Substituição da Criatividade Humana por Algoritmos

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), afirma: ao menos no curto prazo, a IA e a robótica provavelmente não eliminarão por completo setores inteiros da economia. Trabalhos que requeiram especialização numa faixa estreita de atividades padronizadas serão automatizados.

Porém será muito mais difícil substituir humanos por máquinas em tarefas menos padronizadas que:

  1. exijam o uso simultâneo de uma ampla variedade de habilidades, e
  2. envolvam lidar com cenários imprevisíveis.

Tomem-se os serviços de saúde, por exemplo. Muitos médicos concentram-se exclusivamente em processar informação: eles absorvem dados médicos, os analisam e fazem um diagnóstico. Enfermeiras, ao contrário, precisam também de boas habilidades motoras e emocionais para ministrar uma injeção dolorosa, trocar um curativo ou conter um paciente violento. Por isso provavelmente teremos um médico de IA em nosso smartphone décadas antes de termos uma enfermeira-robô confiável.

É provável que as atividades de cuidado — de enfermos, crianças e idosos — continuem a ser um bastião humano por muito tempo. Realmente, como as pessoas estão vivendo mais e tendo menos filhos, a área de cuidados geriátricos provavelmente será a de crescimento mais rápido no mercado de trabalho humano. Continuar a ler

O Terceiro Pilar

Em seu prefácio do livro “O Terceiro Pilar” (The Third Pillar: How Markets and The State leave The Community Behind. New York: Penguim Press; 2019), Raghuram Rajan comenta o estado atual do mundo.

“Estamos cercados por muita coisa. A humanidade nunca foi tão rica quanto as tecnologias de produção melhoraram constantemente nos últimos duzentos e cinquenta anos. Não são apenas os países desenvolvidos que se tornaram mais ricos; bilhões em todo o mundo em desenvolvimento passaram da pobreza estressante para uma confortável existência de classe média no período de uma geração. A renda é distribuída mais uniformemente em todo o mundo do que em qualquer outro momento de nossas vidas. Pela primeira vez na história, temos o poder de erradicar a fome e a fome em todos os lugares.”

No entanto, mesmo o mundo tendo alcançado sucesso econômico inimaginável até algumas décadas atrás, alguns dos trabalhadores aparentemente mais privilegiados nos países desenvolvidos estão literalmente preocupados com a morte. Meio milhão de homens americanos brancos não hispânicos de meia idade morreu entre 1999 e 2013, embora suas taxas de mortalidade não tivessem seguido a tendência de outros grupos étnicos.

As mortes adicionais foram concentradas entre aqueles com um grau de ensino médio ou inferior e devido a drogas, álcool e suicídio. Para colocar essas mortes em perspectiva, é como se dez guerras do Vietnã estivessem ocorrendo simultaneamente, não em alguns lugares distantes, mas em casas na pequena cidade e na América rural. Em uma era de aparente abundância, um grupo síntese do sonho americano parece ter perdido a esperança.

As ansiedades do homem branco de meia idade moderadamente educado nos Estados Unidos são espelhadas em outros países desenvolvidos ricos do Ocidente, embora talvez com efeitos menos trágicos. A principal fonte de preocupação parece ser a perda rápida já ocorrida ou o risco de perder um bom emprego de “classe média” por parte dos trabalhadores com educação apenas até o Ensino Médio. Continuar a ler

21 lições para o século 21: Desemprego Tecnológico

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), afirma: não temos ideia de como será o mercado de trabalho em 2050. O aprendizado de máquina e a robótica vão mudar quase todas as modalidades de trabalho. Contudo, há visões conflitantes quanto à natureza dessa mudança e sua iminência. Talvez, dentro de uma ou duas décadas, bilhões de pessoas serão economicamente redundantes. Mesmo no longo prazo a automação continuará a gerar novos empregos e maior prosperidade para todos?

Estaríamos à beira de uma convulsão social assustadora, ou essas previsões são mais um exemplo de uma histeria ludista infundada? É difícil dizer.

Os temores de que a automação causará desemprego massivo remontam ao século XIX, e até agora nunca se materializaram. Desde o início da Revolução Industrial, para cada emprego perdido para uma máquina pelo menos um novo emprego foi criado, e o padrão de vida médio subiu consideravelmente. Mas há boas razões para pensar que desta vez é diferente, e que o aprendizado de máquina será um fator real que mudará o jogo.

Humanos têm dois tipos de habilidadesfísica e cognitiva. No passado, as máquinas competiram com humanos principalmente em habilidades físicas, enquanto os humanos se mantiveram à frente das máquinas em capacidade cognitiva. Por isso, quando trabalhos manuais na agricultura e na indústria foram automatizados, surgiram novos trabalhos no setor de serviços que requeriam o tipo de habilidade cognitiva que só os humanos possuíam: aprender, analisar, comunicar e acima de tudo compreender as emoções humanas.

No entanto, a IA está começando agora a superar os humanos em um número cada vez maior dessas habilidades, inclusive a de compreender as emoções humanas. Não sabemos de nenhum terceiro campo de atividade — além do físico e do cognitivo — no qual os humanos manterão sempre uma margem segura.

É crucial entender que a revolução da IA não envolve apenas tornar os computadores mais rápidos e mais inteligentes. Ela se abastece de avanços nas ciências da vida e nas ciências sociais também.

Quanto mais compreendemos os mecanismos bioquímicos que sustentam as emoções, os desejos e as escolhas humanas, melhores podem se tornar os computadores na análise do comportamento humano, na previsão de decisões humanas, e na substituição de motoristas, profissionais de finanças e advogados humanos.

Nas últimas décadas a pesquisa em áreas como a Neurociência e a Economia Comportamental permitiu que cientistas hackeassem humanos e adquirissem uma compreensão muito melhor de como os humanos tomam decisões. Constatou-se que todas as nossas escolhas, desde comida até parceiros sexuais, resultam não de algum misterioso livre-arbítrio, e sim de bilhões de neurônios que calculam probabilidades numa fração de segundo. A tão propalada “intuição humana” é na realidade a capacidade de reconhecer padrões.

Bons motoristas, profissionais de finanças e advogados não têm intuições mágicas sobre trânsito, investimento ou negociação — e sim, ao reconhecer padrões recorrentes, eles localizam e tentam evitar pedestres desatentos, tomadores de empréstimo ineptos e trapaceiros.

Também se constatou que os algoritmos bioquímicos do cérebro humano estão longe de ser perfeitos. Eles se baseiam em heurística, atalhos e circuitos ultrapassados, adaptados mais à savana africana do que à selva urbana. Não é de admirar que bons motoristas, profissionais de finanças e advogados às vezes cometam erros bestas.

Logo, a IA pode superar o desempenho humano até mesmo em tarefas que supostamente exigem “intuição”. Se pensarmos que a IA tem de competir com os pressentimentos místicos da alma humana, pode parecer impossível. Mas como a IA na realidade tem de competir com redes neurais para calcular probabilidades e reconhecer padrões — isso soa muito menos assustador.

Em especial, a IA pode ser melhor em tarefas que demandam intuições sobre outras pessoas. Muitas modalidades de trabalho — como dirigir um veículo numa rua cheia de pedestres, emprestar dinheiro a estranhos e negociar um acordo — requerem a capacidade de avaliar corretamente as emoções e os desejos de outra pessoa. Será que aquele garoto vai correr para a estrada? Será que o homem de terno pretende pegar meu dinheiro e sumir? Será que aquele advogado vai cumprir suas ameaças ou só está blefando?

Quando se pensava que essas emoções e esses desejos eram gerados por um espírito imaterial, parecia óbvio que os computadores nunca seriam capazes de substituir motoristas, banqueiros e advogados humanos. Pois como poderia um computador compreender o divinamente criado espírito humano? Mas, se essas emoções e esses desejos na realidade não são mais do que algoritmos bioquímicos, não há razão para os computadores não decifrarem esses algoritmos — e até certo ponto, melhor do que qualquer Homo sapiens.

O motorista que prevê as intenções de um pedestre, o profissional que avalia a credibilidade de um tomador potencial e o advogado que é sensível ao humor reinante na mesa de negociação não se valem de feitiçaria. Sem que eles saibam, o cérebro deles está reconhecendo padrões bioquímicos ao analisar expressões faciais, tons de voz, movimentos das mãos e até mesmo odores corporais. Uma IA equipada com os sensores certos poderia fazer tudo isso com muito mais precisão e confiabilidade do que um humano.

Por isso. a ameaça de perda de emprego não resulta apenas da ascensão da tecnologia da informação, mas de sua confluência com a biotecnologia. O caminho que vai do escâner de ressonância magnética ao mercado de trabalho é longo e tortuoso, mas ainda assim poderá ser percorrido em poucas décadas. O que os neurocientistas estão aprendendo hoje sobre a amígdala e o cerebelo pode permitir que computadores superem psiquiatras e guarda-costas humanos em 2050.

E a IA não só está em posição de hackear humanos e superá-los no que eram, até agora, habilidades exclusivamente humanas. Ela também usufrui de modo exclusivo de habilidades não humanas, o que torna a diferença entre a IA e um trabalhador humano uma questão qualitativa e não apenas quantitativa. Duas habilidades não humanas especialmente importantes da IA são a conectividade e a capacidade de atualização.

Como humanos são seres individuais, é difícil conectar um ao outro e se certificar de que estão todos atualizados. Em contraste, computadores não são indivíduos, e é fácil integrá-los numa rede flexível. Por isso estamos diante não da substituição de milhões de trabalhadores humanos individuais por milhões de robôs e computadores individuais, mas, provavelmente, da substituição de humanos individuais por uma rede integrada.

No que diz respeito à automação, portanto, é errado comparar as habilidades de um único motorista humano com as de um único carro autodirigido, ou as de um único médico humano com as de um único médico de IA. Em vez disso, deveríamos comparar as habilidades de uma coleção de indivíduos humanos com as habilidades de uma rede integrada.

Por exemplo, muitos motoristas não estão familiarizados com todas as regras de trânsito e frequentemente as transgridem. Além disso, como cada veículo é uma entidade autônoma, quando dois deles se aproximam do mesmo cruzamento ao mesmo tempo, os motoristas podem comunicar erroneamente suas intenções e colidir.

Carros autodirigidos, em contraste, podem ser conectados entre si. Quando dois desses veículos se aproximam do mesmo cruzamento eles não são duas entidades separadas — são parte de um único algoritmo. As probabilidades de que possam se comunicar erroneamente e colidir são, portanto, muito menores.

Se o Ministério dos Transportes decidir mudar qualquer regra de trânsito, todos os veículos autodirigidos podem ser atualizados com facilidade e exatamente no mesmo momento. Salvo a existência de algum bug no programa, todos seguirão o novo regulamento à risca.

Da mesma forma, se a Organização Mundial de Saúde identificar uma nova doença, ou se um laboratório produzir um novo remédio, é quase impossível atualizar todos os médicos humanos no mundo quanto a esses avanços. Em contraste, mesmo que haja 10 bilhões de médicos de IA no mundo — cada um monitorando a saúde de um único ser humano —, ainda se poderá atualizar todos eles numa fração de segundo, e todos serão capazes de dar uns aos outros feedbacks quanto às novas doenças ou remédios.

Essa vantagem potencial de conectividade e capacidade de atualização é tão enorme que ao menos em algumas modalidades de trabalho talvez faça sentido substituir todos os humanos por computadores, mesmo que individualmente alguns humanos sejam melhores em seu trabalho do que as máquinas.

Poder-se-ia contrapor que, ao se trocar indivíduos humanos por uma rede de computadores, perderemos as vantagens da individualidade. Por exemplo, se um médico humano fizer um diagnóstico errado, ele não vai matar todos os pacientes do mundo e não vai bloquear o desenvolvimento de todos os novos medicamentos. Em contraste, se todos os médicos são na verdade um único sistema, e se esse sistema comete um erro, os resultados podem ser catastróficos.

No entanto, um sistema integrado de computadores pode maximizar as vantagens da conectividade sem perder os benefícios da individualidade. Podem-se rodar muitos algoritmos alternativos na mesma rede, de modo que um paciente em uma aldeia remota na selva seja capaz de acessar com seu smartphone não apenas um único médico capacitado, mas cem médicos de IA diferentes, cujos desempenhos relativos são comparados o tempo inteiro.

Da mesma forma, veículos autodirigidos poderiam oferecer às pessoas serviços de transporte muito melhores e reduzir a taxa de mortalidade por acidentes de trânsito. Embora tenham seus próprios problemas e limitações, e embora alguns acidentes sejam inevitáveis, espera-se que a substituição de motoristas humanos por computadores reduza mortes e ferimentos na estrada em cerca de 90%. Em outras palavras, a mudança para veículos autônomos pode poupar a vida de 1 milhão de pessoas por ano.

Por isso seria loucura bloquear a automação em campos como o do transporte e o da saúde só para proteger empregos humanos. Afinal, o que deveríamos proteger são os humanos — não os empregos. Motoristas e médicos obsoletos simplesmente terão de achar outra coisa para fazer.

Auxílio Básico Universal e Vida com Significado

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), o objetivo do auxílio básico universal é o atendimento às necessidades humanas básicas, mas não existe uma definição aceita para isso.

Do ponto de vista puramente biológico, um Sapiens precisa de 1,5 mil a 2,5 mil calorias por dia para sobreviver. Tudo o que exceder isso é luxo. Mas, além e acima dessa linha de pobreza biológica, toda cultura na história definiu necessidades adicionais como sendo “básicas”.

O que uma educação básica deve incluir: ler e escrever apenas, ou também programar computadores e tocar violino? Seis anos de ensino fundamental, ou até o doutorado? Continuar a ler

Rotulação

Anthony Giddens e Philip W. Sutton, no livro Conceitos Essenciais da Sociologia (tradução Claudia Freire. – 1. ed. – São Paulo: Editora Unesp Digital, 2017), definem rotulação como um processo pelo qual alguns indivíduos e grupos sociais são identificados como detentores de algumas características por pessoas com poder e influência para fazer essas etiquetas pegarem.

O conceito de rotulação, etiquetagem ou marcação [labelling] foi criado nas décadas de 1950 e 1960 por sociólogos trabalhando de acordo com a tradição interacionista simbólica. Essas perspectivas foram particularmente influentes nos estudos do crime e do desvio, nos quais foram concentradas as atenções no modo como o desvio é definido e criado nos processos de interação social. Fazendo a distinção entre desvio primário e secundário, e a etiquetagem tendia a se concentrar no desvio secundário.

O desvio poderia ser mais bem compreendido como um processo durante o qual algumas ações tenham sido definidas e classificadas como desviantes e tratadas como tal. O foco central estava no impacto daquele processo na identidade dos próprios “desviantes”. Eles haviam sido transformados em “intrusos”, estigmatizados e marginalizados da sociedade tradicional.

Uma das abordagens interacionistas mais importantes para a compreensão do crime e desvio é a perspectiva da marcação ou etiquetagem. Os teóricos da rotulação não interpretam o desvio como um conjunto de características de indivíduos ou grupos, mas como um processo de interação entre desviantes e não desviantes.

As pessoas representantes das forças da lei e da ordem conseguem impor sobre outras certas definições de moralidade convencional. Elas são os grandes responsáveis pela rotulação. Os rótulos criadores das categorias de desvio, portanto, exprimem o poder da estrutura da sociedade, no caso, o poder das castas de toga, farda e pena midiática. Continuar a ler

Controle Social

Anthony Giddens e Philip W. Sutton, no livro Conceitos Essenciais da Sociologia (tradução Claudia Freire. – 1. ed. – São Paulo: Editora Unesp Digital, 2017), definem controle social constituído de todos os mecanismos formais e informais e controles internos e externos cujos funcionamentos geram conformidade.

As teorias sobre controle remontam a Thomas Hobbes, filósofo do século XVII. Em uma sociedade de indivíduos com interesse próprio, um enorme poder – o Estado – seria necessário para evitar uma “guerra de todos contra todos”. Havia um contrato social entre o Estado e o indivíduo segundo o qual o cidadão é leal ao Estado e este, em troca, o protege. Quando o estudo do controle social foi introduzido à ciência social, desenvolveram-se perspectivas sociológicas mais complexas.

Ao final do século XIX, sugeriu-se o controle social englobar todas as pressões exercidas para as pessoas se conformarem às regras sociais.

Talcott Parsons (1937) apresentou uma alternativa com base na socialização. A conformidade não é produzida apenas por meio do medo e por agentes externos, mas é também internalizada nas normas e valores absorvidos pelas pessoas durante o processo de socialização.

Uma resposta mais específica foi apresentada por Travis Hirschi (1969). Ele considerava a delinquência juvenil ocorrer quando os vínculos do indivíduo com a sociedade são enfraquecidos ou rompidos. Essa teoria concentrava a atenção nas conexões das pessoas com a família, colegas e instituições sociais.

Para os teóricos marxistas, o Estado é um ator fundamental na produção de controle social. Nas sociedades capitalistas ocorre, na verdade, o controle da classe trabalhadora.

Controle social é o lado oposto do desvio. Enquanto os sociólogos do desvio e crime analisam por que as pessoas infringem normas e leis sociais, os teóricos do controle social fazem a pergunta oposta: por que as pessoas obedecem? Continuar a ler

Anomia

Anthony Giddens e Philip W. Sutton, no livro Conceitos Essenciais da Sociologia (tradução Claudia Freire. – 1. ed. – São Paulo: Editora Unesp Digital, 2017), definem anomia como um sentimento de extrema ansiedade e medo resultante da experiência de ausência de normas sociais efetivas, muitas vezes produzida durante períodos de rápida mudança social.

A mudança social na era da modernidade é tão veloz que não raro faz surgirem grandes problemas sociais, com a quebra de estilos de vida tradicionais, morais, crenças religiosas e rotinas cotidianas, os quais às vezes não são substituídos. Durkheim associava tais condições desestabilizadoras à anomia, sentimentos de falta de perspectiva, medo e desespero quando as pessoas não sabem mais “como prosseguir”.

Por exemplo, as regras e os padrões de moral tradicional fornecidos pela religião organizada foram destruídos pelo desenvolvimento capitalista industrial incipiente, fazendo muitas pessoas ficarem com a sensação de o cotidiano carecer de sentido.

A anomia ocorre quando não existem padrões claros orientadores do comportamento em determinada área da vida social. Quando ausentes, podem deixar as pessoas desorientadas, ansiosas e incapazes de agir. Continuar a ler