Gastos Públicos para Manutenção de Fluxos de Renda

Gillian Tett (Financial Times, 23/04/2020) alerta contra a estupidez de economistas ortodoxos e de militantes de direita.

Na última semana, manifestantes em todo os EUA fizeram protestos para exigir a “liberação” das medidas de confinamento adotadas pelos Estados para conter a propagação da covid-19.

Estimulados pela crença de a economia ter de reabrir para proteger a saúde das atividades econômicas das pessoas, esses protestos (muitos frequentados por ativistas antivacina e de extrema direita) tendem a render cenas de TV multicoloridas e mensagens desagregadoras nas redes sociais, que o presidente, Donald Trump promove com satisfação. Mas à medida que esses protestos crescem, desencadeando reação do setor médico americano, isso levanta uma questão: existe um limite para o quanto dever custar a contenção de uma pandemia?

Muitos, inclusive os médicos, poderão gritar “não!”. Certamente o valor de uma vida humana não pode ser medido só em termos econômicos. E a covid-19 é tão nova que é difícil submeter sua trajetória a um modelo matemático. Na Nova Zelândia, no entanto, um dos principais institutos de análise e pesquisa se aventurou a adentrar nesse campo minado moral.

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Vírus da Autocracia

Autocracia vem do grego, e significa governo por si próprio. É um regime político onde as leis e decisões são baseadas nas convicções do governante. Na autocracia, o poder do líder é absoluto e ilimitado, e o governo acaba por ter suas políticas confundidas com as ações pessoais do autocrata, como uma personalizaçao do poder.

As monarquias absolutistas eram regimes autocráticos, como por exemplo o periodo czarista na Rússia, ou o regime absolutista na França, tendo seu mais famoso autocrata na pessoa de Luís XIV. Mas nem toda a Monarquia é uma autocracia, pois os reis e imperadores poderiam ser aconselhados e influenciados por uma equipe administrativa. O que não ocorre pelo princípio da autocracia, onde a tomada de decisões é exclusiva do governante.

Autocracia também pode ser entendida como monocracia, ou seja, o governo de um só.

Um exemplo moderno do regime autocrático é o governo ditatorial alemão de Adolf Hitler. Durante o período em que Hitler governou, as decisões políticas eram exclusivamente de caráter pessoal do ditador, baseadas em suas crenças sobre uma Alemanha superior.

Gideon Rachman (Financial Times 22/04/2020) afirma: “a política internacional vinha sofrendo de uma doença pré-existente quando foi atingida pela covid-19. Antes do coronavírus, o mundo da política já havia sucumbido ao vírus da autocracia.

Em 2018, a China aboliu os limites ao mandato presidencial, o que permite ao presidente ao Xi Jinping governar por toda a vida. Neste ano, a Rússia anunciou que também planeja mudar a Constituição para permitir que Vladimir Putin permaneça no poder até 2036 – o que lhe daria um reinado mais longo que o de Stálin. Mesmo democracias consolidadas estão exibindo sintomas da síndrome do autocrata. Donald Trump assumiu o poder nos EUA, em 2016, criticando o “massacre” dos EUA e proclamando: “só eu posso corrigir isso”. Ele anunciou recentemente que seu “poder é total” no trato com a pandemia. Jair Bolsonaro assumiu o governo do Brasil, em 2019, manifestando admiração pelo regime militar que governou o país quando ele era jovem. Nas Filipinas, na Índia e na Arábia Saudita, está em voga um estilo personalista, arrogante, de liderança. Continuar a ler

Um Mundo Sem Líder

Yuval Noah Harari é historiador, filósofo e autor de best-sellers: Sapiens, Homo Deus e 21 Lições para o Século XXI. Compartilho abaixo a última parte do seu artigo para a revista norte-americana Time, publicado em 15 de março de 2020, e traduzido por mim.

Hoje a humanidade enfrenta uma crise aguda, não apenas devido ao coronavírus, mas também devido à falta de confiança entre os seres humanos. Para derrotar uma epidemia, as pessoas precisam confiar em especialistas científicos, os cidadãos precisam confiar nas autoridades públicas e os países precisam confiar uns nos outros.

Nos últimos anos, políticos irresponsáveis ​​minaram deliberadamente a confiança na ciência, nas autoridades públicas e na cooperação internacional. Como resultado, agora estamos enfrentando esta crise desprovida de líderes globais. Eles podem inspirar, organizar e financiar uma resposta global coordenada.

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O que a história nos ensina para a atual epidemia de coronavírus?

Yuval Noah Harari é historiador, filósofo e autor de best-sellers: Sapiens, Homo Deus e 21 Lições para o Século XXI. Compartilho abaixo a segunda parte do seu artigo para a revista norte-americana Time, publicado em 15 de março de 2020, e traduzido por mim.

Primeira Lição da História de Combate às Epidemias: você não pode se proteger fechando permanentemente suas fronteiras. Lembre-se de as epidemias se espalharem rapidamente, mesmo na Idade Média, muito antes da era da globalização.

Portanto, mesmo se seu estúpido presidente reduzir suas conexões globais ao nível da Inglaterra em 1348 – isso ainda não seria suficiente. Para realmente se proteger através do isolamento, ficar medieval não serve. Você teria que ficar na Idade da Pedra. Você pode fazer isso?!

Em segundo lugar, a Lição da História indica: a proteção real vir do compartilhamento de informações científicas confiáveis ​​e da solidariedade global. Quando um país é atingido por uma epidemia, deve estar disposto a compartilhar honestamente informações sobre o surto, sem medo de uma catástrofe econômica.

Enquanto isso, outros países devem poder confiar nessas informações e devem estender a mão amiga, em vez de “ostracizar” como vítima de “inimigo externo” [atitude típica do populista de direita]. Hoje, a China pode ensinar aos países de todo o mundo muitas lições importantes sobre o coronavírus, mas isso exige um alto nível de confiança e cooperação internacional.

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Na batalha contra o coronavírus, a humanidade carece de liderança

Yuval Noah Harari é historiador, filósofo e autor de best-sellers: Sapiens, Homo Deus e 21 Lições para o Século XXI. Escreveu o seguinte artigo para a revista norte-americana Time, publicado em 15 de março de 2020 e traduzido por mim.

Muitas pessoas culpam a epidemia de coronavírus pela globalização e dizem a única maneira de evitar mais surtos desse tipo ser “desglobalizar o mundo”. Construa muros, restrinja viagens, reduza o comércio.

No entanto, embora a quarentena de curto prazo seja essencial para interromper as epidemias, o isolacionismo de longo prazo levará ao colapso econômico sem oferecer nenhuma proteção real contra doenças infecciosas. Provocará exatamente o oposto. O verdadeiro antídoto para a epidemia não é a segregação, mas sim a cooperação.

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Socialdemocrata Norte-Americano X Miliciano Brasileiro

Democratic presidential hopeful Vermont Senator Bernie Sanders speaks at a Primary Night event at the SNHU Field House in Manchester, New Hampshire on February 11, 2020. – Bernie Sanders won New Hampshire’s crucial Democratic primary, beating moderate rivals Pete Buttigieg and Amy Klobuchar in the race to challenge President Donald Trump for the White House, US networks projected. 

Jeffrey Sachs (Valor, 27/02/2020), professor de Desenvolvimento Sustentável e de Políticas e Gestão de Saúde da Universidade de Columbia, é diretor da Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Ele é eleitor de Bernie Sanders. Caso esse candidato socialdemocrata seja vitorioso lá nos EUA, ficará sem-amparo internacional o reacionário miliciano daqui… Pobre Brasil, tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos.

“O narcisismo e a falta de noção panglossiana da elite de Wall Street são uma maravilha de se ver. Empoleirados no poder, gozando de isenções de impostos, dinheiro fácil e mercados de ações em alta, eles têm certeza de que tudo é perfeito neste melhor de todos os mundos possíveis. Os críticos devem ser idiotas ou demônios.

Quando estou em sua companhia e menciono meu apoio a Bernie Sanders para concorrer à eleição presidencial dos EUA recebo ohs! de espanto, como se tivesse invocado Lúcifer. Eles têm certeza de que Sanders é inelegível, ou de que, se de alguma forma for eleito, ele provocará o colapso da república. Em diferentes graus, os mesmos sentimentos podem ser encontrados até em meios de comunicação “liberais”, como o New York Times e o Washington Post.

Esse desdém é ao mesmo tempo revelador e absurdo. Na Europa, Sanders seria um social-democrata convencional. Continuar a ler

Déficit Público e Dívida Pública: Problemas Insustentáveis?!

Brendan Greeley (Financial Times, 29/01/2020) anuncia: o governo federal dos EUA vai acumular um déficit orçamentário de US$ 13,1 trilhões nos próximos dez anos e o rombo nas contas públicas continuará a aumentar para níveis “sem precedentes na história” do país, segundo projeções do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO, na sigla em inglês), órgão não partidário.

Em seu relatório semestral sobre orçamento e perspectivas econômicas, divulgado ontem, o CBO prevê um déficit orçamentário de US$ 1 trilhão neste ano, ou 4,6% do Produto Interno Bruto (PIB), e um cenário de deterioração no longo prazo, devido a recentes alterações no código tributário e ao envelhecimento da população.

“Desde a Segunda Guerra Mundial, o país não vê déficits, em períodos de baixo desemprego, tão elevados quanto os que projetamos, nem no século passado o país experimentou déficits elevados por tanto tempo quanto projetamos”, afirmou o diretor do CBO, Philip Swagel, em nota. Continuar a ler