Corrente Principal e Controvérsia Pluralista

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Top row: Fisher, Keynes, Modigliani
Middle row: Solow, Friedman, Ana Schwartz
Bottom row: Sargent, Fischer, Prescott

Em artigo publicado no Valor (20/09/16), o ex-ministro da Fazenda da ditadura militar, Antônio Delfim Netto, em seu direitismo senil, fez mais uma típica descoberta do óbvio — aquilo que todo economista heterodoxo há muito tempo já sabia e ficava boquiaberto dos colegas ortodoxos não saberem: a vanguarda intelectual em Economia é heterodoxa! Se suas descobertas forem realmente pertinentes, serão incorporados ao “mainstream” – “corrente principal do pensamento econômico” como os ortodoxos arrogantemente auto atribuem sua denominação.

Em outras palavras, a Ciência Econômica não evoluiria por uma lógica imanente, mas sim sob a pressão – ou o açoite – da dissidência heterodoxa que expande a fronteira dessa área de conhecimento. Logo, o debate pluralista é fundamental para a expansão do nosso conhecimento científico. Hipóteses são levantadas para serem falseadas, ou seja, submetidas ao debate intelectual e às constatações empíricas para verificar sua sustentação ou não. Caso caiam, levantam-se novas hipóteses.

Economistas bem formados devem ser plurais, conhecendo todas as contribuições das diversas linhas de pensamento sobre todos os assuntos. Para exemplificar isso, vamos examinar uma interessante evolução, supostamente, dentro da “corrente principal”. Não se trata de uma trajetória linear em direção a um equilíbrio convergente de todas as opiniões, mas sim de predominância periódica de certas ideias, ou melhor, de alternâncias entre opiniões ou práticas dominantes. Os conflitos de interesses resultam em adoções de ideias e instituições distintas em cada fase do mundo real. Continue reading “Corrente Principal e Controvérsia Pluralista”

Só Rio

Maria da Conceição Tavares 140814

Fui almoçar com minha Professora Maria da Conceição Tavares justamente no dia que tinha sido publicada a foto acima, tirada antes de sua participação no seminário “Brasil em Perspectiva II”, organizado pelo Centro de Altos Estudos Brasil Século XXI, no Rio de Janeiro. Não fui convidado para tal seminário. Foi bom, pois em vez de “falar mais conosco mesmo”, dei uma palestra na Mackenzie-Rio para um número muito maior de estudantes da Zona Norte e dos suburbios cariocas.

Mas a Professora e eu sorrimos um para o outro quando comentamos a manchete logo abaixo dessa cobertura: “Para economistas, baixa poupança é obstáculo ao crescimento”. Isto quando a relação crédito / PIB se elevou de 23% para 56% em dez anos…

Ignorância é motivo de riso? Não. O sorriso foi porque quem afirmou tal asneira pré-keynesiana foi economista neoclássico em um seminário supostamente de pós-keynesianos! Entendeu? Não? Eu também não, então, só-rio!

Segundo Juliana Elias (Valor, 15/08/14), o baixo nível de poupança do Brasil foi destacado por alguns economistas como um dos maiores entraves aos investimentos, à recuperação da indústria e, principalmente, ao crescimento da economia com taxas mais robustas. O assunto foi destaque no ciclo de debates promovido em São Paulo pela Associação Keynesiana Brasileira (AKB). Não basta a ANPEC, também essa Associação foi invadida por neoclássicos! Continue reading “Só Rio”

A Ética do Capitalismo e o Espírito do Protestantismo: Desmitificação da Poupança

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Dado o declínio religioso na Europa, onde o ateísmo tende a superar o cristianismo, seja o protestantismo no norte europeu, seja o catolicismo no sul-mediterrâneo, Niall Ferguson (Civilização; 2012: 316) lança as seguintes perguntas:

  1. Será que, como próprio Max Weber havia previsto, o espírito do capitalismo estava fadado a destruir sua origem ética protestante, assim como o materialismo corrompeu o ascetismo original dos devotos?
  2. O que no desenvolvimento econômico foi hostil à fé religiosa?
  3. Foi a transformação do papel da mulher e a degradação da estrutura familiar, que também parece explicar a diminuição do tamanho das famílias e o declínio demográfico do Ocidente, a explicação para a descrença?
  4. Ou foi o conhecimento científico – a “desmitificação do mundo”, especialmente, pela Teoria da Evolução de Darwin – que falseou a história bíblica da criação divina?
  5. Foi a melhoria na expectativa de vida que tornou a vida após a morte um destino mais distante e menos alarmante?
  6. Foi o Estado de Bem-Estar Social, “um pastor secular”, cuidando da população do berço ao túmulo?
  7. Ou será que o cristianismo europeu foi morto pela auto-obsessão crônica da cultura moderna?

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Empreendedorismo segundo Benjamin Franklin

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Os principais pensadores do rotulado Iluminismo norte-americano foram inspirados por escritores iluministas europeus, como John Locke, Edmund Burke, Jean-Jacques Rousseau, Voltaire e Montesquieu. O sistema de governo do federalismo denominado Estados Unidos da América nasceu dos Princípios Liberais e Republicanos.

Os constituintes norte-americanos se opuseram à autoridade centralizada e absoluta, bem como aos privilégios aristocráticos. Apoiaram-se em alicerce constituído a partir de ideais pluralistas, a proteção dos direitos dos indivíduos e a cidadania universal.

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Fundamentos e Limites do Princípio do “Laissez-Faire” ou da Não-Interferência Governamental

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Laissez-faire é hoje expressão-símbolo do liberalismo econômico, na versão mais pura de Capitalismo de que o mercado deve funcionar livremente, sem interferência. Esta Filosofia Econômica tornou-se dominante nos Estados Unidos e nos países ricos da Europa, durante o final do século XIX até o início do século XX. Nesta era, conhecida por ser dominada por “barões-ladrões”, os carteis e trustes a desmitificaram.

Ela é parte da expressão em língua francesa “laissez faire, laissez aller, laissez passer”, que significa literalmente “deixai fazer, deixai ir, deixai passar”. A sua origem é incertamente atribuída ao comerciante Legendre, que a teria pronunciado em reunião com Colbert, no final do século XVII: Que faut-il faire pour vous aider? perguntou Colbert. Vous laissez faire, teria respondido Legendre.

Transformou-se no provérbio fisiocrata: Laissez faire, laissez passer, le monde va de lui même [“Deixe fazer, deixe passar, o mundo vai por si mesmo.”]. É similar ao provérbio popular de origem francesa: “Louvo todos os deuses, bebo meu bom vinho, e deixo o mundo ser mundo!” No popular brasileiro: “Deixa a vida me levar; vida, leva eu!

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Depuração da Teoria Psicológica ou Subjetiva do Valor

comportamento humano

Joseph A. Schumpeter, em sua História da Análise Econômica (1954 / 1964: 328), conta que economistas austríacos do século XIX, que enfrentavam oponentes alemães de tendências fortemente antiutilitárias, perceberam a necessidade de evitar o hedonismo em suas teses. A aliança histórica ente a Teoria da Utilidade e a Filosofia Utilitarista era óbvia, embora não lógica. Alguns dos maiores expoentes da Utilidade Marginal, como Jevons e Edgeworth, eram, na verdade, utilitaristas convictos.

Davam a impressão de que a Teoria da Utilidade Marginal dependia de premissas utilitaristas ou hedonistas como Jeremy Bentham certamente acreditava. Jevons chegou mesmo a dominar a teoria econômica de “cálculo de prazer e desprazer”, misturando Economia com Hedonia.

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O Método da Economia Política

Captação mental de imagem

Na Apresentação escrita por João Quartim de Moraes para a Tradução de Fausto Castilho, ambos então professores do IFHC-UNICAMP, ele afirma: “Poucos textos de Marx ocupam posição tão singular em sua obra quanto ‘O Método da Economia Política’, terceiro dos quatro tópicos da “Introdução à Crítica da Economia Política” (Einleitung zur Kritik der Politischen Ökonomie), conhecida mais simplesmente por Introdução de 1857, o mais notável, ao lado do estudo sobre as “Formas que precederam a produção capitalista”, dos escritos incluídos nos Grundrisse der Kritik der Politischen Ökonomie, conjunto de manuscritos econômicos redigidos por Marx em Londres durante o biênio 1857-58 e publicados pela primeira vez em Moscou em 1939. A singularidade do texto (…) está em que é a mais longa, densa e sistemática discussão sobre o método na obra de Marx. Ele também tratou do tema no Posfácio à 2a edição alemã de O Capital (1873)”. Só dez anos depois da redação dessa Introdução seria publicado, em 1867, o primeiro volume de O Capital.

Gentil Corazza, Professor Adjunto da UFRGS, ex-aluno do IE-UNICAMP, em artigo denominado Uma Introdução ao Método da Economia Política (Estudos Econômicos. São Paulo; v. 26; n. Especial, pp. 35-50, 1996), afirma que esse método “se define pela natureza da realidade a ser investigada, a realidade social, que não é um aglomerado de partes isoladas, mas forma a totalidade histórico-social, contraditória e dialética. As questões centrais do Método da Economia Política são:

  1. o problema das relações entre o abstrato e o concreto,
  2. a indução e a dedução,
  3. o lógico e o histórico,
  4. o indivíduo e as relações sociais, e
  5. o problema das relações entre o capital em geral e os capitais individuais”.

Em seu artigo, Corazza acentua a necessidade de se superar tanto o mero conhecimento abstrato das partes como o conhecimento apenas dedutivo da realidade, a partir de leis gerais abstratas. Superação significa manter o que há de frutífero nessas etapas para ir adiante e se atingir o conhecimento abrangente do todo concreto, não de forma descritiva, mas sim analítica. “Conhecer a realidade concreta é um processo que envolve três movimentos:

  1. abstrair as partes do todo,
  2. analisar suas leis e relações internas, e,
  3. finalmente, reproduzir conceitualmente o todo concreto.”

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