Concentração de Renda no Brasil: 2018

Fernando Canzian (FSP, 16/10/19) informa: o rendimento médio mensal obtido com trabalho do 1% mais rico da população brasileira atingiu, em 2018, o equivalente a 33,8 vezes o ganho obtido pelos 50% mais pobres. No topo, o rendimento médio foi de R$ 27.744; na metade mais pobre, de R$ 820.

A diferença entre os rendimentos obtidos pelo 1% mais rico e dos 50% mais pobres (https:/www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/10/premiados-com-nobel-de-economia-fazem-perguntas-muito- simples-sobre-a-pobreza.shtml) no ano passado é recorde na série histórica da PNADC (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua) do IBGE, iniciada em 2012.

A desigualdade aumentou (https:/temas.folha.uol.com.br/desigualdade-global/brasil/super-ricos-no-brasil- lideram-concentracao-de-renda-global.shtml) porque o rendimento real do trabalho da metade mais pobre caiu ou subiu bem menos do que o dos mais ricos, sobretudo nos últimos anos.

O aumento da desigualdade reflete a recessão do mercado de trabalho nos últimos anos. Impacta principalmente aqueles que vivem de ocupações menos formais. Os mais pobres acabam sofrendo mais do que aqueles carteira de trabalho ou os funcionários públicos, por exemplo.

De 2017 para 2018, por exemplo, o ganho dos 10% mais pobres caiu 3,2% (para R$ 153 em média) enquanto o do 1% mais rico aumento 8,4% (para R$ 27.774). Continuar a ler

Fluxos de Rendimentos Familiares e Variação Patrimonial

Os níveis de estoque de riqueza mudam com o tempo, devido ao saldo entre seus fluxos de entradas e de saídas. Com reforços de feedback, quanto mais se tem, mais se ganha. Amplificam o movimento em círculos virtuosos ou viciosos: booms e crashes.

Segundo as diferentes classes de rendimentos e variação patrimonial, a POF (Pesquisa de Orçamento Familiar) 2017-2018 registrou diferenças importantes entre as distribuições de gastos das famílias. Fica patente a desigualdade social ao confrontar as características das famílias por grupos de despesas de consumo e seus impactos nos gastos familiares totais das classes extremas de rendimentos definidas: até R$ 1.908,00 (24% do total de 69 milhões de famílias) e acima de R$ 23.850,00 (1,8 milhões ou menos de 3% do total). O primeiro agrupamento corresponde às famílias até dois salários mínimos de R$ 954, além das sem rendimentos. O mais rico se refere às famílias com renda acima de 25 salários mínimos.

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Relatório sobre Riqueza Global Fictícia do Credit Suisse

Adriana Cotias (Valor, 21/10/2019) informa: o Brasil apresentou uma das taxas de crescimento de riqueza mais elevadas de meados de 2018 para cá, embora os fundamentos macroeconômicos não justifiquem o enriquecimento. Segundo mapeamento global feito pelo Credit Suisse, as famílias brasileiras reuniam ativos da ordem de US$ 3,5 trilhões no fim de junho, com um aumento de US$ 312 bilhões no intervalo de um ano. Esse valor patrimonial equivale quase ao dobro do PIB brasileiro em dólares!

Em paralelo, o número de milionários no país subiu de 217 mil adultos para 259 mil, um incremento de 19,4%, colocando o país no grupo de economias com maior crescimento no período, atrás de Holanda, Alemanha, China, Japão e Estados Unidos.

No Brasil, os ativos financeiros respondiam por 49% do patrimônio bruto das famílias, em comparação a 42% em 2010. É próximo do indicado pelas DIRPF.

As estimativas apontam para um total de 319 mil adultos com patrimônio financeiro acima de US$ 1 milhão no Brasil até 2024, uma elevação de 23%. Trata-se de uma projeção conservadora, porque os pesquisadores do grupo suíço envolvidos no Global Wealth 2019 levaram em conta o crescimento do PIB dos últimos 10 anos, período marcado por taxas modestas e uma Grande Depressão em 2015 e 2016.

Na realidade, como o banco suíço não apresenta sua metodologia, isto é um “chute”! “Se o Brasil ingressar numa fase mais virtuosa como se prenuncia com os juros mais baixos da história, o país pode até somar até 350 mil milionários em cinco anos”, calcula o porta-voz, fazendo apologia enganosa.

“O curioso é que isso é uma Bélgica. No fundo, não é que não tenha um universo fantástico [de indivíduos ricos], mas são 212 milhões de pessoas no país [menos, menos]. O Brasil precisa crescer mais rápido que a média histórica, vai ter mais milionários e reduzir a desigualdade.”

[Fernando Nogueira da Costa: não é um idiota? “Vai ter mais milionários e reduzir a desigualdade”?! Onde esse cara estudou?] Continuar a ler

Grupos Ocupacionais com crescimento entre 2010 e 2017

João Saboia (Valor, 17/10/2019) é professor emérito do Instituto de Economia da UFRJ. Participava comigo do Núcleo dos Economistas do PT, criado antes mesmo da fundação oficial do partido em 1980. Reproduzo seu artigo abaixo.

“Com cerca de 28 milhões de pessoas subutilizadas, o mercado de trabalho vive dificuldades sem precedentes. Após seis anos de recessão e crise na economia brasileira essa é uma consequência inevitável. Desde 2014 o número de desocupados dobrou, saltando de 6,4 para 12,6 milhões. Já os desalentados (que desistiram de procurar emprego) triplicaram, subindo de 1,5 para 4,7 milhões no mesmo período. Enquanto isso, a informalidade não para de crescer e as filas de pessoas em busca de emprego não param de aumentar.

Em um momento como esse uma leitura cuidadosa do mercado de trabalho pode nos trazer algumas dicas de onde estariam sendo gerados empregos no país. Em nosso artigo de 1/7 neste mesmo espaço do Valor – “Os Melhores Empregos são os que mais crescem” – apresentamos os grupos ocupacionais que tiveram o maior crescimento a partir de 2003 até 2017. De forma, até certo ponto surpreendente, concluímos que o maior crescimento do emprego estava associado a trabalhos relativamente bem remunerados, em geral ocupados por profissionais de nível superior ou técnicos de nível médio.

Desta vez voltamos ao mesmo tema, porém analisando as ocupações de forma mais desagregada para obter informações mais detalhadas. A fonte de dados é a mesma, a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) que cobre o mercado formal de trabalho. Segundo a Rais, havia 46,3 milhões de postos de trabalho em 2017. Continuar a ler

Pobreza, Miséria e Desigualdade Social: Resultado da Volta da Velha Matriz Neoliberal

Com a reforma trabalhista dos golpistas a CUT foi arrasada. Somado ao desemprego, entende-se a pobreza e a miséria brasileira ter aumentado.

Bruno Villas Bôas (Valor, 17/10/2019) informa: lentamente e pela informalidade a recuperação do mercado de trabalho foi suficiente para reduzir a pobreza no país em 2018, após três anos seguidos de piora, mostram cálculos da consultoria LCA a partir dos microdados Pnad Contínua, pesquisa domiciliar do IBGE. Porém, a pobreza extrema, de quem passa fome, seguiu crescendo e permanece um grande desafio social não enfrentado pelo atual governo de extrema-direita.

Segundo o levantamento, o Brasil tinha 52,8 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza no ano passado, 1,3 milhão a menos face a 2017 (54,1 milhões), o correspondente a uma queda de 2,4%. Esse resultado interrompe uma sequência de três anos de piora do indicador, mas segue modesta. De 2015 a 2017, 8,3 milhões de brasileiros tornaram-se pobres no país.

Para chegar aos números, a LCA adotou as linhas do Banco Mundial para países de renda média, como o Brasil. Para a pobreza, a linha de corte é a renda de US$ 5,50 por pessoa por dia (R$ 421 por mês). Na pobreza extrema, a linha é de US$ 1,90 por dia (R$ 145 mensais). Os valores foram convertidos pela metodologia do IBGE, que também adota essas faixas. Existem outros critérios de linhas de pobreza, como do Bolsa Família e da FGV Social, que podem sugerir dinâmicas diferentes.

Segundo o autor dos cálculos, a melhora da foi liderada pelo Sudeste. O número de pessoas pobres vivendo na região recuou para 14,4 milhões no ano passado, 6,9% menos que em 2017 (15,5 milhões de pessoas). Nas demais regiões, as variações foram consideradas estatisticamente estáveis, dentro do intervalo de confiança da pesquisa (margem de erro). Continuar a ler

PNAD Contínua 2018: 10% da população concentram 43,1% da massa de rendimentos do país

O Índice de Gini do rendimento médio mensal real domiciliar per capita, que varia de zero (igualdade) até um (desigualdade máxima), foi estimado em 0,545 em 2018. Entre 2012 e 2015 houve uma tendência de redução (de 0,540 para 0,524), que foi revertida a partir de 2016, quando o índice aumentou para 0,537, chegando a 0,545 em 2018.

Quando calculado para o rendimento médio mensal recebido de todos os trabalhos, o Índice de Gini foi de 0,508 em 2012, caindo até 0,494 em 2015 e voltando a subir até 0,509 em 2018.

Em 2018, o rendimento médio mensal real do 1% da população com maiores rendimentos era de R$ 27.744, o que corresponde a 33,8 vezes o rendimento dos 50% da população com os menores rendimentos (R$ 820).

Essas e outras informações fazem parte do módulo Rendimento de Todas as Fontes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, publicada pelo IBGE. O material de apoio da divulgação está no fim deste post.

A pesquisa também mostrou que a massa de rendimento médio mensal real domiciliar per capita, que era de R$ 264,9 bilhões em 2017, cresceu para R$ 277,7 bilhões em 2018. Os 10% da população com os menores rendimentos detinham 0,8% da massa, enquanto que os 10% com os maiores rendimentos concentravam 43,1%.

O rendimento médio real de todas as fontes teve crescimento de cerca de 5,1% de 2012 (R$ 2.072) a 2014 (R$ 2.177), depois caiu 3,1% em 2015 (R$ 2.110). Em 2016 e 2017, manteve relativa estabilidade e, em 2018, subiu 2,8%, para R$ 2.166. Está ainda abaixo do recebido no fim da Era Social-Desenvolvimentista, antes da volta da Velha Matriz Neoliberal.

O rendimento médio mensal real de todos os trabalhos (calculado para as pessoas de 14 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência), que era de R$ 2.133 em 2012, chegou a R$ 2.279 em 2014 , caindo 4,1% em 2015 e mantendo-se quase estável nos dois anos seguintes, para depois chegar a R$ 2.234 em 2018. Em relação a 2012, o indicador de 2018 representou crescimento real de 4,7%.

A massa de rendimento mensal real de todos os trabalhos da população ocupada era em 2018, de aproximadamente R$ 201,3 bilhões, 9,5% acima do valor registrado em 2012.

De 2012 (R$ 1.390) a 2015 (R$ 1.416) o rendimento médio mensal real proveniente de outras fontes (aposentadorias, pensões, alugueis, programas de transferência de renda etc.) acumulou ganho de 1,9%. Em 2016 (R$ 1.400) registrou perda de 1,1%, que foi revertida nos dois anos seguintes – com expansão de 2,4% e 3,2%, respectivamente – atingindo valor médio de R$ 1.479 em 2018. Regionalmente, o Nordeste (R$ 971) registrou a menor média, enquanto o Sudeste (R$ 1.839), a maior em 2018.

No Brasil, em 2018, entre as categorias que compõem o rendimento de outras fontes, a aposentadoria ou pensão foi o item de maior valor médio (R$ 1.872), destacando-se o Centro-Oeste com o maior valor (R$ 2.191) e o Nordeste, com o menor (R$ 1.473). O crescimento dessa categoria de rendimento entre 2017 e 2018 foi de 3,3% e, em relação a 2012, de 7,3%.

O percentual de domicílios atendidos pelo Bolsa Família caiu de 15,9% em 2012 para 13,7% em 2018.

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Capital e Ideologia

Simon Kuper (Financial Times 27/09/2019) anuncia: em ‘Capital e Ideologia’, Piketty ataca as justificativas de desigualdade. Reproduzo abaixo sua resenha.

“O novo livro de Thomas Piketty, “Capital e Ideologia”, será lançado em inglês no mês de março de 2020. Mas tive uma prévia dele ao entrar em minha livraria parisiense favorita e comprar a edição francesa por € 25. Minha conclusão: o tomo de 1.200 páginas poderá se tornar ainda mais politicamente influente do que a visão de 2013 do economista francês sobre a desigualdade em “O Capital no Século 21”.

Com uma pequena ajuda do livro, a desigualdade ganhou mais peso na agenda da esquerda, especialmente nos particularmente desiguais Estados Unidos e Reino Unido. Agora, a senadora democrata Elizabeth Warren tem a oportunidade de se tornar a presidente americana mais distribucionista desde Franklin D. Roosevelt, com um líder trabalhista elegível pós-Jeremy Corbyn podendo conseguir o mesmo no Reino Unido.

Piketty argumenta por que este pode ser o momento para uma virada em direção à igualdade e discorre sobre quais políticas poderiam fazer isso acontecer.

Sua premissa é: a desigualdade é uma escolha política. É algo pelo qual as sociedades optam, e não um resultado inevitável da tecnologia e da globalização. Enquanto Karl Marx via a história como uma luta de classes, Piketty a vê como uma batalha de ideologias.

Todas as sociedades desiguais, diz ele, criam uma ideologia para justificar a desigualdade. Isso permite aos ricos dormir tranquilos em suas casas, enquanto os sem-teto congelam do lado de fora.

Em sua história excessivamente ambiciosa da desigualdade, indo da Índia antiga aos EUA de hoje, Piketty relata as justificativas repetidas ao longo do tempo:

  • “os ricos merecem sua riqueza”;
  • “ela vai se multiplicar”;
  • “eles devolvem por meio da filantropia”;
  • “propriedade é liberdade”;
  • “os pobres são indignos”;
  • “uma vez que se começa a redistribuir a riqueza, não sei sabe onde parar e haverá o caos” (esse era um argumento favorito depois da Revolução Francesa);
  • “O comunismo fracassou”;
  • “o dinheiro irá para os negros” (um argumento explicativo de por que a desigualdade continua sendo maior em países racialmente divididos, como Brasil, África do Sul e EUA). Continuar a ler