168), Copérnico (1473-1543) e Galileu (1564-1642), o conhecimento foi acumulado por meio de rápidos insights que davam aos cientistas algo sobre que pensar por várias centenas de anos”.

Mas o mundo pós-newtoniano já não era assim. Desde a divisão do átomo, as descobertas da Física, da Química, da Engenharia e de suas subsequentes contribuições à tecnologia ocorreram em ritmo vertiginoso. A crescente especialização das Ciências Físicas deixou para trás a Era de Amadores Iluministas como Isaac Newton (1642–1727); somente especialistas podem acompanhar o ritmo e os detalhes do avanço de uma área como a física de partículas ou a astrofísica.

O perigo desta abordagem extremamente precisa, que evidencia com clareza problemas científicos individuais, é que o contexto mais amplo pode sair de foco. Corremos o risco de nos perdermos. Ao buscarmos conhecimento e excelência na ciência tendo em vista somente o conhecimento, deixamos para trás o contexto no qual a ciência é realizada – por pessoas, em comunidades. Um dos papéis da Filosofia é lembrar a Ciência desse contexto sociopolítico mais amplo.

É preciso lembrar ainda que o conhecimento é hoje adquirido e financiado por aqueles que se interessam em possuí-lo. Na verdade, foi sempre assim. No início da era científica, os monarcas – e, depois, as democracias – eram os senhores e os beneficiários do conhecimento científico. Hoje, corporações controlam grande parte das descobertas científicas, assim como suas futuras aplicações, gozando de um poder não limitado pelos regulamentos que pertencem ao governo. O poder das corporações é menos visível que o dos governos, e elas pouco podem ser responsabilizadas. A ciência se tornou, como nunca antes, um ato político.  Continue reading “Ciência em Aceleração “

Fascismo e Totalitarismo Soviético: Crítica de Esquerda

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Stephen Trombley, em “50 Pensadores que formaram o mundo moderno”, mostra que da tradição filosófica ocidental, infelizmente, surgiu também o fascismo. Os nacional-socialistas alemães, ou nazistas, constituíam um partido fascista – eram diametralmente opostos aos socialistas inspirados em Karl Marx. O fascismo é algumas vezes considerado mais uma tendência do que um programa sistemático, e, de fato, é difícil identificar uma explicação filosófica coerente para a ideologia nazista. Algumas tentativas são mero catálogo de preconceitos.

O fascismo, da maneira como se desenvolveu em diferentes países – Itália, Alemanha, Espanha –, foi uma reunião desorganizada de crenças extremistas, popularizadas em um período de de profunda crise financeira. Para os alemães, que sofriam com o peso do Tratado de Versalhes, o fascismo se definiu por suas escolhas de bodes expiatórios: judeus, socialistas e o consumismo dos Estados Unidos.

Componentes importantes do fascismo alemão incluem um nacionalismo extremo, a ideia dos arianos como “raça superior” e uma perseguição militarista do império. O líder nazista Adolf Hitler (1889-1945) não enxergava a economia como prioridade, talvez porque as exigências industriais da dominação do mundo significassem abundante trabalho em fábricas, assim como garantido consumo de seus produtos por parte das forças militares (após a apropriação das riquezas das nações conquistadas). O economista libertário, Sheldon Richman, definiu o fascismo como “socialismo com uma máscara capitalista”.

O trabalho de Karl Marx e Friedrich Engels culminou com a filosofia política e econômica do socialismo. O socialismo foi adotado por Vladimir Ilitch Lênin (1870-1924), que o implementou em uma forma que se tornaria o socialismo oficial posto em prática pela União Soviética após a Revolução Russa de outubro de 1917. Continue reading “Fascismo e Totalitarismo Soviético: Crítica de Esquerda”

Iluminismo: Quando o Liberalismo era Progressista

50-pensadoresStephen Trombley escreveu uma minienciclopédia científica, denominada “50 pensadores que formaram o mundo moderno: perfis de cinquenta filósofos, cientistas, teóricos políticos e sociais e  líderes espirituais marcantes cujas ideias definiram a época em que vivemos” (tradução de Breno Barreto. Rio de Janeiro: LeYa, 2014). É um título (junto com subtítulo) tão longo como os dos livros do Séculos XVIII e XIX, quando ler ainda era o passatempo preferido da elite intelectual, dada a falta de outros entretenimentos: rádio, TV, cinema, internet, etc.

fifty-thinkersA Era do Iluminismo foi também a Era das Revoluções.

As guerras civis inglesas (1642-51) fizeram confrontar parlamentaristas e monarquistas. A Revolução Inglesa resultou na Monarquia Constitucionalista, vigente até hoje na Inglaterra.

A Revolução Americana (1775-83) viu colonos do Novo Mundo rebelarem-se contra o domínio do monarca inglês, inspirados nas ideias do filósofo inglês John Locke e do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-78) a respeito do contrato social; esta foi a criação dos Estados Unidos da América.

A Revolução Francesa foi estimulada por ideias políticas iluministas a respeito dos direitos dos cidadãos. O rei Luís XVI (1754-93) foi executado, e hoje a França é uma república democrática, embora tenha havido muitas idas e vindas pelo caminho.

A execução de reis — a Inglaterra executou Carlos I em 1649 — enterrou a ideia do poder por direito divino. Em 1848, o mundo já tinha adentrado de vez a Era do Homem, mas as primeiras rachaduras na nova organização social pós-Iluminismo começaram a aparecer.

Uma nova ciência levou a novas tecnologias e à Revolução Industrial. Máquinas passaram a multiplicar mecanicamente a quantidade de bens antes produzidos à mão.

Trabalhadores deixaram seu estilo de vida agrário (assim como o mercado agrícola) e incharam as cidades, onde estavam as fábricas. Como consequência, tiveram de enfrentar superlotação, doenças e crimes – tudo isso estimulado pela pobreza de operários com longas jornadas de trabalho e baixos salários. Eles sofriam um novo tipo de cansaço, novas lesões e novos insultos à sua autoestima.

Enquanto isso, proprietários de manufaturas – os capitalistas – enriqueciam cada vez mais. A diferença entre a renda dos industrialistas ricos e a dos trabalhadores, pobres e explorados, tornou o conflito inevitável.  Continue reading “Iluminismo: Quando o Liberalismo era Progressista”

Jabuti não sobe em árvore: como o MBL se tornou líder das manifestações pelo impeachment (por Marina Amaral)

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Marina Amaral, no livro de Ivana Jinkings, Kim Doria , Murilo Cleto (orgs), “Por que gritamos golpe?”, descreve muito bem a mobilização dos jovens direitistas, fascistas e golpistas para atuarem como agitadores da rede social e levar os reaças da classe média decadente às passeatas, vestidos com a camiseta da CBF (antro de corruptos) e/ou do pato amarelo da FIESP golpista. Ela já tinha investigado esse movimento direitista em: Marina Amaral, “A nova roupa da direita“, Pública, 23 jun. 2016; disponível online.

“Depois que os protestos contra a alta nas tarifas de ônibus e metrô tomaram o país, em junho de 2013, uma juventude que não costumava se manifestar nas ruas começou a aparecer nos jornais. Os novos integrantes, logo apelidados de “coxinhas” pela juventude de esquerda, repudiavam as bandeiras vermelhas a pretexto de impedir a “partidarização” do movimento, e assumiam o verde-amarelo “de todos os brasileiros”. Condenavam os black blocs e exaltavam a polícia militar, que reprimira com violência os protestos convocados pelo Movimento Passe Livre. Suas principais bandeiras eram contra a “roubalheira” e contra “tudo isso que está aí”, paulatinamente substituídos por um simples “Fora PT”.

A imprensa foi atrás de entrevistas com as novas lideranças, sem esclarecer sua origem.

  • Alguns grupos eram fáceis de rastrear, como o Vem Pra Rua, de Rogério Chequer, ligado à juventude do PSDB e ao senador Aécio Neves.
  • Ou o Revoltados Online, francamente autoritário, que pedia a volta da ditadura militar enquanto faturava com a venda online de camisetas e bonecos contra o PT.
  • O mais obscuro deles era o Movimento Brasil Livre (MBL), que parecia ter brotado da terra para assumir a liderança daquele que se tornaria o movimento pró-impeachment nos anos seguintes.

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Por Que Gritamos Golpe? Para entender o Impeachment e a Crise Política no Brasil

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Ivana Jinkings, Kim Doria e Murilo Cleto são os organizadores da coletânea de artigos de intelectuais, militantes e políticos recém-publicada pela editora Boitempo (2016). Trata-se de um registro histórico indispensável para os leitores contemporâneos quanto para os historiadores no futuro, quando investigarem a fundo as narrativas do Golpe Parlamentarista de 2016.

Trata-se de mais um golpe na história republicana brasileira, 52 anos depois do último Golpe Militar de 1964. Antes deste, tinha fracassado um Golpe Parlamentarista que os reacionários tentaram impor ao vice-presidente Jango Goulart. Este conseguiu submeter o parlamentarismo a um plebiscito popular, cuja maioria disse NÃO à tentativa de políticos representantes das oligarquias regionais comandarem a política brasileira.

Após a redemocratização do Brasil, uma emenda da nova Constituição determinava a realização de um plebiscito no qual os eleitores iriam decidir se o país deveria ter um Regime Republicano ou Monarquista controlado por um Sistema Presidencialista ou Parlamentarista. A lei número 8.624, promulgada pelo presidente Itamar Franco em 4 de fevereiro de 1993, regulamentou a realização do plebiscito para ocorrer em 21 de abril de 1993.

A maioria dos eleitores votou a favor do Regime Republicano e do Sistema Presidencialista, maneira pela qual o país havia sido governado desde a Proclamação da República 104 anos antes – com exceção de uma breve experiência parlamentar entre 1961 e 1963, que também havia sido derrotada em um plebiscito.

Apesar disso, o poder dinástico do familismo político brasileiro manteve seu poder paroquial, estadual e congressual. Com este Golpe de 2016, o Poder Legislativo assumiu o Poder Executivo contra o resultado da eleição democrática de 2014 e, reconhecidamente, sob a falsa alegação de “crime de responsabilidade” – tanto que a Presidenta Dilma não teve seus direitos políticos retirados –, sob o olhar benevolente (e passivo) do Poder Judiciário. Por ora, o Poder Militar, ainda silencioso, só observa a desordem política na democracia brasileira… Continue reading “Por Que Gritamos Golpe? Para entender o Impeachment e a Crise Política no Brasil”

Estado Ideal

Desobediência Civil

Henry David Thoreau, em “A desobediência civil” (Rio de Janeiro; Rocco; 1984 – original de 1849), afirma: “Não desejo brigar com nenhum homem ou nação. Não desejo me perder em minúcias, fazer distinções sutis ou me colocar acima de meus semelhantes. Ao contrário, posso dizer que até procuro uma desculpa para acatar as leis do país. Estou mesmo muito disposto a acatá-las. De fato, tenho razões para desconfiar de mim mesmo quanto a este tópico. A cada ano, quando o coletor de impostos aparece, eu me vejo resolvido a passar em revista os atos e posições dos governos geral e estadual, bem como o espírito do povo, a fim de descobrir um pretexto para a obediência”.

Continua: “o governo não me preocupa muito, e dedicarei a ele a menor quantidade possível de pensamentos. Não são muitos os momentos da vida nos quais vivo sob um governo, mesmo neste mundo tal como ele é. Se um homem tem pensamento, fantasia e imaginação livres, de tal modo que o que não é jamais lhe pareça ser por muito tempo, governantes insensatos não podem interrompê-lo definitivamente”.

Sabe que a maioria dos homens pensa de modo diferente do seu, mas aqueles cujas vidas são, por ofício, dedicadas ao estudo de semelhantes assuntos satisfazem-se tão pouco quanto os demais. Estadistas e legisladores, estando tão completamente entranhados na instituição, nunca conseguem observá-la de modo distinto e franco. Continue reading “Estado Ideal”

Voto Inútil

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A letra da música “Ideologia“, composta por Cazuza, expressa muito a respeito dos meus sentimentos políticos no momento: Meu partido / É um coração partido / E as ilusões / Estão todas perdidas / Os meus sonhos / Foram todos vendidos / Tão barato que eu nem acredito / Ah! Eu nem acredito / Que aquele garoto / Que ia mudar o mundo / Mudar o mundo / Frequenta agora / As festas do “Grand Monde” / Meus heróis / Morreram de overdose / Meus inimigos / Estão no poder / Ideologia! / Eu quero uma pra viver / Ideologia! / Eu quero uma pra viver…

Henry David Thoreau, em “A desobediência civil” (Rio de Janeiro; Rocco; 1984 – original de 1849), afirma: “não discuto com inimigos distantes, mas com aqueles que, perto da minha casa, obedecem e cooperam com os que estão longe, e que sem eles seriam inofensivos”.

Estamos habituados a dizer que “as massas são despreparadas”; mas o aprimoramento é lento, porque a minoria não é essencialmente mais sábia ou melhor que a maioria. Mais importante do que haver muitos que sejam bons como você é haver em algum lugar a excelência absoluta, pois isso fará fermentar a massa como um todo.

“Toda votação é uma espécie de jogo, como damas ou gamão, com um leve matiz moral, uma brincadeira em que existem questões morais, o certo e o errado, e evidentemente é acompanhada de apostas. O caráter dos votantes não entra em jogo. Deposito meu voto, talvez, de acordo com o que julgo correto; mas não estou vitalmente preocupado com a vitória do certo. Estou disposto a deixar isso para a maioria”.

A obrigação do voto, portanto, nunca vai além do que é conveniente. Mesmo votar pelo que é correto não é o mesmo que fazer alguma coisa por ele. É apenas expressar debilmente aos outros o desejo de que o certo prevaleça. Um homem sábio não deixará o que é correto à mercê da sorte, nem desejará que ele prevaleça mediante o poder da maioria. Continue reading “Voto Inútil”