Financiamento de Longo Prazo e Hedge Cambial

Não sei se é por masoquismo, mas leio mais colunistas de outras correntes de pensamento em vez de ler as ideias das quais compartilho. É maneira de sempre me questionar — e verificar se tenho de rever meus conceitos ou se tenho bons argumentos para mantê-los.

Deparei-me com um artigo do Márcio Garcia, professor da PUC-RJ, exatamente sobre o tema de minha aula da semana passada: risco e hedge cambial. Em sua coluna (Valor, 08/10/21), ele defende a disponibilidade de hedge cambial de longo prazo a custo razoável ser muito importante para o crescimento sustentado.

“Ainda com quase 500 mortes diárias, aos trancos e barrancos, a pandemia dá sinais de arrefecimento. O desemprego, altíssimo, começa a baixar lentamente, com a retomada de várias atividades do setor de serviços. A esperança dominante é de que a vida pode estar voltando ao normal, seja lá o que isso possa significar.

Com a pandemia passando e as eleições se aproximando, é desejável que o debate volte aos grandes problemas do país. Na economia, o eterno enigma de como deslanchar o crescimento sustentado ocupa o lugar principal.

Em termos macroeconômicos, o Brasil é um país que investe e poupa pouco. O aumento do investimento necessário para alavancar o crescimento no futuro deverá fazer uso da poupança externa, ainda farta e barata, como sempre ocorreu nos ciclos recentes de crescimento.

Coloca-se, portanto, a questão do risco cambial. A alta volatilidade do real representa elevado risco para os investidores. O risco cambial deprime o investimento de longo prazo, e, consequentemente, o crescimento econômico.

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Investimentos de PJ e de PF em Longo Prazo (VGBL/PGBL) em Plataformas: Retorno X Segurança

Adriana Cotias (Valor, 26/07/21) informa sobre inovações financeiras recentes.

Os mercados de Previdência Complementar e de investimentos das empresas são a próxima fronteira das plataformas digitais. Depois de subirem alguns degraus no universo da pessoa física, principalmente pelo canal de distribuição dos agentes autônomos de investimentos (AAI), agora tentam ganhar mercado onde os bancos tradicionais ainda levam larga vantagem.

À medida que a Selic caiu para a casa de um dígito, nos últimos cinco anos, o investidor buscou mais informações, demonstrou disposição à tomada de risco, ao mesmo tempo no qual a tecnologia derrubou a barreira de pensar só em poupança, CDB e fundo de renda fixa. Agora, esse comportamento ecoa nas empresas.

O movimento na Pessoa Jurídica de um ano e meio para cá faz sentido porque toda PJ tem uma pessoa física por trás, um gerente financeiro, um diretor, o acionista. Tradicionalmente, a sobra de caixa para capital de giro era deixada no “feijão com arroz” do fundo de liquidez.

Depois de conhecerem fundos de crédito privado, bitcoin e outras coisas, por que não pegar o dinheiro da empresa, parado na renda fixa, e tentar algo diferente? É essa a segunda onda segundo entusiastas das “palavrinhas-mágicas”, isto é, o lugar-comum repetido seguidamente por vendedores do mercado financeiro.

A leitura repetitiva se estende à previdência. Antes era “algo intocável”, o investidor não cogitava nada diferente da renda fixa. Mas quando começou a ver resultados melhores na carteira diversificada, por que não replicar o modelo também nos aportes para a aposentadoria?

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Queda do Spread, Elevação do Endividamento Familiar e Queda do Poder Aquisitivo: Configuração Conjuntural

A margem cobrada pelos bancos nas operações de crédito recuou, em maio deste ano, ao menor patamar para o mês desde 2013. O chamado spread bancário médio, diferença entre a taxa praticada pelas instituições financeiras nas concessões de empréstimos e a taxa de captação de recursos, ficou em 14,5 pontos percentuais no dado mais recente, refletindo uma combinação entre fatores estruturais e outros mais ligados à pandemia.

O Banco Central (BC) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) veem avanços em alguns itens componentes do spread. No entanto, parte da queda é explicada por medidas temporárias – no ano passado, foram criadas linhas emergenciais, com taxas subsidiadas pelo Tesouro Nacional, para ajudar as empresas a enfrentar a crise da covid-19. Portanto, o fim dessas operações e o ciclo de alta da Selic tendem a pressionar o spread novamente para cima, segundo economistas.

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Grandes Corporações no Mercado de Títulos X PME no Mercado de Crédito

Emissões de Títulos de Dívidas por Empresas

Estevão Taiar e Alex Ribeiro (Valor, 29/07/21) informam: as grandes corporações têm voltado a captar mais recursos no mercado de capitais, enquanto a expansão do crédito bancário a pessoas jurídicas vem se concentrando nas pequenas e médias empresas. Ao mesmo tempo, os empréstimos a companhias com recursos direcionados mostram tendência de encolhimento, já que a maior parte das linhas emergenciais implantadas durante a pandemia acabou.

Em junho, os títulos de dívida emitidos por empresas apresentaram expansão de 3,6% na comparação mensal, acumulando alta de 17,2% no primeiro semestre, segundo números divulgados ontem pelo Banco Central (BC). Com isso, o estoque desses papéis alcançou R$ 876,9 bilhões no mês passado. Ao mesmo tempo, os empréstimos bancários tomados por grandes empresas encolheram 0,6% no mês e 0,5% no ano, atingindo R$ 1,052 trilhão.

Antes da pandemia, as maiores companhias vinham buscando cada vez mais financiamento no mercado de capitais. As incertezas decorrentes do avanço da doença interromperam esse movimento, mas ele já foi retomado.

Por sua vez, o estoque de operações de crédito para as micro, pequenas e médias empresas apresentou expansão de 1,1% em junho e de 5,9% no primeiro semestre, para R$ 763,9 bilhões. O crescimento está bem abaixo da alta de 32% registrada no ano passado, mas garante o mínimo de sustentação no crédito às empresas de menor porte, que já não contam mais com o forte apoio das linhas direcionadas criadas na pandemia.

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Endividamento de Empresas Brasileiras

Assis Moreira (Valor, 30/06/21) informa: para o Banco de Compensações Internacionais calcula que companhias brasileiras terão dívidas a pagar nos próximos dois anos em valor equivalente a 45% de seu lucro líquido. É o maior percentual entre sete grandes emergentes examinados.

Em seu relatório anual, o BIS examina um cenário alternativo sobre a economia global centrado na pandemia de covid-19. Leva em conta uma situação na qual as campanhas de vacinação não avançariam, faltaria tratamento e novas cepas do vírus, resistentes às vacinas, poderiam emergir, levando a novos lockdowns.

Os países com margem política mais limitada, especialmente muitos emergentes, seriam os mais atingidos. Nesse caso, as perdas do setor corporativo poderiam aumentar e alguns sistemas bancários poderiam enfrentar pressões.

Baseado na relação histórica entre taxas de infecção, lockdown e Produto Interno Bruto (PIB), o BIS calcula que a emergência de um vírus resistente a vacinas poderia diminuir o PIB entre 1,5% e 3,5% na segunda metade deste ano. Regiões onde a vacina avançou mais sofreriam o maior impacto no crescimento por causa desse retrocesso.

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Elevação do Endividamento Familiar e Empresarial e da Cunha Fiscal no Spread

O Banco Central (BC) está mais otimista face às instituições financeiras e consultorias com as perspectivas para o crescimento do crédito neste ano. A autoridade monetária revisou no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) sua projeção para a expansão do estoque de empréstimos e financiamentos em 2021, de 8% para 11,1%. Já a estimativa mediana do mercado é de alta 8,8%, conforme divulgado nas estatísticas do questionário pré-Copom.

“Os dados do mercado de crédito divulgados desde o último Relatório mostraram desempenho acima do esperado em todos os segmentos”, disse o BC.

A autoridade monetária destacou, por exemplo, o crédito direcionado, que “surpreendeu” nas operações com pessoas físicas e jurídicas”. Os empréstimos direcionados são aqueles com taxas de juros regulamentadas pelo governo ou vinculadas a recursos orçamentários. “Os financiamentos imobiliários impulsionaram o crescimento do saldo do crédito direcionado às famílias, com volume de concessões crescente”, afirmou o regulador, também chamando a atenção positivamente para os empréstimos rurais.

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Concentração Bancária não é determinante dos Juros Elevados

O Indicador de Custo do Crédito (ICC) mede o custo médio de todo o crédito do SFN. Ele atingiu 17,2% a.a., declínio de 2,5 p.p. na comparação interanual. No crédito livre não rotativo, o ICC permaneceu estável no mês, 22,6% a.a., e continuou em trajetória de redução na comparação interanual (-2,7 p.p.).

spread geral do ICC situou-se em 12,2 p.p., representando redução de 1,9 p.p. em 12 meses. 

A taxa média de juros das operações contratadas em abril alcançou 20,3% a.a., com redução de 1,2 p.p. em doze meses. O spread geral das taxas das concessões situou-se em 15,0 p.p., com declínio de 2,2 p.p., nos mesmos períodos.    

No crédito livre, a taxa média de juros das concessões atingiu 29,0% a.a., reduzindo-se em 2,3 p.p. na comparação interanual. No crédito às empresas, a taxa de juros atingiu 14,7% a.a., com redução de 1,0 p.p. em 12 meses. No crédito livre às famílias, os juros atingiram 41,0% a.a.. Na comparação interanual, a taxa do crédito livre às famílias apresenta redução de 3,7 p.p.

A inadimplência situou-se em 2,2%, variação de 0,1 p.p., oriunda do segmento de pessoas jurídicas. Nas operações com recursos livres, a inadimplência permaneceu estável em 2,9%, enquanto nas com recursos direcionados, situou-se em 1,2%, com variação de 0,1 p.p., distribuída igualmente nos segmentos de empresas e de famílias.

Alex Ribeiro (Valor, 26/05/21) informa: um trabalho para discussão publicado pelo Banco Central conclui a forte concentração bancária responder por uma pequena fração, de 11%, do alto custo do crédito bancário do Brasil. O maior peso é de outros custos, como impostos, altos juros básicos, maior risco de inadimplência e baixa recuperação de créditos não pagos.

O texto, feito pelo economista Thiago Trafane Oliveira Santos, é mais um na longa coleção de estudos sobre o tema, que vêm apresentando conclusões conflitantes, de acordo com a metodologia empregada por cada um.

High Lending Interest Rates in Brazil: cost or concentration? 
Thiago Trafane Oliveira Santos
Maio/2021  Resumo  Texto completo 

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Número de Bancarizados: Informações Contraditórias

O Banco Central transmite a (falsa) informação das Instituições Financeira sobre o número de seus clientes, mas em outro local de seu site informa haver 179 milhões de CPF ativos, fora 14,3 CNPJ ativos em relacionamentos bancários em 31/12/2020.

No entanto, pesquisa amostral afirma, mesmo com o avanço da digitalização intensificado pela pandemia, ainda existem 34 milhões de brasileiros sem conta bancária ou sem a usar com frequência. Dados de estudo exclusivo do Instituto Locomotiva, referentes a janeiro de 2021, mostram: 10% dos brasileiros não tinham conta em banco (16,3 milhões) em janeiro de 2021, enquanto outros 11% (17,7 milhões) não movimentaram a conta no mês anterior. Isso totaliza 21% do total sem conta em banco ou com pouco uso. Um ano antes, em janeiro de 2020, essa parcela era de 29% do total. Ora, sem dinheiro, como ter conta?!

Essa parcela de 21% dos brasileiros movimenta, por ano, cerca de R$ 347 bilhões, o que corresponde a 8% da massa de rendas no país. [Fonte? Metodologia?] A ampliação do acesso a contas bancárias durante a pandemia ocorreu de forma simultânea à expansão do montante de papel moeda em poder do público, segundo dados do Banco Central.

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Devolução dos Empréstimos Perpétuos dos Bancos Públicos ao Tesouro Nacional: Descapitalização Impeditiva de Alavancagem Financeira

Murillo Camarotto (Valor, 09/04/2021) informa: o nível de ignorância do TCU e demais fiscalistas é abismal! Os contabilistas não conseguem enxergar o futuro adiante, pois só olham pelo retrovisor! Com isso, o país atrasará ainda mais em seu retrocesso já registrado na queda de diversas posições no ranking de PIB. Enquanto o social-desenvolvimentismo não voltar, o neoliberalismo predominante nos pobres-de-espírito só fará mal ao país.

Os cinco bancos federais receberam recursos da União, para capitalização, por meio da emissão direta de títulos públicos como empréstimos perpétuos. Mas agora se comprometeram a devolver R$ 198,8 bilhões ao Tesouro Nacional até o final de 2031.

O cronograma definido recentemente entre o governo e as instituições financeiras prevê uma concentração dos pagamentos nos próximos dois anos, sendo R$ 107 bilhões em 2021 e R$ 60,5 bilhões em 2022. Um novo governo social-desenvolvimentista terá de rasgar esse acordo!

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Adeptos da crítica à “Financeirização” culpam os Suspeitos de Sempre

Jairo Saddi (Valor, 15/03/2021) escreveu mais um lúcido artigo. Ele é parte da minoria ao não se deixar levar pelos equívocos da literatura de “financeirização”, preocupada em satanizar os banqueiros como fossem demoníacos! A má-fé revela apenas ignorância a respeito do papel socioeconômico do sistema bancário.

Dante os inscreveu no sétimo círculo do inferno, Shakespeare propunha acabar com todos eles e até Adam Smith, o pai do liberalismo, considerava que deveria haver tabelamento de juros. Sim, banqueiros sempre foram objeto das mais variadas e vorazes críticas desde os tempos bíblicos.

O recente aumento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) dos bancos para compensar a desoneração do diesel e do gás de cozinha, decretada recentemente, não deve ser visto, portanto, como elemento surpresa.

No passado, o próprio Supremo Tribunal Federal decidiu sobre outros aumentos da carga tributária voltados a instituições financeiras e a empresas de seguro e capitalização: o primeiro aumento da alíquota de CSLL, em 2007, ocorreu como uma medida compensatória ao fim da CPMF, a então Medida Provisória 423, convertida na Lei 11.727, que elevou-a de 9% para 15%.

Em 2015, no governo Dilma, a alíquota subiu de 15% para 20%, por meio da MP 615, convertida no mesmo ano na Lei 13.169. Desafiadas no STF, todas elas foram julgadas constitucionais (Ação 5.485). Basicamente, predominou o argumento da capacidade contributiva: paga mais quem pode mais.

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Administração de Recursos de Terceiros: Big-Five X Fintechs

Adriana Cotias (Valor, 11/03/2021) informa: com volumes vultosos em fundos de renda fixa, os grandes bancos têm progressivamente cedido espaço para as gestoras de recursos independentes. No top 5 do setor bancário, Itaú e Bradesco são os que mais têm perdido dinheiro e participação de mercado. Segundo dados da Morningstar, R$ 107,4 bilhões deixaram as duas instituições em 12 meses encerrados em fevereiro.

O Santander atraiu dinheiro novo, mas perdeu market share. Banco do Brasil, líder no ranking, e Caixa também tiveram captação positiva, e algum incremento no bolo – ambos foram o meio para o recebimento do auxílio emergencial e a parcela de seguro desemprego relativa à suspensão de contratos de trabalho e redução de salário durante a pandemia de covid-19.

No conjunto, os cinco maiores bancos tinham no fim de fevereiro 63,74% de market share, ante 66,32% de 12 meses atrás. Em 2019, a fatia dos cinco maiores do varejo bancário era superior a 70%. O bolo das gestoras abaixo desse pelotão de frente passou, consequentemente, de 33,68% para 36,26% entre 2020 e 2021. A base da Morningstar exclui fundos de fundos e os fundos em cotas, que efetivamente vão para a distribuição, considerando apenas a carteira principal (master) para evitar dupla contagem. O filtro é feito na classe de fundos líquidos domésticos, regidos pela instrução 555 da Comissão de Valores Mobiliários.

Ao perceber que o dinheiro rende praticamente nada em aplicações conservadoras, com Selic baixa, custos altos e o ganho real corroído pela inflação, o investidor tem testado alternativas fora dos bancões. Segundos representantes do setor, o comportamento comum é levar parte do dos recursos para as plataformas digitais que na sua grade privilegiam fundos de assets especializadas em carteiras de maior risco. Essa transição tem dado oportunidade para gestoras novatas, com nomes experientes por trás, testar essas oportunidades.

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Origem do QE (Quantitative Easing ou “Afrouxamento Monetário”) pré MMT

Segundo a BBC News (Published 22 October 2013), quando o Reino Unido embarcou na flexibilização quantitativa (QE) em março de 2009, após o colapso do Lehman Brothers, esperava-se o Banco da Inglaterra administrar um estímulo monetário igual a £ 50 bilhões, escreve Liam Halligan.

Nos quatro anos seguintes, essas “medidas extraordinárias” se estenderam um pouco mais, com o programa de compra de títulos do Banco Mundial chegando agora a £ 375 bilhões – quase oito vezes a estimativa original.

Desde o início da crise financeira até 2013, o balanço do Banco da Inglaterra quadruplicou. Mas de onde veio a frase “flexibilização quantitativa”?

Indiscutivelmente entre as políticas econômicas mais polêmicas dos últimos anos, a QE é certamente a mais impronunciável. Poucos analistas ocidentais sabem: esse nome desafiador se originou no Japão, o lar espiritual moderno da impressão de dinheiro.

Menos ainda sabem: o homem responsável por cunhar a frase vem da Alemanha. Ela, de todas as grandes economias ocidentais, tem provavelmente a aversão mais arraigada a imprimir dinheiro.

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