Sociogênese do Absolutismo

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Norbert Elias, no livro “O Processo civilizador: volume 2 – Formação do Estado e Civilização”, afirma que alguns dos mecanismos mais importantes que, em fins da Idade Média, foram aumentando o poder da autoridade central de um território podem ser descritos sumariamente neste estágio preliminar. Eles foram, de modo geral, semelhantes em todos os maiores países do Ocidente, e isso pode ser observado com especial clareza no desenvolvimento da monarquia francesa.

A expansão gradual do setor monetário da economia, a expensas do setor de troca, ou escambo, em uma dada região na Idade Média gerou consequências muito diferentes para a maior parte da nobreza guerreira, por um lado, e para o rei ou príncipe, por outro. Quanto mais moeda entrasse em circulação numa região, maior seria o aumento dos preços [Elias se mostra refém da Teoria Quantitativa de Moeda]. Todas as classes cuja renda não aumentava à mesma taxa, todos aqueles que viviam de renda fixa, ficavam em situação desvantajosa, sobretudo os senhores feudais, que auferiam foros fixos por suas terras.

As funções sociais cuja renda se elevava com essas novas oportunidades passaram a desfrutar de vantagens. Incluíam elas certos setores da burguesia, mas, acima de tudo, o rei, o senhor central. Isto porque a máquina de coleta de impostos lhe conferia uma parcela da riqueza crescente; para ele se encaminhava parte de todos os lucros obtidos nessa área, e sua renda, em consequência, crescia em grau extraordinário com a circulação cada vez maior da moeda. Continue reading “Sociogênese do Absolutismo”

Sociedade Aristocrática de Corte Pré-Nacional

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Norbert Elias, no livro “O Processo civilizador: volume 2 – Formação do Estado e Civilização”, comenta que a mais influente das sociedades de corte desenvolveu-se, como sabemos, na França. A partir de Paris, os mesmos códigos de conduta, maneiras, gosto e linguagem difundiram-se, em variados períodos, por todas as cortes europeias.

Mas isso não aconteceu apenas porque a França fosse o país mais poderoso da época. Somente se tornou possível porque, em uma transformação geral da sociedade europeia, formações sociais semelhantes, caracterizadas por formas análogas de relações humanas, surgiram por toda a parte.

A aristocracia absolutista de corte dos demais países inspirou-se na nação mais rica, mais poderosa e mais centralizada da época, e adotou aquilo que se adequava às suas próprias necessidades sociais: maneiras e linguagem refinadas que a distinguiam das camadas inferiores da sociedade.

Na França ela via, plenamente desenvolvido, algo que nascera de uma situação social semelhante e que se ajustava a seus próprios ideais: pessoas que podiam exibir seu status, enquanto observavam também as sutilezas do intercâmbio social, definindo sua relação exata com todos acima e abaixo através da maneira de cumprimentar e de escolher as palavraspessoas de “distinção”, que dominavam a “civilidade”. Continue reading “Sociedade Aristocrática de Corte Pré-Nacional”

Intelectuais: Sábios Sacerdotes Pregadores da Ordem Dominante

 

Jessé de Souza - O GloboO livro de Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira (São Paulo; LeYa; 2015), parte da crítica da Ciência Social conservadora imperante até hoje no Brasil como o fundamento último da dominação material e efetiva das classes privilegiadas entre nós. Essa dominação só tende a se eternizar se é capaz de se justificar e convencer aos próprios dominados a respeito deles se prestarem a uma “servidão voluntária”. Produzir esse “convencimento” é precisamente o trabalho dos intelectuais, substituindo os sacerdotes do passado.

A ação combinada do “culturalismo conservador” com o “economicismo”, os dois pilares da “inteligência brasileira” que Souza critica nesse livro, leva a um extremo empobrecimento do debate político nacional. Só se apresenta um lado da análise das questões. Sobra a tarefa de achar vida inteligente na rede social.

São sempre ideias de intelectuais e especialistas que estão na base de programas de partido político, de planejamento do Estado, do que se ensina em salas de aula, do que se decide em tribunais e daquilo que se publica em jornais e se divulga em TVs. Suas ideias não “brotam” espontaneamente. São ideias-força de intelectuais e especialistas que se conectam a “interesses poderosos” e logram se institucionalizar como leitura dominante de toda uma sociedade sobre si mesma. Continue reading “Intelectuais: Sábios Sacerdotes Pregadores da Ordem Dominante”

A Tolice da Inteligência Brasileira: como o País se deixa manipular pela elite

A Tolice da Inteligência Brasileira

O título é um achado em ironia. De fato, a etimologia de “inteligência” vem do latim intelligentĭa,ae “entendimento, conhecimento”. Tem a mesma sinonímia de “perspicácia”. Mas sua antonímia é “desentendimento, desinteligência, estultícia, estupidez, imbecilidade, tolice”. Em outras palavras, o título do livro de Jessé Souza, sociólogo que atualmente preside o IPEA, alerta para a inépcia dos intelectuais, situados na classe média brasileira, que constituem a “tropa de choque” na defesa dos interesses do 1% dos “endinheirados”, isto é, dos possuidores do top da riqueza.

O mundo social não é transparente aos olhos de imediato. Entre os olhos e a realidade há uma venda que é a ideologia. Venda pode ser vista como faixa de pano com que se cobrem os olhos ou como uma metáfora para a ação de não perceber o que se passa. Venda é também o ato de alguém que se deixa subornar por dinheiro ou vantagem. Não é o caso do nossos intelectuais midiáticos que servem à manutenção dos privilégios sociais?

Por que o interesse em “mentir” sobre como o mundo social realmente é? Os ricos e felizes, em todas as épocas e em todos os lugares, não querem apenas ser ricos e felizes. Querem ter a consciência limpa por saber que têm direito exclusivo à riqueza e felicidade. Isso significa que o privilégio – mesmo o injusto que se transmite por herança – necessita ser “legitimado”, ou seja, aceito mesmo por aqueles que foram excluídos de todos os privilégios. Continue reading “A Tolice da Inteligência Brasileira: como o País se deixa manipular pela elite”

A quem serve a classe média tola e indignada?

 

jesse souzaConfusão entre o público e o privado, compadrio, herança católica portuguesa, predomínio das relações pessoais e familiares sobre o sistema de mérito, corrupção. Ao contrário do que em geral se pensa, nada disso é característica exclusiva do Brasil.

Para Jessé Souza, presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), vinculado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, e doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), criou-se no Brasil, à esquerda e à direita, um legado de equívocos a partir do pensamento de Sérgio Buarque de Holanda (1902-82), que merece ser classificado como um verdadeiro “complexo de vira-lata”.

Para o professor de ciência política na UFF (Universidade Federal Fluminense), que acaba de lançar “A Tolice da Inteligência Brasileira” [Leya, 272 págs., R$ 39,90, e-book, R$ 26,99] (leia minha resenha nos próximos post), a intelectualidade do país tende a idealizar as sociedades capitalistas avançadas, imaginando que em países como Estados Unidos ou França predomine a plena igualdade de oportunidades e a completa separação entre o Estado e os interesses privados. Mas o peso das origens familiares, do capital cultural acumulado ao longo de gerações, das pressões empresariais sobre o poder público está presente, diz ele, em qualquer país capitalista.

Autor de estudos sobre Max Weber (1864-1920) e Jürgen Habermas, Jessé Souza desenvolve, em “A Tolice da Inteligência Brasileira“, um sofisticado argumento teórico para mostrar de que modo o conceito weberiano de “patrimonialismo” – fundamento das críticas de Raymundo Faoro (1925-2003) à imobilidade do sistema social brasileiro e ao fracasso do capitalismo e da democracia entre nós – não foi originalmente pensado para ter aplicação nas sociedades modernas.

Ao interesse teórico que marcou o início de sua carreira, Jessé Souza tem acrescentado, nos últimos anos, um intenso trabalho de investigação empírica, do qual resultaram livros como “Os Batalhadores Brasileiros: Nova Classe Média ou Nova Classe Trabalhadora?” (editora UFMG, 2010), e “A Ralé Brasileira: Quem É e Como Vive” (ed. UFMG, 2009).

O problema da economia e da democracia brasileiras, argumenta Souza, não nasce de supostas deficiências culturais que tenhamos frente aos países desenvolvidos, mas da incapacidade do sistema para integrar um vasto contingente de excluídos, a quem faltam não apenas recursos materiais, mas equipamentos básicos de educação, autoestima e cidadania.

A lição de Florestan Fernandes, em especial de seu livro de 1964, “A Integração do Negro na Sociedade de Classes” (ed. Globo), é das poucas que saem preservadas do implacável julgamento crítico de “A Tolice da Inteligência Brasileira”, repleto de palavras duras contra Roberto DaMatta, Fernando Henrique Cardoso e outros mestres do pensamento social entre nós. Compartilho abaixo sua entrevista a Marcelo Coelho (FSP, 11.01.16). Continue reading “A quem serve a classe média tola e indignada?”

A Tolice da Inteligência Brasileira

Jessé de SouzaNice de Paula (Globo, 15/11/15) entrevistou Jessé Souza, que assumiu a presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em abril de 2015. Depois de dizer que os 40 milhões de brasileiros que ingressaram no mercado de consumo nos últimos anos não formavam uma classe média – como então alardeava o governo -, diz outras verdades necessárias serem ditas em novo livro. Nele, o sociólogo afirma que o Brasil não tem uma classe alta, mas sim uma “classe de endinheirados”.

E argumenta que a classe média tradicional, além de conservadora, é tola e assume o papel de guardiã da moralidade para compensar seu medo da ascensão dos mais pobres, seu ressentimento com o sucesso dos mais ricos e ficar com a consciência tranquila diante da exploração que ela mesma pratica diariamente. “A classe média explora os mais pobres – e no Brasil essa exploração é uma espoliação absurda – mas finge que é boazinha, afinal de contas, a empregada doméstica é quase da família”, diz o presidente do Ipea, órgão que é subordinado ao Ministério do Planejamento. Continue reading “A Tolice da Inteligência Brasileira”

Castas e Párias

Sistema de castas

Casta, segundo o dicionário Houaiss, no sistema de estratificação tradicional da Índia, é um grupo social fechado, de caráter hereditário, cujos membros pertencem à mesma etnia, profissão ou religião. Por extensão, designa qualquer grupo social, ou sistema rígido de estratificação social, de caráter hereditário. Portanto, refere-se à camada social que forma uma das partes de uma sociedade que se organiza de maneira hierárquica. Em sentido pejorativo, usa-se a expressão para hostilizar o grupo de cidadãos que se destaca dos demais por seus privilégios, ocupações, costumes e/ou preconceitos.

Pária é o indiano não pertencente a qualquer casta, considerado impuro e desprezível pela tradição cultural hinduísta. Por extensão, designa qualquer pessoa mantida à margem da sociedade ou excluída do convívio social.

O sociólogo Jessé de Souza, presidente do IPEA, utiliza-se da expressão “ralé” para referir-se ao conjunto de indivíduos pertencentes à camada inferior da sociedade brasileira, ou seja, a arraia-miúda, a plebe, o populacho… Prefiro usar “pária“.

Como tenho empregado muito a classificação de castas e párias para mostrar a estratificação da riqueza pessoal brasileira, relacionando-a à atividade profissional, compartilho abaixo um trecho de Antonio Luiz M. C. Costa, autor do livro “Títulos de Nobreza e Hierarquias: um guia sobre as graduações sociais na história”, a respeito das castas. Continue reading “Castas e Párias”