Frente Parlamentar Evangélica

Andrea Dip, “Em nome de quem: A bancada evangélica e seu projeto de poder” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2018), conta:  a FPE nasceu como bancada em 1986, após ter participado de processos durante a Ditadura Militar, segundo Magali Cunha. “Houve, porém, uma repercussão muito negativa por causa do processo de troca de votos na Constituinte e os 5 anos de governo do Sarney. Foi muito divulgado na mídia, todo o fisiologismo que envolveu a bancada naquele período. E houve uma indignação no meio evangélico também, o que acarretou um período de baixa nas eleições seguintes.”

Ela acrescenta: nos anos 2000 aconteceu uma retomada do projeto político, incentivada pela aproximação com o governo Lula. “Os evangélicos ganharam certo protagonismo; Lula ofereceu cargos, se aproximou do PP, no qual estava boa parte dos representantes da Igreja Universal, e depois do PRB, que foi fundado tendo como vice-presidente [da República] José de Alencar. Essa retomada começou em 2002, com a eleição do Lula, e aí se criou a Frente Parlamentar Evangélica, em 2003.”

Em 2004, outro escândalo marcaria a bancada evangélica, de forma mais específica, a Igreja Universal: o envolvimento do bispo Carlos Alberto Rodrigues, o Bispo Rodrigues (PL-RJ) – eleito deputado em 1998 e novamente em 2002 –, com o então subchefe de Assuntos Parlamentares da Presidência, Waldomiro Diniz – o que levou a seu afastamento das funções políticas e eclesiásticas, anunciado durante o programa Fala que Eu Te Escuto na TV Record, em 2004.

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Começo da Evangelismo de Direita no Brasil

Andrea Dip, “Em nome de quem: A bancada evangélica e seu projeto de poder” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2018), conta: o pentecostalismo chegou ao Brasil em 1910, através de Gunnar Vingren e Daniel Berg, evangelistas suecos, e do italiano Luigi Francescon.

Como explica o sociólogo e pesquisador Paul Freston, “os três se converteram nos Estados Unidos e vieram para cá mais ou menos na mesma época. Os dois suecos chegaram a Belém e começaram a frequentar uma Igreja Batista, onde quiseram pregar doutrinas pentecostais até serem expulsos e fundarem o que se tornaria depois a Assembleia de Deus. Em São Paulo, no bairro do Brás, um italiano fundou o que viria a ser a Congregação Cristã.”

Algum tempo depois, já na década de 1950, o país recebeu uma nova leva de pentecostais, segundo Freston, vinda da Igreja Quadrangular norte-americana. Um dos fiéis seria Manoel de Melo, o primeiro brasileiro a fundar uma Igreja importante, a Brasil para Cristo, em 1955. “A partir daí todas as Igrejas foram fundadas por brasileiros. David Miranda, com a Deus é Amor; Edir Macedo, no fim dos anos 1970, com a Igreja Universal; R R Soares em 1980, com a Internacional da Graça de Deus; Valdemiro Santiago, com a Mundial do Poder de Deus.”

O sociólogo explica que a diferença mais importante entre as Igrejas Históricas e as Pentecostais é a crença nos dons do Espírito Santo. “Falar em línguas, curar, exorcizar, profetizar são características das Pentecostais. Por ser uma forma mais entusiasmada de religiosidade, depende menos de um discurso racional, elaborado. Você pode não saber ler ou escrever, pode ser alguém que não ousaria fazer um discurso racional em público, mas, sob influência do Espírito, você fala. Por isso, pode-se dizer a Igreja Pentecostal também ter esse poder de inverter as hierarquias sociais.” Ele destaca: “Por ser mais próxima da cultura do espetáculo e menos litúrgica, também é a Igreja Pentecostal quem se dá melhor com as mídias.”

Já as Igrejas Neopentecostais, como a IURD, a Renascer em Cristo, a Bola de Neve Church (BDN) e a Mundial do Poder de Deus, viriam na sequência. Elas são conhecidas como a “terceira onda” do evangelismo.

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Pastores no Congresso

O livro de autoria de Andrea Dip, “Em nome de quem: A bancada evangélica e seu projeto de poder” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2018), informa: o número de evangélicos no Parlamento brasileiro cresceu acompanhando o aumento da quantidade de fiéis.

Segundo dados do último Censo Demográfico do país, realizado pelo IBGE em 2010, houve um aumento de 62% em 10 anos no Brasil. Em 2000, cerca de 26,2 milhões de pessoas se declaravam evangélicas, 15,4% da população. Em 2010, o número passou a 42,3 milhões, 22% dos brasileiros. Já no fim de 2016, segundo pesquisa divulgada pelo Instituto Datafolha, 29% dos brasileiros se afirmavam evangélicos – 3 em cada 10 pessoas com mais de 16 anos.

O Datafolha mostrou também a maioria frequentar Igrejas Pentecostais, como Assembleia de Deus (em primeiro lugar, 34%), IURD, Congregação Cristã e Quadrangular do Reino de Deus.

Outra pesquisa, realizada pelo Pew Research Center, publicada em 2014, apontou o Brasil é o país com maior número proporcional de protestantes na América Latina.

No Congresso Nacional brasileiro, a tendência seguiu esse aumento: a antropóloga da UFF Christina Vital diz existirem hoje entre oitenta e noventa parlamentares evangélicos vinculados à FPE (o número varia devido aos suplentes), mais do que o dobro de quando foi criada, em 2003. O número de pastores candidatos também cresceu: “Nós tivemos uma situação singular nesse pleito, com 40% mais pastores se candidatando em 2014”, aponta.

Nas prefeituras do país os evangélicos também elegeram seus representantes. Apesar de ser muito difícil calcular o número total de evangélicos eleitos em todos os 5.570 municípios, é possível dizer, entre as 26 capitais brasileiras, em 2017, 8 terem prefeitos evangélicos – e a maioria dos prefeitos das demais capitais, apesar de não se declararem publicamente, flertam com a religião ao participar de homenagens, visitar igrejas, instituir o Dia do Evangélico, criar as chamadas Praças da Bíblia, comparecer às Marchas para Jesus, receber bispos e pastores no gabinete e privilegiar Igrejas com isenções de impostos e doação de terrenos.

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Em nome de quem? A bancada evangélica e seu projeto de poder

O livro de autoria de Andrea Dip, “Em nome de quem: A bancada evangélica e seu projeto de poder” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2018), conforme o prefácio escrito pela jornalista Marina Amaral toca em um tema tão poderoso quanto delicado: a penetração das Igrejas Evangélicas – sobretudo as Neopentecostais – no universo político nacional e em seu braço direito, a mídia. Como lembra a repórter Andrea Dip neste trabalho sobre a mistura explosiva de política e religião na vida nacional, ao assumir a Presidência da Câmara, em 2015, o deputado Eduardo Cunha disse: aborto e regulação de mídia só seriam votados “por cima de seu cadáver”.

Personagens como Marcelo Crivella, eleito prefeito do Rio de Janeiro com 1,7 milhão de votos, e Eduardo Cunha, peça-chave na articulação que derrubou a presidenta Dilma Rousseff, mostram os evangélicos mobilizarem não apenas os eleitores, mas também as forças políticas capazes de levar adiante o seu projeto político.

Em sua investigação, Andrea Dip levantou os projetos da bancada evangélica e entrevistou diversos deputados enquanto afinava a percepção sobre o tema junto a pesquisadores e estudiosos. Daí emergem os principais interesses dos políticos evangélicos:

  1. a manutenção de seus privilégios – isenção tributária e concessões de TVs e rádios;
  2. o avanço de pautas conservadoras, como a proibição do aborto, mesmo para os casos legalmente previstos;
  3. a proibição da discussão sobre gênero e prevenção da homofobia nas escolas,
  4. o retrocesso de direitos de grupos vulneráveis, como os travestis e transexuais.

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A Praça e a Torre Redux

Niall Ferguson, no último capítulo do livro “A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global” (São Paulo: Planeta do Brasil; 2018. 608 p.), diz: às vezes, parece estarmos condenados a tentar entender nosso próprio tempo com arquiteturas conceituais com mais de meio século. Desde a crise financeira, por exemplo, muitos economistas se reduziram a reciclar as ideias de John Maynard Keynes. Ele morreu em 1946. [Fernando Nogueira da Costa: E a maioria dos grandes autores na História do Pensamento Econômico morreu muito antes dele. Isto não significa atualidade ou não de seus pensamentos.]

Confrontados com o populismo, escritores sobre política norte-americana e europeia repetidamente confundem-no com o fascismo, como se a era das guerras mundiais fosse a única história que eles já estudaram. Os analistas de relações internacionais parecem estar presos a terminologias datadas mais ou menos do mesmo período: realismo ou idealismo, contenção ou apaziguamento, dissuasão ou desarmamento.

Mas tudo isso ocorreu setenta anos atrás. Nossa Era é profundamente distinta dos meados do século XX. Os Estados quase autárquicos, impositivos e controladores, emergentes da Depressão, da Segunda Guerra Mundial e do início da Guerra Fria, existem hoje, se é que sobreviveram, apenas como pálidas sombras do que foram. As burocracias e as máquinas partidárias que os faziam funcionar estão mortas ou em decadência. O Estado administrativo é sua encarnação final.

Hoje, a combinação da inovação tecnológica com a integração econômica mundial criou formas inteiramente novas de rede – que vão desde o submundo do crime até o rarefeito “mundo superior” de Davos – que não foram nem sonhadas por nenhum pensador do passado.

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Cyberia

Niall Ferguson, no 57º capítulo do livro “A Praça e a Torre: Redes, Hierarquias e a Luta pelo Poder Global” (São Paulo: Planeta do Brasil; 2018. 608 p.), pergunta: quem ganha no fim, a hierarquia ou a rede?

A pergunta se refere ao clássico filme mudo de Fritz Lang, Metrópolis, de 1927. Ele retrata a queda de uma ordem hierárquica pelas mãos de uma rede insurgente. Metrópolis é uma cidade de altos arranha-céus. No topo, em coberturas palacianas, vive uma elite rica liderada pelo autocrata Joh Fredersen. Embaixo, nas fábricas subterrâneas, trabalha o proletariado.

A maior ameaça à ordem social hierárquica da cidade é colocada não pela inundação subterrânea, mas pela conspiração clandestina entre os trabalhadores. Nada enfurece Fredersen mais além da percepção de tal conspiração ter sido realizada nas catacumbas da cidade sem seu conhecimento.

Em termos atuais, a hierarquia não é uma única cidade, mas o próprio Estado-nação. Essa superorganização política, verticalmente estruturada, evoluiu das Repúblicas e Monarquias da Europa no início da Era Moderna.

Embora não sejam a nação mais populosa do mundo, os Estados Unidos certamente são o país mais poderoso do mundo, apesar das extravagâncias de seu sistema político-eleitoral. Seu rival mais próximo, a República Popular da China, é normalmente vista como um tipo profundamente diferente de Estado, pois, enquanto os Estados Unidos têm dois grandes partidos, a República Popular tem um, e apenas um.

O governo dos Estados Unidos está fundado na separação dos poderes, especialmente a independência de seu Poder Judiciário. Já a China subordina todas as outras instituições, inclusive os tribunais, aos ditames do Partido Comunista.

Mas ambos os Estados são Repúblicas, com estruturas de administração verticais comparáveis e concentrações de poder não inteiramente diferentes nas mãos de um governo central relativo ao Estado e às autoridades locais. Economicamente, os dois sistemas certamente estão convergindo, com a China cada vez mais considerando mecanismos de mercado. Ao mesmo tempo, o governo federal dos EUA em anos recentes tem progressivamente aumentado o poder estatutário e regulatório de agências públicas sobre produtores e consumidores.

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