Direita no Ataque, Esquerda na Defesa

Ruy Fausto, no livro“Caminhos da esquerda: Elementos para uma reconstrução” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), concorda com Roberto Schwarz a respeito de ter havido uma hegemonia do pensamento de esquerda nos anos da ditadura militar. Ainda que fora do poder, a esquerda era hegemônica no plano das ideias.

Se a hegemonia da esquerda era real, essa hegemonia tinha seus pontos frágeis e, sob o impacto de certas circunstâncias, o poder da esquerda sobre a opinião pública foi posto em xeque.

Se já na época da ditadura a direita tinha seus representantes intelectuais, hoje ela tem todo um grupo de porta-vozes atuante na mídia escrita ou falada, empenhado em uma verdadeira ofensiva contra a esquerda. Em conjunto, eles se caracterizam, apesar de algumas exceções, pela extrema violência do tom do que dizem ou escrevem. E, não à toa, pelo fato de que um número importante dos seus representantes veio da esquerda ou da extrema esquerda.

Quanto à filosofia que professam, ela varia de um conservadorismo cristão e espiritualista a um quase ceticismo, com vertentes pessimistas ou mais otimistas. Ruy Fausto critica, em particular, os pensamentos rasteiros de Olavo de Carvalho, “em guerra contra o que lhe parece ser a filosofia uspiana”. Continue reading “Direita no Ataque, Esquerda na Defesa”

Ser de Esquerda: Igualitário ou Anticapitalista?

Do que foi dito por Ruy Fausto, no livro“Caminhos da esquerda: Elementos para uma reconstrução” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), conclui-se:

  1. Em primeiro lugar, a esquerda deve ter um projeto clara e explicitamente antitotalitário e também antiautoritário — um programa intransigentemente democrático.
  2. Em segundo lugar, seu projeto tem de ser estranho a todo adesismo em relação ao sistema — deve implicar efetivamente uma política de caráter anticapitalista.
  3. Em terceiro lugar, pelo seu programa e na sua prática, a esquerda tem de ser infensa a toda facilidade na administração dos bens públicos e na vida pública em geral.

Há pelo menos mais um princípio a acrescentar a esses três. Porém, antes de desenvolvê-lo, Fausto tenta explicitar um pouco o que aqueles três primeiros significam, agora de forma positiva e direta, e não negativa e indireta, como fez antes. Continue reading “Ser de Esquerda: Igualitário ou Anticapitalista?”

Esquerda Pura Contra o Populismo e o PT

Ruy Fausto, no livro“Caminhos da esquerda: Elementos para uma reconstrução” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), apresenta a terceira figura patológica da esquerda se designa pelo termo genérico de “populismo”. Como definir o populismo? E, pergunta particularmente importante, como definir a situação do partido de esquerda até aqui hegemônico no Brasil — o PT — em relação ao populismo ? O PT é um partido populista?

Muito se discutiu a respeito do populismo. Fausto se refere ao populismo de esquerda, pois há também um populismo de direita. Seus traços principais parecem ser:

  1. uma liderança carismática autoritária,
  2. uma política unindo pelo menos na aparência, interesses de classes mais ou menos antagônicas, e
  3. certo laxismo na administração da riqueza pública.

Dentro da tradição paulistana e uspiana contra-populista, mesmo quando falta algum desses traços é possível falar em populismo, desde os outros serem suficientemente marcados.

Por exemplo, no modelo Getúlio Vargas, há os dois primeiros fatores, mas não exatamente o último: Getúlio não enriqueceu no poder, embora tenha havido corrupção no seu governo.

No caso de Ademar de Barros, duas vezes governador de São Paulo entre 1940 e 1960, se os dois últimos aspectos são visíveis, o primeiro o é só imperfeitamente: ele tinha certo carisma, mas não de tipo autoritário. Então, Ademar e Getúlio, cada um a seu modo, podem ser considerados líderes populistas.

No caso do PT, também falta o elemento autoritarismo. O carisma está lá, ainda que menos pronunciado do que no caso de Perón, Chávez ou Vargas. Mas houve certamente laxismo— é o mínimo que se poderia dizer — nas suas práticas administrativas.

Saber se o PT pode ser chamado de populista não é, entretanto, o mais importante. Pelo menos do ponto de vista prático, o essencial é insistir sobre o fato — indiscutível, a seu ver — de que o partido não “errou” simplesmente, como pretendem alguns. O partido não se limitou a “cometer certos erros”. Para Fausto, “o que houve foi um sistema errado de poder e de administração”. Continue reading “Esquerda Pura Contra o Populismo e o PT”

Reformismo Adesista: Segunda Patologia da Esquerda

Quanto à segunda patologia da esquerda, os críticos dos totalitarismos de esquerda, efetivos ou nascentes, frequentemente os consideravam apenas um dos polos de um processo de degenerescência da esquerda, o qual seria bipolar. Depois da crítica da esquerda totalitária, vinha um segundo bloco crítico, cujo objeto era uma outra degenerescência, considerada mais ou menos simétrica, em geral chamada de “reformismo”.

Hoje, Ruy Fausto no livro“Caminhos da esquerda: Elementos para uma reconstrução” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017) afirma ser melhor falar em “adesismo” em vez de reformismo, pois a diferença entre “reforma” e “revolução”, se não desapareceu, pelo menos se tornou muito complexa. Também o antigo reformismo tomou formas extremas, de simples capitulação diante do sistema. Teria esse outro polo de degenerescência existido no Brasil? Fausto responde positivamente: existe aqui o reformismo adesista.

A melhor encarnação dele ele chama de “cardosismo”, a tendência política articulada em torno do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Buscando se distinguir de outros grupos no interior do PSDB, corresponde em linhas bastante precisas à dos neorreformismos recentes. É preciso se debruçar nessa trajetória, sobre a qual pouco se refletiu.

Ao romper com o PMDB, Fernando Henrique e alguns dos seus amigos encarnavam uma perspectiva de centro-esquerda que se distanciava do PT pelo projeto de construção de um partido de caráter não classista e não sindicalista. Mas FHC declarava, na ocasião, ter um projeto “social” para o país. Aliás, em seu livro de memórias, afirma o nome proposto por seus amigos para o novo partido não o ter agradado muito pela ressonância excessivamente europeia. Ele preferia Partido Popular Democrático ou algo do estilo. Continue reading “Reformismo Adesista: Segunda Patologia da Esquerda”

Caminhos da Esquerda: Elementos para uma Reconstrução

Ruy Fausto é doutor em filosofia pela Universidade Paris I e professor emérito da Universidade de São Paulo. É autor, entre outros, de Sentido da dialética, obra em três volumes publicada anteriormente sob o título Marx: Lógica e política, A esquerda difícil: Em torno do paradigma e do destino das revoluções do século XX e alguns outros temase Outro dia: Intervenções, entrevistas, outros tempos.

Este livro, “Caminhos da esquerda: Elementos para uma reconstrução” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), tem como base a versão original de um texto que publicou no número 121 da revista piauí, em outubro de 2016, sob o título “Reconstruir a esquerda”. O livro foi concluído no final de fevereiro de 2017.

Diz: “Para usar uma imagem, a atual situação em que se encontra a esquerda brasileira parece com um homem perdido na floresta. Impõe-se um trabalho de reconstrução teórica e prática. Se essa exigência se apresenta por toda parte, no caso do Brasil ela é absolutamente urgente. Este livro pretende ser uma contribuição a esse trabalho crítico.”

Ocupa-se, em primeira instância, do Brasil, mas tem também a pretensão de dizer alguma coisa sobre os problemas da esquerda mundial. A crítica econômica é o grande desafio. Tenta seguir a norma cartesiana de só aceitar o que lhe parecer evidente. Exigência a que não é muito difícil obedecer quando se trata de política e de história. Já a economia é outra conversa. Ela é de uma tecnicidade particular.

E assim, o que fazer quando não se é economista? Deve-se renunciar a toda referência aos problemas econômicos? Essa é a norma de certos críticos sérios, mas ela é insatisfatória. Nas condições atuais, uma crítica alérgica a toda referência à economia é insignificante. Continue reading “Caminhos da Esquerda: Elementos para uma Reconstrução”

Os Donos do Poder: Dependência de Trajetória do Patrimonialismo no Estado Brasileiro

Raymundo Faoro e a Difícil Busca do Moderno no País da Modernização” é artigo de autoria de Luiz Werneck Vianna, publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

O destino de Os donos do Poder,de Raymundo Faoro, na bibliografia das Ciências Sociais brasileiras, não seguiu o curso de uma linha reta. Sua primeira edição, de 1958, publicada pela Editora Globo de Porto Alegre, embora bem acolhida em círculos ilustrados — a Academia Brasileira de Letras, em 1959, lhe concedeu o Prêmio José Veríssimo —, foi praticamente ignorada pela universidade e pelas grandes controvérsias que então animavam os homens públicos.

Na verdade, o livro vinha na contramão do cenário intelectual da época, anos de afirmação de um projeto nacional-desenvolvimentista. Ele visava dar continuidade, no regime constitucional de 1946 e logo em seguida ao trágico desfecho do segundo governo Vargas, às grandes transformações que tiveram seu ponto de partida na Revolução de 1930. Era tempo de mudanças econômicas, sociais e demográficas, acentuadas essas últimas pela decisão de se construir a nova sede da capital federal no remoto planalto central goiano.

Tempo também de mudanças culturais: nas artes — cinema novo, bossa-nova —, no movimento dos intelectuais, sobretudo os jovens, de “ida ao povo”, no pensamento — ISEB — e na política. Nessa última dimensão, a mudança provavelmente mais relevante se desenhava na crescente autonomia de ação dos setores subalternos urbanos, e, em menor medida, dos trabalhadores do mundo agrário, o que logo assumiria expressão mais visível com a criação das Ligas Camponesas e com a difusão do sindicalismo rural.

A segunda metade dos anos 1950 verá nascer o programa político de caráter nacional-popular. Preconizava uma ampla coalizão política, abrangendo desde o empresariado nacional e as elites da burocracia estatal até o proletariado urbano e rural. A este caberia o papel, em suas lutas por hegemonia no interior daquela coalizão, de conduzi-la rumo aos seus objetivos.

Em 1958, a primeira edição de Os donos do Poder contém um diagnóstico oposto a esse. Do livro se depreende que nada, naquele contexto e com aquela política, favoreceria os ideais de emancipação da nação, de suas classes e do seu povo. Isto porque a política nacional-popular teria nascido aberta à influência das elites tradicionais e da burocracia estatal. Estas, por deterem os comandos do poder, seriam incapazes de favorecer a diferenciação e a conformação das classes e do povo como “um corpo comunitário com vida própria”. Continue reading “Os Donos do Poder: Dependência de Trajetória do Patrimonialismo no Estado Brasileiro”

Crise da Democracia Representativa

No seu último livro “Crise e reinvenção da política no Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2018), Fernando Henrique Cardoso resume o sentimento de incompletude que tem em relação à nossa democracia dizendo: “embora a arquitetura institucional esteja aí, ela precisa de reformas e ainda temos que avançar no essencial, isto é, na alma democrática. Nossa cultura de favores e privilégios, nosso amor à burocracia, à pompa dos poderosos e ricos, de retraimento da responsabilidade pessoal e de atribuição de culpa aos outros, principalmente ao governo e às coletividades, desobrigam o cidadão de fazer sua parte, de sentir-se comprometido”.

O corporativismo renasce e passa do plano político ao social, levando de roldão sindicatos e até igrejas. Ele se encastela nos partidos, mesmo nos que nasceram com o propósito de combatê-lo, é o cupim de nossa democracia. Se à tentação corporativista somarmos os impulsos populistas, que não lhe são incompatíveis, temos a descrição de um sistema político enfermo.

A cultura democrática se baseia no sentimento da igualdade, pelo menos perante a lei.

No plano das instituições político-partidárias e do Congresso Nacional, FHC se pergunta: “que tipo de representação política nos é assegurada e como se dá o equilíbrio entre os poderes?”

Para começar, “temos uma democracia na qual os verdadeiros representados não são os cidadãos, e sim organizações intermediárias (uma prefeitura, uma empresa, uma igreja, um clube de futebol etc.) que chegam mais perto do eleitor e, em alguns casos, financiam as campanhas. Colhem em suas malhas o indivíduo eleitor. É às estruturas intermediárias, os ‘eleitores de fato’, a quem o representante serve, mantendo tênue a relação com a massa do eleitorado, salvo no caso dos poucos parlamentares eleitos por correntes de opinião. Continue reading “Crise da Democracia Representativa”