Ranking da Taxa de Juro Real face à Inflação Projetada

Eduardo Cucolo (FSP, 21/09/22) informa: o Brasil é o país com a maior taxa real de juros ao ano, descontada a projeção de inflação para os próximos 12 meses, segundo o ranking elaborado pelo portal MoneYou e pela gestora Infinity Asset Management. A lista tem 40 países.

Até fevereiro deste ano, o país estava no topo do ranking, mas foi ultrapassado pela Rússia em março, após o forte aumento de juros no país em meio à Guerra da Ucrânia. Em maio, quando o banco central russo cortou a taxa de 20% para 14% ao ano, o Brasil voltou ao topo da lista.

Esse patamar de juro real é considerado significativamente contracionista para a atividade econômica no Brasil, onde a taxa de equilíbrio é estimada em torno de 4,5%.

No dia 21/09/22, o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central manteve a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano, o que ajuda a consolidar a posição do Brasil.

Continuar a ler

Mais uma Idiotia do Guedes antes do Passa-Fora, Moleque!

O Posto Ipiranga, sem consciência do mal feito a si e aos outros, portanto, um idiota, estuda a criação de uma meta para as reservas internacionais. A ideia não encontra, no entanto, consenso nos escalões técnicos do próprio Ministério da Economia, fonte do vazamento da idiotia.

Elas são um seguro, acumulado desde o governo Lula II, depois de romper a dependência com o FMI. De maneira simplificada, o Tesouro Nacional emite títulos no Brasil e, com a quantia arrecadada, compra principalmente dólares para investir em títulos do Tesouro americano. Segundo os dados do Banco Central (BC), as reservas internacionais do Brasil somavam US$ 339 bilhões em 2 de setembro de 2022. Guedes queimou US$ 27 bilhões!

De acordo com o integrante do governo, o estabelecimento da meta com bandas de flutuação tal como a idiotia de 1995-1998 para taxas de juros, ocorre hoje com a condução da taxa de juros e as metas de inflação. Ele nega a proposta representar uma meta para a própria taxa de câmbio em si, ou seja, adotar novamente o regime de câmbio fixo.

Continuar a ler

Cenário Econômico em 2023

Diego Viana (Valor, 05/08/22) pergunta: é possível desarmar a bomba fiscal?

O ano de 2023 será decisivo para a economia brasileira. A partir de 1o de janeiro, a equipe econômica terá de enfrentar a inflação persistente em cenário de crescimento baixo, com 33 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar. A margem de manobra para a política econômica estará reduzida por um cenário internacional potencialmente adverso e pelo rescaldo das incertezas políticas. Para completar o quadro, haverá ainda as consequências de uma “bomba fiscal” acoplada a iniciativas como as emendas constitucionais que distribuem recursos em ano eleitoral (PEC “das bondades”) ou empurram para frente gastos incontornáveis (PEC “dos precatórios”), além do congelamento de salários do serviço público e o orçamento secreto.

Ferramenta desenhada para controlar as despesas públicas e sinalizar credibilidade para o mercado, o teto de gastos foi contornado tantas vezes que dificilmente poderá ser mantido em sua forma atual. Enquanto isso, o investimento público está em nível tão baixo, e por tanto tempo, que os recursos destinados à infraestrutura não são suficientes nem para repor a depreciação de estradas, portos e ferrovias.

Continuar a ler

Inflação e Transmissão da Política de Juros

Escrevi um relatório de pesquisa com dois grandes objetivos. O primeiro é repensar a atualidade das Teorias de Inflação existentes antes do Plano Real, implementado em 1994. O segundo é entender quais são os critérios de análise do COPOM para a fixação de juros disparatados em relação aos do resto do mundo. Clique para download:

Fernando Nogueira da Costa – Inflação e Transmissão da Política de Juros – junho 2022

Há, na atual equipe econômica, dois típicos Vieses Heurísticos (ou “irracionalidades”).

A diretoria do Banco Central do Brasil pratica o Viés da Ação, ou seja, torna-se ativa mesmo quando de nada adianta. Age como os homo sapiens, no início da evolução humana, quando a atividade compensava face à reflexão. A prudência na espera (ou inação) não valeria nenhum reconhecimento público.

Já a equipe do Ministério da Economia só é notável pelo Viés da Omissão. Como tanto uma omissão quanto uma ação, pensa o prócer dela, não evitaria o retrocesso econômico nacional, de acordo com sua ideologia, ele opta pela omissão.

Para os adeptos do Estado mínimo parece ser mais inofensivo. Um dos mantras ilusionistas do ministro da Economia, cujo único (e irônico) sucesso pode ser medido pelo número de executivos de banquetas e empresas repetindo um lugar-comum: “seu mérito não está naquilo feito, mas sim naquilo deixado de ser malfeito pelo Estado”.

Alimentando esta ilusão neoliberal, o ministro da Economia busca seu apoio entre os idiotas, aqueles sem desconfiar do mal, feito a si e aos outros. Desafia quem duvidava de sua coabitação com o oportunismo das “pedaladas fiscais” eleitoreiras…

Continuar a ler

Reducionismo da Economia às Expectativas

An Experiment on a Bird in an Air Pump by Joseph Wright of Derby, 1768

Expectativas de inflação são cruciais para a determinação da própria inflação. Quando a inflação esperada é muito baixa, os agentes econômicos não se preocupam em reajustar preços e salários por conta da perda de poder aquisitivo da moeda. Mas, à medida que a inflação esperada se eleva, trabalhadores passam a reclamar reajustes salariais e firmas tentam repassar seus custos majorados a preços na tentativa de manter a margem de lucro. É a chamada desancoragem das expectativas inflacionárias, tão temida pelos bancos centrais.

O exemplo mais famoso de desancoragem das expectativas ocorreu nos Estados Unidos durante a década de 60 e 70, na esteira do aumento gradual da inflação na década de 60. Quando, em 1973, o primeiro choque do petróleo se abateu sobre a economia americana, profundamente dependente do petróleo, a inflação disparou. Para reduzi-la, o Fed, sob a batuta de Paul Volcker, teve que gerar penosa recessão, na virada dos anos 80.

A situação fiscal pode complicar ainda mais a difícil tarefa do BC de trazer a inflação de volta à meta

Quando me refiro a este episódio aos meus alunos de graduação, costumo explicar o processo de desancoragem das expectativas de inflação fazendo alusão a uma frase famosa atribuída a Abraham Lincoln: “Pode-se enganar a todos por algum tempo, a alguns por todo o tempo mas não a todos por todo o tempo”.1

Continuar a ler

Canal de Transmissão da Política Monetária

Thiago de Moraes Moreira é consultor em planejamento estratégico e professor do Corecon/RJ, Ibmec/RJ e IE/UFRJ. Publicou artigo (Valor, 15/03/22) sobre canal de transmissão da política monetária.

Um dos temas recorrentes no debate macroeconômico diz respeito aos efeitos que as ações de política monetária provocam sobre o funcionamento da economia, em particular sobre o ritmo de crescimento, geração de empregos e, principalmente, sobre a inflação. Este tema ganhou maior relevância devido à forte expansão dos preços em diversas economias no ano passado, impulsionado no início de 2022 pela explosão nos preços das commodities como consequência da guerra na Ucrânia. Com isso, é crescente a expectativa de elevação das taxas básicas de juros pelos Bancos Centrais ao redor do mundo como resposta à dinâmica inflacionária.

No Brasil, sabemos que, com o mesmo propósito de controle inflacionário, o Banco Central já vem elevando a taxa básica de juros (Selic) desde março do ano passado, que depois de atingir o piso histórico de 2% ao ano em fevereiro de 2021 passou por sucessivos aumentos, e atualmente está 10,75% ao ano, com expectativa de que supere os 12% ao ano até o fim deste ano.

Continuar a ler

Menor Dívida Bruta exige Superávit Primário: Exigência de Tributação de Multinacionais

A inflação elevada de março deve reforçar o cenário de alívio, ao menos temporário, às contas públicas pelo segundo ano seguido. A tendência é que a aceleração da trajetória de preços ajude a diminuir em 2022 a dívida bruta do governo geral, considerada principal indicador de solvência de um país.

Em março, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 1,62%, o mais alto para o mês desde 1994, segundo o IBGE. Em 12 meses, o indicador subiu de 10,54% em fevereiro para 11,3% em março. A projeção mediana e a mais alta do Valor Data eram respectivamente de 10,97% e 11,09%.

A inflação contribui, mas não é determinante, porque está nos dois lados da equação, pois influencia o PIB e a dívida.

No período entre 2014 e 2016, a dívida teve forte alta mesmo com inflação elevada. Uma diferença em relação àquele período foi a implantação do teto de gastos. Ele agravou a estagflação, porque impede o crescimento real das despesas primárias (excluindo gastos com a dívida) da União.

O alinhamento do Brasil ao padrão de preços de transferência da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Economico (OCDE) vai evitar ao país continuar a sofrer perdas de receita de bilhões de reais por ano, afirma Pascal Saint-Amans, diretor do Centro de Política e Administração Fiscal da OCDE, em entrevista a Assis Moreira (Valor,11/04/22).

Continuar a ler

Reducionismo Contumaz da Política Econômica Apenas à Austeridade Fiscal

Mais um simplório diagnóstico de “a situação se deteriorou no governo Dilma, em que a queda nas receitas causou o déficit primário até hoje vigente”. Não periodiza os dois mandatos com a volta da Velha Matriz Neoliberal no segundo, não circunstancia o golpismo com as “pautas-bombas” ter impedido seu governo no segundo mandato, enfim, é apenas mais uma visão misógina. Alexandre Manoel e Lucas Barbosa são, respectivamente, economista-chefe e economista da AZ Quest. Publicaram o artigo (Valor, 08/04/22)

O principal interesse dos investidores no cenário eleitoral é depreender qual o comprometimento dos presidenciáveis com o esforço para a geração de superávit primário. Em 2021, a dívida bruta alcançou 80,3% do PIB, com o governo federal gerando um déficit primário de 0,4% do PIB. Logo, estimamos que o superávit primário necessário para estabilizar a dívida do setor público consolidado (União, Estados, Municípios e suas respectivas estatais) é de aproximadamente 2,5% do PIB.

Nos períodos em que havia geração de superávit primário do setor público consolidado, o governo federal contribuía com aproximadamente 70% do total de superávit. Depreende-se que o esforço requerido para o governo federal tornar a dívida bruta sustentável será de 1,8% do PIB, cerca de R$ 150 bilhões, em controle de despesa e/ou aumento de receitas.

A fim de analisar a viabilidade política desse esforço, analisamos a geração de superávit primário dos últimos sete governos: FHC II (1999-2002), Lula I, Lula II (2003- 2010), Dilma I, Dilma II (2011-2016), Temer (2017-2018) e Bolsonaro (2019-2021). É importante analisar o esforço do presidente, e não do ministro da Fazenda/Economia, pois, em última instância, quem é o responsável pela política fiscal é o presidente. Ministro não é eleito.[?!]

Continuar a ler

Busca da Apreciação da Moeda Nacional: Taxa de Juros – Taxa de Câmbio – Taxa de Inflação – Queda da Taxa de Crescimento do PIB – Taxa de Desemprego

Marcio G. P. Garcia pesquisador visitante na MIT Sloan School of Management, professor titular do Departamento de Economia da PUC-Rio. Publicou artigo (Valor,08/04/22) sobre a correlação causal entre juros e câmbio.

A taxa Selic vem subindo há mais de ano, e o BC anunciou que vai chegar a 12.75% em maio. O mercado financeiro prevê que a Selic acabe 2022 em 13%, caindo gradualmente nos anos seguintes, como mostra o gráfico1. Já o dólar, após manter- se obstinadamente em valores muito altos desde o início da pandemia, vem caindo a partir do final do ano passado. Ninguém discorda de que a alta dos juros foi fator fundamental para a apreciação do real, como prevê a teoria econômica. Estamos voltando, portanto, ao binômio de juro alto e câmbio baixo, que vigorou na maior parte do tempo desde que vencemos a hiperinflação, com o Plano Real, em 1994.

Tal combinação é necessária, conjunturalmente, para acelerar a queda da inflação. O canal do câmbio é dos mais importantes para a política monetária. A questão é se “juro alto e câmbio baixo” vai voltar a ser o “velho normal”.

No período do superboom de commodities, juros muito elevados foram necessários para manter a inflação sob controle. O juro alto ajudou a atrair ainda mais capitais internacionais, apreciando o real e possibilitando a acumulação de reservas internacionais e o virtual fim do problema da dívida externa, que tanto havia machucado a economia na crise de 2002 e nas anteriores. Hoje, quando o Fed começa o aperto monetário, diversas economias emergentes endividadas em moeda estrangeira mostram-se muito vulneráveis. Este problema, pelo menos, não temos mais. O calcanhar de Aquiles de nossa política macroeconômica, a excessiva expansão fiscal, deixou de causar crises externas. Mas permaneceu pressionando a inflação, o que requeria então, e continua requerendo, juros mais altos, além de aumentar a dívida interna.

Continuar a ler

Origens e Destinos das Tributações Federais, Estaduais e Municipais

Eduardo Cucolo (FSP, 02/04/22) publicou didática reportagem sobre a Tributação brasileira. Dados da Receita Federal e do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação) apontam a existência de ao menos 66 tributos em todas as esferas de governo –14 impostos, 35 tipos de contribuição e 17 taxas. O número de cobranças, no entanto, é apenas um dos problemas que tornam o sistema tributário nacional complexo.

Estudo do IBPT mostra que praticamente 1 em cada 5 normas federais surgidas desde a Constituição de 1988 teve como tema a área tributária. Em média, foram quatro normas por dia útil no período relacionadas à tributação.

No momento em que o Congresso faz a última tentativa de aprovar uma reforma tributária ampla na atual gestão, a Folha atualiza o “Mapa dos Tributos” com dados de 2021 (veja a versão de 2019, uma das vencedoras do prêmio de design Malofiej). Foram considerados tributos que respondem por 90% da arrecadação da União, estados e municípios.

Continuar a ler

Pior Equipe Econômica da História do Brasil: ex-Banqueiro de Negócios + Ideólogos Neoliberais de Direita

Rodrigo Zeidan (FSP, 03/04/22) é Professor da New York University Shanghai (China) e da Fundação Dom Cabral. É doutor em economia pela UFRJ. Diagnosticou corretamente a fraude do “Posto Ipiranga” do pior presidente da história brasileira. Só acreditou no “vendedor de terrenos na lua” os ideólogos neoliberais…

Qual o papel de uma equipe econômica? Implementar boas políticas de crescimento e distribuição de renda, aumentar a credibilidade interna e externamente, melhorar o ambiente de negócios e gerenciar expectativas para cultivar investimentos. E, no meio de uma pandemia, salvar a população.

O saldo, que vejo, da equipe econômica de Paulo Guedes é inequívoco. Ele capitaneia a pior equipe econômica da história brasileira, e conseguiu uma façanha que deveria ser impossível: nos fazer ter saudades de Guido Mantega e Zélia Cardoso de Mello.

Os danos da administração de Paulo Guedes, Sachsida, e outros, vão durar décadas. E não é exagero. Pessoas não ressuscitam, desmatamento pode nunca ser revertido, armar a população vai gerar milhares de mortes, fome limita o desenvolvimento humano e perdemos pelo menos 0,5% de PIB potencial por pelo menos dez anos.

Continuar a ler

Estabilizadores Automáticos do PIB

crescimento-da-arrecadacao-fiscal-2020-2021

O debate público entre economistas necessita ser plural e tolerante com eventuais desavenças de pensamento no campo da socialdemocracia ou socialdesenvolvimentismo. Esta é a denominação daquela europeia quando aplicada de maneira adequada à sociedade e à economia brasileira. Os economistas ex-tucanos e os petistas têm de dialogar entre si — e participar de um governo eleito pela maioria do eleitorado brasileiro. Vimos, nos últimos 7 anos, a desgraça de um governo sectária e dogmaticamente neoliberal sem preocupação com política social, inclusive política de emprego.

Nessa direção, é bem vindo ao debate o artigo publicado por Armínio Fraga (FSP, 27/03/22). Ele é sócio-fundador da Gávea Investimentos, presidente dos conselhos do IEPS e do IMDS e ex-presidente do Banco Central do Brasil no governo FHC (1999-2002). Compartilho seu artigo abaixo.

“Um passo importante na direção desejada seria a adoção de um orçamento impositivo, que uma vez aprovado seja executado. De cara daria previsibilidade e mais eficiência à gestão pública. Outra vantagem seria sua característica anticíclica. Vejamos por quê. Em anos de crescimento acima da média, a receita fiscal será maior do que a projetada, com impacto contracionista sobre o saldo primário. Em caso de recessão ocorrerá o oposto, caracterizando a política anticíclica que em geral se tem em mente. Parece razoável que a política social também contenha elementos anticíclicos, como em tese o auxílio desemprego e similares (na prática, não ocorre no Brasil). Tais mecanismos são conhecidos na literatura como estabilizadores automáticos do PIB e seriam uma inovação extremamente bem-vinda em nossas bandas.

Os desafios de implantação são relevantes. Na prática, a política social contém elementos procíclicos que precisam ser corrigidos. Desvinculações exigiriam o uso de alocações plurianuais. Receitas ligadas a commodities teriam de ser tratadas de forma especialmente cuidadosa (fala aqui um carioca). Hábitos políticos arraigados, como reestimativas de receitas e contingenciamentos, teriam que ser coibidos. Tudo tem solução, mas nada é fácil. Não há como evitar um processo de aprendizado, mas as rodinhas da bicicleta têm que ser removidas.

Continuar a ler