Ciclos de Endividamento: Alavancagem e Desalavancagem Financeira

O segredo do negócio capitalista é dar escala ao investimento e multiplicar sua rentabilidade com a alavancagem financeira. Este é termo usado para designar a obtenção de recursos de terceiros, somando-os aos recursos próprios, e fornecer uma composição passiva capaz de lastrear maiores valores nos ativos do empreendimento.

Pode-se formular os seguintes indicadores da alavancagem financeira:

  1. a utilização de recursos provenientes de terceiros na composição da estrutura do capital de uma empresa, objetivando obter economia de escala:
    [R3º / (R3º + RP) ou R3º / PT] onde R3º significa Recursos de Terceiros, RP, Recursos Próprios, e PT, Passivo Total;
  2. a compra de títulos e/ou bens com recursos de terceiros (R3º / AT), onde AT são Ativos Totais, iguais aos Passivos Totais (PT);
  3. a participação percentual dos empréstimos contraídos em relação à estrutura de capital da empresa (P3º / PL), onde PL é Patrimônio Líquido (Capital + Reservas).

Gosto de dar um exemplo simples. Caso você tenha 100 mil reais para investir em algum ativo (forma de manutenção de riqueza) com firme tendência de alta, por exemplo, 25% a cada dois anos, você aplica o seu dinheiro para o comprar ainda barato e vender mais caro no fim desse período. Você ganha R$ 25 mil apenas com esse capital inicial.

Com recursos de terceiros, isto é, dos outros depositados em bancos, em vez de investir 100 mil reais, você pode fazer um investimento de 400 mil reais. Você toma emprestados os 300 mil reais restantes de um banco. Após dois anos, com a mesma valorização de 25%, você o vende por 500 mil reais. Aí amortiza o empréstimo ao banco e sai do negócio com aproximadamente 200 mil reais, descontados os juros.

Em vez de ganhar meros 25%, você dobrou o seu dinheiro ao usar o dinheiro dos outros. Teria rentabilidade de 100% sobre o capital inicial em caso de juro zero. O limite do juro a ser pago tem de ser inferior à rentabilidade patrimonial inicial (25%) para valer a pena.

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Pagamentos Instantâneos: Atraso do Brasil em relação à China e à Índia

O sistema de pagamentos instantâneos em desenvolvimento pelo Banco Central (BC) pode ter menos apelo no Brasil se comparado com o da China, segundo as maiores bandeiras de cartões.

“É difícil chegarmos à participação de mercado obtido na China, porque lá tem outras características. Mas o P2P [pagamentos instantâneos] também vai ser importante aqui”, afirmou João Pedro Paro Neto, presidente da Mastercard para Brasil e Cone Sul.

“Não acredito que o P2P vai matar as maquininhas. Ja tem um parque instalado enorme no Brasil”, disse o presidente da Visa, Fernando Teles.

Os pagamentos instantâneos se alastraram na China porque no país poucos consumidores usavam cartões de crédito e débito. No Brasil, entretanto, os cartões representam 40% do consumo das famílias. Continuar a ler

Independência do Banco Central só com Mandato Dual senão Todo o Poder para Tecnocratas Não Eleitos

Alex Ribeiro (Valor, 16/04/19) avalia: ao definir o controle da inflação como o único objetivo da política monetária, o projeto de lei que concede independência ao Banco Central se afasta do modelo adotado em 1964 pelo então ministro da Fazenda, Otávio Gouvêa de Bulhões. Naquele período, havia a preocupação também com a atividade econômica, por isso foi incluído o “combate às depressões” entre as atribuições da política monetária.

Bulhões passou à história como um ministro da Fazenda austero, ao comandar o duro ajuste econômico que abriu caminho para o Milagre Brasileiro durante o regime militar. Mas, por ter vivido a Grande Depressão, ele também tinha preocupações com as grandes oscilações da economia.

O governo do capitão sem nenhum conhecimento de Economia propõe na lei de independência do BC a política monetária ter um único objetivo – o controle da inflação -, justamente em um momento quando bancos centrais de países desenvolvidos lançam mão de instrumentos monetários extraordinários para tirar suas economias da Grande Recessão. Faz sentido?!

Há duas tradições nos modelos de banco central.

  • De um lado, a tradição dos Estados Unidos, cuja principal tragédia econômica foi a Grande Depressão e que decidiu adotar um banco central com mandato dual: estabilidade de preços e máximo nível de emprego.
  • De outro, a tradição alemã, cuja experiência com a hiperinflação levou à ascensão do nazismo e que adotou a estabilidade de preços como único objetivo. Esse modelo foi adotado pelo Banco Central Europeu (BCE). Continuar a ler

Caixa: Banco do Estado brasileiro, não do Governo Militar

Edna Simão (Valor, 28 e 29/05/19) informa algo para se registrar: para tentar dar um estímulo à economia brasileira, a Caixa Econômica Federal anunciou não só o início da renegociação de dívidas de quase três milhões de pessoas física e jurídica como também, em até 30 dias, fazer algo semelhante com os financiamentos imobiliários.

A expectativa da Caixa é recuperar R$ 1 bilhão em dívidas já lançadas a prejuízo pela instituição financeira, ou seja, 25% da dívida considerando o desconto médio de 85,7% (R$ 4,1 bilhões). A dívida total, já retirada do balanço, soma R$ 28,624 bilhões, sendo R$ 15,654 bilhões de pessoa física e R$ 12,969 bilhões de pessoa jurídica.

Essa renegociação é a primeira de cinco medidas populistas. “Somos um banco de Estado. Não um banco de governo”, frisou o presidente do banco, Pedro Guimarães. O objetivo “é fazer anúncios toda a semana”. “Vamos fazer uma outra renegociação na parte imobiliária”, disse, sem dar detalhes. Continuar a ler

Big-Five na Administração de Recursos de Terceiros

Ontem (29 de maio de 2019), fui palestrar na Oficina realizada em Brasília sobre O papel do Estado e das empresas públicas em debate.

O Observatório da Democracia e o Comitê Nacional em Defesa das Estatais convidou especialistas para apresentar um panorama das empresas públicas brasileiras na economia e na sociedade. Para download, estão reunidos os artigos elaborados por estes especialistas para fomentar o debate e a formulação de propostas feitas durante a oficina em: Artigos da Oficina sobre Papel do Estado e Empresas Públicas 29.05.19.

Realização: Comitê Nacional em Defesa das Empresas Públicas, Observatório da Democracia (Fundações Claudio Campo/PPL, João Mangabeira/PSB, Lauro Campos e Marielle Franco/PSOL, Leonel Brizola-Alberto Pasqualini/PDT, Mauricio Grabois/PCdoB, Ordem Social /PROS e Perseu Abramo/PT)

Também ontem foi postado no Brasil Debate artigo meu com dados usados na minha palestra. Reproduzo-o abaixo.

Para entender a sociedade brasileira é necessário conhecer a estratificação social de sua riqueza financeira. Segundo a ANBIMA, a base de ativos financeiros – formas de manutenção de riqueza – da economia brasileira alcança R$ 10,6 trilhões (dados de dezembro de 2018), distribuídos entre fundos de investimento, ações, títulos públicos federais, CDB (Certificados de Depósitos Bancários), LF (Letras Financeiras), poupança, debêntures, notas promissórias, LCI (Letras de Crédito Imobiliário) e LCA (Letras de Crédito do Agronegócio). Desse total, quase a metade – 43,4% ou R$ 4,6 trilhões – é administrada por meio de fundos de investimento. Essa participação é crescente: em 2013, apenas 37% do estoque de ativos estava em poder dos fundos.

Em termos macroeconômicos, os fundos de investimento cuidam do carregamento da dívida brasileira, tanto pública como privada. São os maiores detentores de títulos públicos do país, com R$ 1 trilhão em carteira. O volume equivale a 27,2% do total de R$ 3,7 trilhões em mercado. O montante é ainda maior se considerados os títulos públicos carregados em certos veículos, como os fundos exclusivos mantidos por investidores institucionais, a exemplo das entidades de previdência com 24,6% do total.

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Estatística de Crédito Ampliado ao Setor Não Financeiro

Há muitos anos tenho somado a relação crédito/PIB à relação dívida mobiliária em poder do mercado / PIB para comparar essa soma com o funding gerado pelo M4 (agregados monetários e financeiros) mais o déficit do balanço de transações correntes. Conceitualmente, sempre se aproximam uma da outra, mas o importante é destacar o sistema financeiro nacional ter a capacidade de captação de recursos e financiamento muito superior ao expresso apenas pela relação crédito/PIB.

Finalmente, a Autoridade Monetária segue minha orientação! Talvez, graças ao meu ex-orientando, Fernando Alberto Sampaio Rocha, ter sido nomeado chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central…  🙂

O boxe do Relatório de Economia Bancária do Banco Central do Brasil 2018 apresenta a estatística de crédito ampliado ao setor não financeiro. Ele compreende:

  1. as operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) – empréstimos e financiamentos concedidos por bancos e outras instituições financeiras –,
  2. as operações de crédito dos demais setores institucionais residentes,
  3. os títulos de dívida públicos e privados e
  4. os créditos concedidos por não residentes (dívida externa).

A estatística passa a ser divulgada mensalmente pelo Banco Central do Brasil (BCB) a partir de maio de 2019 na Nota para a Imprensa – Estatísticas Monetárias e de Crédito e no Sistema Gestor de Séries Temporais (SGS). A série histórica tem início em janeiro de 2013.

Nota para a imprensa – 29/5/2019

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Mudança do Modelo de Cartões de Pagamento no Brasil

Credenciadoras de cartões têm basicamente três fontes de receitas. Elas estão sendo afetadas pela forte concorrência que chegou ao setor.

A primeira delas é com o aluguel ou a venda de “maquininhas”, sendo que esse último foi um modelo trazido para o mercado pelas novatas e depois copiado pelas incumbentes.

Outra fonte de ganhos é com a taxa de desconto ou MDR (“merchant discount rate“), cobrada em cada transação para remunerar os serviços prestados pela credenciadora, as bandeiras e os emissores dos cartões. A concorrência derrubou essa taxa de 2,95%, em 2009, para 2,63%, em 2017, no caso das operações com cartão de crédito.

A terceira fonte de receita é com a operação de antecipação de recebíveis das transações com cartões de crédito à vista e também parcelado. Os lojistas costumam receber esses recursos a cada 30 dias, mas podem antecipá-lo para dois dias desde que paguem uma taxa de antecipação. Nas credenciadoras focadas na base da pirâmide, esse serviço pode responder a 60% do faturamento. Na nova disputa do setor, essa taxa tem sido reduzida ou eliminada.

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