Concentração de Riqueza Financeira em 2017

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A ANBIMA publicou seu importante Relatório de Varejo e Private para estudarmos a concentração de riqueza no Brasil. No final de 2017, o total de recursos alocados nos segmentos Private Baking (“ricaços”) e varejo, desconsiderando as aplicações em Previdência Complementar, alcançaram R$ 2,6 trilhões, um crescimento de 11,2% em relação à posição no final de 2016.

O segmento de varejo tradicional (“classe média baixa”) ainda concentra a maior parte dos recursos, com volume de R$ 916,1 bilhões e um crescimento de 7,4% em comparação ao ano anterior.

Já os segmentos de varejo alta renda (“classe média alta”) e Private alcançaram R$ 778,1 bilhões e R$ 868 bilhões1, respectivamente, mas com crescimentos mais expressivos em 2017, de 12,1% e 14,8%.

Esse movimento se justifica pela maior diversificação dos investimentos desses dois segmentos, frente a um cenário de menores taxas de juros, em comparação ao varejo tradicional, que ainda mantém expressivo volume de recursos alocado em aplicações mais conservadoras, como a caderneta de poupança.

Além disso, revela que os segmentos de varejo alta renda e Private superaram a taxa de juros Selic média anual de 10,3% em 2017. A média da Selic acumulada em 12 meses atingiu 12,6%; iniciou em 14,10% em janeiro e, com queda muito lenta e gradual, terminou com 10,11% em dezembro. Os mais ricos se beneficiaram desse arbítrio do Banco Central, concentrando mais riqueza financeira.

Considerando os depósitos de poupança, cujo número de depositantes distorce a estratificação das classes médias de baixa riqueza e de alta riqueza, mas não a riqueza per capita dos super-ricos, que não fazem esses depósitos populares, no ano passado, os 67 milhões de clientes do varejo tradicional tinham, em média, R$ 13.561 de reservas financeiras, os 6 milhões de clientes do varejo de alta renda, R$ 128.583 (valor nominal bem inferior ao “pico” de 2013) e os 117.421 ricaços, R$ 7,4 milhões.

Após o golpe, nos dois últimos anos, cada um dos 117.421 ricaços ganhou em média quase mais R$ 1,5 milhão, beneficiando-se dos elevadíssimos juros nominais que provocou a Grande Depressão no Brasil com mais de 13 milhões de desocupados. Agora, bota a casta dos guerreiros-militares para a repressão contra a depressão! 

Per capita a classe média alta ganhou R$ 13 mil e a baixa, R$ 1,1 mil. E ainda tem gente da classe média batendo panela-vazia a favor do status-quo brasileiro de desigualdade social...

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Castas em Ocupações Principais

“Gente de bem” bate panela vazia? É “bem-nascida”, isto é, herdeira? É a “sorte-do-berço” determinante de seu bem-estar? É self-made man, alguém que se fez por si próprio, com seu esforço, pelas boas qualidades intrínsecas ao seu DNA ou adquiridas em seu ambiente familiar-educacional? É o instinto humano básico da competição ou o da proteção que a caracteriza? São boas escolas, bons professores, boa rede de relacionamento social, ou bons privilégios sociais, por exemplo, isenção fiscal em seus rendimentos, os determinantes básicos do $uce$$o?

Os Grandes Números DIRPF 2017 Ano Calendário 2016, recentemente publicados pela Receita Federal, permitem reflexões sobre essas questões relativas ao enriquecimento pessoal. A tabela acima apresenta um ranking de ocupações principais dos declarantes em que estimei os rendimentos totais (tributáveis, exclusivos e isentos) per capita, deduzindo os mensais, além do patrimônio líquido per capita, descontando as dívidas dos bens e direitos.

Nessa média dá para verificar a extraordinária mobilidade social de certa ocupação. Devido em parte ao pequeno número, que dilui menos a concentração da riqueza, os 2.625 Diplomatas, que se situavam em quinto lugar no ranking de bens e direitos no ano anterior (DIRPF 2016-AC2015), no ano seguinte, com dois declarantes a menos (2.623), tiveram aumento cerca de 40% no patrimônio líquido per capita. Isso os levou a superar até o Titular de Cartório que tinha a maior riqueza no ano anterior. Resta para consolo deste “infeliz” que ele permanece, disparado, como o mais rico em renda, quase o dobro do segundo e do terceiro colocado, respectivamente, Membro do Ministério Público e Membro do Poder Judiciário e Tribunal de Contas (argh). Os Diplomatas ocuparam a quarta posição no ranking de renda, talvez por receberem em dólares. A cotação do dólar chegou a atingir R$ 4,16 e ficou acima de R$ 3,50 até o dia do golpe em 12 de maio de 2016.

Depois dessas, dá para ver no ranking que outras boas ocupações, em Terrae Brasilis, estão em castas poderosas. São as pertencentes a Poder Judiciário, Poder Fiscalizador, Poder Econômico, Poder Midiático ou Poder das “Celebridades” (Atletas ou Artistas). Senão, resta como boa ocupação cuidar dos poderosos: Médicos, Pilotos… Aliás, conclui-se que Poder é ter o poder de determinar a própria renda. Continue reading “Castas em Ocupações Principais”

Castas por Natureza de Ocupação

A abordagem sociológica conjunta marxista-weberiana se preocupa demais com as estruturas e as organizações sociais e tem pouco a dizer sobre a cultura e a experiência subjetiva. Se quisermos entender o Poder, precisamos compreender de que modo os membros das redes de Poder pensam e agem. Além disso, necessitamos saber por que seus valores podem ter uma atração mais ampla, para além do seu próprio grupo, obtendo o predomínio cultural que Antônio Gramsci chamou de hegemonia.

Não é apenas o poder político e econômico dos mercadores que explica a influência da Economia de Livre Mercado, desde os anos 1970, quando houve o fim do Acordo de Bretton Woods e o regime de câmbio tornou-se flexível ou flutuante. Nos anos 1980, Margareth Thatcher na Inglaterra e Ronald Reagan desregulamentaram e flexibilizaram o mercado de trabalho para elevação da exploração e o mercado financeiro para empresários produtivos se transformarem em acionistas e/ou investidores financeiros.

Pressionando as instituições financeiras multilaterais para elas trocarem renegociação das dívidas externas por adoção do credo neoliberal com privatização e desnacionalização do patrimônio público, a casta dos mercadores conseguiu mais do que esperava. Com a abertura financeira e comercial para o exterior as firmas familiares não aguentaram a competição e acabaram por “entregar os anéis para não perderem os dedos”. Daí os patriarcas fundadores das firmas familiares as venderam para estrangeiros, quando não abriram capital, transformando-as em sociedades anônimas sob gestão profissional. Deixaram para seus herdeiros uma imensa riqueza líquida.

A opção por diversificação em outras áreas de negócios levaria a “espalhar dinheiro” e à consequente redução de rentabilidade. Melhor alternativa microeconômica foi a emissão de títulos de dívida direta junto a investidores para obter ganho de escala. Essa alavancagem financeira propiciou elevação da rentabilidade patrimonial. Os credores securitizaram os empréstimos sob forma de títulos lastreados em dívida privada, vendidos aos investidores. Estes impuseram nova gestão profissional às empresas antes “dirigidas de forma amadora” com corte de gastos dispersivos, embora oferecessem empregos, para posterior venda com ganhos de capital. Os gerentes viraram “sócios” dos acionistas em troca de bônus e “stock options”. Criou-se a sociedade de executivos e agravou-se a concentração de riqueza! Continue reading “Castas por Natureza de Ocupação”

Orgasmo das Castas dos Mercadores, Oligarcas e Justiceiros

O mais alto grau de satisfação, quando se atinge a plenitude das sensações, foi gozado pelas castas dos mercadores, oligarcas e justiceiros com o prejulgamento político que inviabilizou a candidatura mais popular do maior representante da casta dos trabalhadores organizados brasileiros. Esta se mobilizou em aliança com a casta dos sábios-intelectuais e artistas, mas não foi suficiente para demover o intuito de impedimento do líder nas pesquisas eleitorais pelos juízes adeptos da candidatura de centro-direita. Pior, com o novo golpe na democracia brasileira, cairá “no colo” do candidato de extrema-direita representante da casta dos guerreiros – com quem essas castas oligarcas e dos justiceiros não se metem – uma grande chance de se eleger.

Os gozadores podem ter se iludido com a ejaculação precoce. A êxtase é prematura. Depois do pico de hormônios ligados ao bem-estar, há uma queda, e advém a tristeza do coito. Se abandonarem a visão individualista e adotarem uma holística talvez consigam compreender os fenômenos na sua totalidade e dimensão histórica.

Em termos de solidez nos fundamentos econômicos não há motivos profundos para a alta da bolsa de valores quando a economia brasileira acaba de ter rebaixada sua avaliação de risco. A inaptidão dos neoliberais em incentivar a retomada do crescimento leva à auto realização da profecia que as contas fiscais não se ajustam com eles no Poder. A economia fica rastejante e mal decola para um voo-de-galinha. Continue reading “Orgasmo das Castas dos Mercadores, Oligarcas e Justiceiros”

Pesquisa de Orçamento Familiar em 2008-2009: Rendimentos

Observe no gráfico acima como a Aposentadoria e Pensão do INSS é mais importante para as famílias de menores renda e os pesos muitos superiores da Previdência de servidores públicos e da Previdência Privada para as famílias mais ricas.

O rendimento total é um dos determinantes principais na construção do orçamento familiar. Nas POFs, desde a de 2002-2003, este rendimento é composto por uma parcela monetária e outra não monetária. A análise da composição do rendimento total revela:

  1. a dinâmica do mercado de trabalho,
  2. o impacto dos gastos do governo, através das transferências governamentais,
  3. a influência dos auxílios provenientes de outras unidades familiares e
  4. as transferências intrafamiliares.

Todos esses fatores se constituem em elementos importantes na estrutura orçamentária das famílias.

Além do rendimento total, são comentadas pelo IBGE as variações no patrimônio, como saques da poupança, recebimento de herança e vendas de imóveis que, ainda que indireta e pontualmente, também influenciam no orçamento. Continue reading “Pesquisa de Orçamento Familiar em 2008-2009: Rendimentos”

Pesquisa de Orçamento Familiar em 2008-2009: Despesas

A POF 2008-2009 apresentou o valor de R$ 2 626,31 para a estimativa da despesa total média mensal familiar no Brasil. Nos resultados do Brasil e das Grandes Regiões, apresentados na Tabela 2, observa-se que a Região Sudeste foi aquela que apresentou o maior valor para a despesa total média mensal familiar, R$ 3 135,80, estimativa superior em 19,4% à encontrada para o Brasil.

Na avaliação dos resultados, segundo as classes de rendimento total e variação patrimonial, as estimativas da despesa total por classes de rendimento nas Regiões apresentaram valores de despesas totais médias bastantes distintos da média do Brasil. Em outras palavras, o custo de vida é diferente em cada localidade de moradia.

Inclui o rendimento monetário, o rendimento não monetário estimado a partir da utilização e do consumo de produtos que são adquiridos através de despesas não monetárias, e a variação patrimonial obtida através de vendas de bens imóveis e retiradas de aplicações financeiras. Inclui, também, o aluguel estimado pelas unidades de consumo com condição de ocupação diferente de alugado, deduzidas as despesas com manutenção, impostos, taxas e seguros. As classes referem-se a rendimento total e variação patrimonial, mas são chamadas classes de rendimentos por simplificação.

Como exemplos da estratificação social, a primeira classe de rendimento era até R$ 830,00, a segunda classe de rendimento mensal era mais de R$ 4 150,00 até R$ 6 225,00, e a classe superior de rendimento acima de R$ 10 375,00 com despesa média total no Brasil de R$ 14 098,40. Continue reading “Pesquisa de Orçamento Familiar em 2008-2009: Despesas”

Concentração da Riqueza muito superior à Concentração da Renda na Sociedade dos Executivos

Bruno Villas Bôas (Valor, 02/01/18) informa que, com a recuperação do emprego pela informalidade, que paga menores salários médios, a distribuição da massa de rendimentos do trabalho ficou ainda mais desigual no país. Um grupo composto por 10% dos trabalhadores com maiores salários (cerca de 8,5 milhões de pessoas) recebia 41,1% da massa de rendimentos de todos os trabalhos no terceiro trimestre do ano passado, o equivalente a R$ 774 bilhões. Em igual período de 2016, esse grupo do topo da renda nacional respondia por uma fatia menor, de 39% da massa salarial.

No outro extremo, o grupo composto por 40% dos trabalhadores ocupados com menores salários (36 milhões de pessoas) recebia 12,7% da massa de rendimentos (R$ 23,7 bilhões) no terceiro trimestre de 2017. No mesmo período de 2016, esse grupo representava parcela maior, de 14,1% da massa.

Os números foram levantados pela LCA Consultores, a partir da base de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Continue reading “Concentração da Riqueza muito superior à Concentração da Renda na Sociedade dos Executivos”