Refis do Futebol (PROFUT) e Corrupção Privada

Clubes de Futebol Devedores

Edna Simão (Valor, 11/04/2016) denuncia que o Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro (Profut), criado no ano passado para socorrer clubes de futebol, está sendo usado para beneficiar empresas de outros setores, mas pertencentes ao mesmo grupo empresarial. Um dos casos é o do Brasiliense, clube do ex-senador Luiz Estevão que somou suas dívidas às do Grupo OK. Com isso, o débito que poderá ser pago em 20 anos e com desconto, passa de R$ 15 milhões para mais de R$ 900 milhões.

No pedido de adesão ao Profut, o Brasiliense assumiu dívidas de outras empresas de Estevão, como as do Grupo OK – assim, as dívidas com a União seriam pagas com desconto nas multas e nos juros. O ex-senador está preso há pouco mais de um mês, cumprindo pena de 31 anos por crimes de peculato, corrupção ativa, estelionato, formação de quadrilha e uso de documento falso.

Apesar da desvirtuação do programa, afinal o Profut foi idealizado para melhorar a situação financeira de clubes de futebol, a legislação brasileira permite que uma empresa seja acionada para pagar dívidas de outras do mesmo grupo, dizem fontes ligadas à avaliação das adesões do Profut. Essa prática já é adotada tanto pela Receita Federal quanto pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) para conseguir receber dívidas da União. “Se [as empresas] compartilham patrimônio e faturamento, as dívidas também são compartilhadas”, diz uma fonte. Continue reading “Refis do Futebol (PROFUT) e Corrupção Privada”

Corrupção Privada e Destruição do Futebol Brasileiro

United X Brazil

João José Oliveira (Valor, 08/04/16) informa que um clube de futebol fundado há 140 anos numa cidade industrial inglesa, que tem mais dias chuvosos que ensolarados durante o ano, e que estampa como mascote a figura do diabo, não parece uma marca capaz de atrair dezenas de milhares de fãs para um evento dominical na praia mais famosa do Brasil. Mas é isso o que o Manchester United vai fazer. Mais de 350 mil pessoas se inscreveram nas redes sociais para concorrer a ingressos para o evento do maior time de futebol do mundo nas areias de Copacabana.

O evento, no formato usado pela Fifa nas FanFests, durante as Copas, com telão exibindo o jogo ao vivo pelo campeonato inglês, contra o Tottenham, de Londres, terá áreas de alimentação e bebidas, atividades esportivas com ex-atletas do clube e, claro, sorteios e vendas de produtos oficiais do clube e dos patrocinadores globais do time, como Chevrolet, Adidas, Concha & Toro e AON, em uma ação organizada pela agência Octagon.

Pesquisa do Ibope/Repucon no fim do ano passado em um universo estimado em 27,4 milhões de jovens apontou que 69% dos internautas brasileiros com idade entre 16 e 24 anos se diziam torcedores de algum time estrangeiro. Cinco pontos percentuais mais que um ano antes. Continue reading “Corrupção Privada e Destruição do Futebol Brasileiro”

Corrupção no Futebol Internacional: E a TV Globo Nada a Ver?

Neymar

O curioso da investigação do MP, PF e Poder Judiciário brasileiros sobre corrupção é que não envolve o conluio extremamente visto há anos entre a CBF e a Rede Globo. Se esta não deve, não temeria ser investigada. Mas todos ficam de “bico calado”, assim como não investigam as corrupções nos Estados governados por aquelas espécies de bico grande. A classe dominante sabe se defender enquanto golpeia os adversários…

Em alguns exemplos, os promotores americanos estão investigando as próprias empresas por possíveis irregularidades. Em outros, ainda não está claro se as empresas são o alvo da investigação ou se os promotores buscam apenas a cooperação delas.

Embora as autoridades dos EUA pretendam chegar a acordos com algumas companhias, possivelmente nos próximos 12 meses, o progresso tem sido mais lento que o esperado, em parte porque as investigações envolvem dezenas de outros países e estruturas empresariais obscuras. Continue reading “Corrupção no Futebol Internacional: E a TV Globo Nada a Ver?”

Negócio da China: Futebol

Futebol na China

 

“Cuidado, alerta o técnico do clube britânico Arsenal, Arsène Wenger: um êxodo em massa de talentos do futebol da Europa para a China pode estar a caminho, estimulado por valores recorde de transferências e salários graúdos.

Sim, a China, o mesmo país cuja seleção de futebol é um fracasso humilhante, refletindo uma longa história de corrupção e manipulação de resultados dos campeonatos locais. No ranking mais recente da Federação Internacional do Futebol (Fifa), a China está só uma posição acima das Ilhas Féroe, um arquipélago rochoso com 50 mil habitantes entre a Islândia e a Noruega.

A China não tem tradição em esportes universitários. Os pais não costumam encorajar os filhos a jogar futebol. As áreas verdes de Xangai, a maior cidade do país, são cercadas. E a elite chinesa é obcecada com o golfe, não com o futebol — ainda que as massas de trabalhadores sejam loucas pelo esporte.

Talvez só um estadista poderoso e determinado possa dar uma reviravolta grande o suficiente nesse cenário a ponto de atrair a nata do futebol mundial. E ele está se manifestando na figura do presidente Xi Jinping. Continue reading “Negócio da China: Futebol”

Depreciação da Moeda Nacional: Declínio ou Renovação do Futebol Brasileiro?

Jogadores contratados em 2011-16Guilherme Seto e Vinicius Pereira (FSP, 02/02/2016) publicaram uma interessante reportagem sobre a hipótese de que “crise econômica leva clubes do Brasil a declínio técnico”. Eles partem do pressuposto de que o mercado de transferências do futebol brasileiro sente profundamente o efeito da crise financeira no país. O parti pris só é revelado agora, quando novamente o time campeão brasileiro foi desmontado pelas transferências dos melhores jogadores para o exterior. No início do ano passado, isso tinha ocorrido com o bicampeão, o Cruzeiro, mas a imprensa paulista calou-se. No ano corrente, foi a vez do Corinthians.

Eles argumentam que, “nessa última janela de transações (de janeiro ao início de fevereiro), foram feitas as contratações mais modestas dos últimos anos, o que gerou uma desqualificação técnica nos clubes.

Os times têm perdido os jogadores que vieram em um ciclo positivo que pode ser demarcado, em linhas gerais, no período que vai de 2010 a 2013, anos em que o PIB (Produto Interno Bruto) registrou crescimento repetidamente, com ápice de 7,6% no primeiro ano.

Com o fechamento da janela em alguns dos principais polos europeus entre segunda (1º) e terça (2), como Alemanha, Itália e Inglaterra, quase nenhum jogador renomado foi seduzido pelo Brasil –exceção feita ao zagueiro Henrique, que disputou a Copa de 2014, estava no Napoli (ITA) e desembarcou no Fluminense.

Em 2015, o dólar subiu 49% ante o real na maior valorização anual registrada desde 2002, ultrapassando o patamar dos R$ 4 nos picos da crise.

Esses números apontam para uma fragilização da economia brasileira e, por tabela, dos clubes do país.

A desvalorização da moeda faz com que os clubes percam competitividade na gestão de jogadores. A maioria dos atletas que atuam no exterior têm contratos em dólar, e os times brasileiros recebem (e pagam) em reais.

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Faturamento X Lucro em Futebol

 

Em análise dos borderôs divulgados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a Fundação Getúlio Vargas (FGV) realizou levantamento sobre o faturamento em bilheteria dos jogos do primeiro turno do Campeonato Brasileiro. Segundo o estudo, o Atlético é um dos líderes em bilheteria, com arrecadação de 10,1 milhões – o percentual de lucro é de 53%. Por sua vez, o Cruzeiro é o terceiro com maior percentual de lucro, com 73%. A Raposa arrecadou R$ 5,7 milhões na metade inicial da competição, embolsando 4,1 milhões.

Esses valores representam o dados discriminados nos balanços financeiros. Logo, eles variam de acordo com a padronização de cada balanço, que difere de clube para clube. É importante ressaltar que as arrecadações não são, de fato, o montante que cada clube recebe, uma vez que parte do dinheiro se refere a um percentual do valor pago pelo sócio-torcedor. Os clubes, assim, colocam no demonstrativo valores fictícios para cada associado, sendo que em alguns programas os torcedores têm entrada liberada sem o pagamento do ingresso.

Líder de público, o Palmeiras está à frente em relação à arrecadação com bilheteria, com R$ 23,4 milhões, seguido por Corinthians (R$ 13,9 milhões) e Grêmio (R$ 8,2 milhões). Continue reading “Faturamento X Lucro em Futebol”

Concentração Econômica no Futebol

Concentração no Flamengo e Corinthians

Na minha última visita à Santa Catarina, terra amável, perguntei aos catarinenses como seu Estado tinha conseguido colocar quatro times — Chapecoense, Joinville, Figuerense, Avaí — na série A do Campeonato Brasileiro, sendo que um quinto — o Criciúma –, que eles consideram o mais rico deles, pois é patrocinado por uma corporação local, caiu para a série B no ano passado. Será que foi devido à melhor distribuição de riquezas no Estado, originalmente, por causa dos imigrantes alemães que possuíam minifúndios? Será resultado do futebol alemão do 7 X 1?!

Será que esses times catarinenses, devido à concentração de riqueza nos grandes times de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre, cairão todos para a série B em 2016? E o Goiás e o Sport?

Temos que incorporar os estudos de concentração de riqueza à análise do futebol, para verificar que a “livre-competição” não existe também no esporte profissional. As linhas-de-partida são desiguais e há tendência de “espanholarização” (Real Madrid e Barcelona como únicos reais candidatos a campeões) no futebol brasileiro (“flatimão“), que prima-se pela rotatividade de títulos entre os times do “Clube dos Treze”: 4 do RJ, 4 de SP, 2 de MG, 2 de POA, 1 de Salvador. Dois times do Rio (Botafogo e Vasco) estão já perdendo o mercado para os dois de Curitiba…

No entanto, a estrutura mental dos economistas de O Mercado que analisam as Finanças do Futebol não é a mesma dos que analisam as Finanças Públicas? Sim, se a comparação for com uma equipe de especialistas em balanços do Itaú BBA, braço de atacado e investimentos do maior grupo financeiro do país. Segundo João José Oliveira (Valor, 24/08/15), essa equipe avalia que a elite do futebol brasileiro, participante da Série A do Campeonato nacional, terá que ser mais conservadora e jogar na defensiva para evitar, em 2016, um agravamento da crise financeira que se aprofundou em 2014. Na opinião conservadora, os gestores terão que:

  1. ser mais cautelosos na contratação de jogadores,
  2. cortar gastos e
  3. elevar receitas para equilibrar as finanças.

A gestão dos clubes brasileiros piorou muito. A maioria dos times precisa se adequar à realidade, traçar metas factíveis com seus tamanhos”, diz o gerente de crédito para grandes empresas do Itau BBA, Cesar Grafietti. Não analisa a dependência de trajetória com sua retroalimentação: derrotas esvaziam as finanças dos clubes! Assim como recessão (queda do PIB) diminui a arrecadação fiscal…

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