Contra “Financeirização”: Gestão de Recursos eleva PIB

Sérgio Tauhata (Valor, 24/04/19) informa uma tese contra-corrente da literatura sobre “financeirização“, vista como parasita do capital industrial. Eu discordo dessa literatura por outra razão: achar a alavancagem financeira ser o segredo do negócio capitalista, ou seja, capital financeiro é a fusão do capital industrial e do capital bancário. O sistema capitalista é um sistema financeiro complexo com múltiplos componentes interativos e interdependentes.

A tese heterodoxa da casta dos mercadores-financistas é: a evolução da indústria de gestão de recursos vai trazer um significativo ganho para a economia do país. O impacto seria potencializado, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), se esse desenvolvimento estiver apoiado em uma agenda para aprimorar legislação, transparência e inovação.

Conforme a entidade, no período entre 2019 e 2023, o crescimento do setor acrescentaria 1,36 ponto percentual à expansão do PIB, com aumento médio de 0,27 ponto anual, criaria 402 mil empregos a mais e levaria o governo a arrecadar 0,30% de impostos extras a cada ano.

Os cálculos desse cenário futuro idílico fazem parte de um estudo elaborado pela consultoria EY. Serviu de base para a compilação da agenda formulada pela Anbima.

Percebe-se uma correlação ser transformada em uma causalidade inversa: o que é efeito — sobras de renda (valor adicionado) ou trocas de propriedades (valor apropriado) — passa a ser visto como causa: o crescimento da renda. Seria como dizer: “os dias ensolarados mais curtos no inverno são causados pelo frio”!

O mapa completo para impulsionar a área de gestão de recursos no país foi divulgado durante o X Congresso de Fundos de Investimentos. A entidade pretende apresentar ainda o documento ao Banco Central (BC) e à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), além da Receita Federal e do Ministério da Economia. Continuar a ler

Novas Emissões de Ações

Finalmente, Adrian Wood, em seu livro denominado “Uma Teoria dos Lucros” (Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra; 1980), trata das chamadas “emissões de dinheiro novo”. Elas aumentam a quantidade de financiamento disponível às empresas não-financeiras cujas ações já são cotadas em bolsa de valores. Distinguem-se dos aumentos de capital através de:

  1. incorporações de reservas em vez de distribuição de bonificações e
  2. novas emissões destinadas a trocas de ações de outras companhias em processo de fusão/incorporação ou de aquisição.

Essas “emissões de dinheiro novo” tomam forma de emissões de direitos concedidos aos acionistas de preferência da subscrição das novas ações. Na prática, são vistas como uma fonte de financiamento secundária. As empresas são dissuadidas pela inconveniência e pelos custos administrativos e de corretagem implicados.

Mas a principal causa da raridade das novas emissões é elas não serem apreciadas pelos acionistas em longo prazo. Uma nova emissão, por aumentar o suprimento de ações de uma empresa, tende a levar o preço delas a diminuir e a infringir uma perda de capital aos acionistas correntes.

O mercado de ações não é perfeito, no sentido de o preço da ação em um dado período depender do número de ações à venda nesse mesmo período. Mantendo-se todos os outros fatores constantes, inclusive a situação objetiva e o comportamento da empresa, as opiniões do mercado sobre suas perspectivas e o tamanho do estoque total de suas ações emitidas, um aumento do número de ações colocadas à venda gera uma queda da cotação.

Para vender as ações necessita um incentivo para persuadir os investidores a introduzir as novas ações em suas carteiras. Tal incentivo é fornecido por um aumento da taxa de retorno esperada das ações da companhia, superior ao que teria havido se não houvesse a emissão. Obtém-se isso através da redução do preço da ação.

A demanda por ações de uma determinada empresa não é perfeitamente elástica com relação ao preço. Isto por razão da ignorância dos investidores com relação ao futuro. Continuar a ler

Política de Dividendos

Adrian Wood, em seu livro denominado “Uma Teoria dos Lucros” (Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra; 1980), alerta: o mercado de ações é dominado pelas atividades especulativas dos acionistas em curto prazo. Só existe uma pequena quantidade de informações verídicas disponível, daí a importância exagerada atribuída às informações duvidosas e boatos incomprovados.

Em consequência, observam-se flutuações amplas e irregulares, no decorrer do tempo, tanto na média dos preços das ações, como nos preços das ações individuais em relação à média. Essas flutuações são causadas pelos efeitos combinados de:

  1. as notícias de fatos reais,
  2. a interdependência especulativa e
  3. as expectativas variáveis sobre um futuro altamente imprevisível.

Esses fatores são considerados imprevisíveis pela maioria dos acionistas. Muitos chegam a acreditar o comportamento dos preços das ações serem mais bem compreendidos como o resultado de um processo aleatório. Entretanto, o preço da ação de uma empresa é muito mais incerto (ex-ante) e inconstante (ex-post) do que o são o futuro e os lucros da própria empresa.

Continuar a ler

Acionistas em longo prazo e acionistas em curto prazo ou especuladores

Adrian Wood em seu livro, denominado “Uma Teoria dos Lucros” (Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra; 1980), disserta a respeito do tempo de conservação de determinada ação por um acionista. Nem todos os acionistas alteram constantemente suas carteiras de ações de acordo com os preços correntes das ações e suas expectativas da situação futura. Se houvesse uma propensão à variação de ações em suas carteiras, o interesse dos acionistas não focalizaria o comportamento das empresas.

Consideradas as condições de incerteza, são as variações as facilitadoras da especulação, baseada em tentativas de superar os outros investidores quanto às previsões do comportamento das empresas e às expectativas do mercado de ações. Porém, na realidade, os acionistas não consistem em um grupo tão mutável, porque o período médio de conservação de ações ocorre entre cinco e dez anos. Uma parcela significativa das ações boas pagadoras de dividendos são mantidas por períodos ainda mais longos.

Nenhum acionista antecipa o momento exato das flutuações dos preços das ações e das expectativas em relação a elas de modo a alterar sua carteira em intervalos curtos e frequentes, mesmo porque ele incorreria em elevados custos de transação. Estes explicam em parte:

  1. os longos períodos de conservação das ações,
  2. a inércia e a irracionalidade dos investidores.

Continuar a ler

Interesses dos Acionistas

Adrian Wood publicou um livro clássico, denominado “Uma Teoria dos Lucros” (Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra; 1980). Nele, destaca serem os dois aspectos principais do comportamento financeiro de empresas abertas, relacionado aos interesses dos portadores de suas ações:

  1. a política de dividendos e
  2. as emissões de novas ações.

A maior preocupação do acionista é obter a maior taxa de retorno possível de suas ações, considerando sua aversão ao risco.

A taxa de retorno de uma ação em dado período depende de três fatores:

  1. da cotação no início do período;
  2. do valor dos dividendos líquidos distribuídos durante o período;
  3. do valor do ganho ou perda de capital, descontados impostos e custos de transação com ações, resultante da alteração de sua cotação no período.

Continuar a ler

Renda Fixa Pós-Fixada: Em Busca da Rentabilidade Perdida

Flávio Mattos (Valor, 28/03/19) informa: em março de 2019, as Letras Financeiras do Tesouro (LFT) atingiram o patamar de cinco dígitos, o valor de R$ 10 mil.

As LFT são títulos com rentabilidade diária vinculada à taxa de juros básica da economia, a Selic, e iniciaram com o valor de R$ 1 mil em julho de 2000. Portanto, em pouco mais de 18 anos e meio, os investidores ao aplicarem nas LFT conseguiram acumular uma valorização de 900% – ou seja, decuplicaram (multiplicaram por 10 vezes o seu investimento).

As LFTs foram criadas em novembro de 1987 aproveitando o sucesso da Letra do Banco Central (LBC), título com a mesma característica, sendo as primeiras de responsabilidade do Tesouro Nacional e destinadas especificamente para financiamento dos déficits orçamentários. As sucessivas crises macroeconômicas vividas pelo país nessa época, com níveis de inflação e incerteza elevados, permitiram que esses títulos fossem praticamente a única forma de financiamento da dívida. Continuar a ler

Novas Tecnologias com Algoritmo agravam a Volatilidade (Risco) dos Rendimentos Esperados

Robin Wigglesworth (FT, 08/01/19) informa: Philippe Jabre representava a mais pura essência aventureira dos investidores, irrompendo nos mercados financeiros, primeiro pela CLG Partners e depois por seu fundo hedge homônimo, fundado em 2007, na época um dos maiores lançamento já feitos no setor. Em dezembro de 2018, porém, jogou a toalha. Fechou a Jabre Capital após acumular enormes perdas. A culpa, disse, foi das máquinas.

“Os últimos anos foram particularmente difíceis para os gestores ativos”, disse, em sua carta derradeira aos clientes. “Os mercados financeiros evoluíram substancialmente nos últimos dez anos, guiados por novas tecnologias, e o seu comportamento está se tornando mais difícil de ser antecipado, à medida que os participantes tradicionais são substituídos de maneira imperceptível por modelos computadorizados.”

Jabre não está sozinho. Uma enxurrada de antigos “mestres do Universo”, agora de cabeças baixas, vem apontando dedos acusatórios para as máquinas. Argumentam que a crescente influência das chamadas operações de alta frequência (HFTs, na sigla em inglês) e dos investimentos “quantitativos” vem devastando os mercados e tornando obsoletas as análises tradicionais e o bom senso. Continuar a ler