Do Clã à Casta

Um Nova História do Poder

David Priestland, no livro “Uma Nova História do Poder – Comerciante, Guerreiro, Sábio”, lembra que, desde o início, a humanidade foi dividida por seus analistas em três partes:

  1. homens de oração,
  2. agricultores e
  3. homens de guerra.

Cada um deles tinha seu próprio dever particular:

  1. orar,
  2. trabalhar e
  3. lutar.

Assim, aceitou-se que a guerra poderia ser legítima: os guerreiros eram necessários para defender os homens de oração e os do trabalho. Contudo, a sociedade só poderia tornar-se rica e justa se os cavaleiros aceitassem um contrato social implícito. Eles deveriam:

  1. proteger os camponeses, e não saqueá-los;
  2. tinham de obedecer ao rei, e não desafiá-lo.

O rei, por sua vez, precisava ouvir o conselho dos sábios-sacerdotes. Era uma máquina militar-moral perfeita: os homens da violência, com as mãos banhadas em sangue, só podiam ser purificados pelas orações dos santos, e apenas quando estivessem puros sua vitória seria garantida.

Houve uma transição fundamental na história do mundo:

  1. o abrandamento do guerreiro e
  2. a ascensão da sociedade agrícola de castas.

Esta era governada por uma aliança entre o guerreiro, o aristocrata paternalista e o sábio. Foi esse sistema social que veio a dominar grande parte do mundo. Continue reading “Do Clã à Casta”

Rota da Seda Mapeada por Imagens de Satélite e Software de Mapeamento Geográfico.

Ricardo Bonolume Neto (FSP, 10/03/17) publicou reportagem de divulgação científica sobre as milenares rotas comerciais entre Oriente e Ocidente, batizadas de Rota da Seda. Eram vários caminhos distintos cruzando o centro da Ásia, mas a seda era apenas uma das mercadorias valiosas que eram transportadas; também havia ouro, prata, jade, âmbar, vinho e especiarias levados em camelos, cavalos, muares.

Se, de um lado, havia o poderoso Império Romano e sua demanda pela seda e outros produtos exóticos, do outro, havia a igualmente rica China, interessada em mercadorias diferentes produzidas em “um mundo antes desconhecido”, pois os chineses se consideravam autossuficientes, pois “a China era tudo que existia sob o céu”. Estradas bem cuidadas nos dois grandes impérios facilitavam o comércio, assim como as grandes cidades ao longo da rota.

Mas para que leste e oeste pudessem realizar essas trocas foi preciso antes a abertura de caminhos mais difíceis entre as elevadas montanhas da Ásia central. E quem fez isso foram pastores nômades e as milhares de patas de seus rebanhos que criaram uma rede de trilhas agora desvendada graças a por Continue reading “Rota da Seda Mapeada por Imagens de Satélite e Software de Mapeamento Geográfico.”

Desenvolvimento em Longo Prazo

evolucao-dos-paises-de-1900-a-2015

Em 1900, a renda per capita dos norte-americanos equivalia a 89,18% da renda per capita do Reino Unido, potência econômica no início do Século XX.

O Reino Unido caiu do primeiro lugar, em 1900, para o 7º lugar, em 2015, nesta lista de países selecionados de acordo com a disponibilidade de dados para 1900.

Países como Taiwan, Coréia do Sul, Noruega e Japão revelaram, no último século e início do Século XXI, um significativo crescimento de sua renda per capita.

Existe decadência econômica ou “regressão histórica”, pois alguns países ficaram mais pobres relativamente à potência econômica do início (Reino Unido) e do fim (Estados Unidos) desta série temporal: Reino Unido, Chile, Argentina e Índia.

O Brasil está regredindo (-7% do PIB) no biênio corrente (2015-2016), quando voltou a Velha Matriz Neoliberal, criando o locaute empresarial propício ao Golpe Parlamentarista, para adotar, de maneira temerosa, uma política de ajuste fiscal exclusiva, cortar direitos sociais, e garantir o pagamento da renda do capital financeiro em desfavor da renda do trabalho. Antes, quase conseguiu dobrar sua renda per capita em relação à da potência hegemônica.

A população brasileira em 1901 era composta de 17.901.245 habitantes, o PIB (em reais de 1999) era R$ 9.184 milhões, e o PIB per capita (também em reais de 1999), R$ 516, e em dólares de 2000, US$ 282, segundo o IBGE – Estatísticas do Século XX. No final do século passado, 166.112.518 habitantes, PIB de R$ 1.005.915 milhões, e per capita de R$ 6.056 e US$ 3.309, respectivamente. Então, a população se multiplicou em 9,3 vezes e o PIB em reais de 1999, em 109,5 vezes. Produtividade é isso aí…

Leia mais:

Continue reading “Desenvolvimento em Longo Prazo”

Orientalismo – O Oriente como Invenção do Ocidente

Orientalismo

O livro Orientalismo – O Oriente como invenção do Ocidente (Companhia de Bolso, 528 páginas, lançado em 29/06/2007, R$ 34,00), de autoria de Edward W. Said é “um ensaio erudito sobre um tema fascinante”: como uma civilização fabrica ficções para entender as diversas culturas a seu redor. Para entender e para dominar.

Neste livro de 1978, um clássico dos estudos culturais, Edward W. Said mostra que o “Oriente” não é um nome geográfico entre outros, mas uma invenção cultural e política do “Ocidente” que reúne as várias civilizações a leste da Europa sob o mesmo signo do exotismo e da inferioridade.

Recorrendo a fontes e textos diversos – descrições de viagens, tratados filológicos, poemas e peças, teses e gramáticas –, Said mostra os vínculos estreitos que uniram a construção dos impérios e a acumulação de um fantástico e problemático acervo de saberes e certezas europeias.

A investigação da origem e dos caminhos do Orientalismo como disciplina acadêmica, gosto literário e mentalidade dominadora, vai e volta do século XVIII aos dias de hoje, das traduções das Mil e Uma Noites à construção do canal de Suez, das viagens de Flaubert e “Lawrence da Arábia” às aventuras guerreiras de Napoleão no Egito ou dos Estados Unidos no golfo Pérsico. Reproduzo sua Introdução (editada) abaixo. Continue reading “Orientalismo – O Oriente como Invenção do Ocidente”

Uma História dos Povos Árabes

livro-uma-historia-dos-povos-arabes-2-edico-2001-7576-MLB5231758383_102013-F

O livro “Uma História dos Povos Árabes”, de autoria de Albert Hourani (704 páginas), lançado em 21/08/2006 pela Companhia de Bolso, narra a explosiva situação do Oriente Médio, com os intermináveis conflitos entre israelenses, palestinos e seus vizinhos, a guerra Irã-Iraque, a guerra do Golfo, o fortalecimento do fundamentalismo islâmico. Desde a Segunda Guerra, os árabes estão no centro das questões mais turbulentas de nossa época. No entanto, deles e de sua história sabemos muito pouco. É esta lacuna grave e lamentável que Uma história dos povos árabes vem sanar e meu curso Economia no Cinema, no primeiro semestre letivo de 2016, tentará remediar para os alunos do IE-UNICAMP.

Albert Hourani, durante décadas professor em Oxford, escreveu um livro de leitura obrigatória não apenas para os interessados nas raízes da atual crise internacional, mas para todos aqueles que têm curiosidade por uma cultura de extraordinária riqueza, cuja importância em termos mundiais só tende a aumentar. Reproduzo, editando-a, a Parte I – A Criação de um Mundo (Séculos VII-X) – abaixo. Continue reading “Uma História dos Povos Árabes”

Aliança entre Castas de Sábios, Artesãos e Comerciantes

Sistema indiano de castas

David Priestland, em seu ensaio Uma Nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro, Sábio (São Paulo; Companhia das Letras; 2014), cita Steve Jobs, nascido em 1955 e morto de câncer em 2011, como a personificação da aliança entre o comerciante e o sábio-criativo. Ele tinha valores que buscavam reconciliar a geração neohippie dos anos 60s com o comerciante neoliberal dos anos 80s.

Os mercados, longe de contradizer os valores libertários dos anos 60s, personificavam esses valores românticos de sábio-homem santo, que valorizava a autorrealização e a criatividade. Os produtos da Apple se tornaram símbolos do capitalismo globalizado de hoje.

O próprio Jobs, tal como muito outros neohippies, em certa época, usou sua empresa para fazer proselitismo da sua visão do mundo, moldada pela contracultura dos anos 60s: exortava seus clientes a “pensar diferente”. Propagandeava: “saudamos os loucos, os desajustados, os rebeldes, os que perturbam a ordem”.

Jobs assimilou não só o interesse dos artesãos com experiência tecnológica pela eletrônica, no Vale do Silício – Califórnia, como também o orgulho perfeccionista que tinham na fabricação e no acabamento dos seus produtos. Desejava entregar o melhor para o consumidor, cobrando um “preço justo” para um produto superior ao de seus concorrentes.

A Califórnia é um lugar favorável ao mercado. Ganhar dinheiro lá não é condenado como pecado por uma moral cristã-católica de tradição anti-usura, antissemita e antirrentista. Priestland salienta que essa aliança entre o sábio-romântico, o artesão-eletrônico e o comerciante-industrial foi importantíssima para a legitimidade do novo capitalismo de livre mercado, pois os criativos estavam se tornando uma casta muito mais influente no mundo desenvolvido. Continue reading “Aliança entre Castas de Sábios, Artesãos e Comerciantes”

Dominância do Éthos do Comerciante-Financista

Castas na India - IstoE

Agora que está se voltando aos níveis de desigualdade social da Belle Époque, após trinta anos de dominância do comerciante, ninguém deveria estar perplexo com a extraordinária transferência de riqueza: o comerciante, quando livre de amarras, ama a flexibilidade e odeia imobilizar seu capital por medo de perder lucro maior – o eufemismo do custo de oportunidade. Entregar o controle empresarial do sábio para o comerciante, fatalmente, criaria uma elite de executivos e investidores super-ricos com base na ideologia da meritocracia e com pouco interesse com o bem-estar social das castas abaixo da deles.

Pior, houve a propagação do seu éthos, sua mentalidade, para faixas cada vez maiores da população. A classe média “instruída” sonha em imitar os banqueiros, tornando-se mais “flexível” em seus valores e adotando os que dão boa resposta às necessidades do mercado. Continue reading “Dominância do Éthos do Comerciante-Financista”