Atores Coletivos para Erosão do Capitalismo

Segundo Erik Olin Wright, no livro “Como ser anticapitalista no século XXI?” (Boitempo, 2019), “a erosão do capitalismo, como qualquer estratégia, precisa de atores coletivos. Estratégias não caem do céu; elas são adotadas por pessoas organizadas em partidos, movimentos e organizações. Onde estão os atores coletivos para erodir o capitalismo? 

No marxismo clássico, a “classe trabalhadora” era considerada o ator coletivo detentor de o poder de derrubar o capitalismo. Existe um cenário plausível no qual possamos construir as forças sociais necessárias para elaborar a estratégia de erosão do capitalismo? O capítulo 6 aborda esse problema.

Uma visão estratégica de erosão do capitalismo passa por como criar atores coletivos com coerência e capacidade de luta suficiente para sustentar esse projeto de desafiar o capitalismo. Para as alternativas serem tangíveis, é preciso ter agentes políticos de transformação, capazes de fazer as alternativas acontecerem por meio das estratégias anticapitalistas. Onde estão esses atores coletivos?

Erik Olin Wright discute a noção de “agência” e três conceitos centrais na formação dos atores coletivos: identidades, interesses e valores. Também explora o problema de como nos orientar diante das complexidades impostas na criação de atores coletivos de maneira a serem efetivos para a transformação social do mundo nos dias de hoje.

A erosão do capitalismo combina quatro lógicas estratégicas. Em cada uma delas estão envolvidos diferentes tipos de atores coletivos e coalizões formadas por eles.

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Variedades de Anticapitalismo no Século XXI

Erik Olin Wright considera o capítulo 3, intitulado “Variedades de anticapitalismo”, o pilar central do livro “Como ser anticapitalista no século XXI?” (Boitempo, 2019). 

A maioria das mudanças sociais subitamente revolucionárias, ocorridas ao longo da história da humanidade, pegou as pessoas de surpresa. Provocaram mortes e foram contra os pares de valores socialistas: igualdade / justiça, democracia / liberdade e comunidade / solidariedade. Tiveram consequências indesejáveis de ações humanas. 

Porém, é possível montar uma “estratégia” em prol da mudança social desejada a ser atingida por efeito cumulativo de ações deliberadas e intencionais. Existem metas visando a transformação social, onde há estratégia para efetivá-las se forem viáveis. 

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Anticapitalista no Século XXI

“Em abril de 2018, fui diagnosticado com leucemia mieloide aguda. (…) Se a cirurgia for bem-sucedida, estarei curado; caso contrário, morrerei.” Erik Olin Wright escreveu isso com serenidade, em agosto daquele ano, quando concluiu seu livro “Como ser anticapitalista no século XXI?”. Ele foi publicado postumamente (Boitempo, 2019), pois o autor morreu aos 71 anos no dia 23 de janeiro de 2019.

Considero-o uma obra prima a se tornar um clássico, lido por gerações posteriores de ativistas. É uma renovadora obra de um escritor marxista. Demarca a superação de uma época. Representa uma obra-mestra para se pensar a evolução sistêmica.

Pertencia aos autointitulados “marxistas analíticos”. Seu objetivo era livrar o marxismo de todo o tipo de papo furado – picaretagens filosóficas, saltos argumentativos e demais ilusões da retórica “nós contra eles” – e produzir uma ciência mais rigorosa.

Erik foi presidente da Associação dos Sociólogos dos Estados Unidos. Com seu conceito de “situações contraditórias de classe” – posições de classe localizadas entre as três classes fundamentais, isto é, os capitalistas, os trabalhadores e a pequena burguesia, incentivou os marxistas irem além da relação binária capital-trabalho

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Autoimagem de Idiota: Sem Percepção do Mal Feito a Si e aos Outros

Anne Applebaum, em seu livro vencedor do Pulitzer Prize, “Crepúsculo da Democracia” (Penguin Random House LLC, 2020), conta: não faz muito tempo, jantando em um restaurante de frutos do mar junto a uma praça horrorosa de Atenas, Applebaum descreveu sua festa de Ano-Novo para um cientista político grego. Ele riu dela. Ou melhor, riu junto com ela: não pretendia ser grosseiro.

O que Anne chamava de polarização não era nenhuma novidade. “O momento liberal pós-1989 foi uma exceção”, disse Stathis Kalyvas. Polarização é algo normal. Applebaum acrescentaria: ceticismo quanto à democracia liberal também é normal. E o apelo do autoritarismo é eterno.

Dentre outras coisas, Kalyvas é autor de vários livros importantes sobre guerras civis, inclusive a Guerra Civil da Grécia dos anos 40, um dos muitos momentos da história europeia quando segmentos políticos radicalmente divergentes pegaram em armas e passaram a se matar uns aos outros. Na Grécia, “guerra civil” e “ordem civil” são, no mais das vezes, termos relativos.

Na ocasião daquele jantar, alguns intelectuais gregos passavam por um momento centrista. Uma porção de gente de Atenas lhe contou, de repente, era de bom-tom ser “liberal”, com o que se queria dizer nem comunista nem autoritário, nem de extrema esquerda, como o Syriza, o partido da situação, nem de extrema direita, como seu parceiro de coalizão nacionalista, o partido Gregos Independentes. Jovens avançados se qualificavam como “neoliberais”, assimilando um termo considerado pouquíssimos anos antes uma heresia. Continuar a ler

Oportunismo Carreirista: Atitude Comum de Ressentidos

Anne Applebaum, em seu livro vencedor do Pulitzer Prize, “Crepúsculo da Democracia” (Penguin Random House LLC, 2020), conta: Mária Schmidt não estava na sua festa do fim-de-ano em 1999, mas ela a conhece há bastante tempo. Ela a convidou para a inauguração do Terror Háza – Museu Casa do Terror – em Budapeste em 2002, e desde então esteve mais ou menos em contato com ela. O museu que Schmidt dirige, um dos mais inovadores da porção oriental da Europa, explora a história do totalitarismo na Hungria.

Desde o dia de sua inauguração também tem recebido duras críticas. Muitos condenaram a primeira sala – em uma das paredes há um painel de televisores exibindo propaganda nazista; na parede oposta, outro, mostrando propaganda comunista.

Em 2002, ainda era um choque colocar os dois regimes lado a lado, embora agora talvez seja menos. Outros ressaltaram os crimes do fascismo não receberam o devido peso e espaço, se bem que, como os comunistas administraram a Hungria por muito mais tempo, o material sobre eles é mais farto.

Anne Applebaum julgou positivo mostrar húngaros comuns colaborando com os dois regimes – na sua concepção, isso podia ajudar o país a reconhecer sua responsabilidade pelas próprias condições políticas e evitar a tacanha armadilha nacionalista de sempre jogar a culpa em cima de gente de fora.

No entanto, é justamente nessa tacanha armadilha nacionalista onde a Hungria vem caindo. O acerto de contas tardio com seu passado comunista – ao erigir museus, ao realizar cultos em memória dos mortos, ao dar nome a malfeitores – não ajudou, ao contrário das suas expectativas, a sedimentar respeito pelo Estado de Direito, pelos limites da ação do Estado, pelo pluralismo. Continuar a ler

Grande Mentira e Mentira do Tamanho Médio: Teoria da Conspiração

Anne Applebaum, em seu livro vencedor do Pulitzer Prize, “Crepúsculo da Democracia” (Penguin Random House LLC, 2020), afirma: os escritores europeus do século XX estavam obcecados com a ideia da Grande Mentira, as vastas construções ideológicas apresentadas como o comunismo e o fascismo.

Os cartazes exigindo fidelidade ao Partido ou ao Líder, os Camisas Marrom e Camisas Negras marchando em formação, os desfiles iluminados por tochas, a polícia do terror, todas essas demonstrações forçadas de apoio às Grandes Mentiras eram tão absurdas e desumanas a ponto de exigirem violência prolongada para impor e a ameaça de violência para manter. Eles exigiam educação forçada, controle total de toda a cultura, a politização do jornalismo, esportes, literatura e artes.

Em contraste, os movimentos políticos de polarização da Europa do século XXI exigem muito menos de seus seguidores. Eles não defendem uma ideologia desenvolvida e, portanto, não exigem violência ou polícia do terror. Eles querem seus clérigos serem capazes de os defenderem, mas não os obrigam a proclamar “preto ser branco”, “guerra ser paz” e “as fazendas estatais alcançaram 1.000% de sua produção planejada”.

A maioria deles não usa propaganda em conflito com a realidade cotidiana. No entanto, todos eles dependem, se não de uma Grande Mentira, então de o que o historiador Timothy Snyder certa vez disse a Anne Applebaum: deveria ser chamada de Mentira do Tamanho Médio.

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Regime Populista de Direita: Antro de Oportunistas Incompetentes

Anne Applebaum, em seu livro vencedor do Pulitzer Prize, “Crepúsculo da Democracia” (Penguin Random House LLC, 2020), conta outra história vivenciada na atual Polônia.

Para entender os irmãos Kurski é fundamental entender de onde vieram: de Gdańsk, cidade portuária à beira do mar Báltico, onde guindastes de estaleiros assomam como cegonhas gigantescas. Os Kurski atingiram a maioridade no início dos anos 80, quando Gdańsk era o centro da atividade anticomunista na Polônia e um fim de mundo desgraçado, um lugar onde intriga e tédio se faziam medir em doses iguais.

Naquele momento e naquele local em particular, os irmãos Kurski se sobressaíam. O senador Bogdan Borusewicz, um dos mais importantes ativistas sindicais clandestinos da época. Ele disse a Anne Applebaum o colégio onde eles estudavam era conhecido por estar zrewoltowane – em revolta contra o regime comunista.

Jarosław representava sua classe no parlamento estudantil e fazia parte de um grupo de estudo da história e literatura conservadoras. Jacek, um pouquinho mais novo, era menos interessado no debate intelectual contra o comunismo e se assumia como ativista e radical.

Logo depois da lei marcial, os dois irmãos iam a passeatas, bradavam palavras de ordem, agitavam bandeiras. Ambos atuaram em um jornal estudantil ilegal e depois no Solidarność, a publicação oposicionista, também ilegal, do Solidariedade, o sindicato de Gdańsk. Continuar a ler

Negacionismo do Mérito do Saber Técnico-Científico

Anne Applebaum, em seu livro vencedor do Pulitzer Prize, “Crepúsculo da Democracia” (Penguin Random House LLC, 2020), diz: se você acredita, como muitos dos seus velhos amigos agora acreditam, a Polônia ficará melhor se for governada por pessoas capazes de proclamar em voz alta um certo tipo de patriotismo, pessoas capazes de serem leais ao líder do partido, pessoas constituintes de, ecoando as palavras do próprio Kaczyński, um “tipo melhor de polonês”, então, um Estado de Partido Único é, na verdade, mais justo em lugar de uma democracia competitiva.

Por que diferentes Partidos podem competir em igualdade de condições, se apenas uma delas merece governar? Por que as empresas deveriam competir em um mercado livre se apenas algumas delas são leais ao Partido e, portanto, verdadeiramente merecedoras de riqueza?

Esse impulso é reforçado, na Polônia, bem como na Hungria e em muitos outros países ex-comunistas, pelo sentimento generalizado de as regras da concorrência são falhas, devido às reformas da década de 1990, quando a privatização em massa e a imposição de regras de livre mercado transformaram suas economias. Isso permitiu muitos ex-comunistas reciclarem seu Poder Político em Poder Econômico. Continuar a ler

Como Demagogos Vencem e Impõem Estado de Partido Único

Anne Applebaum, em seu livro vencedor do Pulitzer Prize, “Crepúsculo da Democracia” (Penguin Random House LLC, 2020), afirma: Monarquia, Tirania, Oligarquia, Democracia – todas essas formas de organizar sociedades eram familiares a Platão e Aristóteles há mais de dois mil anos. Mas o Estado de Partido Único Iliberal, agora encontrado em todo o mundo – pense na China, Venezuela, Zimbábue – foi desenvolvido por Lenin, na Rússia, a partir de 1917.

Nos livros de Ciência Política do futuro, o fundador da União Soviética certamente será lembrado não apenas por suas crenças marxistas, mas como o inventor dessa forma duradoura de organização política. É o modelo adotado por muitos dos autocratas do mundo usam hoje.

Ao contrário do dito pelo marxismo, o Estado de Partido Único Iliberal não é uma filosofia. É um mecanismo para manter o poder e funciona perfeitamente ao lado de muitas ideologias. Funciona porque define claramente quem chega a ser a elite – a elite política, a elite cultural, a elite financeira. Continuar a ler

Predisposição Autoritária

Anne Applebaum, em seu livro vencedor do Pulitzer Prize, “Crepúsculo da Democracia” (Penguin Random House LLC, 2020), narra: Karen Stenner, uma economista comportamental, começou a pesquisar traços de personalidade há duas décadas. Por sua pesquisa, cerca de um terço da população de qualquer país tem o chamado por ela de predisposição autoritária, uma expressão mais útil se comparada à personalidade, porque é menos rígida.

Uma predisposição autoritária favorece a homogeneidade e a ordem. Pode estar presente sem necessariamente se manifestar. Ao contrário, uma predisposição “libertária” privilegia a diversidade e a diferença, também pode estar presente silenciosamente.

A definição de autoritarismo de Stenner não é política e não é semelhante a conservadorismo. O autoritarismo apela, simplesmente, a pessoas incapazes de tolerar a complexidade: não há nada intrinsecamente “de esquerda” ou “de direita” neste instinto. É anti-pluralista. Suspeita de pessoas com ideias diferentes. É alérgico a debates acirrados.

Se os possuidores derivam sua política do marxismo ou do nacionalismo, isso é irrelevante. É um estado de espírito, não um conjunto de ideias. Continuar a ler

Divisão e Polarização Ideológica da Nação

Anne Applebaum, em seu livro vencedor do Pulitzer Prize, “Crepúsculo da Democracia” (Penguin Random House LLC, 2020), inicia sua análise depois de contar sua desagradável estória de inter-relacionamento pessoal na Polônia dividida e polarizada ideologicamente.

Em um célebre diário mantido de 1935 a 1944, o escritor romeno Mihail Sebastian relatou uma mudança ainda mais extrema em seu país. Assim como ela, Sebastian era judeu e a maioria de seus amigos era de direita.

No diário ele anotou como, um por um, eles foram atraídos pela ideologia fascista, tal um bando de mariposas em direção à luz. Relatou a convicção e a arrogância das quais se imbuíam ao deixar de se identificarem como europeus – admiravam Proust, viajavam para Paris – e passarem a se qualificar como romenos de sangue e solo.

Reparou eles descambarem para o pensamento conspiratório ou se tornavam irrefletidamente rudes. Gente conhecida por ele fazia anos o insultava abertamente e depois se portava como se nada tivesse acontecido. “Será possível”, ele se perguntava em 1937, “manter amizade com pessoas que compartilham uma série de ideias e percepções incompatíveis com as minhas – tão incompatíveis que se calam de vergonha e constrangimento assim que entro no recinto?”

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Crepúsculo da Democracia

Partes do livro vencedor do Pulitzer Prize de autoria da Anne Applebaum, “Crepúsculo da Democracia” (Twilight of Democracy – The Seductive Lure of Authoritarianism. Penguin Random House LLC, 2020) foram publicadas originalmente nas seguintes publicações. “Um Aviso da Europa: O Pior Ainda Está por Vir” (outubro de 2018) e “As Pessoas Responsáveis Veem uma Oportunidade” (23 de março de 2020) foram publicadas pela primeira vez no The Atlantic. “Quer construir um movimento de extrema direita?” foi publicado, inicialmente, no The Washington Post (2 de maio de 2019). No Brasil, foi publicada na Edição 146 (novembro de 2018) na revista piauí o artigo “Carta da Polônia: O pior está por vir”.

Anne Applebaum é ótima contadora de histórias políticas. Sua narrativa é pessoal. Compartilho abaixo trechos do  primeiro capítulo.

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