Acesso ao Capital Cultural

Jessé Souza, no livro “A elite do atraso: Da escravidão à Lava Jato”, salienta: embora todas as classes tenham sua posição relativa de poder e prestígio determinada, em grande medida, pela conjunção peculiar de três capitais fundamentais – econômico, cultural e rede de relacionamento social–, abaixo da elite econômica a grande luta é, na verdade, por acesso ao capital cultural. A posse de conhecimento útil e reconhecido, em suas mais variadas formas, é o único capital mais acessível por esforço individual.

Dada a concentração dos demais, sobra o capital cultural para a disputa das outras classes entre si. Por que a classe média brasileira atua como tropa de choque dos poderosos de plantão?

“A classe média vai tender – do mesmo modo como os ricos fazem com o dinheiro – a perceber o conhecimento valorizado como algo que deve ser exclusivo à sua classe social. Sua participação nos golpes contra as classes populares tem muito a ver, portanto, com estratégias de reprodução de privilégios e muito pouco com moralidade e combate à corrupção.”

Novamente, sem recorte ideológico, essa generalização de comportamentos políticos para toda “a classe média” parece ser equivocada. A casta dos sábios-intelectuais da esquerda brasileira tem certa dificuldade de relacionamento com sua própria classe… Continue reading “Acesso ao Capital Cultural”

Conflitos de Classe no Brasil Moderno

Jessé Souza, no livro “A elite do atraso: Da escravidão à Lava Jato”, com a ajuda preciosa de Gilberto Freyre e Florestan Fernandes, ainda que parcialmente criticados e reconstruídos, tem o quadro geral tanto de uma nova percepção do Brasil moderno quanto de suas raízes. A escravidão e seus efeitos passam a ser o ponto central e não mais a pretensa continuidade com Portugal.

O problema central do país deixa de ser a corrupção supostamente herdada de Portugal para se localizar no abandono secular de classes estigmatizadas, humilhadas e perseguidas. As contradições e os conflitos centrais de uma sociedade são sempre relações de dominação entre classes sociais. Isto se não utilizamos do mote da corrupção para esconder a verdade nem reduzirmos as classes à mera dimensão econômica.

Para perceber, no entanto, os conflitos sociais e a dominação social oculta, é necessário o acesso a uma perspectiva capaz de discutir a ideia de classe social. A direita, por outro lado, demonizou o marxismo e a noção de luta de classes. A esquerda, por outro lado, banalizou e simplificou o que já era simplista em Marx.

Mas a tese pretendida ser defendida por Jessé é a dinâmica das classes, ou seja, seus interesses e suas lutas, ser a chave para a compreensão de tudo realmente importante na sociedade. Insiste: as classes não se estabelecem como meras relações econômicas. Continue reading “Conflitos de Classe no Brasil Moderno”

Herança Escravista e/ou Colonial: Dilema dos Adeptos da Dependência de Trajetória Determinista Histórica

Jessé Souza, no capítulo “A escravidão é nosso berço”, no livro “A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato” (Rio de Janeiro: Leya, 2017), resgata a tradição da herança racista – e não da colonial ou cultural – como determinante do passado, presente e futuro da etnia brasileira.

Etnia significa grupo culturalmente homogêneo. A etimologia da palavra vem do grego ethnos, povo com o mesmo ethosou costume. Ele tem também a mesma origem, cultura, língua, religião, etc. O termo etnia não é sinônimo de raça.

A palavra raça caiu em desuso pela comunidade científica quando se corresponde a diferentes grupos humanos. Sobreviveu apenas uma raça entre os animais humanos: a descendente de homo sapiens. A ideia de etnia é um conceito diferente da noção social de raça, usada até a metade do século XX, e abrange mais aspectos culturais.

A etnia, ou grupo étnico, divide uma uniformidade cultural, com as mesmas tradições, conhecimentos, técnicas, habilidades, língua e comportamento. Pesquisadores da etnicidade também consideram as características genéticas como sendo étnicas. A ideia não é consenso, mas é principalmente entendida enquanto parte da construção social do indivíduo.

Para Jessé, a explicação dominante do vira-lata brasileiro, emotivo, corrupto por natureza, mas praticante da corrupção só no Estado, sempre possibilitou toda a manipulação midiática e política contra a democracia e os interesses populares. Ela tem sua força na história e na sociologia do vira-lata. Continue reading “Herança Escravista e/ou Colonial: Dilema dos Adeptos da Dependência de Trajetória Determinista Histórica”

Teses de Jessé Souza

A tese de Jessé Souza, no livro “A elite do atraso: Da escravidão à Lava Jato”, não é apenas a de que as Ciências Sociais no mundo todo ainda estão sob o domínio total do paradigma da teoria da modernização. Sua segunda tese, nesse contexto, é a de que o paradigma culturalista é, na verdade, uma falsa ruptura com o racismo científico “racial”. E sua terceira tese é as Ciências Sociais dominantes no Brasil repetirem esse mesmo esquema e esse mesmo falso rompimento com o “racismo científico” da cor da pele.

Quando se apela para o “estoque cultural” para explicar o comportamento diferencial de indivíduos ou de sociedades inteiras, temos sempre um aspecto central dessa ideia nunca discutido ou percebido: seu racismo implícito. “O culturalismo da teoria da modernização – e de nosso culturalismo tupiniquim também – é uma continuação com outros meios do racismo científico da cor da pele e não a sua superação. Os dois fazem parte, portanto, do mesmo paradigma”.

Ao substituir a raça pelo estoque cultural, dá a impressão de cientificidade, reproduzindo os piores preconceitos. Os seres superiores seriam mais democráticos e mais honestos do que os inferiores, como os latino-americanos. Tornam-se invisíveis os processos históricos de aprendizado coletivo e se criam distinções tão naturalizadas e imutáveis quanto a cor da pele ou supostos atributos raciais.

O culturalismo cumpre assim exatamente as mesmas funções do racismo científico da cor da pele. Presta-se a garantir uma sensação de superioridade e de distinção para os povos e países que estão em situação de domínio e, desse modo, legitimar e tornar merecida a própria dominação. Continue reading “Teses de Jessé Souza”

Racismo de Nossos Intelectuais: O Brasileiro Como Vira-Lata

No livro “A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato” (Rio de Janeiro: Leya, 2017), de autoria de Jessé Souza, ele afirma a questão do poder ser a questão central de toda sociedade. Ela nos diz quem manda e quem obedece, quem fica com os privilégios e quem é abandonado e excluído.

O dinheiro, uma mera convenção, só pode exercer seus efeitos porque está ancorado em acordos políticos e jurídicos. Estes refletem o poder relativo de certos estratos sociais. Para se conhecer uma sociedade, é necessário reconstruir os meandros do processo de reprodução do poder social real.

O exercício do poder social real tem de ser legitimado. Ninguém obedece sem razão. No mundo moderno, quem cria a legitimação do poder social– chave de acesso a todos os privilégios – são os intelectuais.

Para Jessé Souza, a Lava Jato e sua avassaladora influência na vida do país em busca da “limpeza da política”, de acordo com a sanha justiceira e vingativa preconizada para o país por parte do procurador Deltan Dallagnol, o intelectual da operação, é uma mera continuidade da reflexão de Sérgio Buarque e Raymundo Faoro.

Esclarece: “certamente, Faoro não seria tão primário e oportunista, mas, independentemente de suas virtudes pessoais, são suas ideias de que o Estado abriga uma elite corrupta que vampirizaria a nação que legitimam toda a ação predadora do direito e das riquezas nacionais comandada pela Lava Jato”.

Daí deduz: “o que a Lava Jato e seus cúmplices na mídia e no aparelho de Estado fazem é o jogo de um capitalismo financeiro internacional e nacional ávido por ‘privatizar’ a riqueza social em seu bolso. Destruir a Petrobras, como o consórcio Lava Jato e grande mídia, a mando da elite do atraso, destruiu, significa empobrecer o país inteiro de um recurso fundamental, apresentando, em troca, não só resultados de recuperação de recursos ridículos de tão pequenos, mas principalmente levando à destruição de qualquer estratégia de reerguimento internacional do país”. Continue reading “Racismo de Nossos Intelectuais: O Brasileiro Como Vira-Lata”

A Elite do Atraso: Da Escravidão À Lava Jato

A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato” (Rio de Janeiro: Leya, 2017), livro de autoria de Jessé Souza, de cara, diagnostica: “A crise brasileira atual é também e antes de tudo uma crise de ideias. Existem ideias velhas que nos legaram o tema da corrupção na política como nosso grande problema nacional”.

Contra o lugar-comum popular afirma: “isso é falso, embora, como em toda mentira e em toda fraude, tenha seu pequeno grão de verdade. Nossa corrupção real, a grande fraude que impossibilita o resgate do Brasil esquecido e humilhado, está em outro lugar e é construída por outras forças. São essas forças, tornadas invisíveis para melhor exercerem o poder real, que o livro pretende desvelar. Essa é a nossa elite do atraso”.

Forças invisíveis?! Forças ocultas tal como na denúncia de Jânio em sua justificativa da renúncia?

Para melhor cumprir seu objetivo, Jessé Souza construiu este livro sob a forma de uma resposta crítica ao clássico Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado em 1936. “O livro de Sérgio Buarque é, ainda hoje, a leitura dominante do Brasil, seja na sua modernização em seus epígonos mais famosos, como Raymundo Faoro, Fernando Henrique Cardoso ou Roberto DaMatta, seja na sua influência ampla e difusa nos intelectuais de direita e de esquerda do Brasil de hoje em dia. É a influência continuada dessa leitura na cabeça das pessoas que nos faz de tolos”.

Jessé Souza argumenta:

  1. a Lava Jato se legitima com Sérgio Buarque e seus epígonos;
  2. a Rede Globo legitima sua violência simbólica do mesmo modo;
  3. ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se legitimam a partir de suas ideias;
  4. intelectuais importantes da esquerda continuam reproduzindo suas supostas evidências e as de seus discípulos.

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Teorizar sobre o Brasil como representante e parte integrante do povo: Darcy Ribeiro

Aposta no Futuro: O Brasil de Darcy Ribeiro” é artigo de autoria de Helena Bomeny, publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

Darcy Ribeiro foi capturado pela convicção de que teorizar sobre o Brasil era o passo necessário para redimir o país de seus males de origem, e – quem sabe –  protegê-lo de desgraças e descaminhos futuros. Intelectualizar sim, desde que não “descompromissadamente” — parece ser a nota central de sua postulação.

Mineiro de Montes Claros, Darcy deixa-a, em 1939, para ingressar na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Não era sua vocação, confessaria. Ia se tornar médico apenas para agradar a mãe.

Duas informações se constituíram em marca de discurso:

  1. o evolucionismo materialista que inspirou sua análise da sociedade brasileira e
  2. a literatura como fonte e veículo de expressão da atividade intelectual.

Darcy combinou o gosto pela leitura de Friedrich Engels com o entusiasmo pelas propostas de esquerda e a militância no Partido Comunista Brasileiro. Nos idos de 1940, encontra na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, onde se especializa em etnologia(1946), o ambiente intelectual que o marcaria definitivamente. Ao lado de Florestan Fernandes (1920-95) e Oracy Nogueira (1917-96) — seus colegas de turma —, Darcy ia se embrenhando cada vez mais na cultura brasileira, elegendo o Brasil como a razão de ser da sua vida intelectual e do seu engajamento político. Continue reading “Teorizar sobre o Brasil como representante e parte integrante do povo: Darcy Ribeiro”