Desgoverno: Nem Estudo, Nem Trabalho, Nem Aposentadoria

A faixa etária adolescente de 14 a 17 anos representa 8,3% da força de trabalho de 105,250 milhões de pessoas. Nela há 44,5% de desocupação. Se ela estuda, está fora da força de trabalho (População Não Economicamente Ativa), não? Está incluída na taxa de desocupação dela somente quem não estuda e nem trabalha? Estou em dúvida.

Dois anos de recessão, desde a volta da Velha Matriz Neoliberal, com a consequente crise no mercado de trabalho — a subutilização da força de trabalho quase dobrou do fim de 2014 (15,3 milhões pessoas) para o início de 2019 (28,3 milhões) –, fizeram crescer rapidamente o número de homens de 50 a 69 anos de idade no país sem ocupação: não trabalham nem procuram emprego, mesmo sem receber aposentadoria ou pensão.

O total de pessoas nessas condições estava em 1,843 milhão em 2017, 11% acima do ano anterior (189 mil pessoas a mais). O contingente representava 9,6% dos homens dessa faixa etária.

Esse fenômeno foi inicialmente identificado por um estudo das pesquisadoras Ana Amélia Camarano e Daniele Fernandes, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Elas observam há anos a tendência desse grupo, batizado de “nem nem maduros“.

Os homens neste perfil “nem nem” representavam:

  • 4,2% da faixa etária em 1992;
  • 6,2% em 2005;
  • 8,3% em 2015;
  • 9,6% em 2017. Continuar a ler

Contra os Cortes do Orçamento para o Censo Demográfico 2020

Nota da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE) e Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR):

Diante das últimas notícias do corte de 25% do orçamento previsto para a realização do Censo Demográfico 2020, as associações científicas AGB, ANPEGE e ANPUR vêm a público manifestar sua preocupação com os impactos que tais remodelações podem significar para o mais abrangente e rigoroso levantamento populacional do país.

Cabe destacar que o Censo Demográfico não só é o mais completo levantamento de informações sobre as características da população brasileira, como é também a única oportunidade de realizar um retrato detalhado e global das suas condições de vida, através de recortes geográficos detalhados e adequados às necessidades dos 5568 municípios brasileiros.

A proposta de redução da amostra causa enorme preocupação, tendo em vista a importância da divulgação dos dados mais aprofundados através das áreas de ponderação. Trata-se de informações imprescindíveis para que as prefeituras tenham referências confiáveis para o planejamento, a execução das políticas de nível local e para a tomada de decisão por parte dos gestores municipais, o que é fundamental para o exercício das competências constitucionais dos municípios. Continuar a ler

Desocupação no fim de 2014: 6,5%; em fevereiro de 2019: 12,4%

Quadro 1 – Taxa de Desocupação – Brasil – 2012/2019

Os críticos idiotas (sem consciência do mal feito a si e aos outros) da chamada “Nova Matriz Macroeconômica” a condenam sem reconhecer a queda da taxa de desocupação, no Brasil em plena crise mundial, depois de 2008 (explosão da bolha imobiliária nos EUA) e setembro de 2011 (explosão da “bolha de commodities”). Louvaram a volta da “Velha Matriz Neoliberal”. O resultado está aí para todos verem: a população subutilizada (27,9 milhões) é recorde da série histórica.

taxa de desocupação (12,4%) no trimestre móvel encerrado em fevereiro de 2019 subiu 0,9 ponto percentual (p.p.) em relação ao trimestre de setembro a novembro de 2018 (11,6%). Em relação ao trimestre móvel de dezembro de 2017 a fevereiro de 2018 (12,6%), o quadro foi de estabilidade.

Indicador/Período Dez-Jan-Fev 2019 Set-Out-Nov 2018 Dez-Jan-Fev 2018
Taxa de desocupação 12,4% 11,6% 12,6%
Taxa de subutilização 24,6% 23,9% 24,2%
Rendimento real habitual R$2.285 R$2.250 R$2.268
Variação do rendimento real habitual em relação a: 1,6% 0,7% (estabilidade)

população desocupada (13,1 milhões) cresceu 7,3% (mais 892 mil pessoas) frente ao trimestre de setembro a novembro de 2018 (12,2 milhões). No confronto com igual trimestre de 2018, manteve-se a estabilidade.

população ocupada (92,1 milhões) caiu -1,1% (menos 1,062 milhão de pessoas) em relação ao trimestre de setembro a novembro de 2018 e cresceu 1,1% (mais 1,036 milhão de pessoas) em relação ao trimestre de dezembro de 2017 a fevereiro de 2018. Continuar a ler

Fórum Ana Fonseca pela Redução da Desigualdade Social

O Brasil 247 informa: a ex-coordenadora do programa Bolsa Família e uma de suas idealizadoras, Ana Fonseca, será homenageada pelo Fórum Ana Fonseca pela Redução da Desigualdade Social, que acontece na rede social Facebook. Hoje, 25 de março, completa-se um ano de morte da pesquisadora. Ana Fonseca atuou junto às mais importantes experiências em políticas de transferência de renda no Brasil, América Latina e África. Foi responsável pela implantação dos programas Renda Mínima (São Paulo, 2001), Bolsa Família (Brasil, 2003/2004) e pelo Plano Brasil Sem Miséria (2011).

Ana também atuou junto a organismos internacionais. Por meio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) acompanhou in loco os programas nacionais de transferência de renda no Chile, Colômbia, El Salvador, Nicarágua, Paraguai, Uruguai, Honduras, México, Panamá, República Dominicana, na América Latina, e Cabo Verde, na África.

A partir de hoje (25/03/19) está no ar o Fórum Ana Fonseca pela Redução da Desigualdade Social, no Facebook. A data é simbólica – completa-se um ano da morte de Ana Fonseca, ex-coordenadora do programa Bolsa Família – e a homenagem inclui também o site www.anafonseca.com.br que irá ao ar em breve. A iniciativa conta com o apoio de pesquisadores, gestores e técnicos – brasileiros e estrangeiros – que trabalharam com Ana ao longo dos anos, e da legião de amigos que ela despertou em sua trajetória.

O objetivo do fórum no Facebook é criar um espaço para o monitoramento e debate das políticas sociais, em geral, com ênfase nos programas de transferência de renda – especialmente o Bolsa Família. A recessão e desemprego, a reforma da Previdência, os cortes orçamentários nas políticas sociais e o consequente crescimento da pobreza e extrema pobreza são a razão de ser dessa iniciativa que se inspira no legado de Ana Fonseca.

Associado ao fórum virtual será lançado, em breve, o site www.anafonseca.com.br que além de oferecer todas as informações sobre a vida e obra da homenageada, será também um repositório de informações na área de transferência de renda no Brasil e no mundo.

Ana Fonseca era daqui da Unicamp, mas eu a conheci em Brasília. Eu me arrependo de não ter estreitado maior relação com ela. Errei por me dedicar exclusivamente ao trabalho e não aproveitar o período 2003-2007, como vice-presidente da Caixa, para ampliar minha rede de relacionamentos afetivos, profissionais e políticos. Viajava todos os dias de avião no circuito Campinas-Brasília-São Paulo-outra cidade para palestrar a convite. Ficava na corte (DF) somente dois dias: segunda e terça-feira. Passou rápido aquele bom tempo.

Avanço da Mobilidade Social na Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014)

Os valores em cada um dos andares da pirâmide (com o percentual de brasileiros em cada um deles) mostram a renda familiar, não individual. O quadro revela, por exemplo, quase dois terços (64%) dos brasileiros viverem em famílias que passam o mês com menos de R$ 2.994 – o que dá, na melhor das hipóteses, um salário mínimo por cabeça, considerando a média de três indivíduos por família no país. Na base da pirâmide, 42% vivem com menos de R$ 665 per capita. O valor familiar de R$ 1.996 é o teto de ganhos nesse segmento.

Os 20% mais ricos do país ficam com 40,6% do dinheiro pago pela Previdência a seus beneficiários. Na outra ponta, os 20% mais pobres levam apenas 3,3% do total. Grande parte da distorção é provocada pelas aposentadorias do setor público, onde os trabalhadores já ganham mais na ativa – cerca de 60% mais, na comparação entre os salários médios nos Executivos federal, estaduais e municipais e os da iniciativa privada, colocando o funcionalismo na parte superior da pirâmide.

Se a pirâmide acima já é suficientemente deprimente ao mostrar a renda dos ocupados, é bom lembrar haver ainda 12 milhões de desempregados e 27 milhões de subutilizados. Estes, se pudessem, trabalhariam mais para ganhar mais.

Thais Carrança (Valor, 07/02/19) informa: o peso da renda dos pais sobre a renda dos filhos diminuiu no Brasil entre 1996 e 2014, um sinal de avanço da mobilidade social. Essa melhora foi possível graças à redução da diferença educacional entre pobres e ricos depois das décadas de 1980 e 1990, aponta estudo de Daniel Duque, mestrando em economia pela UFRJ e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).

Para o especialista, porém, para a desigualdade de oportunidades continuar a cair, problemas como a evasão escolar no ensino médio e o acesso ao ensino superior precisam ser atacados.

O levantamento foi possível porque, em 1996 e 2014, foram incluídos dois suplementos na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em que as pessoas respondiam a escolaridade e ocupação dos seus pais quando os entrevistados tinham 15 anos. De posse dos dados, o pesquisador conseguiu chegar à renda paterna e avaliar o quanto ela determinou o rendimento dos filhos.

A desigualdade de oportunidades é o quanto as pessoas são desiguais por fatores que elas não escolheram. A desigualdade total é uma combinação de desigualdade de oportunidades e desigualdade de escolhas, que determinam que as pessoas tenham maior ou menor renda. Quanto maior a influência da renda dos pais sobre a renda dos filhos, isso mostra uma sociedade com baixa mobilidade social, em que a ‘loteria da vida’ importa muito. Continuar a ler

Fim do Social-desenvolvimentismo e do Estado de Bem-Estar Social em 2014

Bruno Villas Bôas (Valor, 27/02/19) informa: a redução do desemprego e a inflação comportada não foram suficientes para colocar a distribuição da renda do trabalho em uma rota positiva: a disparidade salarial de ricos e pobres cresceu pelo quarto ano seguido em 2018, mostram cálculos da FGV Social. O bem-estar social bateu no fundo-do-poço… e teve leve repique.

O índice de Gini da renda domiciliar per capita do trabalho foi de 0,590 em 2018 – o índice varia de um a zero, sendo zero a perfeita distribuição da renda. Trata-se de uma piora de 0,8% em relação ao ano anterior. Em 2017, a piora havia sido de 1%, vindo de pioras de 0,18% em 2015 e de 1,9% em 2016.

Segundo Marcelo Neri, diretor da FGV Social e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o indicador chegou a dar sinais positivos em alguns trimestres nesses últimos dois anos, mas a tendência de piora do indicador não foi interrompida ao longo do período.

Os cálculos mostram o melhor momento do indicador de desigualdade ter sido no fim de 2014 — ano final do social-desenvolvimentismo –, antes da piora do mercado de trabalho. Com a crise e seus reflexos sobre emprego e salários, a desigualdade cresceu no anos seguintes, especialmente em 2016 — ano do golpe. Continuar a ler

Remuneração de Executivos: Caixa-Preta

Letícia Arcoverde (Valor, 10/01/19) informa: pouco mais da metade dos profissionais de alto escalão, média gerência e de suporte à gestão receberam aumento acima da inflação em 2018, segundo levantamento da empresa de recrutamento PageGroup. Para cerca de 35%, houve manutenção do valor da remuneração ou reposição da inflação, enquanto 14% dos cargos pesquisados registraram queda nos ganhos.

Os dados são do guia salarial da consultoria. Ela mapeia a remuneração em 513 cargos de alto escalão, gerência e suporte de diversos setores e áreas. Cerca de seis mil profissionais foram consultados pela pesquisa.

O setor de bancos e outros serviços financeiros teve o número mais expressivo de cargos que receberam aumento real em 2018, com 75% das funções. A digitalização de produtos e a mudança de cultura em grandes bancos, bem como o surgimento de fintechs e outras pequenas empresas de serviços, mudaram o perfil profissional buscado pelas companhias, o que contribuiu para o aquecimento no setor. Continuar a ler