Nostalgia do Futuro (por Luiz Gonzaga Belluzzo)

Luiz Gonzaga Belluzzo é meu ex-professor, aposentado como Professor Titular do Instituto de Economia da Unicamp. Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists. Em sua coluna mensal (Valor, 06/11/18) ele trata indiretamente de tema conjuntural: o fim do Ministério do Trabalho como símbolo de desaparecimento definitivo do legado getulista.

Em conjunto com a reforma trabalhista, cortando as contribuições compulsórias aos sindicatos brasileiros, significará o fim do trabalhismo no Brasil? Dependerá da combatividade dos sindicatos autenticamente representativos de categorias profissionais — e não “de carimbo” para a mobilidade social de oportunistas burocratas.

Alguém já comentou: os “pais fundadores” do IE-UNICAMP seriam defensores do legado getulista assim como os “pais fundadores” da FFLCH-USP e CEBRAP seriam antipopulistas por causa da tradição da “Revolução de 1932” da elite paulistana. A segunda geração do IE-UNICAMP, assim com a da FFLCH-USP e CEBRAP, parece ser mais lulista ou petista em vez de getulista ou anti-populista.

“Em entrevista sobre seu filme Satyricon, Federico Fellini desvelou a alma que se escondia no rosto atormentado de seus personagens. No crepúsculo do império romano e de suas glórias, as faces se contorciam entre o tédio das concupiscências e as angústias da desesperança. Para o grande Federico, o filme escancarava “a nostalgia do Cristo que ainda não havia chegado”.

Nesta hora em que muitos se submetem ao medo ou escolhem o ódio, não é despropositado recordar momentos que inspiraram vida, insuflaram esperanças e ensejaram conquistas às mulheres e homens dos Tristes Trópicos.

Vasculhar o passado com os olhos no horizonte é um saudável exercício de nostalgia do futuro. Nós, brasileiros, padecemos, hoje, as dores de uma indagação crucial: corremos o risco de sermos piores do que já fomos, ou podemos ser muito melhores do que parecemos? Continue reading “Nostalgia do Futuro (por Luiz Gonzaga Belluzzo)”

Violência Histórica

Diego Viana (Valor, 16/02/2018) afirma: histórias sobre crime e violência acompanham o cotidiano do cidadão brasileiro. Desde meados da década de 1980, a população manifesta a sensação de as cidades estarem cada vez mais perigosas e o crime estar fora de controle. Mas as historiadoras Mary del Priore e Angélica Müller propõem olhar para o problema da violência por um ângulo diferente: “Em nossa sociedade, cresce a violência ou nossa sensibilidade em relação a ela?

Os resultados dessa investigação foram reunidos no recém-lançado livro “História dos Crimes e da Violência no Brasil” (Editora Unesp, 485 págs., R$ 75). Mary Del Priore (Universidade Salgado de Oliveira) e Angélica Müller (Universidade Federal Fluminense) são as organizadoras do volume. Ele trata de assuntos tão distintos quanto a execução de índios homossexuais no Maranhão e em Sergipe no século XVI ou as falcatruas em que cartolas do futebol são os protagonistas no século XXI.

Os autores reunidos nos 16 capítulos do volume traçam um panorama de cinco séculos de eventos violentos e criminosos no país. O fio condutor está centrado na ideia de como o crime e o emprego da violência fizeram e fazem parte de nossa sociedade. O grupo de pesquisadores inclui juristas, sociólogos, psicólogos, antropólogos e historiadores.

A associação entre violência e crime no título permite abarcar temas cuja relação não parece direta, como os escândalos de corrupção, a intolerância religiosa e as disputas de terra no campo. Por isso, o crime é definido de modo amplo, como um tipo de infração grave, passível de punição pela lei ou pela moral e reprovado pela consciência. A violência figura como força exercida por uma pessoa, um grupo, um Estado com o intuito de forçar alguém/algo para conseguir alguma coisa.

O imaginário em torno da violência é tema de vários capítulos. O modo como o crime é trabalhado na literatura é tratado pelo historiador Daniel Faria a partir de obras de Dyonelio Machado e Graciliano Ramos. Programas de TV, desde os anos 60, fazem da violência urbana brasileira um espetáculo para os espectadores, como “Aqui Agora” (SBT) e “Cidade Alerta” (Record). São tratados pelo historiador Wagner Pinheiro Pereira.

Se expulsamos a morte pela porta, ela volta pela janela. Esta proximidade com o tema da morte ajuda a entender o fascínio com a violência. Leva ao consumo de obras de ficção a seu respeito, muitas vezes de modo cru e direto. Quando queremos canalizá-la ou reprimi-la, ela ressurge de outra forma.

Autora de 48 livros de história, Mary Del Priore concedeu a seguinte entrevista ao Valor. Resumo-a abaixo. Continue reading “Violência Histórica”

Museu Nacional do Brasil: Um País A Procura de Si Perde O Arquivo Onde Poderia Encontrar Sua História

Pedro Soares Botelho , um português observador do País, escreveu um pertinente texto a respeito do incêndio do Museu Nacional. Reproduzo-o abaixo.

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Escola Paulista de Sociologia: Octavio Ianni

Octavio Ianni: Diversidade e Desigualdade” é artigo assinado por Elide Rugai Bastos, publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

Desde sua tese de doutorado, publicada em 1962 — As Metamorfoses do Escravo —, busca compreender as raízes do processo de discriminação no Brasil. Volta-se ao estudo da instauração do regime escravista, à dominação senhorial no estado do Paraná e ao modo pelo qual o sistema define o sentido das relações entre negros e brancos.

Essa reconstituição visa à definição do conjunto de atores constituintes da trama das relações sociais, pois o objetivo é analisar a socialização no seio do “antigo regime”. Esse processo funda os comportamentos sociais adaptados às novas condições pós-abolição, porém preserva a assimetria das relações, pois é multiplicador dos ritos de reforço dessa diferença.

Por exemplo, os modos de expressão da cultura africana são coibidos de vários modos. A religiosidade, a dança, a fala, as atividades lúdicas são vistas como subcultura. Essa desvalorização põe o negro diante de uma situação dual:

  1. manter suas raízes culturais e ser excluído dos grupos considerados “civilizados” ou
  2. absorver passivamente a “cultura branca” considerada superior, para “integrar-se”.

Trata-se de herança do período escravocrata. Sendo a socialização definidora da identidade, ela atuou como impeditivo à emergência, no meio escravo, de uma consciência social e histórica que poderia negar o regime. Embora explodissem os conflitos — fugas, assassinatos, quilombos —, estes não definiam diretamente um projeto libertador. Continue reading “Escola Paulista de Sociologia: Octavio Ianni”

Escola Paulista de Sociologia: Florestan Fernandes

Florestan Fernandes. Vocação Científica e Compromisso de Vida” é artigo assinado por Maria Arminda do Nascimento Arruda” publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

O sociólogo Florestan Fernandes refletiu a imagem genuína da formação oferecida por seus professores, no curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, especialmente dos franceses que dele fizeram parte, mas também assimilou as orientações recebidas na Escola de Sociologia e Política, onde defendeu o mestrado em 1949. Florestan transformou-se no principal artífice da moderna sociologia brasileira, traduzida na estilização do modelo de intelectual rigoroso, capaz de dominar os seus meios expressivos, detentor de um saber comprometido com a agenda coletiva, mas de recusa a “orientações estritamente políticas”.

Em Ensaios de Sociologia Geral e Aplicada, de 1960, o sociólogo admite a utilização de medidas intervenientes na correção de situações coletivas, sem, no entanto, reduzir o pensamento em “plano imediato da ação”. Comungava, portanto, das ideias de Karl Mannheim, sociólogo influente nos meios cultos do Brasil, dada a centralidade que conferiu aos intelectuais na formulação de instrumentos de planejamento. Não foi por casualidade que as Ciências Sociais brasileiras privilegiaram o tema da mudança social e do desenvolvimento nacional. Continue reading “Escola Paulista de Sociologia: Florestan Fernandes”

Interpretes do Brasil (Geração dos 30): Caio Prado Júnior

“Caio Prado Júnior e o Lugar do Brasil no Mundo”é um artigo de Bernardo Ricupero publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

Caio da Silva Prado Júnior nasce em 1907, numa das mais importantes famílias da burguesia cafeeira de São Paulo, os Silva Prado. Sua infância e juventude são as de alguém de sua classe. A educação, em particular, fica a cargo de governantas estrangeiras, colégios tradicionais, uma temporada na Inglaterra e o curso de direito da Faculdade do Largo São Francisco.

Na faculdade, começa a ter atuação política. Ingressa no Partido Democrático, que reúne, num programa liberal e moralizante, membros da oligarquia e das camadas médias paulistas descontentes com a orientação da Primeira República. Naturalmente, a Revolução de 1930 é recebida com entusiasmo pelo jovem advogado.

No entanto, logo vem a decepção e, com ela, a radicalização política. Torna-se, assim, em 1931, membro do Partido Comunista do Brasil (PCB). Tal decisão é um marco na vida de Caio Prado Júnior. Por conta dela, estuda o Brasil para transformá-lo; conhece inúmeras prisões e o exílio; funda a editora e a Revista Brasiliense; chega a vice-presidente da seção paulista da Aliança Nacional Libertadora (ANL); é eleito deputado estadual; além de se dedicar às tarefas mais humildes da militância.

Mas apesar da dedicação, as posições de Caio Prado Júnior no PCB são quase sempre marginais. Quando morre, em 1990, já está afastado do partido. Continue reading “Interpretes do Brasil (Geração dos 30): Caio Prado Júnior”

Interpretes do Brasil (Geração dos 30): Sérgio Buarque de Holanda

“Caminhos de Sérgio Buarque de Holanda”é um artigo de Robert Wegner publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

O movimento modernista portava uma confiança no processo de modernização do país. Não demandaria um rompimento com a tradição, pois esta seria passível de ser atualizada, assemelhando-se à cultura europeia, tida como modelo de civilização.

Esse movimento renovador passou por um abalo com a publicação no Correio da Manhã, em 1924, do Manifesto Pau-Brasil, de autoria de Oswald de Andrade, sob inspiração surrealista. Vista por essa senda, a tradição poderia se modernizar, mas, ao mesmo tempo que incorporasse elementos da cultura europeia, subverteria o próprio modelo de civilização.

Nessa dinâmica de incorporar transformando, a tradição lançava uma interrogação sobre o valor da cultura europeia. Além da afirmação da autenticidade, essa postura chega a sugerir que a experiência brasileira produziria uma alternativa de civilização.

Assim, desde 1924, é possível vislumbrar duas tendências no modernismo. No entanto, o movimento não chegou a cindir-se. A essa altura, SérgioBuarque de Holanda era um jovem reconhecido e atuante nos meios literários. Ocupando um lugar de referência na reflexão modernista, escreveu o artigo “O lado oposto e outros lados”, publicado na Revista do Brasil, em outubro de 1926, em que explicitava a divisão e tomava partido. Continue reading “Interpretes do Brasil (Geração dos 30): Sérgio Buarque de Holanda”