Princípio do Fim para os Grandes Bancos?! Ora, ora…

Rodrigo Lowndes (Valor, 11/10/2019) foi presidente do Banco Morgan Stanley no Brasil e responsável pela empresa de private equity Southern Cross no Brasil. É sócio da empresa XPRT Consulting de assessoria financeira. Reproduzo seu artigo abaixo.

A tecnologia vem mudando significativamente a dinâmica de negócios tradicionais nos últimos 20 anos. Chegou a vez do setor financeiro. Em sua primeira onda, a tecnologia reduziu sensivelmente os custos operacionais dos bancos estabelecidos, através de caixas eletrônicos, internet banking e meios de pagamento digital. Esse movimento beneficiou inicialmente os grandes bancos, que conseguiram melhorar seus processos e reduzir seus custos. Mas essa redução de custos via tecnologia abriu caminho também para uma nova dinâmica de negócios no setor, permitindo a entrada de novos competidores.

Nesta nova fase, as mudanças tecnológicas vêm beneficiando enormemente novas plataformas financeiras digitais, seja através da redução do custo de captação de clientes ou novas formas de interação. Em seu primeiro movimento, as novas plataformas financeiras digitais estão buscando principalmente clientes mais lucrativos. Eles tradicionalmente compram produtos caros dos grandes bancos. Foi assim com as plataformas abertas de investimentos, como XP, Easynvest ou Genial, que trouxeram mais opções, melhores rentabilidades e menores custos de investimentos.

Foi assim também com as novas emissoras e processadoras de cartões de crédito, como a Nubank, Stone e PagSeguro, que utilizaram estratégias mais agressivas de marketing e precificação para ganhar mercado. Mais recentemente, os bancos digitais, como Inter, Nubank, Original e C6, vêm aumentando rapidamente o número de clientes, via facilidade de interação (completamente diferentes das plataformas digitais dos grandes bancos) e gratuidade de tarifas.

Em um futuro próximo, as plataformas digitais oferecerão, sem aumento de custos, serviços muito superiores aos atuais.

Por que preencher um formulário de perfil de risco se um algoritmo de inteligência artificial pode calcular seu perfil baseado em seus dados pessoais, situação familiar e profissional, estilo de vida (se a regulação permitir) e, subsequentemente, te oferecer os melhores investimentos, cartões e experiências?

Por que se acomodar com uma opção de financiamento oferecida pela concessionária de veículos ou loja de eletrodomésticos se um algoritmo pode instantaneamente analisar diversas ofertas de empréstimo disponíveis no mercado e te oferecer a melhor opção para financiar sua compra?

Por que as taxas de juros não variam dependendo do perfil de risco de cada pessoa buscando um empréstimo? Continuar a ler

Relatório de Estabilidade Financeira out 2019

Flávia Furlan e Talita Moreira (Valor, 11/10/2019) informam: a queda da taxa Selic em mais de oito pontos percentuais desde outubro de 2016, para a mínima histórica de 5,5% ao ano, ainda não teve influência significativa na rentabilidade dos bancos. Pelo contrário, no período, o indicador das principais instituições apresentou recuperação, após ter sido impactado pelo aumento da inadimplência nos anos de recessão. O atual patamar de juro, no entanto, representa uma pressão para as margens daqui para frente no contexto de aumento da competição no sistema financeiro.

Projeções de analistas acompanhantes do setor — e sempre equivocados em suas previsões — acham o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) em patamar superior a 20%, apresentado pelos grandes bancos, não deverá ser mais a realidade nos próximos anos. Seus números fictícios apontam para uma queda a partir de 2021, chegando a um intervalo entre 15% e 20%, mais próximo dos padrões internacionais.

Eles se justificam pela perda de força dos fatores a neutralizar o efeito do juro menor na rentabilidade dos bancos:

  1. a reversão das elevadas provisões para perdas com crédito;
  2. os ganhos de eficiência operacional; e
  3. o ritmo mais lento de renovação dos empréstimos, protelando o repasse das taxas mais baixas, em comparação ao impacto, imediato, nos custos de captação. Continuar a ler

Revolução Bancária Positiva para os Clientes: Neobanco

O artigo abaixo foi publicado na seção de relatórios especiais da edição impressa, sob o título “Crowning King Customer“. Fez parte do relatório especial da revista The Economist, 2 de maio de 2019: Banco, o futuro.

Para um matemático, uma transformação é o que acontece quando um objeto geométrico é deslocado no espaço, redimensionado, refletido ou girado. Os banqueiros também estão no negócio da transformação, mas é o dinheiro o movimentado por eles, e não apenas no espaço, mas no tempo. Eles captam depósitos de curto prazo dos poupadores e os emprestam aos mutuários por prazos mais longos. Agrupam ativos para reduzir riscos e vendê-los aos investidores. E ainda mais misteriosamente para quem está de fora, transformam o crédito concedido em ativos possíveis de serem emprestados novamente.

Tudo isso mantém a economia funcionando. Mas as pessoas comuns são às vezes negligenciadas. As redes de agências e caixas eletrônicos dos bancos principais e também o governo garantem: eles aportam o dinheiro em suas contas, mantêm os clientes chegando a ele de qualquer maneira. Em muitos países, incluindo a Grã-Bretanha, os bancos concentram muito de seus esforços em seus grandes tomadores de empréstimos corporativos. Os principais bancos de rua são geralmente descritos como os grandes financiadores.

Trocar de banco é raro. De acordo com a Novantas, apenas 8% dos clientes americanos trocam de banco em um determinado ano, mesmo quando mudar de estado geralmente significa lá mudar de banco. Na Grã-Bretanha, onde as licenças bancárias são nacionais, apenas 4% o fazem. A baixa rotatividade é frequentemente citada como evidência de os clientes estarem satisfeitos, mas seria mais preciso dizer eles não podem imaginar algo melhor, diz uma consultoria britânica de tecnologia bancária. “As pessoas teriam dito estarem satisfeitas com os táxis até a Uber aparecer. De repente, eles não queriam ficar na esquina, estendendo a mão na chuva”.

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Queda da Participação da Caixa no Mercado

O DIEESE – Subseção APCEF/SP, em seu Informe semanal – nº 233 – 19 de setembro de 2019, demonstra, à exceção do saldo dos depósitos em caderneta de poupança, a Caixa perdeu fatias de suas operações para a concorrência, em todos os produtos, na comparação do fechamento do segundo ante o primeiro trimestre de 2019. Aliás, a perda também se verificou, exceção novamente à poupança, na comparação com os saldos de dezembro de 2018. Caíram, assim, participações da Caixa no mercado em fundos de investimentos, depósitos à vista, carteira de crédito pessoa física, pessoa jurídica etc.

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Financiamento Habitacional e IPCA 

Tabela 1 – hipótese de taxa anual segundo a nova linha de financiamento habitacional em comparação às taxas praticadas no ano indicado

O DIEESE – Subseção APCEF/SP enviou-me o Informe semanal – nº 229 – 22 de agosto de 2019. É um tema relevante para acompanhamento.

A Caixa anunciou linha de financiamento habitacional indexada ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial. O release distribuído pelo banco destaca a nova linha como meio para a redução do custo do financiamento. Não será assim, necessariamente. Por óbvio, maior ou menor custo do financiamento dependerá da variação inflacionária conjugada à taxa contratada, mínima de 2,95% à máxima de 4,95%.

A nova fórmula será interessante para o credor, que irá dispor de ganho acima da inflação. E, ao que se anuncia, será utilizada pela Caixa para operações de Certificados de Recebíveis Imobiliários, uma forma de transferir o saldo e eventual risco. A ver o que acontece.

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De Volta Castelo Branco, Roberto Campos… e a Correção Monetária!

Estevão Taiar, Edna Simão e Renan Truffi (Valor, 21/08/19) conta: gente estúpida desconhece a história e repete erros!

A Caixa Econômica Federal detalhou a sua nova linha de financiamento imobiliário. Ela será indexada ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A modalidade cobrará, além da inflação, uma taxa a variar de 2,95% a 4,95% ao ano. Quanto melhor a relação do cliente com o banco, menor a taxa. Os contratos terão prazo máximo de 360 meses e cota de financiamento de até 80% do valor do imóvel. As regras valem para novos contratos e já estarão vigentes a partir da próxima segunda-feira.

A linha de financiamento antiga da Caixa, baseada na taxa referencial (TR)
mais juros anuais de 8,75% a 9,75%, continuará em vigor. O tomador de empréstimo poderá decidir por qual delas optar, mas o presidente da instituição financeira, ex-banqueiro de negócios como sua chefia, e a equipe do banco afirmaram a nova fonte de financiamento permitir a queda de 30% a 50% da parcela inicial. “Me engana mais porque já me enganei votando errado!”

No caso de um imóvel de R$ 300 mil, o financiamento, levando em conta a TR, teria uma parcela de R$ 3.168. Com o IPCA, o desembolso mensal cairia para R$ 2 mil, nas simulações da Caixa. Não será permitida a troca de um contrato com indexador antigo por um novo indexado à inflação.

O preposto acredita, mesmo com a redução das taxas, a nova operação de crédito ser rentável para o banco. A ideia é destinar R$ 10 bilhões para a modalidade vinculada à inflação, viabilizando o atendimento de 50 mil famílias ou 200 mil pessoas e gerando 230 mil empregos diretos e indiretos. Esse funding virá de Letras Imobiliárias Garantidas (LIG) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI). Continuar a ler

Crise do Subprime (avant la lettre) Brasileiro e Repetição do Erro pelo Governo Paramilitar

Nos anos 70, a Caixa Econômica Federal (Caixa) praticamente restringia-se à captação de depósitos de poupança – cerca de 80% do total – e seu direcionamento para o crédito destinado à aquisição da casa própria. O Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimos (SBPE) era o responsável pela captação de fundos para o Sistema Financeiro de Habitação (SFH), então regulado pelo Banco Nacional da Habitação (BNH).

As alterações implementadas no SBPE e SFH, no início da década de 80, resultaram em desequilíbrios nos contratos firmados com mutuários. Várias determinações legais deram início aos desequilíbrios na situação econômico-financeira da Caixa. Foram elas:

  • redução de prestações e de saldos devedores com a aplicação de índices de correção inferiores ao custo de captação;
  • alargamento de prazos de empréstimos;
  • vinculação dos reajustes das prestações às variações salariais;
  • efeitos dos planos de estabilização a atuarem de forma cumulativa e generalizada:
    • quebrando o equilíbrio financeiro dos contratos,
    • reduzindo o retorno dessas operações,
    • paralisando a capacidade de reinvestimento em novos financiamentos habitacionais.

Foram alteradas as regras de movimentação e remuneração da caderneta de poupança, passando de uma periodicidade trimestral para mensal. Os impactos da alteração nas regras de movimentação e remuneração da caderneta de poupança foram também percebidos no custo médio da captação dos recursos. Na sistemática anterior, a perda de remuneração por saque fora da data base trazia maiores benefícios à instituição captadora.

Os desequilíbrios entre fontes e usos na carteira imobiliária começaram com as interferências nas regras dos contratos firmados com mutuários, no estertor do regime militar e no início do regime de alta inflação. Elas trouxeram benefício unilateral para os mutuários, com todo ônus sendo transferido para o SFH e, em última instância, para o Tesouro Nacional pela assunção das obrigações do FCVS.

Entretanto, a possível conversão de créditos ativos em créditos contra o FCVS eliminava o risco de crédito para a Caixa, mas não gerava a liquidez necessária para reaplicação em novas operações. Isso levava à perda do dinamismo do SFH.

Em julho de 1984, foi aplicado indexador para os saldos devedores dos créditos habitacionais diferente do aplicado nas correspondentes prestações: 254% e 127%, respectivamente. Essa decisão do último governo do regime militar de aplicar indexador menor para as prestações habitacionais que o aplicado aos saldos devedores pode ser considerado o maior fator de desequilíbrio de todo o Sistema Financeiro da Habitação – SFH. A partir daí, reduziram-se os retornos dos financiamentos, aumentaram as ocorrências de amortizações negativas (prestações insuficientes para cobertura do valor dos juros) e, conseqüentemente, o compromisso e a insuficiência de recursos do FCVS.

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