Grau de Desenvolvimento do Mercado de Capitais Brasileiro X BNDES


Quanto ao desenvolvimento dos mercados de capitais locais, a visão de política industrial em defesa da intervenção estatal na economia brasileira afirma que a ação governamental no âmbito setorial será especialmente útil quando o subdesenvolvimento dos mercados de capitais, ainda restritos, impedir a ação empresarial privada.

Quando se desenvolverem os mercados de capitais no Brasil, os benefícios dos investimentos do governo em participações minoritárias em empresas privadas provavelmente diminuirão. As empresas terão acesso crescente a financiamentos externos e a alternativas de capitalização, como ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês), debêntures negociadas em Bolsas de Valores e recibos de depósito.

Aldo Musacchio e Sergio G. Lazzarini, no livro “Reinventando o Capitalismo de Estado”, entendem o modelo do Leviatã como investidor minoritário ser mais apropriado nos estágios intermediários de desenvolvimento do mercado de capitais. Mas eles não fazem uma análise do atual estágio do mercado de capitais brasileiro para avaliar se esse modelo está apropriado ou não. É prudente a recente retirada de cena do BNDES?

Leticia Magalhães é mestre em Economia pela EPGE-FGV e Gilberto Borça Jr. é mestre em Economia pelo IE-UFRJ. Publicaram artigo (Valor, 09/08/18) sobre o papel recente do mercado de capitais. Compartilho-o abaixo para analisar essa questão-chave: é possível as empresas não-financeiras se financiarem sem endividamento externo? Continue reading “Grau de Desenvolvimento do Mercado de Capitais Brasileiro X BNDES”

Previdência Aberta: Rendimentos Brutos em Curto Prazo X Rendimentos Líquidos em Longo Prazo

Fernando Torres (Valor, 25/07/18) pergunta: o que farias se, todo mês, te pagassem só 90% do teu salário?

Ele não sabe dizer se o motivo é religioso, cultural ou uma combinação das duas coisas. E nem se é um comportamento exclusivo dos brasileiros.

Mas fato é que damos valor diferente para a renda proveniente do trabalho, em comparação com a renda oriunda do capital.

“Ninguém reagiria bem se, ao fim de um mês de trabalho duro, o empregador depositasse na conta apenas 70%, 80% ou 90% do salário combinado. Seria motivo para revolta. Os funcionários procurariam o setor de recursos humanos, o sindicato e a Justiça, nessa ordem, se a falha não fosse corrigida imediatamente.

Mas com dinheiro, com capital, é diferente. As pessoas veem suas aplicações rendendo 70%, 80% ou 90% do mínimo que deveriam com uma passividade assustadora, sem tomar nenhuma providência.

Em excelente reportagem da jornalista Adriana Cotias publicada pelo Valor (leia abaixo e confira tabela acima), os brasileiros ficamos sabendo que os cinco maiores bancos do país — Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Caixa e Santander — tem R$ 676 bilhões sob gestão em fundos de previdência, o que equivale a 90% do setor.

Poderia ser apenas uma boa notícia, de que o brasileiro finalmente está, por conta própria, reservando algum dinheiro para sua aposentadoria, diante da constatação de que não poderá contar com o INSS. E essa notícia é verdadeira, embora o volume aplicado devesse ser bem maior.

O porém é que a reportagem revela que, apenas nas maiores carteiras de cada uma das cinco instituições, há um patrimônio somado de R$ 120 bilhões que está rendendo 90% do CDI desde o lançamento dos fundos. Continue reading “Previdência Aberta: Rendimentos Brutos em Curto Prazo X Rendimentos Líquidos em Longo Prazo”

História dos Fundos de Investimento X Fechados e Exclusivos Sem Tributação

Manoel Aparecido Rodrigues é gerente de divisão de fundos de renda fixa indexados da BB DTVM. Em artigo (Valor, 27/07/18), resgata a história dos fundos de investimento.

“Ela remonta o século XIX, período em que foram constituídos na Europa. De lá para cá, os fundos evoluíram e se disseminaram pelas principais economias do mundo, tendo como objetivo oferecer administração financeira profissional aos investidores.

No Brasil, os primeiros fundos de investimento surgiram na década de 1950, entre os quais os fundos Crescinco e Deltec e, posteriormente, os fundos 157, de incentivos fiscais. Mas foi a partir do processo de estabilização econômica, em 1994, que a indústria brasileira de fundos inicia o seu desenvolvimento de maneira mais significativa, não apenas em termos de tamanho, mas fundamentalmente no que diz respeito a sua estrutura, regulação e autorregulação.

Nos últimos 24 anos, o volume de recursos sob gestão multiplicou-se rapidamente, superando R$ 4,1 trilhões, em junho de 2018, valor que representa em torno de 60% do PIB. Com toda essa expansão, os fundos se tornaram importantes canais de geração de funding para os mais variados setores da economia, tanto no âmbito público quanto privado [?!]. Além de contribuir na formação de preços, na liquidez dos ativos, na geração de empregos e na arrecadação de impostos.

Atualmente, a indústria de fundos, incluindo os investidores institucionais, são detentores de mais de 50% dos títulos públicos federais. Além disso, do total de seu patrimônio líquido, 15% aproximadamente são compostos por títulos privados de renda fixa e 9% em ações, o que demonstra sua relevância no financiamento da dívida mobiliária federal e dívidas corporativas.

De acordo com dados da Anbima referente a junho de 2018, somente o segmento de varejo de fundos de investimento contabilizou cerca de 5,4 milhões de clientes [3,5 milhões de varejo tradicional e 1,9 milhões de varejo de alta renda em março de 2018], clara evidência de sua capacidade de acumular recursos de pequenos investidores para a compra de ativos [R$ 557 bi em FIFs]. [Private Banking em março de 2018: 57.975 grupos familiares ou 120.384 clientes com R$ 481 bilhões em Fundos] No último levantamento divulgado, o Tesouro Direto contava com apenas 609 mil clientes ativos, enquanto a B3 [Bolsa de Valores] anotava 710 mil pessoas físicas cadastradas. Continue reading “História dos Fundos de Investimento X Fechados e Exclusivos Sem Tributação”

Torcida Política (e Distorcida Financeira) de O Mercado

Adriana Cotias (Valor, 26/08/18) informa: os especialistas em investimentos recomendam paciência e conservadorismo em Finanças Pessoais — e não em Política e Costumes! A percepção é que o suspiro dos ativos visto em julho de 2018 está longe de tirar de cena um período tenso para os mercados, um jogo mais para profissionais do que para o investidor individual.

Nesse ambiente, as sugestões se dividem entre títulos atrelados ao IPCA, um porto-seguro contra a inflação, fundos multimercados, pela agilidade dos gestores, e os fundos imobiliários, que ficaram para trás nessa reação recente dos ativos. Na bolsa, a recomendação é dosar a posição conforme o perfil, sem sobrealocações.

Depois de cair abaixo dos 70 mil pontos entre o fim de maio e meados de junho, o Ibovespa voltou a ganhar fôlego em julho, com valorização de 8,88%, a 79.220 pontos. A renda fixa também se recuperou com ganhos de 1,47% para o IRF-M, índice que representa uma cesta de títulos públicos. O dólar, que ainda lidera em retorno no ano (13,27%), perdeu 3,18% no mês.

A redução do risco é fundamental para fazer a travessia até as eleições. Embora não seja desprezível a escalada recente do Ibovespa, com resultados trimestrais fortes das empresas, a atividade econômica ainda não reagiu, o que desencoraja o investimento em ações. Continue reading “Torcida Política (e Distorcida Financeira) de O Mercado”

Concentração da Riqueza Financeira em menor ritmo

 Eu sinto um certo fascínio por testar a Ciência Econômica em laboratório social vivo. Dito e feito! Caiu a taxa de juros (Selic 252 média) no primeiro semestre e os ricaços enriqueceram menos do que enriqueciam antes!

O volume de negócios financeiros do segmento de private banking aumentou 4,2% no primeiro semestre, com uma adição de R$ 46 bilhões, e superou pela primeira vez a marca de R$ 1 trilhão. Considerando-se a Selic mais baixa, a 6,53% ao ano, comparativamente à média de 10% aa de 2017 e em torno de 14% aa em 2015 e 2016 , além da queda do Ibovespa nos seis primeiros meses (-4,8%) de 2018, cada private banking por CPF ganhou apenas R$ 54 mil e por família R$ 406 mil: uma mixaria! Menos de ½ milhão, snif, snif…

Para compensar a tristeza, desconsiderando os depósitos de poupança, a classe média alta ficou em média per capita R$ 1.314,00 mais pobre e a classe média baixa  R$ 722,00. Quem vestiu camisa verde-e-amarela e bateu panela vazia em apoio ao golpe e em favor do Temer chora de arrependimento… Continue reading “Concentração da Riqueza Financeira em menor ritmo”

“Dream Team”, Você pagou com traição A quem sempre Lhe deu a mão

Você pagou com traição
A quem sempre
Lhe deu a mão

Mas chora!

Chora!
Não vou ligar
Chegou a hora
Vais me pagar
Pode chorar
Pode chorar

A previsível crise política, agravada pela imprevisível greve dos caminhoneiros, se somou à “derrapagem” do Banco Central do Brasil (BCB) e do Tesouro Nacional no seu arsenal anticrise, na avaliação de estrategistas de investimentos, o que contribuiu para a deterioração dos ativos domésticos.

O primeiro erro foi o BCB não intervir mais fortemente no câmbio no dia seguinte à decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), de manter a Selic em 6,5% ao ano, quando dois terços do mercado esperavam uma queda de 0,25 ponto percentual. O BCB não atuou na volatilidade na crença da apreciação do dólar ser global e não deu hedge para o mercado.

Só piorou a situação. Isso fez com que o dólar subisse de R$ 3,30 para mais de R$ 3,90 de forma ininterrupta. Mecanismos de “stop loss“, a zeragem de posições para limitar perdas, foram acionados por tesourarias e fundos de investimentos, o que só exacerbou o impacto nas cotações.

Outro equívoco foi o Tesouro Nacional prosseguir ofertando papéis de longo prazo em um momento em que não havia compradores habituais como estrangeiros ou fundos de pensão. Só depois do fracasso entrou no modo anticrise e recomprando ativos, dando saída para os investidores.

A mudança do regime de volatilidade no mundo coincidiu com um momento de aumento de risco dos grandes fundos no Brasil. Eles já vinham comprados em bolsa, apostando na queda dos juros e fazendo hedge com o dólar. Só que na hora de crise sistêmica, as proteções de diversificação de risco não funcionam, pois todos os ativos têm cotações em quedas. Estas não se compensam com eventuais ganhos.

Não era um bom momento para o BCB ver a sua credibilidade arranhada porque O Mercado entendeu errado a mensagem do líder do “dream team”, Ilan Goldfajn, presidente do BCB e ex-economista-chefe do Itaú. O ex-companheiro queria passar outra dica para os especuladores.

Também era um período em que o estrangeiro começava a desmontar a bolsa brasileira, por ser um mercado de mais liquidez entre emergentes. Os investidores estrangeiros (49% do total) dominam e manipulam essa raquítica bolsa de valores.

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Robôs Negociantes de Títulos de Dívidas: Desemprego Tecnológico e Concentração de Riqueza

Muito antes de haver empresas que emitiam ações para investimento, havia o uso sistemático da dívida para captar dinheiro. A dívida envolve emprestar dinheiro com a promessa de pagá-la de volta na íntegra, juntamente com o juros ao longo do tempo. A garantia dessa promessa é conhecida como um bond. Em outras palavras, as bonds representam títulos de dívida direta de empresas não-financeiras.

Traduzem na imprensa brasileira como bônus — remuneração de executivos — em vez de debêntures, no caso de empresas não financeiras, ou títulos de dívida pública, no caso de governos. Ambos oferecem renda fixa em vez de renda variável com ações.

Debênture é um título de crédito representativo de um empréstimo de uma companhia não financeira realizado junto a terceiros. Ele assegura a seus detentores direito contra a emissora, estabelecidos na escritura de emissão.

Robin Wigglesworth e Joe Rennison (Financial Times apud Valor, 10/05/18) publicaram reportagem sobre o uso de robôs em negociações financeiras. Vale ler para não ficar desatualizado com as inovações tecnológicas no mundo financeiro.

“Abbie teve um começo brilhante em seu novo emprego como gestora de fundos júnior na AllianceBernstein, um grupo de investimentos de Nova York com US$ 500 bilhões em ativos. Em seus primeiros três meses, conduziu milhares de negócios com bônus avaliados em quase US$ 19 bilhões, sem jamais reclamar, se confundir ou mesmo descansar.

Isso por que ela é um algoritmo.

O mais novo funcionário robótico da AllianceBernstein inicialmente teve um problema para entender algumas das sutilezas de seus chefes humanos, como as palavras “por favor“, mas ela já consegue realizar 35% dos negócios com bônus. A gestora acredita que em breve Abbie poderá automatizar grande parte do trabalho de duas dezenas de gestores humanos. [Desemprego tecnológico também no setor financeiro!] Continue reading “Robôs Negociantes de Títulos de Dívidas: Desemprego Tecnológico e Concentração de Riqueza”