Teto dos Gastos: Quanto Pior (Depreciação Cambial e Inflação), Melhor para Cumprir a Regra de Ouro

 

Sérgio Lamucci (Valor, 20/06/18) informa o Ciro Gomes ter defendido a venda de US$ 200 bilhões do total de US$ 381,7 bilhões de reservas do país para abater parte da dívida do governo. É uma proposta polêmica e, portanto, é correta submetê-la ao debate público, para seu esclarecimento aos eleitores, e depois submetê-la, entre outras propostas, ao escrutínio eleitoral. Em um cenário de maior incerteza externa e interna, o elevado volume de recursos em moeda estrangeira é visto como fosse um “seguro” de modo ajudar a proteger a economia brasileira.

O Banco Central do Brasil não vendeu reservas. O que fez foi aumentar a oferta de swaps cambiais, instrumentos que equivalem à venda de dólares no mercado futuro. Desde meados de maio de 2018, a autoridade monetária já colocou quase US$ 40 bilhões de swaps no mercado, elevando o estoque total para US$ 63,4 bilhões. O objetivo é suavizar a volatilidade no câmbio, ao oferecer proteção contra as oscilações da moeda.

Esses instrumentos são liquidados em reais, mas as reservas seguem intocadas. Também durante a crise de 2008 e 2009, o BC não vendeu reservas. Na época, chegou a fazer leilões de linha, em que vende dólares com o compromisso de recomprá-los após um prazo determinado.

Ciro defendeu a ideia de vender US$ 200 bilhões das reservas, uma vez que o Brasil teria reservas em excesso: US$ 180 bilhões seriam suficientes, segundo ele. O montante a ser vendido seria usado para abater 9% da dívida pública. Para ele, o problema do endividamento público não é o volume, mas o perfil. Continue reading “Teto dos Gastos: Quanto Pior (Depreciação Cambial e Inflação), Melhor para Cumprir a Regra de Ouro”

Oh, Mercado, Me Engane Que Eu Gosto! :)

E agora, Mercado?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, Mercado?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, Mercado?

Está sem mulher,
está sem discurso…

Fernando Limongi é professor do DCP/USP e pesquisador do Cebrap. Em sua coluna (Valor, 11/08/18), de maneira sempre lúcida, Limongi adverte: “Não se espere autocrítica dos ortodoxos”.

O governo entrou em sua fase terminal. Com a greve dos caminhoneiros e a saída de Pedro Parente, Temer perdeu a capa de respeitabilidade que ainda o protegia. Velhos aliados aproveitaram a deixa para abandonar o barco e se eximir de responsabilidade pelo desastre.

O governo Temer veio ao mundo amparado por ampla coalizão. A aliança abrigou todos que viam em Dilma e no PT a causa última da crise vivida pelo país. Simplificando, as pastas ministeriais foram entregues a dois grandes grupos. De um lado, os ‘profissionais’, como viria a nomeá-los Moreira Franco e, de outro, o ‘Dream Team‘ capitaneado por Henrique Meirelles.

Romero Jucá, um expoente dos ‘profissionais’, explicou melhor do que ninguém as razões que levaram o grupo a abandonar Dilma: era preciso estancar a sangria, traçar o círculo que dividiria os que já haviam caído nas malhas da Lava Jato dos que ainda poderiam se salvar.

O ‘dream team’ se juntou ao governo para recuperar a economia. Prometeu fazer a ‘lição de casa’ depois de anos de gestão macroeconômica heterodoxa imposta pelo PT. Os ‘fundamentos’ seriam respeitados, reformas implementadas e, liberado das amarras e distorções, o mercado responderia e a atividade econômica seria retomada. A economia voltaria a crescer. Essa foi a promessa feita quando o grupo assumiu as rédeas da economia.

Ao longo de todo o governo Temer, a ortodoxia imposta por Meirelles e sua equipe nunca deixou de contar com a confiança de O Mercado. Mais do que isso, nunca se questionou o acerto do receituário aplicado. Bastaria fazer a lição de casa, respeitar os fundamentos e o Brasil voltaria a crescer. A politica adotada pelo ‘Dream Team’ nunca foi questionada. Continue reading “Oh, Mercado, Me Engane Que Eu Gosto! :)”

Gasto Fiscal: Efeito sobre Demanda Agregada

Sérgio Lamucci (Valor, 02/05/18) informa: a política fiscal do governo federal em 2017 foi levemente contracionista, depois de ter contribuído por cinco anos seguidos para a expansão da demanda, segundo estimativas do economista Gabriel Leal de Barros, diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI). Para o impulso estrutural das contas da União, houve contração de 0,2% do PIB no ano passado.

A mudança já reflete em alguma medida o teto de gastos, mecanismo que entrou em vigor em 2017, limitando o crescimento das despesas do governo à inflação acumulada até junho do ano anterior.

No caso de 2018, o IFI considera que “não é desprezível” a probabilidade de o impulso estrutural voltar a ser positivo, a depender de como o governo use o espaço fiscal que existe pelo lado dos gastos. Em 2017, os descontingenciamentos [desbloqueio de despesas] se deram próximos do fim do ano, e parece não ter havido tempo hábil para executar parte dos gastos. Isso ajuda a explicar a contração ocorrida no ano passado. Em 2016, o impulso havia sido positivo em 1,8% do PIB. Continue reading “Gasto Fiscal: Efeito sobre Demanda Agregada”

Políticos usam economistas como os bêbados usam o poste: mais para apoiar do que para iluminar

Robinson Borges (Valor, 15/05/18), editor de Cultura, publicou um artigo interessante intitulado “Economistas são de Marte, políticos são de Vênus”. Compartilho-o abaixo.

“Uma candidatura à Presidência começa a se desenhar de forma consistente e logo é convocada a associar sua campanha a economistas, de preferência com algum verniz da academia ou do mercado, para ganhar legitimidade e decolar. Com a chegada do vencedor ao poder, é preciso transformar a poesia da campanha em prosa, um processo com certo potencial de colisão entre as esferas econômica e política e que faz ecoar a máxima de Alan Blinder: “Os políticos usam os economistas como os bêbados usam o poste, mais para apoiar do que para iluminar”.

Blinder sabe do que fala. Além de renomado professor em Princeton, é veterano das guerras de poder em Washington, onde foi vice-presidente do Federal Reserve, conselheiro econômico do ex-presidente Bill Clinton e integrante da equipe de campanhas democratas.

Sua questão é: qual o papel da equipe econômica em um governo? Apesar de estarem no centro de muito do que é formulado, os economistas se tornam, quase sempre, coadjuvantes em sua implementação. “Como muitos economistas, pensava que não havia lógica na política. Mas há: é a lógica política”, diz Blinder em conversa com esta coluna. Continue reading “Políticos usam economistas como os bêbados usam o poste: mais para apoiar do que para iluminar”

Queda do Cupom Cambial X Carry Trade

Fórmula do cupom cambial: (i – i*) – ê = 0, onde i é o juro doméstico, i* o juro externo, e ê a taxa de câmbio esperada. A paridade entre esses juros afeta a expectativa dos especuladores em relação à cotação futura do dólar em moeda nacional.

José de Castro (Valor, 17/04/18) informa que o recuo a mínimas históricas do diferencial de juros entre o Brasil e o mundo tem provocado mudanças estruturais na dinâmica do mercado de câmbio doméstico. O real tem sentido com mais intensidade momentos de aversão a risco, já que não conta da mesma forma que antes com o “escudo” dos juros altos.

A moeda brasileira tem operado persistentemente abaixo do que alguns acreditam ser seu valor de equilíbrio com base em fundamentos. Mas mesmo esse conceito começa a ser questionado, uma vez que parte do mercado considera que a nova realidade de juro baixo enfraquece desde já o nível “correto” para o câmbio, justificando a depreciação aprofundada recentemente.

O real tem operado nos menores patamares em cerca de dois anos frente a seus principais pares. Não por acaso, é período que coincide com a queda da taxa Selic a níveis nunca antes testados.

Em janeiro de 2017, o diferencial entre as taxas básicas de juros de Brasil e Estados Unidos estava em 12,5 pontos percentuais. Hoje, é menos da metade (5 pontos). Apesar de o país ainda ostentar bons fundamentos — na forma de grande volume de reservas internacionais, baixo déficit em conta corrente e perspectiva de retomada econômica [?!] –, a diminuição do chamado “carry“, ou seja, o ganho com a arbitragem de juros, entra como um fator a enfraquecer o câmbio e explica previsões de um dólar estruturalmente mais alto daqui para a frente. Continue reading “Queda do Cupom Cambial X Carry Trade”

Queda do Cupom Cambial: Assustar Lá, Temer Aqui

Alex Ribeiro, Lucinda Pinto, Lucas Hirata, José de Castro e Sérgio Tauhata (Valor, 23/03/18) mostram que a diferença entre os juros básicos nos Estados Unidos e no Brasil, que já era a menor da história do regime de metas de inflação, estreitou-se ainda mais depois que o Banco Central cortou a meta para a taxa Selic para 6,5% ao ano e o Federal Reserve (Fed, o BC americano) subiu a sua taxa básica para a faixa entre 1,5% e 1,75% ao ano.

Os altos juros vigentes no país sempre foram um dos fatores apontados por exportadores como os que levam a uma valorização do câmbio, que prejudica o embarque de produtos ao exterior. A teoria econômica diz que, quando a diferença de juros interno e externo se reduz, a taxa de câmbio deveria se desvalorizar. Mas a cotação do dólar tem apresentado movimentos que têm pouca relação com os juros. Atualmente, a moeda americana gira em torno de R$ 3,30, em meio ao receio de guerra de comércio global.

“O diferencial de juros é apenas um componente que influencia a taxa de câmbio”, diz o economista José Júlio Senna, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV. “Deve-se olhar outros fatores, como a diferença de crescimento entre as economias, as condições econômicas mais gerais e o estado de espírito dos investidores para assumir riscos.”

Esses são os cinco fatores determinantes da taxa de câmbio — três fundamentos macroeconômicos, a especulação no mercado de câmbio futuro, e a regulação pela Autoridade Monetária:

  1. paridade entre a taxa de juros interna e a externa;
  2. saldo do balanço de transações correntes;
  3. paridade do poder de compra interno e externo;
  4. posicionamento predominantemente “comprado” ou “vendido” no mercado futuro de câmbio;
  5. política cambial.

Hoje, a diferença entre os juros de Brasil e Estados Unidos é de 4,75 pontos percentuais, menor do que os 5,25 pontos que havia antes de o Fed subir os juros e o BCB cortá-los. Essa diferença já era a menor da história do regime de metas. A segunda menor foi observada em setembro de 2007, quando a diferença chegou a 6 pontos percentuais por alguns dias. Naquela época, porém, o nível de juros em ambos países era mais alto que hoje. No Brasil, estava em 11,25% ao ano, e nos Estados Unidos chegou a 6,25% ao ano. Continue reading “Queda do Cupom Cambial: Assustar Lá, Temer Aqui”

BCB, Ascensorista Maluco: Selic Desce, Juros Sobe

Eduardo Campos e Alex Ribeiro (Valor, 27/03/18) informam que, pelo segundo mês consecutivo, as taxas de juros cobradas pelos bancos subiram para famílias e empresas, movimento em descompasso com o atual ciclo de reduções que levou a Selic a nova mínima histórica, de 6,5% ao ano.

A taxa de juros com recursos livres subiu 1,1 ponto percentual, para 42,2% ao ano em fevereiro, segundo dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC). No bimestre, a alta foi de 1,9 ponto. Para pessoas físicas, a taxa média foi de 57,7% ao ano no mês passado, avançando de 55,8% em janeiro.

A alta dos juros reflete o aumento dos spreads, diferença entre o custo do dinheiro para o banco e para o tomador final. No crédito livre, o spread médio teve alta de 1,2 ponto em fevereiro, para 34,1 pontos percentuais. Há um ano, esse spread estava em 42,4 pontos. Considerando apenas as operações com pessoas físicas, o spread fechou o mês em 49,2 pontos. Já a taxa de captação dos bancos caiu a 8,1% ao ano em fevereiro, sendo de 8,5% para pessoas físicas e 7,6% para empresas. Em fevereiro de 2017, esse custo era de 10,6 pontos.

Os bancos costumam ter uma postura muito cautelosa em um cenário de incertezas pela frente e, de certa forma, era até esperado que aumentassem o spread. Poucos esperam que os bancos deem o primeiro passo para um novo ciclo de expansão do crédito e a tendência é de as instituições preferirem manter o preço do crédito alto para inibir a demanda e selecionar as concessões.

Qual é a credibilidade desse falso discurso apologético (e “chapa-branca”) da “recuperação”?! Bancos demonstram que não são bestas para acreditarem nele… Continue reading “BCB, Ascensorista Maluco: Selic Desce, Juros Sobe”