Desenvolvimento em Longo Prazo

evolucao-dos-paises-de-1900-a-2015

Em 1900, a renda per capita dos norte-americanos equivalia a 89,18% da renda per capita do Reino Unido, potência econômica no início do Século XX.

O Reino Unido caiu do primeiro lugar, em 1900, para o 7º lugar, em 2015, nesta lista de países selecionados de acordo com a disponibilidade de dados para 1900.

Países como Taiwan, Coréia do Sul, Noruega e Japão revelaram, no último século e início do Século XXI, um significativo crescimento de sua renda per capita.

Existe decadência econômica ou “regressão histórica”, pois alguns países ficaram mais pobres relativamente à potência econômica do início (Reino Unido) e do fim (Estados Unidos) desta série temporal: Reino Unido, Chile, Argentina e Índia.

O Brasil está regredindo (-7% do PIB) no biênio corrente (2015-2016), quando voltou a Velha Matriz Neoliberal, criando o locaute empresarial propício ao Golpe Parlamentarista, para adotar, de maneira temerosa, uma política de ajuste fiscal exclusiva, cortar direitos sociais, e garantir o pagamento da renda do capital financeiro em desfavor da renda do trabalho. Antes, quase conseguiu dobrar sua renda per capita em relação à da potência hegemônica.

A população brasileira em 1901 era composta de 17.901.245 habitantes, o PIB (em reais de 1999) era R$ 9.184 milhões, e o PIB per capita (também em reais de 1999), R$ 516, e em dólares de 2000, US$ 282, segundo o IBGE – Estatísticas do Século XX. No final do século passado, 166.112.518 habitantes, PIB de R$ 1.005.915 milhões, e per capita de R$ 6.056 e US$ 3.309, respectivamente. Então, a população se multiplicou em 9,3 vezes e o PIB em reais de 1999, em 109,5 vezes. Produtividade é isso aí…

Leia mais:

Continue reading “Desenvolvimento em Longo Prazo”

Orientalismo – O Oriente como Invenção do Ocidente

Orientalismo

O livro Orientalismo – O Oriente como invenção do Ocidente (Companhia de Bolso, 528 páginas, lançado em 29/06/2007, R$ 34,00), de autoria de Edward W. Said é “um ensaio erudito sobre um tema fascinante”: como uma civilização fabrica ficções para entender as diversas culturas a seu redor. Para entender e para dominar.

Neste livro de 1978, um clássico dos estudos culturais, Edward W. Said mostra que o “Oriente” não é um nome geográfico entre outros, mas uma invenção cultural e política do “Ocidente” que reúne as várias civilizações a leste da Europa sob o mesmo signo do exotismo e da inferioridade.

Recorrendo a fontes e textos diversos – descrições de viagens, tratados filológicos, poemas e peças, teses e gramáticas –, Said mostra os vínculos estreitos que uniram a construção dos impérios e a acumulação de um fantástico e problemático acervo de saberes e certezas europeias.

A investigação da origem e dos caminhos do Orientalismo como disciplina acadêmica, gosto literário e mentalidade dominadora, vai e volta do século XVIII aos dias de hoje, das traduções das Mil e Uma Noites à construção do canal de Suez, das viagens de Flaubert e “Lawrence da Arábia” às aventuras guerreiras de Napoleão no Egito ou dos Estados Unidos no golfo Pérsico. Reproduzo sua Introdução (editada) abaixo. Continue reading “Orientalismo – O Oriente como Invenção do Ocidente”

Uma História dos Povos Árabes

livro-uma-historia-dos-povos-arabes-2-edico-2001-7576-MLB5231758383_102013-F

O livro “Uma História dos Povos Árabes”, de autoria de Albert Hourani (704 páginas), lançado em 21/08/2006 pela Companhia de Bolso, narra a explosiva situação do Oriente Médio, com os intermináveis conflitos entre israelenses, palestinos e seus vizinhos, a guerra Irã-Iraque, a guerra do Golfo, o fortalecimento do fundamentalismo islâmico. Desde a Segunda Guerra, os árabes estão no centro das questões mais turbulentas de nossa época. No entanto, deles e de sua história sabemos muito pouco. É esta lacuna grave e lamentável que Uma história dos povos árabes vem sanar e meu curso Economia no Cinema, no primeiro semestre letivo de 2016, tentará remediar para os alunos do IE-UNICAMP.

Albert Hourani, durante décadas professor em Oxford, escreveu um livro de leitura obrigatória não apenas para os interessados nas raízes da atual crise internacional, mas para todos aqueles que têm curiosidade por uma cultura de extraordinária riqueza, cuja importância em termos mundiais só tende a aumentar. Reproduzo, editando-a, a Parte I – A Criação de um Mundo (Séculos VII-X) – abaixo. Continue reading “Uma História dos Povos Árabes”

Aliança entre Castas de Sábios, Artesãos e Comerciantes

Sistema indiano de castas

David Priestland, em seu ensaio Uma Nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro, Sábio (São Paulo; Companhia das Letras; 2014), cita Steve Jobs, nascido em 1955 e morto de câncer em 2011, como a personificação da aliança entre o comerciante e o sábio-criativo. Ele tinha valores que buscavam reconciliar a geração neohippie dos anos 60s com o comerciante neoliberal dos anos 80s.

Os mercados, longe de contradizer os valores libertários dos anos 60s, personificavam esses valores românticos de sábio-homem santo, que valorizava a autorrealização e a criatividade. Os produtos da Apple se tornaram símbolos do capitalismo globalizado de hoje.

O próprio Jobs, tal como muito outros neohippies, em certa época, usou sua empresa para fazer proselitismo da sua visão do mundo, moldada pela contracultura dos anos 60s: exortava seus clientes a “pensar diferente”. Propagandeava: “saudamos os loucos, os desajustados, os rebeldes, os que perturbam a ordem”.

Jobs assimilou não só o interesse dos artesãos com experiência tecnológica pela eletrônica, no Vale do Silício – Califórnia, como também o orgulho perfeccionista que tinham na fabricação e no acabamento dos seus produtos. Desejava entregar o melhor para o consumidor, cobrando um “preço justo” para um produto superior ao de seus concorrentes.

A Califórnia é um lugar favorável ao mercado. Ganhar dinheiro lá não é condenado como pecado por uma moral cristã-católica de tradição anti-usura, antissemita e antirrentista. Priestland salienta que essa aliança entre o sábio-romântico, o artesão-eletrônico e o comerciante-industrial foi importantíssima para a legitimidade do novo capitalismo de livre mercado, pois os criativos estavam se tornando uma casta muito mais influente no mundo desenvolvido. Continue reading “Aliança entre Castas de Sábios, Artesãos e Comerciantes”

Dominância do Éthos do Comerciante-Financista

Castas na India - IstoE

Agora que está se voltando aos níveis de desigualdade social da Belle Époque, após trinta anos de dominância do comerciante, ninguém deveria estar perplexo com a extraordinária transferência de riqueza: o comerciante, quando livre de amarras, ama a flexibilidade e odeia imobilizar seu capital por medo de perder lucro maior – o eufemismo do custo de oportunidade. Entregar o controle empresarial do sábio para o comerciante, fatalmente, criaria uma elite de executivos e investidores super-ricos com base na ideologia da meritocracia e com pouco interesse com o bem-estar social das castas abaixo da deles.

Pior, houve a propagação do seu éthos, sua mentalidade, para faixas cada vez maiores da população. A classe média “instruída” sonha em imitar os banqueiros, tornando-se mais “flexível” em seus valores e adotando os que dão boa resposta às necessidades do mercado. Continue reading “Dominância do Éthos do Comerciante-Financista”

Estado Neoliberal: Hegemonia da Lógica do Mercado

Ignacio_María_Barreda_-_Las_castas_mexicanas

A casta do comerciante brando aprendeu a lição desde a última vez em que esteve no controle, nos anos anteriores à crise de 1929. Tinha aceitado a necessidade de uma especialização vinda dos sábios, apropriada para uma época de mais profissionalismo. Segundo David Priestland, em seu ensaio Uma Nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro, Sábio (São Paulo; Companhia das Letras; 2014), abriu-se, então, o caminho para o sucesso das futuras gerações de pessoas formadas em universidades de elite, inteligentes, liberais (“progressistas” no sentido americano), altamente qualificadas em alguma profissão de status cada vez mais elevado.

Seus objetivos eram os mesmos, de modo geral, que os das elites econômicas neoliberais da época pós-70’s: transformar o capitalismo sábio e administrativo de Bretton Woods em uma versão mais puramente mercantil. Estavam convencidos de que a flexibilidade do comerciante, sua competitividade e sua busca do lucro máximo, tudo isso traria prosperidade para todos.

Achavam que apenas permitindo os donos do capital correrem apenas atrás do lucro, e não do maior bem-estar social, poder-se-ia libertar o capital e redirecioná-lo para novos setores produtivos em qualquer lugar do mundo – até mesmo na China “comunista”, na Índia ou no Sudeste Asiático. As barreiras para a maximização do lucro, sejam elas acordos sindicais ou restrições ao comércio exterior e aos fluxos de capital no estrangeiro, tinham de ser removidas. Na prática, isso significava dar mais poder aos donos do capital e a seus agentes financeiros, os bancos. Continue reading “Estado Neoliberal: Hegemonia da Lógica do Mercado”

Estado de Bem-Estar Social: Acordo entre Castas

Mistura de castas

No pós-guerra, enquanto todo o mundo desenvolvido ia passando para os valores do sábio e do trabalhador, de planejamento estatal e bem-estar social, o equilíbrio das forças sociais entre as diversas castas diferia, dependendo das condições nacionais, segundo David Priestland, em seu ensaio Uma Nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro, Sábio (São Paulo; Companhia das Letras; 2014).

O comerciante era mais fraco e o trabalhador, mais forte nos países escandinavos, onde os socialdemocratas estavam no poder. Nessas sociedades, os operários desfrutavam da generosidade dos Estados de bem-estar social: os benefícios eram altos e concedidos a todos, fosse qual fosse a contribuição de cada um havia dado em trabalho.

Mais comum no continente europeu foi o tipo de capitalismo favorecido pelos partidos democráticos-cristãos de centro-direita que dominaram a política europeia a partir de 1945. Nesse caso, o operário e o sábio eram mais fracos que nos países nórdicos. Prevaleciam as velhas ideias paternalistas enraizadas no seguro social de Bismarck ou na visão católica de sociedade solidária ou, mais precisamente, caritativa.

Será que, no caso brasileiro, a socialdemocracia implementada pelos social-desenvolvimentistas não resultará em um Estado de bem-estar social menos igualitário que o europeu e fundado em esquemas de segurança social “caritativos” que mantém as distinções entre as classes econômicas? Pela força da pressão social-midiática (e da lógica religiosa conservadora) — a centro-direita hegemônica atualmente –, não será ele muito mais generoso para a classe média do que para as classes trabalhadoras e os pobres? Continue reading “Estado de Bem-Estar Social: Acordo entre Castas”