Intelectuais: Sábios Sacerdotes Pregadores da Ordem Dominante

 

Jessé de Souza - O GloboO livro de Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira (São Paulo; LeYa; 2015), parte da crítica da Ciência Social conservadora imperante até hoje no Brasil como o fundamento último da dominação material e efetiva das classes privilegiadas entre nós. Essa dominação só tende a se eternizar se é capaz de se justificar e convencer aos próprios dominados a respeito deles se prestarem a uma “servidão voluntária”. Produzir esse “convencimento” é precisamente o trabalho dos intelectuais, substituindo os sacerdotes do passado.

A ação combinada do “culturalismo conservador” com o “economicismo”, os dois pilares da “inteligência brasileira” que Souza critica nesse livro, leva a um extremo empobrecimento do debate político nacional. Só se apresenta um lado da análise das questões. Sobra a tarefa de achar vida inteligente na rede social.

São sempre ideias de intelectuais e especialistas que estão na base de programas de partido político, de planejamento do Estado, do que se ensina em salas de aula, do que se decide em tribunais e daquilo que se publica em jornais e se divulga em TVs. Suas ideias não “brotam” espontaneamente. São ideias-força de intelectuais e especialistas que se conectam a “interesses poderosos” e logram se institucionalizar como leitura dominante de toda uma sociedade sobre si mesma. Continue reading “Intelectuais: Sábios Sacerdotes Pregadores da Ordem Dominante”

A Tolice da Inteligência Brasileira: como o País se deixa manipular pela elite

A Tolice da Inteligência Brasileira

O título é um achado em ironia. De fato, a etimologia de “inteligência” vem do latim intelligentĭa,ae “entendimento, conhecimento”. Tem a mesma sinonímia de “perspicácia”. Mas sua antonímia é “desentendimento, desinteligência, estultícia, estupidez, imbecilidade, tolice”. Em outras palavras, o título do livro de Jessé Souza, sociólogo que atualmente preside o IPEA, alerta para a inépcia dos intelectuais, situados na classe média brasileira, que constituem a “tropa de choque” na defesa dos interesses do 1% dos “endinheirados”, isto é, dos possuidores do top da riqueza.

O mundo social não é transparente aos olhos de imediato. Entre os olhos e a realidade há uma venda que é a ideologia. Venda pode ser vista como faixa de pano com que se cobrem os olhos ou como uma metáfora para a ação de não perceber o que se passa. Venda é também o ato de alguém que se deixa subornar por dinheiro ou vantagem. Não é o caso do nossos intelectuais midiáticos que servem à manutenção dos privilégios sociais?

Por que o interesse em “mentir” sobre como o mundo social realmente é? Os ricos e felizes, em todas as épocas e em todos os lugares, não querem apenas ser ricos e felizes. Querem ter a consciência limpa por saber que têm direito exclusivo à riqueza e felicidade. Isso significa que o privilégio – mesmo o injusto que se transmite por herança – necessita ser “legitimado”, ou seja, aceito mesmo por aqueles que foram excluídos de todos os privilégios. Continue reading “A Tolice da Inteligência Brasileira: como o País se deixa manipular pela elite”

A quem serve a classe média tola e indignada?

 

jesse souzaConfusão entre o público e o privado, compadrio, herança católica portuguesa, predomínio das relações pessoais e familiares sobre o sistema de mérito, corrupção. Ao contrário do que em geral se pensa, nada disso é característica exclusiva do Brasil.

Para Jessé Souza, presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), vinculado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, e doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), criou-se no Brasil, à esquerda e à direita, um legado de equívocos a partir do pensamento de Sérgio Buarque de Holanda (1902-82), que merece ser classificado como um verdadeiro “complexo de vira-lata”.

Para o professor de ciência política na UFF (Universidade Federal Fluminense), que acaba de lançar “A Tolice da Inteligência Brasileira” [Leya, 272 págs., R$ 39,90, e-book, R$ 26,99] (leia minha resenha nos próximos post), a intelectualidade do país tende a idealizar as sociedades capitalistas avançadas, imaginando que em países como Estados Unidos ou França predomine a plena igualdade de oportunidades e a completa separação entre o Estado e os interesses privados. Mas o peso das origens familiares, do capital cultural acumulado ao longo de gerações, das pressões empresariais sobre o poder público está presente, diz ele, em qualquer país capitalista.

Autor de estudos sobre Max Weber (1864-1920) e Jürgen Habermas, Jessé Souza desenvolve, em “A Tolice da Inteligência Brasileira“, um sofisticado argumento teórico para mostrar de que modo o conceito weberiano de “patrimonialismo” – fundamento das críticas de Raymundo Faoro (1925-2003) à imobilidade do sistema social brasileiro e ao fracasso do capitalismo e da democracia entre nós – não foi originalmente pensado para ter aplicação nas sociedades modernas.

Ao interesse teórico que marcou o início de sua carreira, Jessé Souza tem acrescentado, nos últimos anos, um intenso trabalho de investigação empírica, do qual resultaram livros como “Os Batalhadores Brasileiros: Nova Classe Média ou Nova Classe Trabalhadora?” (editora UFMG, 2010), e “A Ralé Brasileira: Quem É e Como Vive” (ed. UFMG, 2009).

O problema da economia e da democracia brasileiras, argumenta Souza, não nasce de supostas deficiências culturais que tenhamos frente aos países desenvolvidos, mas da incapacidade do sistema para integrar um vasto contingente de excluídos, a quem faltam não apenas recursos materiais, mas equipamentos básicos de educação, autoestima e cidadania.

A lição de Florestan Fernandes, em especial de seu livro de 1964, “A Integração do Negro na Sociedade de Classes” (ed. Globo), é das poucas que saem preservadas do implacável julgamento crítico de “A Tolice da Inteligência Brasileira”, repleto de palavras duras contra Roberto DaMatta, Fernando Henrique Cardoso e outros mestres do pensamento social entre nós. Compartilho abaixo sua entrevista a Marcelo Coelho (FSP, 11.01.16). Continue reading “A quem serve a classe média tola e indignada?”

A Tolice da Inteligência Brasileira

Jessé de SouzaNice de Paula (Globo, 15/11/15) entrevistou Jessé Souza, que assumiu a presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em abril de 2015. Depois de dizer que os 40 milhões de brasileiros que ingressaram no mercado de consumo nos últimos anos não formavam uma classe média – como então alardeava o governo -, diz outras verdades necessárias serem ditas em novo livro. Nele, o sociólogo afirma que o Brasil não tem uma classe alta, mas sim uma “classe de endinheirados”.

E argumenta que a classe média tradicional, além de conservadora, é tola e assume o papel de guardiã da moralidade para compensar seu medo da ascensão dos mais pobres, seu ressentimento com o sucesso dos mais ricos e ficar com a consciência tranquila diante da exploração que ela mesma pratica diariamente. “A classe média explora os mais pobres – e no Brasil essa exploração é uma espoliação absurda – mas finge que é boazinha, afinal de contas, a empregada doméstica é quase da família”, diz o presidente do Ipea, órgão que é subordinado ao Ministério do Planejamento. Continue reading “A Tolice da Inteligência Brasileira”

Castas e Párias

Sistema de castas

Casta, segundo o dicionário Houaiss, no sistema de estratificação tradicional da Índia, é um grupo social fechado, de caráter hereditário, cujos membros pertencem à mesma etnia, profissão ou religião. Por extensão, designa qualquer grupo social, ou sistema rígido de estratificação social, de caráter hereditário. Portanto, refere-se à camada social que forma uma das partes de uma sociedade que se organiza de maneira hierárquica. Em sentido pejorativo, usa-se a expressão para hostilizar o grupo de cidadãos que se destaca dos demais por seus privilégios, ocupações, costumes e/ou preconceitos.

Pária é o indiano não pertencente a qualquer casta, considerado impuro e desprezível pela tradição cultural hinduísta. Por extensão, designa qualquer pessoa mantida à margem da sociedade ou excluída do convívio social.

O sociólogo Jessé de Souza, presidente do IPEA, utiliza-se da expressão “ralé” para referir-se ao conjunto de indivíduos pertencentes à camada inferior da sociedade brasileira, ou seja, a arraia-miúda, a plebe, o populacho… Prefiro usar “pária“.

Como tenho empregado muito a classificação de castas e párias para mostrar a estratificação da riqueza pessoal brasileira, relacionando-a à atividade profissional, compartilho abaixo um trecho de Antonio Luiz M. C. Costa, autor do livro “Títulos de Nobreza e Hierarquias: um guia sobre as graduações sociais na história”, a respeito das castas. Continue reading “Castas e Párias”

A Virada: O Nascimento do Mundo Moderno

A Virada

Amantes de livros, cultores da bibliomania, querem ler um livro excepcional? Leiam o Vencedor do National Book Award 2011 e do Prêmio Pulitzer 2012: A Virada: O Nascimento do Mundo Moderno. Não só pelo conteúdo, como também pelo estilo magnífico do autor, pleno de sutilezas irônicas, é leitura fascinante.

É uma ode aos livros. Ode entre os antigos gregos é um poema lírico destinado ao canto, composto de estrofes de versos com medida igual, sempre de tom alegre e entusiástico. Essa expressão cai bem para caracterizar a tarefa dos “caçadores de livros” do pré-Renascimento em busca do conhecimento acumulado na Antiguidade. Cristãos autocríticos se transformam por causa desse resgate da cultura pagã (politeísta ou ateia) dos filósofos gregos e romanos, que tinha sido dizimada pela intolerância religiosa, durante a “Era das Trevas”, o milênio entre o século IV e o Século XV.

Mesmo nessa época mais dark, mosteiros em lugares quase inacessíveis, através de seus monges copistas, preservaram algumas obras primas em suas bibliotecas. Com isso, possibilitaram o Renascimento, ou melhor, o Nascimento do Mundo Moderno! Continue reading “A Virada: O Nascimento do Mundo Moderno”

O Animal Social

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Robson Viturino (Valor, 17/06/14) resenha um livro de autoria de David Brooks a respeito de um campo multidisciplinar que desejo ler, pois se relaciona ao que escrevi no meu Memorial para Concurso de Professor-Titular.

“Na literatura americana existe um território híbrido – entre o jornalismo, a ciência e a autoajuda chique – de onde saem best-sellers aos montes. Volta e meia, os autores dessa categoria são criticados por simplificarem teorias científicas além da conta, com o intuito de fisgar o leitor. Abordagens originais e bem descritas são mais raras, mas às vezes também acontecem. Com o recém-lançado “O Animal Social”, o jornalista americano David Brooks é um desses poucos autores que conseguiram a proeza de transitar por essas áreas, extrair algo rico dessa combinação improvável e tornar-se um sucesso de vendas sem causar dores de estômago na academia.

Brooks, prestigiado colunista político do “New York Times” que volta e meia recorre à ciência para explicar o que ocorre em Washington, arriscou-se em outro campo não menos movediço: o inconsciente. A partir de uma série de estudos recentes de Neurociência, Economia Comportamental, Psicologia, Antropologia e Sociologia, seu livro revela porque esta parte pouco conhecida da mente humana é a grande força motora da nossa vida, sobrepondo-se ao consciente. “As partes inconscientes da mente não são vestígios primitivos que precisam ser conquistados para realizar decisões sábias, nem cavernas obscuras de ímpetos sexuais reprimidos”, diz Brooks. Em vez disso, é “onde a maioria das decisões e muitos dos atos mais impressionantes de pensamento acontecem”. Continue reading “O Animal Social”