Igreja com Partido e Partido sem Igreja

Na apresentação de Karen Armstrong, no livro Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo (Tradução: Hildegard Feist. São Paulo; Companhia das Letras; 2001) ela chama a atenção para um dos fatos mais alarmantes do fim do século XX foi o surgimento de uma devoção militante, popularmente conhecida como “fundamentalismo”, dentro das grandes tradições religiosas. Os terroristas constituem uma pequena minoria, porém até os fundamentalistas mais pacatos e ordeiros são desconcertantes, pois parecem avessos a muitos dos valores mais positivos da sociedade moderna. Democracia, pluralismo, tolerância religiosa, paz internacional, liberdade de expressão, separação entre Igreja e Estado laico – nada disso lhe interessa.

Os fundamentalistas cristãos rejeitam as descobertas da Biologia e da Física sobre as origens da vida. Afirmam o Livro do Gênesis ser cientificamente exato em todos os detalhes. Os fundamentalistas judeus observam sua Lei revelada com uma rigidez maior ainda em relação ao passado. As mulheres muçulmanas, repudiando as liberdades das mulheres ocidentais, cobrem-se da cabeça aos pés com seu xador. Os fundamentalistas islâmicos e judeus têm uma visão exclusivamente religiosa do conflito árabe-israelense. Porém, ele começou como uma disputa secularista.

Mas o fundamentalismo não se limita aos grandes monoteísmos. Ocorre também entre budistas, hinduístas e até confucionistas. Os fundamentalistas dessas religiões rejeitam muitas das conquistas da cultura liberal, lutam e matam em nome da religião e se empenham em inserir o sagrado no campo da política e da causa nacional.

Essa revivescência religiosa tem surpreendido muitos observadores. Em meados do século XX acreditava-se o secularismo ser uma tendência irreversível. Esperava-se nunca mais a fé desempenhar um papel importante nos acontecimentos mundiais. Acreditava-se, tornando-se mais racionais, os animais humanos já não terem necessidade da religião, para atribuir ao sobrenatural coisa natural ainda não compreendida, ou a restringirem ao âmbito pessoal e privado.

Contudo, no final da década de 1970, os fundamentalistas começaram a rebelar-se contra essa hegemonia do secularismo e a esforçar-se para tirar a religião de sua posição secundária e recolocá-la no centro do palco. Ao menos nisso tiveram extraordinário sucesso. A religião voltou a ser uma espécie de “camisa-de-força” ideológica, em certos países, onde nenhum governo pode a ignorar impunemente. Por exemplo, no Brasil foi eleito o primeiro presidente da República assumidamente evangélico.

Antes, havia a influência do pensamento positivista na casta dos guerreiros-militares brasileiros, inclusive influenciando a Proclamação da República, o Estado laico e a insígnia (“Ordem e Progresso”) na bandeira nacional. Agora, o ex-capitão reformado adota o lema: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, demonstrando intolerância religiosa com agnósticos e ateus ao desejar suas submissões a um ente sobrenatural.

O lema positivista completo de Auguste Comte era: “Amor como princípio e ordem como base; o progresso como meta”. Falta amor, ou pelo menos tolerância com as minorias, na Nação brasileira… Continuar a ler

Igreja Com Partido


Compartir significa fazer parte de alguma comunidade, por exemplo, religiosa. Significa também participar, dividir, compartilhar um sentimento com alguém. Ou um banquete. Os primeiros cristãos procuraram oportunidades para melhorar a vida das pessoas desvalidas no submundo romano: gladiadores, estrangeiros, escravos. Todos estavam desamparados por serviços sociais do Estado, porque não eram considerados cidadãos do Império Romano.

Os colégios ou as confrarias cristãs ofereciam a sepultura e o banquete. Os cristãos se cotizavam para garantir uma sepultura, erguer um santuário doméstico aos protetores da casa, providenciar banquetes para todos. Com os convivas sentados em banquetas (daí “banquete”), eram simples e fraternos, sendo realizados no dia do Senhor. Compartir era separar a refeição em partes entre indivíduos “deixados de valer”. O segredo da propagação do cristianismo no decorrer do século II se relaciona com essa luta pela cidadania.

Esse ato de repartir do cristianismo primitivo o levou à popularidade, até alcançar o imperador. Através do Edito de Milão (ano de 313), o imperador Constantino I acabou com a perseguição romana aos cristãos. Ele se converteu ao cristianismo, porém não transformou a religião em oficial do Império. Aproveitou-se do crescimento dela, em quase todas as regiões do império, para aumentar sua força política.

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Impactos da Reforma Protestante

desenvolvimento econômico, suicídio, alfabetização feminina e antissemitismo. 

“Foi muito mais do que uma batalha sobre a teologia”, diz Sascha Becker, pesquisador alemão que investigou as principais consequências socioeconômicas desencadeadas pelas 95 teses de Martinho Lutero.Para o artigo completo de Becker, acesse “Causes and Consequences of the Protestant Reformation” (“Causas e Consequências da Reforma Protestante“, 47 págs., disponível em inglês). Continuar a ler

Casta dos Sábios-Sacerdotes no Brasil Republicano

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Em 1952, foi criada a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que coordena a ação da Igreja no país. No final dos anos 50, a Igreja preocupa-se com questões sociais geradas pelo modelo de capitalismo no país, como a fome e o desemprego. Em 1960, a Juventude Universitária Católica (JUC), influenciada pela Revolução Cubana, declara sua opção pelo socialismo. Pressões de setores conservadores da Igreja levam os militantes da JUC a criar um movimento de esquerda, a Ação Popular (AP). Na época, a Igreja está dividida quanto às propostas de reformas de base do presidente João Goulart.

Com o Regime Militar de 1964 crescem os conflitos entre Igreja e Estado. A partir de 1968, com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), há uma ruptura total diante da violenta repressão: prisões, torturas e assassinatos de estudantes, operários e padres e perseguições aos bispos. Na época, a Igreja atuava em setores populares, com as comunidades eclesiais de base. Inspiradas na Teologia da Libertação, elas vinculam o compromisso cristão e a luta por justiça social. Os abusos contra a ordem jurídica e os direitos humanos levaram a Igreja a se engajar fortemente na luta pela redemocratização, ao lado de instituições da sociedade civil.

Ao longo dos anos 80 e 90, com a redemocratização da sociedade brasileira e com alguns de seus ensinamentos fortemente criticados pela Santa Sé, a Teologia da Libertação perde parte de sua influência. Nesse período, cresce o vigor da Renovação Carismática Católica, surgida nos EUA. Em oposição à politização da Teologia da Libertação, o movimento busca uma renovação em práticas tradicionais do catolicismo pela ênfase em uma experiência mais individualista com Deus.

No transcorrer do século XX foi percebida uma diminuição no interesse em formas tradicionais de religiosidade. Um reflexo disso é a grande massa de “católicos não-praticantes” hoje presente no país. Continuar a ler

Casta dos Sábios-Sacerdotes no Brasil Imperial e na Era Vargas: Questão Religiosa

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A Questão Religiosa foi um conflito ocorrido no Brasil sob reinado de D. Pedro II, na década de 1870, que, tendo iniciado como um enfrentamento entre a Igreja Católica e a Maçonaria, acabou se tornando uma grave questão de Estado. Suas causas podem ser traçadas desde muito tempo antes, fundadas em divergências irreconciliáveis entre:

  1. o ultramontanismo: sistema centralizador da Igreja católica ou doutrina dos ultramontanos que defendia a autoridade absoluta e a infalibilidade do papa em matéria de fé e disciplina, assim como no terreno temporal;
  2. o liberalismo: conjunto de princípios que defendem a liberdade individual, no campo da política, da economia, da religião, da moral, limitando a interferência do poder do Estado; e
  3. o regime do padroado: direito de protetor, adquirido por quem funda ou dota uma igreja, ou o direito de conferir benefícios eclesiásticos.

A questão evoluiu centrada na atuação de dois bispos, Dom Vital e Dom Macedo Costa, ardentes defensores do catolicismo ultramontano.

Certas ordenações papais, ao interditarem irmandades sob sua jurisdição por manterem elas em seu seio membros maçons, não foram aprovadas pelo Império monárquico brasileiro. A maçonaria é uma sociedade semissecreta com o objetivo de praticar a fraternidade e a filantropia, exclusivamente, entre seus membros, dividindo-se em grupos, denominados lojas, que usam sinais e emblemas para se reconhecerem. Seus membros se classificam como aprendizes, companheiros e mestres, que obedecem ao venerável chefe da loja. Continuar a ler

Casta dos Sábios-Sacerdotes no Brasil Colonial

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A Igreja Católica, uma das instituições típicas de sociedades agrárias que perduraram por 4.000 anos, exerce ainda grande influência nos aspectos político, social e cultural dos brasileiros. Segundo pesquisa de 2014, 81% da população brasileira foi criada no catolicismo, porém apenas 61% da população permanecia católica naquele ano. Um dos desafios enfrentados pela Igreja Católica no Brasil é a perda de fiéis para igrejas protestantes e, em menor medida, para a irreligião: falta de crença ou ateísmo.

Ateísmo é a doutrina que nega categoricamente a existência de Deus ou de qualquer outra divindade. A falta de crença em Deus é diferente do agnosticismo: atitude filosófica e religiosa daqueles que afirmam que ideias metafísicas, como a existência de Deus e a imortalidade da alma, não podem ser provadas nem negadas. Como essa crença no sobrenatural não tem evidências testáveis por métodos científicos, simplesmente, não há nenhuma prova experimental a respeito de seus mitos.

Porém, a Filosofia mostra as contradições lógicas da Teologia. Por exemplo, onipotência é o poder absoluto e ilimitado. Onisciência é o conhecimento pleno e absoluto sobre tudo. A Teologia prega que há um saber divino, absoluto e infalível, segundo os fiéis das religiões monoteístas. Porém, se este ser sobrenatural tem a qualidade ou a condição de onisciente, ele não pode possuir a qualidade ou condição de onipotente: se ele sabe tudo que ocorrerá no futuro, jamais poderá alterar a dependência da trajetória, senão o futuro se alterará. Se assim for, ele não é onipotente. Entre as duas qualidades, há de escolher uma…

Se o Brasil é considerado o maior país do mundo em número de indivíduos católicos, sua hegemonia deve ser relativizada, devido ao grande sincretismo religioso –  fusão de diferentes religiões, doutrinas e cultos, cujos elementos permanecem com interpretações próprias – existente no país. No transcorrer do século XX, foi diminuindo o interesse pelas formas tradicionais de religiosidade no país. Um reflexo disso é o grande número de pessoas que se intitulam “católicos não-praticantes”. O que é isso?! É cristão ou não? Adota comumente todos os princípios morais dessa religião? Continuar a ler

Epicurismo e Ateísmo

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O ódio pela busca do prazer e uma visão da ira providencial de Deus foram os pregos no caixão do epicurismo, enterrado por séculos de obscurantismo, tachado pelos fiéis de “insano”. O cristãos tinham de recusar essa atração e compreender que o prazer é uma palavra cifrada, que significa devassidão. Então, o que os cristãos tinham pela frente era a difícil missão de fazer o que parecia simplesmente sensato e natural – os impulsos comuns de criaturas sensíveis – parecer inimigo da verdade.

O que era ridículo no cristianismo, sob o ponto de vista de um pagão culto, era não apenas sua linguagem – o estilo simplório do grego dos evangelhos –, mas também sua exaltação da humilhação divina e da dor, tudo isso somado a um arrogante triunfalismo. Porém, a busca da dor triunfou sobre a busca do prazer.

A liberdade individual no epicurismo nada tem a ver com a liberdade política, ou uma noção de direitos, ou a permissão de dizer o que quisesse, ou a capacidade de ir aonde decidisse. Tem mais a ver com a experiência de se recolher, internamente, para longe da prensa do mundo e de se circunscrever a um espaço isolado. Isso que representa estar mergulhado em um livro: “livre para ler – e saber”. Continuar a ler