Queda de Qualidade do Futebol Brasileiro

Tostão, em “Tempos vividos, sonhados e perdidos: Um olhar sobre o futebol” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), continua seus comentários sobre o futebol atual.

“Muitos outros fatores contribuíram para a queda de qualidade de nosso futebol, como a diminuição da formação de grandes talentos, a promiscuidade nas relações comerciais entre empresários, federações, clubes e a CBF, a supervalorização dos técnicos, a troca excessiva de treinadores e jogadores, o calendário ruim e a violência dentro e fora dos gramados.

Muitas pessoas que trabalham nas categorias de base são escolhidas muito mais por amizades com dirigentes e com técnicos das equipes principais do que pelo conhecimento técnico. Mesmo os profissionais mais sérios e competentes costumam repetir o que falam e fazem os técnicos das equipes principais. Os bons treinadores das categorias de base preferem as equipes principais, porque dá mais prestígio e dinheiro, um desejo habitual do ser humano.

Decorar todos os desenhos táticos de todos os times e conhecer todas as informações, úteis e inúteis, não significa competência para ensinar. Conhecimento não é apenas informação. “Os que têm estudo explicam a claridade e a treva, dão aulas sobre os astros e o firmamento, mas nada compreendem do universo e da existência, pois bem distinto do explicar é o compreender, e quase sempre os dois caminham separados.”

Há uma geração cada vez maior de pessoas que sabem muito e conhecem pouco. A solução também não é colocar ex-atletas, independentemente de terem sido craques ou não, que não tiveram preparação técnico-científica para o cargo. O ideal seria unir as duas qualidades, a experiência de ter sido um atleta com a formação acadêmica. Assim como há preconceito dos acadêmicos com os ex-atletas, como se eles não tivessem preparo intelectual para o cargo, há também preconceito dos atletas com os técnicos formados nas universidades, como se fosse impossível alguém ser bom treinador sem ter sido atleta profissional. Continuar a ler

Comparação Tática entre o Futebol Europeu e o Brasileiro

Tostão, em “Tempos vividos, sonhados e perdidos: Um olhar sobre o futebol” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), continua seus comentários sobre o futebol atual.

“A mudança mais importante ocorrida na Europa nos últimos tempos foi tentar melhorar a qualidade do espetáculo e, consequentemente, lucrar mais com o futebol. A Premier League, na Inglaterra, foi criada em 1992, seguida pelas ligas formadas na Espanha, na Alemanha e em outros países. Isso foi importante para o crescimento do futebol europeu.

A Itália, que até 1992 tinha o melhor campeonato da Europa, ficou para trás em relação a Inglaterra, Espanha e Alemanha. Os alemães têm hoje a melhor média de público do mundo.

Os europeus, principalmente os ingleses, diminuíram a violência, dentro e fora dos estádios, e melhoraram os gramados e o conforto para os torcedores. Os jogos passaram a ter um número menor de faltas, são menos tumultuados, com mais tempo de bola em jogo, com mais intensidade e mais troca de passes. A importação dos melhores jogadores sul-americanos e africanos foi também decisiva para melhorar a qualidade do jogo. Continuar a ler

Tragédia do Futebol Brasileiro: Derrota dos 7 a 1 Não Foi Por Acaso

Tostão, em “Tempos vividos, sonhados e perdidos: Um olhar sobre o futebol” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), continua seus comentários sobre o futebol atual.

“Os 7 a 1 foram atípicos, um exagero. A Alemanha não era o máximo dos máximos nem o Brasil era o péssimo dos péssimos, mas foi uma mensagem, um aviso, uma constatação, da queda de nosso futebol.

Para entender os 7 a 1, o futebol que se jogou na Copa de 2014 e o futebol que se joga hoje, no Brasil e em todo o mundo, vou tentar fazer uma análise, uma síntese da evolução na maneira de jogar nestes últimos cinquenta, sessenta anos. Continuar a ler

Autobiografia do Tostão

Estudei no Colégio Estadual de Minas Gerais (na época era o único existente sem a necessidade da localização “Central”) entre 1963 e 1970, desde o Ginásio (Ensino Fundamental) até o Colegial Científico (Ensino Médio). Era um dos colégios mais tradicionais de Minas, símbolo da vanguarda da arquitetura nacional e famoso por contribuir com a formação educacional de jovens que se transformaram em personalidades notáveis da literatura, música, política, esporte e várias outras áreas profissionais e artísticas.

Como na minha infância eu era morador na quadra vizinha, sempre me chamou a atenção o projeto arquitetônico assinado por Oscar Niemeyer. Ele deu ao prédio principal, com salas de aula, laboratórios, biblioteca e administração, a forma de régua T, ao teatro a de mata-borrão, à caixa-d’água a de um giz e ao anexo isolado (cantina) a forma de borracha.

O Colégio Estadual era vanguarda do ensino e esporte em Minas Gerais. Das suas salas saíram várias personalidades, como a primeira Presidenta da República, Dilma Rousseff (minha ex-aluna no doutorado do IE-UNICAMP), o governador Fernando Pimentel (PT), o médico, cronista esportivo e tricampeão mundial de futebol, Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, entre tantos outros nomes conhecidos ou não.

Sendo quatro anos mais velho (nasceu em 25 de janeiro de 1947), ele foi meu ídolo adolescente. Contava-se entre os alunos do Colégio Estadual a estória que o Tostão chegou atrasado, porque estava treinando no Cruzeiro, em jogo decisivo do campeonato de futebol de salão entre as turmas. Já estava no segundo tempo e sua turma perdia de 4 X 0. Ele entrou, e virou o jogo para 5 X 4, inclusive com o último gol chutando sem ângulo entre o goleiro e a trave!

Desde que inaugurou o Mineirão em 5 de setembro de 1965, ocasião em que estive presente (e voltei a pé da Pampulha até o Centro da cidade por carência de transporte), assisti todos os jogos do Cruzeiro, presencialmente, no Estádio, até que me mudei de BH em 1975. Aliás, até hoje assisto pela TV todos os jogos do meu time – e do Tostão. Paixão de infância não se abandona

Sendo assim, li com satisfação as memórias do Tostão, vulgo Dr. Eduardo, “Tempos vividos, sonhados e perdidos: Um olhar sobre o futebol”. Sim, ele, assim como o Afonsinho e o Sócrates, se formou em Medicina e se tornou professor na Faculdade de Ciências Médicas. Depõe, no livro, que caso tivesse ingressado como docente na UFMG, provavelmente, seguiria na carreira universitária. O País perdeu um formador de médicos e a indústria de entretenimento do futebol ganhou seu melhor cronista. O que a massa de brasileiros preferiria: mais médicos ou mais um cronista diferenciado?

Curiosamente, ele passou da casta dos guerreiros-atletas, cujos valores morais são fama, glória, coragem e honra, para a casta dos sábios-criativos, cujos valores morais são especialização, educação, autonomia, auto expressão, liberalismo cultural ou de costumes. Os professores, profissionais da mídia e escritores possuem este último Ethos cultural. Já os praticantes de esporte, em geral, têm o primeiro.

Como segui tanto a carreira de atleta quanto a de cronista do Tostão, passo-a-passo, suas memórias futebolísticas não tiveram muitas novidades para mim. Eu as compartilho. O que achei mais interessantes foram suas análises do futebol atual.

Resumo-as em seguida, em uma série de posts no dia de hoje, 22 de janeiro de 2018, comemorando oito anos de aniversário deste modesto blog pessoal!

“Os grandes jogadores reúnem, em proporções variáveis para cada um, muita técnica, habilidade e criatividade, além de ótimas condições físicas e emocionais.

A habilidade é a intimidade com a bola diante do adversário, a capacidade de criar efeitos especiais.

A técnica é a execução dos fundamentos da posição, além da lucidez para tomar decisões certas.

A criatividade é a antevisão da jogada, a capacidade de inovar, de surpreender.

O talento é a síntese de tudo isso.

Muitos confundem habilidade e criatividade com talento. Existem craques com pouca habilidade, mas não há craques sem excepcional técnica. Pelé foi o melhor de todos porque tinha, no mais alto nível, todas essas qualidades. Pelé foi tão espetacular que atingiu o máximo, a total simplicidade para jogar.

Existem jogadores que executam muito bem os fundamentos técnicos da posição, possuem bons níveis estatísticos, mas não conseguem juntar as partes, formar um todo, uma personalidade. São divididos, esquizofrênicos do ponto de vista futebolístico.”

Cruzeiro em Ascensão no Ranking do Futebol Brasileiro

Ao ganhar o penta da Copa do Brasil, no dia 27 de setembro de 2017, sobre o Flamengo, no Mineirão, o Cruzeiro alcançou seu nono título nacional. Além das edições de 1993, 1996, 2000, 2003 e 2017 do torneio de “mata-mata” (desclassificatório em dois jogos de ida-e-volta), passando por todas as rodadas, o clube venceu os Campeonatos Brasileiros de 1966, 2003, 2013 e 2014.

Agora, a Raposa ocupa o segundo lugar no ranking dos maiores campeões nacionais do país, ao lado de Santos e Corinthians, também com nove conquistas. O Palmeiras lidera isolado, com 12. Porém, analisando por décadas (timeline), Santos e Palmeiras tiveram maior glória no passado (anos 60s) do que no presente. O Cruzeiro e o Corinthians são times em ascensão. Analise abaixo a concentração econômica estadual – e entenda o desafio maior do time do povo mineiro.

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Cruzeiro: 9 Vezes Campeão Nacional

O pentacampeonato da Copa do Brasil do Cruzeiro teve contornos dramáticos. A vitória nos pênaltis após o empate sem gols no tempo normal coroou a campanha celeste ao longo de toda a Copa. O triunfo sobre o Flamengo veio após confrontos contra outros gigantes do futebol brasileiro: São Paulo, Palmeiras e Grêmio. Coincidentemente, esses foram os rivais nas decisões dos quatro primeiros títulos da equipe mineira na competição. Continuar a ler

Mudança na Psicologia: Medo do Cobrador de Penalty Diante do Goleiro

Meu orientador de teses, o admirável Professor Wilson Cano, corajosamente, levantou certa hipótese em auditório lotado: “o individualismo da Era Neoliberal levou até jogadores de futebol a tremer diante do goleiro na hora da cobrança de penalty!” Todo mundo riu, devido ao inusitado raciocínio, invertendo “o medo do goleiro diante do penalty”: hoje, ele é a chance de sua consagração!

Victor Mather (NYT, 15/05/2017) informa que o futebol internacional está tentando algo de novo nas decisões por pênaltis.

No campeonato europeu masculino sub-17, que se realiza na Croácia, e no campeonato europeu feminino sub-17, que acontece na República Tcheca, os jogos de mata-mata que terminarem em empate serão, como de hábito, decididos por pênaltis. E, como de hábito, a ordem de cobrança será decidida no cara ou coroa. Mas apenas para a primeira série de pênaltis. Em lugar de o mesmo time cobrar primeiro em cada série de pênaltis, os times se alternarão na primeira cobrança, a cada série.

Em lugar de as cobranças acontecerem no formato AB, AB, AB, AB até que um vencedor seja determinado, elas acontecerão no formato AB, BA, AB, BA, e assim por diante. Sim, mais ou menos como nas regras de seleção de jogadores usadas nas ligas de fantasia dos esportes norte-americanos.

A mudança é experimental. As autoridades do futebol estão mexendo nas regras de decisões por pênaltis para tentar resolver aquilo que veem como uma questão básica de justiça. Continuar a ler