Museu Nacional do Brasil: Um País A Procura de Si Perde O Arquivo Onde Poderia Encontrar Sua História

Pedro Soares Botelho , um português observador do País, escreveu um pertinente texto a respeito do incêndio do Museu Nacional. Reproduzo-o abaixo.

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Escola Paulista de Sociologia: Octavio Ianni

Octavio Ianni: Diversidade e Desigualdade” é artigo assinado por Elide Rugai Bastos, publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

Desde sua tese de doutorado, publicada em 1962 — As Metamorfoses do Escravo —, busca compreender as raízes do processo de discriminação no Brasil. Volta-se ao estudo da instauração do regime escravista, à dominação senhorial no estado do Paraná e ao modo pelo qual o sistema define o sentido das relações entre negros e brancos.

Essa reconstituição visa à definição do conjunto de atores constituintes da trama das relações sociais, pois o objetivo é analisar a socialização no seio do “antigo regime”. Esse processo funda os comportamentos sociais adaptados às novas condições pós-abolição, porém preserva a assimetria das relações, pois é multiplicador dos ritos de reforço dessa diferença.

Por exemplo, os modos de expressão da cultura africana são coibidos de vários modos. A religiosidade, a dança, a fala, as atividades lúdicas são vistas como subcultura. Essa desvalorização põe o negro diante de uma situação dual:

  1. manter suas raízes culturais e ser excluído dos grupos considerados “civilizados” ou
  2. absorver passivamente a “cultura branca” considerada superior, para “integrar-se”.

Trata-se de herança do período escravocrata. Sendo a socialização definidora da identidade, ela atuou como impeditivo à emergência, no meio escravo, de uma consciência social e histórica que poderia negar o regime. Embora explodissem os conflitos — fugas, assassinatos, quilombos —, estes não definiam diretamente um projeto libertador. Continue reading “Escola Paulista de Sociologia: Octavio Ianni”

Escola Paulista de Sociologia: Florestan Fernandes

Florestan Fernandes. Vocação Científica e Compromisso de Vida” é artigo assinado por Maria Arminda do Nascimento Arruda” publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

O sociólogo Florestan Fernandes refletiu a imagem genuína da formação oferecida por seus professores, no curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, especialmente dos franceses que dele fizeram parte, mas também assimilou as orientações recebidas na Escola de Sociologia e Política, onde defendeu o mestrado em 1949. Florestan transformou-se no principal artífice da moderna sociologia brasileira, traduzida na estilização do modelo de intelectual rigoroso, capaz de dominar os seus meios expressivos, detentor de um saber comprometido com a agenda coletiva, mas de recusa a “orientações estritamente políticas”.

Em Ensaios de Sociologia Geral e Aplicada, de 1960, o sociólogo admite a utilização de medidas intervenientes na correção de situações coletivas, sem, no entanto, reduzir o pensamento em “plano imediato da ação”. Comungava, portanto, das ideias de Karl Mannheim, sociólogo influente nos meios cultos do Brasil, dada a centralidade que conferiu aos intelectuais na formulação de instrumentos de planejamento. Não foi por casualidade que as Ciências Sociais brasileiras privilegiaram o tema da mudança social e do desenvolvimento nacional. Continue reading “Escola Paulista de Sociologia: Florestan Fernandes”

Interpretes do Brasil (Geração dos 30): Caio Prado Júnior

“Caio Prado Júnior e o Lugar do Brasil no Mundo”é um artigo de Bernardo Ricupero publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

Caio da Silva Prado Júnior nasce em 1907, numa das mais importantes famílias da burguesia cafeeira de São Paulo, os Silva Prado. Sua infância e juventude são as de alguém de sua classe. A educação, em particular, fica a cargo de governantas estrangeiras, colégios tradicionais, uma temporada na Inglaterra e o curso de direito da Faculdade do Largo São Francisco.

Na faculdade, começa a ter atuação política. Ingressa no Partido Democrático, que reúne, num programa liberal e moralizante, membros da oligarquia e das camadas médias paulistas descontentes com a orientação da Primeira República. Naturalmente, a Revolução de 1930 é recebida com entusiasmo pelo jovem advogado.

No entanto, logo vem a decepção e, com ela, a radicalização política. Torna-se, assim, em 1931, membro do Partido Comunista do Brasil (PCB). Tal decisão é um marco na vida de Caio Prado Júnior. Por conta dela, estuda o Brasil para transformá-lo; conhece inúmeras prisões e o exílio; funda a editora e a Revista Brasiliense; chega a vice-presidente da seção paulista da Aliança Nacional Libertadora (ANL); é eleito deputado estadual; além de se dedicar às tarefas mais humildes da militância.

Mas apesar da dedicação, as posições de Caio Prado Júnior no PCB são quase sempre marginais. Quando morre, em 1990, já está afastado do partido. Continue reading “Interpretes do Brasil (Geração dos 30): Caio Prado Júnior”

Interpretes do Brasil (Geração dos 30): Sérgio Buarque de Holanda

“Caminhos de Sérgio Buarque de Holanda”é um artigo de Robert Wegner publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

O movimento modernista portava uma confiança no processo de modernização do país. Não demandaria um rompimento com a tradição, pois esta seria passível de ser atualizada, assemelhando-se à cultura europeia, tida como modelo de civilização.

Esse movimento renovador passou por um abalo com a publicação no Correio da Manhã, em 1924, do Manifesto Pau-Brasil, de autoria de Oswald de Andrade, sob inspiração surrealista. Vista por essa senda, a tradição poderia se modernizar, mas, ao mesmo tempo que incorporasse elementos da cultura europeia, subverteria o próprio modelo de civilização.

Nessa dinâmica de incorporar transformando, a tradição lançava uma interrogação sobre o valor da cultura europeia. Além da afirmação da autenticidade, essa postura chega a sugerir que a experiência brasileira produziria uma alternativa de civilização.

Assim, desde 1924, é possível vislumbrar duas tendências no modernismo. No entanto, o movimento não chegou a cindir-se. A essa altura, SérgioBuarque de Holanda era um jovem reconhecido e atuante nos meios literários. Ocupando um lugar de referência na reflexão modernista, escreveu o artigo “O lado oposto e outros lados”, publicado na Revista do Brasil, em outubro de 1926, em que explicitava a divisão e tomava partido. Continue reading “Interpretes do Brasil (Geração dos 30): Sérgio Buarque de Holanda”

Interpretes do Brasil (Geração dos Anos 30): Gilberto Freyre

“Chuvas de Verão. Antagonismos em Equilíbrio em Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre” é um artigo de Ricardo Benzaquen de Araújo publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015). Pretende discutir alguns aspectos da obra de Gilberto Freyre, concentrando-se no seu livro de estreia, Casa-grande & Senzala, cuja publicação em 1933 levanta questões até hoje importantes para o entendimento do passado brasileiro.

O debate intelectual sobre os destinos do país estava, naquele momento, profundamente marcado pelo tema da mestiçagem. Mas a mestiçagem, isto é, o contato sexual entre grupos étnicos distintos, costumava ser apresentada como um problema:

  • ora implicava esterilidade— biológica e cultural —, inviabilizando assim o desenvolvimento nacional,
  • ora retardava o completo domínio da raça branca, dificultando o acesso do Brasil aos valores da civilização ocidental.

Freyre concorreu para alterar esta avaliação, enfatizando não só o valor específico das influências indígenas e africanas como também a dignidade da híbrida e instável articulação de tradições que teria caracterizado a colonização portuguesa. Separou a noção de raça da de cultura e conferiua esta última absoluta primazia na análise da vida social.

Será este, então, o caminho percorrido pelo Gilberto Freyre para:

  1. contrapor-se à maioria dos seus contemporâneos,
  2. redefinir a ideia de mestiçagem e, de certa forma,
  3. reinventar o Brasil.

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Dependência de Trajetória Histórica do Brasil

O livro intitulado “História da Riqueza no Brasil” (Caldeira, Jorge. Rio de Janeiro: Estação Brasil; 2017) traduziria melhor seu conteúdo caso se intitulasse História do Desgoverno do Brasil ou a História Neoliberal do Brasil. Ou mesmo a Autoconstrução do Mercado no Brasil: dos Tupis aos PhDeuses. Já desenvolvi esse argumento em outro artigo-resenha.

Neste, meu objetivo é analisar a metodologia usada por Caldeira na tentativa de provar sua tese de autossuficiência do mercado interno no período 1500-1808 do Brasil colonizado. “A noção de economia de subsistência e a consequente suposição de uma vida econômica restrita aos mínimos vitais foi empregada irrestritamente, no século XX, por economistas e historiadores de todas as tendências para descrever a produção dos povos das Terras Baixas” (p. 24) Esta é a porção a leste dos Andes no continente sul-americano. Quase todos viviam em aldeias autônomas.

O autor alega que apenas no século XX começamos a entender melhor os costumes para contar a história econômica dos governos nativos no atual território do Brasil. Isso ocorreu graças aos estudos dos sistemas de produção econômica e de governo dos indígenas realizados por “importantes intelectuais: antropólogos do porte de Darcy Ribeiro, Roberto da Matta e Eduardo Viveiros de Castro”. Outros indícios permitem aos cientistas contar a história de povos sem escrita. Continue reading “Dependência de Trajetória Histórica do Brasil”