Placares de Futebol e “Freguesia”: o Passado não guia o Futuro, mas sim o Acaso e as Falhas Presentes no Jogo

https://s3-sa-east-1.amazonaws.com/nexojornal/www/newsletter/noseixos/jul2018/noseixos1b.png

A Copa do Mundo da FIFA de 2018, sediada na Rússia, começou oficialmente no dia 14 de junho, e já está na fase final, com França e Croácia na disputa pela taça. Neste gráfico, publicado como parte da cobertura especial do mundial, o Nexo analisou o histórico de desempenho do Brasil contra os diversos adversários — não apenas nas Copas, mas em todas as partidas de 1914 até os últimos jogos antes da Copa da Rússia.

O primeiro fator a ser analisado é o saldo de gols, ou seja, a diferença entre o número de gols marcados e de gols sofridos pelo Brasil em todas as suas partidas. É possível ver que o saldo positivo de um gol é o mais comum para a seleção, seguido de um empate e do saldo de dois gols. Outros saldos, mais incomuns, como a goleada de 10 a 1 contra a Bolívia em 1949, e grandes derrotas, como o 7 a 1 contra a Alemanha em 2014, também são visíveis no gráfico.

Os placares resultantes nesses saldos de gols são demonstrados por meio da seguinte visualização. Traz em um eixo o número de gols feitos pelo adversário e, no outro, o número de gols feitos pelo Brasil. Quanto maior o círculo em determinada casa do gráfico, mais frequente é aquele placar. Dessa forma é possível observar tanto os placares mais comuns quanto as goleadas.

https://s3-sa-east-1.amazonaws.com/nexojornal/www/newsletter/noseixos/jul2018/noseixos2b.png

Continue reading “Placares de Futebol e “Freguesia”: o Passado não guia o Futuro, mas sim o Acaso e as Falhas Presentes no Jogo”

Neuroeconomia e Erros de Pensamento Comuns no Futebol

Neuroeconomia cataloga os erros recorrentes do pensamento humano. O animal humano repete erros, por exemplo, o segundo casamento é a vitória da esperança emocional sobre a experiência racional. A lógica não diz respeito a como pensamos, assim como a gramática não é referência de como falamos.

Um jogo de futebol constitui bom exemplo de conjunto complexo em ação. Com equipes equivalentes e campo neutro, como é na Copa do Mundo, é impossível acertar a priori os resultados de todas as partidas. Estes emergem de circunstâncias incontroláveis – e indeterminadas pelo passado. São onze indivíduos de um lado competindo com onze do outro lado para chutar ou cabecear a bola na rede da meta, ou seja, marcar “goal”.

As balizas de um campo de futebol são formadas por duas traves (ou postes) verticais, com o tamanho de 2,44 metros de altura e separados por um poste (ou travessão), na horizontal com o tamanho de 7,32 metros. Pelo número de gols conseguidos, quando a bola transpõe essa linha fatal, parece ser uma façanha bem mais difícil em relação a remessar uma bola com as mãos dentro de um aro da cesta de 45 centímetros de diâmetro. Os cestos do basquete são colocados a uma altura de 3 metros e 5 centímetros do solo.

Os jogadores selecionados entre os melhores do País são dotados de inteligência cinestésica, ou seja, agudo sentido da percepção de movimento, peso, resistência e posição do corpo, provocado por estímulos do próprio organismo. São treinados para atuar coletivamente. Porém, em poucas e raras vezes, a iniciativa particular coroa o sucesso em lances capitais. O maior número de finalizações vai para fora da meta ou é desviado para escanteio. Falhas dos atacantes são superiores às dos defensores, mas as destes últimos são fatais – e mais notadas. Continue reading “Neuroeconomia e Erros de Pensamento Comuns no Futebol”

Futebol e o Acaso

Simon Kuper & Stefan Szymanski escreveram o livro sobre futebol mais fundamentado em estatística jamais publicado: Soccernomics: Por que a Inglaterra perde, a Alemanha e o Brasil ganham, e os Estados Unidos, o Japão, a Austrália, a Turquia – e até mesmo o Iraque – podem se tornar o esporte mais popular do mundo(Rio de Janeiro; Editora Tinta Negra; 2010).

A maioria dos torcedores entende a sorte ser importante, mesmo eles construindo um história pós-factual sobre o torneio de futebol onde a vitória ou a humilhação parece determinada desde o início. Mas os dados apontam para uma situação ainda mais assustadora em vez da existência de acaso: não há praticamente nenhuma diferença entre equipes inglesas “brilhantes” e “terríveis”. Parece suspeito como se a seleção da Inglaterra fosse sempre mais ou menos igualmente boa.

Isso pode parecer difícil de acreditar. Os torcedores sentem fortemente as distintas qualidades de gerentes e jogadores. Há períodos de otimismo nacional e pessimismo nacional, associado à visão da equipe ser forte ou vergonhosa. Continue reading “Futebol e o Acaso”

Violência, Troca de Favores, Jogo de Interesses, Torcidas Organizadas, Avanço Tecnológico: Sociedade do Espetáculo do Futebol

Tostão, em “Tempos vividos, sonhados e perdidos: Um olhar sobre o futebol” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), continua seus comentários sobre o futebol atual.

“A violência nos gramados tem a ver com a violência presente na sociedade, que se espalha pelo futebol, nas brigas entre torcedores pelas ruas. Os jogadores e treinadores, pressionados e ameaçados para ganhar de qualquer jeito, perdem o controle, dão pontapés, carrinhos, brigam, discutem e agridem, para mostrar que têm raça.

Os técnicos são geralmente omissos. Passam o jogo reclamando do árbitro e gritando, para mostrar que “jogam com o time” — um dos milhares de chavões do futebol. Em vez de advertirem e punirem os atletas violentos, os técnicos colocam a culpa nos árbitros. Estes, fracos tecnicamente, ficam perdidos com tanto tumulto criado pelos treinadores e jogadores.

Outro fator importante para a queda de nosso futebol é a relação promíscua que existe entre empresários, investidores, clubes, federações estaduais e a CBF. É a troca de favores, uma das pragas da cultura brasileira. É comum um treinador e um jogador, das categorias de base ou do time principal, serem agenciados pelo mesmo empresário. Dizer que isso não pode gerar conflito de interesses é desconhecer a desmedida ambição humana.

Nem sempre os atletas que podem gerar lucros aos clubes são os que os técnicos querem colocar em campo. Os clubes, por comodismo e interesses escusos, são reféns desses empresários, que agenciam jogadores e técnicos e participam ativamente das contratações e das negociações para a saída de jogadores. Continue reading “Violência, Troca de Favores, Jogo de Interesses, Torcidas Organizadas, Avanço Tecnológico: Sociedade do Espetáculo do Futebol”

Papel dos Técnicos no Futebol

Tostão, em “Tempos vividos, sonhados e perdidos: Um olhar sobre o futebol” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), continua seus comentários sobre o futebol atual.

Os técnicos são importantes. Há treinadores ótimos e treinadores fracos, no Brasil e em todo o mundo. Uma grave deficiência de nosso futebol é a falta de continuidade, a troca excessiva no comando dos times, o que dificulta a formação de um bom conjunto. Paradoxalmente, uma das razões disso é a supervalorização dos técnicos, que se tornaram os maiores responsáveis pelas vitórias e pelas derrotas.

As análises dos resultados e das equipes passaram a ser feitas a partir da conduta dos treinadores. Os dirigentes se iludem com o fato de que a única solução para melhorar é mudar o comando. Os técnicos, quando contratados, são tratados como salvadores e gênios, e depois, quando demitidos, são tidos como burros. Há ainda os burros com sorte — título de um livro escrito por Levir Culpi — e os gênios com azar.

Os técnicos não são os únicos responsáveis pela queda de qualidade do futebol brasileiro nos últimos tempos, mas não se pode eximi-los de suas responsabilidades. O grande erro dos treinadores brasileiros, mesmo entre os mais estudiosos, foi seguir um caminho ineficiente e medíocre:

  1. de utilizar, durante muito tempo, a marcação individual, que já tinha sido abandonada pelos europeus;
  2. de privilegiar os chutões e os lançamentos longos, como se isso fosse moderno; de trocar poucos passes, como se isso fosse lentidão; e
  3. de muitos outros detalhes que empobreceram o futebol, com aplausos de parte da imprensa.

Esse período, paradoxalmente, foi o de maior valorização dos treinadores. Continue reading “Papel dos Técnicos no Futebol”

Queda de Qualidade do Futebol Brasileiro

Tostão, em “Tempos vividos, sonhados e perdidos: Um olhar sobre o futebol” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), continua seus comentários sobre o futebol atual.

“Muitos outros fatores contribuíram para a queda de qualidade de nosso futebol, como a diminuição da formação de grandes talentos, a promiscuidade nas relações comerciais entre empresários, federações, clubes e a CBF, a supervalorização dos técnicos, a troca excessiva de treinadores e jogadores, o calendário ruim e a violência dentro e fora dos gramados.

Muitas pessoas que trabalham nas categorias de base são escolhidas muito mais por amizades com dirigentes e com técnicos das equipes principais do que pelo conhecimento técnico. Mesmo os profissionais mais sérios e competentes costumam repetir o que falam e fazem os técnicos das equipes principais. Os bons treinadores das categorias de base preferem as equipes principais, porque dá mais prestígio e dinheiro, um desejo habitual do ser humano.

Decorar todos os desenhos táticos de todos os times e conhecer todas as informações, úteis e inúteis, não significa competência para ensinar. Conhecimento não é apenas informação. “Os que têm estudo explicam a claridade e a treva, dão aulas sobre os astros e o firmamento, mas nada compreendem do universo e da existência, pois bem distinto do explicar é o compreender, e quase sempre os dois caminham separados.”

Há uma geração cada vez maior de pessoas que sabem muito e conhecem pouco. A solução também não é colocar ex-atletas, independentemente de terem sido craques ou não, que não tiveram preparação técnico-científica para o cargo. O ideal seria unir as duas qualidades, a experiência de ter sido um atleta com a formação acadêmica. Assim como há preconceito dos acadêmicos com os ex-atletas, como se eles não tivessem preparo intelectual para o cargo, há também preconceito dos atletas com os técnicos formados nas universidades, como se fosse impossível alguém ser bom treinador sem ter sido atleta profissional. Continue reading “Queda de Qualidade do Futebol Brasileiro”

Comparação Tática entre o Futebol Europeu e o Brasileiro

Tostão, em “Tempos vividos, sonhados e perdidos: Um olhar sobre o futebol” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), continua seus comentários sobre o futebol atual.

“A mudança mais importante ocorrida na Europa nos últimos tempos foi tentar melhorar a qualidade do espetáculo e, consequentemente, lucrar mais com o futebol. A Premier League, na Inglaterra, foi criada em 1992, seguida pelas ligas formadas na Espanha, na Alemanha e em outros países. Isso foi importante para o crescimento do futebol europeu.

A Itália, que até 1992 tinha o melhor campeonato da Europa, ficou para trás em relação a Inglaterra, Espanha e Alemanha. Os alemães têm hoje a melhor média de público do mundo.

Os europeus, principalmente os ingleses, diminuíram a violência, dentro e fora dos estádios, e melhoraram os gramados e o conforto para os torcedores. Os jogos passaram a ter um número menor de faltas, são menos tumultuados, com mais tempo de bola em jogo, com mais intensidade e mais troca de passes. A importação dos melhores jogadores sul-americanos e africanos foi também decisiva para melhorar a qualidade do jogo. Continue reading “Comparação Tática entre o Futebol Europeu e o Brasileiro”