Viés da Auto Atribuição de Riqueza

Compare os dois imóveis anunciados acima, ambos com o valor de R$ 60 milhões à vista — epa, a ilha é um tiquinho mais barata, vou comprá-la! –, porém, o apartamento na Avenida Vieira Souto em Ipanema-RJ só tem 590 m2 de área útil e a ilha em Angra dos Reis mais 16 edificações têm mais de 2.000 m2 de área construída. Qual valor você atribuiria à cada qual? É um bom exemplo como valores subjetivos ou emocionais são influentes nas precificações.

Escrevi artigo a respeito, postado originalmente em:

https://jornalggn.com.br/noticia/vies-da-auto-atribuicao-de-riqueza-por-fernando-nogueira-da-costa

Em 2017, o rendimento médio mensal domiciliar per capita no país foi de R$ 1.511, ou seja, em família típica de 3 pessoas seria R$ 4.533 o ponto central da classe média de renda.  As menores médias foram no Nordeste (R$ 984) e Norte (R$ 1.011), regiões onde quase metade da população (respectivamente, 49,9% e 48,1%) tinha rendimento médio mensal domiciliar per capita de até meio salário mínimo. Estas são algumas informações da Síntese de Indicadores Sociais 2018, publicada na primeira semana de dezembro.

Em 2017, os 10% das pessoas com os maiores rendimentos (de todas as fontes) do país acumulavam 43,1% da massa total desses rendimentos, enquanto os 40% com os menores rendimentos detinham apenas 12,3%. Esse estrato do topo concentrava 3,51 vezes mais rendimentos do que a base, razão conhecida como o Índice de Palma. Nessa mesma comparação, o Distrito Federal foi a unidade da federação mais desigual, onde os 40% das pessoas com os menores rendimentos acumularam 8,4% da massa e os 10% das pessoas com os maiores rendimentos detinham 46,5%. Em 2017, a razão entre esses dois valores chegou a 5,57 no DF, e superou as outras 26 unidades da federação.

Entre os 10% mais ricos, em 2017, entre 90% e 95% o rendimento médio mensal real de todos os trabalhos era R$ 5.214, entre 95% e 99%, R$ 9.782, e no top 1% mais rico, R$ 27.213. Vamos arbitrar essas serem as rendas, respectivamente, da classe média (ou varejo tradicional), classe média alta (ou varejo de alta renda) e ricos. Os ricaços (do segmento de clientes bancários Private Banking) são 123.370 CPFs, cada qual com a riqueza financeira per capita de R$ 8,466 milhões em setembro de 2018. Fazem parte de 58.258 grupos familiares, cada qual com quase 18 milhões de reais em saldo médio.

A classe média pode ser vista como composta pelos 7,5 milhões clientes do varejo tradicional. Cada um tem em média pouco mais de R$ 46 mil reais em investimentos financeiros. A classe média alta, isto é, os 4 milhões clientes do varejo de alta renda possuíam, em média per capita, pouco mais de R$ 181 mil. Continuar a ler

Bastam R$ 10,2 bilhões por mês para erradicar a pobreza no país: 58 mil famílias acumulam R$ 1,044 trilhão em Riqueza Financeira

Bruno Villas Bôas (Valor, 06/12/18) informa: o Brasil precisaria gerar uma renda adicional de R$ 10,2 bilhões por mês para erradicar a pobreza no país. Este valor é a soma de quanto cada um dos 54,8 milhões de brasileiros pobres — vivem com uma renda inferior a US$ 5,50 por dia, o equivalente a R$ 406 mensais — precisariam receber a mais para superar a linha de pobreza.

A estimativa consta na Síntese de Indicadores Sociais, divulgada no dia 05/12/18 pelo IBGE. Segundo o estudo, a pobreza cresceu 3,7% em 2017, o que corresponde a 1,97 milhão de pessoas a mais vivendo com menos de US$ 5,5 por dia. Metade desse incremento foi no Estado de São Paulo, o mais rico do país, que tinha 6,7 milhões de pessoas na pobreza, 1,1 milhão a mais que no ano anterior.

Erradicar a pobreza depende de decisões. Você pode subsidiar a moradia e a alimentação, gerar empregos, contemplar isso tudo. Mas, se você quiser resolver o problema amanhã, numa canetada, esse seria o montante necessário a ser investido”, disse o pesquisador Leonardo Athias, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Continuar a ler

Grande Depressão Mundial: Perda de Riqueza

Os estatísticos estão se desdobrando para explicar as perdas das diferentes classes de ativos em 2018. Para uma firma conceituada, a situação não era tão ruim desde que Richard Nixon estava na Casa Branca. A Ned Davis Research separa os mercados em oito grandes classes de ativos, passando por títulos, ações domésticas e internacionais e commodities. Nenhuma deve registrar retorno anual superior a 5%, fenômeno observado pela última vez em 1972.

Os investidores já viram perdas muito piores, mas a abrangência dos ativos que não geram ganhos pode fazer de 2018 um ano histórico. Isso vale para ações de grandes e pequenas empresas dos EUA, ações de mercados emergentes, títulos do Tesouro americano, títulos com grau de investimento, commodities e ativos imobiliários. A maioria acumula queda e qualquer valorização é mínima.

É um contexto único na história. Geralmente, quando uma coisa cai, outra sobe. Em meio à catástrofe financeira de 2008, os títulos do Tesouro americano dispararam. Em 1974, as commodities se destacaram. Em 2002, foram os fundos de investimento imobiliário.

Em 2018, o investidor não tem para onde correr. Muitos culpam a retirada dos estímulos pelos bancos centrais. Pesa sobre os mercados a preocupação sobre como os preços dos ativos reagem à retirada de políticas monetárias ultraflexíveis. Continuar a ler

Declínio Social no Brasil X Ascensão Social no Resto do Mundo

Carlos Rydlewski (Valor, 23/11/18) informa: pela primeira vez na história da humanidade, pouco mais da metade da população global (3,8 bilhões de pessoas) vive em lares que podem ser classificados como de “classe média” ou “ricos”. A partir de agora, “pobreza” e “vulnerabilidade” não mais retratam as condições de vida da maioria dos habitantes do planeta. Este momento de inflexão ocorreu em setembro de 2018 e foi identificado por um estudo dos pesquisadores Homi Kharas e Kristofer Hamel, da Brookings Institution, “think tank” com sede em Washington. Para tanto, eles esmiuçaram dados de renda e gastos em domicílios de 188 países.

Outro dado que chama atenção no trabalho de Kharas e Hamel é a rapidez
com que se dá essa mobilidade, com destaque para o avanço da classe média. Atualmente, cinco pessoas ingressam nesse grupo social a cada segundo – tempo equivalente a um breve piscar de olhos. O número de ricos também avança, mas em ritmo menos estonteante – um a cada dois segundos. Salvo um infeliz revés econômico mundial, desde já a Terra vive uma nova era em que a classe média se impõe como maioria global.

Nós, brasileiros, estamos à margem dessa ascensão social. Não foi assim, no entanto, entre 2003 e 2014. Nesse período, durante o período classificado pela direita de “milagre das commodities” (tipo “Lula deu sorte”) e de Era Social-Desenvolvimentista pela esquerda, 66,5 milhões de brasileiros ascenderam à classe média, contingente que corresponde à população da França. Nessa fase, indicam dados do economista Marcelo Neri, da FGV Social, o PIB per capita cresceu 28,4%, enquanto a renda da classe média saltava 62,2%.

O consumo explodiu. “Dados de 2014 mostram que, naquele ano, 33,6% das pessoas que viajavam de avião o faziam pela primeira vez, assim como 46,2% das que contratavam planos de saúde ou 65,5% das que compravam um computador”, diz Neri.

O problema, porém, é que tudo isso começou a virar pó antes mesmo da chegada de 2015. O golpismo de direita começou a ser articulado no ano pré-eleitoral a partir das Passeatas de Junho de 2013. Com a derrota eleitoral no fim de 2014, o processo do golpe se desenvolveu com o questionamento do resultado democrático. Continuar a ler

Selic a 6,5% aa: Riqueza Financeira Per Capita Estagnada em 2018

O COPOM (Comitê de Política Monetária) já tinha fixado a Selic-meta em 14,25% aa (desde 29/07/2015) quando assumiu sua presidência o ex-economista chefe do Banco Itaú, a partir do golpe na Presidenta eleita em 12 de maio de 2016. Ele manteve essa taxa de juros de referência até 19/10/2016, em que pese a taxa de inflação estar caindo desde janeiro daquele ano. No acumulado em 12 meses, ela caiu de 10,7% para 7,8% em outubro de 2016. O IPCA mensal do mês anterior já tinha atingido 0,08%, quase zero de inflação. Aí o Banco Central do Brasil saiu de sua inércia “não neutra”. Era concentradora de riqueza financeira.

Face à Grande Depressão do biênio (-7,2% no PIB), o COPOM se apressou para tirar o atraso, baixando a taxa de juro básica até o nível de 6,5% aa em 21/03/2018. O IPCA já estava no centro da meta anual (4,57%). Em que pese o corte da taxa de juro, a taxa de inflação continuou em queda até 2,45% em agosto de 2017. Depois voltou a subir, mas se manteve abaixo do teto da meta.

A demora em cortar a taxa de juro elevou muito a concentração da riqueza financeira. Os clientes Private Banking ganharam em média per capita quase um milhão de reais em 2016, mais quase 800 mil reais em 2017. No ano corrente, até setembro, estão tristes, tristinhos… Ganharam só R$ 256 mil, veja só! Só ¼ de milhão de reais em nove meses! Que pobreza! Miserê… Continuar a ler

Desigualdade no Brasil de 2016 a 2017: Não Piorou Por Causa da Herança Bendita

A mudança mais relevante é a participação da renda do trabalho na renda total ter caido. Isso, junto com um leve aumento na sua progressividade, reduziu a contribuição dos rendimentos do trabalho à desigualdade em 0,7 ponto de Gini. Infelizmente, aumentos na participação das rendas da previdência e do capital na renda total anularam boa parte do efeito do mercado de trabalho, levando à redução pífia de 0,18 ponto vista no gráfico 1. 

Uma análise de mercado de trabalho foi igualmente feita. Os resultados se encontram no gráfico 2. A renda do trabalho, em si, tem levado a uma maior desigualdade desde o início de 2016. No entanto, como a proteção social responde por 20% da renda das famílias, suas transferências foram suficientes para não ter havido aumento na desigualdade.

O sistema de proteção social no Brasil sofre de múltiplos problemas – é mal focalizado, é muito caro, é pouco progressivo, transfere altos valores a famílias ricas. Coube a ele, porém, evitar um aumento da desigualdade durante uma recessão. Além do golpe semi-parlamentarista contra a Presidenta eleita, a Grande Depressão golpeou duramente o mercado de trabalho. 

Arícia Martins (Valor, 07/11/18) informa: a piora do mercado de trabalho após a recessão poderia ter aumentado a desigualdade social no Brasil entre 2016 e 2017, não fossem as transferências de renda do Estado. Elas contribuíram na direção contrária. A conclusão está no estudo “Desigualdade no Brasil de 2016 a 2017: um Exercício de Decomposição e Análise de Mercado de Trabalho de Pouca Mudança“, divulgado ontem pelo Ipea.

Segundo Sergei Suarez Dillon Soares, técnico de planejamento e pesquisa do instituto e autor do levantamento, houve pequena redução do coeficiente de Gini entre 2016 e o ano passado, de 0,541 para 0,539. O índice varia de zero a um, sendo zero a distribuição perfeitamente igualitária. Os cálculos foram feitos com base em dados de renda da Pnad Contínua. Continuar a ler

“Classe Média Espremida”: Determinante da Eleição de Bolsonaro?

Thais Carrança (Valor, 06/11/18) entrevista os economistas Marc Morgan e Amory Gethin, pesquisadores da Paris School of Economics – a mesma de Thomas Piketty.

Durante parte da era petista, entre 2003 a 2014, no período que antecedeu a crise, os mais pobres viram sua renda crescer acima da média nacional, como resultado de uma combinação de valorização do salário mínimo, programas sociais de transferência de renda e investimento público substancial. Ao mesmo tempo, condições favoráveis no mercado financeiro e crédito subsidiado abundante beneficiaram os mais ricos. Enquanto isso, a classe média viu sua renda crescer apenas moderadamente, ou até mesmo diminuir. Nesse cenário foram gestadas as sementes da polarização política das eleições de 2018, acreditam os jovens economistas.

Orientando do autor de “O Capital no Século XXI” e pesquisador do Laboratório de Desigualdade Mundial da escola parisiense, Morgan estudou a evolução da desigualdade brasileira de 2001 a 2015, constatando que ela pouco diminuiu no período. Economista do mesmo laboratório, Gethin analisou comportamentos eleitorais no Brasil, África do Sul, Austrália, Canadá e Japão e sua relação com a implementação de políticas redistributivas nesses países.

Para os especialistas em desigualdade, a ascensão da direita populista no Brasil é diferente daquela da Europa e Estados Unidos. Nas economias desenvolvidas, dizem, o movimento teve apoio principalmente das camadas mais pobres e menos instruídas, em um momento em que a social democracia voltou-se para temas como ambiente, igualdade de gênero e direitos LGBT, negligenciando pautas relacionadas a renda e emprego.

Para Morgan e Gethin, o oposto parece ter ocorrido no Brasil, onde “o populismo de [Jair] Bolsonaro encontrou forte apoio entre as classes média e alta, em parte devido às políticas redistributivas do PT“, afirmam eles, em entrevista ao Valor realizada por e-mail.

O diagnóstico vai ao encontro da avaliação da própria equipe de Bolsonaro, conforme expresso pelo futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, em entrevista ao jornal “El País” em agosto. “Bolsonaro está representando uma classe média esquecida e abandonada, agredida em seus princípios e valores, e que quer ordem“, disse Guedes à época.

Morgan e Gethin comentam ainda os impactos das políticas econômicas para tornar ou não a distribuição de renda mais igualitária em um país como o Brasil. Ele é ainda apontado como exemplo internacional de desigualdade extrema. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista: Continuar a ler