Juros Negativos em Depósitos Voluntários em Risco Soberano

Lucas Hirata e Ana Paula Ragazzi (Valor, 15/10/2019) afirmam: juros negativos não são uma realidade no Brasil, e ninguém aposta nesse fenômeno estar para acontecer por aqui. Mas o tema desafia os modelos de teoria financeira e está cada vez mais presente no dia a dia dos principais gestores do mercado.

Hoje, o volume de títulos de governos com juros negativos chegou a US$ 17 trilhões pelo mundo neste ano, aproximadamente 27% do mercado mundial de bônus  soberanos. Três países concentram 70% desses papéis: Japão, Alemanha e França. Mas existem títulos de empresas, como a Louis Vuitton, com retorno negativo, por conta de emissões que têm como referência os títulos de governo.

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Mercado de Capitais: volume recorde de captação

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O mercado de capitais doméstico registrou captação de R$ 268,9 bilhões em 2019 (até setembro), 42% superior ao volume captado, R$ 189,5 bilhões, no mesmo período do ano passado. Esse resultado é o maior da série histórica, mesmo na comparação com os dados de janeiro até dezembro dos anos anteriores. As debêntures mantêm-se a parcela mais representativa desse montante, com 45,5% do total – o equivalente ao volume de R$ 122,3 bilhões.

Os investidores institucionais são os principais demandantes nas ofertas públicas de debêntures, com 60,6%, seguidos das instituições coordenadoras das ofertas, com 35,5%.

O refinanciamento dos passivos representa o maior montante da destinação dos recursos das emissões, com 44,3% (incluindo nessa parcela a recompra ou resgate de debêntures de emissão anterior), seguido do financiamento do capital de giro, com 29%. Continuam as grandes empresas brasileiras em fase de desalavancagem financeira, abaixando o custo financeiro e alongando o perfil de suas dívidas.

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Queda da Propensão a Consumir

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Dados da ANBIMA confirmam minha hipótese: paradoxalmente para muitos, a queda da taxa de juros está levando a menor propensão a consumir em vez de aumentar os gastos das famílias e, daí, os investimentos e a demanda efetiva. Para manter o planejamento financeiro até a aposentadoria, parte do valor adicionado distribuído como renda do trabalho se dirige para aplicações financeiras em busca de recomposição patrimonial de acordo com os planos realizados com taxas de juros mais elevadas.

A indústria de fundos de investimentos encerrou setembro com captação líquida de R$ 28,1 bilhões e acumula, em 2019, saldo positivo de R$ 205,7 bilhões. Isso corresponde a um crescimento de 180% em relação ao mesmo período do ano passado. A renovação dos juros no patamar mais baixo da história somada às perspectivas de novos cortes na taxa Selic ainda este ano reforçam o bom momento para indústria de fundos, principalmente nas classes que buscam rentabilidade em ativos de maior risco. Continuar a ler

Fuga dos Estrangeiros do Mercado Secundário e Preferência pelo Mercado Primário de Ações

Juliana Machado e Ana Carolina Neira (Valor 12/09/2019) informam: a forte presença do capital externo nas ofertas de ações neste ano está longe de indicar uma retomada da disposição desse investidor em ampliar a exposição ao mercado brasileiro. Os estrangeiros permanecem altamente seletivos na alocação de recursos em ativos brasileiros. A quantidade de dinheiro novo dedicada ao país ainda é muito pequena e esbarra na baixa demanda por risco.

Este ano, as novas ofertas de ações — duas iniciais (IPOs) e 17 subsequentes (follow-ons) — giraram R$ 53,8 bilhões, sendo que R$ 25,02 bilhões corresponderam a capital externo. Desse total adquirido por estrangeiros, R$ 14,1 bilhões – mais da metade, portanto – ficaram concentrados em só três empresas: dois follow-ons do IRB Brasil (um em fevereiro e um em julho), um da Petrobras e outro da BR Distribuidora. Sozinha, as distribuições de papéis do IRB, uma empresa de base acionária internacional, concentraram uma fatia de estrangeiros de R$ 7 bilhões. O estrangeiro destinou seus recursos basicamente às velhas conhecidas: grandes companhias, de baixo risco e base acionária já bastante internacionalizada.

Já no mercado secundário, onde são negociadas ações já listadas, a saída do estrangeiro soma R$ 23,3 bilhões em 2019 até 9 de setembro. Considerando a entrada de R$ 25 bilhões do mercado primário, portanto, a exposição dessa classe de investidor a toda a bolsa está positiva em R$ 1,8 bilhão no ano.

Esse número ainda é um dos menores desde, pelo menos, 2004. Isso quer dizer: as novas ofertas conseguiram amenizar o efeito do fluxo negativo para a bolsa este ano, mas não a ponto de colocar a participação do não residente nos patamares observados em momentos de entusiasmo. Nos últimos seis anos, as entradas de estrangeiros nos segmentos primário e secundário sempre ficaram em dois dígitos. Volta, PT! Continuar a ler

Em busca de inflar uma Bolha de Ativos

Veja o vídeo acima insuflando a volta ao padrão-ouro! Naturalmente, estão “comprados em ouro”, esperando a malta…

Álvaro Campos (Valor, 24/09/19) avalia: com o aumento das turbulências nos mercados financeiros internacionais nos últimos meses e os juros negativos em muitas partes do mundo, um ativo antes meio ofuscado voltou a ganhar brilho recentemente: o ouro. No dia 23/09/19, o ativo fechou em alta de 1,07% em Nova York, a US$ 1.531,50 a onça-troy, perto dos maiores níveis em seis anos, impulsionado pela guerra comercial e renovados sinais de fragilidade na economia da zona do euro.

Recentemente, o Citigroup divulgou relatório afirmando as tensões entre Estados Unidos e China e outras incertezas geopolíticas, como o Brexit e as instabilidades no segmento de petróleo no Oriente Médio, poderem levar o ouro para o patamar recorde de US$ 2 mil a onça-troy nos próximos dois anos.

Além dos contratos futuros de ouro negociados na Bolsa Mercantil de Nova York, os investidores individuais podem apostar no ouro basicamente de outras quatro formas:

  1. metal físico;
  2. Exchange Traded Commodities (ETC), uma espécie de fundo negociado em bolsa (ETF) para acompanhar a cotação do mercado à vista;
  3. ações de mineradoras; e
  4. fundos investidores no metal, oferecidos por grandes bancos e gestoras.

Além de ativo financeiro, outra importante função do ouro é como reserva de valor. Segundo o World Gold Council, entidade internacional divulgadora de dados sobre o setor, a demanda pelo metal cresceu na primeira metade deste ano e deve continuar positiva nos próximos meses, puxada inclusive pelos bancos centrais. Grandes países da Europa e os Estados Unidos mantêm mais de 60% das suas reservas internacionais em ouro.

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Efeito de Baixos Juros Reais

Após o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deixar a possibilidade aberta para novas reduções de juros, os investidores correram para colocar nos preços o cenário de Selic abaixo de 5%. O resultado das apostas foi claro: de ponta a ponta, os juros futuros tiveram forte queima de prêmio de risco, principalmente, nos vencimentos de curto prazo mais sensíveis a expectativas de política monetária.

Com a queda das taxas de juros futuras, o mercado passou a projetar a Selic em cerca de 4,90% no fim deste ano. São 80% de chances de corte de 0,50 ponto percentual na próxima decisão do Copom, em outubro, contra 20% de queda de 0,25 ponto. O movimento se estendeu ainda para as precificações de 2020, que praticamente zeraram as chances de uma elevação do juro básico no primeiro semestre do ano que vem.

Além da queda da Selic e das taxas de mercado, o que chama a atenção é o nível do juro real, onde é descontada a inflação. Com a Selic em 5,50%, o Brasil está em 59o. no ranking das maiores taxas ao se considerar um universo de 162 países. Já o juro real projetado de 1,37% coloca o Brasil na 70a. posição, com taxa menor em relação a rivais emergentes como África do Sul, Índia, Rússia e México.

Com o juro real próximo de 1% e uma dívida bruta de 78,7% do PIB, além de uma moeda com uma das maiores volatilidades entre os emergentes, quem entra hoje em Brasil é apenas para comprar taticamente, i.é, comprar barato o país. O Brasil deixou de ser uma opção nos mercados de renda fixa em moeda local e está no bolo de outras economias emergentes, como Malásia e Indonésia, além de África do Sul, Índia, Rússia e México. Antes, o Brasil era o mais atraente entre esses países.

Os juros mais baixos não são a única força a empurrar o mercado financeiro para a maior tomada de riscos. O Banco Central já anunciou pretender fazer uma redução significativa dos depósitos compulsórios dos bancos. Alguns analistas calculam injetar R$ 200 bilhões na economia nos próximos dois anos. Esse montante seria quase metade dos compulsórios!

Paralelamente, promove uma agenda de desregulamentação financeira, reduzindo o crédito direcionado e ampliando o livre. Volta o risco de futura inadimplência dos mutuários do financiamento habitacional com a permissão para os bancos realizarem empréstimos com prestações corrigidas pela inflação. O BC tem planos, ainda, de aprofundar a liberalização cambial, caminhando para a conversibilidade da moeda. Os bancos, ao mesmo tempo, vêm sofrendo uma maior pressão competitiva das empresas de tecnologia financeira, as fintechs, com potencial de estimular a maior tomada de risco para manter os níveis de rentabilidade dos negócios.

São riscos no horizonte de médio e longo prazo, mas a realidade mais imediata é um mercado ainda pouco aquecido, sobretudo no crédito bancário. Ele tem potencial de causar estragos mais devastadores nas crises financeiras, devido ao seus níveis de alavancagem.

O indicador mais abrangente do grau de aquecimento do setor é o chamado hiato do crédito. Ele mostra se a expansão dos financiamentos da economia está ocorrendo acima ou abaixo de sua tendência de longo prazo. Hoje, o hiato do crédito é negativo em um pouco mais do que 4% do Produto Interno Bruto (PIB), pelos cálculos do BC. Em uma medida compilada pelo BIS (Banco de Compensações Internacionais, na sigla em inglês), está negativo em 1,5% do PIB.

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Diversificação de Portfólio: Composição de Segurança, Liquidez ou Rentabilidade

Fernando Torres (Valor, 25/09/19) adverte: nenhum fundo DI ou de renda fixa de curto prazo vendido pelos cinco maiores bancos do país ao público de varejo, com aplicações mínimas de R$ 1 mil, vai superar o IPCA previsto para os próximos 12 meses.

O motivo é nenhum desses produtos possuir taxa de administração inferior a 1% ao ano, o que inviabiliza rentabilidade real no cenário com Selic a 5,50% e ainda menor nos próximos meses.

Isso deixa para o investidor brasileiro basicamente duas opções não excludentes.

A primeira é abrir contas em plataformas de investimento. No mínimo para ter opções mais baratas para se guardar o dinheiro da reserva de emergência – aquela parte do dinheiro disponível para saque a qualquer momento, mas sempre rendendo acima da inflação.

A segunda é o investidor diante do cenário atual de Selic na mínima histórica, é aceitar correr mais risco nos seus investimentos. Aí há uma série de considerações para se fazer. A observação do gráfico acima vai ajudar nessa tarefa. Continuar a ler