Inflação em 2022

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no ano passado fechou com uma inflação de 5,8%, ante uma expectativa mediana do mercado de 5,6%. Não fossem as desonerações promovidas em meio à corrida eleitoral, principalmente na gasolina, esse número poderia ter ficado mais perto de 8% a 9%, estimam economistas.

Na avaliação dos especialistas, 5,8% ainda é uma inflação elevada, embora represente desaceleração significativa ante os 10,1% de 2021 e o pico de 12,13% alcançado no acumulado em 12 meses até abril. A meta para 2022 era de 3,5%, com tolerância de até 5%.

Os últimos meses do ano passado foram de desaceleração da alta acumulada em 12 meses pelo IPCA. Ela permaneceu em dois dígitos de setembro de 2021 (10,25%) a julho de 2022 (10,07%). A projeção para o ano chegou a ser bem maior do que o de fato observado, mas cedeu, principalmente, depois de Bolsonaro reduzir e/ou zerar impostos sobre itens de peso na cesta.

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Regras versus Discrição: Debate entre Manietar ou Arbitrar


01 de janeiro de 2003 – Por Jason J Buol, Mark D Vaughan: https://www.stlouisfed.org/publications/regional-economist/january-2003/rules-vs-discretion-the-wrong-choice-could-open-the-floodgates

Os formuladores de políticas não querem que as pessoas construam casas em várzeas. Para desencorajar esse tipo de construção, eles anunciam que qualquer pessoa que sofra danos causados pelas enchentes está por conta própria — nenhum socorro em caso de desastre será fornecido. As pessoas ignoram esses avisos e constroem de qualquer maneira. Aí vem a chuva, a água sobe e as casas alagam.

A mídia traz imagens de partir o coração de telhados saindo de correntes turbulentas. Após um clamor público, os formuladores de políticas anunciam um resgate – 100% de compensação pelos danos causados pelas enchentes.

Este resultado oferece o pior dos dois mundos – as casas são destruídas pelas enchentes e as vítimas que ignoraram os avisos são indenizadas com os fundos dos contribuintes. Depois que a água da enchente baixou e as verificações de desastres foram encerradas, o ciclo recomeça. Como os formuladores de políticas podem evitar essa armadilha?

Os economistas Finn Kydland e Edward Prescott foram os primeiros a oferecer uma saída.1 Em um artigo clássico de 1977, eles introduziram uma distinção entre políticas inconsistentes e consistentes com o tempo.

Uma política inconsistente com o tempo pode deixar o público feliz no curto prazo, mas acabará falhando em produzir o objetivo da política de longo prazo. Uma política consistente com o tempo, em contraste, atinge o objetivo político de longo prazo, mas não torna as pessoas infelizes no curto prazo.

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André Lara Resende: Sobre Juros

Os Juros, outra vez! _ Opinião _ Valor Econômico (26/12/22). André Lara Resende defende: despesas autorizadas pela PEC vão para os mais pobres e o serviço da dívida, para o sistema financeiro.

Richard Feynman, laureado com o Nobel de física, gênio inconteste, considerado um dos maiores professores de todos os tempos, tinha, como todo iconoclasta, outros interesses além da física – era percussionista. Quando veio ao Brasil, no início dos anos 1950, dar aulas para um seleto grupo de alunos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, costumava se infiltrar nos ensaios da bateria de uma escola de samba.

Como conta em “Sure You’re Joking, Mr Feynman”, costumava atravessar o ritmo, o que levava o diretor da bateria a interromper e exclamar: o americano, outra vez! Pois bem, peço emprestada a exclamação do diretor da bateria: os juros, outra vez, ameaçam a retomada do desenvolvimento.

O tema é árido, sei bem, mas da mais alta relevância. Insisto em tentar despi-lo da roupagem tecnocrática que o torna inacessível. Sejamos o mais simples e direto possível. Vamos aos fatos. Desde o início de 2021, o Banco Central elevou a taxa básica de juros de 2,75% para 13,75% hoje. São 11 pontos de percentagem.

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Balanço da gestão Bolsonaro: Superávit fiscal chega com paralisação do governo

O governo do presidente Jair Bolsonaro vai chegando ao fim com dívida pública ligeiramente menor do que a do início do mandato e mais dinheiro entrando em caixa, mesmo depois da pandemia e da Guerra da Ucrânia. Mas a falta de recursos para os mais diversos serviços públicos neste fim de ano e o esfacelamento do teto de gastos indicam que os objetivos traçados ainda em 2018 pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, não foram alcançados. Com essa reportagem, o Valor inicia uma série especial de balanços sobre o governo de Jair Bolsonaro.

“É inegável ter havido melhora nos indicadores fiscais tradicionais. Mas o diabo mora nos detalhes”, diz Julia Braga, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Quando Bolsonaro foi eleito, em 2018, Guedes afirmou, por exemplo, que era “factível” zerar o déficit primário ainda em 2019. O resultado primário é a diferença entre receitas e despesas, excluindo os gastos com a dívida, e representa a principal medida de fluxo das contas públicas. O que se concretizou foi déficit de R$ 116 bilhões no primeiro ano do mandato de Bolsonaro.

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Ranking da Taxa de Juro Real face à Inflação Projetada

Eduardo Cucolo (FSP, 21/09/22) informa: o Brasil é o país com a maior taxa real de juros ao ano, descontada a projeção de inflação para os próximos 12 meses, segundo o ranking elaborado pelo portal MoneYou e pela gestora Infinity Asset Management. A lista tem 40 países.

Até fevereiro deste ano, o país estava no topo do ranking, mas foi ultrapassado pela Rússia em março, após o forte aumento de juros no país em meio à Guerra da Ucrânia. Em maio, quando o banco central russo cortou a taxa de 20% para 14% ao ano, o Brasil voltou ao topo da lista.

Esse patamar de juro real é considerado significativamente contracionista para a atividade econômica no Brasil, onde a taxa de equilíbrio é estimada em torno de 4,5%.

No dia 21/09/22, o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central manteve a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano, o que ajuda a consolidar a posição do Brasil.

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Mais uma Idiotia do Guedes antes do Passa-Fora, Moleque!

O Posto Ipiranga, sem consciência do mal feito a si e aos outros, portanto, um idiota, estuda a criação de uma meta para as reservas internacionais. A ideia não encontra, no entanto, consenso nos escalões técnicos do próprio Ministério da Economia, fonte do vazamento da idiotia.

Elas são um seguro, acumulado desde o governo Lula II, depois de romper a dependência com o FMI. De maneira simplificada, o Tesouro Nacional emite títulos no Brasil e, com a quantia arrecadada, compra principalmente dólares para investir em títulos do Tesouro americano. Segundo os dados do Banco Central (BC), as reservas internacionais do Brasil somavam US$ 339 bilhões em 2 de setembro de 2022. Guedes queimou US$ 27 bilhões!

De acordo com o integrante do governo, o estabelecimento da meta com bandas de flutuação tal como a idiotia de 1995-1998 para taxas de juros, ocorre hoje com a condução da taxa de juros e as metas de inflação. Ele nega a proposta representar uma meta para a própria taxa de câmbio em si, ou seja, adotar novamente o regime de câmbio fixo.

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Cenário Econômico em 2023

Diego Viana (Valor, 05/08/22) pergunta: é possível desarmar a bomba fiscal?

O ano de 2023 será decisivo para a economia brasileira. A partir de 1o de janeiro, a equipe econômica terá de enfrentar a inflação persistente em cenário de crescimento baixo, com 33 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar. A margem de manobra para a política econômica estará reduzida por um cenário internacional potencialmente adverso e pelo rescaldo das incertezas políticas. Para completar o quadro, haverá ainda as consequências de uma “bomba fiscal” acoplada a iniciativas como as emendas constitucionais que distribuem recursos em ano eleitoral (PEC “das bondades”) ou empurram para frente gastos incontornáveis (PEC “dos precatórios”), além do congelamento de salários do serviço público e o orçamento secreto.

Ferramenta desenhada para controlar as despesas públicas e sinalizar credibilidade para o mercado, o teto de gastos foi contornado tantas vezes que dificilmente poderá ser mantido em sua forma atual. Enquanto isso, o investimento público está em nível tão baixo, e por tanto tempo, que os recursos destinados à infraestrutura não são suficientes nem para repor a depreciação de estradas, portos e ferrovias.

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Inflação e Transmissão da Política de Juros

Escrevi um relatório de pesquisa com dois grandes objetivos. O primeiro é repensar a atualidade das Teorias de Inflação existentes antes do Plano Real, implementado em 1994. O segundo é entender quais são os critérios de análise do COPOM para a fixação de juros disparatados em relação aos do resto do mundo. Clique para download:

Fernando Nogueira da Costa – Inflação e Transmissão da Política de Juros – junho 2022

Há, na atual equipe econômica, dois típicos Vieses Heurísticos (ou “irracionalidades”).

A diretoria do Banco Central do Brasil pratica o Viés da Ação, ou seja, torna-se ativa mesmo quando de nada adianta. Age como os homo sapiens, no início da evolução humana, quando a atividade compensava face à reflexão. A prudência na espera (ou inação) não valeria nenhum reconhecimento público.

Já a equipe do Ministério da Economia só é notável pelo Viés da Omissão. Como tanto uma omissão quanto uma ação, pensa o prócer dela, não evitaria o retrocesso econômico nacional, de acordo com sua ideologia, ele opta pela omissão.

Para os adeptos do Estado mínimo parece ser mais inofensivo. Um dos mantras ilusionistas do ministro da Economia, cujo único (e irônico) sucesso pode ser medido pelo número de executivos de banquetas e empresas repetindo um lugar-comum: “seu mérito não está naquilo feito, mas sim naquilo deixado de ser malfeito pelo Estado”.

Alimentando esta ilusão neoliberal, o ministro da Economia busca seu apoio entre os idiotas, aqueles sem desconfiar do mal, feito a si e aos outros. Desafia quem duvidava de sua coabitação com o oportunismo das “pedaladas fiscais” eleitoreiras…

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Reducionismo da Economia às Expectativas

An Experiment on a Bird in an Air Pump by Joseph Wright of Derby, 1768

Expectativas de inflação são cruciais para a determinação da própria inflação. Quando a inflação esperada é muito baixa, os agentes econômicos não se preocupam em reajustar preços e salários por conta da perda de poder aquisitivo da moeda. Mas, à medida que a inflação esperada se eleva, trabalhadores passam a reclamar reajustes salariais e firmas tentam repassar seus custos majorados a preços na tentativa de manter a margem de lucro. É a chamada desancoragem das expectativas inflacionárias, tão temida pelos bancos centrais.

O exemplo mais famoso de desancoragem das expectativas ocorreu nos Estados Unidos durante a década de 60 e 70, na esteira do aumento gradual da inflação na década de 60. Quando, em 1973, o primeiro choque do petróleo se abateu sobre a economia americana, profundamente dependente do petróleo, a inflação disparou. Para reduzi-la, o Fed, sob a batuta de Paul Volcker, teve que gerar penosa recessão, na virada dos anos 80.

A situação fiscal pode complicar ainda mais a difícil tarefa do BC de trazer a inflação de volta à meta

Quando me refiro a este episódio aos meus alunos de graduação, costumo explicar o processo de desancoragem das expectativas de inflação fazendo alusão a uma frase famosa atribuída a Abraham Lincoln: “Pode-se enganar a todos por algum tempo, a alguns por todo o tempo mas não a todos por todo o tempo”.1

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Canal de Transmissão da Política Monetária

Thiago de Moraes Moreira é consultor em planejamento estratégico e professor do Corecon/RJ, Ibmec/RJ e IE/UFRJ. Publicou artigo (Valor, 15/03/22) sobre canal de transmissão da política monetária.

Um dos temas recorrentes no debate macroeconômico diz respeito aos efeitos que as ações de política monetária provocam sobre o funcionamento da economia, em particular sobre o ritmo de crescimento, geração de empregos e, principalmente, sobre a inflação. Este tema ganhou maior relevância devido à forte expansão dos preços em diversas economias no ano passado, impulsionado no início de 2022 pela explosão nos preços das commodities como consequência da guerra na Ucrânia. Com isso, é crescente a expectativa de elevação das taxas básicas de juros pelos Bancos Centrais ao redor do mundo como resposta à dinâmica inflacionária.

No Brasil, sabemos que, com o mesmo propósito de controle inflacionário, o Banco Central já vem elevando a taxa básica de juros (Selic) desde março do ano passado, que depois de atingir o piso histórico de 2% ao ano em fevereiro de 2021 passou por sucessivos aumentos, e atualmente está 10,75% ao ano, com expectativa de que supere os 12% ao ano até o fim deste ano.

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Menor Dívida Bruta exige Superávit Primário: Exigência de Tributação de Multinacionais

A inflação elevada de março deve reforçar o cenário de alívio, ao menos temporário, às contas públicas pelo segundo ano seguido. A tendência é que a aceleração da trajetória de preços ajude a diminuir em 2022 a dívida bruta do governo geral, considerada principal indicador de solvência de um país.

Em março, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 1,62%, o mais alto para o mês desde 1994, segundo o IBGE. Em 12 meses, o indicador subiu de 10,54% em fevereiro para 11,3% em março. A projeção mediana e a mais alta do Valor Data eram respectivamente de 10,97% e 11,09%.

A inflação contribui, mas não é determinante, porque está nos dois lados da equação, pois influencia o PIB e a dívida.

No período entre 2014 e 2016, a dívida teve forte alta mesmo com inflação elevada. Uma diferença em relação àquele período foi a implantação do teto de gastos. Ele agravou a estagflação, porque impede o crescimento real das despesas primárias (excluindo gastos com a dívida) da União.

O alinhamento do Brasil ao padrão de preços de transferência da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Economico (OCDE) vai evitar ao país continuar a sofrer perdas de receita de bilhões de reais por ano, afirma Pascal Saint-Amans, diretor do Centro de Política e Administração Fiscal da OCDE, em entrevista a Assis Moreira (Valor,11/04/22).

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Reducionismo Contumaz da Política Econômica Apenas à Austeridade Fiscal

Mais um simplório diagnóstico de “a situação se deteriorou no governo Dilma, em que a queda nas receitas causou o déficit primário até hoje vigente”. Não periodiza os dois mandatos com a volta da Velha Matriz Neoliberal no segundo, não circunstancia o golpismo com as “pautas-bombas” ter impedido seu governo no segundo mandato, enfim, é apenas mais uma visão misógina. Alexandre Manoel e Lucas Barbosa são, respectivamente, economista-chefe e economista da AZ Quest. Publicaram o artigo (Valor, 08/04/22)

O principal interesse dos investidores no cenário eleitoral é depreender qual o comprometimento dos presidenciáveis com o esforço para a geração de superávit primário. Em 2021, a dívida bruta alcançou 80,3% do PIB, com o governo federal gerando um déficit primário de 0,4% do PIB. Logo, estimamos que o superávit primário necessário para estabilizar a dívida do setor público consolidado (União, Estados, Municípios e suas respectivas estatais) é de aproximadamente 2,5% do PIB.

Nos períodos em que havia geração de superávit primário do setor público consolidado, o governo federal contribuía com aproximadamente 70% do total de superávit. Depreende-se que o esforço requerido para o governo federal tornar a dívida bruta sustentável será de 1,8% do PIB, cerca de R$ 150 bilhões, em controle de despesa e/ou aumento de receitas.

A fim de analisar a viabilidade política desse esforço, analisamos a geração de superávit primário dos últimos sete governos: FHC II (1999-2002), Lula I, Lula II (2003- 2010), Dilma I, Dilma II (2011-2016), Temer (2017-2018) e Bolsonaro (2019-2021). É importante analisar o esforço do presidente, e não do ministro da Fazenda/Economia, pois, em última instância, quem é o responsável pela política fiscal é o presidente. Ministro não é eleito.[?!]

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