O Raquítico Mercado de Capitais Brasileiro como Substituto do BNDES?!

Como eu disse em outro post, não admiro praticamente ninguém entre os colunistas midiáticos pró-O Mercado. Eles abundam na “grande” imprensa brasileira. Mas em toda a regra há exceções.

Pela pesquisa quantitativa, em cima de balanços de sociedades abertas e fechadas, mas não pela análise qualitativa, i.é, ortodoxa e sem originalidade, acompanho o Carlos Antonio Rocca, diretor do Centro de Estudos do Mercado de Capitais (Cemec) do Instituto Ibmec. Porém, discordo das opiniões apriorísticas dele.

Por exemplo, em seminário entre os mesmos economistas midiáticos de sempre (Valor 11/10/17), ele disse que “não há dúvida que o BNDES sobreviverá sem os R$ 180 bilhões retornados ao Tesouro. O BNDES já diminuiu sensivelmente a participação dele [no financiamento do investimento de longo prazo]”, diz Rocca.

Os dados consolidados pela equipe do Cemec (ver quadro 1) mostram que a parcela do banco no financiamento dos investimentos (medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo – FBCF) rondava o nível dos 3% do PIB entre 2009 e 2014 e hoje está em 0,8%. É também verdade que a própria FBCF caiu do nível dos 18% para 14% do PIB com a Grande Depressão provocada pela volta da Velha Matriz Neoliberal em 2015. Continue reading “O Raquítico Mercado de Capitais Brasileiro como Substituto do BNDES?!”

Consultor-Robô ou Desintermediação Bancária

Adriana Cotias (Valor, 22/08/17) informa que um tema do mundo tecnológico que é pouco conhecido é a alternativa baseada em modelos matemáticos que tira a emoção de cena na hora de investir. Trata-se do Ueslei, o consultor-robô da Vérios Investimentos. Investidores podem distribuir suas aplicações na Magnetis, Warren, Monetus e Vérios, deixando apenas uma reserva de emergência em um banco digital.

Serve para os inseguros que deixam todas as economias em depósitos de poupança por ser fácil e atender aos acomodados. Com o Ueslei, é uma forma de ainda ser acomodado e ter um rendimento melhor. Ao ler mais sobre risco e retorno e mix de investimentos, acham que o robô pode fazer melhor, sem emoções. Em gestão de portfólios, no longo prazo, nenhuma carteira ativa ultrapassa o benchmark.

Em comum, esses investidores buscam um melhor desempenho para suas carteiras, sem passar pelo dilema “qual é a melhor opção?” Ao delegar essa tarefa para os tais algoritmos, o aplicador responde ao questionário de perfil e o robô define a distribuição dos ativos de acordo com a tolerância a risco.

As experiências existentes no Brasil começam a apresentar os seus primeiros resultados e já contemplam na curta trajetória um real teste de estresse: o vazamento de conversa entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, do grupo JBS, que virou os valores de mercado dos ativos em meados de maio de 2017 é considerado um “cisne-negro”, fator aleatório inesperado. Ora, quando se dá corda para gente vulnerável à corrupção, ela se enforca! Foi o caso do temeroso que achava não haver o que temer por se sentir impune pelo fato de ser o líder do quadrilhão do peemedebismo.

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“Deus dará… E o Diabo tomará!”

Adriana Cotias (Valor, 03/0717) informa que, em meio às discussões para a reforma da Previdência, “o brasileiro” [mas quem é este tipo representativo da heterogeneidade dos habitantes no Brasil, heim?] aumentou a sua reserva para a aposentadoria, mas ainda poupa menos do que o necessário para manter a sua renda e qualidade de vida, segundo uma pesquisa mundial da gestora americana Legg Mason.

No recorte de Brasil, a instituição ouviu 900 investidores, separando-os por grupos geracionais, de gênero e classes de renda. A percepção geral dos entrevistados é que um ano de salário seria suficiente para viver os anos da velhice fora do trabalho, e mesmo nas classes de renda mais alta se observa esse tipo de ilusão financeira.

Ao redor do mundo, os entrevistados têm poupado entre 3,7% e 14,6% do que precisariam, de fato, para prover um sustento estimado em 70% do que tinham na ativa por 20 anos, como recomenda a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No Brasil se fica com uma reserva de 5,3% do valor considerado adequado.

Pelo levantamento, na média:

  • quem já tem algum dinheiro para a aposentadoria acredita que R$ 170 mil acumulados são suficientes para viver a fase da velhice.
  • Os “millenials” (de 18 a 35 anos) calculam que R$ 133 mil bastam.
  • Já o grupo da geração X (de 36 a 52 anos) pensa que R$ 189,5 mil é um valor adequado.
  • Os “baby boomers” (de 53 a 71 anos) falam em R$ 233 mil.
  • Mesmo entre os indivíduos da alta renda afluente uma acumulação de R$ 519,8 mil é considerada o bastante.

O algoritmo 1 – 3 – 6 – 9 (abaixo) oferece maior realismo quanto às necessidades de reservas financeiras para manter o padrão de vida durante vinte anos de aposentadoria.


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Jovens Investidores X Velhos Acionistas

Tesouro Direto (Títulos de Dívida Pública): Bolsa de Valores (ações):

Nathália Larghi (Valor, 31/07/17) escreveu uma reportagem interessante sobre a faixa etária de investidores. Lembrei-me de dados da Bolsa de Valores que pesquisei recentemente. Estão nas tabelas acima para comparação.

De cara, uma observação: quando se soma os investidores ativos no Tesouro Direto (493 mil) com os da Bovespa (592 mil), atinge-se 1,085 milhão, ou seja, 10% dos 10,426 milhões em Fundos e Títulos e Valores Mobiliários. Em termos de valor, o total no mercado de renda variável era R$ 138,43 bilhões, enquanto no mercado de renda fixa (TVM + FIF) o saldo era de R$ 979,90 bilhões no varejo (tradicional + alta renda) e R$ 877,59 bilhões no Private Banking. E ainda tem PhDeus colonizado querendo que o Brasil deixe de ter uma economia de endividamento para se tornar uma economia de mercado de capitais!

Mais uma evidência do que é a concentração no mercado de ações no País. Idosos a partir dos 66 anos (eu! eu! eu!) eram 17% dos acionistas, porém possuíam 45% do valor de mercado. Que jovem investidor vai confrontar um “velho profissa de O Mercado”?!  

Como são 98.034 acionistas com mais de 66 anos possuindo R$ 61,84 bilhões em ações, a dedução que essa riqueza acionária per capita deles é R$ 630.801,56. São sete milhões de reais a menos do que a riqueza em FIFs e TVMs per capita dos 114.802 clientes Private Banking  (R$ 7.644.417,33), embora seja bem superior à riqueza financeira per capita do varejo de alta renda (R$ 177.345,42). É provável que muitos desses senhores sejam herdeiros e/ou acionistas PF expressivos no controle de capital de sociedades abertas — e não especuladores.

O grupo de jovens entre 16 e 25 anos já soma quase 162 mil investidores no Tesouro Direto e é o que mais cresce nesse tipo de aplicação. A alta no último ano foi de 142%. Eles representam hoje 10,9% do conjunto de 1,485 milhão de pessoas que constrói parte de seu portfólio pessoal investindo em títulos públicos pela internet, segundo os dados mais recentes, referentes a junho de 2017. Um ano atrás, a participação desses estreantes era de 8% para um total de 835 mil aplicadores. O aumento do acesso à informação e a difusão dos debates sobre investimentos e previdência são os fatores que explicam a tendência.

Na bolsa de valores, a presença dos mais jovens ainda é tímida, mas também foi a fatia que mais cresceu no último ano. Em junho de 2016, eram 11.547 investidores de 16 a 25 anos de um total de 559.518, ou 2,07%. No mês passado, o número chegou a 14.249 em um universo de 592.386 investidores (ou seja, 2,4%). Continue reading “Jovens Investidores X Velhos Acionistas”

Juros Reais Líquidos Ex-Ante

Quando toma decisões de alocação do capital, o investidor financeiro deve estimar a taxa de juros real (acima da taxa de inflação), líquida (descontados o imposto de renda e a taxa de administração), ex-ante (antes do período considerado e não ex-post, i.é, resultado do passado). E com base nela, considerar o custo de oportunidade (o ganho de capital que se poderia obter com o mesmo montante de dinheiro aplicado em investimento alternativo).

Diana Benfatti (Valor, 31/07/17) responde à consulta financeira se um investidor com investimentos em renda fixa deve se preocupar com a queda da taxa de juros.

“Essa preocupação é natural e muito válida. A trajetória da taxa de juros é sim importante, mas o seu movimento isoladamente não determina o rendimento dos investimentos.

Muitos outros fatores são relevantes, como:

  1. o indexador do investimento,
  2. os preços da curva de juros futuros,
  3. a oferta e a demanda por títulos,
  4. as diretrizes da política monetária,
  5. o movimento da inflação,
  6. os impostos, etc.

São temas ricos e todos merecem aprofundamento. Aqui iremos focar no impacto da inflação e do imposto de renda, principalmente sobre os juros pós-fixados diários (Selic e CDI). Continue reading “Juros Reais Líquidos Ex-Ante”

Fuga de Capitais: “Efeito Golpe em Republiqueta”

Os números do anuário “Valor 1000” indicam que o crescimento nominal do faturamento em 2016 foi o segundo pior da série histórica do ranking — um desempenho somente melhor que o de 2009, ano marcado pela ressaca da crise financeira internacional. A expansão nominal ficou muito aquém da observada em 2015 (7,5%) e em 2014 (8,9%).

A receita líquida dessas grandes companhias manteve a trajetória de desaceleração no crescimento pelo sexto ano consecutivo. Ao todo, as mil empresas faturaram R$ 3,23 trilhões em 2016. No ano do golpe parlamentarista no presidencialismo brasileiro, o locaute empresarial levou à desaceleração no faturamento da maior parte dos setores analisados.

Em termos reais, a variação da receita líquida ficou negativa pelo segundo ano consecutivo com a volta da Velha Matriz Neoliberal. A queda de 4% computada em 2016 também só não foi pior que o resultado de 2009 (-5,2%). O desempenho ainda foi ajudado pelo processo contínuo de redução da inflação, que levou Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) a encerrar o ano em 6,29% – ante os 10,67% em 2015. A superdosagem de juros levou à atual Grande Depressão e Deflação: uma barbeiragem sem tamanho dos golpistas! E o PIG não solta um pio…

Cristiane Bonfanti, Lucas Marchesini e Eduardo Campos (Valor, 25/07/17) informam que os investidores estrangeiros voltaram a reduzir sua participação na dívida interna brasileira e fecharam o primeiro semestre de 2017 respondendo por 12,9% do estoque de R$ 3,233 trilhões. Esse é o menor percentual desde junho de 2012 (12,2%). Durante a primeira metade de 2015, por exemplo, essa fatia rondou os 20%.

Em valores nominais, a participação do não residente encerrou a primeira metade do ano em R$ 417,14 bilhões. No semestre, a redução de posição foi de R$ 10,7 bilhões. Em 2016, o não residente vendeu o equivalente a R$ 70 bilhões, em um consistente movimento de realização de lucros, com a elevação das taxas pagas.

Tomando como base os dados preliminares do Banco Central (BC) para investimentos em carteira em julho, o não residente seguiu vendendo títulos. De acordo com o BC, até o dia 19, os investimentos em carteira apontavam saída de US$ 1,772 bilhão. Quem quer ficar nesta republiqueta?! Continue reading “Fuga de Capitais: “Efeito Golpe em Republiqueta””

Graças a O Mercado 3 O, Não Temos Economia de Mercado de Capitais!

Luciana Del Caro (Valor, 13/06/17) avalia que uma rápida comparação entre a indústria de fundos de investimento no Brasil e no mundo evidencia bem o efeito dos juros elevados sobre a composição dos investimentos: enquanto a renda fixa representava 65,3% do patrimônio dos fundos de investimentos financeiros brasileiros em dezembro de 2016, a mesma categoria respondia por 24,6% no mundo, segundo dados da Anbima. Em contrapartida, a renda variável predominava o mercado mundial de administração de recursos de terceiros, com 47% do patrimônio, mas representava apenas 5,1% no país.

Em síntese, o Brasil sempre teve uma economia de endividamento bancário e não uma economia de mercado de capitais como alhures. Imaginem em uma economia com alta volatilidade nas taxas de câmbio, juros, inflação e crescimento como esta nossa, se colocássemos as sobras da nossa renda do trabalho em renda variável. Perderíamos essa riqueza pessoal, periodicamente, com uma economia de bolhas (boom-e-crashes)! Viveríamos de que em nossa aposentadoria? Previdência Social?!

A categoria da renda variável já chegou a patamares bem mais expressivos por aqui: 15,2% em 2007, ano de pujança no mercado de capitais. Nos últimos dez anos, os juros altos e a piora do cenário econômico e político inibiram as aplicações em Bolsa de Valores. Continue reading “Graças a O Mercado 3 O, Não Temos Economia de Mercado de Capitais!”