Da Conquista do Oeste Americano à Conquista do Norte Brasileiro

Quem assistiu à série documental da Netflix, produzida por Robert Redford e denominada The West, em especial, a sequência onde Crazy Horse lidera a resistência dos indígenas à expansão dos colonos imigrantes europeus para o Oeste, amparada pelo general Custer, não deixa de lembrá-la agora, quando garimpeiros, grileiros, madeireiros, e traficantes de droga invadem reservas indígenas na Amazônia. Pior, estão amparados pela verborragia do líder da casta dos militares reformados na presidência.

Ele usa uma quantidade excessiva de palavras com enorme fluência – e pouca influência. Diz coisas de conteúdo ralo ou sem importância em termos da sabedoria ou da diplomacia esperada de um verdadeiro líder. Por essa postura inadequada a um chefe de Estado, por nepotismo em relação aos filhos e favoritismo com seus pares, demonstra total falta de compostura. Perde apoio político da maioria da população.

Deveria apresentar um nexo para nossa diversidade cultural e social, representar uma ligação das distintas partes para configurar um todo nacional coeso. O cargo maior da República exige um modo de ser – ou de estar –, revelador de sobriedade, educação, comedimento. Um tosco se caracteriza pela rudeza e grosseria em sua linguagem provocadora de inimizades. É destituído de cultura, de refinamento espiritual. Inculto, representa apenas gente limitada, também tosca de espírito. Demonstra uma educação (familiar ou militar) sem nenhum apuro ou refinamento escolar.

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Enciclopédia do Golpe em Dois Volumes

A Enciclopédia do Golpe (Projeto editorial Praxis/Declatra, 2017), organizado por Bárbara Caramuru Teles e coordenado por Giovanni Alves, Mírian Gonçalves, Maria Luiza Quaresma Tonelli e Wilson Ramos Filho, é um grandioso esforço de parcela importante da intelectualidade brasileira de esquerda na tarefa de esclarecimento político do Golpe de 2016. Contra as Trevas do Golpe, o Esclarecimento da Razão histórica.

Em comemoração das 8 milhões visitas recebidas neste modesto blog pessoal, faça o download gratuito em:

Enciclopedia do Golpe – vol_1

Enciclopedia do Golpe – vol_2

Nostalgia do Futuro (por Luiz Gonzaga Belluzzo)

Luiz Gonzaga Belluzzo é meu ex-professor, aposentado como Professor Titular do Instituto de Economia da Unicamp. Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists. Em sua coluna mensal (Valor, 06/11/18) ele trata indiretamente de tema conjuntural: o fim do Ministério do Trabalho como símbolo de desaparecimento definitivo do legado getulista.

Em conjunto com a reforma trabalhista, cortando as contribuições compulsórias aos sindicatos brasileiros, significará o fim do trabalhismo no Brasil? Dependerá da combatividade dos sindicatos autenticamente representativos de categorias profissionais — e não “de carimbo” para a mobilidade social de oportunistas burocratas.

Alguém já comentou: os “pais fundadores” do IE-UNICAMP seriam defensores do legado getulista assim como os “pais fundadores” da FFLCH-USP e CEBRAP seriam antipopulistas por causa da tradição da “Revolução de 1932” da elite paulistana. A segunda geração do IE-UNICAMP, assim com a da FFLCH-USP e CEBRAP, parece ser mais lulista ou petista em vez de getulista ou anti-populista.

“Em entrevista sobre seu filme Satyricon, Federico Fellini desvelou a alma que se escondia no rosto atormentado de seus personagens. No crepúsculo do império romano e de suas glórias, as faces se contorciam entre o tédio das concupiscências e as angústias da desesperança. Para o grande Federico, o filme escancarava “a nostalgia do Cristo que ainda não havia chegado”.

Nesta hora em que muitos se submetem ao medo ou escolhem o ódio, não é despropositado recordar momentos que inspiraram vida, insuflaram esperanças e ensejaram conquistas às mulheres e homens dos Tristes Trópicos.

Vasculhar o passado com os olhos no horizonte é um saudável exercício de nostalgia do futuro. Nós, brasileiros, padecemos, hoje, as dores de uma indagação crucial: corremos o risco de sermos piores do que já fomos, ou podemos ser muito melhores do que parecemos? Continuar a ler

Violência Histórica

Diego Viana (Valor, 16/02/2018) afirma: histórias sobre crime e violência acompanham o cotidiano do cidadão brasileiro. Desde meados da década de 1980, a população manifesta a sensação de as cidades estarem cada vez mais perigosas e o crime estar fora de controle. Mas as historiadoras Mary del Priore e Angélica Müller propõem olhar para o problema da violência por um ângulo diferente: “Em nossa sociedade, cresce a violência ou nossa sensibilidade em relação a ela?

Os resultados dessa investigação foram reunidos no recém-lançado livro “História dos Crimes e da Violência no Brasil” (Editora Unesp, 485 págs., R$ 75). Mary Del Priore (Universidade Salgado de Oliveira) e Angélica Müller (Universidade Federal Fluminense) são as organizadoras do volume. Ele trata de assuntos tão distintos quanto a execução de índios homossexuais no Maranhão e em Sergipe no século XVI ou as falcatruas em que cartolas do futebol são os protagonistas no século XXI.

Os autores reunidos nos 16 capítulos do volume traçam um panorama de cinco séculos de eventos violentos e criminosos no país. O fio condutor está centrado na ideia de como o crime e o emprego da violência fizeram e fazem parte de nossa sociedade. O grupo de pesquisadores inclui juristas, sociólogos, psicólogos, antropólogos e historiadores.

A associação entre violência e crime no título permite abarcar temas cuja relação não parece direta, como os escândalos de corrupção, a intolerância religiosa e as disputas de terra no campo. Por isso, o crime é definido de modo amplo, como um tipo de infração grave, passível de punição pela lei ou pela moral e reprovado pela consciência. A violência figura como força exercida por uma pessoa, um grupo, um Estado com o intuito de forçar alguém/algo para conseguir alguma coisa.

O imaginário em torno da violência é tema de vários capítulos. O modo como o crime é trabalhado na literatura é tratado pelo historiador Daniel Faria a partir de obras de Dyonelio Machado e Graciliano Ramos. Programas de TV, desde os anos 60, fazem da violência urbana brasileira um espetáculo para os espectadores, como “Aqui Agora” (SBT) e “Cidade Alerta” (Record). São tratados pelo historiador Wagner Pinheiro Pereira.

Se expulsamos a morte pela porta, ela volta pela janela. Esta proximidade com o tema da morte ajuda a entender o fascínio com a violência. Leva ao consumo de obras de ficção a seu respeito, muitas vezes de modo cru e direto. Quando queremos canalizá-la ou reprimi-la, ela ressurge de outra forma.

Autora de 48 livros de história, Mary Del Priore concedeu a seguinte entrevista ao Valor. Resumo-a abaixo. Continuar a ler

Escola Paulista de Sociologia: Octavio Ianni

Octavio Ianni: Diversidade e Desigualdade” é artigo assinado por Elide Rugai Bastos, publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

Desde sua tese de doutorado, publicada em 1962 — As Metamorfoses do Escravo —, busca compreender as raízes do processo de discriminação no Brasil. Volta-se ao estudo da instauração do regime escravista, à dominação senhorial no estado do Paraná e ao modo pelo qual o sistema define o sentido das relações entre negros e brancos.

Essa reconstituição visa à definição do conjunto de atores constituintes da trama das relações sociais, pois o objetivo é analisar a socialização no seio do “antigo regime”. Esse processo funda os comportamentos sociais adaptados às novas condições pós-abolição, porém preserva a assimetria das relações, pois é multiplicador dos ritos de reforço dessa diferença.

Por exemplo, os modos de expressão da cultura africana são coibidos de vários modos. A religiosidade, a dança, a fala, as atividades lúdicas são vistas como subcultura. Essa desvalorização põe o negro diante de uma situação dual:

  1. manter suas raízes culturais e ser excluído dos grupos considerados “civilizados” ou
  2. absorver passivamente a “cultura branca” considerada superior, para “integrar-se”.

Trata-se de herança do período escravocrata. Sendo a socialização definidora da identidade, ela atuou como impeditivo à emergência, no meio escravo, de uma consciência social e histórica que poderia negar o regime. Embora explodissem os conflitos — fugas, assassinatos, quilombos —, estes não definiam diretamente um projeto libertador. Continuar a ler

Escola Paulista de Sociologia: Florestan Fernandes

Florestan Fernandes. Vocação Científica e Compromisso de Vida” é artigo assinado por Maria Arminda do Nascimento Arruda” publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

O sociólogo Florestan Fernandes refletiu a imagem genuína da formação oferecida por seus professores, no curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, especialmente dos franceses que dele fizeram parte, mas também assimilou as orientações recebidas na Escola de Sociologia e Política, onde defendeu o mestrado em 1949. Florestan transformou-se no principal artífice da moderna sociologia brasileira, traduzida na estilização do modelo de intelectual rigoroso, capaz de dominar os seus meios expressivos, detentor de um saber comprometido com a agenda coletiva, mas de recusa a “orientações estritamente políticas”.

Em Ensaios de Sociologia Geral e Aplicada, de 1960, o sociólogo admite a utilização de medidas intervenientes na correção de situações coletivas, sem, no entanto, reduzir o pensamento em “plano imediato da ação”. Comungava, portanto, das ideias de Karl Mannheim, sociólogo influente nos meios cultos do Brasil, dada a centralidade que conferiu aos intelectuais na formulação de instrumentos de planejamento. Não foi por casualidade que as Ciências Sociais brasileiras privilegiaram o tema da mudança social e do desenvolvimento nacional. Continuar a ler