Operação Compromissada: “Jabuticaba” ou Universal “Preferência por Liquidez”?

Composição da dívida públicaEditorial do Valor (10/06/15) reconhece que o que pregava a maioria de seus colunistas ortodoxos, contraditoriamente, atenta contra a própria estabilidade das Finanças Públicas! A overdose de elevação do juro básico em conjunto com o ajuste fiscal, ao mesmo tempo, não só derruba a demanda agregada, o nível de emprego, o salário real, etc., como também, via realinhamento tarifário em energia e combustível, inflamou a inflação, elevando-a dois pontos percentuais acima do teto da meta. Pior, comprometeu o próprio déficit nominal com a elevação dos encargos financeiros da dívida pública. Nada disso, porém, está fora do script previsto pelos economistas “heterodoxos”… Continuar a ler

Tarefa de Sísifo

Tarefa de Sísifo - pintura de Tiziano - 1549

Executar a política monetária é uma Tarefa de Sísifo! Sísifo foi condenado a, por toda a eternidade, rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido.

Por esse motivo, essa expressão “trabalho de Sísifo” é empregada para denotar qualquer tarefa que envolva esforços longos, repetitivos e inevitavelmente fadados ao fracasso. A política monetária brasileira segue um infinito ciclo de esforços em elevar a taxa de juros que, embora nunca cheguem a um final, pois a taxa de inflação não rola para um “equilíbrio estável”, também são totalmente desprovidos de quaisquer opções de desistência ou recusa em fazê-lo.

Sísifo tornou-se conhecido por executar um trabalho rotineiro e cansativo. Tratava-se de um castigo para mostrar-lhe que os mortais não têm a liberdade dos deuses. Os mortais, porém, têm uma limitada possibilidade de escolha. Devem, pois, concentrar-se nos afazeres da vida cotidiana, vivendo-a em sua plenitude, tornando-se criativos na aparente repetição do dia a dia. Este é o segredo da felicidade cotidiana: gostar do que se faz de maneira criativa!

Mas como gostar da política monetária repetitiva, inoperante, benéfica aos parasitas? Posso dizer duas ou três coisas que eu sei dela… É “trés chic” explicá-la em francês – “Deux ou Trois Choses Que Je Sais d’Elle”. Continuar a ler

Um Conto de Três Hiatos: Desemprego, Utilização da Capacidade Instalada da Indústria e Produto

Utilizaçãos dos Fatores PIB Inflação Hiatos Muito Consumo Pouca Indústria

O artigo de autoria de Sergio Afonso Lago Alves e Arnildo da Silva Correa, economistas do Banco Central do Brasil — http://www.bcb.gov.br/pec/wps/port/TD339.pdf –, analisa a relação entre desemprego, utilização da capacidade instalada na indústria e in‡flação no Brasil por meio de curvas de Phillips desagregadas. O principal diferencial da análise é:

  1. considerar separadamente as dinâmicas dos setores de bens comercializáveis e de não comercializáveis, e
  2. ressaltar a importância do mercado de trabalho e da utilização da capacidade instalada da indústria para explicar a dinâmica da in‡flação.

Usando dados trimestrais para o período 1999T2-2012T4, obtiveram estimativas para a NAIRU, NAICU e para o Hiato do Produto incorporando maior estrutura econômica no …filtro de Kalman.

Os resultados sugerem que variáveis de mercado de trabalho e da indústria têm impactos relevantes sobre a in‡flação:

  1. o Hiato do Desemprego é a variável de demanda relevante para explicar a infl‡ação de não comercializáveis, enquanto que
  2. o Hiato da Utilização da Capacidade é importante para a in‡flação de bens comercializáveis.

Há evidência de substancial redução na NAIRU no período recente. Seu valor situava-se próximo a 6,3% no …final de 2012, o que implica que a taxa de desemprego encontra-se abaixo da NAIRU desde meados de 2010.

Os resultados evidenciam uma dicotomia na economia brasileira no período recente: 

  1. o setor industrial apresenta fraco desempenho e di…ficuldades de reagir,
  2. o mercado de trabalho encontra-se aquecido, gerando pressões sobre o Hiato do Produto.

O artigo também enfatiza possíveis vieses gerados por estimações agregadas num contexto dicotômico.

Compreende-se a importância desse TD-BCB na controvérsia entre economistas brasileiros a respeito do combate à inflação.

  • Uns dizem que, no Brasil, o que baixa a taxa de inflação é a queda da taxa de câmbio, i.é, apreciação da moeda nacional que derruba os preços dos produtos e insumos importados e, conjuntamente, a competitividade dos produtos nacionais.
  • Outros dizem que seria necessário um brutal aumento da taxa de desemprego acima da Taxa Natural de Desemprego (NAIRU) para que o índice de preços caia a 4,5% aa.

O COPOM está se apoiando nas evidências empíricas reveladas por esse TD-BCB. Continuar a ler

Repasse Cambial para Preços

Taxa de câmbio nominal O cenário econômico mundial recente tem sido caracterizado por processo de recuperação desigual das grandes economias. De um lado, a economia dos Estados Unidos mostra sinais mais sólidos de melhora nos seus fundamentos. De outro, em países da Europa, além do Japão e de alguns países emergentes, a recuperação tem sido mais lenta, evidenciada por menores taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).

A esse cenário de crescimento heterogêneo, deve-se acrescentar os riscos decorrentes do início do processo de normalização das condições monetárias em importantes economias maduras, notadamente nos Estados Unidos.

Em conjunto, esses fatores têm gerado focos de volatilidade nos mercados internacionais de moedas, com o fortalecimento do dólar americano frente às demais moedas. Considerando o período de doze meses até o início do mês de março de 2015, o dólar valorizou 27% ante o euro, 11% frente à libra esterlina, 18% em relação ao iene japonês e 32% ante o real.

Nesse contexto, é natural que autoridades monetárias se preocupem com a intensidade de repasse das variações cambiais para preços. Dada a relevância do tema, este boxe do Relatório de Inflação do primeiro trimestre de 2015, elaborado pelo Banco Central do Brasil (BCB), trata do repasse cambial, identificando fatores e condições que podem mitigar seu efeito sobre os preços internos. Continuar a ler

Influência dos Preços das Commodities sobre o Repasse Cambial no Brasil

Taxa de câmbio e commodities

A taxa de câmbio entre o real e o dólar dos Estados Unidos da América (EUA), cujo aumento da taxa significa depreciação da moeda brasileira, e os preços internacionais das commodities — considerada a variação do Índice de Commodities – Brasil (IC-Br) em US$ — vêm registrando movimentos inversos, sugerindo relativa compensação entre o impacto das respectivas trajetórias sobre a inflação (Gráfico 1). Nesse contexto, o boxe do Relatório de Inflação do primeiro trimestre de 2015, elaborado pelo Banco Central do Brasil (BCB), examina a influência dos preços das commodities sobre o repasse cambial no Brasil.

A correlação entre as cotações internacionais das commodities e das moedas de países exportadores desses produtos pode ser explicada por diversos canais:

influência dos preços das commodities sobre os termos de troca desses países, afetando o fluxo cambial;

efeitos dos termos de troca sobre essas economias tendem a alterar a atratividade dos respectivos ativos junto a investidores internacionais, impactando a moeda nacional via mudança no fluxo de capitais;

poder de mercado na oferta mundial de determinada commodity pode implicar impacto da taxa de câmbio do país exportador sobre o preço desse produto;

alterações no valor do dólar ou nos fundamentos nos mercados financeiros internacionais podem afetar, em direções opostas, os preços das commodities e as taxas de câmbio de países exportadores de commodities, reforçando a correlação negativa entre essas variáveis. Continuar a ler

V. Por que a Taxa de Juros é tão elevada e a Taxa de Inflação não cai?

Metas de Inflação 1999-2013

Prosseguindo na busca de respostas a duas perguntas aparentemente simples –
Por que a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada? Por que, apesar da taxa nominal básica de juros ser tão elevada, a taxa da inflação permanece muito elevada? – vamos, neste artigo final da série, concluir o exame desta última questão.

A experiência de combate ao regime de alta inflação colocou menos ênfase nas causas primárias e mais na inércia inflacionária, provocada por comportamento racional defensivo, pelas demandas salariais se transformarem de questões econômicas em questões políticas e sociais e pelo poder de fixação de preços.

Desde então, a terapêutica antiinflacionária, qualquer que seja a causa primária, tem consistido então em tentar neutralizar, via controle da demanda agregada, a ação dos mecanismos de reajustes, espontâneos ou não, de preços, salários, câmbio, taxas de empréstimos, etc. Porém, nesse ajuste recessivo, tipo stop-and-go, ocorrendo quedas das margens de lucro, também cai a taxa de investimento e aumenta o desemprego. Continuar a ler

IV. Por que a Taxa de Juros é tão elevada e a Taxa de Inflação não cai?

Decompoisção da taxa de inflação de 2014Inflação de preços livres

Prosseguindo na busca de respostas a duas perguntas aparentemente simples –
Por que a taxa real básica de juros no Brasil é tão elevada? Por que, apesar da taxa nominal básica de juros ser tão elevada, a taxa da inflação permanece muito elevada? – vamos agora começar a examinar esta última questão.

Poderia ser a minha resposta quase uma tautologia: “ora, a taxa de juros é tão elevada porque a taxa de inflação ainda é elevada e a diretoria do Banco Central do Brasil insiste em derrubá-la com este único (e equivocado) instrumento”. Em outras palavras, a questão-chave seria por que a taxa de inflação ainda é alta – e não por que a taxa de juro é alta. Esta seria consequência daquela e não causa a queda dela! Todos os diagnósticos – e as terapias decorrentes – estariam equivocados!

A experiência brasileira de estabilização inflacionária em taxa inercial mais baixa demonstra que ter Banco Central independente para praticar política de juros não é nem condição necessária nem suficiente. Para esse objetivo, há sim a necessidade de adotar política macroeconômica abrangente e coordenada, envolvendo política de controle de capital, política fiscal, política cambial, política de juros e política de rendas, em condições internacionais propícias ao acúmulo de reservas internacionais e à sobrevalorização da taxa de câmbio ou apreciação da moeda nacional. Além dessas políticas econômicas em curto prazo há que cortar o custo extra do Brasil com investimentos em infraestrutura e logística, cuja maturação ocorre em longo prazo. Continuar a ler