Correlação Causal entre Juros

Correlação é a relação estatística entre duas variáveis, mas nem sempre implica em causalidade. Remete a uma falácia lógica, denominada cum hoc ergo propter hoc, do latim, “com isto, logo por causa disto”.

Há a possibilidade de haver uma causa em comum para ambas, ou seja, as duas variáveis em questão não terem nenhuma relação de causa, e a sua aparente conexão ser só uma coincidência. Em função de um terceiro elemento, é chamada de “correlação espúria”.

Uma variação comum é a falácia post hoc ergo propter hoc (depois disto, logo por causa disto). Muito comum no jornalismo superficial, a relação causal é presumida porque simplesmente uma coisa acontece antes de outra coisa, daí se deduz equivocadamente a segunda coisa só pode ter sido causada pela primeira.

As Notas para a Imprensa, divulgadas mensalmente pelo Banco Central do Brasil, apresentam a evolução das Estatísticas Monetárias e de Crédito. Elaborei uma tabela síntese (veja acima) onde se observa uma correlação entre a taxa de juro do crédito rotativo, isto é, um empréstimo de emergência concedido por um mês ao comprador com cartão de crédito inadimplente no pagamento da fatura, e o Índice do Custo do Crédito para Pessoas Físicas.

Esta é a taxa de juro média ponderada de todas as operações de crédito com as Pessoas Físicas. No fim de 2021, a únicas exageradas eram a do cheque especial (128% aa) e as dos cartões de crédito: rotativo (350% aa) e parcelado (159% aa). As demais eram mais “civilizadas”.

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Contrarreforma do Sistema de Pagamentos com Cartões de Crédito

Fui convidado para participar de um Seminário Internacional para debater o tema “Bancos comerciais no financiamento do setor produtivo e missão social”. Será realizado no dia 21 de junho de 2022, a Câmara dos Deputados. O evento será realizado das 17h às 18h30 e será transmitido ao vivo pela TV Câmara: www.camara.leg.br.

Minha questão-chave para os representantes dos bancos é simples, embora o sistema bancário seja complexo: como mudar o sistema de pagamentos no varejo com cartões de crédito no próximo governo? Analiso aqui possíveis objeções.

O primeiro contra-argumento é o desse sistema já ter sido transformado pelos consumidores brasileiros em uma instituição imutável. Em quantidade de transações, foram ao todo 31,1 bilhões de pagamentos com cartões no ano passado, o equivalente a quase 85 milhões por dia, 33% a mais se comparado ao volume do ano anterior.

Instituições são estruturas ou mecanismos de ordem social. Regulam, formal ou informalmente, o comportamento de um conjunto de indivíduos dentro de uma determinada comunidade. São identificadas com uma função social, transcendente às intenções particulares dos indivíduos, mediando regras estabelecidas pelo costume ou comportamento social.

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Novo Sistema de Registro de Recebíveis de Cartões

Mariana Ribeiro (Valor, 07/06/22) informa: os benefícios do novo sistema de registro de recebíveis de cartão, que completa um ano hoje, já são notórios, afirma o diretor de regulação do Banco Central (BC), Otávio Damaso. Apesar dos problemas iniciais, o sistema já está sendo bem-sucedido no incentivo a novos modelos de negócios e que os ajustes necessários daqui para frente são pontuais e, em muitos casos, ligados a inovações que não estavam inicialmente no radar do regulador.

Daqui para frente, a expectativa é que o mercado se desenvolva e continuem surgindo novas empresas, com diferentes propostas de uso para os recebíveis dos lojistas. O diretor lembra que quando regulamentou as fintechs de crédito, o Banco Central não conseguiu prever todos os modelos que seriam criados. Com os recebíveis, espera acontecer a mesma coisa. Ele cria condições e cabe ao mercado inovar.

A entrada em vigor do sistema foi importante em um cenário em que ainda vigorava a chamada trava bancária (prática por meio do qual, para a concessão de crédito, os bancos retêm todo o fluxo de recebíveis de cartões do varejista), mas novos entrantes já colocavam em xeque o formato. Sem um modelo adequado para o registro, ao invés de aumento da competição, as mudanças pelas quais passava o mercado trariam ainda mais insegurança ao lojista.

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Migração para Cartão Virtual por Motivo de Segurança

Álvaro Campos (Valor, 07/06/22) informa: o Itaú é líder no mercado de cartões de crédito no Brasil, com mais de 38,2 milhões de unidades e quase 30% do volume processado. Agora quer capitanear uma mudança significativa na relação do brasileiro com esse instrumento.

O banco vai lançar uma campanha de marketing para incentivar os clientes a aderirem aos cartões virtuais e outras formas de pagamentos digitais, aposentando o plástico. O cartão físico continuará disponível para quem quiser, mas o foco é estimular o consumidor a abraçar de vez essas novas formas de pagamento, consideradas mais fáceis, rápidas e seguras – e que ganharam impulso na pandemia.

Segundo o Itaú, o número de transações realizadas com cartões virtuais cresceu 296% até o momento em 2022, na comparação com o mesmo período de 2021, com uma alta no faturamento de 190%. Além disso, no primeiro trimestre do ano, o valor transacionado utilizando pagamento por aproximação cresceu 375%, considerando as carteiras digitais, como Apple Pay, Google Pay e Samsung Pay, além do pagamento com cartão físico com tecnologia NFC.

Desde 2015, o Itaú oferece a opção de cartão virtual para seus clientesaquele número gerado cada vez que se faz uma compra on-line – e em 2021 lançou a modalidade de cartão virtual recorrente, voltado para pagamentos de serviços contínuos, como assinaturas, serviços de transporte e delivery.

Agora todos os modelos de celular já possuem a tecnologia NFC e todas as “maquininhas” de cartão também já aceitam esse tipo de operação por aproximação. A ideia é que o cliente concentre pagamentos no smartphone.

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Banquetas não são Bancões

Os bancos de médio porte já sofrem mais que os grandes no atual ciclo de aumento da inadimplência. Com uma carteira menos diversificada, uma postura muitas vezes agressiva para atrair clientes e uma estrutura de funding mais cara, essas instituições tendem a vweuma deterioração mais acentuada na qualidade dos seus ativos em cenários macroeconômicos adversos, como o atual, com inflação e juros elevados e endividamento das famílias perto de níveis recordes.

Dez bancos médios – BV, Daycoval, Banrisul, ABC Brasil, Pan, Inter, Bmg, BNB, Mercantil e Pine – mostram crédito forte, margem crescendo pouco e alguns sinais de piora na qualidade dos ativos. Todas essas instituições são classificadas pelo Banco Central (BC) nas categorias S2 e S3 da escala que define as instituições financeiras conforme o tipo e a complexidade.

No agregado, a carteira de crédito dessas instituições cresceu 14,75% na comparação com março do ano passado, para R$ 301,2 bilhões. O ritmo superou o dos cinco grandes bancos do país (Itaú Unibanco, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa), cujo estoque ampliado de empréstimos e financiamentos que avançou 13,46%, para R$ 4,161 trilhões. A margem financeira dos médios, no entanto, cresceu em um ritmo bem inferior, de 3,1%, somando R$ 8,4 bilhões.

Diversos deles cresceram em linhas com maior risco/retorno, como cartão e crédito pessoal, incluindo BV, Pan e Inter. Outros têm carteiras muito concentradas em produtos mais seguros, como consignado ou crédito para médias e grandes empresas, o que acontece em Mercantil e Pine, respectivamente.

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La Banca Brasileira: Baixe o Relatório de Pesquisa Empírica

Capa La Banca

Para participar de uma discussão sobre lucratividade dos bancos da América Latina, em um programa no Canal do IE/UFRJ sobre Sistema Financeiro Nacional, eu me atualizei com os dados recentes. Escrevi um relatório de pesquisa (download no fim deste artigo). Ele discute o livro de Sérgio Paez e Guillermo Oglietti, La Mano Visible de la Banca Invisible: Renta y Lucro Extraordinário de las Finanzas em America Latina, lançado na Argentina em 2021.

Confirmei, nesse relatório de pesquisa empírica, minha suspeita de a maior fonte de lucro dos big six bancos, no Brasil, estar no carregamento de títulos de dívida pública por Tesourarias. A DPMFi em dezembro de 2021 atingiu R$ 5,4 trilhões. Os “mais ricos”, desde sempre preferem o risco soberano para receber juros em lugar de sofrer o aumento da carga tributária progressiva.

Para essa demonstração, extrai do Resultado de Intermediação Financeira (RBIF), dado pela diferença entre Receitas (RIF) e Despesas (DIF) de Intermediação Financeira, as Rendas de Operações com Títulos e Valores Mobiliários (RTVM), bem como Rendas de Operações com Instrumentos Financeiros Derivativos (RDER) e Resultado de Operações de Câmbio (ROC).

Esse Resultado Bruto de Intermediação Financeira strictu sensu do BBBICS (Brasil-Bradesco-BNDES-Itaú-Caixa-Santander), descontado das operações típicas das Tesourarias dos bancos, isto é, aplicações de recursos próprios, surpreendentemente, deu negativo, quando subtrai nas Despesas também a Provisão para Créditos de Difícil Liquidação (PLCD). Dedução: caso se confirmasse essa perda total, as operações de crédito seriam deficitárias para os seis maiores bancos do Brasil!

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Fintechs X Bancos: “Tamanho não é Documento”?

Larissa Garcia (Valor, 16/05/22) informa: o intenso processo de inovação tecnológica e financeira, vivido nos últimos anos, criou um terreno fértil para a digitalização de serviços e produtos financeiros. Nesse contexto, depois de seis anos em queda, o número de instituições financeiras voltou a crescer em 2019, movimento que ganhou tração em meio à pandemia de covid-19. Em fevereiro deste ano, último dado divulgado pelo Banco Central (BC), o país tinha 649 bancosfintechs financeiras, 15% a mais que em 2019.

O crescimento foi puxado pelo “boom” de fintechs e bancos digitais. As instituições de pagamento, por exemplo, mais que dobraram no período e passaram de 19 em 2019 para 43 em fevereiro deste ano. Já as sociedades de crédito direto (SCD) e de empréstimo entre pessoas — que são fintechs de crédito — passaram de 15 para 78 no mesmo período, alta de 420%. Esse aumento reverte a tendência observada entre 2013 e 2018, quando o setor encolheu. No período, o número de instituições financeiras caiu 11%.

O número de bancos, no entanto, permaneceu estável e atingiu o menor número em 2018, com 171. Em fevereiro de 2022, eram 177, mesma quantidade registrada em 2013 e nos últimos dois anos. Ao incluir cooperativas e administradoras de consórcio, o total de participantes do sistema financeiro sobe para 1.648, alta de 1,16% na comparação com 2019.

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Pagamentos em Tempo Real

Mariana Ribeiro (Valor, 26/04/22) informa: a esteira do crescimento do Pix, o Brasil foi o quarto país que mais realizou transações em tempo real no ano passado, um avanço de quatro posições frente a2020. Foram 8,7 bilhões de transações, que representaram 5% das operações feitas no país, de acordo com relatório global da ACI Worldwide, companhia de software para pagamentos. A expectativa é que essa participação continue subindo e chegue a 34% em 2026.

A primeira colocação é ocupada pela Índia, com 48,6 bilhões de transações, seguida por China (18,5 bilhões) e Tailândia (9,7 bilhões). Além do Brasil, o “top 10” é formado ainda por Coreia do Sul, Nigéria, Reino Unido, Estados Unidos, Japão e México.

Ao todo, foram analisados 53 países, que juntos realizaram 118,3 bilhões de transações instantâneas, crescimento de 64,5% sobre o ano anterior. De acordo com o estudo, feito em parceria com a GlobalData e o Centro de Pesquisa Econômica e Empresarial (Cebr), esse número pode chegar a 427,7 bilhões em 2026.

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Prudência dos Clientes: Escolha de Banco Grande Demais Para Não Quebrar

Fernando Canzian (FSP, 07/05/22) publicou reportagem sobre concentração bancária, efeito da preferência dos clientes por “banco grande demais para não quebrar”. Consulta economistas para repetir platitudes sobre o assunto.

Nenhum pondera o efeito do modelo de cartões de crédito, onde a inadimplência no crédito rotativo, provocado por endividamento imprudente (e “forçado” pelos preços à vista e a prazo sem diferenciação), leva a um juro absurdo. Por isso, a taxa de juro média ponderada é elevada, não só nos “big five” bancos como também nos demais, fenômeno não mostrado na reportagem.

Dois anos após o ministro Paulo Guedes (Economia) criticar os “200 milhões de trouxas sendo explorados por seis bancos”, a concentração no mercado financeiro segue elevada no Brasil, apesar de mudanças recentes na área.

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Política de Juros e Inadimplência

Lucinda Pinto e Álvaro Campos (Valor, 19/04/22) fizeram reportagem sobre a combinação de juros altos e renda corroída pela inflação. Ela torna o ambiente muito favorável para o avanço da inadimplência no crédito, tanto para pessoa física como para empresas.

Por enquanto, os números oficiais não revelam aumento expressivo, o que pode ser explicado pelo esforço dos bancos em renegociar com os clientes, dando mais prazo ou mesmo carência para o pagamento de dívidas. Mas, na visão de diversos participantes do mercado, há sinais claros de uma piora da dinâmica de pagamento das linhas de crédito.

Se antes a expectativa era que a inadimplência terminasse este ano muito próxima do patamar pré-pandemia, agora já há temores de que ela suba além disso. Neste início de ciclo, a inadimplência afeta primeiro as classes de menor renda e as linhas mais arriscadas, como o rotativo do cartão de crédito.

O último dado disponível de inadimplência fornecido pelo BC mostra que os calotes nas linhas com recursos livres subiram para 4,6% em janeiro para as famílias e 1,6% para empresas. O dado é bastante defasado porque a greve dos servidores impediu que fosse divulgada a nota de crédito de fevereiro. De todo modo, mesmo com o crescimento, o número mostra que a inadimplência ainda está abaixo do nível pré- pandemia, que era de 5,0% para PF e 2,1% para PJ.

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Fintechs e as Inovações FinanceirasRecentes

Luiz Fernando de Paula é professor do IE/UFRJ, coordenador do GEEP do IESP- UERJ e membro do Observatório do Sistema Financeiro (OSF). Luiz Macahyba é doutorando em Economia pelo PPED/IE-UFRJ e membro do OSF. Publicaram o artigo (Valor, 18/04/22) reproduzido abaixo.

O Brasil passou por um intenso processo de transformações no setor bancário, tendo como um de seus principais marcos a criação dos bancos múltiplos, em 1988, consolidando bancos comerciais, bancos de investimento, instituições de poupança, etc. que estavam sob um mesmo guarda-chuva corporativo.

A partir da implementação do Plano Real em 1994, observa-se um movimento de consolidação do setor motivado, entre outros fatores, pela perda das receitas inflacionárias em função do fim da alta inflação. Até então as inovações financeiras dos bancos estavam ligadas ao contexto de alta inflação, como no caso no desenvolvimento “moeda indexada”.

Já a partir de 1995/96 deu-se início um processo de fusões e aquisições (F&As), resultado da estabilidade de preços, da privatização de bancos estaduais e da entrada controlada de bancos estrangeiros a partir de 1997. Esses processos resultaram no desaparecimento de mais de 80 bancos entre 1995 e 2005.

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PIX segundo avaliação do BIS: Necessidade de Diferenciação de Preços à Vista

Mariana Ribeiro (Valor, 24/03/22) resumiu o paper do BIS sobre o PIX brasileiro.

BIS – Central banks, the monetary system and public payment infrastructures – lessons from Brazil’s Pix

A experiência recente do Brasil com o Pix fornece lições para países emergentes e avançados que enfrentam desafios relacionados ao custo e ao acesso a seus sistemas de pagamentos. É relevante ainda para o processo de implementação de moedas digitais pelos bancos centrais (BCs). A avaliação consta em estudo divulgado ontem pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), espécie de banco dos bancos centrais.

Para os pesquisadores, o sistema de pagamento instantâneo brasileiro, lançado em novembro de 2020, mostrou como as infraestruturas dos BCs podem apoiar a interoperabilidade, “promovendo custos mais baixos e maior inclusão financeira”.

Eles destacam que a dificuldade de acesso a sistemas financeiros é um problema conhecido em países emergentes, mas que as economias avançadas não estão imunes, já que o avanço tecnológico não é suficiente para resolver todas as questões relacionadas à inclusão financeira. “Os efeitos de rede inerentes a plataformas de pagamentos podem ser usados para consolidar poder de mercado e resultar em falta de competição efetiva.”

Nesse sentido, a avaliação é que as infraestruturas dos BCs podem fazer com que novas tecnologias sejam utilizadas a favor da concorrência. Isso pode vir tanto de sistemas de pagamentos instantâneos quanto por meio das moedas digitais, acrescentam.

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