Avanço da Mobilidade Social na Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014)

Os valores em cada um dos andares da pirâmide (com o percentual de brasileiros em cada um deles) mostram a renda familiar, não individual. O quadro revela, por exemplo, quase dois terços (64%) dos brasileiros viverem em famílias que passam o mês com menos de R$ 2.994 – o que dá, na melhor das hipóteses, um salário mínimo por cabeça, considerando a média de três indivíduos por família no país. Na base da pirâmide, 42% vivem com menos de R$ 665 per capita. O valor familiar de R$ 1.996 é o teto de ganhos nesse segmento.

Os 20% mais ricos do país ficam com 40,6% do dinheiro pago pela Previdência a seus beneficiários. Na outra ponta, os 20% mais pobres levam apenas 3,3% do total. Grande parte da distorção é provocada pelas aposentadorias do setor público, onde os trabalhadores já ganham mais na ativa – cerca de 60% mais, na comparação entre os salários médios nos Executivos federal, estaduais e municipais e os da iniciativa privada, colocando o funcionalismo na parte superior da pirâmide.

Se a pirâmide acima já é suficientemente deprimente ao mostrar a renda dos ocupados, é bom lembrar haver ainda 12 milhões de desempregados e 27 milhões de subutilizados. Estes, se pudessem, trabalhariam mais para ganhar mais.

Thais Carrança (Valor, 07/02/19) informa: o peso da renda dos pais sobre a renda dos filhos diminuiu no Brasil entre 1996 e 2014, um sinal de avanço da mobilidade social. Essa melhora foi possível graças à redução da diferença educacional entre pobres e ricos depois das décadas de 1980 e 1990, aponta estudo de Daniel Duque, mestrando em economia pela UFRJ e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).

Para o especialista, porém, para a desigualdade de oportunidades continuar a cair, problemas como a evasão escolar no ensino médio e o acesso ao ensino superior precisam ser atacados.

O levantamento foi possível porque, em 1996 e 2014, foram incluídos dois suplementos na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em que as pessoas respondiam a escolaridade e ocupação dos seus pais quando os entrevistados tinham 15 anos. De posse dos dados, o pesquisador conseguiu chegar à renda paterna e avaliar o quanto ela determinou o rendimento dos filhos.

A desigualdade de oportunidades é o quanto as pessoas são desiguais por fatores que elas não escolheram. A desigualdade total é uma combinação de desigualdade de oportunidades e desigualdade de escolhas, que determinam que as pessoas tenham maior ou menor renda. Quanto maior a influência da renda dos pais sobre a renda dos filhos, isso mostra uma sociedade com baixa mobilidade social, em que a ‘loteria da vida’ importa muito. Continuar a ler

Fim do Social-desenvolvimentismo e do Estado de Bem-Estar Social em 2014

Bruno Villas Bôas (Valor, 27/02/19) informa: a redução do desemprego e a inflação comportada não foram suficientes para colocar a distribuição da renda do trabalho em uma rota positiva: a disparidade salarial de ricos e pobres cresceu pelo quarto ano seguido em 2018, mostram cálculos da FGV Social. O bem-estar social bateu no fundo-do-poço… e teve leve repique.

O índice de Gini da renda domiciliar per capita do trabalho foi de 0,590 em 2018 – o índice varia de um a zero, sendo zero a perfeita distribuição da renda. Trata-se de uma piora de 0,8% em relação ao ano anterior. Em 2017, a piora havia sido de 1%, vindo de pioras de 0,18% em 2015 e de 1,9% em 2016.

Segundo Marcelo Neri, diretor da FGV Social e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o indicador chegou a dar sinais positivos em alguns trimestres nesses últimos dois anos, mas a tendência de piora do indicador não foi interrompida ao longo do período.

Os cálculos mostram o melhor momento do indicador de desigualdade ter sido no fim de 2014 — ano final do social-desenvolvimentismo –, antes da piora do mercado de trabalho. Com a crise e seus reflexos sobre emprego e salários, a desigualdade cresceu no anos seguintes, especialmente em 2016 — ano do golpe. Continuar a ler

Remuneração de Executivos: Caixa-Preta

Letícia Arcoverde (Valor, 10/01/19) informa: pouco mais da metade dos profissionais de alto escalão, média gerência e de suporte à gestão receberam aumento acima da inflação em 2018, segundo levantamento da empresa de recrutamento PageGroup. Para cerca de 35%, houve manutenção do valor da remuneração ou reposição da inflação, enquanto 14% dos cargos pesquisados registraram queda nos ganhos.

Os dados são do guia salarial da consultoria. Ela mapeia a remuneração em 513 cargos de alto escalão, gerência e suporte de diversos setores e áreas. Cerca de seis mil profissionais foram consultados pela pesquisa.

O setor de bancos e outros serviços financeiros teve o número mais expressivo de cargos que receberam aumento real em 2018, com 75% das funções. A digitalização de produtos e a mudança de cultura em grandes bancos, bem como o surgimento de fintechs e outras pequenas empresas de serviços, mudaram o perfil profissional buscado pelas companhias, o que contribuiu para o aquecimento no setor. Continuar a ler

Queda da Força de Trabalho Rural e Desemprego Urbano

Thais Carrança (Valor, 21/01/19) informa: desde o início de 2018, uma questão atormenta analistas que acompanham estatísticas do mercado de trabalho brasileiro: por que o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostra há meses geração de vagas formais no acumulado de 12 meses, enquanto a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua segue apontando destruição de postos com carteira?

Especialistas não têm respostas fechadas para a questão, mas destacam que ambas as estatísticas apontam para um mesmo quadro de melhora muito lenta e gradual do emprego.

“Os dados seguem uma mesma tendência e dá para projetar que, em pouco tempo, a Pnad Contínua vai passar ao campo positivo”, prevê Daniel Duque, pesquisador do Ibre-FGV. Ele lembra que o trabalho formal é mais sensível que o emprego total ao crescimento econômico, previsto para acelerar este ano – de um Produto Interno Bruto (PIB) de 1,3% em 2018 para 2,6% em 2019, segundo as estimativas do Focus. Continuar a ler

Idoso Desempregado Nem Aqui Nem no Japão

Bruno Villas Bôas (Valor, 14/01/19) informa: a probabilidade de idosos conseguirem um emprego é maior do que jovens ou mesmo adultos na faixa dos 45 aos 50 anos. Isso seria verdade mesmo quando as estatísticas são ampliadas para absorver os mais velhos em situação de desalento – ou seja, que desistiram de procurar emprego por acreditar que não encontrariam um.

A conclusão é de um trabalho do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Consultoria Legislativa do Senado Federal e contradiz um dos argumentos contrários à mudança da idade mínima para aposentadoria na esperada reforma da Previdência: o de que idosos têm menor empregabilidade do que demais idades.

Segundo o estudo, a taxa de desemprego ampliada (que incorpora os desalentados) é decrescente no país em função da idade. Para o grupo mais jovem, de 15 a 19 anos de idade, a taxa de desemprego é de 43,6% para homens e 55,1% para mulheres. Para o grupo mais velho, de 60 a 65 anos, a taxa é de 9,3% para homens e 10% para mulheres. Continuar a ler

Salário Mínimo: 43% do Salário Médio e 73% da Renda Mediana dos Ocupados

Arícia Martins (Valor, 11/01/19) informa: em seu último ano de vigência, a política de valorização do salário mínimo parece ter atingido seu limite para elevar o poder de compra da população que tem o rendimento atrelado a ele. Sob ao menos três diferentes óticas, a comparação entre o mínimo e outras medidas de renda ficou relativamente estagnada nos últimos três anos.

Segundo economistas, este é um argumento adicional para que o novo governo altere a regra de reajuste do mínimo. O principal deles é o impacto fiscal: o piso nacional é referência para quase 70% dos beneficiários da Previdência Social, maior rubrica de gasto primário do governo federal. O Itaú estima que, para cada R$ 1 de aumento além da inflação, há um custo adicional de R$ 350 milhões a cada ano, de caráter irreversível. Assim, em um período de dez anos, cada um ponto de alta real do piso gera mais 0,4 ponto de déficit primário.

Após o reajuste nominal de 4,61% sobre 2018, o piso nacional passou a valer R$ 998 a partir de janeiro de 2019, o equivalente a 43,3% da renda média em todo o país. Os cálculos foram feitos pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), a pedido do Valor, com base na estimativa da entidade para a evolução da renda real dos ocupados neste ano.

Em 2018, essa a proporção ficou praticamente igual, em 43,2%, também considerando a projeção do instituto para a variação do rendimento médio dos trabalhadores no ano passado. O percentual é muito parecido ao de 2016 e 2017, quando o piso nacional equivaleu a 43,9% e 44,2% da renda média, respectivamente. Continuar a ler

Divulgação de Ilusão: Mobilidade Social

Bruno Villas Bôas (Valor, 28/01/19) informa: se as expectativas sobre a recuperação da economia se confirmarem, 3,9 milhões de famílias podem retornar para classes A, B e C ao longo dos quatro anos do governo de Jair Bolsonaro (PSL), no embalo da melhora do emprego e da renda. Quem divulga esse cenário ilusório é da consultoria Tendências em estudo sob encomenda pela casta dos mercadores. Apoiaram o sujeito e agora, para não passarem mais vergonha, além do já passado no primeiro mês de governo, buscam continuar iludindo o eleitorado reacionário.

O estudo mostra: 4,1 milhões de famílias declinaram para as classes D e E (renda de até R$ 2.370) na fase mais aguda do golpismo com locaute empresarial, no biênio 2015-2016. O movimento anulou a ascensão social ocorrida no país de 2005 a 2012, quando o avanço da renda tirou 3,3 milhões de famílias desse piso da pirâmide social.

Iniciada a recuperação da economia, somente devido à comparação com o baixo patamar do ano anterior, ainda com um resto de política social ativa, as famílias teriam começado a retornar para degraus mais altos da renda em 2018. Esse processo poderá se acelerar nos próximos anos. Por que?! Qual será o motor do crescimento?!

O cenário da consultoria prevê mais famílias passarem a integrar as classes C (+1,8 milhão), B (+1,6 milhão) e A (+500 mil) de 2019 a 2022.

Se confirmado o cenário, as classes média e alta (A, B e C) vão representar 47% do total das famílias brasileiras em 2022, fatia maior do que a verificada em 2016 (43%), o pior momento da crise. Mesmo com a recuperação, não volta ao nível de 2014, o período pré-recessivo, quando eram 49% do total. Continuar a ler