Educação Financeira e Equívocos de “Economistas Especialistas”


Ana Estela de Souza Pinto (FSP, 11/12/17) publicou longa reportagem sobre assunto sobre o qual me surpreende a quantidade de asneiras com que “economistas-especialistas” pautam a imprensa: o suposto “hábito de poupança”. Os colegas com formação ortodoxa tratam esse tema macroeconômico e social como fosse:

  1. uma questão de força-de-vontade individual,
  2. um “sacrifício para chegar ao paraíso do consumo futuro”, via uma parcimônia religiosa, ou
  3. um imediatismo/consumismo de O Brasileiro — mas quem é, hein? –, devido ao Estado de Bem-Estar Social brasileiro!

Acreditem: já li colega-colunista afirmando isso sem nenhum pudor — e ainda achando que reforçava seu argumento ao dizer que “o Estado chinês por não oferecer essa nossa extraordinária qualidade de vida tornou os chineses poupadores”! Podes crer…

Tendo a ignorância chegado a esse patamar inacreditável, mas que eu não ousaria dizer insuperável, pois ela pode sempre surpreender, é prudente eu lembrar aos leitores um be-a-bá keynesiano ou de Finanças Comportamentais, comentando a citada reportagem. Não se deixem engabelar por “economistas-especialistas” com a péssima formação ortodoxa! Continue reading “Educação Financeira e Equívocos de “Economistas Especialistas””

Finanças dos Trabalhadores: Investir para Aposentadoria

Segundo reportagem de Gilmara Santos (FSP, 27/11/17), a dúvida sobre as regras em vigor na Previdência Oficial fez muitos recorrerem  Planos de Aposentadoria Complementar para tentar assegurar uma renda do capital financeiro no futuro.

Em agosto de 2017, esses planos (PGBL/VGBL) ganharam mais de 1 milhão de participantes ante o mesmo mês do ano passado, de acordo com a Fenaprevi (federação que reúne as entidades do setor). A captação líquida, ou seja, a diferença entre contribuições e resgates, estava positiva em R$ 34,17 bilhões no ano.

A tendência é que as discussões envolvendo a reforma impulsionem ainda mais a procura por esses planos. Embora o intuito da previdência privada sempre tenha sido importante, todos profissionais que recebem mais de dois salários mínimos — média do INSS — estão preocupados porque vão ter que contribuir fora da Previdência Social.

É preciso buscar alternativas na Previdência Complementar, pois a oficial está deficitária por causa da Grande Depressão — e os golpistas estão mudando as regras durante o jogo. O plano do governo temeroso precisa ser apreciado no plenário da Câmara e do Senado, em dois turnos. Continue reading “Finanças dos Trabalhadores: Investir para Aposentadoria”

Gestão da Dívida Pública pelo Tesouro Nacional

demanda estrutural por títulos prefixados mais longos, sustentada especialmente por Fundos de Previdência Aberta (PGBL/VGBL), segundo José Franco Medeiros de Morais, subsecretário da Dívida Pública do Tesouro Nacional. Essa obrigação normativa dos investidores em alongar posições levou a uma redução do custo do Tesouro na venda desses papéis a mínimas históricas na comparação com os juros de mercado. Para a STN, pagar spreads negativos por títulos longos pode ser “o novo normal“. Será verdade?

Na verdade, é conjuntural a demanda mais forte por papéis prefixados, pois ocorreu em função da firme tendência de queda da Selic. Ela ajudou o Tesouro a elevar o seu colchão de liquidez para perto de dez meses, prazo em torno de máximas históricas. Tradicionalmente, essa “folga” fica entre três e seis meses. Editei abaixo os principais trechos da entrevista a José de Castro (Valor, 17/11/17), para no final do post tirar lições para uma estratégia adequada aos investidores pessoas físicas trabalhadoras. Continue reading “Gestão da Dívida Pública pelo Tesouro Nacional”

Perfis dos Investidores Financeiros no Brasil

A pesquisa da ANBIMA sobre a trajetória financeira do brasileiro ganhou dados quantitativos. Uma rápida olhada acima dá para verificar que a diferença substantiva de Educação Financeira entre o Ensino Fundamental e o Ensino Superior é que, entre estes, há mais “sonhadores”. E entre as gerações é de se esperar pela “ordem natural de amadurecimento” que os jovens até 21 anos sejam proporcionalmente mais “sonhadores”. E os velhos baby-boomers planejam menos, afinal, entre 53 e 72 anos, estão na fase de desfrute (consumo) e não de acumulação.

Na primeira etapa, a pesquisa identifica as cinco formas mais comuns das pessoas se relacionarem com dinheiro (veja a descrição e a distribuição de cada um deles no material para download no final do post) que deram origem aos perfis:

  1. despreocupado: 11%,
  2. camaleão: 29%,
  3. construtor: 30%,
  4. sonhador: 8%,
  5. planejador: 22%.

Na segunda fase, os pesquisadores foram às ruas, com ajuda do DataFolha, para saber quantos somos em cada um desses segmentos. Ouviram 2.653 pessoas das classes A, B e C de 130 municípios do Brasil.

O levantamento identificou que para apenas 22% da população, os chamados planejadores, guardar dinheiro é um compromisso. Essas pessoas são consideradas organizadas e têm uma relação forte e sadia com o dinheiro.

O trabalho é parte de uma iniciativa maior, liderada pela área de Educação da ANBIMA, que teve como ponto de partida buscar explicações para a baixa poupança do brasileiro.

[Fernando Nogueira da Costa: simples, posso explicar ou desenhar de graça, é por causa do crescimento em ritmo muito baixo da renda agregada em comparação com o padrão de consumo das diversas classes de renda.] Continue reading “Perfis dos Investidores Financeiros no Brasil”

Educação Financeira: Necessária, Mas Não Suficiente para a Boa Vida

Acho impressionante a capacidade reducionista que tem a “opinião especializada” brasileira, predominantemente, com formação ortodoxa em Economia, de “analisar o mundo a partir do próprio umbigo”!

Essa formação é tão precária a ponto de pessoas incultas — “que se acham superiores aos heterodoxos (sic)” — desconhecerem a diferença entre individualismo metodológico e holismo metodológico. O primeiro estabelece que as explanações sobre os fenômenos sociais, políticos ou econômicos somente devem ser consideradas adequadas se colocadas em termos de crenças, atitudes e decisões dos indivíduos. O segundo, pelo contrário, postula que os conjuntos sociais têm fenômenos sistêmicos que não podem ser reduzidos a crenças, atitudes e ações dos indivíduos que os fazem.

Evidentemente, o conhecimento específico de um macroeconomista “heterodoxo” o dota de uma visão holística que o microeconomista “ortodoxo” desconhece. Exemplo mais comum disso diz respeito ao Paradoxo da Parcimônia: se todos poupam, i.é, cortam gastos, caem as vendas e, em consequência, a renda se torna menor. Como o padrão básico de consumo permanece, ao fim e ao cabo, a posteriori, ex-post, etc., cairá a poupança ao contrário do que esperava a visão individualista e era a intenção da pessoa inicialmente.

Outro equívoco rudimentar dos economistas ortodoxos: não diferenciar entre poupadores — aqueles que, passivamente, verificam a sobra de renda no fim do mês — e investidores — aqueles sujeitos ativos que planejam seu “débito automático” e/ou seu “consignado” (desconto do fluxo de renda recebida) mensal para realizar investimentos. Estes sabem que têm de investir durante 360 meses 20% da renda recebida para, após esses trinta anos, já obter uma renda do capital financeiro suficiente para substituir sua renda do trabalho, isso considerando a taxa de juros média mensal de 0,5%. No Brasil “neoliberal”, esta costuma ser a taxa de juro real…

Adriana Cotias (Valor, 09/11/17) avalia que “as iniciativas de Educação Financeira no país nos últimos anos têm sido insuficientes para incrementar a poupança do brasileiro“. É o que sugere sua leitura de um levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que mostra que apenas cerca de um quarto da população economicamente ativa (24%) faz algum tipo de investimento. Entre os que guardam dinheiro, a maioria pertence à classe A (42%), com a classe C na ponta oposta (18%). E o instrumento preferido daqueles que deram esse passo é a caderneta de poupança, uma via de eficiência questionável.

Esses dados constam na pesquisa “Relatório ANBIMA – Debate-Relação do Brasileiro com Dinheiro“. Na coleta, feita pelo Datafolha em junho, foram ouvidas 2.653 pessoas com mais de 16 anos das classes A, B e C, em 130 municípios de todo o Brasil. O recorte sobre investimentos foi aberto pela Anbima. O estudo confirma um diagnóstico feito pelo Banco Mundial, que em 2014 apontava que os poupadores representavam 28% da população brasileira, metade do percentual em outras economias. Regionalmente, no Brasil se guarda menos dinheiro do que em países com renda per capta menor na América do Sul, caso de Bolívia ou Paraguai.

[Fernando Nogueira da Costa: para se ver o baixo nível da formação ortodoxa brasileira, os economistas, convencionalmente, tomam o dado de poupança na Contabilidade Social para diagnosticar as reservas financeiras individuais! Ora, uma economia depressiva e/ou rastejante, como está a brasileira atualmente, o ritmo de crescimento do fluxo da renda está inferior ao do fluxo de consumo, portanto, a variável contábil residual “poupança macroeconômica ex-post” está muito baixa. E daí? Os haveres financeiros, segundo o indicador M4/PIB, estão em torno de 100% do PIB!] Continue reading “Educação Financeira: Necessária, Mas Não Suficiente para a Boa Vida”

Milionários “Poupadores” e “Investidores” em Automóvel: Maus Exemplos de “Bons Clientes”

Danielle Brant (FSP, 23/10/17) publicou reportagem sobre um aparente mistério de irracionalidade sem esclarecer o perfil dos clientes milionários que investem em caderneta de poupança. Qual é a faixa etária? Será que é ainda o trauma do “confisco da poupança” pelo Collor há ¼ de século?! O argumento é que “um novo confisco de depósitos de poupança por O Governo criaria uma grande tensão social”?!

Estamos vivendo sob o império da burrice. Na rede social — e na vida pública –, se perdeu o pudor de demonstrar a ignorância, pois sempre se acha algum ignorante que concorda consigo. É o viés heurístico da auto validação ilusória.

Além de abrir mão de um ganho maior, quem deixa mais de R$ 1 milhão na caderneta ainda tem que lidar com o risco de perder parte do dinheiro em caso de quebra da instituição financeira em que os recursos estão. O FGC (Fundo Garantidor de Créditos) assegura depósitos até R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira. No caso de quem tem mais que R$ 1 milhão, seria necessário dividir os valores em bancos diferentes para contar com a garantia integral do FGC. Leia: FGC Censo 2016 e FGC-06.2017. Continue reading “Milionários “Poupadores” e “Investidores” em Automóvel: Maus Exemplos de “Bons Clientes””

Comportamento Conservador dos Investidores: “tem que manter isso aí, viu?”

Quem sabe quanto custa ganhar dinheiro com trabalho tem medo de perdê-lo, devido a uma decisão equivocada na escolha do portfólio. É estressante a seleção da carteira de ativos – formas de manutenção de riqueza. Esta é o estoque em que são transformadas as sobras não gastas do fluxo de renda recebida, seja pelo trabalho, seja por outras posses, por exemplo, alugueis de imóveis ou automóveis, juros de empréstimos, lucros de capital produtivo e ganhos de especulação. O comportamento usual dos investidores, na hora de decisões, se pauta por conservadorismo.

Ser conservador em Finanças Pessoais é uma virtude. Em política, é um defeito. Em país instável, temos de ser conservadores para não perder dinheiro frente à instabilidade política e econômica, provocada por conservadores que dão golpes de Estado, seja militar, seja civil semi-parlamentarista. Eles nos tiram a segurança pública e financeira.

Além do cenário futuro a ser avaliado, racionalmente, temos de dedicar enorme esforço emocional em autocontrole. O autoengano é comum. Por exemplo, você entra em uma sorveteria cara. Pede uma bola e a atendente pergunta se você deseja “copinho” ou “copão”. Qual resposta você dá? Copinho, lógico! Assim, sairá feliz com o copinho transbordando e não com uma bolinha de sorvete perdida no meio do copão…

Esta “Síndrome do Copo-de-Sorvete” alerta que, se o cérebro prefere o caminho mais curto para decidir, não se deve decidir por impulso, mas sim preocupando-se com as informações essenciais e excluindo as inúteis. Sendo a economia um sistema complexo, necessitamos ponderar todos os componentes que interagem para a emergência de uma trajetória dinâmica. Feito isso, cuidadosamente, saberemos transformar complexidade em simplicidade, colocando foco no que realmente importa.

Assim, não nos deixaremos iludir por propaganda enganosa, seja oficial, seja oficiosa, de economistas neoliberais que desejam “dourar a pílula” das consequências amargas de suas pregações não contestadas pela imprensa chapa-branca. A carência de debate pluralista entre ideias antagônicas, na mídia brasileira, leva a erros recorrentes. Continue reading “Comportamento Conservador dos Investidores: “tem que manter isso aí, viu?””