Perguntas Certas contra Candidatos a Fascistas

 

Madeleine Albright, no último capítulo do livro “Fascismo: Um alerta”, sugere haver uma razão para a popularidade do mito sobre justiceiros. Algo acontece com um cidadão respeitador da lei – um ente querido é assassinado, sua filha raptada, um estupro não chega a ir a julgamento – e a polícia não tem resposta. De repente, os eleitores incultos e desinformados se identificam com um agente da vingança. Toda aquela fúria mal contida é canalizada na captura de seu alvo e dane-se o devido processo legal. Quando os vilões são aniquilados, vibram. É a natureza desumana – ou ao menos parte dela.

Quando se trata das vidas de países, as origens da raiva não têm de ser profundamente pessoais para despertar o desejo por soluções imediatas.

  • Mussolini e Hitler beberam da angústia de seus cidadãos após a carnificina da Primeira Guerra Mundial.
  • Kim Il-sung fez o papel de guardião e guia num país marcado por quatro décadas de conflitos.
  • Milosevic e Putin exploraram os poços profundos da indignação nacionalista no rescaldo da Guerra Fria.
  • A ascensão ao poder de Chávez e Erdogan se deu em meio a crises políticas e econômicas que levavam gente da classe média a despencar financeiramente rumo à pobreza.
  • Orbán e seus parceiros de aventura da direita europeia prometem proteger seus eleitores das demandas psicológicas geradas pela diversidade religiosa, cultural e racial.

Nada há de repreensível em querer um líder forte – pouca gente ansiaria por um fraco –, mas a lista de lideranças nacionais, antes com aparência de virtuosas, mas depois reveladoras de uma ou mais falhas desastrosas de caráter, começa ao nascer da própria história e continua a aumentar. Continuar a ler

Desinformação em Redes Sociais (Feicebuque & Uotzap)

Madeleine Albright, no livro “Fascismo: Um alerta”, alerta: o custo de espalhar falsidades pela mídia social é mínimo, e o esforço exigido a quem é adepto da prática, idem. O uso de checadores de fatos, como meio de defesa, é útil, mas muito lento.

Esse cenário obriga operadores de plataformas de mídia social a reverem seus papéis. A visão de quem acha não ter a responsabilidade de monitorar conteúdo é conveniente e, quando articulada como defesa da liberdade, sedutora para muitos. Mas essa abordagem traz o risco de governos optarem por mudar totalmente de direção – como a China, por exemplo, rumo ao uso de firewalls–, o que não seria do interesse nem da democracia nem da liberdade.

O mínimo necessário aos internautas são ferramentas capazes de lhes possibilitarem identificar conteúdo gerado por robôs e outras fontes de notícias falsas. A regulação também é necessária para garantir fontes de mensagens políticas on-line serem tão transparentes como o financiamento de comerciais de campanha veiculados no rádio e na televisão.

A maioria de nós vivenciou o período quando o spam ameaçou destruir o e-mail. Hoje, a democracia é enfraquecida por mentiras surgidas em ondas artificiais capazes de martelar os sentidos continuamente. Líderes de acordo com o figurino democrático têm tido dificuldades para não serem atropelados por um ciclo incansável de notícias e acabam por gastar energia demais na tentativa de contestar histórias. Elas parecem surgir do nada, criadas com o único propósito de liquidá-los. Continuar a ler

Uma Difícil Arte: Democracia contra Fascismo

Madeleine Albright, ex-secretária de Estado no governo Clinton (1997-2001), afirma no nono capítulo do livro “Fascismo: Um alerta”: “com a ajuda de seus amigos, contudo, a democracia quase sempre pode ser reparada, e então melhorada”.

Ao longo de um período de mais de três décadas, trabalhou inicialmente como vice-diretora e depois como diretora do National Democratic Institute (NDI). Conjuntamente com organizações irmãs nos EUA e em outros países, colabora com esforços locais para desenvolver instituições e habilidades democráticas.

Nesse papel, a organização supervisionou marcos históricos como a Revolução do Poder Popular que, em 1986, frustrou as tentativas do ditador filipino Ferdinand Marcos de fraudar uma eleição presidencial “repentina”; e, dois anos depois, o plebiscito que deu fim ao regime repressivo do general chileno Augusto Pinochet. O NDI também esteve presente durante a histórica eleição de 1994 na África do Sul que baixou a cortina final sobre o apartheid, e – na esteira da Guerra Fria – no renascimento da democracia na Europa Central e nas mais recentes transições na Indonésia, no Nepal, na Nigéria e na Tunísia.

O posicionamento do NDI é estritamente solidário. O instituto não advoga em prol de qualquer partido ou agenda política específicos nem vê a democracia como um sistema rígido cujas feições na Ásia sejam idênticas, por exemplo, às que teria na África ou nas Américas.

Dentro de uma estrutura formada por certos princípios elementares, a democracia é um meio através do qual povos muito diferentes expressam sua liberdade. A missão do NDI é ajudar autoridades e ativistas locais a lucrar com as experiências de outros, e fazê-lo cruzando fronteiras e regiões.

As lições aprendidas poderão facilitar um processo eleitoral livre das manchas da injustiça e da corrupção. Ou então oferecer ideias práticas sobre como:

  1. modernizar uma legislatura,
  2. profissionalizar partidos políticos,
  3. abrir espaço para a sociedade civil ou
  4. garantir mulheres, jovens e minorias terem representação justa na tomada de decisões.

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Fascismo: Um alerta

Madeleine Albright foi a 64ª. secretária de Estado dos Estados Unidos, entre 1997 e 2001. Sua notável carreira inclui postos no Congresso americano e no Conselho de Segurança Nacional. Foi também embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas.

Albright publicou o oportuno e excelente livro “Fascismo: Um alerta” (São Paulo: Editora Planeta do Brasil; 2018).

No prefácio, ela informa o fascismo ter ganhado vida no início do século XX, um tempo de vivacidade intelectual e nacionalismo ressurgente aos quais se somava a ampla decepção com o fracasso da democracia representativa em manter-se no compasso de uma Revolução Industrial impulsionada pela tecnologia. Continuar a ler

Algumas Lições sobre Democracia para o Século XXI

David Runciman, autor do livro “Como a democracia chega ao fim” (RUNCIMAN, David (1967-). Título original: How Democracy Ends. Tradução: Sergio Flaksman. São Paulo: Todavia, 1ª ed., 2018) conclui se lançando uma pergunta: “Qual é a minha solução?

A essa altura de qualquer livro sobre o mal-estar da democracia contemporânea, é comum os leitores esperarem que o autor sugira algumas correções. Não tenho nada a sugerir. Se o solucionismo é parte do problema, simplesmente propor soluções não será a maneira de corrigir nada.

Prefere, em vez disso, apresentar algumas lições para o século XXI. Não devem ser vistas como um guia para o futuro. São, na verdade, um modo de tentar entender o ponto em que nos encontramos no momento. Seja qual for o nosso futuro, precisamos saber de onde partimos. Continuar a ler

Democracia Direta via Internet: e-democracia

David Runciman, no livro “Como a democracia chega ao fim”, argumenta: “podemos participar de pequenas decisões conjuntas em praticamente qualquer lugar: basta um clique aqui, uma busca ali. Por que não canalizarmos esses recursos para a política?

A resposta nos leva de volta à antiga Atenas. A democracia direta é uma forma de política muito difícil de administrar. Só dá certo em condições cuidadosamente controladas. Requer vários tipos de dispositivos para conter o comportamento por impulso, entre eles a ameaça de violência em caso de necessidade. E dá muito trabalho.

O mundo em rede que habitamos hoje, modelado pelos interesses de novas corporações gigantescas, alimentado pela nossa adição à vida virtual e rachado por reações impulsivas, não se enquadra nessa descrição. Não redescobrimos nosso apetite pelo trabalho político árduo nem o gosto pela violência política. E por que haveríamos de retomá-los, quando podemos obter outras gratificações muito mais fáceis?

Mas a democracia ainda não está morta. Resta vida ao Leviatã. Continua a ser possível recuperar o controle da máquina. Continuar a ler

Manipulação Eleitoral por meio da Rede Social

David Runciman, no livro “Como a democracia chega ao fim”, diz: “toda vez que entramos na internet em busca de novas informações para nosso uso, acabamos fornecendo novas informações sobre quem somos a todo tipo de parte interessada. Primariamente, isso nos afeta como consumidores. O histórico das nossas buscas dá aos fornecedores a informação de que precisam para direcionar seus produtos a nós. Pesquisar é ser pesquisado. Procurar vantagem competitiva como consumidor individual é revelar seus segredos”.

E existe um equivalente político. O volume de informação disponível online torna muito mais fácil para os eleitores escolher suas fontes de notícias. É fácil imaginar que isso seja a democracia em ação — ficar de olho! No entanto, e se o nosso gosto por certos tipos de notícia revelar aos outros as nossas preferências, e buscar por elas sirva simplesmente para revelar nossas inclinações? Nosso desejo de nos mantermos informados se transforma num meio de acompanharem nossos rastros. E torna possível ajustar as notícias de modo a garantir que jamais descobriremos nada de novo.

O medo da difusão de fake news reflete essa crescente ansiedade — como saber se a nossa busca de informações não irá se converter numa oportunidade para ainda mais manipulação? Uma operação sofisticada de notícias políticas pode transformar as eleições em uma versão do algoritmo comportamental: só nos é mostrado o que já sabem que estamos dispostos a comprar. Continuar a ler