Golpistas Direitistas: Anticomunistas Anacrônicos sob o Lema Fascista “Deus, Pátria e Família”

José de Souza Martins_ Agitação direitista em acampamento-manicômio _ Eu & _ Valor Econômico (20/01/23)

Por José de Souza Martins: sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP, professor da Cátedra Simón Bolívar da Universidade de Cambridge, e fellow de Trinity Hall.

José de Souza Martins_ Agitação direiti…oso manicômio _ Eu & _ Valor Econômico

As ocorrências extralegais e paralelas no próprio dia da posse do novo presidente da República e a baderna insurrecional da invasão de Brasília e dos edifícios dos Três Poderes, no dia 8 de janeiro, em seus desdobramentos e consequências, fazem revelações sociológica e politicamente decisivas para conhecer os inimigos da democracia e do país. Revelam não só o conjunto de uma trama golpista, mas principalmente a estrutura social do movimento e a diferença entre agitadores, protagonistas, promotores e protetores, vários deles secretos. Não se trata de acaso, mas de poder paralelo e organizado.

A identificação dos presos em Brasília, no dia 8, faz revelações da maior importância para definir e compreender o perfil social dos envolvidos. É gente de baixa classe média, não só pelos recursos minguados da maioria visível, mas também pela ignorância sobejamente demonstrada no ataque aos palácios como se fosse ataque ao novo governo. Governo não é um prédio nem uma parede, assim como democracia não é baderna.

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Perfil da Massa de Manobra da Extrema-Direita

Ilustração Miguel Paiva

Assisti, no HBO Max, o documentário (150 minutos) “O Ataque ao Capitólio”. Mostra imagens detalhadas dos violentos confrontos com policiais, ocorridos em 6 de janeiro de 2021, quando uma turba da extrema-direita norte-americana invadiu o Capitólio dos Estados Unidos. Inclui entrevistas com membros do Congresso e dos invasores, além de relatos exclusivos de jornalistas, policiais e socorristas.

É muito impactante emocionalmente o recordar, face ao distanciamento histórico de dois anos e à proximidade temporal da repetição tupiniquim. Ambos foram instigados pelo não reconhecimento da derrota eleitoral pelos presidentes da República. Lá como cá, os populistas de direita não foram reeleitos e, em vez de assumir sua incompetência governamental, instigaram um quebra-quebra no Poder Legislativo.

“A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, escreveu Karl Marx no livreto “Dezoito Brumário de Louis Bonaparte”, publicado em 1852. Talvez não existam palavras mais apropriadas para nomear o vandalismo na Praça dos Três Poderes em Brasília.

Farsa é uma modalidade burlesca de peça teatral, caracterizada por personagens e situações caricatas”. O burlesco provoca riso ou zombaria por extravagância ou ridículo.

Causa riso a caricatura de, no caso, uma revolta de um segmento social imaginada como fosse uma revolução. Os extremistas de direita deram-na um tratamento grotesco.

A palavra “burlesco” é de origem italiana. Deriva da palavra burla, com significado de “piada”, “ridículo” ou “zombaria”. Há inúmeras gravações, em vídeos encontrados no YouTube, com as cenas risíveis dos chamados “patriotários”.

Vejo-os e, logo, indago mentalmente: qual é o perfil socioeconômico dessa gente? Em suas aparências – veja em https://www.instagram.com/contragolpebrasil/ –, de imediato, vem a primeira impressão preconceituosa: como são feios! E ainda fazem caretas ou poses para as câmeras! Mas eles não se enxergam assim por causa do exacerbado narcisismo: amor pela própria imagem.

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Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdade Racial (CEDRA)

Uma iniciativa lançada em meados de dezembro promete ajudar com respostas. O Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdade Racial (Cedra) desenvolveu a plataforma Cedra (cedra.org.br/). On-line e gratuita, reúne dados públicos e permite cruzar informações sobre emprego, escolaridade, moradia e renda, entre outras. Em um só lugar, disponibiliza, organiza e analisa informações hoje dispersas ou de difícil acesso.

A ideia da Cedra é “mostrar de maneira contundente o que é a desigualdade racial no Brasil”, conta o economista Eduardo Nunes, professor da PUC-Rio e ex-presidente do IBGE, um dos autores da iniciativa. Na medida em que for sendo alimentada, a plataforma se tornará cada vez mais uma ferramenta capaz de subsidiar com dados a elaboração de políticas públicas e programas privados de inclusão e diversidade.

No momento em que empresas despertam para o tema – estudo da consultoria LHH Brasil que na média empresas são 21% mais lucrativas quanto têm diversidade de gênero e 33% mais com diversidade racial – e que o governo promete dar atenção a ele, a plataforma é um avanço na democratização e análise dos dados. “Com a criação dos ministérios da Desigualdade Racial e das Mulheres, muitos pontos do discurso do governo já são aspectos que a gente trabalha, então podemos contribuir com o debate”, comenta Nunes.

A ideia, no futuro, é a Cedra se tornar mais do que um banco de dados e produzir estudos para municiar a discussão, além de receber estudos de fora.

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Idosos Fanáticos: Há cura contra o Fanatismo?

Receita para curar um fanático político _ Política _ Valor Econômico (17/01/23)

Andrea Jubé, Jornalista e advogada, começou a acompanhar de perto os bastidores políticos em Brasília em 2007. Desde 2013, é repórter da editoria de Política do Valor. Escreveu a coluna da abaixo à qual somo um artigo de Rudá Ricci.

O escritor e pacifista israelense Amós Oz não viveu para testemunhar a horda de bárbaros que invadiu e depredou as sedes dos três Poderes no dia 8 de janeiro, no simulacro do atentado ao Capitólio americano, em um dos capítulos mais terríveis da nossa história. Igualmente, não testemunhou o ataque ao Capitólio no dia 6 de janeiro de 2021 pelos apoiadores do ex-presidente Donald Trump.

Morto em dezembro de 2018, aos 79 anos, ele foi o principal porta-voz do movimento Paz Agora, fundado em 1977, para lutar pela conciliação entre judeus e palestinos. Nos artigos e ensaios sobre o longevo conflito entre Israel e o Estado palestino, afirmava que a infância em Jerusalém lhe concedera “expertise em fanatismo”.

Com esse atributo, invariavelmente manifestava-se ou proferia palestras sobre atentados terroristas praticados por grupos extremistas nos diferentes palcos mundiais. Em 2002, em uma Alemanha que até hoje cumpre um doloroso processo de “desnazificação” social, propôs alternativas sobre “como curar um fanático”.

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Ressentimento inverte o Complexo de Inferioridade de Iletrados e os transforma em Fascistas?

Agora, após a tentativa fracassada de golpe contra o Estado de Direito, via quebra-quebra e provocação de GLO (Garantia de Lei e da Ordem) para colocar as Forças Armadas para comandar mais uma ditadura militar no Brasil, começam a sair os perfis dos fascistas brasileiros, ainda classificados como terroristas e golpistas. Abaixo está uma delineação do perfil psicológico desses indivíduos desprezíveis.

Nos ataques de domingo, em Brasília, apoiadores radicais do ex-presidente Jair Bolsonaro fizeram questão de exibir o rosto nas redes sociais, mas decifrar a face do extremismo no país ainda é uma tarefa difícil. Afinal, o que pensam radicais criminosos que se orgulham de incendiar os símbolos da democracia brasileira? E como cidadãos comuns se tornam terroristas?

Existe muito ressentimento nessa trajetória”, diz o psicanalista Christian Dunker, professor de psicologia clínica da Universidade de São Paulo (USP). O bolsonarismo se aproveitou do descontentamento de parte da população – cujos projetos pessoais de ascensão econômica foram frustrados pela crise global – para conquistar adeptos em diferentes estratos sociais, afirma Dunker.

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Inflação em 2022

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no ano passado fechou com uma inflação de 5,8%, ante uma expectativa mediana do mercado de 5,6%. Não fossem as desonerações promovidas em meio à corrida eleitoral, principalmente na gasolina, esse número poderia ter ficado mais perto de 8% a 9%, estimam economistas.

Na avaliação dos especialistas, 5,8% ainda é uma inflação elevada, embora represente desaceleração significativa ante os 10,1% de 2021 e o pico de 12,13% alcançado no acumulado em 12 meses até abril. A meta para 2022 era de 3,5%, com tolerância de até 5%.

Os últimos meses do ano passado foram de desaceleração da alta acumulada em 12 meses pelo IPCA. Ela permaneceu em dois dígitos de setembro de 2021 (10,25%) a julho de 2022 (10,07%). A projeção para o ano chegou a ser bem maior do que o de fato observado, mas cedeu, principalmente, depois de Bolsonaro reduzir e/ou zerar impostos sobre itens de peso na cesta.

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Base governista de Lula III

A estratégia de formar uma Frente Ampla fez Lula abrir espaço no governo para nove partidos. Juntos reúnem 51% da Câmara dos Deputados e 55% do Senado. Até mesmo o União Brasil, partido em sua origem o PFL, sigla por anos símbolo da direita e opositora do PT nos primeiros mandatos, terá representantes no primeiro escalão.

Em 2003, Lula tinha um patamar de apoio parecido com o atual — reunia partidos que representavam 48,5% das cadeiras na Câmara. Passou para 70% em 2007, quando foi reeleito. Agora, busca o diálogo inclusive com parlamentares que fizeram parte da base do presidente populista de direita para poder governar sem os percalços de gestões anteriores do PT.

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Regras versus Discrição: Debate entre Manietar ou Arbitrar


01 de janeiro de 2003 – Por Jason J Buol, Mark D Vaughan: https://www.stlouisfed.org/publications/regional-economist/january-2003/rules-vs-discretion-the-wrong-choice-could-open-the-floodgates

Os formuladores de políticas não querem que as pessoas construam casas em várzeas. Para desencorajar esse tipo de construção, eles anunciam que qualquer pessoa que sofra danos causados pelas enchentes está por conta própria — nenhum socorro em caso de desastre será fornecido. As pessoas ignoram esses avisos e constroem de qualquer maneira. Aí vem a chuva, a água sobe e as casas alagam.

A mídia traz imagens de partir o coração de telhados saindo de correntes turbulentas. Após um clamor público, os formuladores de políticas anunciam um resgate – 100% de compensação pelos danos causados pelas enchentes.

Este resultado oferece o pior dos dois mundos – as casas são destruídas pelas enchentes e as vítimas que ignoraram os avisos são indenizadas com os fundos dos contribuintes. Depois que a água da enchente baixou e as verificações de desastres foram encerradas, o ciclo recomeça. Como os formuladores de políticas podem evitar essa armadilha?

Os economistas Finn Kydland e Edward Prescott foram os primeiros a oferecer uma saída.1 Em um artigo clássico de 1977, eles introduziram uma distinção entre políticas inconsistentes e consistentes com o tempo.

Uma política inconsistente com o tempo pode deixar o público feliz no curto prazo, mas acabará falhando em produzir o objetivo da política de longo prazo. Uma política consistente com o tempo, em contraste, atinge o objetivo político de longo prazo, mas não torna as pessoas infelizes no curto prazo.

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Representatividade Popular do Partido dos Trabalhadores e Lula

Caricatura/colagem do presidente Lula feita com comida (frutas, amendoins, coco, uvas, alface, manga) – Asier Sanz

Celso Rocha de Barros é servidor federal, doutor em Sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra), autor de “PT, uma História” e colunista da Folha. Publicou artigo (FSP, 01/01/23) analítico sobre a representatividade popular do PT e sua força da organização partidária em escala nacional como a maior responsável pela vitória do Lula.

Partido dos Trabalhadores é o maior vencedor de eleições presidenciais da história do Brasil. Ganhou 5 das 9 eleições da Nova República. Ficou em segundo lugar em todas as que perdeu. Esteve em todos os segundos turnos.

Os outros dois maiores vencedores, o velho PSD (1945-1964) e o PSDB, somados, venceram 4 vezes.

Entre os partidos que disputaram com o PT até hoje, dois acabaram (o PRN de Collor e o PSL de Bolsonaro). O PSDB, maior rival dos petistas, é hoje uma sombra do que já foi: perdeu as fortalezas de São Paulo e Minas Gerais para direitistas mais radicais e sua bancada no Congresso tem o mesmo tamanho da do PSOL.

Depois de 1989, quando o PT iniciou seu processo de moderação programática, o partido só perdeu eleições presidenciais para o Plano Real, uma imensa realização tucana; e quando Sergio Moro, em um julgamento irregular, impediu Lula de concorrer em 2018.

A capacidade de sobrevivência do PT é ainda mais impressionante tendo em conta o tamanho da crise que atingiu o partido em 2015-2018.

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Posse de Lula III

Celso Rocha de Barros (FSP, 01/01/23) escreveu o artigo compartilhado abaixo sobre a Posse de Lula III.

O golpe perdeu, o Olavo morreu, o Jair fugiu, e o Brasil voltou a ter um presidente digno de cantar o hino nacional brasileiro.

Cantou-o com entusiasmo, como cantou a multidão que foi a Brasília assistir à terceira posse presidencial de Lula. Foi uma festa bonita, a começar porque o Jair não foi. Em seu lugar, uma comitiva entregou a faixa presidencial a Lula. Foi, sem dúvida, o momento mais bonito da posse. A comitiva representava um país que é, ao mesmo tempo, diverso, culturalmente rico e melhor do que Jair Bolsonaro no desempenho de absolutamente qualquer tarefa.

Resta torcer, enfim, para que o desastre Jair Bolsonaro vacine o povo brasileiro contra novas experiências autoritárias. Afinal, não é possível que este palhaço não seja capaz de vacinar ninguém contra nada.

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André Lara Resende: Sobre Juros

Os Juros, outra vez! _ Opinião _ Valor Econômico (26/12/22). André Lara Resende defende: despesas autorizadas pela PEC vão para os mais pobres e o serviço da dívida, para o sistema financeiro.

Richard Feynman, laureado com o Nobel de física, gênio inconteste, considerado um dos maiores professores de todos os tempos, tinha, como todo iconoclasta, outros interesses além da física – era percussionista. Quando veio ao Brasil, no início dos anos 1950, dar aulas para um seleto grupo de alunos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, costumava se infiltrar nos ensaios da bateria de uma escola de samba.

Como conta em “Sure You’re Joking, Mr Feynman”, costumava atravessar o ritmo, o que levava o diretor da bateria a interromper e exclamar: o americano, outra vez! Pois bem, peço emprestada a exclamação do diretor da bateria: os juros, outra vez, ameaçam a retomada do desenvolvimento.

O tema é árido, sei bem, mas da mais alta relevância. Insisto em tentar despi-lo da roupagem tecnocrática que o torna inacessível. Sejamos o mais simples e direto possível. Vamos aos fatos. Desde o início de 2021, o Banco Central elevou a taxa básica de juros de 2,75% para 13,75% hoje. São 11 pontos de percentagem.

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Pior Presidente da História do Brasil: — “Acabô, Pô!”

O resultado de Bolsonaro é o pior de um presidente eleito para seu primeiro mandato desde a volta da democracia ao país, em 1985O mandatário perdeu a eleição em outubro para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e até hoje não reconheceu abertamente o resultado.

No fim de 1998, já reeleito, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) marcava uma aprovação de 35% e uma reprovação de 25%, com 37% o considerando regular. Nos estertores de 2006, já tendo vencido sua reeleição, Lula tinha 52% de ótimo/bom, 14% de ruim/péssimo e 34% de regular.

Dilma Rousseff (PT), por sua vez, era aprovada por 42%, reprovada por 14% e vista como regular por 34% no fim de 2014 —ela acabaria impedida no meio de seu segundo mandato, em 2016.

Não entram na comparação direta campeões de popularidade ou impopularidade. No primeiro quesito, vence Lula ao fim do segundo mandato em 2010, com 83% de aprovação. No segundo, Fernando Collor antes de perder a cadeira no impeachment de 1992, com 68% de insatisfeitos.

Considerando uma escala de 1 a 5 onde 1 significa ser bolsonarista e 5, petista, 32% se colocaram na posição 5, de petista, e 9%, na posição 4, inclinados ao petismo. A posição intermediária (3) abrange 20%, e 25% se colocam na posição 5, de bolsonaristas, com 7% na posição 2, inclinados ao bolsonarismo. Há 5% que dizem não se encaixar em nenhuma das posições na escala, e 1% não respondeu.

Na faixa etária dos mais jovens, de 16 a 24 anos, é menor tanto a taxa de bolsonaristas (16%) quanto de petistas (25%), com crescimento da posição intermediária (33%).

Entre os mais pobres, na faixa de renda familiar de até 2 salários mínimos, 40% se posicionam como petistas, e 21%, como bolsonaristas. Na faixa seguinte, de 2 a 5 salários, esses índices em 24% e 30%, respectivamente, e essa tendência se mantém entre quem tem renda de 5 a 10 salários (21% a 25%). Entre os mais ricos, 40% se posicionam como bolsonaristas, e 13%, como petistas.

Na parcela de brasileiros que votou em Lula no segundo turno da eleição deste ano, 63% se posicionam como petistas, 15% se inclinam ao petismo, na posição 4, e 16% estão na posição intermediária. Entre quem votou em Bolsonaro, 56% se posicionam como bolsonaristas, 14% se colocam próximos ao bolsonarismo, na posição 2, e 3% estão na posição intermediária da escala.

Confira a Pesquisa Datafolha realizada em dezembro de 2022: BAIXAR RELATÓRIO COMPLETO

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