Preocupação Financeira e Produtividade no Trabalho

Aquiles Mosca é responsável por distribuição não tradicional e pelo projeto digital do BNP Paribas Asset Management. É professor de Finanças Comportamentais e preside o comitê de educação da Anbima

Aquiles Mosca (Valor, 12/02/19) te pergunta: sua empresa ou seu chefe já se interessaram alguma vez por sua situação financeira?

“A grande maioria responderá que não, sem precisar pensar muito. Há quem prefira que seja assim. Afinal, é algo muito pessoal e não é da conta de ninguém. Certo? Estudos recentes de Finanças Comportamentais (Mani, A., Mullainathan, S., Shafir, E., & Zhao, J. – 2013) revelam que não é bem assim. Preocupações financeiras são prejudiciais às habilidades cognitivas, isto é, à capacidade de absorver e processar informações.

Uma característica das preocupações financeiras mapeada pelos pesquisadores é que elas têm um caráter permanente. Tal constância é exaustiva para o cérebro. Quando se está com falta de dinheiro, nível de endividamento elevado e contas se amontoando, o indivíduo se vê constantemente distraído por tais pensamentos. Continuar a ler

Pesquisa Anapar Finanças Pessoais e Previdência Brasil 2018

Com o objetivo de compreender a percepção dos brasileiros sobre a previdência e identificar comportamentos que determinam as decisões dos cidadãos quanto a seu futuro, a Associação Nacional dos Participantes dos Fundos de Pensão (ANAPAR) realizou uma pesquisa inédita com a população. Entre as descobertas, uma constatação preocupante: três fatores, combinados, levam a maioria a não guardar dinheiro para a aposentadoria, produzindo um quadro de verdadeiro “desalento previdenciário” no país:

  1. renda insuficiente,
  2. falta de perspectiva e
  3. um elevado grau de endividamento.

Pesquisa ANAPAR Finanças Pessoais e Previdência Brasil 2018, encomendada ao Instituto FSB Pesquisa, realizou entrevistas domiciliares com 2.045 pessoas a partir de 16 anos, em 152 municípios, entre 8 e 13 de novembro. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%. Continuar a ler

Rentista: vive de renda a partir de quanto de riqueza?

Michael Viriato é professor de Finanças do Insper e sócio fundador da Casa do Investidor. Publicou artigo (FSP, 06/01/19) bastante didático sobre quanto de riqueza é necessário para se tornar um rentista. Reproduzo-o abaixo para uso no meu futuro curso sobre Finanças Comportamentais para Trabalhadores.

“Viver de renda é um sonho de todos. Entretanto, a queda da taxa Selic para 6,50% ao ano trouxe para baixo o rendimento de todas as aplicações financeiras, pois todos os rendimentos da economia são uma função da taxa básica. E isto fez com que este sonho ficasse um pouco mais difícil de ser atingido.

A maior parte dos investidores associa aplicações financeiras a dois veículos: a caderneta de poupança e aplicações de curto prazo referenciadas ao CDI ou à Selic. No entanto, estas duas não possuem uma característica essencial para quem pensa em viver de renda.

A proteção para a inflação é um importante atributo necessário para que um veículo financeiro se caracterizare como adequado para os rentistas. A poupança nos últimos anos quase não é capaz de superar a inflação e aplicações de liquidez referenciadas ao CDI ou à Selic proporcionam um ganho reduzido de juros real, acima da inflação. Logo, discuto abaixo cinco alternativas para você ter uma aposentadoria tranquila.

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Biologia Evolutiva: Finanças Darwinistas (por Charles Goodhart)

Época (25/11/18) publicou importante artigo-resenha do livro Mercados Adaptáveis — Evolução financeira na velocidade do pensamento, de Andrew W. Lo, publicado pela Alta Books (2018 | 504 páginas). A resenha foi escrita por Charles Goodhart, autor inglês, cuja obra sobre Finanças merece ser lida. Compartilho-a abaixo com propósitos didáticos.

“Andrew W. Lo é um autor prolífico. Professor de finanças na Sloan School of Management, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), ganhou reconhecimento do público, por causa de seu livro A non-random walk down Wall Street (Uma caminhada não aleatória por Wall Street, sem edição em português), e dos profissionais, por seus artigos em periódicos importantes de finanças e economia. Lo conquistou muitos prêmios em sua carreira.

Em seu novo livro, Mercados adaptáveis — Evolução financeira na velocidade do pensamento (editora Alta Books), ele desafia a base científica de muitas teorias mainstream de finanças e economia. Seu argumento é que omainstreamestá baseado em uma abordagem estática derivada da física teórica. Ele afirma que a biologia evolutiva deve assumir esse lugar. Facile à dire, difficile à faire (Fácil de dizer, difícil de fazer).

As Ciências Sociais são sempre mais complexas do que as Ciências Naturais. Experimentos controlados raramente são possíveis. Seres humanos aprendem e se adaptam. Após a condução de um experimento, não há garantia de que os experimentos posteriores produzirão os mesmos resultados. O ambiente dos hábitos, regras, leis e costumes no qual os homens vivem está sempre mudando. Qualquer estado econômico inicial, usando a linguagem da física, é compatível com um grande número de desenvolvimentos evolutivos. Não conhecemos, no momento, a maioria deles. Eles correspondem a situações de incerteza, e não de risco.

O que fazer? Continuar a ler

Educação Financeira para Pobres; Ricos têm Recall Psicológico à vontade

Recall Psicológico é oferecido por “bankers” (consultores/gerentes de investimentos); é um “argumento de autoridade” para o cliente poder atribuir eventual fracasso em sua estratégia financeira e não perder também a autoestima. Em seu viés de auto-atribuição o sucesso é exclusivamente próprio — e o fracasso, naturalmente, é culpa de terceiros, no caso, o responsável pelo aconselhamento.

Marcelo d’Agosto (Valor, 22/11/18) avalia a educação financeira ser fundamental para o desenvolvimento pessoal e o progresso econômico do país.

“Na medida em que aprendemos o valor do dinheiro no tempo, somos capazes de tomar decisões mais embasadas. Elas levam a maior satisfação no longo prazo. Conjuntamente, as escolhas financeiras individuais terminam por impactar o bem estar de toda a população.

Opções tais como consumir hoje, poupar para o futuro, assumir um endividamento com prazo determinado e estratégia clara para a quitação, estabelecer um plano de investimentos com objetivos específicos ou administrar um negócio ficam mais fáceis de serem avaliadas se o conhecimento financeiro for alto.

A prática, no entanto, revela que a transmissão de conhecimento financeiro não é tarefa simples. Alguns programas de educação financeira acabam sendo mais bem sucedidos do que outros. Continuar a ler

Sentimento do Investidor 2018

Adriana Cotias (Valor, 14/06/18) informa: pela primeira vez em pelo menos cinco anos, o brasileiro mostra disposição para revisar sua tolerância a riscos e partir para investimentos menos conservadores. A diversificação para ativos como ações, fundos de gestoras independentes ou aplicações no exterior é mais natural entre os mais jovens, de 25 e 34 anos, a despeito da menor capacidade de poupança na fase inicial no mercado de trabalho. Já aqueles na faixa entre 55 e 64 anos ainda têm certa resistência ao carregar na sua trajetória um passado de crises financeiras, memória inflacionária e juros nas alturas. Mas mesmo nesse grupo, há uma maior inclinação a diminuir a parcela na renda fixa e o relacionamento com o canal bancário tradicional.

Essa dinâmica coincide com o significativo corte da Selic desde outubro de 2016, conforme aponta a pesquisa “Sentimento do Investidor 2018“, feita pela gestora Franklin Templeton no Brasil, como parte de um levantamento global do grupo americano, que reúne US$ 750 bilhões em ativos mundo afora.

Quase 70% dos entrevistados abaixo de 34 anos afirmam ter conta investimento em corretoras, percentual que não passa de 40% entre aqueles com mais de 45 anos. Mais de 80% dos mais jovens dizem ter investimentos em ações, percentual que descresce gradativamente nas demais idades, até chegar a um terço na faixa entre 55 e 64 anos. Os mesmos percentuais são observados em alocações no exterior.

Questionados se diversificam seus investimentos, mais de 73% dos entrevistados entre 25 e 34 anos afirmam que sim, ante 56% entre os que têm entre 55 e 64 anos. Além disso, quase 75% das pessoas no primeiro grupo diz saber a diferença entre o fundo de um banco convencional e o de uma gestora independente, percentual que não chega à metade no segundo caso.

Em sua quinta edição, a coleta da Franklin Templeton, feita com 510 pessoas com pelo menos R$ 50 mil em aplicações financeiras, foi realizada entre 28 de março e 3 de abril. Não captura, portanto, se houve alguma mudança de percepção decorrente do revés dos mercados a partir da manutenção inesperada da Selic em 6,5% ao ano, seguida pela greve dos caminhoneiros com a saída de Pedro Parente do comando da Petrobras, e uma maior aversão a emergentes com o processo de alta de juros nos EUA. Continuar a ler

Raio-X do Investidor Brasileiro

Adriana Cotias (Valor, 26/07/18) informa: quatro em cada dez brasileiros com renda tem algum investimento financeiro, o que corresponde a 41 milhões de pessoas, segundo pesquisa feita pelo Datafolha, sob encomenda da Anbima. De modo geral, o perfil de quem investe replica a concentração de renda no país, pois é o grupo mais escolarizado e com maior poder aquisitivo.

Em 2017, uma parcela de 32% dos brasileiros conseguiu economizar. Nesse grupo, 59% mencionaram a redução de despesas com lazer, compras desnecessárias, bebidas ou cigarros, como formas de ter alguma folga no orçamento.

Tipicamente, aos 65 anos, o sujeito leigo percebe ter sido na casa dos 50 anos quando começou a perceber que se deixasse de lado a visão mais imediatista ganharia qualidade de vida. Até quitar dívidas, reequilibrar o orçamento, só há pouco tempo percebe que, de fato, virou investidor.

Diz: “É fácil gastar e não saber no quê. A primeira coisa que fiz foi identificar para onde meu dinheiro estava indo e comecei a tomar decisões: isso eu não preciso, isso eu posso pensar em termos mais de longo prazo, fui reduzindo custos, mudando atitudes. Mudar de hábito eu diria até que foi rápido. O que levou tempo foi voltar ao equilíbrio.” Hoje ele divide suas economias entre aplicações em títulos públicos e ações.

Guardar dinheiro ou consumir é uma atitude emocional. Tem mais relação com o campo da Psicologia do que com o das Finanças. Por essa razão, não adianta “poupar” sem traçar um objetivo, um sonho, porque recurso sem carimbo facilmente vira consumo. Sem a construção de uma reserva financeira ter sido transmitida pelas gerações mais velhas, há um problema crônico na população. Não há um movimento comportamental de canalizar o dinheiro para a poupança. Existe a atitude de falar, mas não de praticar.

Em Educação Financeira dirigida a crianças, uma das formas de incutir esse hábito é usar três cofrinhos de tamanhos diferentes, para realização de sonhos de curto, médio e longo prazo. Assim ela vai perceber que o menor enche rápido e vai comprar o presente destinado para o sonho tal. É claro que vai mudar o sonho três vezes, mas abre o cofrinho e faz a festa. Com essa brincadeira, os pequenos começam a perceber o desenrolar do tempo, o valor do dinheiro e a relação com seus objetivos.

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