Impactos da Reforma Protestante

desenvolvimento econômico, suicídio, alfabetização feminina e antissemitismo. 

“Foi muito mais do que uma batalha sobre a teologia”, diz Sascha Becker, pesquisador alemão que investigou as principais consequências socioeconômicas desencadeadas pelas 95 teses de Martinho Lutero.Para o artigo completo de Becker, acesse “Causes and Consequences of the Protestant Reformation” (“Causas e Consequências da Reforma Protestante“, 47 págs., disponível em inglês). Continue reading “Impactos da Reforma Protestante”

Casta dos Sábios-Sacerdotes no Brasil Republicano

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Em 1952, foi criada a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que coordena a ação da Igreja no país. No final dos anos 50, a Igreja preocupa-se com questões sociais geradas pelo modelo de capitalismo no país, como a fome e o desemprego. Em 1960, a Juventude Universitária Católica (JUC), influenciada pela Revolução Cubana, declara sua opção pelo socialismo. Pressões de setores conservadores da Igreja levam os militantes da JUC a criar um movimento de esquerda, a Ação Popular (AP). Na época, a Igreja está dividida quanto às propostas de reformas de base do presidente João Goulart.

Com o Regime Militar de 1964 crescem os conflitos entre Igreja e Estado. A partir de 1968, com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), há uma ruptura total diante da violenta repressão: prisões, torturas e assassinatos de estudantes, operários e padres e perseguições aos bispos. Na época, a Igreja atuava em setores populares, com as comunidades eclesiais de base. Inspiradas na Teologia da Libertação, elas vinculam o compromisso cristão e a luta por justiça social. Os abusos contra a ordem jurídica e os direitos humanos levaram a Igreja a se engajar fortemente na luta pela redemocratização, ao lado de instituições da sociedade civil.

Ao longo dos anos 80 e 90, com a redemocratização da sociedade brasileira e com alguns de seus ensinamentos fortemente criticados pela Santa Sé, a Teologia da Libertação perde parte de sua influência. Nesse período, cresce o vigor da Renovação Carismática Católica, surgida nos EUA. Em oposição à politização da Teologia da Libertação, o movimento busca uma renovação em práticas tradicionais do catolicismo pela ênfase em uma experiência mais individualista com Deus.

No transcorrer do século XX foi percebida uma diminuição no interesse em formas tradicionais de religiosidade. Um reflexo disso é a grande massa de “católicos não-praticantes” hoje presente no país. Continue reading “Casta dos Sábios-Sacerdotes no Brasil Republicano”

Casta dos Sábios-Sacerdotes no Brasil Imperial e na Era Vargas: Questão Religiosa

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A Questão Religiosa foi um conflito ocorrido no Brasil sob reinado de D. Pedro II, na década de 1870, que, tendo iniciado como um enfrentamento entre a Igreja Católica e a Maçonaria, acabou se tornando uma grave questão de Estado. Suas causas podem ser traçadas desde muito tempo antes, fundadas em divergências irreconciliáveis entre:

  1. o ultramontanismo: sistema centralizador da Igreja católica ou doutrina dos ultramontanos que defendia a autoridade absoluta e a infalibilidade do papa em matéria de fé e disciplina, assim como no terreno temporal;
  2. o liberalismo: conjunto de princípios que defendem a liberdade individual, no campo da política, da economia, da religião, da moral, limitando a interferência do poder do Estado; e
  3. o regime do padroado: direito de protetor, adquirido por quem funda ou dota uma igreja, ou o direito de conferir benefícios eclesiásticos.

A questão evoluiu centrada na atuação de dois bispos, Dom Vital e Dom Macedo Costa, ardentes defensores do catolicismo ultramontano.

Certas ordenações papais, ao interditarem irmandades sob sua jurisdição por manterem elas em seu seio membros maçons, não foram aprovadas pelo Império monárquico brasileiro. A maçonaria é uma sociedade semissecreta com o objetivo de praticar a fraternidade e a filantropia, exclusivamente, entre seus membros, dividindo-se em grupos, denominados lojas, que usam sinais e emblemas para se reconhecerem. Seus membros se classificam como aprendizes, companheiros e mestres, que obedecem ao venerável chefe da loja. Continue reading “Casta dos Sábios-Sacerdotes no Brasil Imperial e na Era Vargas: Questão Religiosa”

Casta dos Sábios-Sacerdotes no Brasil Colonial

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A Igreja Católica, uma das instituições típicas de sociedades agrárias que perduraram por 4.000 anos, exerce ainda grande influência nos aspectos político, social e cultural dos brasileiros. Segundo pesquisa de 2014, 81% da população brasileira foi criada no catolicismo, porém apenas 61% da população permanecia católica naquele ano. Um dos desafios enfrentados pela Igreja Católica no Brasil é a perda de fiéis para igrejas protestantes e, em menor medida, para a irreligião: falta de crença ou ateísmo.

Ateísmo é a doutrina que nega categoricamente a existência de Deus ou de qualquer outra divindade. A falta de crença em Deus é diferente do agnosticismo: atitude filosófica e religiosa daqueles que afirmam que ideias metafísicas, como a existência de Deus e a imortalidade da alma, não podem ser provadas nem negadas. Como essa crença no sobrenatural não tem evidências testáveis por métodos científicos, simplesmente, não há nenhuma prova experimental a respeito de seus mitos.

Porém, a Filosofia mostra as contradições lógicas da Teologia. Por exemplo, onipotência é o poder absoluto e ilimitado. Onisciência é o conhecimento pleno e absoluto sobre tudo. A Teologia prega que há um saber divino, absoluto e infalível, segundo os fiéis das religiões monoteístas. Porém, se este ser sobrenatural tem a qualidade ou a condição de onisciente, ele não pode possuir a qualidade ou condição de onipotente: se ele sabe tudo que ocorrerá no futuro, jamais poderá alterar a dependência da trajetória, senão o futuro se alterará. Se assim for, ele não é onipotente. Entre as duas qualidades, há de escolher uma…

Se o Brasil é considerado o maior país do mundo em número de indivíduos católicos, sua hegemonia deve ser relativizada, devido ao grande sincretismo religioso –  fusão de diferentes religiões, doutrinas e cultos, cujos elementos permanecem com interpretações próprias – existente no país. No transcorrer do século XX, foi diminuindo o interesse pelas formas tradicionais de religiosidade no país. Um reflexo disso é o grande número de pessoas que se intitulam “católicos não-praticantes”. O que é isso?! É cristão ou não? Adota comumente todos os princípios morais dessa religião? Continue reading “Casta dos Sábios-Sacerdotes no Brasil Colonial”

Epicurismo e Ateísmo

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O ódio pela busca do prazer e uma visão da ira providencial de Deus foram os pregos no caixão do epicurismo, enterrado por séculos de obscurantismo, tachado pelos fiéis de “insano”. O cristãos tinham de recusar essa atração e compreender que o prazer é uma palavra cifrada, que significa devassidão. Então, o que os cristãos tinham pela frente era a difícil missão de fazer o que parecia simplesmente sensato e natural – os impulsos comuns de criaturas sensíveis – parecer inimigo da verdade.

O que era ridículo no cristianismo, sob o ponto de vista de um pagão culto, era não apenas sua linguagem – o estilo simplório do grego dos evangelhos –, mas também sua exaltação da humilhação divina e da dor, tudo isso somado a um arrogante triunfalismo. Porém, a busca da dor triunfou sobre a busca do prazer.

A liberdade individual no epicurismo nada tem a ver com a liberdade política, ou uma noção de direitos, ou a permissão de dizer o que quisesse, ou a capacidade de ir aonde decidisse. Tem mais a ver com a experiência de se recolher, internamente, para longe da prensa do mundo e de se circunscrever a um espaço isolado. Isso que representa estar mergulhado em um livro: “livre para ler – e saber”. Continue reading “Epicurismo e Ateísmo”

Intolerância Religiosa X Biblioteca de Alexandria

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Segundo Stephen Greenblatt, no livro A Virada: O Nascimento do Mundo Moderno, o destino da imensa quantidade de livros em pergaminhos é muito bem exemplificado pelo fim da maior das bibliotecas do mundo antigo, localizado em Alexandria, a capital do Egito e centro comercial do Mediterrâneo oriental. Em local conhecido como Museu, quase toda a herança cultural das culturas grega, latina, babilônia, egípcia e judaica tinha sido reunida a um custo enorme e cuidadosamente arquivada para pesquisa.

Já a partir de 300 a.C., os reis que governavam Alexandria atraíram os principais eruditos, cientistas e poetas a sua cidade oferecendo-lhes empregos vitalícios no Museu com boas remunerações, isenções fiscais, comida e alojamentos gratuitos e acesso aos recursos quase ilimitados da biblioteca. Estabeleceram padrões intelectuais elevadíssimos e possibilitaram grandes descobertas e invenções.

A biblioteca de Alexandria não estava associada a uma doutrina ou escola filosófica em particular. Seu objetivo era a busca intelectual em todos os seus aspectos. Ela representava um cosmopolitismo global, uma determinação em reunir o conhecimento acumulado de todo o mundo e de aperfeiçoar e acrescentar mais a esse conhecimento.

Em seu apogeu, o Museu continha pelo menos meio milhão de rolos de papiro sistematicamente organizados, etiquetados e armazenados segundo um novo e engenhoso sistema que seu primeiro diretor parece ter inventado: a ordem alfabética. Continue reading “Intolerância Religiosa X Biblioteca de Alexandria”

Fundamentalismo do Livre-Mercado

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Estando voltado para o futuro, o racionalismo do mundo moderno dificulta-nos o entendimento das velhas formas de espiritualidade depositadas na fé de que o livre-mercado nos leva, automaticamente, à ordem espontânea. Não é o Dedo-de-Deus, mas sim a Mão-Invisível de O Mercado que faria esse milagre econômico.

Imbuídos do espírito científico, achamos impossível compreender essa mitologia. Tendemos a ver a verdade como factual, histórica e empírica. Para levar essa fé liberal a sério, precisamos ter a prova de que seus mitos são históricos e capazes de funcionar na prática com toda a eficiência que a modernidade espera.

Ao longo do século XIX e XX, um número crescente de economistas desenvolvimentistas, sobretudo nos países de capitalismo tardio, que tinham de tirar o atraso histórico, abandonou a religião ortodoxa. Para quem acreditava que só a razão pode conduzir à verdade, esse posicionamento era consequente.

O logos racional não pode abordar questões que transcendem a investigação empírica. Confrontada com o subdesenvolvimento, a razão não pode se omitir acreditando de que o livre-mercado nos livrará desse mal, amém… Continue reading “Fundamentalismo do Livre-Mercado”