Um Futuro Mais Humano e Mais Local

Richard Baldwin, autor de “A Revolta dos Globóticos” (2019), afirma: a automação e a globalização substituíram os empregos nos séculos XIX e XX. A criatividade humana sem limites inventou “necessidades” antes não existentes. Por isso, muitos de nós hoje trabalhamos em empregos inimagináveis para Charles Dickens na Londres do século XIX. Imagine o que ele pensaria se você dissesse a ele, naquela época, seus trinetos seriam desenvolvedores da web, treinadores de vida e operadores de drones?

Os empregos foram criados nos setores de serviços, pois eram os setores protegidos da automação e da globalização. O mesmo acontecerá novamente hoje. Os trabalhos aparecerão em setores protegidos. Mas quais tipo de empregos serão esses?

Não podemos saber quais serão os novos empregos, mas, estudando as vantagens competitivas da IA (Inteligência Artificial) ​​e do RI (Inteligência Remota), podemos dizer um pouco sobre como serão os empregos protegidos no futuro. Observando atentamente o que o RI faz bem, fica claro os trabalhos possíveis de sobreviverem à concorrência dos teletrabalhadores serão aqueles exigentes interações cara a cara, isto é, presenciais com empatia.

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Revolta dos Globóticos

Richard Baldwin, autor de “A Revolta dos Globóticos” (2019), afirma: no capitalismo hoje centrado no emprego, a prosperidade é baseada em empregos bons e seguros – e nas comunidades estáveis ​​ construídas sobre eles. Muitos desses empregos estão nos setores onde os globóticos irão atrapalhar. E estamos falando de muitos empregos.

As estimativas do deslocamento de empregos variam de grande – digamos, um em cada dez empregos, o que significa milhões de empregos – a enorme – seis em cada dez empregos –, o que significa centenas de milhões. Quando milhões de empregos são deslocados e as comunidades são interrompidas, não veremos uma atitude de manter a calma e continuar.

Os eleitores de Trump e Brexit impulsionaram a reação dos reacionários, ocorrida em 2016 nas metrópoles (e em 2018 em país com servidão colonial voluntária), sabem tudo sobre o impacto da automação e da globalização no deslocamento de empregos. Por décadas, eles, suas famílias e suas comunidades competem com robôs em casa e no exterior, isto é, na China. Eles ainda estão sitiados financeiramente. O futuro deles não parece mais brilhante. A calamidade econômica continua – especialmente nos EUA.

Para esses eleitores, as políticas adotadas nos EUA e no Reino Unido desde 2016 são o equivalente econômico do tratamento de câncer no cérebro com aspirina. Muitos eleitores de populistas de direita também sentem suas comunidades ainda estarem sendo criticadas culturalmente. Tudo o que os Trumpistas e Brexitistas forneceram é mais “pão e circo” para acalmar a alma e preparar o orgulho.

Esses eleitores populistas ainda estarão ansiosos por grandes mudanças em 2020. Richard Baldwin acredita: em breve, eles terão muitas surpresas. Continuar a ler

Por Que Esta Hora É Diferente?

Richard Baldwin, autor de “A Revolta dos Globóticos” (2019), afirma: automação e globalização são histórias centenárias. Globóticos são diferentes por dois grandes motivos. Está chegando desumanamente rápido e isso parecerá incrivelmente injusto.

Globóticos estão avançando em um ritmo explosivo desde quando nossas capacidades para processar, transmitir e armazenar dados estão aumentando em incrementos explosivos. Mas o que significa “explosivo”?

Os cientistas definem uma explosão como a injeção de energia em um sistema em um ritmo de modo a sobrecarregar a capacidade do sistema de se ajustar. Isso produz um aumento local de pressão e – se o sistema não estiver confinado ou o confinamento puder ser quebrado – as ondas de choque se desenvolverão e se espalharão para fora. Eles podem viajar “distâncias consideráveis ​​antes de serem dissipados”, como uma definição científica descreveu secamente a devastadora onda de explosões.

Globóticos estão injetando pressão em nosso sistema sócio-político-econômico (via deslocamento de emprego) mais rapidamente se comparado ao tempo do nosso sistema poder absorvê-lo (via substituição de emprego). Isso pode quebrar os confinamentos da sociedade capazes de restringir a hostilidade e as reações violentas. O resultado pode ser ondas de explosão social. Elas percorrem distâncias consideráveis ​​antes de se dissiparem.

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Globóticos Telemigrantes: Nova Fase da Globalização

Richard Baldwin, autor de “A Revolta dos Globóticos” (2019), sugere pensar como o teletrabalho se tornou global. Pensar nisso como telemigração.

Esses “telemóveis” estão abrindo uma nova fase da globalização. Nos próximos anos, eles trarão ganhos de oportunidades, mas também dificuldades provocadas por competição internacional, para centenas de milhões de americanos e europeus capazes de viverem de trabalhos profissionais, de colarinho branco e de serviços. Essas pessoas não estão prontas para isso.

Até recentemente, a maioria dos empregos profissionais e de serviços era protegida da globalização pela necessidade de contato pessoal – e pela enorme dificuldade e custo de obter fornecedores de serviços estrangeiros na mesma sala com compradores de serviços domésticos. A globalização era um problema para as pessoas fabricantes de coisas. Elas tiveram e competir com mercadorias enviadas em contêineres da China.

Mas a realidade era poucos serviços se encaixarem em contêineres. Logo, muitos poucos trabalhadores de colarinho branco enfrentavam concorrência estrangeira. A tecnologia digital está mudando rapidamente essa realidade.

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Karl Polanyi: Alternativa ao Debate Polarizado

Karl Polanyi (1886-1964), em sua obra A Grande Transformação, publicada em 1944, tornou-se referência para o debate sobre o capitalismo contemporâneo. Seu xará, Karl Marx (1818-1883), morreu três anos antes de seu nascimento. Não presenciou o embate entre Estado e Mercado, desdobrado em duas Grandes Guerras Mundiais e uma Grande Depressão no século XX. O Capital, sua obra máster, não tem uma Teoria do Estado.

Ambos pensadores sistêmicos têm em comum uma visão holística. É oposta à lógica mecanicista do individualismo metodológico de compartimentar o capitalismo em várias iniciativas particulares, causando a perda da visão global. A evolução criativa forma um “todo” maior ou distinto da soma das suas partes. Marx e Polanyi buscam entender os fenômenos de uma maneira integral, por oposição à análise de seus componentes em separado. As interações destes não podem ser explicadas como um não afetasse o comportamento do outro.

A Grande Transformação critica o liberalismo de mercado, cujo pressuposto é a ideia de tanto as sociedades nacionais, quanto a economia global, ambas poderão ser organizadas por meio de autorregulação dos mercados. No debate polarizado entre os defensores do capitalismo de livre mercado e os do socialismo realmente existente, Polanyi não se submete aos interesses estritos da casta dos mercadores nem aos da casta dos trabalhadores organizados. Como socialista e membro da casta dos sábios intelectuais, propõe uma aliança de sua casta com a dos trabalhadores para um reformismo à la socialdemocracia nórdica, combinando Estado e Mercado, ambos submissos aos interesses maiores da Comunidade.

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A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global

Niall Ferguson, no prefácio do livro “A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global” (São Paulo: Planeta do Brasil; 2018. 608 p.), afirma a palavra network (rede) ter sido raramente utilizada antes do fim do século XIX. Hoje, é usada em excesso tanto como verbo quanto como substantivo na língua inglesa.

Para um jovem ambicioso vale sempre a pena ampliar a rede de contatos (networking). Por sua vez, para um idoso, a palavra “rede” tem outra conotação. Suspeita de o mundo ser controlado por redes poderosas e exclusivas: Os Banqueiros, A Elite Governante, O Sistema, O Mercado, Os Judeus, Os Maçons, etc. As teorias conspiratórias não seriam tão persistentes se essas redes de “caça às bruxas” ou “sacrifício de bodes-expiatórios” não existissem de nenhuma forma.

O problema em defender essas teorias conspiratórias é, se excluídos, sentem-se lesados, e daí eles invariavelmente têm dificuldades para entender e interpretar o modo como as redes operam. Em particular, eles tendem a partir do princípio de redes de elite controlarem em segredo e com facilidade as estruturas formais do poder.

A pesquisa de Niall Ferguson – assim como a sua própria experiência – indica não ser esse o caso. Pelo contrário, as redes informais costumam ter uma relação altamente ambivalente, às vezes até hostil, com as instituições estabelecidas. Continuar a ler

Mitologia Liberal em Costumes versus Mitologia Neoliberal em Economia

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), demonstra:  a modernidade não rejeita a pletora de narrativas herdada do passado. E sim, abre um mercado para elas. O humano moderno está livre para experimentá-las todas, escolhendo e combinando a seu gosto.

Algumas pessoas não aguentam tanta liberdade e incerteza. Os movimentos totalitários modernos, como o fascismo, reagiram violentamente contra o mercado de “ideias duvidosas”. Superaram até mesmo religiões tradicionais na exigência de fé absoluta em uma única narrativa.

A maioria das pessoas modernas, no entanto, começou a gostar do mercado livre de crenças. O que você faz quando não sabe qual o sentido da vida nem em qual narrativa acreditar? Você santifica a própria capacidade para escolher. Você está para sempre no papel de consumidor nesse mercado religioso, com a liberdade de escolher o que quiser, examinando os produtos que tem diante de si, e… os adquirindo ao bel prazer.

Segundo a mitologia liberal, se você ficar por bastante tempo nesse grande mercado livre, cedo ou tarde vai vivenciar a epifania liberal e se dará conta do verdadeiro significado da vida.

Todas as histórias disponíveis em oferta no mercado livre são falsas. O significado da vida não é um produto já pronto para uso. Não há um roteiro divino, e nada fora de mim pode emprestar significado a minha vida. Sou eu quem imbuo significado em tudo mediante minhas livres escolhas e meus próprios sentimentos. Continuar a ler