Programa ou Paradigma dos Annales Face aos Eventos da História

José Carlos Reis, no livro “A História entre a Filosofia e a Ciência”, afirma que, para Fernand Braudel, em primeiro lugar, a construção teórica do “modelo” dos Annales não se deu entre 1946 e 1972, mas em 1929.

Entretanto, prossegue Braudel, apesar de combaterem a história tradicional, Febvre e Bloch não tiveram a impressão de estar criando um paradigma, se entende este termo como um sistema de pensamento rigorosamente articulado e concluído. Eles não teriam, contenta Braudel, nenhum prazer em usar esse termo e menos ainda termos como “escola” e “modelo”. O que propuseram foi somente uma “troca de serviços” da História com as Ciências Sociais. E essa troca, para Braudel, era e continuou sendo o último e mais profundo motor dos Annales, proposta que constituiu uma novidade radical em 1929.

A segunda geração dos Annales, então, não teria acrescentado nada de novo ao projeto da primeira, apenas o teria prosseguido e aprofundado. Em seu “Personal Testimony”, Braudel será mais explícito; “Os Annales, apesar da sua vivacidade, nunca constituíram uma escola no sentido estrito, isto é, um modelo de pensamento fechado em si mesmo” (1972).

O próprio Braudel, portanto, recusa a hipótese da existência de um paradigma, no sentido de Kuhn, para os Annales. Este fato encerraria o assunto? No interior do grupo, os seus sucessores discutem a respeito. Continue reading “Programa ou Paradigma dos Annales Face aos Eventos da História”

Método do Materialismo Histórico Marxista

José Carlos Reis, no livro “A História entre a Filosofia e a Ciência”, afirma que, “assim como os historiadores da escola metódica, dita “positivista”, e como os filósofos da critica da razão histórica, o marxismo pretendeu recusar as Filosofias da História e fundar a “história científica”. São caminhos diferentes que visam à realização de um mesmo objetivo.

A história metódica ainda conservava implicitamente uma Filosofia da História iluminista pré-revolucionária na França, e, na Alemanha, um hegelianismo “relativizado”. A Filosofia crítica da História quis substituir Hegel por Kant, mas ainda a integravam ideais da filosofia hegeliana. Teria o marxismo conseguido romper definitivamente com a filosofia da história e criado a história-ciência?

Pierre Vilar (1982) está convencido de que sim. Segundo este autor, marxista e do grupo dos Annales, a afirmação do materialismo filosófico, agora histórico, contra as filosofias idealistas que o precederam foi o primeiro e fundamental passo naquela direção. Para o materialismo histórico de Marx, o material histórico é analisável, observável, objetivável, quantificável. Este material assim “objetivamente tratável” não são as expressões do Espírito — a religião, o Estado, a cultura, a arte, tratáveis intuitivamente — mas as “estruturas econômico-sociais”, consideradas a raiz de toda representação, de todo simbolismo, de todo o sentido de uma época.

Para Vilar, a hipótese fundamental de Marx seria, “a matéria histórica é estruturada e pensável, cientificamente penetrável como toda outra realidade”. Continue reading “Método do Materialismo Histórico Marxista”

Historicismo

José Carlos Reis, no livro “A História entre a Filosofia e a Ciência”, mostra que, no século XIX, o faro epistemológico capital foi o naufrágio da Filosofia da História e o avanço das Ciências Humanas. Não se acredita mais no Idealismo clássico e em seu Espírito absoluto.

A Filosofia tradicional da História termina no sistema hegeliano; a Filosofia moderna da História começa com a recusa do hegelianismo. A expressão “crítica da Razão histórica” resgatou Kant contra Hegel. Dilthey, que a propôs como subtítulo à sua Introdução às Ciências do Espírito, de 1888, estava convencido de que o único caminho ainda aberto para a Filosofia da história era a crítica kantiana.

A Filosofia da História toma-se Epistemologia da História: as questões sobre as condições de possibilidade do conhecimento histórico substituem as questões sobre o “ser” da história. Não se quer mais conhecer os segredos do devir humano; renunciou-se a atingir o sentido último da evolução.

A Filosofia crítica da História coloca à História as questões postas por Kant à Física newtoniana, visando a descoberta do caráter específico do conhecimento histórico, ao contrário do projeto francês de Comte, que pretendia aproximar as Ciências Humanas do modelo único e definitivo de ciência, a Física. O projeto desta filosofia crítica da História é prosseguir a obra kantiana, que deixara de lado as Ciências Humanas. Estas esperavam ainda o seu Kant — e apareceram vários candidatos à posição. Continue reading “Historicismo”

A História entre a Filosofia e a Ciência

José Carlos Reis, autor do livro A História entre a Filosofia e a Ciência (São Paulo: Editora Ática; 1996), afirma que o esforço de constituição de uma história científica, no século XIX, tomou três direções principais:

  1. a orientação rankiana, que quer aproximar a história do modelo científico da Física;
  2. a orientação diltheyniana, que quer descobrir o que há de específico no conhecimento histórico que o tome uma “ciência” diferenciada das Ciências Naturais; e
  3. a orientação marxista, que submete o conhecimento histórico-científico à sua relação com a realidade histórica e à práxis.

São três projetos de história científica inteiramente diferentes entre si, mas que têm alguns pontos em comum:

  1. a recusa explícita da Filosofia da História,
  2. a tentativa de dar um estatuto científico à História,
  3. o esforço de objetividade e
  4. a valorização do evento, percebido diferentemente por cada um.

São posições historicistas no sentido amplo do termo, isto é, que recusam o absoluto da razão intemporal e a submetem às condições históricas objetivas.

José Carlos Reis trata de cada uma dessas orientações, procurando observar:

  1. o que as separa das Filosofias da História e
  2. o que as mantém ainda sob o seu domínio.

Depois, mostra o esforço ainda mais radical dos Annales para afastar a História da Filosofia e aproximá-la das Ciências Sociais, tornando-a uma das Ciências Sociais.  Resumiremos seus argumentos em uma série de quatro posts, cada qual tratando de uma dessas orientações. Continue reading “A História entre a Filosofia e a Ciência”

Coda: Ordens Sociais Familísticas e Ordens Sociais Estatais

Coda é um fragmento musical que se acrescenta ao fim de uma peça em que há repetições. Refere-se também ao final de um balé clássico. Eu tive ainda um coda, na minha aprendizagem, quando li o Texto para Discussão do IE-UNICAMP (TDIE) n. 312, postado em agosto de 2017, História do crescimento econômico: as origens político-culturais da Revolução Industrial, de autoria do meu colega e velho amigo Ademar Ribeiro Romeiro.

Tenho interesse, para entender mais o atraso histórico do nosso País, em aprofundar meu conhecimento sobre os agrupamentos humanos sob a forma de:

  1. família: representa um grupo social primário que influencia e é influenciado por outras pessoas e instituições. É formado por pessoas, ou um número de grupos domésticos, ligados por descendência (demonstrada ou estipulada) a partir de um ancestral comum, matrimônio ou adoção. Nesse sentido, o termo confunde-se com clã.
  2. clã: constitui-se num grupo de pessoas unidas por parentesco e linhagem e que é definido pela descendência de um ancestral comum. Mesmo se os reais padrões de consanguinidade forem desconhecidos, não obstante, os membros do clã reconhecem um membro fundador ou ancestral maior. Como o parentesco baseado em laços pode ser de natureza meramente simbólica, alguns clãs compartilham um ancestral comum “estipulado”, o qual é um símbolo da unidade do clã. Em geral, o parentesco difere da relação biológica, visto que esta também envolve adoção, casamento e supostos laços genealógicos. Os clãs podem ser descritos mais facilmente como subgrupos de tribos e geralmente constituem grupos de 7.000 a 10.000 pessoas.
  3. dinastia: é uma sequência de governantes considerados como membros da mesma família. Muitos Estados soberanos foram dirigidos por sucessivas dinastias, por exemplo, o Antigo Egito e a China imperial. Grande parte da história política europeia é dominada por dinastias. Até o século XVII, quando ocorreu a revolução parlamentarista inglesa contra o absolutismo, baseado na ideia de predestinação divina do monarca, foi aceita como uma função legítima dele apenas engrandecer sua dinastia, ou seja, aumentar o território, a riqueza e o poder dos membros da sua família.

De acordo com a antropologia evolucionária existem quatro estágios de organização sócio-política:

  1. bandos: os principais benefícios do agrupamento em bando são a segurança pelo número e a maior eficácia na procura de comida; a defesa contra predadores é especialmente importante em habitats onde a predação se dá na maior parte das vezes através de emboscadas, pelo que a vigilância de vários olhos é importante.
  2. tribos: era o nome que se dava a agrupamentos humanos unidos pela língua, costumes, instituições e tradições; originalmente, era empregado para designar cada uma das divisões da Roma Antiga formadas por cidadãos plebeus, depois, passou a ser aplicado, também, às divisões dos povos da Antiguidade, como as doze Tribos de Israel, sendo que na época colonialista foi utilizado pela Antropologia em um sentido pejorativo de “agrupamento humano com cultura rudimentar”.
  3. reinados: Monarquia é a mais antiga forma de governo ainda em vigor; nela, o chefe de Estado se mantém no cargo até a sua morte ou a sua abdicação, sendo normalmente um regime hereditário; das quarenta e quatro monarquias existentes no mundo atualmente, vinte são reinos da Comunidade das Nações (ex-império britânico) e 16 destes reconhecem o monarca do Reino Unido como chefe de Estado, tendo as restantes quatro monarcas próprios, resultando no total 29 famílias-reais no poder, mas a maioria é de Monarquias Constitucionais, existindo, oficialmente, cinco Monarquias Absolutistas no mundo: Arábia Saudita, Brunei, Omã, Suazilândia, Vaticano, ainda que o Qatar, sendo oficialmente uma Monarquia Constitucional, possua propriedades de absolutismo.
  4. Estados: o termo Estado data do século XIII e se refere a qualquer país soberano, com estrutura própria e politicamente organizado, bem como designa o conjunto das instituições que controlam e administram uma Nação: uma comunidade estável, historicamente constituída por vontade própria de um agregado de indivíduos, com base num território, numa língua, e com aspirações materiais e espirituais comuns. Estado não se confunde com governo. O Estado é dirigido, periodicamente, por um governo com determinado mandato, que possui soberania reconhecida tanto interna como externamente, desde que se submeta a uma Constituição aprovada direta ou indiretamente. Um Estado soberano é sintetizado pela máxima “um governo, um povo, um território“. O aparelho de Estado permanente é responsável pela organização e pelo controle social, pois detém o monopólio da violência legítima, ou seja, a coerção legal.

Nos casos dos bandos e das tribos, a organização social é baseada em afinidades familiares – familísticas –, em geral sanguíneas, mas não exclusivamente. São sociedades relativamente igualitárias.

Reinados e Estados, ao contrário, são organizados hierarquicamente, sendo que a autoridade é exercida em um território e não com base em relações familísticas, embora estas possam permanecer como base para atividades e organizações sociais variadas. Continue reading “Coda: Ordens Sociais Familísticas e Ordens Sociais Estatais”

Revolução Comercial Pré-Capitalista

Ademar Ribeiro Romeiro, no Texto para Discussão do IE-UNICAMP (TDIE) n. 312, postado em agosto de 2017, História do crescimento econômico: as origens político-culturais da Revolução Industrial, conta que a Revolução Comercial, promovida pelas cidades, foi o resultado de um conjunto de inovações contábeis, financeiras e político/institucionais. As cidades portuárias italianas foram pioneiras e lideraram um processo de independência que foi se estendendo por toda Europa.

No século XII, as comunas italianas já haviam se tornado essencialmente “governos de mercadores, por mercadores e para mercadores”. As comunas foram elas próprias uma importante inovação político/institucional na governança urbana. Em associação com as guildas, sobretudo as guildas comerciais, as comunas citadinas criaram um mecanismo, uma instituição – o sistema de responsabilidade comunitária – que resolveu o problema do risco de trocas impessoais através de fronteiras jurisdicionais.

A expansão comercial propiciada por esse Estado peculiar, criado pelo sistema de responsabilidade comunitária, unificou comercialmente toda Europa e essa com o Oriente e o norte da África.

  • O centro de gravidade do comércio girava em torno dos “quatro grandes” do centro e do norte da Itália (Veneza, Milão, Florença e Genova): do Báltico (“mediterrâneo do Norte”) provinham principalmente fibras, grãos, madeira, resinas, alcatrão, mel, cera, peles, metais preciosos e semipreciosos, lã, sal e arenque salgado.
  • Do Oriente vinham principalmente matérias primas de alto valor como as especiarias, em especial a pimenta que também era um conservante, produtos medicinais e tintas de tecido, seda bruta, pedras preciosas, marfins.
  • No meio da Europa a expansão do mercado levou a uma progressiva especialização de cidades e regiões, de atividades industriais e agrícolas.
  • Entre as cidades não marítimas italianas a expansão comercial aprofundou a competição e a especialização: seda em Lucca, armas em Brescia, sapatos em Bolonha, tecidos baratos em Cremona, etc.
  • A produção têxtil concentrou em grande medida nos países baixos e nas cidades francesas de Arras, Saint-Omer et Douai no Canal da Mancha, através do qual vinha a lã da Inglaterra, então o principal centro produtor.
  • A produção de tecidos de linho, especialmente para a roupa de baixo (‘lingeries’), teve importância equivalente, estando os principais centros produtores na Suíça e no vale do Reno alemão.

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Desaparecimento das Redes de Relações Familísticas

Ademar Ribeiro Romeiro, no Texto para Discussão do IE-UNICAMP (TDIE) n. 312, postado em agosto de 2017, História do crescimento econômico: as origens político-culturais da Revolução Industrial, afirma que, no caso europeu, as redes de relações familísticas como base do jogo político desaparecem com a emergência do feudalismo. Achei contra factual essa afirmação, já que a Era das Dinastias ocorreu nos séculos XV-XVI (1400-1559), onde as dinastias familiares buscavam conquistar territórios, disputando-os inclusive entre descendentes do mesmo tronco familiar.

Segundo Romeiro, este desaparecimento se deveu a ação de duas forças agindo simultaneamente.

A primeira foi a capacidade de influência sociocultural da Igreja católica que desde o final do Império Romano difunde um novo padrão de casamento distinto do padrão mediterrâneo que era fortemente patrilinear, endógamo e com poucas oportunidades para a mulher ter propriedade ou participar da esfera pública. No novo padrão de casamento promovido pela Igreja a herança era bilateral (pelo homem e pela mulher), o casamento inter primos banido e a exogamia estimulada.

Também foram proibidas outras estratégias familísticas para manter a propriedade dentro do grupo familiar como:

  1. o casamento das viúvas dentro da família,
  2. o repúdio (divórcio) da mulher pelo homem,
  3. a concubinagem e
  4. a adoção de crianças na falta de um herdeiro masculino.

A mulher tinha maiores direitos de propriedade e de participação da vida pública. É preciso ter em mente que era o indivíduo e não o grupo social que estava no centro da teologia cristã.

A segunda força em ação na destruição das relações familísticas como base da organização social foi a forma peculiar do feudalismo europeu. Peculiar no sentido de que emergiu como desesperada resposta de autodefesa em um contexto de caos imenso que exigiu encontrar formas de articulação entre grupos isolados não relacionados familiarmente: o sistema de vassalagem. Continue reading “Desaparecimento das Redes de Relações Familísticas”