Cuidados com Idosos: Problema de Finanças Públicas e Pessoais

Damien Ng (Valor, 24/05/19) analisa o envelhecimento populacional. O mundo está à beira de uma transformação demográfica verdadeiramente notável. Pela primeira vez na história humana, espera-se que o número de pessoas com 60 anos ou mais ultrapasse o de crianças com menos de 10 anos, até 2030.

Havia cerca de 962 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2017 em todo o mundo, mais que o dobro de 1980 (382 milhões). Este número, de acordo com o Relatório sobre o Envelhecimento Populacional das Nações Unidas 2017, deverá crescer para quase 1,41 bilhão até 2030 e para cerca de 2,1 bilhões até 2050. Em comparação, a fatia de pessoas com mais de 80 anos deve crescer ainda mais rapidamente, de 137 milhões para 425 milhões em 2050, um aumento de três vezes.

Esse crescimento é resultado principalmente de quatro fatores:

  1. taxas de fertilidade mais baixas,
  2. queda na taxa de mortalidade em todas as faixas etárias,
  3. melhores tratamentos médicos e
  4. mudanças no estilo de vida e dieta. Continuar a ler

Finanças Comportamentais adotadas para Aconselhamentos Financeiros

Adriana Cotias (Valor, 10/06/19) narra: dois macacos-pregos são recompensados desigualmente ao executar a tarefa de devolver pedrinhas para o cientista. Um deles recebe uvas, alimento preferido da espécie, que costuma viver em grupo. O outro é pago com fatias de pepino. Ao ver esse sistema se repetir, o animal que ganha o vegetal e vê o seu par agraciado com a frutinha reage à injustiça. Balança raivosamente a divisória que o separa da pessoa que o alimenta, atira o pepino de volta, bate no patamar fora do cercado, mostrando a sua contrariedade (o vídeo pode ser visto acima).

O experimento, feito pelo professor alemão Frans de Waal, especialista em comportamento de primatas da Universidade de Emory, em Atlanta (EUA), dá pistas a respeito das reações emocionais e o senso de justiça não serem características exclusivas da espécie humana.

São vieses cognitivos, isso ilustra bem a aversão a perdas e mostra mesmo os macaquinhos estarem sujeitos a vieses. Errar não é só humano, faz parte da evolução biológica da espécie.

Há evidências de decisões irracionais serem tomadas por pessoas o tempo todo. O excesso de confiança ou a aversão a perdas acabam tendo influência muito grande na tomada de decisão e têm influência nos preços dos ativos.

A partir de 2002, quando o psicólogo israelense Daniel Kahneman ganhou o Nobel de Economia, as Finanças Comportamentais ganharam popularidade. Essa linha de pesquisa coloca em xeque a teoria econômica tradicional. Esta considera as tomadas de decisões, capazes de moverem as forças de mercado, serem essencialmente racionais. Para Kahneman, há duas formas de pensar:

  1. uma rápida, intuitiva e emocional; e
  2. a outra, mais lenta, examinada e mais lógica.

Os desvios sistemáticos de racionalidade identificam as várias tendências humanas. Ao tomar consciência delas, é possível traçar estratégias para evitar certas armadilhas mentais. Continuar a ler

Cinco Perfis Psicológicos conforme nossa relação com O Dinheiro

Francesc Miralles (El País, 26/05/2019) é escritor e jornalista, especialista em Psicologia Comportamental. Afirma nosso extrato bancário refletir mais fielmente quem somos em vez de muitos testes de personalidade.

Embora na nossa cultura o dinheiro seja quase um tabu, um assunto sobre o qual muitos evitam falar, certo é o dinheiro falar de nós. A forma de usá-lo revela se somos reflexivos ou impulsivos. As coisas com as quais gastamos mostram nossas prioridades vitais.

Segundo o espanhol Joan Antoni Melé, promotor da ética nos bancos e da economia consciente, o extrato bancário permite fazer uma radiografia das motivações da pessoa e dos seus pontos fracos. Esse é um dos temas abordados em Money Mindfulness, um ensaio de Cristina Benito. Ele foi traduzido a sete idiomas (não ao português). A economista traça cinco perfis psicológicos conforme nossa relação com o dinheiro.

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Investimentos Financeiros de Idosos

Gustavo Ferreira (Valor Investe, “onda conservadora” política desde as últimas eleições para as finanças pessoais dos brasileiros, esse povo sem educação financeira e dinheiro para buscar uma alternativa à caderneta de poupança. Dizer isso ser “um traço de personalidade” é uma idiotia — o conservadorismo em finanças pessoais é uma virtude, ao contrário de ser conservador ou direitista em política. Para quem já passou dos 60 anos, então, é quase a regra.

Levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostra: apenas 58,7% dos brasileiros acima dos 60 têm algum tipo de investimento. Dessa parcela, 90,1% têm suas economias aplicadas na poupança – bem acima dos 75% de quando consideramos investidores brasileiros de todas as idades.

Dos demais idosos (são apenas 10%), a maior parte se divide entre aplicações em títulos privados, como debênturesCDBs letras de crédito (2,9% do total); fundos de investimentos, como multimercados, cambial e de ações (2,8%); e planos de previdência privada (2,8%).

Quem escolhe aplicar em papéis de empresas listadas em bolsa, sem ser via fundos, ou em títulos públicos vendidos pelo Tesouro Direto são muito poucos, 0,8% e 0,7%, respectivamente. Ora, são os ricos acionistas! Confira o quadro acima elaborado por mim (FNC).

Acho incrível um jornalista especializado, assim como a própria ANBIMA, falar de investimentos financeiros pessoais sem se referir à estratificação social por renda e/ou riqueza. Fala em “Os Brasileiros”! Ora, quem são eles?! 121 mil pessoas ricaças (média per capita de R$ 9,2 milhões) de 56 mil famílias, cuja média per capita de riqueza financeira no primeiro trimestre de 2019 estava em R$ 19,9 milhões!

Tamanho “conservadorismo” em Finanças Pessoais, antes de ser um problema, reflete os vários anos de vida corridos. Nesta altura da vida, já acumulou (ou não) o patrimônio financeiro para sua aposentadoria.
Pode ser explicado por dois fatores, de acordo com a Associação Brasileira de Planejadores Financeiros (Planejar):
  1. Várias crises econômicas ao longo de décadas. As entradas e saídas de planos econômicos e novas moedas, além de uma inflação muito elevada, cristalizaram a cautela ou prudência como a principal característica desse público;
  2. Horizonte restrito de tempo pela frente. O investidor acima dos 60 anos, em geral, já formou o seu patrimônio. Como o período de esperança de vida é menor para reverter eventuais prejuízos, se comparados aos anos de juventude, acaba abandonando as alternativas mais arriscadas.

A ignorância dos analistas a respeito da estratificação social necessária para se analisar riqueza é tamanha a ponto de não saberem o seguinte.

  • A renda média dos trabalhadores brasileiros (+/- R$ 2.300) recebe quem tem o Ensino Médio completo e se situa no decil entre 70% e 80% da pirâmide de riqueza.
  • A mediana é R$ 1.171, ou seja, 50% dos trabalhadores não têm nem o Ensino Fundamental completo e recebem menos de 17% acima do salário mínimo.
  • Quem tem Ensino Superior já se situa entre os 10% mais ricos ao ganhar mais de R$ 5 mil.
  • Quem tem Doutorado passa dos R$ 10 mil e fica entre os 5% mais ricos.
  • Quem tem uma carreira completa poderá chegar ao 1% mais rico ao receber acima de R$ 27 mil. Continuar a ler

Especialista em Poupar Dinheiro

Maria Cristina Fernandes (Valor – Eu&Fim-de-Semana, 26/04/19) escreveu sobre “Money Saving Expert”: o maior fenômeno do jornalismo mundial.

Na quinta-feira antecedente à Páscoa, milhões de ingleses receberam em sua caixa postal uma “newsletter” com dicas sobre os postos de gasolina mais baratos do seu trajeto de viagem, dicas de direção para economizar combustível, opções de lazer gratuitas no feriado e restaurantes em que crianças comem por uma libra. Na quinta-feira anterior, a “newsletter” dedicara-se a comparar tarifas das companhias aéreas e dos aeroportos, preços cobrados pelas companhias de seguro, cartões de crédito e planos de operadoras de celular para uso no exterior.

O leitor atravessaria o feriado de Páscoa no computador se se dispusesse a perscrutar todas as dicas recebidas. Seus 13 milhões de assinantes que fazem da “newsletter” semanal “Money Saving Expert” o maior fenômeno do jornalismo mundial. Com uma diagramação simples, sem anúncios, coalhada de números e dicas para baratear seu consumo, tem uma circulação superior à do maior jornal do mundo, o japonês “The Yomiuri Shimbun” (9 milhões), e do mais influente, o “The New York Times” (4 milhões).

Seu autor, o inglês Martin Lewis, tornou-se o jornalista de maior audiência no mundo. O site (https://www.moneysavingexpert.com/), somado aos dois programas semanais na televisão e a um terceiro na rádio BBC, além das colunas publicada em mais de 50 jornais e revistas britânicos, e best-sellers de Finanças Pessoais transformaram-no numa celebridade.

Além de influente, Lewis é rico. Em 2012, vendeu seu site, fundado em 2003, para uma empresa de comparação de preços por 87 milhões de libras (R$ 443,7 milhões), mas continuou à frente de sua operação, que agrega mais de cem jornalistas. Em um perfil que lhe dedicou, o “The Guardian” atribui seu sucesso à competitividade do mercado britânico que, com seus mais de 300 bancos, dúzias de companhias de energia, operadoras de celular e de banda larga, tornou mais complexas as decisões de consumo do dia a dia.

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Literatura de Autoajuda para Empreendedorismo

Preparando-me para oferecer um Curso de Finanças Comportamentais para Planejamento Financeiro Pessoal, li e resenhei muitos livros de autoajuda financeira em Fernando Nogueira da Costa – Leituras de Cabeceira – Finanças.

Oriento também um aluno na elaboração de tese sobre Finanças Comportamentais. Sugeri, em um primeiro capítulo, testar a hipótese de influência dessa literatura na prática profissional de gestores de fortuna. Ele deve escrever o capítulo inicial com quatro tópicos componentes de uma resenha sobre essa literatura de autoajuda financeira:

  1. Em qual debate ela se insere? Qual é o estado-da-arte nesse debate? Mudou ao longo tempo, passando de guia espiritual para “mudança de mentalidade”, seguindo por um individualismo metodológico, até chegar a uma visão holística do problema macro sistêmico de decisões financeiras? Ela se refere apenas à economia de mercado de capitais norte-americana ou serve também à economia de endividamento, característica do resto do mundo? Há transição de uma, onde é típica a renda variável, para outra, onde se investe em renda fixa?
  2. Quais são os principais conceitos encontrados nessa literatura: participações acionárias? Alavancagem financeira? Idealizações comportamentais? Há conselhos recorrentes em todos os autores para a tomada de decisões práticas?
  3. Qual autor avança com conceitos originais e se destaca entre todos os demais? Por que?
  4. Sobre o que de importante, nas Teorias das Decisões Financeiras, essa literatura não diz nada a respeito? Finanças Racionais? Finanças Comportamentais? Qual é a ideia original obtida ao lê-la de maneira crítica?

Cito e comento abaixo [entre colchetes] o texto de Sam Altman. É mais um exercício intelectual preparatório ao fazer comentários sobre seu “breve guia excêntrico de autoajuda”. Ele é blogueiro americano e empreendedor. Este texto foi originalmente publicado em seu blog, traduzido e publicado pela revista Época (07/03/2019). Continuar a ler

Inteligência Artificial X Ignorância Natural dos Investidores

Martha Funke (Valor, 31/01/19) avalia: as tecnologias de inteligência artificial abrem espaço em corretoras e gestoras de investimentos. Além de facilitar a vida de investidores sem acesso aos tradicionais serviços de gestão de patrimônio, ajudam a compor fundos sustentados por regras automáticas para pesquisa de padrões e implementação de operações.

Seival Investimentos e Visia estão entre as gestoras de fundos baseados na tecnologia.

Em 2018, o Seival FGS, por exemplo, rendeu 41% com modelos quantitativos seguidores de tendências.

A Visia, com patrimônio sob gestão perto de R$ 900 milhões, busca ineficiências de mercado em repetição de padrões e usa aprendizado de máquina (machine learning) para executar ordens de compra sem impactar o mercado. Seu fundo Zarathustra anuncia ter rendido 240% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) em 2018. [Sem esquema de Pirâmide Ponzi?!]

A falta de familiaridade com conceitos e lógica das finanças colabora para a popularização dos robôs para aconselhamento. Para o CEO da Warren, 85% dos investidores brasileiros preferem delegar decisões de investimentos por falta de conhecimentos suficientes sobre o tema. Continuar a ler