Queda da Propensão a Consumir com o Corte dos Juros

Tenho alertado para a assimetria da política monetária. Economistas formados na Econofísica Newtoniana tem dificuldade de “pensar fora-da-caixa”, isto é, indo além de mecanismo pendular simétrico. Acham por a política monetária ser uma arma terrível para derrubar a economia, ela teria força também para levantá-la. Ledo engano conhecido como “a corda não empurra o touro laçado se ele investir contra você“.

Pior, com a ameaça concretizada de corte de direitos trabalhistas na Reforma da Previdência e o menor juros, a faixa dos 10% com os maiores rendimentos (43% do total) cortarão a propensão a consumir para investir maior parcela de rendimentos disponíveis no mercado e acumular reservas para executar o planejamento financeiro da aposentadoria: manter o padrão de vida. Em geral, são os diplomados em Ensino Superior e, portanto, com rendimentos acima do teto do INSS: R$ 5.840.

Em outras palavras, o juro básico caiu e, paradoxalmente, o consumo referente à quase metade da massa salarial cairá! E a detentora da outra metade está bastante endividada… Além disso, a ampliação do spread bancário pela inadimplência não leva ao repasse da baixa Selic para as taxas de empréstimos.

Qual é o maior propósito de baixar os juros? Diminuir os custos dos encargos financeiros do setor público e do setor privado, em processo de desalavancagem financeira. Grandes empresas não-financeiras captam então debêntures em % de CDI mais baixo e se refinanciam, pagando os empréstimos bancários anteriores e alongando o perfil do endividamento com títulos de dívida direta.

Outro “detalhe” importante: com a queda dos encargos financeiros do endividamento público, abre-se espaço para elevar o investimento público da União. Com a Era dos Juros Baixos, o gasto público deve tomar a iniciativa de substituir o gasto privado com expectativas negativas e retomar o crescimento da renda e do emprego.

Fernanda Guardado é economista, doutoranda em Economia pela PUC-Rio e colaboradora do IEPE/Casa das Garças. Publicou artigo (Valor, 06/08/19) com ideia similar. Reproduzo-o. Continuar a ler

Mercado de Câmbio: menor Demanda por Hedge Cambial e falta de dólares no Mercado à Vista

Marcelo Osakabe e Lucas Hirata (Valor, 17/07/19) avaliam: o cenário futuro para o Brasil, quando se espera haver menor demanda por hedge cambial ao mesmo tempo quando faltam dólares no mercado à vista, abre uma oportunidade para o Banco Central realizar ajustes em sua política de intervenções no câmbio. Uma possibilidade defendida por profissionais do mercado é a substituição do estoque de swaps cambiais por reservas.

Com a estratégia, o BC faria uma espécie de troca:

  • de um lado, venderia reservas cambiais no mercado à vista, provendo liquidez, e,
  • de outro, reduziria o estoque de um instrumento cujo custo de carregamento aos participantes de mercado tem sido crescente.

O impacto do ponto de vista de risco cambial é zero: o swap já representa, de certa forma, uma venda de dólares e a troca por reservas provê liquidez no mercado à vista, onde hoje há efetiva falta de moeda.

Atualmente, o BC mantém US$ 398,4 bilhões em reservas em moeda estrangeira, consideradas um seguro contra momentos de instabilidade no Brasil e no exterior. Já o estoque de swaps está em cerca de US$ 68,9 bilhões, dos quais US$ 11,5 bilhões vencem em outubro de 2019. A diferença entre ambos pode ser descrita como a posição líquida do BC contra a volatilidade da moeda. Continuar a ler

Mitificação da Meta de Inflação

O regime de meta de inflação foi um avanço em relação à baboseira monetarista de seguir uma inexequível programação monetária, ou seja, estimular uma meta na oferta de moeda e, daí, achar atingir um controle da inflação via controle monetário geral. Substituiu o instrumento (meio) para atingir o mesmo objetivo (fim): prioridade total ao combate à inflação e não à retomada do crescimento, embora o contexto da economia brasileira (e mundial) tenha se alterado inteiramente, com a inflação deixando de ser o problema maior.

Mas, enfim, para mentes com apenas “2 neurônio” (sem S), é fácil entender a mecânica de gangorra: se subir a taxa de inflação, em seguida sobe mais a taxa de juros. Só.

Alex Ribeiro (Valor, 21/06/19) tenta analisar se há “ciência” nessa política monetária tosca sem nenhuma sofisticação.

Nas idas e vindas para escolher as metas de inflação nos últimos 20 anos, o Conselho Monetário Nacional (CMN) nunca se utilizou de estudos técnicos mais aprofundados para embasar as suas decisões, mostram os votos inéditos apreciados pelo colegiado, solicitados pelo Valor.

O principal argumento para reduzir as metas de inflação, ao longo do tempo, foi a convergência para os padrões adotados por economias emergentes como México e Chile. Em geral, quem ficou contra baixar o objetivo citou razões conjunturais, como altas internacionais de preços de commodities. Continuar a ler

Resolução do Problema da Dívida Bruta: Trocar Operações Compromissadas por Depósitos Voluntários dos Bancos no BCB

A redução na alíquota de recolhimento compulsório sobre recursos a prazo, de 33% para 31%, anunciada na última semana de junho de 2019 pelo Banco Central, é positiva para os ratings dos bancos brasileiros, segundo a Moody’s. A agência diz a mudança permitir os bancos alocarem os R$ 16 bilhões liberados de maneira mais eficiente, beneficiando as margens. Embora a originação de novos empréstimos continue crescendo pouco desde o fim de 2017, puxada pelos bancos privados, a demanda por crédito segue fraca.

Essa é a segunda redução de depósito compulsório anunciada pelo BC este ano, o que levou o estoque total para R$ 409 bilhões. O estoque atual representa quase 21% dos depósitos totais do sistema. Comparado com outros países, o Brasil impõe um dos maiores níveis de compulsórios.

Por exemplo, a taxa de recolhimento compulsório para depósitos a prazo:

  • na China, é 13,50%;
  • na Turquia, de 7%;
  • em Rússia e Peru, de 5%;
  • nos EUA, de 3%;
  • na África do Sul, de 2,50%; e
  • na zona do euro, de apenas 1,00%.

Na avaliação da Moody’s, a liberação dos compulsórios não representa uma injeção substancial de liquidez no sistema financeiro. Na realidade, os bancos já possuem atualmente bastante espaço em seus balanços para reforçar o crédito, falta é demanda de crédito! Oferta de crédito é igual à de luz elétrica: só ocorre sob demanda! Continuar a ler

Estado Mínimo: Erro do Ajuste Fiscal em Plena Recessão

Fábio Pupo (Valor, 22/05/19) informa: a União encerrou o primeiro trimestre registrando o menor patamar de investimentos em pelo menos 13 anos. O valor de R$ 6,2 bilhões de janeiro a março corresponde a 0,35% do Produto Interno Bruto (PIB), percentual mais baixo para o período em toda a série histórica (com início em 2007). A queda é resultado da contenção de despesas do governo em meio à dificuldade de cumprir a meta fiscal do ano. O contingenciamento de recursos deve agravar o cenário.

Os números foram calculados com base nos mais recentes dados de investimento divulgados pelo Tesouro Nacional e pelos dados preliminares do PIB do Banco Central (BC). O indicador mostra a magnitude do corte de despesas promovido pelo Executivo federal nos últimos anos e, mais intensamente, nos últimos meses.

O percentual representa menos de um quarto do registrado no primeiro trimestre de 2014, ápice da série histórica para o período. O valor era de R$ 27,4 bilhões (considerando números atualizados), ou 1,48% do PIB no fim do período social-desenvolvimentista. Continuar a ler

Esgotamento do Neoliberalismo, Necessário Retomar o Social-desenvolvimentismo!

Thais Carrança (Valor, 02/05/19) afirma: ao atual ritmo de crescimento, a economia brasileira só voltará ao nível anterior à recessão no terceiro trimestre de 2023, quase uma década depois do início da crise, no segundo trimestre de 2014. Com a trajetória de crescimento um pouco mais otimista esperada pelo mercado para este e os próximos anos, a recuperação aconteceria no quarto trimestre de 2020, após quase sete anos.

Mesmo nessa hipótese mais otimista, será a recuperação mais lenta desde quando os ciclos econômicos começaram a ser datados, segundo estimativas dos economistas Gilberto Borça Jr., Ricardo de Menezes Barboza e Mauricio Furtado, em estudo divulgado pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômico da Fundação Getulio Vargas (Codace).

Comparando a recessão mais recente às outras oito enfrentadas pelo país desde a década de 1980, os analistas avaliam a crise atual ter como particularidades a queda contínua do Produto Interno Bruto (PIB) por quase três anos e uma lentidão na recuperação sem precedentes. Em relação às recessões na periferia da zona do euro após a crise financeira de 2008, a depressão brasileira recente é comparável às crises de Portugal, Itália e Espanha, mas menor do que a da Grécia, constatam os economistas.

Em média, as recessões brasileiras são relativamente rápidas, duram cerca de quatro trimestres, e a recuperação é relativamente breve e ocorre de maneira linear. A recessão atual, além de ser muito profunda, está durando muito: passados quase cinco anos, a economia brasileira ainda está muito abaixo do pico pré-recessão. Continuar a ler

Assimetria da Política Monetária: Juros Altos derrubam Economia, Juros Baixos não expandem Economia

Martin Wolf é editor e principal analista econômico do FT. Publicou artigo (FT, 13/03/19) sobre o esgotamento da política monetária.

“Por que as taxas de juros estão tão baixas?

Será que a hipótese da “estagnação secular” ajuda a explicar isso?

Qual é a implicação de taxas de juros tão baixas sobre a provável eficácia da política monetária durante uma nova recessão?

Que outras políticas poderiam ser necessárias experimentar, como alternativa à política monetária ou como uma maneira de elevar sua eficácia?

Essas são as perguntas de macroeconomia mais importantes. São também muito polêmicas.

Recente estudo de Lukasz Rachel e Lawrence Summers joga luz sobre essas interrogações. Seu ponto principal é respaldar e desenvolver a hipótese da “estagnação secular”, revitalizada pelo professor Summers em 2015 como relevante para a nossa era. A mais relevante inovação desse estudo é tratar as grandes economias avançadas como um bloco único. Seguem- se quatro de suas conclusões. Continuar a ler