Nova Economia: Combate à Pobreza prioritária frente ao Combate à Desigualdade

NOTA: observe no quadro acima, nos últimos 3,5 anos, enquanto 123 mil clientes Private Banking atingiram a riqueza financeira per capita de R$ 9,3 milhões, aumentando-a em R$ 2,8 milhões, os 73 milhões clientes do varejo enriqueceram per capita em apenas R$ 6.140,77. A classe média baixa perdeu R$ 1.466,82 e a classe média alta ganhou só R$ 28.839,47 em média per capita. Os ricaços aumentaram sua participação de 34% para 38% do total. Quem bateu panela vazia a favor do golpe era feliz e não sabia…

A chamada Nova Democracia, ou Nova Economia, tendo como foco central o humanismo iluminista, adota como uma de suas características a multidisciplinariedade. Adeptos da visão holística tratam a economia como um dos componentes de um sistema complexo, emergente das interações entre todos eles. Essa ótica exige sim um novo conhecimento transdisciplinar, onde as especializações não são apenas justapostas, mas as distintas áreas de conhecimentos são integradas de maneira coerente e consistente. O objetivo é superar a compartimentalização da antiga divisão de trabalho científico.

À la Karl Polanyi, defende uma economia humanizada e incrustada na sociedade. Devido a essa “incrustação”, a economia deixa de ser vista como autônoma, como fosse autodeterminante de um sistema à parte. A Nova Economia também se contrapõe aos pregadores de mercados autorregulados. São ideólogos defensores da subordinação da sociedade à lógica do mercado.

Pelo contrário, na história predominou a subordinação da economia à sociedade. Quando se buscou impor a autorregulação dos mercados, a sociedade reagiu. Pela Nova Democracia, permanece o combate ao predomínio de uma zona de interesses – a Economia – sobre as demais. As políticas públicas devem ser desenvolvidas de forma sistêmica, levando em conta os conflitos de interesses relacionados às escolhas de instrumentos da política econômica, de políticas sociais, das formas de gestão de empresas estatais, etc.

Uma das ideias-força da Nova Economia é a redução das desigualdades. Pressupõe ser este o mote principal, em torno do qual todas as políticas se entrelaçam. Como um lema de vida, o mote dos revolucionários é instaurar uma ordem social igualitária.

Convencionalmente, se colocam na esquerda as pessoas defensoras da eliminação das desigualdades sociais. A direita insiste na convicção de as desigualdades serem naturais e, enquanto tal, não são elimináveis. É um reducionismo binário. Cabe ampliar a reflexão para abranger toda a complexidade existente em torno da questão da desigualdade.

A leitura do capítulo a respeito no livro de autoria do psicólogo evolucionista Steven Pinker, “O novo Iluminismo: Em defesa da razão, da ciência e do humanismo” (SP: Cia. das Letras; 2018), nos propicia questionar esse dogma, caso ele seja apresentado de maneira estática ou absolutista.

Continuar a ler

Vergonha do General e do Procurador: 99% querem igual

Para o ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), é uma vergonha ele, como general do Exército, receber um salário líquido de R$ 19 mil – cerca de 10 vezes o rendimento líquido médio da população ocupada. A declaração foi dada em resposta a questionamento sobre o valor antes ganho como diretor do COB (Comitê Olímpico do Brasil): aproximadamente R$ 55 mil, sem correção inflacionária para valor real atual.

Conversa entre os procuradores obtida pelo site The Intercept e analisada em conjunto com a Folha de S.Paulo apontam o procurador-chefe da Lava Jato ter montado um plano de negócios de eventos e palestras para lucrar com a fama, dada a espetacularização midiática da perseguição política ao favorito na eleição de 2018. Ele era adversário do capitão acertado com o juiz parcial da operação. O procurador usava os contatos obtidos durante as investigações de corrupção para seu próprio enriquecimento pessoal.

A ideia de criar uma empresa de eventos para aproveitar a repercussão da Lava Jato foi manifestada pelo procurador em dezembro de 2018 em um diálogo com sua mulher. No mesmo mês, o procurador e um colega criaram um grupo de mensagens específico para discutir o tema, com a participação das esposas deles como “laranjas”. Eles teriam se articulado para obter lucro mediante a realização de palestras pagas e obtidas com o uso de seus cargos públicos. Tais palestras teriam se dado em parceria com empresas privadas, dividindo os valores do tráfico de influência.

Cerca de três meses antes de iniciar o grupo para discutir a abertura da empresa, o procurador informou à esposa sobre a lucratividade das palestras apurada até setembro de 2018. “As palestras e aulas já tabeladas neste ano estão dando líquido 232k [R$ 232 mil]. Ótimo… 23 aulas/palestras. Dá uma média de 10k [R$ 10 mil] limpo.”

No mês seguinte, o procurador manifestou a expectativa para o fechamento de 2018. “Se tudo der certo nas palestras, vai entrar ainda uns 100k [R$ 100 mil] limpos até o fim do ano. Total líquido das palestras e livros daria uns 400k [R$ 400 mil]. Total de 40 aulas/palestras. Média de 10k limpo”, disse o procurador em linguagem de traficante.

Caso tenha atingido a meta de faturamento líquido de R$ 400 mil em 2018, essa remuneração pode ter superado a soma dos salários recebidos como procurador da República naquele ano. Dados do Portal da Transparência do Ministério Público Federal mostram ele ter recebido cerca de R$ 300 mil em rendimentos líquidos em 2018, sem considerar valores de indenizações.

A tradução de “procurador”, para economês, passa a ser: quem se dedica à rent-seeking ou procura de renda. É a tentativa de obter renda econômica pela manipulação do ambiente social ou político no qual as atividades econômicas ocorrem, em vez de agregar valor à sociedade. Um exemplo de rent-seeking no passado era a limitação do acesso a cargos qualificados imposta pelas guildas medievais. Estudos atuais sobre rent-seeking focam na captura do regulador, ou seja, na exploração pelo agente público, no caso, do procurador, dos privilégios de monopólio decorrentes da regulação protecionista de suas atividades corporativas. Usa e abusa do corporativismo judicial.

Continuar a ler

Estagnação e Pobreza Extrema

Naercio Menezes Filho (Valor, 21/06/19) avalia: o Brasil obteve grande avanço nos seus indicadores sociais nos últimos 30 anos. Houve queda significativa na mortalidade infantil, pobreza, desigualdade e aumento da escolaridade. Porém, ao mesmo tempo vivemos um processo de estagnação de produtividade. Grande parte do crescimento do nosso PIB per capita nas últimas décadas ocorreu pelo aumento do número de trabalhadores empregados e não pelo crescimento da produtividade desses trabalhadores. Será que essa estagnação estrutural coloca em risco os avanços sociais obtidos nas últimas décadas? Como podemos sair desse processo de estagnação de longo prazo?

Um dos avanços mais significativos obtidos no passado recente foi a redução da pobreza extrema. Para definir a porcentagem de pessoas extremamente pobres, temos que usar uma linha de indigência, que define a renda mensal mínima suficiente para que as pessoas possam suprir suas necessidades calóricas básicas. Nesse artigo usamos as linhas de indigência produzidas pela economista Sonia Rocha, que leva em conta diferenças de custo de vida entre regiões. As pessoas com renda familiar per capita abaixo da linha de indigência não ganham o suficiente nem para se alimentar adequadamente.

A figura acima mostra a porcentagem de pessoas na pobreza extrema por idade em três momentos do tempo: 1990, 2015 e 2017. Podemos verificar que em 1990, logo após a promulgação da Constituição de 1988, mais de 1⁄4 das crianças brasileiras com até 9 anos estavam na pobreza extrema.

Obviamente, a maioria dessas crianças não teve condições de desenvolver as habilidades cognitivas e socio-emocionais necessárias para o aprendizado adequado. Hoje em dia, elas estão com cerca de 24 anos, grande parte delas sem estudo nem trabalho, muitas delas no crime. Podemos notar também como a pobreza diminui ao longo da vida quando as pessoas começam a trabalhar, mesmo que seja no setor informal ou por conta-própria.

Entre 1990 e 2015 a redução na pobreza extrema em todas as idades foi impressionante. Em 2015, 5% das crianças eram indigentes, 2,5% dos adultos e praticamente nenhum idoso. O que aconteceu entre esses anos? Entre os idosos o principal mecanismo foi a introdução do BPC e a mudança nas regras da aposentadoria rural, que passaram a ser indexados ao salário mínimo, que aumentou muito nesse período. Entre as crianças, os principais fatores foram a introdução e expansão do programa Bolsa-família e o forte aumento da renda do trabalho entre as famílias mais pobres nos anos 2000. Continuar a ler

Planos de Carreira Profissional e Desigualdade Salarial

Obs.: no mercado de trabalho formal, o salário médio das 10,202 milhões de pessoas com nível de Educação Superior (R$ 5.832,38) foi quase o triplo do pessoal sem nível superior (R$1.971,82). Em termos de salários mínimos, o salário médio era de 3,3 salários entre os homens e de 2,7 entre as mulheres, e de 2,1 salários mínimos entre as pessoas sem nível superior e 6,2 salários mínimos entre aqueles com nível superior. No ano de 2017, as 5 milhões de empresas e outras organizações ativas no País ocupavam, em 31 de dezembro, 51,9 milhões de pessoas (40 milhões dos 92 milhões de pessoas ocupadas são, então, informais), das quais 45,1 milhões como assalariadas, sendo 35 milhões sem Educação Superior. Todos juntos receberam R$ 1,7 trilhão em salários e outras remunerações. Essas e outras informações integram o estudo Estatísticas do Cadastro Central de Empresas – CEMPRE 2017, pesquisa-base do IBGE. 

Alguns cientistas estão empenhados em conhecer os fatores racionais e emocionais capazes de levar os indivíduos a gastar ou investir. Áreas distintas da ciência estão somando conhecimentos para estruturar o campo de estudo destinado a cumprir essa tarefa: a Neuroeconomia. Ela é resultado da união de ferramentas de investigação e conhecimentos da Psicologia, da Economia e da Neurologia. Esta tem sofisticados aparelhos de diagnóstico por imagem ou tomografia, por ressonância magnética funcional e/ou por eletroencefalograma portátil, em forma de capacete com eletrodos para mapear o funcionamento do cérebro sob determinados estímulos.

Ofereci, no semestre passado, um curso eletivo para alunos do último ano de graduação de Economia pela Unicamp para divulgar ensinamentos sobre a cultura financeira. São conhecimentos a respeito das formas de acumulação e manutenção de riqueza através da seleção de carteira de ativos. Ensinei técnicas de planejamento financeiro da vida pessoal até a aposentadoria, para substituir a renda do trabalho pela renda do capital financeiro e/ou imobiliário. É uma necessidade para todos os profissionais cujos vencimentos superam o teto do INSS (R$ 5.840 em 2019) com o objetivo de manter seu padrão de vida durante a aposentadoria.

Os alunos adquiriram uma educação financeira a respeito de rendas do trabalho, do capital produtivo, do capital financeiro, do capital imobiliário. Aprenderam rudimentos de neuromarketing para prevenções contra os impulsos emocionais para consumir. Obtiverem conhecimentos de Neuroeconomia ou psicologia dos investidores em Finanças Comportamentais. Discutirmos o que seria a economia da felicidade ou da boa vida. Na avaliação final, solicitei de cada aluno um planejamento financeiro da vida pessoal e/ou familiar, inclusive no período da aposentadoria.

Continuar a ler

Rendimentos do Trabalho no Brasil: 1976-2015

Os seguintes gráficos partem de um levantamento da iniciativa Brasil em Dados com base em dados da Pnad e analisam a evolução do rendimento real mensal (ajustado pela inflação) dos brasileiros, de 1976 a 2015, para diferentes grupos sociais.

Para todos os gráficos, é considerado o rendimento real habitualmente recebido em todos os trabalhos, ou seja, não é considerada renda de aluguéis, lucros e juros.

Link para matéria no Nexohttps://www.nexojornal.com.br/grafico/2018/10/22/A-evolu%C3%A7%C3%A3o-da-renda-do-trabalho-dos-brasileiros-desde-1976

Continuar a ler

Pós-Golpe: Reconcentração de Renda e Classe Média Em Queda


Amália Safatle (Valor, 31/05/2019) publicou reportagem comparando o presente tenebroso com um contexto auspicioso da economia brasileira: a Era Social-desenvolvimentista (2003-2014) iniciada no Governo Lula. Na primeira década dos anos 2000, a junção entre estabilidade da moeda, alta das commodities, expansão de emprego, renda e crédito, valorização do salário mínimo, políticas sociais e redistributivas abriu o horizonte de oportunidades para as classes desfavorecidas.

O brasileiro pôde comprar mais alimentos, como proteína, mas também investiu em moradia, saúde, transporte, estética pessoal e bens duráveis – o consumo deste último saltou 104% entre 2000 e 2012, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O maior acesso a bens culturais, à formação técnica e à educação superior veio no bojo do crescimento econômico. As estatísticas tradicionais que contabilizam a venda de livros físicos, ingressos de cinema e CDs não captam bem a realidade.

Segundo esses indicadores, o consumo de bens culturais não teria acompanhado o de bens duráveis que houve na ascensão da classe média entre 2003 e 2012. Mas, diferentemente do que dizem os números, o especialista em economia do entretenimento Fábio Sá Earp, professor da UFRJ, suspeita que o consumo de bens culturais, na verdade, tenha crescido — e muito. Continuar a ler

Desigualdade Social: Riqueza X Educacional

Até a crise de 1929, 1% dos norte-americanos ficavam com 48% da riqueza, porcentagem que caiu para 28% em 1968, mas voltou aos 48% na crise do período 2008/09. Nos últimos dez anos, os salários perderam para os lucros dez pontos percentuais de sua participação na renda nacional dos EUA.

Paul Krugman, ganhador de Nobel em Economia, publicou artigo (NYT/FSP, 23/04/19) onde afirma: o bordão do “1%” se tornou um problema, obscurecendo a natureza da divisão de classes nos Estados Unidos do século 21.

O foco no 1% de pessoas com renda mais alta era visto originalmente como forma de corrigir a ideia reconfortante, mas falsa, de que a desigualdade cada vez maior era simplesmente resultado dos avanços na escolaridade. A realidade é que, nas últimas décadas, o formando universitário médio registrou avanço modesto em sua renda, e o dinheiro grosso foi para as pessoas bem no alto da pirâmide. Falar do “1%” era uma forma de reconhecer essa realidade de maneira sucinta, e vinculá-la a dados amplamente disponíveis.

Sim, existe uma grande diferença entre as pessoas que têm renda suficiente para não se preocuparem demais com dinheiro, e as que precisam viver na insegurança financeira que aflige muitos americanos que se consideram como parte da classe média.

Continuar a ler