Epicurismo e Ateísmo

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O ódio pela busca do prazer e uma visão da ira providencial de Deus foram os pregos no caixão do epicurismo, enterrado por séculos de obscurantismo, tachado pelos fiéis de “insano”. O cristãos tinham de recusar essa atração e compreender que o prazer é uma palavra cifrada, que significa devassidão. Então, o que os cristãos tinham pela frente era a difícil missão de fazer o que parecia simplesmente sensato e natural – os impulsos comuns de criaturas sensíveis – parecer inimigo da verdade.

O que era ridículo no cristianismo, sob o ponto de vista de um pagão culto, era não apenas sua linguagem – o estilo simplório do grego dos evangelhos –, mas também sua exaltação da humilhação divina e da dor, tudo isso somado a um arrogante triunfalismo. Porém, a busca da dor triunfou sobre a busca do prazer.

A liberdade individual no epicurismo nada tem a ver com a liberdade política, ou uma noção de direitos, ou a permissão de dizer o que quisesse, ou a capacidade de ir aonde decidisse. Tem mais a ver com a experiência de se recolher, internamente, para longe da prensa do mundo e de se circunscrever a um espaço isolado. Isso que representa estar mergulhado em um livro: “livre para ler – e saber”. Continue reading “Epicurismo e Ateísmo”

Intolerância Religiosa X Biblioteca de Alexandria

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Segundo Stephen Greenblatt, no livro A Virada: O Nascimento do Mundo Moderno, o destino da imensa quantidade de livros em pergaminhos é muito bem exemplificado pelo fim da maior das bibliotecas do mundo antigo, localizado em Alexandria, a capital do Egito e centro comercial do Mediterrâneo oriental. Em local conhecido como Museu, quase toda a herança cultural das culturas grega, latina, babilônia, egípcia e judaica tinha sido reunida a um custo enorme e cuidadosamente arquivada para pesquisa.

Já a partir de 300 a.C., os reis que governavam Alexandria atraíram os principais eruditos, cientistas e poetas a sua cidade oferecendo-lhes empregos vitalícios no Museu com boas remunerações, isenções fiscais, comida e alojamentos gratuitos e acesso aos recursos quase ilimitados da biblioteca. Estabeleceram padrões intelectuais elevadíssimos e possibilitaram grandes descobertas e invenções.

A biblioteca de Alexandria não estava associada a uma doutrina ou escola filosófica em particular. Seu objetivo era a busca intelectual em todos os seus aspectos. Ela representava um cosmopolitismo global, uma determinação em reunir o conhecimento acumulado de todo o mundo e de aperfeiçoar e acrescentar mais a esse conhecimento.

Em seu apogeu, o Museu continha pelo menos meio milhão de rolos de papiro sistematicamente organizados, etiquetados e armazenados segundo um novo e engenhoso sistema que seu primeiro diretor parece ter inventado: a ordem alfabética. Continue reading “Intolerância Religiosa X Biblioteca de Alexandria”

Fundamentalismo do Livre-Mercado

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Estando voltado para o futuro, o racionalismo do mundo moderno dificulta-nos o entendimento das velhas formas de espiritualidade depositadas na fé de que o livre-mercado nos leva, automaticamente, à ordem espontânea. Não é o Dedo-de-Deus, mas sim a Mão-Invisível de O Mercado que faria esse milagre econômico.

Imbuídos do espírito científico, achamos impossível compreender essa mitologia. Tendemos a ver a verdade como factual, histórica e empírica. Para levar essa fé liberal a sério, precisamos ter a prova de que seus mitos são históricos e capazes de funcionar na prática com toda a eficiência que a modernidade espera.

Ao longo do século XIX e XX, um número crescente de economistas desenvolvimentistas, sobretudo nos países de capitalismo tardio, que tinham de tirar o atraso histórico, abandonou a religião ortodoxa. Para quem acreditava que só a razão pode conduzir à verdade, esse posicionamento era consequente.

O logos racional não pode abordar questões que transcendem a investigação empírica. Confrontada com o subdesenvolvimento, a razão não pode se omitir acreditando de que o livre-mercado nos livrará desse mal, amém… Continue reading “Fundamentalismo do Livre-Mercado”

Glossário Fundamentalista

fundamentalismo-cristaoMuito curioso é o glossário que Karen Armstrong apresenta no fim de seu livro “Em Nome de Deus”. Faz lembrar que “o melhor desinfetante é a luz do sol”… Quando se compara os fundamentalismos religiosos, menos atraentes eles se tornam para gente racional.

Aiatolá (derivado do árabe ayat Allah) “o sinal de Deus”: título honorífico de um mujtahid (eminente estudioso xiita, considerado capaz de exercer o ijtihad), popularizado no Irã do século XX.

Alam al-Mithal (árabe) “O mundo de imagens puras”: região psíquica que é a fonte da experiência visionária dos místicos muçulmanos e a sede da imaginação criadora.

Alcorão (árabe) “Recitação”: as escrituras de inspiração divina reveladas ao Profeta Maomé.

Anticristo: o falso profeta cuja vinda anunciará o fim dos tempos, segundo alguns autores do Novo Testamento. Impostor convincente, o Anticristo levará a maioria dos cristãos à apostasia, mas será destruído por Cristo nas lutas descritas no Livro do Apocalipse. Continue reading “Glossário Fundamentalista”

Empatia e Tolerância Religiosa

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A moderna cultura ocidental foi vista por muitos religiosos do mundo em desenvolvimento como invasiva, imperialista e estrangeira. Nos países muçulmanos, o processo de modernização sofreu muita resistência contra a dependência e imitação. Isso alterou o teor da modernidade ocidental em tais países, principalmente, do Oriente Médio.

Por isso mesmo, alguns ocidentais — como eu — que já resolveram esse “problema de fé em alguma divindade sobrenatural”, há muito tempo — eliminando-o radicalmente via o ateísmo –, têm agora dificuldade em compreender racionalmente o ressurgimento da fé fundamentalista, sobretudo quando se expressa de maneira violenta e terrorista. Por isso, li e fiz essa série de posts sobre o tema, que termina no próximo post com um glossário a respeito do fundamentalismo religioso. Acho que não dá para compreender o mundo sem conhecimento sobre isso. Senão, p.ex., não se entende os conflitos no Oriente Médio.

Segundo Karen Armstrong, no livro Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo (Tradução: Hildegard Feist. São Paulo; Companhia das Letras; 2001), a sociedade moderna frequentemente se divide em “duas nações”: secularistas e religiosos do mesmo país parece que não conseguem falar a mesma língua ou partilhar o mesmo ponto de vista. O que um lado considera sagrado e positivo, o outro vê como demoníaco e insano. Continue reading “Empatia e Tolerância Religiosa”

Religiosos e Secularistas: A Difícil Arte da Tolerância Mútua

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Percentagem de pessoas que disseram acreditar em algum deus em pesquisa realizada em 2005 na União Europeia.

Karen Armstrong, no livro “Em Nome de Deus”, conclui que religiosos e secularistas se olham com horror recíproco e não se enxergam com clareza. Ambos lembram os excessos, as crueldades e a intolerância do “outro lado” e, profundamente feridos, não conseguem reconciliar-se.

Nos Estados Unidos, também há polarização e hostilidade. Os fundamentalistas parecem mais contidos e obedientes à lei. Não assassinam mais presidentes, não lideram revoluções nem tomam reféns.

Entretanto, um fosso separa os religiosos americanos. Pesquisas de opinião mostram que eles se posicionam em dois campos quase iguais e mutuamente antagônicos. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Gallup, em junho de 1984, revelou que 43% dos americanos se consideravam “liberais” e 41% “conservadores”; e que as grandes denominações religiosas estavam divididas. Continue reading “Religiosos e Secularistas: A Difícil Arte da Tolerância Mútua”

Europa Secular

 

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Na Europa, a situação político-ideológica era muito diferente da religiosa nos Estados Unidos. As principais ideologias que abriam caminho para a modernidade eram secularistas, não religiosas, e as atenções se voltavam cada vez mais para este mundo, não para o outro.

Isso está claro na obra de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), que trouxe à terra o Deus transcendente e o humanizou. Deve-se buscar a realização pessoal no âmbito terreno, não no sobrenatural. Segundo A Fenomenologia do Espírito (1807), o Espírito universal só pode desenvolver todo o seu potencial assumindo as condições limitativas do espaço e do tempo; e realiza-se mais plenamente na consciência humana. Os homens devem abandonar a velha ideia de um Deus transcendente para compreender que são divinos.

O mito, uma nova versão da doutrina cristã da encarnação, também pode ser visto como uma cura da alienação que afeta muitos indivíduos modernos, uma tentativa de ressacralizar um mundo esvaziado do divino e aprimorar as consciências humanas, cujos poderes pareciam tão reduzidos nas filosofias de Descartes e Kant. Continue reading “Europa Secular”