Teoria das Elites: Ideologia para Perpetuação no Governo

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Selvino Antonio Malfatti (Doutor em Filosofia e Professor do Centro Universitário Franciscano em Santa Maria, Rio Grande do Sul) argumenta que “a Teoria das Elites pode servir de justificativa para quem ocupa cargo administrativo e deseja se perpetuar no governo”. Com efeito, o partido ou grupo no poder imbui-se da ideia de que é “a elite” e, para tanto, precisa permanecer no governo. Por esse motivo, o grupo ou partido pode lançar mão da ideologia da Teoria das Elites, pela qual se autojustifica para permanecer no governo.

A tendência inercial de todo grupo político ou partido que está no poder, devido às benesses, é nele perpetuar-se. Aliás, Maquiavel já percebera que esse era um dos objetivos do político: permanecer no poder, além de conquistá-lo e de governar. Isso é esperado porque, para se chegar a ele, envidam-se todas as forças espirituais e físicas.

Não só para conquistar o poder, mas também para permanecer nele, o político lança mão das mais variadas estratégias, sendo que uma das mais significativas é o marketing do bom desempenho econômico e a conquista da confiança popular através do favorecimento de segmentos que possam garantir-lhe a maioria. Antes, porém, de engalfinhar-se na empreitada de prender o poder a qualquer custo, necessita justificar-se, ou seja, precisa de uma justificativa para sua ação. Essa pode ser encontrada na Teoria das Elites, pela qual ele, o político, enquadrando-se como elite, justifica sua permanência no poder e, para tanto, busca um ponto de apoio para sua alavanca. Continue reading “Teoria das Elites: Ideologia para Perpetuação no Governo”

Ciência em Aceleração 

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Stephen Trombley, em “50 pensadores que formaram o mundo moderno: perfis de cinquenta filósofos, cientistas, teóricos políticos e sociais e líderes espirituais marcantes cujas ideias definiram a época em que vivemos” (tradução de Breno Barreto. Rio de Janeiro: LeYa, 2014), afirma que “a Teoria da Relatividade de Einstein nos deu um ponto de vista privilegiado, a partir do qual podemos enxergar o progresso do pensamento em nossa época. Ao longo dos dois mil anos em que os homens olharam para o mundo pelos olhos de Aristóteles, Ptolomeu (90-168), Copérnico (1473-1543) e Galileu (1564-1642), o conhecimento foi acumulado por meio de rápidos insights que davam aos cientistas algo sobre que pensar por várias centenas de anos”.

Mas o mundo pós-newtoniano já não era assim. Desde a divisão do átomo, as descobertas da Física, da Química, da Engenharia e de suas subsequentes contribuições à tecnologia ocorreram em ritmo vertiginoso. A crescente especialização das Ciências Físicas deixou para trás a Era de Amadores Iluministas como Isaac Newton (1642–1727); somente especialistas podem acompanhar o ritmo e os detalhes do avanço de uma área como a física de partículas ou a astrofísica.

O perigo desta abordagem extremamente precisa, que evidencia com clareza problemas científicos individuais, é que o contexto mais amplo pode sair de foco. Corremos o risco de nos perdermos. Ao buscarmos conhecimento e excelência na ciência tendo em vista somente o conhecimento, deixamos para trás o contexto no qual a ciência é realizada – por pessoas, em comunidades. Um dos papéis da Filosofia é lembrar a Ciência desse contexto sociopolítico mais amplo.

É preciso lembrar ainda que o conhecimento é hoje adquirido e financiado por aqueles que se interessam em possuí-lo. Na verdade, foi sempre assim. No início da era científica, os monarcas – e, depois, as democracias – eram os senhores e os beneficiários do conhecimento científico. Hoje, corporações controlam grande parte das descobertas científicas, assim como suas futuras aplicações, gozando de um poder não limitado pelos regulamentos que pertencem ao governo. O poder das corporações é menos visível que o dos governos, e elas pouco podem ser responsabilizadas. A ciência se tornou, como nunca antes, um ato político.  Continue reading “Ciência em Aceleração “

Fascismo e Totalitarismo Soviético: Crítica de Esquerda

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Stephen Trombley, em “50 Pensadores que formaram o mundo moderno”, mostra que da tradição filosófica ocidental, infelizmente, surgiu também o fascismo. Os nacional-socialistas alemães, ou nazistas, constituíam um partido fascista – eram diametralmente opostos aos socialistas inspirados em Karl Marx. O fascismo é algumas vezes considerado mais uma tendência do que um programa sistemático, e, de fato, é difícil identificar uma explicação filosófica coerente para a ideologia nazista. Algumas tentativas são mero catálogo de preconceitos.

O fascismo, da maneira como se desenvolveu em diferentes países – Itália, Alemanha, Espanha –, foi uma reunião desorganizada de crenças extremistas, popularizadas em um período de de profunda crise financeira. Para os alemães, que sofriam com o peso do Tratado de Versalhes, o fascismo se definiu por suas escolhas de bodes expiatórios: judeus, socialistas e o consumismo dos Estados Unidos.

Componentes importantes do fascismo alemão incluem um nacionalismo extremo, a ideia dos arianos como “raça superior” e uma perseguição militarista do império. O líder nazista Adolf Hitler (1889-1945) não enxergava a economia como prioridade, talvez porque as exigências industriais da dominação do mundo significassem abundante trabalho em fábricas, assim como garantido consumo de seus produtos por parte das forças militares (após a apropriação das riquezas das nações conquistadas). O economista libertário, Sheldon Richman, definiu o fascismo como “socialismo com uma máscara capitalista”.

O trabalho de Karl Marx e Friedrich Engels culminou com a filosofia política e econômica do socialismo. O socialismo foi adotado por Vladimir Ilitch Lênin (1870-1924), que o implementou em uma forma que se tornaria o socialismo oficial posto em prática pela União Soviética após a Revolução Russa de outubro de 1917. Continue reading “Fascismo e Totalitarismo Soviético: Crítica de Esquerda”

Iluminismo: Quando o Liberalismo era Progressista

50-pensadoresStephen Trombley escreveu uma minienciclopédia científica, denominada “50 pensadores que formaram o mundo moderno: perfis de cinquenta filósofos, cientistas, teóricos políticos e sociais e  líderes espirituais marcantes cujas ideias definiram a época em que vivemos” (tradução de Breno Barreto. Rio de Janeiro: LeYa, 2014). É um título (junto com subtítulo) tão longo como os dos livros do Séculos XVIII e XIX, quando ler ainda era o passatempo preferido da elite intelectual, dada a falta de outros entretenimentos: rádio, TV, cinema, internet, etc.

fifty-thinkersA Era do Iluminismo foi também a Era das Revoluções.

As guerras civis inglesas (1642-51) fizeram confrontar parlamentaristas e monarquistas. A Revolução Inglesa resultou na Monarquia Constitucionalista, vigente até hoje na Inglaterra.

A Revolução Americana (1775-83) viu colonos do Novo Mundo rebelarem-se contra o domínio do monarca inglês, inspirados nas ideias do filósofo inglês John Locke e do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-78) a respeito do contrato social; esta foi a criação dos Estados Unidos da América.

A Revolução Francesa foi estimulada por ideias políticas iluministas a respeito dos direitos dos cidadãos. O rei Luís XVI (1754-93) foi executado, e hoje a França é uma república democrática, embora tenha havido muitas idas e vindas pelo caminho.

A execução de reis — a Inglaterra executou Carlos I em 1649 — enterrou a ideia do poder por direito divino. Em 1848, o mundo já tinha adentrado de vez a Era do Homem, mas as primeiras rachaduras na nova organização social pós-Iluminismo começaram a aparecer.

Uma nova ciência levou a novas tecnologias e à Revolução Industrial. Máquinas passaram a multiplicar mecanicamente a quantidade de bens antes produzidos à mão.

Trabalhadores deixaram seu estilo de vida agrário (assim como o mercado agrícola) e incharam as cidades, onde estavam as fábricas. Como consequência, tiveram de enfrentar superlotação, doenças e crimes – tudo isso estimulado pela pobreza de operários com longas jornadas de trabalho e baixos salários. Eles sofriam um novo tipo de cansaço, novas lesões e novos insultos à sua autoestima.

Enquanto isso, proprietários de manufaturas – os capitalistas – enriqueciam cada vez mais. A diferença entre a renda dos industrialistas ricos e a dos trabalhadores, pobres e explorados, tornou o conflito inevitável.  Continue reading “Iluminismo: Quando o Liberalismo era Progressista”

Jabuti não sobe em árvore: como o MBL se tornou líder das manifestações pelo impeachment (por Marina Amaral)

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Marina Amaral, no livro de Ivana Jinkings, Kim Doria , Murilo Cleto (orgs), “Por que gritamos golpe?”, descreve muito bem a mobilização dos jovens direitistas, fascistas e golpistas para atuarem como agitadores da rede social e levar os reaças da classe média decadente às passeatas, vestidos com a camiseta da CBF (antro de corruptos) e/ou do pato amarelo da FIESP golpista. Ela já tinha investigado esse movimento direitista em: Marina Amaral, “A nova roupa da direita“, Pública, 23 jun. 2016; disponível online.

“Depois que os protestos contra a alta nas tarifas de ônibus e metrô tomaram o país, em junho de 2013, uma juventude que não costumava se manifestar nas ruas começou a aparecer nos jornais. Os novos integrantes, logo apelidados de “coxinhas” pela juventude de esquerda, repudiavam as bandeiras vermelhas a pretexto de impedir a “partidarização” do movimento, e assumiam o verde-amarelo “de todos os brasileiros”. Condenavam os black blocs e exaltavam a polícia militar, que reprimira com violência os protestos convocados pelo Movimento Passe Livre. Suas principais bandeiras eram contra a “roubalheira” e contra “tudo isso que está aí”, paulatinamente substituídos por um simples “Fora PT”.

A imprensa foi atrás de entrevistas com as novas lideranças, sem esclarecer sua origem.

  • Alguns grupos eram fáceis de rastrear, como o Vem Pra Rua, de Rogério Chequer, ligado à juventude do PSDB e ao senador Aécio Neves.
  • Ou o Revoltados Online, francamente autoritário, que pedia a volta da ditadura militar enquanto faturava com a venda online de camisetas e bonecos contra o PT.
  • O mais obscuro deles era o Movimento Brasil Livre (MBL), que parecia ter brotado da terra para assumir a liderança daquele que se tornaria o movimento pró-impeachment nos anos seguintes.

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Por Que Gritamos Golpe? Para entender o Impeachment e a Crise Política no Brasil

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Ivana Jinkings, Kim Doria e Murilo Cleto são os organizadores da coletânea de artigos de intelectuais, militantes e políticos recém-publicada pela editora Boitempo (2016). Trata-se de um registro histórico indispensável para os leitores contemporâneos quanto para os historiadores no futuro, quando investigarem a fundo as narrativas do Golpe Parlamentarista de 2016.

Trata-se de mais um golpe na história republicana brasileira, 52 anos depois do último Golpe Militar de 1964. Antes deste, tinha fracassado um Golpe Parlamentarista que os reacionários tentaram impor ao vice-presidente Jango Goulart. Este conseguiu submeter o parlamentarismo a um plebiscito popular, cuja maioria disse NÃO à tentativa de políticos representantes das oligarquias regionais comandarem a política brasileira.

Após a redemocratização do Brasil, uma emenda da nova Constituição determinava a realização de um plebiscito no qual os eleitores iriam decidir se o país deveria ter um Regime Republicano ou Monarquista controlado por um Sistema Presidencialista ou Parlamentarista. A lei número 8.624, promulgada pelo presidente Itamar Franco em 4 de fevereiro de 1993, regulamentou a realização do plebiscito para ocorrer em 21 de abril de 1993.

A maioria dos eleitores votou a favor do Regime Republicano e do Sistema Presidencialista, maneira pela qual o país havia sido governado desde a Proclamação da República 104 anos antes – com exceção de uma breve experiência parlamentar entre 1961 e 1963, que também havia sido derrotada em um plebiscito.

Apesar disso, o poder dinástico do familismo político brasileiro manteve seu poder paroquial, estadual e congressual. Com este Golpe de 2016, o Poder Legislativo assumiu o Poder Executivo contra o resultado da eleição democrática de 2014 e, reconhecidamente, sob a falsa alegação de “crime de responsabilidade” – tanto que a Presidenta Dilma não teve seus direitos políticos retirados –, sob o olhar benevolente (e passivo) do Poder Judiciário. Por ora, o Poder Militar, ainda silencioso, só observa a desordem política na democracia brasileira… Continue reading “Por Que Gritamos Golpe? Para entender o Impeachment e a Crise Política no Brasil”