Salários, Faculdade, Gênero e Raça

Naercio Menezes Filho é professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper e professor associado da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Publicou artigo (Valor, 17/01/2020) sobre as diferenças de salário entre as pessoas parecerem estar mais associadas à sua raça e gênero em vez de aos tipos de faculdades cursadas. Compartilho-o abaixo.

“Há muito tempo é possível comparar os ganhos salariais dos alunos que fizeram faculdade com relação aos que deixaram a escola após o final de ensino médio no Brasil. Mas, não tínhamos como calcular esses diferenciais separadamente para os alunos da rede pública e privada.

Agora isso já é possível, pois os novos questionários da Pnad Contínua do IBGE perguntam que tipo de escola as pessoas cursaram no ensino médio e no superior. Com esses dados, podemos responder questões interessantes.

  • Por exemplo, qual a diferença salarial entre os alunos que cursaram universidades públicas e privadas?
  • Existe diferença salarial entre brancos e negros que frequentaram o mesmo tipo de escola no ensino médio e também o mesmo tipo de faculdade?
  • E entre os homens e as mulheres?
  • Fazer ensino médio em um colégio privado aumenta em quanto as chances de ingresso numa universidade pública?

Vamos aos dados. Continuar a ler

Neoliberalismo Tupiniquim: Indiferença quanto à Desigualdade Social

Editorial do Valor (23/01/2020) se debate com a desigualdade social. O neoliberalismo tupiniquim tem dificuldade de se posicionar como os capitalistas mais lúcidos no resto do mundo, defendendo Capitalismo das Partes Interessadas contra o Capitalismo dos Acionistas e o Capitalismo de Compadrio Estatal. Leia abaixo

A desigualdade foi um dos temas recorrentes na reunião deste ano de 2020 do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. O fórum começou sob o impacto de dois novos relatórios nada auspiciosos a respeito do assunto, um deles da rede de organizações não-governamentais Oxfam, e outro da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A Oxfam constatou, dramaticamente: “a desigualdade econômica está fora de controle”, depois de calcular apenas 2.153 bilionários deterem mais riqueza do que 60% da população mundial, o equivalente a 4,6 bilhões de pessoas. Mais do que isso, 22 deles possuem mais dinheiro do que todas as mulheres da África juntas.

Já a OIT salientou: apesar do desemprego estar relativamente baixo na média mundial, em 5,4%, muitas pessoas estão no trabalho informal. Segundo a organização, somam 188 milhões os desempregados no mundo, dos quais 12 milhões no Brasil.

Outras 165 milhões de pessoas têm emprego, mas gostariam de trabalhar mais; e 120 milhões não são considerados desempregadas, mas só marginalmente vinculadas ao mercado de trabalho. E há cerca de 2 bilhões de trabalhadores informais, 61% da força de trabalho mundial.

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Perfil dos Segmentos dos Clientes Investidores segundo Aversão ao Risco: Renda Fixa X Renda Variável

Finalmente, Isabel Filgueiras (Valor, 20/02/2020) destaca um fenômeno financeiro já apontado por este modesto blog pessoal há bastante tempo: a aversão ao risco de acordo com o volume de negócios. E a maior concentração de riqueza financeira pelo melhor desempenho da renda variável, devido à bolha de ações.

Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram: os mais ricos têm uma parte bem maior da carteira em investimentos mais arrojados, como ações e fundos multimercado. Eles arriscam mais se comparados àqueles com menos dinheiro, chamados de investidores de varejo.

A alocação em aplicações mais sofisticadas (fundos imobiliários, ações etc) cresce na mesma proporção que a renda dos investidores. De um lado, os clientes private estão no topo da pirâmide de riqueza e podem investir acima de R$ 3 milhões. Eles tiveram, em média, 66% da carteira em renda variável, sendo 36% em multimercado e 19% em ações em 2019. O grupo não deixa praticamente nada em poupança.

De outro lado, os clientes de varejo, com bem menos recursos, só têm 1,4% da carteira em ações e 4,5% na renda variável como um todo. Em 2019, eles deixaram 68% do dinheiro na poupança, quando ela perdeu até para a inflação. Ou seja, esse segmento foi o que mais perdeu poder de compra em 2019.

Com 90% dos recursos nos produtos financeiros mais conservadores (CDBs, fundos de curto prazo, poupança, LCI, LCA e Tesouro Direito), os investidores de varejo também ficaram mais vulneráveis aos cortes na taxa básica de juros (Selic).

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Desigualdade e Crescimento Econômico

Simon Johnson, professor do MIT Sloan, foi economista-chefe do FMI e é assessor da campanha da senadora Elizabeth Warren à presidência dos EUA. Simon Johnson (Valor, 06/02/2020) publicou o artigo abaixo.

“Em eras anteriores, as principais autoridades da área econômica consideravam a desigualdade como algo que se distinguia das principais preocupações da política macroeconômica. Desde a Revolução Industrial, a visão geral é a de que, em média, as pessoas querem ter maior renda e um maior número de bons empregos – e que a melhor maneira de alcançar essas metas é por meio de um crescimento econômico mais acelerado.

Não surpreende, portanto, muita energia mental ter sido dedicada à questão de como projetar e gerir políticas monetárias e fiscais capazes de sustentar taxas mais elevadas de crescimento agregado.

A desigualdade era encarada como um problema distinto. Ele poderia ser enfrentado, no limite, pela conversão dos impostos líquidos em mais ou menos progressivos. As pessoas ricas contribuiriam com uma maior parcela de sua renda total para as finanças públicas do que a classe média.

A desigualdade, nos níveis contemporâneos, não é um acaso. Resulta de escolhas de políticas públicas. Elas foram influenciadas ou impulsionadas por pessoas relativamente ricas. O pêndulo pode, e e deveria, voltar a oscilar na outra direção. Continuar a ler

Queda da Renda do Trabalho e Ascensão da Desigualdade

Assis Moreira (Valor, 21/01/2020) informa: as turbulências sociais estão de novo em alta no mundo, refletindo a crescente reação às desigualdades sociais e econômicas, aponta estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) baseado no número de protestos e greves.

Em relatório sobre o emprego e as questões sociais no mundo, que coincide com a abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), a OIT mostra alta de convulsões sociais em 7 de 11 sub-regiões do mundo e constata o fiasco em se alcançar crescimento sustentável e inclusivo.

Seu índice de turbulências sociais aponta para maiores agitações na Argélia, Egito e Sudão. Na América Latina, elas têm subido em países mais atingidos por crises econômicas e sociais como Bolívia, Chile, Equador e Venezuela.

A proporção da renda do trabalho – em contraposição à proporção da renda nacional que vai para os detentores de capital – caiu em nível mundial de 54% em 2004 para 51% em 2017. A queda é maior na Europa, Ásia Central e América.

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Entrevista com Branko Milanovic sobre Desigualdade Social

Thais Carrança (Valor, 29/01/2020) entrevistou um dos maiores especialistas em disparidade de renda: Branko Milanovic. Ele vê riscos de gestão Bolsonaro tomar medidas como redução da tributação dos mais ricos. “No Brasil, a preocupação é as conquistas dos últimos 15 anos não sejam totalmente revertidas”, disse.

O atual governo brasileiro pode levar o país a um aumento da desigualdade por sua orientação “muito neoliberal”, diz Branko Milanovic, economista sérvio-americano e um dos maiores especialistas sobre o tema no mundo. Economista-chefe do departamento de pesquisa do Banco Mundial por quase 20 anos e hoje professor da City University of New York (Cuny), ele avalia que a educação e as transferências de renda pelo Estado continuam sendo fundamentais para o país.

Além disso, Milanovic acredita uma taxação muito mais elevada das maiores rendas ser necessária, mas há o risco de o Brasil caminhar na direção contrária, reduzindo a tributação. “Dada a situação com o governo atual, e dado o fato de que o Brasil nunca teve políticas de transferência tributária tão fortes como Alemanha e Espanha, por exemplo, não é realista acreditar que o país vá repentinamente mudar nessa direção”, diz ele. “Eu não acredito que o governo Bolsonaro vá de maneira alguma seguir essas políticas.”

Em seu novo livro, “Capitalism, Alone”, a ser lançado no Brasil em maio de 2020 pela Todavia, sob o título de “Capitalismo sem rivais” -, Milanovic argumenta o mundo atual ter duas características principais.

A primeira é a consolidação do capitalismo como único sistema econômico ao redor do globo.

A segunda é uma crescente convergência de renda entre América do Norte, Europa e Ásia, que tem reduzido a desigualdade em nível mundial, através da emergência de uma “classe média global”.

Nesse novo mundo, a América Latina não deverá ganhar grande protagonismo, mantendo sua distância atual com relação aos países ricos, diz Milanovic. Já a África pode crescer em relevância, pois é o único continente com previsão de aumento da população no próximo meio século e, se não houver convergência de renda ali, a desigualdade global poderá voltar a crescer.

Milanovic não acredita o capitalismo liberal democrático do Ocidente se sobrepor como único sistema do mundo, derrotando em algum momento o que ele chama de capitalismo político, típico de países como China e Rússia. Ao contrário, o economista avalia poder haver uma convergência mundial para um mundo mais plutocrático, com as elites de ambos os sistemas controlando cada vez mais o poder político.

A seguir, os principais trechos da entrevista, em que Milanovic fala ainda dos efeitos da automação e robotização sobre o mercado de trabalho, explica seu ceticismo em relação à proposta de uma renda básica universal e defende que a desigualdade de renda do século XXI não pode ser combatida com instrumentos do século XX. Continuar a ler

457 mil Milionários no país até 2022 se não deixarem o País…

Adriana Cotias (Valor, 27/01/2020) informa: o Brasil deve somar 457 mil milionários até 2022, com patrimônio de R$ 1,7 trilhão – um crescimento real composto de 5,3% e 4,4% ao ano, respectivamente, desde 2018. A confirmar essa ordem de grandeza, será uma expansão 7% acima da média projetada mundialmente na acumulação de ativos financeiros e de 5,3% no passo de brasileiros ascendendo ao clube dos mais ricos.

Tais cifras, estimadas pela Roland Berger, ensejam anos promissores para os serviços de Private Banking. Eles acolhem normalmente quem tem patrimônio financeiro a partir de R$ 3 milhões a R$ 5 milhões. Mas o maior deles, o do Itaú, exige R$ 10 milhões de volume de negócios financeiros.

Só que a oferta de produtos de terceiros e a segmentação baseada apenas nos volumes sob gestão são hoje insuficientes para reter o investidor nos serviços de private tradicionais, diz o presidente da Roland Berger no Brasil e América Latina. Para o executivo, os bancos falham em só dividir o cliente por faixa patrimonial, subestimando assim o seu porte.

Não é incomum o investidor ter R$ 1 milhão em um banco e outros R$ 14 milhões em outro lugar. A segmentação tradicional existe mais para o banco definir qual o seu custo de servir o cliente em vez de olhar de fato para o valor gerado para ele.

Normalmente, os bancos distribuem os clientes milionários em três faixas:

  1. os milionários afluentes, com valores entre R$ 3 milhões a R$ 5 milhões, até R$ 10 milhões ou R$ 15 milhões;
  2. o “high net worth individuals”, entre R$ 10 milhões a R$ 15 milhões até algo entre R$ 50 milhões e R$ 70 milhões; e
  3. o “ultra high net worth individuals”, com fortunas de R$ 50 milhões a R$ 70 milhões para cima.

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