Primavera Árabe

Primavera Árabe

O verbete da Wikipédia está muito bem feito, com o registro dos principais fatos a respeito da Primavera Árabe (em árabe: الربيع العربي , transliterado – ar-rabīˁ al-ˁarabī), como é conhecida mundialmente. Foi uma onda revolucionária de manifestações e protestos que ocorreram no Oriente Médio e no Norte da África a partir de 18 de dezembro de 2010. Houve revoluções na Tunísia e no Egito, uma guerra civil na Líbia e na Síria; também ocorreram grandes protestos na Argélia, Bahrein, Djibuti, Iraque, Jordânia, Omã e Iémen e protestos menores no Kuwait, Líbano, Mauritânia, Marrocos, Arábia Saudita, Sudão e Saara Ocidental.

Os protestos compartilharam técnicas de resistência civil em campanhas sustentadas envolvendo greves, manifestações, passeatas e comícios. Houve intenso uso das mídias sociais, como Facebook, Twitter e Youtube, para organizar, comunicar e sensibilizar a população e a comunidade internacional em face de tentativas de repressão e censura na Internet por partes dos Estados.

As redes sociais desempenharam um papel considerável nos recentes movimentos contra a ditadura nos países árabes. A propagação do movimento conhecido como Primavera Árabe, que começou em 2010 na Tunísia, para todo o Norte da África e Oriente Médio não teria sido a mesma sem os recursos proporcionados pela internet. Continuar a ler

Luta Pan-Islâmica: Jihad contra a Insubmissão (ou Paganismo) do Ocidente

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O posfácio do livro “Uma História dos Povos Árabes”, cujo falecido autor foi Albert Hourani, foi escrito Malise Ruthven em 2002. Desde então, a situação política de alguns dos países citados se modificou.

Mas Ruthven comenta que “não se pode esperar que um historiador tenha êxito ali onde os serviços de inteligência do Ocidente fracassaram de forma tão espetacular”. Mas o leitor atento terá encontrado no relato que Hourani faz da situação delicada dos árabes modernos muitas “sinalizações na estrada” para o 11 de setembro.

A “vanguarda de combatentes dedicados” queria promover a jihad “não apenas para defesa, mas para destruir todo culto de falsos deuses e remover todos os obstáculos que impediam os homens de aceitar o Islã” encontrou sua realização nos movimentos islamistas que brotaram primeiro no Egito e, depois, em todo o mundo muçulmano.

A jihad contra os russos (após a invasão do Afeganistão em 1979), apoiada pela Arábia Saudita, os países do golfo Pérsico e os Estados Unidos, com fundos e armamentos canalizados através da inteligência militar paquistanesa, foi o catalisador que fundiu vários milhares de voluntários do Egito, da Arábia Saudita e do norte da África em uma poderosa força de combate que resistia à “guerra ao terrorismo” liderada pelos americanos no Afeganistão.

Para os seguidores extremistas, a jihad contra a nova jahiliyya (ignorância, insubmissão ou paganismo) representada pelo Ocidente faz parte de uma luta pan-islâmica. Pelo menos um dos grupos que participa da rede da al-Qaida pretende que a luta leve à restauração de um califado universal! Continuar a ler

Raízes do Conflito na Síria

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No posfácio do livro “Uma História dos Povos Árabes”, escrito por Malise Ruthven em 2002, ela conta que, na Síria, o aparato político-militar do partido Ba‘th foi tomado por um grupo predominantemente rural de uma comunidade religiosa minoritária, de forma muito parecida com o que aconteceu no Iraque. Porém, em contraste com os Tikritis sunitas do Iraque (originários da minoria árabe sunita, que constitui cerca de 20% da população iraquiana), a ‘asabiyya do grupo dominante na Síria baseia-se na matriz etno-religiosa mais estreita da comunidade alauíta, da região principalmente rural de Lataquia, ao norte do Líbano.

Os alauítas, que perfazem menos de 12% da população síria, são xiitas que possuem uma teologia esotérica própria, inacessível aos de fora: no caso deles, a solidariedade do parentesco é reforçada por uma tradição religiosa fechada. Recrutados para as forças armadas pelos franceses durante as décadas de 1930 e 1940, a expertise militar deles possibilitou-lhes a ascensão na hierarquia do exército.

Após o golpe ba‘thista de 1963, muitos oficiais suspeitos de deslealdade ao novo governo foram substituídos por alauítas, uma tendência que se acelerou depois que Hafez al-Asad, o comandante alauíta da força aérea, deu um golpe bem-sucedido contra seus colegas ba‘thistas em 1970. A partir de então, o poder do Estado esteve firmemente concentrado nas mãos alauítas. Dos oficiais que comandavam a 47ª Brigada Blindada síria, responsável pela repressão da rebelião dos Irmãos Muçulmanos na cidade de Hama, em 1982, ao custo de vinte mil vidas, consta que 70% eram alauítas.

Em 2000, quando Hafez al-Asad morreu, os escrúpulos constitucionais foram rapidamente removidos para garantir uma sucessão suave. Temerosa de que Rifaat al-Asad, o irmão mais moço de Hafez, que vivia no exílio desde que tentara derrubar o irmão, durante uma doença anterior, tentasse tomar o poder, uma Assembleia Popular rapidamente convocada votou por unanimidade para baixar a idade mínima do presidente de 40 para 34, a idade exata de Bashar al-Asad, ditador desde então. Continuar a ler

Iraque sob Saddam Hussein e Arábia Saudita sob Família Al Saud

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Um tour d’horizon dos Estados árabes, no início de 2002, oferecia ampla confirmação da tese de Albert Hourani, de acordo com o posfácio do livro “Uma História dos Povos Árabes” (São Paulo; Companhia do Bolso; 2006; 704 páginas), escrito por Malise Ruthven. Saddam Hussein continuava no poder no Iraque, apesar de:

  1. o fracasso militar e da humilhação nacional na primeira guerra do Golfo de 1980-88 e na operação Tempestade no Deserto de 1991, quando suas forças foram expulsas do Kuait pela coalizão liderada pelos americanos que incluía forças árabes da Arábia Saudita, do Egito e da Síria,
  2. a erosão da soberania de seu país pela imposição de “zonas de interdição aérea” policiadas por forças americanas e britânicas, e
  3. o estabelecimento no nordeste do Iraque do governo regional autônomo dos curdos, sob proteção aliada.

Conforme uma análise khalduniana, a fonte da resistência de Saddam podia ser explicada pela ‘asabiyya de seu clã al-Bu Nasr, da região de Tikrit, às margens do Tigre, ao norte de Bagdá, que se irradiava através de uma ampla rede de famílias, clãs e tribos com origem nessa área. Dessa região das províncias sunitas era recrutada uma parte significativa do corpo de oficiais antes do golpe militar que levou Saddam Hussein e seu antigo chefe Hassan al-Bakri ao poder em 1968.

Embora aderindo formalmente ao nacionalismo árabe secular do partido Ba‘th, a ‘asabiyya do grupo revelou-se mais duradoura do que sua orientação ideológica. Graças à hábil manipulação das lealdades e rivalidades dos clãs, Saddam montou um formidável sistema de poder baseado não somente na coerção e no medo, mas também no clientelismo. Continuar a ler

Poder Dinástico Árabe

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No posfácio do livro “Uma História dos Povos Árabes”, escrito por Malise Ruthven em 2002, pois o autor Albert Hourani faleceu em 1993, trata-se da década decorrida após a publicação da primeira edição deste livro.

Testemunhou-se muitos eventos dramáticos e significativos:

  1. a invasão do Kuwait pelo Iraque em agosto de 1990, seguida pela operação Tempestade no Deserto;
  2. uma encarniçada guerra civil na Argélia que talvez tenha custado cem mil vidas;
  3. a unificação dos dois Iêmen;
  4. a morte de três “grandes veteranos” da política árabe: o rei Hussein da Jordânia, em fevereiro de 1999, o rei Hasan do Marrocos, em julho de 1999, e o presidente Hafez al-Asad da Síria, em junho de 2000, todos sucedidos por seus filhos;
  5. a criação da Autoridade Palestina em Gaza e partes da Cisjordânia ocupadas por Israel, conforme os acordos pioneiros de Oslo, assinados pelo primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin e Yasser ‘Arafat, presidente da Organização para a Libertação da Palestina, nos jardins da Casa Branca, em Washington, D.C.;
  6. o assassinato de Rabin por um extremista judeu e o desmonte desses mesmos acordos em 2002, depois do segundo levante palestino e da reação militar de Israel.

Porém, o mais dramático de todos os eventos recentes, em termos de cobertura da mídia, se não pelo cálculo de perdas e sofrimentos humanos, foram os ataques a Nova York e Washington em 11 de setembro de 2001, que causaram mais de três mil mortes, as baixas mais pesadas sofridas em consequência de um ato beligerante em território americano desde o final da Guerra da Secessão.

Todos os dezenove suspeitos dos sequestros suicidas que jogaram três jatos comerciais cheios de passageiros e combustível contra o World Trade Center, em Manhattan, e o edifício do Pentágono, perto de Washington, eram árabes, quinze deles da Arábia Saudita. Todos tornaram-se suspeitos de terem sido treinados pela rede da al-Qaida (“base” ou “fundação”) criada e presidida pelo dissidente saudita Osama bin Laden. Continuar a ler

Crise de 1967 entre Israel e Árabes

Ataque Israel

Albert Hourani, em seu livro “Uma História dos Povos Árabes”, (São Paulo; Companhia de Bolso; 2006; 704 páginas) conta que, já no início da década de 1960, havia sinais de que as reivindicações e pretensões do nasserismo iam além de seu poder. A dissolução da união entre Egito e Síria, em 1961, e o fracasso das últimas conversações sobre unidade mostravam os limites da liderança de ‘Abd al-Nasser e dos interesses comuns dos estados árabes.

Mais significativos eram os acontecimentos que ocorriam no Iêmen. Em 1962, o imã Zaydi, governante do país, morreu, e seu sucessor foi quase imediatamente deposto por um movimento no qual liberais educados que tinham estado no exílio se juntaram a oficiais do novo exército regular, com um certo apoio tribal limitado. O antigo imanato tornou-se a República Árabe do Iêmen – agora muitas vezes chamada de Iêmen do Norte, para distingui-la do Estado estabelecido após a retirada britânica do Iêmen e do protetorado em torno, oficialmente conhecido como República Popular do Iêmen, mas muitas vezes chamada de Iêmen do Sul.

A casta que tomou o poder pediu imediatamente ajuda, e unidades do exército egípcio foram mandadas. Mesmo com esse apoio, porém, a tarefa de governar um país que tinha sido diretamente controlado, mas mantido junto pela habilidade e os contatos do imanato, revelou-se difícil demais para o novo governo. Partes do campo, que ainda aceitavam a autoridade do imã, ou se opunham ao tipo de controle que o governo tentava criar, levantaram-se em revolta. Tinham apoio da Arábia Saudita.

Seguiram-se vários anos de guerra civil, em que se entrelaçaram o conflito entre grupos locais e entre o Egito e as monarquias árabes “tradicionais”. Nenhum dos lados pôde vencer o outro; os que os egípcios apoiavam podiam controlar apenas as cidades principais e as estradas entre elas, mas não a maior parte do campo, e um grande exército egípcio, combatendo em condições desconhecidas, foi retido ali por vários anos.

As limitações do poder egípcio e árabe foram mostradas mais decisivamente em uma crise maior ocorrida em 1967, levando o Egito e outros estados árabes a um confronto direto e desastroso com Israel. Continuar a ler

Poder das Castas dos Comerciantes e dos Guerreiros Árabes

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O livro “Uma História dos Povos Árabes”, de autoria de Albert Hourani (704 páginas), lançado em 2006 pela Companhia de Bolso, narra como, com o advento da independência, os comerciantes e os proprietários rurais locais puderam tomar grande parte dos lucros do crescimento econômico. Os comerciantes puderam usar seu acesso aos governos independentes para obter uma fatia maior do comércio de importação-exportação.

Mesmo no comércio de algodão egípcio, que por tanto tempo estivera em mãos de firmas e bancos estrangeiros, algumas empresas egípcias bastante grandes, trabalhando em estreita colaboração com políticos, desempenhavam uma parte importante.

No Iraque, a maior parte da burguesia judia, que tinha se destacado no comércio com a Inglaterra e a Índia, partiu quando sua posição se tornou difícil após a criação do Estado de Israel, e seu lugar foi tomado sobretudo por comerciantes xiitas iraquianos. A maioria das novas indústrias também estava em mãos locais, devido a uma certa acumulação de capital por comerciantes e proprietários rurais, mas também por causa da necessidade de as novas indústrias terem acesso ao governo.

Em alguns países, no entanto, havia a colaboração entre capitalistas nativos e estrangeiros. Isso acontecia no Marrocos, onde empresas mistas franco-marroquinas continuaram sendo importantes após a independência, e até uma certa data no Egito também. Bancos locais ou mistos também se tornavam importantes. A posse e o investimento de royalties e lucros privados da indústria petrolífera estavam em grande parte nas mãos de bancos administrados por libaneses e palestinos em Beirute. Continuar a ler

Transformação Econômica das Sociedades Árabes Após a Descolonização

Crise Petróleo - Campos Sauditas

O livro “Uma História dos Povos Árabes”, de autoria de Albert Hourani (704 páginas), lançado em 21/08/2006 pela Companhia de Bolso, narra também as mudanças ocorridas nas sociedades árabes após as descolonizações ocorridas nos anos 1950 e 1960.

O resultado de um rápido crescimento demográfico, com pouca mudança na taxa de natalidade, mas decréscimo na taxa de mortalidade, foi que a distribuição etária do povo mudou. Em 1960, mais de metade da população na maioria dos países árabes tinha menos de vinte anos.

Houve também outras mudanças na estrutura da população. O elemento estrangeiro, que desempenhara um papel tão grande no moderno setor da economia, encolhera com a mudança das condições políticas e a retirada de privilégios econômicos. O número de residentes estrangeiros:

  1. no Egito encolheu de 250 mil em 1937 para 143 mil em 1960;
  2. na Líbia, de 100 mil para a metade no mesmo período;
  3. na Tunísia, de 200 mil para menos de 100 mil;
  4. no Marrocos, de 350 mil para 100 mil;
  5. na Argélia, de quase 1 milhão para menos de 100 mil.

Contra isso, houve uma grande movimentação de judeus tanto da Europa quanto do Oriente Médio e do Magreb para o novo Estado de Israel, cuja população judia aumentou de 750 mil em 1948 para 1,9 milhão em 1960. As antigas comunidades judias dos países árabes minguaram em medida correspondente, pela emigração para Israel, Europa e Américas. Continuar a ler

Proclamação da República no Egito

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O livro “Uma História dos Povos Árabes”, de autoria de Albert Hourani (704 páginas), lançado em 21/08/2006 pela Companhia de Bolso, conta que, nos anos seguintes à invasão da Palestina, o centro de conflito e discussão política estava não no conflito árabe-israelense, mas em outros países nos quais a Grã-Bretanha ainda tinha uma posição especial: no Irã, além da fronteira oriental do mundo árabe, onde a nacionalização da empresa de petróleo de propriedade britânica causou uma crise internacional, e no Egito.

Ali, a Grã-Bretanha ainda tinha muita liberdade de ação. Tendo divergido da política britânica na Palestina, os Estados Unidos não estavam dispostos a enfraquecer a posição da Grã-Bretanha como guardiã dos interesses ocidentais em outras partes do mundo árabe, embora o grande investimento de capital americano nos campos de petróleo da Arábia Saudita levasse à substituição da influência britânica pela americana.

A União Soviética, do seu lado, estava demasiado ocupada com outras regiões para seguir uma política ativa nos países árabes. Os estados árabes, embora comprometidos em princípio com a defesa dos interesses dos palestinos, preocupavam-se sobretudo com seus próprios problemas. Continuar a ler

Invasão e Conquista da Palestina por Israel

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O livro “Uma História dos Povos Árabes”, de autoria de Albert Hourani (704 páginas), lançado em 21/08/2006 pela Companhia de Bolso, conta que, em 1949, as Nações Unidas aprovaram uma resolução apoiando a independência da Líbia e estabeleceram uma comissão para supervisionar a transferência de poder. Em 1951, o país tornou-se independente, com o chefe da ordem sanusita como rei Idris, mas por vários anos a Grã-Bretanha e os Estados Unidos mantiveram bases militares lá.

Em outro país, a Palestina, a solução de interesses conflitantes mostrou-se impossível. Isso iria causar danos duradouros nas relações entre os povos árabes e as potências ocidentais.

Durante a guerra, a imigração judia para a Palestina fora praticamente impossível, e a atividade política, em sua maior parte, suspensa. À medida que a guerra chegava ao fim, tornou-se claro que as relações de poder haviam mudado.

Os árabes na Palestina eram menos capazes que antes de apresentar uma frente unida, por causa do exílio ou prisão durante e após a revolta de 1936-39 e das tensões e hostilidades geradas por movimentos violentos. A formação da Liga Árabe, com seu compromisso de apoiar os palestinos, pareceu oferecer-lhes uma força que no fim se revelou ilusória.

Os judeus palestinos, por sua parte, eram unidos por fortes instituições comunais. Muitos deles tinham tido treinamento e experiência militar nas forças britânicas durante a guerra. Eles tinham apoio mais amplo e mais decidido de judeus em outros países, agitados pelos massacres de judeus na Europa. Resolveram, então, criar não apenas um refúgio para os que sobreviveram, mas uma posição de força que tornasse impossível no futuro um acontecimento desses.

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Pós-II Guerra Mundial: Era dos Estados-Nações Árabes

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O livro “Uma História dos Povos Árabes”, de autoria de Albert Hourani (704 páginas), lançado em 21/08/2006 pela Companhia de Bolso, conta que a Segunda Guerra Mundial mudou a estrutura de poder no mundo.

Nas duas décadas seguintes, houve o fim do domínio britânico e francês nos países árabes devido a:

  1. a derrota da França,
  2. os ônus financeiros da guerra,
  3. a emergência dos Estados Unidos e da URSS como superpotências, e
  4. uma certa mudança no clima da opinião pública hostil à casta dos guerreiros e a favor da democracia e descolonização.

A crise do canal de Suez em 1956 e a guerra da Argélia de 1954 a 1962 assinalaram as grandes tentativas das duas potências de reafirmar sua posição colonizadora. Continuar a ler

Capital Humano e Cultural Japonês

Japonês pragmático

Para tornar possível o “milagre econômico” japonês (1945-1989), além das ações governamentais e do compromisso coletivo com a modernização, somou-se uma ética que valorizava o trabalho e um conjunto de crenças baseadas em elementos tradicionais da cultura japonesa compartilhados por praticamente toda a Nação. Nessas crenças, encontra-se a ideia de que o coletivo está acima do indivíduo. Há um forte senso de obrigação recíproca.

Célia Sakurai, autora do livro Os Japoneses (Coleção “Povos e Civilizações”, publicado pela Editora Contexto em 2014), defende a tese de que o capital humano é que fez, de fato, a diferença no Japão. Argumenta que, lá, os trabalhadores desenvolveram um senso de “dever ser útil” o tempo todo. Para entregar o pedido no prazo certo, eram capazes de dormir no emprego!

Sindicatos negociavam aumentos salariais de antemão com a administração, evitando greves que seriam prejudiciais à empresa como um todo. Mesmo hoje, dificilmente funcionários mudam de empresa em busca de melhores salários ou de progressão na carreira mais rápida. Além da relação contratual, estabelecem uma ligação emocional com seu emprego; sair dele significa “deixar de pertencer”.

Os trabalhadores, recrutados logo que saem do colégio ou da universidade, têm disponibilidade para aceitar a “cultura da empresa”, dispondo para ela até a fazer sacrifício da vida pessoal e/ou familiar. Segundo o pensamento dominante, é no local de trabalho que se obtém autoestima e satisfação com o reconhecimento profissional do artífice. Este é o trabalhador, o operário ou o artesão que produz algum artefato ou que professa alguma das artes. Ele executa sua arte consoante as encomendas que recebe. É quem inventa ou cria alguma coisa, podendo assinar como autor, seja de trabalho manual, seja de trabalho intelectual. Continuar a ler