República X Monarquia no Brasil

Laurentino Gomes, no livro “1889”, narra que, “pela versão dos vencedores, a República teria sido sempre uma aspiração nacional. Seu ideário estaria na gênese da Inconfidência Mineira, da Revolução Pernambucana de 1817, na própria Independência em 1822, na Confederação do Equador em 1824, na Revolução Farroupilha de 1835 e inúmeros outros conflitos e rebeliões sufocados primeiro pela coroa portuguesa e, depois, pelo Império brasileiro”.

Segundo esse ponto de vista, a Monarquia teria sido uma solução apenas temporária, imposta pela dinastia Bragança e a casta dos aristocratas fundiários brasileiros sobre a vontade da nação em nome da defesa dos seus interesses pessoais ou de classe. A República seria, portanto, uma etapa inevitável do processo histórico nacional, apenas adiada por circunstâncias de cada momento.

Na versão dos derrotados, ao contrário, o Império, ao invés de ruína, teria sido a salvação do Brasil. Sem a Monarquia, argumentam, o país teria fatalmente se fragmentado na época da Independência, em três ou quatro nações autônomas que hoje herdariam como denominador comum apenas suas raízes coloniais e a língua portuguesa.

Ao imperador caberia o papel de:

  1. manter o Brasil unido,
  2. apaziguar os conflitos,
  3. tratar com tolerância e generosidade os adversários, além de
  4. converter um território selvagem e escassamente habitado em um país integrado e respeitado entre as demais nações.

Por essa perspectiva, a Monarquia teria raízes culturais e históricas mais profundas do que a República na nacionalidade brasileira, com força suficiente para enfrentar os desafios do futuro, caso não tivesse sido abortada por uma traiçoeira quartelada na manhã de 15 de novembro de 1889.

Observando-se o passado, percebe-se que as duas visões carecem de consistência. A proclamação da República foi resultado mais do esgotamento da Monarquia do que do vigor dos ideais e da campanha republicanos. Continue reading “República X Monarquia no Brasil”

1889: Proclamação da República no Brasil

Laurentino Gomes completou sua trilogia sobre anos-chave com “1889: como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da monarquia e a proclamação da República no Brasil” ( São Paulo: Globo, 2013). Em sua Introdução, afirma:

“O propósito deste livro é oferecer uma modesta contribuição neste ambiente de transformação e renovado interesse pela história do Brasil. Fiel à fórmula das minhas obras anteriores — 1808 e 1822 —, procuro usar aqui a linguagem e a técnica jornalísticas como recursos que julgo capazes de tornar história um tema acessível e atraente para um público mais amplo, não habituado a se interessar pelo assunto. Acredito que, escrita em linguagem adequada, a história pode se tornar um tema interessante, irresistível e divertido, sem, contudo, resvalar na banalidade. Esse desafio é hoje especialmente importante quando se trata de atrair a atenção de uma geração jovem bastante avessa à leitura.

Como obra de cunho jornalístico, este livro não pretende, nem poderia, oferecer respostas para questões mais profundas envolvendo a história republicana, sobre as quais inúmeros e bons estudiosos acadêmicos já se debruçaram com diferentes graus de sucesso ao longo dos anos. O objetivo é tão somente relatar sob a ótica da reportagem alguns dos momentos mais cruciais daquela época, de maneira a retirá-los da relativa obscuridade em que se encontram hoje na memória nacional. Caberá aos leitores refletir se deles é possível retirar lições que sejam úteis na edificação do futuro.”

No entanto, além de propiciar uma leitura fluente e agradável, ele informa na medida do necessário à gente comum como eu que deseja apenas saber o básico a respeito do tema. Continue reading “1889: Proclamação da República no Brasil”

Getúlio: Ditador Vingativo e Sanguinário

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Lira Neto, no livro “Getúlio 1930-1945 – do Governo Provisório À Ditadura do Estado Novo” (Vol. II, São Paulo; Companhia das Letras, 2012), conta que, em 29 de outubro de 1943, 13o. aniversário da vitória dos movimento civil-militar de 1930, em vez de festejos, Getúlio Vargas foi alvo de um libelo histórico, que denunciava o Estado Novo como modelo de governo incompatível com a luta dos Aliados.

“Um povo reduzido ao silêncio e privado da faculdade de pensar e de opinar é um organismo corroído”, dizia o documento, impresso em três páginas diagramadas em um total de oito colunas de texto. Uma pequena tipografia de Barbacena, no sul de Minas, rodara os primeiros exemplares, chegados ao Rio de Janeiro em dois sacos de estopa.

“Se lutamos contra o fascismo ao lado das nações unidas, para que a liberdade e a democracia sejam restituídas a seus povos, certamente não pedimos demais reclamando para nós mesmos os direitos e as garantias que as caracterizam.”

O manifesto, intitulado “Ao povo mineiro”, vinha referendado por 92 assinaturas, incluindo figuras solares da política, da sociedade e da cultura de Minas. Para evitar que a responsabilidade do folheto recaísse sobre os primeiros nomes da lista, os signatários foram citados em rigorosa ordem alfabética, entre os muitos de visibilidade pública.

O Catete tratou de calar os signatários do “Manifesto dos mineiros” por meios vingativos. Aqueles que desfrutavam de cargo público foram sumariamente exonerados — e mesmo os que exerciam funções na iniciativa privada, inclusive banqueiros, se viram objeto de retaliações. A casta dos negociantes-financistas retirava seu apoio. Continue reading “Getúlio: Ditador Vingativo e Sanguinário”

Contexto da Independência do Brasil em 1822

 

Laurentino Gomes, no livro “1808” (São Paulo; Editora Planeta do Brasil; 2007), narra o contexto da Independência do Brasil em 1822.

As portas fechadas durante trezentos anos estavam abertas de repente, e a colônia ficou fora do controle da metrópole. O contato com o mundo exterior despertou a colônia entorpecida: introduziram-se nova gente, novo capital e novas ideias. Como consequência, os brasileiros acharam que seu destino era maior e mais importante.

Ao contrário do que se imagina, porém, a independência brasileira resultou menos do desejo de separação dos brasileiros do que das divergências entre os próprios portugueses. Continue reading “Contexto da Independência do Brasil em 1822”

Legado da Fuga da Corte Portuguesa para sua Colônia nas Américas: Unidade Territorial

Laurentino Gomes, no livro “1808” (São Paulo; Editora Planeta do Brasil; 2007), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro-Reportagem e Livro do Ano de Não-Ficção, além do Melhor Ensaio, Crítica ou História Literária de 2008 da Academia Brasileira de Letras, afirma o seguinte.

“No caso de D. João VI, o legado ainda é motivo de controvérsia. Alguns atribuem ao seu caráter tímido e medroso a derrocada final da monarquia e do próprio império colonial português. Outros, no entanto, o consideram um estrategista político que, sem recorrer às armas, enfrentou com sucesso os exércitos de Napoleão e conseguiu não só preservar os interesses de Portugal como deixar um Brasil maior e melhor do que havia encontrado ao chegar ao Rio de Janeiro, em 1808.

Nenhum outro período da história brasileira testemunhou mudanças tão profundas, decisivas e aceleradas quanto os treze anos em que a corte portuguesa morou no Rio de Janeiro. Num espaço de apenas uma década e meia, o Brasil deixou de ser uma colônia fechada e atrasada para se tornar um país independente. Por essa razão, o balanço que a maioria dos estudiosos faz de D. João VI tende a ser positivo, apesar de todas as fraquezas pessoais do rei.”

Uma forma de avaliar a herança de D. João VI é abordar a questão pelo avesso: como seria hoje o Brasil se a corte não tivesse vindo para o Rio de Janeiro? Continue reading “Legado da Fuga da Corte Portuguesa para sua Colônia nas Américas: Unidade Territorial”

Pressão Popular versus Ditadura de Getúlio

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Lira Neto, no livro “Getúlio 1930-1945 – do Governo Provisório À Ditadura do Estado Novo” (Vol. II, São Paulo; Companhia das Letras, 2012), conta como a mística de um Getúlio “pai dos pobres”, construída pela máquina de propaganda do Estado Novo, soube capitalizar e reverter a favor do governo instantes de intensa comoção nacional, durante a II Guerra Mundial. A censura de informações era contínua.

Intensificava-se a caçada aos “quintas-colunas”, termo usado à época para designar indivíduos que trabalhavam a favor dos nazifascistas, por meio de sabotagens, tráfico de informações, difusão de boatos e quaisquer outras ações que facilitassem os movimentos do Eixo em território nacional. A expressão fora cunhada durante a Guerra Civil Espanhola para fazer referência aos que, em Madri, apoiaram as quatro colunas do líder fascista Francisco Franco na marcha contra o governo do presidente Azaña.

A II Guerra Mundial, enfim, chegara ao Atlântico Sul. Em meados de junho, Hitler se reuniu com o almirante Erich Raeder, ministro da Marinha alemã, e autorizou novos ataques a vapores de bandeira brasileira, em águas territoriais do próprio Brasil. No início de julho, um grupo de dez submarinos nazistas, fortemente armados, partiu da costa francesa (a França continuava ocupada pelo Reich) para cumprir a missão secreta. Tinham ordem de torpedear, inclusive, embarcações de passageiros. Continue reading “Pressão Popular versus Ditadura de Getúlio”

Interpretações do Brasil Imperial: Disputa de Poder por Clãs, Dinastias e Castas

Com a descoberta de ouro e diamante no final do século XVII, a população da colônia portuguesa nas Américas, estimada então em 300.000 habitantes, saltou para mais de 3 milhões por volta de 1800. Quase 2 milhões de negros cativos foram importados para trabalhar nas minas e lavouras do Brasil durante o século XVIII: uma das maiores migrações forçadas de pessoas em toda a história da (des)humanidade. De cada três brasileiros, um era escravo. A população indígena era estimada em 800.000 nativos.

Minas Gerais era a província mais populosa com pouco mais de 600.000 habitantes. Em seguida, vinha a Capitania do Rio com meio milhão. Bahia e Pernambuco ocupavam, respectivamente, o terceiro e quarto lugares. Estima-se que a cidade do Rio de Janeiro (sede do governo da colônia desde 1763), antes da chegada da Corte portuguesa, possuía apenas 60.000 habitantes, embora fosse o maior entreposto do comércio de escravos das Américas. No auge de sua prosperidade, Vila Rica, atual Ouro Preto, chegou a ser a maior cidade do Brasil com 100.000 habitantes. Tijuco, atual Diamantina, tinha 40.000 na época da Chica da Silva.

O mapa do Brasil já era muito semelhante ao atual, com exceção do Acre, que seria comprado da Bolívia em 1903. A Província Cisplatina seria anexada ao Brasil em 1817, mas declararia sua Independência onze anos depois, tornando-se o atual Uruguai. Pelo Tratado de Madri tanto a Espanha quanto Portugal reconheciam ter violado o Tratado de Tordesilhas na América e concordavam que, a partir de então, os limites deste tratado se sobreporiam aos limites anteriores. Com a União Ibérica (1580-1640), embora os respectivos domínios ultramarinos continuassem separados formalmente, é certo que tanto espanhóis entravam sem grandes problemas em territórios portugueses, quanto lusitanos entravam em terras espanholas, estabelecendo-se e com isso obtendo títulos de propriedade que seriam respeitados pela diplomacia posterior.

As negociações basearam-se no chamado Mapa das Cortes, privilegiando a utilização de rios e montanhas para demarcação dos limites. O diploma consagrou o princípio do direito privado romano do uti possidetis, ita possideatis (quem possui de fato, deve possuir de direito), isto é, o conceito de ocupação efetiva de território, delineando os contornos aproximados do Brasil de hoje.

A invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas, em 1807, provocou a transferência da corte portuguesa para o Brasil (1808-1821). Embora as tropas de Napoleão tenham sido vencidas com o auxílio de tropas britânicas, Portugal viu-se sem corte no país e na condição de protetorado.

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