Interpretes do Brasil (Geração dos Anos 30): Gilberto Freyre

“Chuvas de Verão. Antagonismos em Equilíbrio em Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre” é um artigo de Ricardo Benzaquen de Araújo publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015). Pretende discutir alguns aspectos da obra de Gilberto Freyre, concentrando-se no seu livro de estreia, Casa-grande & Senzala, cuja publicação em 1933 levanta questões até hoje importantes para o entendimento do passado brasileiro.

O debate intelectual sobre os destinos do país estava, naquele momento, profundamente marcado pelo tema da mestiçagem. Mas a mestiçagem, isto é, o contato sexual entre grupos étnicos distintos, costumava ser apresentada como um problema:

  • ora implicava esterilidade— biológica e cultural —, inviabilizando assim o desenvolvimento nacional,
  • ora retardava o completo domínio da raça branca, dificultando o acesso do Brasil aos valores da civilização ocidental.

Freyre concorreu para alterar esta avaliação, enfatizando não só o valor específico das influências indígenas e africanas como também a dignidade da híbrida e instável articulação de tradições que teria caracterizado a colonização portuguesa. Separou a noção de raça da de cultura e conferiua esta última absoluta primazia na análise da vida social.

Será este, então, o caminho percorrido pelo Gilberto Freyre para:

  1. contrapor-se à maioria dos seus contemporâneos,
  2. redefinir a ideia de mestiçagem e, de certa forma,
  3. reinventar o Brasil.

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Dependência de Trajetória Histórica do Brasil

O livro intitulado “História da Riqueza no Brasil” (Caldeira, Jorge. Rio de Janeiro: Estação Brasil; 2017) traduziria melhor seu conteúdo caso se intitulasse História do Desgoverno do Brasil ou a História Neoliberal do Brasil. Ou mesmo a Autoconstrução do Mercado no Brasil: dos Tupis aos PhDeuses. Já desenvolvi esse argumento em outro artigo-resenha.

Neste, meu objetivo é analisar a metodologia usada por Caldeira na tentativa de provar sua tese de autossuficiência do mercado interno no período 1500-1808 do Brasil colonizado. “A noção de economia de subsistência e a consequente suposição de uma vida econômica restrita aos mínimos vitais foi empregada irrestritamente, no século XX, por economistas e historiadores de todas as tendências para descrever a produção dos povos das Terras Baixas” (p. 24) Esta é a porção a leste dos Andes no continente sul-americano. Quase todos viviam em aldeias autônomas.

O autor alega que apenas no século XX começamos a entender melhor os costumes para contar a história econômica dos governos nativos no atual território do Brasil. Isso ocorreu graças aos estudos dos sistemas de produção econômica e de governo dos indígenas realizados por “importantes intelectuais: antropólogos do porte de Darcy Ribeiro, Roberto da Matta e Eduardo Viveiros de Castro”. Outros indícios permitem aos cientistas contar a história de povos sem escrita. Continuar a ler

História do Desgoverno do Brasil

Fiquei animado quando me deparei com um livro intitulado “História da Riqueza no Brasil” (Caldeira, Jorge. Rio de Janeiro: Estação Brasil; 2017). Enfim, pensei, alguém publicou algo substantivo na minha área de pesquisa. Vou “colocar meus olhos” nele.

Ledo engano. Intitulado “propaganda enganosa”. O título do livro promete pesquisa sobre “riqueza brasileira”, mas o texto em nenhuma passagem fala de, por exemplo, concentração de riqueza no nosso País! Sequer diz algo sobre a distribuição de renda.

O entendimento de o que é riqueza para um economista parece diferir do que é para o historiador. Em Economia, riqueza é um conceito de estoque ou patrimônio líquido. Na Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014), segundo a evolução do Índice de Gini, estimado para a sociedade brasileira, houve pequena diminuição da desigualdade da distribuição do fluxo de renda do trabalho. No entanto, teria havido elevação da desigualdade da riqueza, ou seja, da apropriação de ativos que são as diversas formas de manutenção da riqueza: imóveis, automóveis, investimentos financeiros (ações, debêntures, títulos, etc.), quadros, cavalos de raça, enfim, tudo que tiver um mercado secundário organizado com cotações. Assim, propicia liquidez para realização do ganho de capital pela “regra de ouro do comércio”: tendo comprado barato, vender caro.

O historiador, no caso, parece identificar riqueza só como uma qualidade do que – o País, por exemplo – ou de quem é rico: os empreendedores. Mas ele não chega a focalizar ou medir a opulência, a abundância de bens, de fortuna. Também não faz nenhum inventário dos bens materiais de valor para mostrar quanto cada casta possuiu de riquezas ao longo da história brasileira. Coloca apenas como pano-de-fundo a fertilidade, a fecundidade ou a riqueza do solo pátrio. Cita en passant a ostentação, o luxo, o fausto da riqueza dos templos religiosos construídos em Terrae Brasilis. Continuar a ler

Pré-História do Brasil

Na prática, a explicação “ambientalista”, para a história dos povos vencidos, também dada pelo sempre citado Jared Diamond no livro “1499: a pré-história do Brasil” (1a. ed. – Rio de Janeiro: Harper Collins, 2017), de autoria de Reinaldo José Lopes, tem a ver com os aspectos problemáticos de simplesmente transferir um pacote tecnológico e civilizacional de uma região para a outra.

Indígenas moradores da Mata Atlântica ou do cerrado, por exemplo, dificilmente conseguiriam criar rebanhos de lhamas e alpacas, ainda que fossem instruídos nessa arte por “veterinários” andinos cheios de paciência e boa vontade, porque os animais não iriam se dar bem no clima brasileiro. Por outro lado, em vastas áreas do Velho Mundo, a situação era consideravelmente diferente, em grande parte graças à relativa uniformidade de condições ambientais em toda a grande bacia do Mediterrâneo e em áreas adjacentes, como a Mesopotâmia.

[O argumento climáticoe epidemiológico, correspondente à propagação de uma doença infecciosa em determinada localidade ou em grandes regiões – serve também para explicar as diferenças de colonização e domesticação de animais entre as muitas longitudes e menos latitudes da Euroásia e as muitas latitudes e menos longitudes da África.] Continuar a ler

1499: O Brasil antes de Cabral

Reinaldo José Lopes é repórter, colunista e blogueiro da editoria de Ciência da Folha de S. Paulo, que ele chefiou de 2010 a 2013. Sua especialidade é a cobertura das ciências que investigam o passado remoto, em especial a arqueologia, a paleontologia e a biologia evolutiva. O livro “1499: a pré-história do Brasil” de sua autoria (1a. ed. – Rio de Janeiro: Harper Collins, 2017), para quem conhece bem a obra de Jared Diamond – Armas, Germes e Aço, em destaque entre outros livros – e livro de autoria de Carlos Fausto, Os Índios antes do Brasil, não traz grande novidade analítica, somente acrescenta algumas descobertas paleontológicas que eu desconhecia.

Porém, seu livro permite uma curiosa releitura d pré-história do Brasil a partir do debate ideológico contemporâneo, quando se polarizam os fanáticos defensores de O Mercado como um deus, de um lado, e os extremistas partidários de O Estado como um deus ex-machina, de outro.

Nesse sentido, essa não-ficção permite um interessante contraste com a narrativa histórica ficcional de Terra Papagalli de José Roberto Torero e Marcus Palmerius, antes resenhado neste modesto blog pessoal. Neste livro, a impressão é que o Estado do Império Lusitano vem implantar à força da casta dos guerreiros uma ordem favorável somente aos interesses daqueles apadrinhados, favorecidos e patrocinados, que desfrutam de patrocínio ou favor da casta da aristocracia governante em Lisboa.

Mero engano: as interações entre essas castas citadas mais as dos mercadores extrativistas/escravistas e dos sábios sacerdotes da Igreja Católica Romana foram fundamentais para a emergência da colônia brasileira. Aliás, a ideologia de coesão social, implantada na colonização portuguesa, foi a religiosa. E a Inquisição em Portugal se encarregou da expulsão dos judeus “cristãos-novos” para cá. Estima-se que esses degredados judeus eram cerca de 1/3 dos colonizadores. Continuar a ler

Post Que Conta a Criação do Paraíso

No livro “Terra papagalli”, coautoria de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta (1a. ed. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2013), o narrador Cosme Fernandes, Barão de Cananeia, conta como se tornou o primeiro expoente da casta dos mercadores de escravos na Terra dos Papagaios, futuramente denominado Brasil. Por suas lições econômicas – e religiosas – reproduzo abaixo seu interessante depoimento, mantendo seu peculiar linguajar e sua esperta autoindulgência.

“Quando Estebanillo Delgado [comandante de armada castelhana cuja nau ia no rumo das terras meridionais] partiu, disse que havia gostado de fazer negócio comigo e que falaria de mim a todos os navegantes que fossem à Terra dos Papagaios. Falei que a troca havia sido somente a solução de um problema [dificuldade de manter a vigilância sobre os 52 prisioneiros Tupinambás que iriam ser devorados] e que não pensava em transformar aquilo num comércio, mas ele me respondeu: “Não sejas tolo, ó Bacharel, deve haver mais gentios por esses matos que grãos de areia nessa praia. Podes ficar rico vendendo esses prisioneiros.” Continuar a ler

Liber Monstrorum de Diversis Generibus (por Cosme Fernandes)

No livro “Terra papagalli”, coautoria de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta (1a. ed. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2013), o narrador Cosme Fernandes, judeu “cristão-novo” – e degredado por isso mesmo – tira “lições cristãs” para seu interlocutor até dos animais da Terra dos Papagaios.

Intróito

Sendo o Criador infinito em saber e poder, não poderia se contentar em criar umas poucas alimárias sem variar-lhes as formas, as cores e as maneiras, e por isso as pôs nesta Terra de tantos modos quantos são as estrelas que há no céu.

Muitos homens tentaram juntar as mais diversas criaturas moldadas pelo Soberano em livros que se chamam bestiários, e a eles quero me juntar. (…)

Mas, como nenhum desses valorosos senhores esteve na Terra dos Papagaios, é este um bestiário diferente de todos os já feitos, pois não descreverei aqui os conhecidos e comuns unicórnios, grifos e sereias, que todos já viram ao menos em desenho quando não em pêlo, mas sim as principais e inéditas criaturas que vi nestas paragens, que não existem em nenhum outro sítio da Ásia, África ou mesmo do inferno.

Fique então o leitor com estes seres bizarros e únicos, com os quais temos muito o que aprender, sabendo que posso jurar e tresjurar que tudo o que aqui está é tão verdade quanto eu chamar-me Cosme Fernandes e vós serdes quem sois.” Continuar a ler