Karl Polanyi: Alternativa ao Debate Polarizado

Karl Polanyi (1886-1964), em sua obra A Grande Transformação, publicada em 1944, tornou-se referência para o debate sobre o capitalismo contemporâneo. Seu xará, Karl Marx (1818-1883), morreu três anos antes de seu nascimento. Não presenciou o embate entre Estado e Mercado, desdobrado em duas Grandes Guerras Mundiais e uma Grande Depressão no século XX. O Capital, sua obra máster, não tem uma Teoria do Estado.

Ambos pensadores sistêmicos têm em comum uma visão holística. É oposta à lógica mecanicista do individualismo metodológico de compartimentar o capitalismo em várias iniciativas particulares, causando a perda da visão global. A evolução criativa forma um “todo” maior ou distinto da soma das suas partes. Marx e Polanyi buscam entender os fenômenos de uma maneira integral, por oposição à análise de seus componentes em separado. As interações destes não podem ser explicadas como um não afetasse o comportamento do outro.

A Grande Transformação critica o liberalismo de mercado, cujo pressuposto é a ideia de tanto as sociedades nacionais, quanto a economia global, ambas poderão ser organizadas por meio de autorregulação dos mercados. No debate polarizado entre os defensores do capitalismo de livre mercado e os do socialismo realmente existente, Polanyi não se submete aos interesses estritos da casta dos mercadores nem aos da casta dos trabalhadores organizados. Como socialista e membro da casta dos sábios intelectuais, propõe uma aliança de sua casta com a dos trabalhadores para um reformismo à la socialdemocracia nórdica, combinando Estado e Mercado, ambos submissos aos interesses maiores da Comunidade.

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A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global

Niall Ferguson, no prefácio do livro “A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global” (São Paulo: Planeta do Brasil; 2018. 608 p.), afirma a palavra network (rede) ter sido raramente utilizada antes do fim do século XIX. Hoje, é usada em excesso tanto como verbo quanto como substantivo na língua inglesa.

Para um jovem ambicioso vale sempre a pena ampliar a rede de contatos (networking). Por sua vez, para um idoso, a palavra “rede” tem outra conotação. Suspeita de o mundo ser controlado por redes poderosas e exclusivas: Os Banqueiros, A Elite Governante, O Sistema, O Mercado, Os Judeus, Os Maçons, etc. As teorias conspiratórias não seriam tão persistentes se essas redes de “caça às bruxas” ou “sacrifício de bodes-expiatórios” não existissem de nenhuma forma.

O problema em defender essas teorias conspiratórias é, se excluídos, sentem-se lesados, e daí eles invariavelmente têm dificuldades para entender e interpretar o modo como as redes operam. Em particular, eles tendem a partir do princípio de redes de elite controlarem em segredo e com facilidade as estruturas formais do poder.

A pesquisa de Niall Ferguson – assim como a sua própria experiência – indica não ser esse o caso. Pelo contrário, as redes informais costumam ter uma relação altamente ambivalente, às vezes até hostil, com as instituições estabelecidas. Continuar a ler

Mitologia Liberal em Costumes versus Mitologia Neoliberal em Economia

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), demonstra:  a modernidade não rejeita a pletora de narrativas herdada do passado. E sim, abre um mercado para elas. O humano moderno está livre para experimentá-las todas, escolhendo e combinando a seu gosto.

Algumas pessoas não aguentam tanta liberdade e incerteza. Os movimentos totalitários modernos, como o fascismo, reagiram violentamente contra o mercado de “ideias duvidosas”. Superaram até mesmo religiões tradicionais na exigência de fé absoluta em uma única narrativa.

A maioria das pessoas modernas, no entanto, começou a gostar do mercado livre de crenças. O que você faz quando não sabe qual o sentido da vida nem em qual narrativa acreditar? Você santifica a própria capacidade para escolher. Você está para sempre no papel de consumidor nesse mercado religioso, com a liberdade de escolher o que quiser, examinando os produtos que tem diante de si, e… os adquirindo ao bel prazer.

Segundo a mitologia liberal, se você ficar por bastante tempo nesse grande mercado livre, cedo ou tarde vai vivenciar a epifania liberal e se dará conta do verdadeiro significado da vida.

Todas as histórias disponíveis em oferta no mercado livre são falsas. O significado da vida não é um produto já pronto para uso. Não há um roteiro divino, e nada fora de mim pode emprestar significado a minha vida. Sou eu quem imbuo significado em tudo mediante minhas livres escolhas e meus próprios sentimentos. Continuar a ler

Brasil Acima de Todos, Deus Acima de Tudo: Lema Fascista

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), avalia: todas as histórias de deuses em que as pessoas hoje acreditam — seja a lista de divindades (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_divindades), a Nação ou a Revolução — estão incompletas, cheias de buracos e eivadas de contradições. Por isso as pessoas raramente depositam toda sua fé numa única narrativa. Em vez disso, mantêm um portfólio com várias narrativas e diversas identidades, passando de uma para outra quando surge necessidade. Essas dissonâncias cognitivas são inerentes a quase todas as sociedades e movimentos.

Considere um típico adepto do ultraconservador norte-americano Tea Party. Ele de algum modo concilia isso com uma fé ardente em Jesus Cristo, com uma firme objeção a políticas de bem-estar social do governo e um firme apoio à National Rifle Association.

Jesus não foi mais incisivo quanto a ajudar os pobres em lugar de quanto a armar você até os dentes? Isso pode parecer incompatível, mas o cérebro humano tem muitos nichos e compartimentos, e alguns neurônios [Tico e Teco] simplesmente não falam com outros. Continuar a ler

Aproveitamento da Crença para Imposição de Sacrifícios

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), afirma: as narrativas capazes de nos proverem de sentido e identidade são todas ficcionais, mas os humanos precisam acreditar nelas. Então como fazer que a narrativa pareça real? É óbvio por que humanos querem acreditar na narrativa, mas como vão efetivamente fazer isso? Já milhares de anos atrás sacerdotes e xamãs acharam a resposta: rituais. Um ritual é um ato mágico que faz o abstrato virar concreto e o ficcional, real. A essência do ritual é o feitiço mágico.

“Quase tudo pode ser transformado em um ritual, ao se dar a gestos mundanos, como acender velas, tocar um sino ou contar contas um profundo significado religioso. O mesmo vale para gesticulações físicas, como curvar a cabeça, prostrar-se de corpo inteiro, ou juntar as mãos.”

Rituais semelhantes também têm sido usados para finalidades políticas. Durante milhares de anos, coroas, tronos e cetros representaram reinos e impérios inteiros, e milhões de pessoas morreram em guerras brutais travadas pela posse do “trono” ou da “coroa” de uma monarquia dinástica. Continuar a ler

Mito: Deixar como Herança uma Marca Pessoal no Mundo

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), pergunta: se não pudermos deixar algo tangível — como um gene ou um poema —, quem sabe seria suficiente apenas tornar o mundo um pouco melhor?

Você pode ajudar alguém, e essa pessoa poderá ajudar outra, e você terá contribuído, portanto, para a melhora geral do mundo, e acrescentar uma pequena conexão na grande corrente da bondade. Quem sabe você sirva como tutor de uma criança difícil mas brilhante, que ainda será um médico que salva centenas de pessoas? E se ajudar uma senhora idosa a atravessar a rua e alegrar uma hora de sua vida?

Embora tenha seus méritos, a grande corrente da bondade está longe de ser claro de onde vem seu sentido. Perguntaram a um homem idoso e sábio o que tinha aprendido sobre o sentido da vida. “Bem”, ele respondeu, “aprendi que estou aqui na Terra para ajudar outras pessoas. O que ainda não descobri é por que as outras pessoas estão aqui.” Continuar a ler

Identidade Pessoal ou Nacional

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), comenta: ao contemplar a quantidade de narrativas capazes de definir minha verdadeira identidade e dar sentido a minhas ações, é impressionante constatar sua escala ter pouca importância. Algumas narrativas, como a do Ciclo da Vida, parecem estender-se até a eternidade. É somente contra o pano de fundo do universo inteiro está a possibilidade de saber quem sou. Outras narrativas, como a maioria dos mitos nacionalistas e tribais, são minúsculas, em comparação.

O sionismo consagra as aventuras de cerca de 0,2% do gênero humano em 0,005% da superfície da Terra, durante uma pequeníssima fração da duração do tempo. A narrativa científica informa: eternidade quer dizer no mínimo 13,8 bilhões de anos — a idade atual do universo. O planeta Terra foi formado há cerca de 4,5 bilhões de anos. Os humanos existem há pelo menos 2 milhões de anos. Em contraste, a cidade de Jerusalém só foi estabelecida 5 mil anos atrás, e o povo judeu tem no máximo 3 mil anos de existência. Isso dificilmente se qualifica como “eternidade”.

Quanto ao futuro, a Física nos sugere: o planeta Terra será absorvido por um Sol em expansão dentro de cerca de 7,5 bilhões de anos. Nosso universo continuará a existir por pelo menos mais 13 bilhões de anos. Sendo essa narrativa verdadeira, alguém acredita seriamente na possibilidade de algum povo humano, o Estado ou uma cidade ainda existir dentro de 13 mil anos? E o que dizer daqui a 13 bilhões de anos?

Olhando para o futuro – e levando em conta o passado –, qualquer nacionalismo tem um horizonte que não passa de alguns séculos, mas é suficiente para exaurir a imaginação da maioria dos nacionalistas e de algum modo ser qualificado como “eternidade”.

É igualmente improvável haver os mesmos povos dentro de 200 milhões de anos. Na verdade, provavelmente tampouco haverá qualquer mamífero. Quaisquer movimentos nacionais têm a mesma estreiteza de mente e visão. O nacionalismo pouco se importa com os eventos na era jurássica, enquanto alguns nacionalistas acreditam um pequeno território é a única parte do cosmos realmente importante no grande esquema das coisas. Continuar a ler