Correspondência Eletrônica com Giuliano Contento sobre a Elevada Taxa de Juros no Brasil

Giuliano ContentoGiuliano Contento: A questão é que há duas dimensões do problema: a taxa de juros para financiar as contas externas, de um lado, e a taxa de juros para fazer a inflação convergir para a meta, de outro. Escrevi, acho que há 2 anos, um artigo no Valor sobre o tema (http://www3.eco.unicamp.br/ceri/centro/146-destaque/473-taxa-de-juros-e-controle-de-capitais-no-brasil-valor-economico).

Fernando Nogueira da Costa: Sim, e a meta inflacionária é a prioridade… Mas o juro é superestimado – e amado!

Giuliano Contento: Mas se o juro nominal hoje fosse 5%, com inflação de 9%, qual seria o impacto sobre os preços? Qual seria a repercussão em termos de financiamento do setor público?

Fernando Nogueira da Costa: com o ajuste fiscal, que derruba a demanda agregada, e a inflação anual em 9%, não se poderia manter um juro real ex-ante, por exemplo, de 2%? Por que 5,25%?!

Acho que não haveria fuga de capitais com taxa de juros nominal de 11% aa…

Três pontos percentuais fazem grande diferença nos encargos da dívida pública.

A dosagem é arbítrio. A overdose sustenta o vício da casta dos sábios-tecnocratas! Continuar a ler

Em Defesa do Capital, Quem Defende o Trabalho?

Direita Século XXINão conseguimos entender um Sistema Complexo se usarmos apenas um pensamento binário, tipo Tico-e-Teco (“2 neurônio”), 0 ou 1. No Sistema Capitalista, o Discurso da Servidão Voluntária está introjetado em “corações e mentes” não só dos capitalistas! Trabalhadores também são elementos desse Sistema — e o defendem!

Na vida política brasileira, estamos constatando como “não se pode fazer desaforo ao Capital”. Logo, surgem vários defensores dele, seja com bons argumentos, seja para “puxar-saco” de seus patrões. Na primeira categoria, estão alertas sobre aumentos de impostos que são repassados via preços para consumidores, principalmente de baixa renda, dada a regressividade da estrutura tributária brasileira.

Como destacaram Sérgio Wulff Gobetti e Rodrigo Octávio Orair, pesquisadores do Ipea, “o Brasil possui uma carga tributária equivalente à média dos países da OCDE, por volta de 35% do PIB, mas tributa muito pouco a renda, principalmente dos mais ricos, e sobretaxa a produção e o consumo. (…) A reintrodução da tributação sobre dividendos, aos moldes do que ocorria até 1995 no Brasil, ajudaria a reduzir as desigualdades de renda no país e contribuiria muito com o ajuste fiscal (cerca de R$ 50 bilhões de receita adicional), com a vantagem de não afetar tanto a já combalida economia brasileira como outras alternativas de aumento de carga tributária. Isso porque a renda de dividendos está concentrada no topo da pirâmide e sua tributação não atingiria os investimentos das empresas, mas apenas uma pequena fração da poupança das famílias mais ricas” .

Essas famílias são chefiadas pelas 71.440 pessoas mais ricas do país, que ganham mensalmente mais de 160 salários mínimos (R$ 126,08 mil), pagam muito pouco imposto de renda. Os Grandes Números IRPF AC 2013 mostram que esse grupo de cidadãos paga à SRF apenas 6,51% de sua renda total. Isto ocorre porque 65,8% de sua renda total (quase dois terços) são rendimentos considerados isentos e não tributáveis pela legislação brasileira do Imposto de Renda (IR), como é o caso dos lucros e dividendos.

Essa tributação de PF (Pessoas Físicas) de altíssima renda deveria ser a contrapartida negociada com o lobby contra a tributação maior das PJ (Pessoas Jurídicas). Fernando Torres (Valor, 19/08/15) informa que “tudo indica que deu certo, ao menos por enquanto, a movimentação de grandes empresas no Congresso para barrar o fim da dedutibilidade fiscal da distribuição de lucros na forma de juros sobre capital próprio (JCP). Tributem os dividendos recebidos por PF! Continuar a ler

Trocar os Swaps pelas Reservas Cambiais

Nível das Reservas CambiaisDesvalorização de Moedas na ALSergio Lamucci (Valor, 10/08/15) informa que o volume de reservas internacionais do Brasil, em torno de US$ 370 bilhões, é bastante confortável e parece mais do que suficiente para proteger a economia dos efeitos de uma parada súbita do fluxo de capitais, de acordo com vários critérios que buscam medir o nível adequado dos recursos externos. As reservas equivalem a quase 14 meses dos gastos com importações de bens e serviços e outras despesas da conta corrente, abaixo apenas dos 19 meses da China e dos quase 15 de Taiwan, segundo estimativas da Standard & Poor’s (S&P) para 2015. Além disso, representam cerca de 19% do PIB, um número bem abaixo dos 36% dos chineses e dos quase 50% dos tailandeses mas superior aos 10% a 15% do PIB apontados por especialistas como o nível ótimo para aguentar fugas abruptas de capital.

Cogitada por alguns economistas brasileiros, a troca de reservas pelo estoque de swaps cambiais é uma opção bem vista por alguns especialistas no exterior. A operação, porém, precisaria ser muito bem feita, para que não seja vista como uma tentativa de influenciar a taxa de câmbio. Além disso, é complicado desfazer-se de reservas num momento em que a economia brasileira passa por uma situação delicada e o aumento dos juros nos Estados Unidos se aproxima. De todo modo, a piora da percepção de risco local, em meio à atual crise política, tem gerado intensa volatilidade na taxa de câmbio e muitos profissionais de mercado já não descartam que o Banco Central tenha de vir a vender moeda física para amenizar o movimento.

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Luiz Guilherme Schimura X Pedro Paulo Bastos e Chico de Oliveira: Abordagem Estrutural X Abordagens Conjunturais

Chico de OliveiraA imprensa tem dado espaço para entrevistados de esquerda que criticam o governo Dilma, para tentar demonstrar o “isolamento” dela. Eles têm de ter muito cuidado para não serem pautados e fazerem o jogo da direita golpista de criminalizar o PT e isolar a Dilma.

Surpreendentemente, talvez para muitos que não o conhecem, o “liberal clássico”, Luiz Guilherme Schymura, diretor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), o “think tank” mais antigo do país, fundado em 1951 por três expoentes do pensamento liberal nacional: Eugênio Gudin, Alexandre Kafka e Roberto Campos. PhD pela EPGE, a escola de pós-graduação da FGV do Rio, demonstra porque há tempos vem destoando da opinião média de seus colegas liberais.

Afirma, de maneira corajosa contracorrente, que “o que provocou a forte desaceleração da economia brasileira não foi a ‘nova matriz macroeconômica’ adotada pelo governo da presidente Dilma Rousseff. A queda do PIB está relacionada ao menor ritmo de crescimento da economia mundial e, principalmente, a um problema fiscal que, nos anos do governo Lula, foi ‘disfarçado’ pelo aumento constante da arrecadação tributária“.

Curiosamente, ele que não aceitou as tentativas de seu entrevistador (Cristiano Romero) de lhe pautar em defesa das teses neoliberais e acabou fazendo uma abordagem estruturalista mais profunda do que as abordagens conjunturais tanto do meu colega-amigo Pedro Paulo Bastos quanto a do meu ex-ídolo da época (1971-1974) de minha militância em ME (Movimento Estudantil): Chico de Oliveira. O Pedro disse-me que falou também sobre questões estruturais, mas editaram a entrevista.

À frente do IBRE-FGV, Schimura tem procurado ampliar o debate. Em 2013, convidou Nelson Barbosa, atual ministro do Planejamento e representante da escola desenvolvimentista, a trabalhar no IBRE. “Não defino, de forma alguma, o IBRE como um centro do pensamento liberal. O instituto tem, até por tradição, uma corrente liberal muito forte, mas não estamos fechados”, diz nesta entrevista ao Valor.

Confiram nas entrevistas abaixo se as minhas observações estão corretas. Maria Cristina Fernandes (Valor, 07/08/15) entrevistou o Chico de Oliveira para colocar a manchete na primeira página “O PT perdeu a curva da história“. Continuar a ler

Inflação, Juro Real e Salário Real: Rendimento do Capital (r) > Rendimento do Trabalho (g)

IPCA 2003-2017Salário Real 2003-2017Taxas de Juros Nominal e Real 2003-2017Selic Média X Swap de 2 anos 2011-2015O argumento convencional é que a inflação corrói o poder aquisitivo dos salários, provocando queda do salário real, portanto, de acordo com o Regime de Meta Inflacionária, tem de ser combatida com elevação do juro nominal (Selic-meta). No entanto, o crescimento da taxa de inflação diminui o juro real, “obrigando” o COPOM a dar uma overdose de juro nominal benéfica ao rendimento do capital e prejudicial ao emprego do trabalho.

Vale a pena perder o emprego em nome de baixar a inflação para o centro da meta (4,5% aa)?! Vale para o capital…

Diferentemente do diagnóstico monetarista de Milton Friedman para economias inflacionárias, a brasileira não é viciada em “dinheiro farto e barato”. Aqui é “farto, porém caro”!

O “excesso de liquidez” é retido em operações compromissadas, que elevam a dívida pública bruta, com elevadíssima taxa de juros, seja nominal, seja real. Ou ainda, seja este ex-ante, seja ex-post

O juro real ex-ante (Swap futura que configura a expectativa de O Mercado) é relevante para a tomada de decisões financeiras com exame do cenário futuro. O juro real ex-post (média da Taxa Selic nominal deflacionada pelo IPCA) é relevante para a análise da evolução do potencial poder aquisitivo do capital ocorrido no período passado. Continuar a ler

O Enigma das Altas Taxas de Juros no Brasil

Taxa Real de Juros Ex-ante e Taxa Fed 2002-2014Alex Segura-Ubiergo, economista do FMI, escreveu sobre O Enigma das Altas Taxas de Juros no Brasil. O texto abaixo é um pequeno resumo do IMF Working Paper SEGURA-UBIERGO, Alex. The Puzzle of Brasil’s High Interest Rates. IMF wp12.62, comentado brevemente por mim.

As taxas de juros chegaram a um nível historicamente baixo no Brasil, se considerarmos sua tendência histórica. Mas essas taxas ainda são muito altas se comparadas com as de outros países emergentes que, como o Brasil, utilizam o regime de metas de inflação (Figura 1).

Comparação entre taxas de juros reaisExcluindo-se o período de hiperinflação (1988-1994), quando as taxas de juros reais foram extremamente voláteis (o que poderia distorcer a análise), as taxas de juros ex-post (aquelas medidas após se conhecer o valor da inflação no período em que se avalia a taxa de juros) caíram, em média, de aproximadamente 40% ao ano nos anos 1980 para algo como 20% na segunda metade da década de 90, antes da introdução do regime de metas de inflação e da mudança do regime cambial de fixo para flutuante em 1999. As taxas declinaram ainda mais, para 10% ao ano no período 2000-2005, decrescendo para menos de 8% ao ano entre 2006 e 2009, atingindo seu menor nível em toda a série histórica considerada em 2009, ficando um pouco abaixo de 5% ao ano. Esse é um nível bastante baixo para os padrões brasileiros, ainda que esteja em torno de quatro pontos percentuais acima da média dos países emergentes que usam o regime de metas de inflação. Continuar a ler

Operação Compromissada: “Jabuticaba” ou Universal “Preferência por Liquidez”?

Composição da dívida públicaEditorial do Valor (10/06/15) reconhece que o que pregava a maioria de seus colunistas ortodoxos, contraditoriamente, atenta contra a própria estabilidade das Finanças Públicas! A overdose de elevação do juro básico em conjunto com o ajuste fiscal, ao mesmo tempo, não só derruba a demanda agregada, o nível de emprego, o salário real, etc., como também, via realinhamento tarifário em energia e combustível, inflamou a inflação, elevando-a dois pontos percentuais acima do teto da meta. Pior, comprometeu o próprio déficit nominal com a elevação dos encargos financeiros da dívida pública. Nada disso, porém, está fora do script previsto pelos economistas “heterodoxos”… Continuar a ler