Fim da “Jabuticaba”: Mudança no Modelo Brasileiro de Cartões de Crédito

Eduardo Campos e Fabio Graner (Valor, 13/06/18) informam: o Banco Central (BC) apontou no Relatório de Economia Bancária (REB) um desafio do segmento de cartões no Brasil ser a proibição no país da cobrança de algumas tarifas. O documento citou o caso do rotativo dos cartões na modalidade: quando não é pago o valor mínimo exigido da fatura (denominada “não regular”), a proibição de tarifa seria a causa de juros mais altos.

Mesmo assim, ao realizar um exercício hipotético, caso fosse permitida a cobrança desse tipo de tarifa (mantendo constante o gasto financeiro agregado dos devedores), o Banco Central verificou que as taxas de juros calculadas, ainda que mais baixas em comparação com o nível atual, seriam superiores às praticadas no exterior.

O juro do cartão de crédito é objeto de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Em um boxe no relatório, o BC explica que a cobrança de tarifa de abertura de crédito rotativo não regular é prática comum em outros países, como Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia. Nos Estados Unidos, por exemplo, as tarifas de abertura de crédito rotativo não regular começam em US$ 27 e, caso o usuário entre novamente no rotativo não regular após seis meses, chegam a até US$ 38.

O diretor de política econômica do BC, Carlos Viana de Carvalho, disse que a prática dos Estados Unidos citada também é recorrente na Europa. Continue reading “Fim da “Jabuticaba”: Mudança no Modelo Brasileiro de Cartões de Crédito”

Debate sobre Spread Bancário: Caça de Causa Única para Fenômeno Multicausal

Fabio Graner e Eduardo Campos (Valor, 13/06/18) informam: o Banco Central (BC) apresentou um amplo Relatório de Economia Bancaria – Dezembro 2017 discutindo o spread bancário. Ele mostrou uma relevante alteração na composição dos múltiplos fatores explicativos da diferença entre o custo do dinheiro para os bancos e para o tomador final do crédito. As novas estimativas, apresentadas no Relatório de Economia Bancária (REB) mostram queda na participação dos lucros dos bancos e um aumento das despesas administrativas.

Curiosamente, nenhum colunista midiático neoliberal reverá suas críticas à “Cruzada da Dilma”. Eles a sacrificaram, colocando mais lenha na fogueira do golpismo, por ela ter “forçado a competição dos bancos públicos com os bancos privados com taxa de juros mais baixa”. Revela-se, agora, ex-post, a margem financeira (componente do spread) ter caído. Por isso mesmo, os “vendidos” (aos bancos privados) fizeram campanha contra ela…

A inadimplência, no entanto, continua como principal explicação para o spread, na visão do BC, respondendo por 37,4% do total. O documento também se alinha ao discurso dos bancos ao minimizar o peso da elevada concentração bancária no custo dos empréstimos concedidos a empresas e famílias. Destaca, com base em análise do quadro europeu, ser mais importante do que o nível de concentração a competição por qualidade no atendimento ao cliente, existente no sistema bancário.

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Queda da Selic e Não Repasse a Empréstimos Bancários

Uma redução de 1% na taxa Selic representa uma diminuição de 0,37% no custo marginal dos bancos. Quem calculou isso foram Christiano Arrigoni e Alexandre Espirito Santo (Valor, 17/05/18).Christiano Arrigoni, doutor em economia e professor do Ibmec-RJ. Alexandre Espirito Santo é economista da Órama e professor do Ibmec-RJ. Confira abaixo.

“No atual ciclo de afrouxamento monetário promovido pelo Banco Central (BC), entre final de outubro de 2016 e março de 2018, a taxa Selic despencou mais de 50% (de 14,25% ao ano para 6,5% no penúltimo Copom), enquanto a taxa de juro média dos empréstimos bancários, com recursos livres, caiu percentualmente bem menos. O nosso intuito nesse artigo é estabelecer uma metodologia de análise que estabeleça o quanto uma redução de 1% na Selic deveria representar em queda na taxa de juro do tomador final.

Para responder, devemos estabelecer algumas hipóteses. É comum os analistas calcularem o tamanho do repasse da taxa Selic às taxas de juros bancárias baseados na hipótese de que o spread bancário – a diferença absoluta entre as taxas de juros dos empréstimos e o custo médio de captação – deveria ficar constante, caso o poder de mercado dos bancos permanecesse inalterado no período analisado. Ao se utilizar esse raciocínio, não haveria evidência de que o repasse foi pequeno, pois no período as taxas de juros dos empréstimos, para a maior parte das modalidades, caíram bem mais do que os 7,75% de queda observada na Selic.

Todavia, a análise baseada nos spreads bancários, apesar de intuitiva, não encontra amparo teórico preciso. Uma forma mais adequada de se analisar seria medir o poder de mercado através do cálculo do índice de Lerner. Continue reading “Queda da Selic e Não Repasse a Empréstimos Bancários”

FIESP X FEBRABAN: Associação Patronal Golpista versus Pragmática

A FIESP “não queria pagar o pato” e apoiou o MBL golpista. E seu presidente da Fiesp tem ainda o desplante de ser pré-candidato do MDB ao governo de São Paulo!

Talita Moreira (Valor, 25/05/18) divulga estudo da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). Ela contesta a visão dos bancos brasileiros de que a inadimplência contribui para os altos spreads nas operações de crédito. De acordo com o levantamento, a taxa de calotes no país é inferior à que se observa em outros mercados, mas a margem cobrada pelas instituições locais é bem maior.

A Fiesp também argumenta que a taxa Selic e a inadimplência nos empréstimos a pessoa física recuaram nos últimos anos, na contramão do que aconteceu com os spreads – como é chamada a diferença entre as taxas de captação e a cobrada nos juros dos financiamentos.

Não há dúvidas de que os spreads praticados no Brasil estão entre os mais elevados do mundo, o que encarece as operações para o tomador final. A divergência aparece quando se apontam as causas. Para os bancos, as taxas de juros dos financiamentos precisam ser altas para cobrir as perdas com calotes e outros encargos do sistema.

Em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Murilo Portugal, voltou a argumentar que os spreads elevados no país decorrem dos altos custos da intermediação financeira. Segundo ele, dados do Banco Central apontam que 77% do spread bancário são custos como inadimplência (55,7%), impostos (15,6%) e outros. Para conseguir reduzir o spread é necessário fazer uma reforma no ambiente de crédito.

O levantamento do BC, que compreende a composição do spread entre 2011 e 2016, mostra ainda que o lucro dos bancos representa 23,3% da margem. Continue reading “FIESP X FEBRABAN: Associação Patronal Golpista versus Pragmática”

Bancos Privados drenam, Bancos Públicos irrigam liquidez

Especial | Diálogos Capitais

Combustível para a economia

Carta-Capitalpublicado 22/05/2018 09h59

Professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, Fernando Nogueira da Costa dedica suas pesquisas mais recentes ao papel e impacto dos bancos públicos na economia brasileira. Em 2017, publicou Bancos Públicos do Brasil, um amplo estudo sobre o setor bancário, e neste ano, em março, lançou um texto de discussão sobre o papel do sistema financeiro no Brasil.

Com base em dados recentes do Banco Central e de instituições financeiras, sua pesquisa indica que, enquanto os bancos privados sugam liquidez, os públicos irrigam, ou seja, emprestam mais do que captam. Os bancos públicos ainda são importantes para reduzir a concentração de financiamento.

 

CartaCapital: Os bancos públicos têm papel importante em reduzir desigualdades regionais em um país no qual grande parte do crédito está no Sudeste?

Fernando Nogueira da Costa: Eles são fundamentais principalmente porque, desde a década de 1990, com a privatização do sistema financeiro, o crédito passou a ter papel importante dos bancos privados, cuja aversão ao risco é maior. O Sudeste recebe 47% do crédito total. Minha pesquisa com mais de 10 mil dados do Banco Central, com o balanço de agências espalhadas pelo Brasil nas cinco regiões, aponta que os bancos públicos irrigam liquidez, enquanto os privados drenam.

A Caixa Econômica Federal tem presença em pouco mais de 1,6 mil cidades, em apenas oito capta mais do que financia. O Banco do Brasil atua em mais de 2,3 mil cidades, apenas 65 estão nesta situação. Nos bancos privados, ocorre o inverso: em menos de 20% das cidades onde têm presença emprestam mais do que captam de seus clientes.

Enquanto os maiores bancos privados nacionais e estrangeiros drenam recursos da maioria das cidades onde localizam suas agências, a Caixa e o Banco do Brasil em praticamente todas concedem mais empréstimos do que captam. Continue reading “Bancos Privados drenam, Bancos Públicos irrigam liquidez”

Inovação Financeira-Tecnológica no Financiamento de Veículos

Observe a queda dos Market-shares de quase todos os bancos (exceto Santander e Votorrantim) em dezembro de 2017 no financiamento a veículos. Por que?

Sérgio Tauhata (Valor, 10/05/18) informa: uma das modalidades de crédito que mais cresce no país, o financiamento para veículos, tem se tornado uma espécie de laboratório de inovações das grandes instituições financeiras. Para os bancos do país, ao contrário dos automóveis, o acelerador para os negócios não fica nos pés, mas nas mãos dos clientes.

Com uso de tecnologia mobile e recursos como “big data”, de processamento de informações maciças, “machine learning”, no qual os sistemas aprendem com os dados coletados, e georreferenciamento, que permite conhecer hábitos e até prever intenções de consumo, as instituições entram em uma nova era para o crédito.

Um dos bancos que mais têm investido em soluções no segmento, o Santander tem ampliado a dianteira na corrida do crédito para veículos nos últimos anos. Segundo dados mais recentes do Banco Central, coletados em março, mas referentes a dezembro de 2017, a instituição lidera o mercado brasileiro com uma carteira de R$ 35,5 bilhões.

O banco espanhol tem uma fatia de 23,5% do mercado, ou seja, está 3,7 pontos percentuais à frente do segundo colocado, o Votorantim, com presença muito grande no financiamento de modelos usados. [Este foi um dos fatores determinantes do Banco do Brasil se associar a ele, adquirindo 49% de suas ações.] Em 2016, a diferença de participação entre os dois líderes estava em 1,4 ponto percentual. Continue reading “Inovação Financeira-Tecnológica no Financiamento de Veículos”

Inovações Financeiras nas Brechas da Lei: Necessidade de Regulação e Fiscalização

“Caiu a ficha” no Banco Central do Brasil. A via neoliberal de não fazer nada a la Henrique Meirelles, na falsa esperança de O Mercado fazer tudo, não leva a nenhuma retomada do crescimento, seja econômico, seja institucional-concorrencial. Agora, o BCB experimenta, em vez de pressupostas soluções competitivas, as soluções cooperativas e/ou compartilhadas entre os bancos para soluções de impasses, senão — dentro de certo prazo para cumprimento de meta acordada — a regulação à caneta funcionará. Os economistas desenvolvimentistas denominam essa atitude de planejamento indicativo.

Confira abaixo o risco de deixar O Livre-Mercado funcionar à vontade sem nenhuma limite institucional para a exploração dos clientes. Não se trava de travar O Mercado, mas sim de o regular. O estudo de caso diz respeito a uma operação estruturada de uma fintech analisada pela CVM, reguladora do mercado de capitais.

Muitos incautos acham as fintechs “a salvação da pátria”, isto é, elas serão a inovação disruptiva contra suposta falta de concorrência no sistema bancário. Eu sou conservador em Finanças Pessoais (não em Política) e prefiro “banco grande demais para não quebrar”.

Juliana Schincariol (Valor, 04/05/18) informa: o colegiado da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) reverteu uma decisão da BSM, braço de autorregulação da B3, e estabeleceu que um investidor da XP Investimentos seja ressarcido em R$ 120 mil. A determinação do regulador, baseada no não preenchimento de análise do perfil do investidor (suitability) é inédita. Mas a XP já entrou com um recurso para tentar revertê-la.

Com a negativa do ressarcimento pela BSM, o investidor Lelio Rodrigues Faria Sarreta entrou com um recurso na CVM. Sarreta alegou ter sofrido prejuízo por um investimento que ele mesmo havia autorizado. Tratava-se de uma operação estruturada chamada de “condor strangle”, que envolve opções de compra e venda. Informações no site da XP orientam que o produto é destinado a clientes com perfil de investimento agressivo.

O investidor da XP argumentou que:

  1. não foi devidamente informado sobre os riscos a que estava sujeito e
  2. a operação era incompatível com seu perfil de investimento.

Aquela foi a primeira vez que investia em algo diferente da poupança. O investidor solicitou o ressarcimento do total investido mais as correções necessárias. Continue reading “Inovações Financeiras nas Brechas da Lei: Necessidade de Regulação e Fiscalização”