Relatório da Cidadania Financeira

Isabel Versiani (Valor, 07/11/18) informa: o número de postos de atendimento para a prestação presencial de serviços financeiros em todo o país caiu de 2015 a 2017, após quatro anos de estagnação. O acesso a canais remotos de atendimento, por outro lado, cresceu 20% ao ano no período, suprindo em parte essa retração. Ainda assim, a proporção de adultos com relacionamento bancário no país ficou estável, assim como a parcela de brasileiros que contraíram crédito.

Os dados estão no Relatório da Cidadania Financeira, divulgado pelo Banco Central na abertura de seminário voltado para o tema. O documento levanta um panorama amplo de como os brasileiros estão acessando os recursos financeiros e do quão sustentável é esse uso.

No relatório, o Banco Central pondera que, no período recente, o desempenho do crédito sofreu o impacto da conjuntura macroeconômica desfavorável. A parcela de adultos que obteve crédito oscilou de 45% em 2016 para 44% no ano seguinte. Já o saldo de crédito mostrou variação de acordo com a faixa de renda. De 2015 a 2017, o saldo aumentou em todas as faixas, com exceção da mais alta (acima de 20 salário mínimos), que sofreu queda de 5,6%. Continuar a ler

Sistema de Pagamentos: Interações entre Componentes de um Sistema Complexo

Tenho uma hipótese a ser testada. Somos partes de um sistema econômico complexo onde no passado as trocas eram feitas à base de tempo de trabalho empregado na produção de mercadorias. Hoje, as interconexões são feitas por um sistema de pagamentos eletrônicos, onde se atribui cada valor de mercado à base das diversas subjetividades dos participantes do mercado.

Nossas interações são para trocar ativos, isto é, formas de manutenção de riqueza, principalmente financeira, desde haveres monetários plenamente líquidos até os não-monetários com rendimentos de juros. As precificações são voláteis, porque especulativas a respeito de qual valor barato pagar no presente para viabilizar um acréscimo de margem de lucro e consequente ganho de capital com sua venda no futuro por um valor mais caro. A velha “regra de ouro do comércio” deixou de ser à base da teoria do valor-trabalho. O custo de vida é inflado com as diversas taxas além do socialmente justo por causa do grau de oligopólio deste mercado.

A economia contemporânea é um sistema complexo emergente dessas interações em um mundo quando o trabalho é dispensado. Ele é substituído por máquinas robóticas. O problema essencial é este — e não a mal-amada (e superficial) “financeirização”.

Estamos interconectados sim por um sistema de pagamentos digital, eletrônico ou virtual. O problema complexo é a precificação ou o poder de mercado para apreçamento dos ativos, bens e serviços desmaterializados.

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Como depositante quero “banco grande demais para não quebrar”; como devedor, “banco pequeno demais para quebrar”…

Há cinismo ou incoerência em um duplo papel do cliente bancário: como depositante querer “banco grande demais para não quebrar”; como devedor, “banco pequeno demais para quebrar”… e enrolar a massa falida.

Um sistema bancário é complexo por sua emergência pelas interações entre múltiplos componentes:

  1. sistema de pagamentos,
  2. agências para depósitos e investimentos,
  3. fornecedor de crédito.

É um oligopólio diferenciado, ou seja, os bancos competem por diferenciação na qualidade do serviço (eletrônico e pessoal) prestado. Quem capta maior volume de recursos é mais seguro e possui maior capacidade de financiamento. Fintechs e outras inovações financeiras são bem-vindas, mas não se deve iludir a opinião pública apresentando-as como panaceias para remediar o problema da concentração bancária.

Vandson Lima e Isabel Versiani (Valor, 04/09/18) avaliam: de Geraldo Alckmin (PSDB) a Jair Bolsonaro (PSL), de Fernando Haddad (PT) ao favorito de banqueiros João Amoêdo (Novo), virou uma proposta eleitoreira entre os candidatos defender que o próximo presidente da República implante uma agenda em prol da desconcentração bancária.

Levantamento feito pelo Valor mostra a abordagem da questão nos planos de governo e entrevistas dos presidenciáveis e seus assessores econômicos. E atesta que, independentemente do vencedor da eleição, há uma clara tendência de que o sucessor de Michel Temer estimule nos próximos quatro anos um ambiente regulatório favorável ao surgimento de bancos pequenos e médios e à criação defintechs” como forma de:

  1. ampliar a competição no mercado bancário,
  2. aumentar a oferta de crédito e
  3. levar à redução do spread.

As estratégias variam de acordo com o candidato. O substituto de Lula na cabeça de chapa do PT, com a impugnação da candidatura do ex-presidente pelo TSE, Fernando Haddad é quem tem encampado a proposta mais detalhada e drástica. Ao participar de sabatina dos presidenciáveis com representantes do comércio e serviços, em Brasília, Haddad adiantou que o PT propõe uma ampla reforma do sistema bancário. “Vamos dar um basta na oligopolização dos bancos. E isso não virá sem dor”, avisou. Continuar a ler

Mercado de Dinheiro X Mercado de Capitais

Este modesto blog pessoal me serve — e, espero, a todos os seus seguidores ou eventuais leitores — como um grande banco de dados e informações. Desde 2010, busco compartilhar, comentar e guardar notícias relevantes na minha área de especialização: macroeconomia e finanças.

A capacidade analítica, obtida em conhecimento teórico plural, junto com a medição e o teste de hipóteses, ambos exigidos pela Ciência, propiciam trilhar o eterno caminho em busca de verdades, embora estas sejam provisórias face a um contexto dinâmico. Então, temos sempre de estudar e incorporar dados estatísticos à nossa análise.

Por exemplo, um contra-argumento em debate com neoliberais louvadores do mercado de capitais é apontar o diminuto número de investidores ativos da bolsa de valores de São Paulo: chegou a 751,9 mil pessoas em agosto de 2018, o que representa uma alta de 22,2% em relação ao mesmo mês de 2017, segundo dados da B3. Mas é muito pouco em relação ao número de investidores em FIFs e TVM (confira acima: 11,4 milhões) e 59 milhões depositantes de poupança com saldo acima de R$ 100!

O balanço do mês mostrou: o segmento Bovespa, de mercado à vista de ações e derivativos sobre ações, teve volume financeiro médio diário 22,2% maior em relação a agosto de 2017, com R$ 10,7 bilhões. A capitalização de mercado média de todas as empresas foi de R$ 3,22 trilhões, alta de 13,4%. Mas continua menor em relação ao mercado de dinheiro investido em títulos de dívida pública, ou seja, à dívida pública mobiliária em mercado: R$ 3,596 trilhões ou 53,4% do PIB.

Outra reportagem me chamou a atenção por sua relevância no debate junto à opinião especializada: estudo do BIS aponta vantagens do recolhimento compulsório na América Latina. Sua falha é não examinar a alternativa ao zerar o depósito compulsório: aumentaria as operações compromissadas — atualmente em R$ 1,181 trilhão ou 17,5% do PIB — para enxugar o excesso de liquidez e colocar a Selic-mercado no nível anunciado da Selic-meta. O volume de recursos depositados compulsoriamente no Banco Central no final de fevereiro de 2018 era de cerca de R$ 395 bilhões.

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Spread Bancário e Estrutura Bancária

As principais variáveis conjunturais influentes na dimensão dos spreads bancários são a taxa de juros Selic, estabelecida pela política monetária, o risco-país, avaliado por agências de risco estrangeiras, além da inadimplência em função principalmente da queda da renda e do desemprego. A Selic influi diretamente no custo de captação bancária em percentual de CDI e indiretamente no mercado futuro determinante do custo de oportunidade do mark-up na operação de crédito. Os prêmios de risco impactam o custo de repasses externos.

Desde dezembro de 2015, quando se atingiu a maior relação entre o saldo de crédito e o PIB (54,5%) – um ano antes com o recálculo do PIB a relação tinha sido 53,1% –, ela vem caindo até 46,4% do PIB em julho de 2018. No mesmo mês, a Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) alcançou R$ 3.503,5 bilhões (52% do PIB) e a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), compreendendo o Governo Federal, o INSS, e os governos estaduais e municipais, alcançou R$ 5.186,5 bilhões, equivalente a 77% do PIB.

Com a dívida mobiliária (títulos de dívida pública) em mercado equivalente a 53,4% do PIB, analistas argumentam isso indicar “o direcionamento da poupança privada para financiar o governo”. Na realidade, houve o recuo da demanda por crédito por conta da incerteza em relação à queda da renda futura e do risco de desemprego, além do aumento do juro em operações de crédito ao consumidor. Esses fatores conjunturais levam ao adiamento de gastos. O recuo da oferta efetivada do crédito provoca o aumento do spread pela queda da diluição da inadimplência em menor número de clientes adimplentes e prazos mais curtos de amortizações do crédito.

Uma melhora do ambiente macroeconômico é crucial para recuperação do crédito. Os carregadores da dívida exageram na exigência de uma evolução mais favorável da relação dívida/PIB do país como indicador de solvência do Tesouro Nacional. Para tanto, pregam diariamente na “grande” imprensa brasileira o corte de gastos públicos, inclusive a retirada de direitos sociais antes conquistados para a aposentadoria. Sem reposição inflacionária de salários, ameaçando até o salário mínimo, agravará a queda real do poder aquisitivo e, em consequência, do consumo das famílias. Cairá a demanda agregada e, junto com ela, a perspectiva de retomada do crescimento econômico sustentado.

Além desses fatores conjunturais, há problemas institucionais ou estruturais no sistema bancário a serem enfrentados para provocar a queda dos spreads bancários. Alega-se os elevados depósitos compulsórios terem também importante peso nos spreads, porque reduzem o montante de recursos possíveis de os bancos direcionarem ao crédito, tornando-o mais caro. Com os grandes volumes de recolhimentos compulsórios a sociedade não consegue se beneficiar do funding barato captado pelos bancos supostamente com a finalidade de oferecer um crédito menos custoso. Continuar a ler

Spread Bancário e Ciclo de Crédito

No debate público-eleitoral é um mau argumento o ad hominem (ao homem): em vez de discutir a ideia, fazer uma desqualificação do interlocutor por não ser especialista ou por juízo negativo de suas intenções. É comum atacar a pessoa, em vez da opinião dela, com a intenção de
desviar a discussão da proposta desse oponente. A “culpa por associação” é desacreditar uma ideia ao associá-la a algum grupo malvisto em determinadas redes sociais. No caso da esquerda, o demônio é o “banqueiro rentista”.

Um exemplo desse mau argumento é dizer:  a reação contrária de alguns economistas ligados aos bancos apenas revela o potencial competitivo da medida de progressividade tributária sobre o custo do crédito para obrigar o cartel bancário a sair de sua cômoda posição atual rumo a um cenário de maior concorrência. A “culpa por associação” está presente na seguinte “denúncia”: os arautos do mercado financeiro se posicionaram contra, utilizando o já conhecido argumento de o aumento da tributação ser repassado ao tomador final, produzindo um resultado oposto ao pretendido.

Arauto é o defensor de uma ideia ou uma causa, por exemplo, a viabilidade técnica e/ou a possibilidade prática de uma medida de política financeira. Se a questiona, não necessariamente está atuando em defesa de interesses escusos.  O apelo para a falácia genética – um apego emocional negativo à origem do emissor de uma ideia – ocorre quando seu argumento é desvalorizado não por seu mérito, mas somente por causa da origem da pessoa crítica à proposta.

Para evitar tal “bate-boca”, é prudente apresentar evidências empíricas para os argumentos. A tabela abaixo mostra um nítido ciclo de alta e um de baixa na taxa de juros de captação, cuja proxy é percentual de CDI, uma taxa próxima da Selic – taxa de juros básica de referência – regulada pelo Banco Central. O ciclo de alta da taxa de juros de empréstimos ocorreu com defasagem, porque o auge nessa série anual aconteceu em dezembro de 2016 – e não um ano antes como no caso da taxa de aplicação.

Embora a taxa de captação tenha voltado em julho de 2018 para patamar próximo de dezembro de 2012 (6,7% aa contra 6,5% aa), durante a “Cruzada da Dilma” contra os altos juros, a taxa de empréstimos não voltou na mesma dimensão (24,5% aa contra 18% aa). Resultado: o spread recente está bem superior ao de 2012 (17,8 pp contra 11,5 pp). Por que?

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Spread Bancário: Multiprodutos, Concorrência e Nichos de Mercado

O Indicador de Custo de Crédito (ICC) mede o custo de todas as operações ativas na carteira do sistema financeiro. A partir dele, o Banco Central do Brasil calcula o spread bancário, excluindo a parcela correspondente ao Custo de Captação.

A compilação e a publicação do ICC tiveram início em 2017. A princípio, os dados publicados compreendiam o ICC referente à totalidade das operações de crédito do SFN, com aberturas para crédito com recursos livres e para crédito com recursos direcionados, bem como para pessoas físicas e para pessoas jurídicas. Posteriormente, passaram a ser produzidos e divulgados indicadores referentes ao spread do ICC, com as mesmas aberturas. A partir de abril de 2018, foram divulgados adicionalmente o ICC e o spread do ICC do crédito livre não rotativo, além de aberturas por modalidade de crédito.

A partir do ICC, calcula-se o spread bancário. Para isso, exclui-se do ICC a parcela correspondente ao Custo de Captação.

O ICC atingiu 20,9% a.a. em julho de 2018, registrando declínio de 1,3 p.p. em doze meses. No crédito livre, o ICC situou-se em 32,9% a.a., recuando 4,2 p.p. em igual período. Excluindo-se as operações rotativas, o ICC do crédito livre manteve-se estável em 29,7% a.a. O spread do ICC situou-se em 14 p.p. e o spread do ICC das operações com recursos livres, 24,5 p.p., dando perceber desde logo a significativa diferença por modalidade e por devedor.

Da relação entre o saldo total de crédito do sistema financeiro e o PIB, em julho de 2018, caiu para 46,4% face a 58,9% registrado pelo Banco Central em dezembro de 2014 com o PIB anterior ao recálculo pelo IBGE. Na data recente, subdividia-se em 21,1% do PIB para pessoas jurídicas (11,1% em recursos livres e 10% em recursos direcionados) e 25,3% do PIB para pessoas físicas (13,2% em livres e 12,1% em direcionados). Continuar a ler