Graças a O Mercado 3 O, Não Temos Economia de Mercado de Capitais!

Luciana Del Caro (Valor, 13/06/17) avalia que uma rápida comparação entre a indústria de fundos de investimento no Brasil e no mundo evidencia bem o efeito dos juros elevados sobre a composição dos investimentos: enquanto a renda fixa representava 65,3% do patrimônio da indústria brasileira em dezembro de 2016, a mesma categoria respondia por 24,6% no mundo, segundo dados da Anbima. Em contrapartida, a renda variável era a maioria da indústria mundial, com 47% do patrimônio, mas representava apenas 5,1% no país.

Em síntese, o Brasil sempre teve uma economia de endividamento bancário e não uma economia de mercado de capitais como alhures. Imaginem em uma economia com alta volatilidade nas taxas de câmbio, juros, inflação e crescimento como esta nossa, se colocássemos as sobras da nossa renda do trabalho em renda variável! Perderíamos essa riqueza pessoal, periodicamente, com uma economia de bolhas (boom-e-crashes)…

A categoria da renda variável já chegou a patamares bem mais expressivos por aqui: 15,2% em 2007, ano de pujança no mercado de capitais. Nos últimos dez anos, os juros altos e a piora do cenário econômico e político inibiram as aplicações em Bolsa de Valores. Continue reading “Graças a O Mercado 3 O, Não Temos Economia de Mercado de Capitais!”

Dor no Bolso dói mais que no Coração: Efeito Temer sobre O Mercado 3O

Alexandre Póvoa é presidente Canepa Asset Brasil e autor de “Valuation, Como Precificar Ações” e “Mundo Financeiro, o Olhar de um Gestor“. Deu seu testemunho ocular sobre aquilo que poderia ser filmado como o “Margin Call – O Dia Antes do Fim” brasileiro (Valor, 26/05/17). Para registro histórico, reproduzo-o abaixo. Enquanto isso, eu estava palestrando no Pint of Science em um bar em Barão Geraldo…

Quarta-feira, 17 de maio de 2017, às 19h30. Alguns gestores já haviam deixado o trabalho, mas a velocidade da comunicação via agência on-line de notícias, WhatsApp e demais meios digitais lançou uma bomba — o vazamento da delação (super) premiada dos controladores da JBS — no nosso colo, quase que simultaneamente.

A primeira reação foi de incredulidade — basta lembrar que, naquele momento, o governo vinha se fortalecendo na área política, muito à base de concessões a parlamentares para a obtenção do quórum qualificado de 308 votos para a aprovação da reforma da Previdência dali a duas semanas. O jogo do presidencialismo de coalizão (eufemismo para fisiologismo ou troca de votos por vantagens) parecia caminhar de forma desinibida.

Naquele dia especificamente, as renovadas “barbeiragens” políticas do presidente Trump haviam elevado a aversão a risco. Nada muito preocupante, o que pode ser constatado na incrível e inabalável força das bolsas americanas, desde as eleições nos EUA. O dólar ao redor de R$ 3,10, a bolsa caminhando para 70 mil pontos e o mercado de DI já precificando queda de 125 pontos na próxima reunião do Copom (com importantes casas revisando a taxa Selic, ao final de 2017, para patamar abaixo de 8% ao ano) refletiam o relativo otimismo dos investidores. Não havia euforia, mas prevalecia a sensação crescente de tranquilidade, lastreada pelo fato de que, até aquela ocasião, a Operação Lava Jato não havia recaído ainda diretamente sobre o presidente Temer. Continue reading “Dor no Bolso dói mais que no Coração: Efeito Temer sobre O Mercado 3O”

Aprendendo com Estudo de Caso Real: Especulando Contra o Real

Fernando Torres (Valor, 09/06/17) informa que, preocupada com um pedido de bloqueio cautelar do resultado financeiro obtido por ela em operações no mercado futuro de dólar, apresentado no dia 5 de junho pelos autores da ação popular contra ela que corre na 5a Vara Cível da Justiça Federal em São Paulo, a JBS decidiu se antecipar à citação e a uma eventual decisão liminar e se posicionou previamente sobre o caso ao juiz Tiago Bitencourt de David.

Dizendo que soube do processo por notícias da internet, a JBS afirma, em manifestação à Justiça, que o bloqueio de uma ou outra operação sua no mercado futuro “compromete a capacidade de crédito da companhia” e a impede de fazer novos contratos que a protejam da variação cambial, o que seria danoso a seus negócios.

No dia 30 de maio, o juiz da 5a Vara Cível atendeu parcialmente o pedido apresentado por Hugo Fizler Chaves Neto e Cristiane Sousa da Silva em ação popular e determinou o bloqueio de R$ 800 milhões em bens de Joesley Batista, um dos controladores indiretos da JBS.

A ação questiona as transações da empresa com o BNDES, as operações de compra de dólar futuro pela JBS em maio e a venda de ações da empresa pelos controladores em abril, além do programa de recompra de papéis conduzido pela JBS na bolsa.

O caso corre em paralelo ao processo administrativo, já transformado em inquérito, que a Comissão de Valores Mobiliários conduz sobre suposto uso de informação privilegiada pela JBS e seus controladores. Continue reading “Aprendendo com Estudo de Caso Real: Especulando Contra o Real”

Quem Ganha com a Volatilidade de O Mercado ou o Risco de Renda Variável?

Jorge Simino é diretor de investimentos e patrimônio da Fundação Cesp, patrocinada pelo Tucanistão (estado de São Paulo) há décadas. Ele se apresenta como um porta-voz contratado, diretamente, pela casta dos mercadores-financistas.

Diz que “os dois gráficos ajudam a explicar as dúvidas e recomendam também um certo cuidado com as inferências para a evolução do índice no futuro próximo.

Começando pelo gráfico 1; nele é possível constatar, a partir de janeiro de 2015, quando a desaceleração econômica já ficava mais forte, a presença de choques exógenos devidamente correlacionados: a correção dos preços administrados e a desvalorização da taxa de câmbio. No caso dos preços administrados, foi a implantação do realismo tarifário (mais fortemente no caso da energia elétrica, mas não só). E, no caso da taxa de câmbio, as dúvidas sobre quais seriam os rumos do governo reeleito (apesar da nomeação do ministro Joaquim Levy)”.

[Não é risível este eufemismo — toda palavra, enunciado ou maneira delicada ou suavizada que se usa para expressar certos fatos, ideias e verdades, em substituição a uma forma mais direta, menos agradável e menos polida e cuja sinceridade ou crueza poderia chocar ou agredir alguém — “realismo tarifário“, quando Joaquim Levy deu um choque tarifário a partir de sua crença ideológica neoliberal de que “preços livremente estipulados levariam a um equilíbrio geral dos preços relativos” como prognostica o único modelinho aprendido por ele no mestrado da EPGE-FGV?]

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Efeito Temer: Temer Perda de Riqueza

O ódio de O Mercado contra a Dilma se elevou depois da perda de capital em investimentos prefixados (LTNs e NTNs) com a retomada da alta dos juros em abril de 2013. A mesma “dor-no-bolso”, pior do que a “dor-de-cotovelo”, se repetiu após o dia 17 de maio de 2017 com o Efeito Temer. O presidente da República foi grampeado cometendo os crimes de obstáculo à Justiça e prevaricação ao não seguir o Princípio da Impessoalidade que rege o cargo. Estadista certamente ele não é, pois prefere sacrificar o País em benefício próprio: manutenção do foro privilegiado e uso de recursos públicos federais em causa pessoal, ou seja, para cuidar da própria defesa.

Adriana Cotias (Valor, 24/05/17) informa que praticamente todos os investidores que tinham recursos em Fundos Multimercados ou de Ações perderam dinheiro em 18 de maio, dia seguinte à divulgação do conteúdo entre a conversa do presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, do grupo JBS.

Segundo filtro feito pelo consultor Marcelo D’Agosto, em 1.122 fundos das categorias renda fixa, multimercados, ações e previdência, na base de dados da Morningstar, só os portfólios de renda fixa resistiram, de certa maneira.

Na mediana, esses fundos tiveram ganho de 0,04% no dia, embora na amostra os fundos com exposição a títulos prefixados ou indexados à inflação de longo prazo na carteira tenham apresentado uma queda maior, com mais de duas dezenas deles apresentando perda entre 6,94% e 9,85% nas suas cotas.

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JBS Hedgeada (“Protegida”) Sem Temer Risco PMDB

Preparando aula de hoje sobre Mercado de Futuros e/ou Derivativos, reli um artigo de Michael M. Phillips, publicado no The Wall Street Journal, em 15/07/2010. Achei engraçado observar o conluio/confronto entre “profissionais do PMDB“, que consideravam os petistas amadores, e profissionais da JBS, que atuam no Mercado de Futuros nos States. Quem “jantou” quem?

Esses caipiras deram um banho em Marcelo Odebrecht”, disse um auditor do TCU à repórter da piauí Consuelo Dieguez. Na reportagem Um golpe de mestre, a jornalista conta como os donos da JBS prepararam uma delação que os deixou de mãos livres e bolsos cheios. Em fevereiro de 2015, Consuelo escreveu o perfil dos irmãos Wesley e Joesley Bastista e explicou como o BNDES ajudou a transformar a Friboi na maior empresa de carnes do mundo. O texto está aberto para não-assinantes aqui.

“O produtor agrícola Jim Kreutz usa derivativos para amortecer o impacto no caso de os preços de milho para ração animal caírem antes da colheita. Seu cunhado, o criador de gado Jon Reeson, também recorre aos derivativos para fazer o hedge do preço de seus bois. A cooperativa de produtores locais usa os derivativos para financiar um preço fixo para o diesel dos caminhões que levam o gado para o matadouro. E a unidade de processamento da JBS usa os derivativos para estabilizar os custos, do gás natural às moedas estrangeiras.

(…)

Os derivativos são instrumentos financeiros cujos valores “derivam” de uma outra coisa, tais como taxas de juros ou óleo para aquecimento. Os primeiros derivativos foram futuros agrícolas, que apareceram nos EUA no fim da Guerra Civil e se tornaram uma faceta padrão dos negócios das empresas em todo o país.

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Correlação não é Causalidade: Dow Jones X Ibovespa

Denise Godoy (Valor, 04/05/17) avalia que, enquanto o mercado acionário americano renova sucessivas marcas históricas, a bolsa brasileira, apesar de algumas sessões isoladas de ganhos, segue patinando no mesmo nível, sem forças para sustentar uma tendência de alta firme.

Especuladores dizem que isso ocorre por causa das incertezas sobre as reformas golpistas em direitos sociais e a capacidade de o Brasil retomar o crescimento sustentável que têm desencorajado os investidores a fazer grandes apostas no mercado de ações local.

Já em Wall Street, o otimismo com os planos do novo presidente bilionário pró-mercado para impulsionar a atividade econômica vem sustentando uma inédita trajetória de alta, batizada de “rali do Donald Trump“.

Esse descompasso fica claro quando se analisa a movimentação relativa das bolsas brasileira e americana. A correlação entre o Ibovespa e o Índice Dow Jones, o mais importante do mercado de ações de Nova York, está no seu menor nível do ano: 0,68, segundo levantamento do Valor Data. Quanto mais perto o coeficiente se encontra de 1, mais próxima é a ligação entre dois indicadores. Isso significa que, se a bolsa americana sobe 1%, a bolsa brasileira avança 0,68%.

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