Onda Esquerdista: Contraponto à Extrema-Direita

Giovanni Legorano (Valor, 30/04/19) noticia: os partidos de centro-esquerda da Europa, dada a perda de votos, recentemente, estão se voltando à esquerda para recuperar os eleitores da classe trabalhadora. Eles migraram para movimentos de extrema-esquerda e populistas. Essa iniciativa deu resultado nas eleições da Espanha na qual os socialistas arrasaram seus adversários conservadores.

Os socialistas governam a Espanha desde junho de 2018. Venceram uma competição fragmentada com uma plataforma com compromisso de tratar de questões centrais para a base social-democrata do partido:

  1. direitos para os trabalhadores,
  2. impostos maiores para os ricos e
  3. proteção do meio ambiente.

Apesar disso, o PSOE terá de formar uma coalizão com aliados menores para ter maioria no Parlamento. Continuar a ler

Nacionalismo versus Nacionalidade

O nacionalismo consiste em uma ideologia e movimento político, baseados na consciência da Nação. Exprimem a crença na existência de certas características comuns em uma comunidade, nacional ou supranacional, e o desejo de modelá-las politicamente.

Com precedentes na Idade Média, sobretudo nas monarquias absolutas, é a partir da Revolução Francesa que surge o nacionalismo moderno, simultaneamente com o apogeu da burguesia industrial. Posteriormente, a luta frente a um exército invasor (guerras napoleônicas) ou o desejo de independência (continente americano) deram ao nacionalismo um novo impulso.

No século XIX se assistiu à afirmação, quer da burguesia, quer do nacionalismo, que triunfariam juntos nas unificações italiana e alemã.

No século XX, o nacionalismo teve dois grandes momentos:

  1. o surgir de ideias nacionalistas de parceria com teorias racistas, como na Alemanha (nacional-socialismo), na Itália (fascismo) e no Japão; e
  2. o nacionalismo, que surgiu nos países colonizados, após a II Guerra Mundial, que se liga com o que atualmente se manifesta no Terceiro Mundo, perante as formas neocolonialistas de exploração. Continuar a ler

Cisão ou Fusão de Duas Culturas?

José Eli da Veiga é professor sênior do IEE/USP (Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo) e autor de O Antropoceno e a Ciência do Sistema Terra (Editora 34, 2019). Mantém dois sites: http://www.zeeli.pro.br e http://www.sustentaculos.pro.br. Sempre esbanja cultura em seus artigos, como no reproduzido abaixo (Valor, 24/04/19), intitulado originalmente “A Cisão das Duas Culturas”. Em Ciência Interdisciplinar, prefiro o conceito de “fusão” entre nichos do mercado de trabalho dos cientistas.

“Duas novas ciências têm a ousadíssima proposta de romper com inclinação comum às Ciências Naturais e às Ciências Sociais de só olharem para o próprio umbigo. Querem construir pontes que superem a histórica cisão entre humanidades e ciências. Mais: pretendem integrar os conhecimentos necessários ao estudo conjunto e simultâneo das quatro dinâmicas históricas da Terra:

  1. do planeta,
  2. da vida,
  3. da natureza humana e
  4. da civilização.

A mais consolidada é a “Ciência do Sistema Terra“. Ela tomou corpo em meados dos anos 1980 por clarividente iniciativa da Nasa. Até 2015, avançou muito, graças ao trabalho estratégico dos pesquisadores do Programa Internacional Geosfera- Biosfera (IGBP).

Há quem exagere ao afirmar que tal ciência já teria emergido no início dos anos 1970, com a famosa “Hipótese Gaia” de James Lovelock e Lynn Margulis. Ou exorbite recuando até mesmo à lenta virada paradigmática que acabou por levar a velha Geologia a admitir a teoria dos movimentos globais da litosfera, ou “tectônica de placas”. Mas são visões que menosprezam a envergadura do desafio transdisciplinar, que só começou a ser realmente enfrentado em 1986, com o relatório da Nasa intitulado “Earth System Science“.

A segunda, bem mais audaciosa, chama-se “Ciência da Sustentabilidade“. Entre 2001 e 2011, ela só engatinhou nas páginas do periódico “PNAS” (Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America). A partir de 2012, ganhou forte impulso com o surgimento da organização global “Future Earth” (http://www.futureearth.org/), em substituição à duvidosa “ESSP” (Earth System Science Partnership). E, em janeiro de 2018, foi autenticada pela primeira edição mensal da super-revista Nature Sustainability. Continuar a ler

Era do Déspota Eleito

Obs.: avaliação de ruim/péssimo continua a subir.

Martin Wolf é editor e principal analista econômico do FT. Publicou artigo (Valor, 25/05/19) onde, entre outras, lamenta a eleição do capitão-miliciano, conjuntamente com seu clã e o guru de extrema-direita a dar pitacos no Brasil.

“Vivemos na era dos potenciais déspotas carismáticos eleitos. A política dele – é quase sempre “ele” – é a política do medo e do rancor. É necessário ter um determinado tipo de personalidade para dominar essa política. Nas circunstâncias apropriadas – ou seja, nas erradas -, líderes desse tipo surgem naturalmente. Isso não surpreende após uma revolução violenta. O que surpreende muito mais é que esses líderes venham surgindo em democracias consolidadas.

Vemos atualmente “autocratas” eleitos – reais e potenciais – em todo o lugar. Os principais exemplos são Vladimir Putin na Rússia, Recep Tayyip Erdogan na Turquia, Nerendra Modi na Índia, Nicolás Maduro na Venezuela, Rodrigo Duterte nas Filipinas, Jair Bolsonaro no Brasil, Benjamin Netanyahu em Israel, Matteo Salvini na Itália e Donald Trump nos EUA.

Esses dirigentes diferem entre si em termos de graus de sofisticação. Os países nos quais atuam também diferem. Alguns são economicamente desenvolvidos, enquanto outros não. Alguns são democracias tradicionais, outros não.

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Raízes Morais dos Liberais e dos Conservadores

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Jonathan Haidt em Palestra TED realizada em 2008, The moral roots of liberals and conservatives, disse o seguinte em 18 minutos.

Todos temos os mesmos estereótipos políticos. É um fato liberais apresentarem muito mais se comparados aos conservadores um traço de personalidade chamado de abertura à experiência. Pessoas abertas à experiência apreciam a novidade, variedade, diversidade, novas ideias, viagens. Pessoas ao contrário gostam de coisas familiares, seguras e confiáveis.

Se você conhece este traço, você é capaz de entender vários quebra-cabeças sobre o comportamento humano. Você é capaz de entender porque artistas são tão diferentes de contadores. Você pode prever que tipo de livros eles vão ler, para que tipo de lugares gostam de viajar, e que tipo de comidas gostam de comer.

Este traço também nos diz muito sobre política. O principal pesquisador deste traço, Robert McCrae diz que, “Indivíduos abertos tem uma afinidade por pontos de vista liberais, progressistas, de esquerda” — eles gostam de uma sociedade que está aberta e mudando — “enquanto indivíduos fechados preferem pontos de vista conservadores, tradicionais, de direita.”

Este traço também nos diz muito sobre o tipo de grupos dos quais as pessoas participam. Então aqui está a descrição de um grupo achado na Web. Que tipo de gente participaria de uma comunidade global à qual são bem-vindas pessoas de todas as disciplinas e culturas, que buscam um maior entendimento do mundo, e que esperam transformar este entendimento num futuro melhor para todos nós? Isto é de um cara chamado TED. (Risadas). Continuar a ler

Há cura para a divisão política entre discursos de ódio?

Chris Anderson: o mundo está de uma forma como não víamos há muito tempo. As pessoas não discordam mais da forma que estávamos habituados, divididos entre esquerda e direita. Diferenças bem mais profundas estão em andamento. O que está acontecendo, e como chegamos a este ponto?

Jonathan Haidt: Há hoje um sentimento muito mais apocalíptico. A pesquisa feita pela Pew Research mostra o grau de sentimento a respeito do outro lado não é só… nós não é só não gostarmos deles. Nós não gostamos de muito deles e achamos eles serem uma ameaça para a nação.

Esses números têm crescido cada vez mais, e estão em mais de 50% agora, em ambos os lados. As pessoas estão com medo, pois isso parece ser diferente da tolerância e convivência pacífica. É muito mais intenso.

Quando olho qualquer tipo de quebra-cabeça social, aplico os três princípios básicos de Psicologia Moral. Eles vão nos ajudar aqui.

A primeira coisa a sempre termos em mente, quando pensamos em política, é: somos tribais. Evoluímos através do tribalismo. Uma das maiores e mais simples descobertas sobre a natureza social humana é o provérbio beduíno: “Eu contra meu irmão; eu e meu irmão contra nosso primo; eu, meu irmão e meus primos contra o estranho”.

Esse tribalismo nos permitiu criar grandes sociedades e nos unirmos para competir com outros. Isso nos tirou da selva e dos pequenos grupos, mas significa também estarmos em um eterno conflito.

A questão a considerar é: quais aspectos da nossa sociedade tornam isso mais difícil, e quais acalmam esse conflito?

Isso está incutido nos circuitos mentais das pessoas, em certo nível. Isso é só um aspecto básico do conhecimento social humano. Mas também podemos conviver de forma muito pacífica, e inventamos várias formas divertidas de, digamos, “brincar de guerra”. Esportes, política, todos são formas de exercitarmos essa natureza tribal sem realmente ferir ninguém.

Também somos muito bons em negociar, em explorar e em encontrar novas pessoas. O comércio exigiu empatia e paz.

Então, nosso tribalismo como algo que tem altos e baixos: não estamos fadados a estar sempre lutando uns com os outros, mas nunca teremos a paz mundial. Continuar a ler

Chris Anderson entrevista Yuval Noah Harari

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Chris Anderson: Bem, estamos em Nova York para o primeiro de uma série de Diálogos TED, com Yuval Harari. Há um público no Facebook Live assistindo. Vamos iniciar as suas perguntas e as das pessoas no auditório.

Se você argumentar “precisamos passar pelo nacionalismo por causa da vinda do perigo tecnológico”, devido a muito do que está acontecendo, temos de ter uma conversa global sobre isso. É difícil conseguir as pessoas realmente acreditarem a IA (Inteligência Artificial) ser mesmo uma ameaça iminente. Pelo menos algumas pessoas se importam muito mais agora com a mudança climática e outras questões como os refugiados, as armas nucleares, e assim por diante. De alguma forma, essas questões precisam ser tratadas? Você falou sobre a mudança climática, mas Trump disse não acreditar nisso. Então, de certa forma, seu argumento mais poderoso, não pode ser usado neste caso.

Yuval Noah Harari: A mudança climática, à primeira vista, é bastante surpreendente haver uma correlação muito estreita entre nacionalismo e mudanças climáticas. Quase sempre, quem nega mudanças climáticas é nacionalista. À primeira vista, você pensa: Por quê? Qual é a conexão? Por que não temos socialistas negando mudanças climáticas? Mas quando pensamos nisso, fica óbvio: porque o nacionalismo não tem uma solução para as mudanças climáticas.

Se você quer ser um nacionalista, no século 21, você nega o problema. Se aceitar a realidade do problema, então você deve aceitar, sim, ainda há espaço no mundo para o patriotismo, ainda há espaço no mundo para lealdades especiais e obrigações para com seu próprio povo, e para com seu próprio país. Ninguém realmente está pensando em abolir isso. Mas, para enfrentar a mudança climática, precisamos de lealdades e compromissos adicionais em um nível além da Nação. Isso não deve ser impossível, porque as pessoas podem ter várias camadas de lealdade. Você pode ser leal à sua família, à sua comunidade, e ao seu país, então, por que você não pode também ser leal à humanidade como um todo? É claro, há ocasiões quando fica difícil o que colocar em primeiro lugar, mas a vida é difícil. Lide com isso. (Risos)

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