Apresentação Pessoal do Autor do Livro “O Terceiro Pilar”

Raghuram Rajan, no livro “O terceiro pilar” (The Third Pillar: How Markets and The State leave The Community Behind. New York: Penguim Press; 2019), se pergunta: quem sou eu e por que escrevo este livro?

“Sou professor na Universidade de Chicago e passei o tempo como economista-chefe e chefe de pesquisa do Fundo Monetário Internacional, onde assessoramos diversos países industriais e em desenvolvimento. Eu também fui o presidente do Banco Central da Índia, onde empreendemos reformas para melhorar o sistema financeiro da Índia. Tenho experiência em trabalhar tanto no sistema financeiro internacional quanto em um mercado emergente. Na minha vida adulta, nunca estive mais preocupado com a direção que nossos líderes estão nos levando do que eu estou hoje.”

Em seu livro “Linhas de falha: Como as fraturas ocultas ainda ameaçam a economia mundial”, publicado em 2010, ele se preocupou com as consequências da crescente desigualdade, argumentando o crédito habitacional fácil antes da crise financeira global ter sido, em parte, um caminho para os políticos desviarem a atenção das pessoas de seus salários estagnados. Preocupava-se, em vez de extrair a lição certa da crise – de que precisamos consertar as falhas profundas nas sociedades desenvolvidas e na ordem global –, procurássemos bodes expiatórios. Ele escreveu:

“As primeiras vítimas de uma busca política por bodes expiatórios são os visíveis como ‘os outros’, facilmente demonizados, mas impotentes para se defenderem. O imigrante ilegal ou o trabalhador estrangeiro, ambos não votam, mas eles são essenciais para a economia – o primeiro porque eles costumam fazer trabalhos que ninguém mais tocará em tempos normais, e o último porque eles são a fonte das importações baratas capazes de levantarem o padrão de vida para todos, mas especialmente aqueles com baixos rendimentos. Tem de haver um jeito melhor…”

A busca por bodes expiatórios continua bem e verdadeiramente explorada. Rajan escreveu este livro “O Terceiro Pilar” porque vê um mundo cada vez mais polarizado com o risco de virar as costas a setenta anos de paz e prosperidade generalizadas. Ele ameaça esquecer o que funcionou, mesmo ignorando o que precisa mudar.

Os nacionalistas populistas e a esquerda radical compreendem a necessidade de reformas, mas não têm respostas reais quando recorrem à política da raiva e da inveja. Os principais partidos do establishment nem sequer admitem a necessidade de mudança. Há muito a fazer e os desafios estão aumentando. O Estado, os Mercados e a Comunidade podem ser levados a um equilíbrio muito melhor. Nós devemos começar agora.

O resto deste livro é o seguinte. Começa descrevendo o terceiro pilar, a Comunidade. Para alguns, a comunidade significa calor e apoio. Para outros, representa a mentalidade estreita e o tradicionalismo. Ambas as descrições podem ser verdadeiras, às vezes simultaneamente, e nós veremos o porquê.

O desafio para a comunidade moderna é conseguir mais do bem, minimizando o mal. Veremos como isso pode ser obtido através da influência do equilíbrio dos outros dois pilares – o Estado e os Mercados. Para continuar essa exploração, precisamos entender como esses pilares emergiram historicamente.

Na Parte I, o autor traça como o Estado e os Mercados nos países avançados de hoje cresceram a partir da Comunidade feudal, assumindo algumas de suas atividades. Explica como um mercado vibrante ajudou a criar fontes independentes de poder capazes de limitarem os poderes arbitrários do Estado. À medida que o Estado se tornou constitucionalmente limitado, os mercados obtiveram a vantagem, às vezes em detrimento das comunidades.

A extensão do sufrágio de novo empoderamento [reempowered] das comunidades devem ser usados para pressionar o Estado a impor limites regulamentares ao Mercado. As pessoas também exigem proteções sociais confiáveis ​​de modo a se protegerem contra a volatilidade de O Mercado.

Todas essas influências se juntaram nas democracias liberais de mercado competitivo. Elas surgiram em todo o mundo desenvolvido no início do século XX. No entanto, as desacelerações de O Mercado, especialmente após as revoluções tecnológicas, foram e são perturbadoras. A Grande Depressão, seguida pela Segunda Guerra Mundial, parecia soar a sentença de morte das democracias liberais de mercado em grande parte do mundo e na ascensão do Estado.

Na Parte II, Rajan descreve como os Estados Unidos moldaram a ordem liberal do pós-guerra e como o Estado e os Mercados voltaram a crescer. A democracia ganhou raízes mais firmes.

Os trinta anos de forte crescimento pós-guerra, no entanto, foram seguidos por anos de relativa estagnação, à medida que os países desenvolvidos lutavam por novas formas de revitalizar o crescimento. Em resposta, os países anglo-americanos deram poder aos Mercados às custas do Estado, enquanto as reformas europeias continentais favoreceram o Superestado e o Mercado atuarem de modo integrado.

Ambos os conjuntos de reformas para constituição de blocos regionais vieram às custas da Comunidade. Essas diferentes escolhas deixaram os países posicionados de maneira diferente para enfrentar a revolução das TIC, a subsequente crise financeira global e a reação contrária à ordem global. Rajan descreve as razões para o aumento do populismo e traça os tipos de desenvolvimentos relacionados à China e à Índia.

Ele se volta para possíveis soluções na Parte III. Para reforçar as chances de a sociedade permanecer liberal e democrática, precisamos de profundas mudanças. Elas reequilibrarão os três pilares em face da mudança tecnológica. Precisamos de mais localismo para capacitar a Comunidade, aproveitando o Estado e os Mercados para tornar a sociedade mais inclusiva.

Finalmente, são necessárias algumas ressalvas. Rajan pretende este livro ser abrangente, mas não exaustivo. Portanto, ilustra o curso da história com exemplos de países proeminentes, mas isso iria sobrecarregar a paciência do leitor (assim como o do seu editor) se ele justificasse cada ponto com os detalhes exigidos pelos especialistas.

Este livro oferece uma tese geral, própria ou original, e baseia-se em muito trabalho acadêmico, mas destina-se a um público amplo. Ele também oferece propostas políticas, não como a palavra final, mas para provocar o debate.

“Enfrentamos enormes desafios, para os quais precisamos não apenas das soluções certas, mas também daquelas capazes de nos inspirar a agir”. Vale a pena recordar as palavras do arquiteto de Chicago Daniel Burnham: “Não faça pequenos planos; eles não têm mágica para agitar o sangue dos homens e provavelmente não serão realizados.” Raghuram Rajan espera este livro “despertar seu torpor”.

O progressista de ontem e o do amanhã: desafios da democracia liberal no mundo pós-políticas identitárias

Mark Lilla escreveu o livro “O progressista de ontem e o do amanhã: desafios da democracia liberal no mundo pós-políticas identitárias”, cujo título original é The Once and Future Liberal: After Identity Politics (tradução Berilo Vargas. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018). Veio ao Brasil para o lançamento e concedeu entrevista ao Roda Viva na TV Cultura de São Paulo (veja acima).

Sua epígrafe é uma pertinente citação do Senador Edward M. Kennedy, dita em 1985: “Precisamos entender que há uma diferença entre ser um partido que se preocupa com o trabalho e ser um partido trabalhista. Há uma diferença entre ser um partido que se preocupa com as mulheres e ser um partido feminista. E podemos e devemos ser um partido que se preocupa com as minorias sem se tornar um partido das minorias. Em primeiro lugar, somos cidadãos”. Continuar a ler

Perguntas Certas contra Candidatos a Fascistas

 

Madeleine Albright, no último capítulo do livro “Fascismo: Um alerta”, sugere haver uma razão para a popularidade do mito sobre justiceiros. Algo acontece com um cidadão respeitador da lei – um ente querido é assassinado, sua filha raptada, um estupro não chega a ir a julgamento – e a polícia não tem resposta. De repente, os eleitores incultos e desinformados se identificam com um agente da vingança. Toda aquela fúria mal contida é canalizada na captura de seu alvo e dane-se o devido processo legal. Quando os vilões são aniquilados, vibram. É a natureza desumana – ou ao menos parte dela.

Quando se trata das vidas de países, as origens da raiva não têm de ser profundamente pessoais para despertar o desejo por soluções imediatas.

  • Mussolini e Hitler beberam da angústia de seus cidadãos após a carnificina da Primeira Guerra Mundial.
  • Kim Il-sung fez o papel de guardião e guia num país marcado por quatro décadas de conflitos.
  • Milosevic e Putin exploraram os poços profundos da indignação nacionalista no rescaldo da Guerra Fria.
  • A ascensão ao poder de Chávez e Erdogan se deu em meio a crises políticas e econômicas que levavam gente da classe média a despencar financeiramente rumo à pobreza.
  • Orbán e seus parceiros de aventura da direita europeia prometem proteger seus eleitores das demandas psicológicas geradas pela diversidade religiosa, cultural e racial.

Nada há de repreensível em querer um líder forte – pouca gente ansiaria por um fraco –, mas a lista de lideranças nacionais, antes com aparência de virtuosas, mas depois reveladoras de uma ou mais falhas desastrosas de caráter, começa ao nascer da própria história e continua a aumentar. Continuar a ler

Desinformação em Redes Sociais (Feicebuque & Uotzap)

Madeleine Albright, no livro “Fascismo: Um alerta”, alerta: o custo de espalhar falsidades pela mídia social é mínimo, e o esforço exigido a quem é adepto da prática, idem. O uso de checadores de fatos, como meio de defesa, é útil, mas muito lento.

Esse cenário obriga operadores de plataformas de mídia social a reverem seus papéis. A visão de quem acha não ter a responsabilidade de monitorar conteúdo é conveniente e, quando articulada como defesa da liberdade, sedutora para muitos. Mas essa abordagem traz o risco de governos optarem por mudar totalmente de direção – como a China, por exemplo, rumo ao uso de firewalls–, o que não seria do interesse nem da democracia nem da liberdade.

O mínimo necessário aos internautas são ferramentas capazes de lhes possibilitarem identificar conteúdo gerado por robôs e outras fontes de notícias falsas. A regulação também é necessária para garantir fontes de mensagens políticas on-line serem tão transparentes como o financiamento de comerciais de campanha veiculados no rádio e na televisão.

A maioria de nós vivenciou o período quando o spam ameaçou destruir o e-mail. Hoje, a democracia é enfraquecida por mentiras surgidas em ondas artificiais capazes de martelar os sentidos continuamente. Líderes de acordo com o figurino democrático têm tido dificuldades para não serem atropelados por um ciclo incansável de notícias e acabam por gastar energia demais na tentativa de contestar histórias. Elas parecem surgir do nada, criadas com o único propósito de liquidá-los. Continuar a ler

Uma Difícil Arte: Democracia contra Fascismo

Madeleine Albright, ex-secretária de Estado no governo Clinton (1997-2001), afirma no nono capítulo do livro “Fascismo: Um alerta”: “com a ajuda de seus amigos, contudo, a democracia quase sempre pode ser reparada, e então melhorada”.

Ao longo de um período de mais de três décadas, trabalhou inicialmente como vice-diretora e depois como diretora do National Democratic Institute (NDI). Conjuntamente com organizações irmãs nos EUA e em outros países, colabora com esforços locais para desenvolver instituições e habilidades democráticas.

Nesse papel, a organização supervisionou marcos históricos como a Revolução do Poder Popular que, em 1986, frustrou as tentativas do ditador filipino Ferdinand Marcos de fraudar uma eleição presidencial “repentina”; e, dois anos depois, o plebiscito que deu fim ao regime repressivo do general chileno Augusto Pinochet. O NDI também esteve presente durante a histórica eleição de 1994 na África do Sul que baixou a cortina final sobre o apartheid, e – na esteira da Guerra Fria – no renascimento da democracia na Europa Central e nas mais recentes transições na Indonésia, no Nepal, na Nigéria e na Tunísia.

O posicionamento do NDI é estritamente solidário. O instituto não advoga em prol de qualquer partido ou agenda política específicos nem vê a democracia como um sistema rígido cujas feições na Ásia sejam idênticas, por exemplo, às que teria na África ou nas Américas.

Dentro de uma estrutura formada por certos princípios elementares, a democracia é um meio através do qual povos muito diferentes expressam sua liberdade. A missão do NDI é ajudar autoridades e ativistas locais a lucrar com as experiências de outros, e fazê-lo cruzando fronteiras e regiões.

As lições aprendidas poderão facilitar um processo eleitoral livre das manchas da injustiça e da corrupção. Ou então oferecer ideias práticas sobre como:

  1. modernizar uma legislatura,
  2. profissionalizar partidos políticos,
  3. abrir espaço para a sociedade civil ou
  4. garantir mulheres, jovens e minorias terem representação justa na tomada de decisões.

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Fascismo: Um alerta

Madeleine Albright foi a 64ª. secretária de Estado dos Estados Unidos, entre 1997 e 2001. Sua notável carreira inclui postos no Congresso americano e no Conselho de Segurança Nacional. Foi também embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas.

Albright publicou o oportuno e excelente livro “Fascismo: Um alerta” (São Paulo: Editora Planeta do Brasil; 2018).

No prefácio, ela informa o fascismo ter ganhado vida no início do século XX, um tempo de vivacidade intelectual e nacionalismo ressurgente aos quais se somava a ampla decepção com o fracasso da democracia representativa em manter-se no compasso de uma Revolução Industrial impulsionada pela tecnologia. Continuar a ler

Algumas Lições sobre Democracia para o Século XXI

David Runciman, autor do livro “Como a democracia chega ao fim” (RUNCIMAN, David (1967-). Título original: How Democracy Ends. Tradução: Sergio Flaksman. São Paulo: Todavia, 1ª ed., 2018) conclui se lançando uma pergunta: “Qual é a minha solução?

A essa altura de qualquer livro sobre o mal-estar da democracia contemporânea, é comum os leitores esperarem que o autor sugira algumas correções. Não tenho nada a sugerir. Se o solucionismo é parte do problema, simplesmente propor soluções não será a maneira de corrigir nada.

Prefere, em vez disso, apresentar algumas lições para o século XXI. Não devem ser vistas como um guia para o futuro. São, na verdade, um modo de tentar entender o ponto em que nos encontramos no momento. Seja qual for o nosso futuro, precisamos saber de onde partimos. Continuar a ler