História de Wall Street

Charles R. Geisset escreveu o primeiro livro com a história completa da economia de mercado de capitais norte-americana – Wall Street: A History from its beginnings to the fall of ENRON –, publicado pela Oxford University Press em 1997 e reeditado em 2004. Vou aqui resumir seus argumentos em busca da resposta à pergunta-chave: por que lá, nos Estados Unidos, predominou essa economia de mercado de capitais em lugar de economia de endividamento bancário?

A história de Wall Street passou por várias fases. Elas serão encontradas nesse livro em quatro períodos distintos.

  1. O primeiro são os primeiros anos, de 1790 a início da Guerra Civil. Durante esse período, técnicas de negociação foram desenvolvidas e fortunas feitas. Elas alimentaram os fogos das lendas e tradições.
  2. O segundo período, da Guerra Civil a 1929, abrangeu o desenvolvimento ferrovias e trustes, os barões ladrões e, principalmente, a confiança em dinheiro. Mas se prolongou até 1929, quando a confiança do dinheiro realmente perdeu de fato total controle. O sistema financeiro tornou-se altamente regulamentado quatro anos depois. Somente quando a confiança foi quebrada, o país entrou no período moderno de regulamentação e responsabilidade pública.
  3. O terceiro período foi relativamente breve, mas intenso. Entre 1929 e 1954, os mercados sentiram o viés da regulamentação tanto como os efeitos da depressão e da guerra.
  4. O quarto e último período começou com o mercado na grande alta dos anos Eisenhower. Ele deu nova vitalidade para os mercados e a economia.

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A Praça e a Torre Redux

Niall Ferguson, no último capítulo do livro “A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global” (São Paulo: Planeta do Brasil; 2018. 608 p.), diz: às vezes, parece estarmos condenados a tentar entender nosso próprio tempo com arquiteturas conceituais com mais de meio século. Desde a crise financeira, por exemplo, muitos economistas se reduziram a reciclar as ideias de John Maynard Keynes. Ele morreu em 1946. [Fernando Nogueira da Costa: E a maioria dos grandes autores na História do Pensamento Econômico morreu muito antes dele. Isto não significa atualidade ou não de seus pensamentos.]

Confrontados com o populismo, escritores sobre política norte-americana e europeia repetidamente confundem-no com o fascismo, como se a era das guerras mundiais fosse a única história que eles já estudaram. Os analistas de relações internacionais parecem estar presos a terminologias datadas mais ou menos do mesmo período: realismo ou idealismo, contenção ou apaziguamento, dissuasão ou desarmamento.

Mas tudo isso ocorreu setenta anos atrás. Nossa Era é profundamente distinta dos meados do século XX. Os Estados quase autárquicos, impositivos e controladores, emergentes da Depressão, da Segunda Guerra Mundial e do início da Guerra Fria, existem hoje, se é que sobreviveram, apenas como pálidas sombras do que foram. As burocracias e as máquinas partidárias que os faziam funcionar estão mortas ou em decadência. O Estado administrativo é sua encarnação final.

Hoje, a combinação da inovação tecnológica com a integração econômica mundial criou formas inteiramente novas de rede – que vão desde o submundo do crime até o rarefeito “mundo superior” de Davos – que não foram nem sonhadas por nenhum pensador do passado.

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Cyberia

Niall Ferguson, no 57º capítulo do livro “A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global” (São Paulo: Planeta do Brasil; 2018. 608 p.), pergunta: quem ganha no fim, a hierarquia ou a rede?

A pergunta se refere ao clássico filme mudo de Fritz Lang, Metrópolis, de 1927. Ele retrata a queda de uma ordem hierárquica pelas mãos de uma rede insurgente. Metrópolis é uma cidade de altos arranha-céus. No topo, em coberturas palacianas, vive uma elite rica liderada pelo autocrata Joh Fredersen. Embaixo, nas fábricas subterrâneas, trabalha o proletariado.

A maior ameaça à ordem social hierárquica da cidade é colocada não pela inundação subterrânea, mas pela conspiração clandestina entre os trabalhadores. Nada enfurece Fredersen mais além da percepção de tal conspiração ter sido realizada nas catacumbas da cidade sem seu conhecimento.

Em termos atuais, a hierarquia não é uma única cidade, mas o próprio Estado-nação. Essa superorganização política, verticalmente estruturada, evoluiu das Repúblicas e Monarquias da Europa no início da Era Moderna.

Embora não sejam a nação mais populosa do mundo, os Estados Unidos certamente são o país mais poderoso do mundo, apesar das extravagâncias de seu sistema político-eleitoral. Seu rival mais próximo, a República Popular da China, é normalmente vista como um tipo profundamente diferente de Estado, pois, enquanto os Estados Unidos têm dois grandes partidos, a República Popular tem um, e apenas um.

O governo dos Estados Unidos está fundado na separação dos poderes, especialmente a independência de seu Poder Judiciário. Já a China subordina todas as outras instituições, inclusive os tribunais, aos ditames do Partido Comunista.

Mas ambos os Estados são Repúblicas, com estruturas de administração verticais comparáveis e concentrações de poder não inteiramente diferentes nas mãos de um governo central relativo ao Estado e às autoridades locais. Economicamente, os dois sistemas certamente estão convergindo, com a China cada vez mais considerando mecanismos de mercado. Ao mesmo tempo, o governo federal dos EUA em anos recentes tem progressivamente aumentado o poder estatutário e regulatório de agências públicas sobre produtores e consumidores.

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Redes para Todos os Lados

Niall Ferguson, no terceiro capítulo do livro “A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global” (São Paulo: Planeta do Brasil; 2018. 608 p.), afirma: “na Pré-História, o Homo sapiens evoluiu como um primata cooperativo, com a habilidade singular de se conectar em redes – de se comunicar e agir de forma coletiva – capaz de nos distinguir de todos os outros animais.

Nas palavras do biólogo evolucionário Joseph Henrich, “não somos apenas chipanzés com cérebros maiores e menos pelos. O segredo do nosso sucesso como espécie “reside […] nos cérebros coletivos das nossas comunidades”.

Diferentemente dos chipanzés, aprendemos de forma social, ensinando e compartilhando. Segundo o antropólogo evolucionário Robin Dunbar, o nosso cérebro maior, com seu neocórtex mais desenvolvido, evoluiu de forma a nos permitir funcionar em grupos sociais relativamente grandes, de cerca de 150 indivíduos (em comparação com cerca de cinquenta entre os chipanzés).

De fato, a nossa espécie deveria ser conhecida como Homo dictyous (“homem das redes”), pois – para citar os sociólogos Nicholas Christakis e James Fowler – “os nossos cérebros parecem ter sido construídos para as redes sociais”.

O termo cunhado pelo etnógrafo Edwin Hutchins é “cognição distribuída”. Os nossos ancestrais eram “coletores forçados a colaborar entre si”. Eles se tornaram interdependentes uns dos outros para obter comida, abrigo e calor.

É provável o desenvolvimento da linguagem falada, assim como os avanços associados da capacidade e da estrutura cerebral, fosse parte desse mesmo processo, evoluindo a partir de hábitos dos macacos como o da limpeza mútua dos pelos. O mesmo pode ser dito de práticas como arte, dança e rituais. Continuar a ler

Nossa Era Interconectada

Niall Ferguson, no segundo capítulo do livro “A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global” (São Paulo: Planeta do Brasil; 2018. 608 p.), acha as redes darem a impressão de estarem em todo lugar hoje em dia. Na primeira semana de 2017, o The New York Times publicou 136 matérias com a palavra “rede”. Pouco mais de um terço dessas matérias eram sobre redes de televisão, doze eram sobre redes de computador, e dez eram sobre vários tipos de redes políticas, mas havia também matérias sobre redes de transporte, redes financeiras, redes terroristas, redes de assistência médica – para não mencionar as redes sociais, educacionais, criminais, elétricas, de telefone, de rádio e de inteligência.

Ler tudo isso é contemplar um mundo “onde tudo está conectado”, embora isso pareça ser um clichê. Algumas redes conectam militantes, outras conectam médicos, outras ainda conectam caixas automáticos. Há uma rede do câncer, uma rede dos guerreiros do jihad, uma rede de baleias orcas.

Algumas redes – descritas por demasiadas vezes como “vastas” – são internacionais, enquanto outras são regionais. Algumas são etéreas, outras são subterrâneas. Há redes de corrupção, redes de túneis, redes de espionagem. Há até uma rede para fraudar os resultados de jogos de tênis. Vozes milicianas atacam as redes em batalha com vozes defensoras das redes. E tudo isso é coberto sem cessar por redes de cabos e satélites. Continuar a ler

The Storytelling Animal: Como as histórias nos fazem humanos

David Eagleman, neurocientista do Baylor College of Medicine, escreve ficção e não-ficção. Seus últimos livros são “Sum” e “Incognito: A vida secreta do cérebro“. Traduzi abaixo sua resenha do livro The Storytelling Animal: How Stories Make Us Human, de autoria de Jonathan Gottschall (Illustrated. 248 pp. Houghton Mifflin Harcourt. US$24) no NYT (02/08/12).

“Nós amamos uma boa história. A narrativa é costurada intrinsecamente no tecido da psicologia humana. Mas por que? Tudo é apenas diversão e jogos, ou a narrativa serve a uma função biológica?

Essas perguntas animam “The Storytelling Animal”, um novo livro cheio de perspicácia de Jonathan Gottschall. Ele se baseia em contos díspares da história e da ciência para celebrar nossa compulsão de armazenar na memória tudo ao nosso redor.

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