Ideologia do Gênero

No livro de Andrea Dip, “Em nome de quem?: A bancada evangélica e seu projeto de poder”, há também um capítulo referente ao episódio quando, no Congresso Nacional, parlamentares evangélicos e católicos se uniram em uma missão que se tornaria uma de suas maiores bandeiras nos próximos anos: a exclusão dos debates sobre gênero nas escolas de todo o país.

Na época, era possível encontrar militantes pró-vida gritando “Não ao gênero!” diante de assembleias legislativas e não era incomum ouvir pastores televisivos, como Silas Malafaia, e parlamentares, como o Pastor Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e o senador Magno Malta (PR-ES), bradando contra o que chamaram de “ideologia de gênero” – algo que traria a destruição da família e a doutrinação de crianças em uma teoria da conspiração absurda. A CNBB na época também divulgou nota afirmando que a “ideologia de gênero” “desconstrói o conceito de família, que tem seu fundamento na união estável entre homem e mulher”.

Os parlamentares proibiram votações, protestaram e encabeçaram batalhas com o objetivo de retirar o termo “gênero” dos planos municipais e estaduais.

Nas missas e cultos, cartilhas foram distribuídas alertando pais e mães sobre o perigo silencioso ameaçador do lar – aparentemente, os filhos seriam doutrinados a virar “outra coisa” caso contrariasse seu sexo biológico e inclusive ensinados a praticar sexo com coleguinhas. Surgiram até falsas cartilhas, atribuídas ao MEC, com imagens de crianças tendo relações sexuais. A militância conservadora não só conseguiria vetar essa parte do PNE como seria grande impulsionadora do Projeto Escola Sem Partido.

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Casta dos Sabidos Pastores

No passado, existia a casta dos sábios sacerdotes. Junto com as castas dos guerreiros, dos oligarcas governantes e dos mercadores, voltam-se para seus privilégios dominando espiritualmente os párias, isto é, “o resto da sociedade”. Após a II Guerra Mundial, emerge junto com a casta dos trabalhadores organizados em sindicatos e partidos políticos a casta dos sábios intelectuais, fruto da massificação das Universidades antes elitistas. O ressurgimento da casta dos (prefiro qualificar) “sabidos pastores evangélicos” é uma reação contra o avanço da história, portanto, um reacionarismo.

No livro de Andrea Dip, “Em nome de quem? A bancada evangélica e seu projeto de poder”, encontra-se um depoimento de uma família imigrante à procura de ambientação no novo lugar, onde ela se integrou aos cultos da Igreja Renascer.

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Teologia do Domínio: Guerra Santa

Andrea Dip, “Em nome de quem: A bancada evangélica e seu projeto de poder” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2018), lembra: “os discursos de ódio do Pastor Marco Feliciano começaram a chamar mais atenção quando ele foi eleito, em 2013, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados. Na época, a imprensa, parlamentares mais progressistas e movimentos sociais pelos direitos das mulheres, militantes dos movimentos negro e LGBTQ passaram a divulgar declarações do político, de cunho racista, machista e homofóbico – feitas principalmente nas redes sociais e em pregações em sua Igreja.”

Em 2013, o jornal O Globo também destacou parte de uma entrevista integrante do livro Religiões e política: uma análise da atuação dos parlamentares evangélicos sobre direitos das mulheres e LGBTs no Brasil, de Christina Vital e Paulo Victor Leite Lopes, onde o deputado declarou: “Quando você estimula uma mulher a ter os mesmos direitos do homem, ela querendo trabalhar, a sua parcela como mãe começa a ficar anulada, e, para que ela não seja mãe, só há uma maneira que se conhece: ou ela não se casa, ou mantém um casamento, um relacionamento com uma pessoa do mesmo sexo, e que vão gozar dos prazeres de uma união e não vão ter filhos. Eu vejo de uma maneira sutil atingir a família; quando você estimula as pessoas a liberarem os seus instintos e conviverem com pessoas do mesmo sexo, você destrói a família, cria-se uma sociedade onde só tem homossexuais, você vê que essa sociedade tende a desaparecer porque ela não gera filhos.”

Desde então, muitas vozes conservadoras têm se somado à de Feliciano no Congresso, principalmente após a eleição de Eduardo Cunha a presidente da Câmara em 2015 e, depois, com o impeachment de Dilma Rousseff e a posse de Michel Temer. Os discursos de ódio se tornaram cada vez mais altos, mais claros e frequentes.

O deputado Jair Bolsonaro, colega de partido de Feliciano, foi condenado pela Justiça mais de uma vez a pagar indenizações por ofensas a mulheres e negros. Em 2014, Bolsonaro afirmou que a deputada federal Maria do Rosário não merecia ser estuprada por ser “muito feia” e não “fazer seu tipo”. Foi condenado pelo TJ-DF, em 2015, a pagar indenização de R$ 10 mil à petista por danos morais, mas recorreu. Em novembro de 2017, a Terceira Turma do STJ manteve, por unanimidade, a condenação.

Em outubro de 2017, Bolsonaro foi mais uma vez condenado a pagar R$ 50 mil por danos morais, devido a declarações preconceituosas feitas sobre os quilombolas em abril do mesmo ano. Na ocasião, ele participava de uma palestra no Clube Hebraica Rio, no Rio de Janeiro. Entre outras afirmações, Bolsonaro disse: “afrodescendentes quilombolas não fazem nada, e nem para procriador eles servem mais” e que “as reservas indígenas e os quilombos atrapalham a economia do país”.

Esse comportamento belicoso, e por vezes intolerante, da bancada evangélica encontra fundamento dentro de outra teologia, menos conhecida que a da Prosperidade, mas largamente difundida, sobretudo pelas Igrejas Neopentecostais: a Teologia do Domínio.

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Teologia da Prosperidade

Andrea Dip, “Em nome de quem: A bancada evangélica e seu projeto de poder” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2018), avalia, para entender melhor o comportamento aguerrido da bancada evangélica no Congresso, é preciso olhar para dois pilares sustentáculos do neopentecostalismo no Brasil:

  1. a Teologia da Prosperidade (TP) e
  2. a Teologia do Domínio (TD).

A Teologia da Prosperidade é mais conhecida pelos não crentes – inclusive é alvo de críticas e piadas de toda espécie – por seu apelo financeiro constante como forma de “garantir um espaço no céu”. Também é uma das correntes mais criticadas entre os próprios evangélicos. Eles acreditam ela distorcer os valores bíblicos.

De forma geral, a Teologia da Prosperidade ensina: os cristãos têm direito a bem-estar, saúde e boa situação financeira para desfrutarem na Terra os privilégios de serem “filhos do Rei”. Seus pregadores defendem: há poder na chamada “confissão positiva” – a declaração em voz alta de um objetivo a se alcançar, para, por esse ato, ser concedido.

Muitas vezes o versículo bíblico “Em verdade vos digo: tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu”, do Evangelho de Mateus, é usado para fundamentar a Teologia da Prosperidade. Assim, ela é a crença de ter sido dado aos cristãos o poder de trazer à existência aquilo declarado em voz alta.

Palavras ditas com fé teriam o poder de criar realidades. Nessa lógica, se o pedido não se realizar, a culpa é transferida ao crente. Ele não orou direito, não teve fé o bastante ou não fez ofertas de sacrifício suficientes para receber a graça de volta. Aí se encontra a parte mais polêmica dessa teologia. Aliás, tal como faz a literatura de autoajuda financeira…

O fiel com desejo ser abençoado precisa demonstrar sua fé fazendo “ofertas de sacrifício” a Deus, algo a lhe custar muito. É frequente os pastores usarem nas pregações de dízimos e ofertas dois exemplos:

  1. o de Abraão, que, por amor a Deus, se prontificou a sacrificar o próprio filho Isac, curiosamente é omitida a parte em que Deus não permite o sacrifício; e
  2. o da viúva de Sarefá ter preparado para o profeta Elias a única porção de comida guardada para ela e o filho – depois dessa, com o tempo, morreriam de fome –, e, em retribuição, Deus nunca mais deixou lhe faltarem azeite e farinha.

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Frente Parlamentar Evangélica

Andrea Dip, “Em nome de quem: A bancada evangélica e seu projeto de poder” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2018), conta:  a FPE nasceu como bancada em 1986, após ter participado de processos durante a Ditadura Militar, segundo Magali Cunha. “Houve, porém, uma repercussão muito negativa por causa do processo de troca de votos na Constituinte e os 5 anos de governo do Sarney. Foi muito divulgado na mídia, todo o fisiologismo que envolveu a bancada naquele período. E houve uma indignação no meio evangélico também, o que acarretou um período de baixa nas eleições seguintes.”

Ela acrescenta: nos anos 2000 aconteceu uma retomada do projeto político, incentivada pela aproximação com o governo Lula. “Os evangélicos ganharam certo protagonismo; Lula ofereceu cargos, se aproximou do PP, no qual estava boa parte dos representantes da Igreja Universal, e depois do PRB, que foi fundado tendo como vice-presidente [da República] José de Alencar. Essa retomada começou em 2002, com a eleição do Lula, e aí se criou a Frente Parlamentar Evangélica, em 2003.”

Em 2004, outro escândalo marcaria a bancada evangélica, de forma mais específica, a Igreja Universal: o envolvimento do bispo Carlos Alberto Rodrigues, o Bispo Rodrigues (PL-RJ) – eleito deputado em 1998 e novamente em 2002 –, com o então subchefe de Assuntos Parlamentares da Presidência, Waldomiro Diniz – o que levou a seu afastamento das funções políticas e eclesiásticas, anunciado durante o programa Fala que Eu Te Escuto na TV Record, em 2004.

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Começo da Evangelismo de Direita no Brasil

Andrea Dip, “Em nome de quem: A bancada evangélica e seu projeto de poder” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2018), conta: o pentecostalismo chegou ao Brasil em 1910, através de Gunnar Vingren e Daniel Berg, evangelistas suecos, e do italiano Luigi Francescon.

Como explica o sociólogo e pesquisador Paul Freston, “os três se converteram nos Estados Unidos e vieram para cá mais ou menos na mesma época. Os dois suecos chegaram a Belém e começaram a frequentar uma Igreja Batista, onde quiseram pregar doutrinas pentecostais até serem expulsos e fundarem o que se tornaria depois a Assembleia de Deus. Em São Paulo, no bairro do Brás, um italiano fundou o que viria a ser a Congregação Cristã.”

Algum tempo depois, já na década de 1950, o país recebeu uma nova leva de pentecostais, segundo Freston, vinda da Igreja Quadrangular norte-americana. Um dos fiéis seria Manoel de Melo, o primeiro brasileiro a fundar uma Igreja importante, a Brasil para Cristo, em 1955. “A partir daí todas as Igrejas foram fundadas por brasileiros. David Miranda, com a Deus é Amor; Edir Macedo, no fim dos anos 1970, com a Igreja Universal; R R Soares em 1980, com a Internacional da Graça de Deus; Valdemiro Santiago, com a Mundial do Poder de Deus.”

O sociólogo explica que a diferença mais importante entre as Igrejas Históricas e as Pentecostais é a crença nos dons do Espírito Santo. “Falar em línguas, curar, exorcizar, profetizar são características das Pentecostais. Por ser uma forma mais entusiasmada de religiosidade, depende menos de um discurso racional, elaborado. Você pode não saber ler ou escrever, pode ser alguém que não ousaria fazer um discurso racional em público, mas, sob influência do Espírito, você fala. Por isso, pode-se dizer a Igreja Pentecostal também ter esse poder de inverter as hierarquias sociais.” Ele destaca: “Por ser mais próxima da cultura do espetáculo e menos litúrgica, também é a Igreja Pentecostal quem se dá melhor com as mídias.”

Já as Igrejas Neopentecostais, como a IURD, a Renascer em Cristo, a Bola de Neve Church (BDN) e a Mundial do Poder de Deus, viriam na sequência. Elas são conhecidas como a “terceira onda” do evangelismo.

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Pastores no Congresso

O livro de autoria de Andrea Dip, “Em nome de quem: A bancada evangélica e seu projeto de poder” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2018), informa: o número de evangélicos no Parlamento brasileiro cresceu acompanhando o aumento da quantidade de fiéis.

Segundo dados do último Censo Demográfico do país, realizado pelo IBGE em 2010, houve um aumento de 62% em 10 anos no Brasil. Em 2000, cerca de 26,2 milhões de pessoas se declaravam evangélicas, 15,4% da população. Em 2010, o número passou a 42,3 milhões, 22% dos brasileiros. Já no fim de 2016, segundo pesquisa divulgada pelo Instituto Datafolha, 29% dos brasileiros se afirmavam evangélicos – 3 em cada 10 pessoas com mais de 16 anos.

O Datafolha mostrou também a maioria frequentar Igrejas Pentecostais, como Assembleia de Deus (em primeiro lugar, 34%), IURD, Congregação Cristã e Quadrangular do Reino de Deus.

Outra pesquisa, realizada pelo Pew Research Center, publicada em 2014, apontou o Brasil é o país com maior número proporcional de protestantes na América Latina.

No Congresso Nacional brasileiro, a tendência seguiu esse aumento: a antropóloga da UFF Christina Vital diz existirem hoje entre oitenta e noventa parlamentares evangélicos vinculados à FPE (o número varia devido aos suplentes), mais do que o dobro de quando foi criada, em 2003. O número de pastores candidatos também cresceu: “Nós tivemos uma situação singular nesse pleito, com 40% mais pastores se candidatando em 2014”, aponta.

Nas prefeituras do país os evangélicos também elegeram seus representantes. Apesar de ser muito difícil calcular o número total de evangélicos eleitos em todos os 5.570 municípios, é possível dizer, entre as 26 capitais brasileiras, em 2017, 8 terem prefeitos evangélicos – e a maioria dos prefeitos das demais capitais, apesar de não se declararem publicamente, flertam com a religião ao participar de homenagens, visitar igrejas, instituir o Dia do Evangélico, criar as chamadas Praças da Bíblia, comparecer às Marchas para Jesus, receber bispos e pastores no gabinete e privilegiar Igrejas com isenções de impostos e doação de terrenos.

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