Análise da Proposta de Refinanciamento das Dívidas dos Consumidores

Em março 2005, o estoque de endividamento em relação à renda acumulada nos últimos 12 meses por pessoa física era 19,3%. Descontando o crédito habitacional, apenas 16,6%. Passam-se dez anos sob governo progressista e a relação entre o saldo endividamento e a renda acumulada dispara para 46,4% (+27,1 pp). Como descontando o crédito habitacional, a relação cai para 27,7% (+ 11,1 pp em relação à de 2005), percebe-se esses onze pontos percentuais terem sido o endividamento familiar para consumo e quase dezenove (18,7 pp) pontos percentuais serem correspondentes à tomada de financiamento habitacional.

Em maio 2018, sem política de crédito, essa relação endividamento / renda acumulada últimos 12 meses caiu para 41,6% (-4,8 pp) e sem considerar o crédito habitacional cai para 23,3% (-4,4 pp). Mas isso se refere ao estoque de dívida. Não é o gasto mensal das pessoas físicas com juros e amortizações.

O Banco Central do Brasil também tem série temporal registrando o comprometimento da renda das famílias com serviço da dívida ter crescido, em dez anos, de 15,8% em março de 2005 a 22,0% em abril de 2015. A partir deste auge, caiu em três anos para 20,3%.

Mas se desconsiderar o crédito habitacional, cuja finalidade é um investimento na aquisição da própria residência, o comprometimento da renda das famílias não tinha muita diferença (15,4%) em 2005. No entanto, nos dez anos seguintes do governo social-desenvolvimentista, cresceu para 19,7% (+4,3 pp). Nos três anos seguintes, com a volta da Velha Matriz Neoliberal, caiu para 17,8% (-1,9 pp).

Em outros termos, o grau de fragilidade financeira das famílias, analisado em termos macroeconômicos, não é um problema impeditivo para retomada do crescimento da renda e do emprego através de novo ciclo de endividamento familiar. Continue reading “Análise da Proposta de Refinanciamento das Dívidas dos Consumidores”

Sentimento do Investidor 2018

Adriana Cotias (Valor, 14/06/18) informa: pela primeira vez em pelo menos cinco anos, o brasileiro mostra disposição para revisar sua tolerância a riscos e partir para investimentos menos conservadores. A diversificação para ativos como ações, fundos de gestoras independentes ou aplicações no exterior é mais natural entre os mais jovens, de 25 e 34 anos, a despeito da menor capacidade de poupança na fase inicial no mercado de trabalho. Já aqueles na faixa entre 55 e 64 anos ainda têm certa resistência ao carregar na sua trajetória um passado de crises financeiras, memória inflacionária e juros nas alturas. Mas mesmo nesse grupo, há uma maior inclinação a diminuir a parcela na renda fixa e o relacionamento com o canal bancário tradicional.

Essa dinâmica coincide com o significativo corte da Selic desde outubro de 2016, conforme aponta a pesquisa “Sentimento do Investidor 2018“, feita pela gestora Franklin Templeton no Brasil, como parte de um levantamento global do grupo americano, que reúne US$ 750 bilhões em ativos mundo afora.

Quase 70% dos entrevistados abaixo de 34 anos afirmam ter conta investimento em corretoras, percentual que não passa de 40% entre aqueles com mais de 45 anos. Mais de 80% dos mais jovens dizem ter investimentos em ações, percentual que descresce gradativamente nas demais idades, até chegar a um terço na faixa entre 55 e 64 anos. Os mesmos percentuais são observados em alocações no exterior.

Questionados se diversificam seus investimentos, mais de 73% dos entrevistados entre 25 e 34 anos afirmam que sim, ante 56% entre os que têm entre 55 e 64 anos. Além disso, quase 75% das pessoas no primeiro grupo diz saber a diferença entre o fundo de um banco convencional e o de uma gestora independente, percentual que não chega à metade no segundo caso.

Em sua quinta edição, a coleta da Franklin Templeton, feita com 510 pessoas com pelo menos R$ 50 mil em aplicações financeiras, foi realizada entre 28 de março e 3 de abril. Não captura, portanto, se houve alguma mudança de percepção decorrente do revés dos mercados a partir da manutenção inesperada da Selic em 6,5% ao ano, seguida pela greve dos caminhoneiros com a saída de Pedro Parente do comando da Petrobras, e uma maior aversão a emergentes com o processo de alta de juros nos EUA. Continue reading “Sentimento do Investidor 2018”

Raio-X do Investidor Brasileiro

Adriana Cotias (Valor, 26/07/18) informa: quatro em cada dez brasileiros com renda tem algum investimento financeiro, o que corresponde a 41 milhões de pessoas, segundo pesquisa feita pelo Datafolha, sob encomenda da Anbima. De modo geral, o perfil de quem investe replica a concentração de renda no país, pois é o grupo mais escolarizado e com maior poder aquisitivo.

Em 2017, uma parcela de 32% dos brasileiros conseguiu economizar. Nesse grupo, 59% mencionaram a redução de despesas com lazer, compras desnecessárias, bebidas ou cigarros, como formas de ter alguma folga no orçamento.

Tipicamente, aos 65 anos, o sujeito leigo percebe ter sido na casa dos 50 anos quando começou a perceber que se deixasse de lado a visão mais imediatista ganharia qualidade de vida. Até quitar dívidas, reequilibrar o orçamento, só há pouco tempo percebe que, de fato, virou investidor.

Diz: “É fácil gastar e não saber no quê. A primeira coisa que fiz foi identificar para onde meu dinheiro estava indo e comecei a tomar decisões: isso eu não preciso, isso eu posso pensar em termos mais de longo prazo, fui reduzindo custos, mudando atitudes. Mudar de hábito eu diria até que foi rápido. O que levou tempo foi voltar ao equilíbrio.” Hoje ele divide suas economias entre aplicações em títulos públicos e ações.

Guardar dinheiro ou consumir é uma atitude emocional. Tem mais relação com o campo da Psicologia do que com o das Finanças. Por essa razão, não adianta “poupar” sem traçar um objetivo, um sonho, porque recurso sem carimbo facilmente vira consumo. Sem a construção de uma reserva financeira ter sido transmitida pelas gerações mais velhas, há um problema crônico na população. Não há um movimento comportamental de canalizar o dinheiro para a poupança. Existe a atitude de falar, mas não de praticar.

Em Educação Financeira dirigida a crianças, uma das formas de incutir esse hábito é usar três cofrinhos de tamanhos diferentes, para realização de sonhos de curto, médio e longo prazo. Assim ela vai perceber que o menor enche rápido e vai comprar o presente destinado para o sonho tal. É claro que vai mudar o sonho três vezes, mas abre o cofrinho e faz a festa. Com essa brincadeira, os pequenos começam a perceber o desenrolar do tempo, o valor do dinheiro e a relação com seus objetivos.

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Roubo de Moedas Digitais

“Ladrão que rouba ladrão: cem anos de perdão”.

Olga Kharif (Valor, 06/07/18) informa: criminosos estão roubando mais criptomoedas de suas bolsas, o que tem impulsionado o crescimento de uma indústria artesanal de serviços de modo a permitir a lavagem do dinheiro investido nas moedas. No primeiro semestre deste ano, foram roubados mais de US$ 760 milhões em criptomoedas das bolsas – quase três vezes mais do que em todo o ano de 2017, afirmou a CipherTrace em seu relatório trimestral inicial sobre o assunto.

A CipherTrace é uma firma de segurança em “blockchain” com sede em Menlo Park, na Califórnia. Trabalha com mais de 40 empresas e governos para monitorar transações de criptomoedas. O valor de mercado atual das cem maiores criptomoedas é de cerca de US$ 270 bilhões, segundo o CoinMarketCap.com. Há grande disponibilidade de serviços para limpar dinheiro sujo, afirmou a CipherTrace, e alguns até publicam anúncios por meio do Google AdWords. Continue reading “Roubo de Moedas Digitais”

Bitcoin mais milhares de Criptomoedas: Desconfiança em Sistema Descentralizado

Álvaro Campos (Valor, 18/06/18) avalia: passada a euforia inicial com as criptomoedas, cujo bitcoin é a maior expoente, o Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) resolveu analisar esses ativos. Concluiu eles não poderem ser usados como dinheiro. Eles não possuem atributos fundamentais, como a confiança no seu valor e a capacidade do volume em circulação crescer na mesma proporção da demanda pelas transações. Já a tecnologia subjacente das criptomoedas, o “blockchain“, tem potencial promissor, mas seu uso é limitado.

O BIS aponta: menos de dez anos após a sua criação, as criptomoedas saíram da obscuridade para atrair o interesse de empresas e consumidores, além de bancos centrais e outras autoridades. Elas ganharam atenção porque prometem substituir a confiança em antigas instituições, como bancos comerciais e bancos centrais, pela confiança em um novo sistema totalmente descentralizado, baseado na chamada tecnologia de registro distribuído (DLT).

O estudo mostra que a essência de um “bom dinheiro” sempre foi a confiança na estabilidade do seu valor. Para o dinheiro cumprir seu principal papel — agir como um instrumento de coordenação para facilitar transações — ele precisa ter uma relação de escala eficiente com a economia e ser fornecido de maneira elástica, para lidar com a demanda flutuante. Continue reading “Bitcoin mais milhares de Criptomoedas: Desconfiança em Sistema Descentralizado”

Comportamento dos Milionários: Padrão de Consumo Essencial

A prioridade é fazer investimentos e não consumir. A maioria dos milionários não compram carros importados zero quilômetro, nem o modelo do ano de automóvel de luxo norte-americano.

Preferem comprar carros seminovos de modelos clássicos alemães com menor custo de manutenção e depreciação anual. Ficam com eles como valor-de-uso por muitos anos. Podem demorar meses antes de fazer a escolha na hora de trocar seu usado devido ao obsoletismo tecnológico programado.

São muito sensíveis a variações de preço e estão muito mais dispostos a negociar com gente sem muito dinheiro. As melhores compras são feitas justamente de novo-rico comprador de carro de luxo com forte depreciação depois de sair da loja. Muitos endividado, logo deseja vender, antes mesmo de acabar a garantia.

Outras diferenças relevantes entre quem consegue acumular riqueza e quem não atinge esse objetivo estão no tipo de trabalho. Entre os acumuladores de riqueza mais eficientes, quase 60% são autônomos. Esse número cai para menos de 25% quando se fala dos acumuladores abaixo da média. Continue reading “Comportamento dos Milionários: Padrão de Consumo Essencial”

Educação Financeira para se Tornar Milionário

Para a postura de privilegiar investimento em vez de consumo dê certo, toda a família deve cooperar. É muito mais fácil acumular patrimônio se todos na casa lidam da mesma forma com o dinheiro.

O que se pode esperar de crianças educadas em famílias onde o nível de consumo é muito alto, planeja-se pouco e não há disciplina? Essas crianças, quando crescerem, dificilmente conseguirão se livrar do modelo vivido na infância e na adolescência. Pior, provavelmente, nunca ganharão o suficiente para manter o estilo de vida perdulário acostumado na infância.

O contrário também é verdadeiro. Os pais exemplares com gastos muito menor em relação ao recebido, mensalmente, criam filhos disciplinados. Eles, em geral, se tornam autossuficientes quando adultos.

Os pais gastadores muito se afligem, em geral, com preocupações muito características em relação a seus filhos. Têm medo deles pensarem ser o patrimônio dos pais a fonte permanente de sua renda. Temem ter de sustentar seus filhos quando adultos.

Os filhos, por sua vez, têm inquietações parecidas: meu pai terá condições de me sustentar por todo o tempo de minha vida?! Muitos filhos de pais indisciplinados não conseguem comprar nem um pequeno imóvel sem a ajuda do pai e da mãe.

Cria-se um círculo vicioso. A situação de dependência traz mais medo e insegurança, dificultando ainda mais a sua autonomia. Os gastadores não conseguem abandonar o conforto espiritual da frase-feita: “eu mereço, eu me premio, é um luxo ao que me permito”. E tome gastos com restaurantes de alto custo e viagens selfies exibicionistas! Continue reading “Educação Financeira para se Tornar Milionário”