Fontes de Dados e Resultados Obtidos da Pesquisa sobre Efeitos da Educação

Marcelo Medeiros, Rogério J. Barbosa e Flavio Carvalhaes, no Texto para Discussão Ipea 2447, Educação Redução da Pobreza ou da Desigualdade (Brasília/Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; fevereiro de 2019), informam: a PNAD tende a captar melhor os rendimentos mais baixos. Por esse motivo foi utilizada principalmente nas análises sobre pobreza. As amostras dos Censos Demográficos, pela magnitude, são melhores na captação dos rendimentos mais elevados, tendo em vista a capacidade de contemplar nos sorteios fenômenos mais raros, como o pertencimento aos estratos mais altos.

Os dados da PNAD permitem o cálculo de anos de estudo. O censo de 2010 não possui as informações necessárias para este cálculo. No entanto, a PNAD não tem informações detalhadas sobre as áreas de formação no ensino superior, enquanto nos censos é possível identificá-las.

Para reduzir o número de categorias, os autores procederam agregações de áreas de formação semelhantes. Os agrupamentos foram formados, considerando dois critérios:

  1. a classificação na hierarquia implícita no ISCED e
  2. a fração de adultos dentro de cada área pertencentes ao estrato do 1% mais rico da distribuição de renda. Com isso, reduziram a heterogeneidade dentro dos grupos.

No censo demográfico, as categorias resultantes desse agrupamento foram as da tabela acima.

Uma reforma educacional ocorrida em certo ponto do tempo afeta apenas as pessoas com idade igual ou menor que 10 anos naquele momento, inclusive todas as pessoas a nascerem daquele ponto em diante. Trata-se, na realidade, de uma seleção de casos segundo a coorte de nascimento. Continuar a ler

Educação, Desigualdade e Redução da Pobreza no Brasil

Usando simulações retrospectivas, Marcelo Medeiros, Rogério J. Barbosa e Flavio Carvalhaes, no Texto para discussão Ipea 2447. Educação, Desigualdade e Redução da Pobreza no Brasil (Brasília/Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; fevereiro de 2019), examinam se as políticas de expansão de ensino poderiam reduzir a desigualdade e a pobreza no Brasil.

Os resultados obtidos indicam existem limitações nessa estratégia:

  • em primeiro lugar, apenas intervenções muito radicais (e improváveis) poderiam reduzir a desigualdade substantivamente (uma queda de mais de 10% no índice de Gini);
  • em segundo, em razão daquilo denominado de inércia demográfica, seriam necessárias muitas décadas até que aqueles resultados se efetivassem por completo.

Mostraram, assim, a educação não ser uma panaceia para o combate à pobreza e à desigualdade. Estes resultados são robustos quando testados com diferentes fontes de dados, em décadas distintas e usando várias medidas de desigualdade e pobreza.

A educação é um investimento bastante defensável. Para alguns, uma sociedade mais escolarizada seria intrinsecamente melhor, por os retornos sociais pela educação seriam superiores aos retornos privados. Esta hipótese não é testada. Parece os retornos da educação em valores pecuniários e culturais serem maiores sob o ponto de vista de indivíduos, inclusive agravando, inicialmente, enquanto não massificar com qualidade o Ensino Superior, a desigualdade social de renda, devido à mobilidade social da pessoa melhor educada.

Trata-se de um sofisma da composição: uma verdade sob o ponto de vista individual pode não corresponder ao desejado sob o ponto de vista coletivo. Daí não ser suficiente o individualismo metodológico para a análise social. É necessário o holismo metodológico para se obter uma visão completa do todo – e desenhar possíveis cenários esperados. Continuar a ler

Vantagem Educacional Competitiva no Mercado de Trabalho: Carência do Talento Digital

Thais Carrança (Valor, 07/03/19) informa: trabalhadores com ensino superior ganham bem mais que aqueles com ensino médio tradicional ou técnico e, em situações de crise econômica, têm mais chances de se manter no mercado de trabalho, preservando seus rendimentos. Essas são algumas das razões pelas quais é necessário dar continuidade às políticas públicas de acesso ao ensino superior, afirmam especialistas.

Quem faz ensino superior no Brasil ganha em média o dobro de quem fez ensino médio técnico e 150% a mais do que quem completou apenas o ensino médio tradicional, mostra levantamento feito pelo Centro de Políticas Públicas (CPP) do Insper.

Para realizar o estudo, a equipe do CPP, coordenada pelo economista Naercio Menezes Filho, utilizou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua de 2014, que permite diferenciar os rendimentos daqueles com ensino médio tradicional e técnico. A modalidade de ensino técnico considerada é a subsequente, em que o aluno cursa a formação técnica depois de ter concluído o ensino médio tradicional.

Em 2014, o salário médio da população com 25 anos ou mais era de R$ 1.866 mensais. Quem fez o ensino médio tradicional, não técnico, tinha rendimento médio de R$ 1.671. Já quem tinha o ensino técnico completo ganhava em média R$ 2.065, ou seja, 24% ou R$ 394 a mais. A renda média de quem tinha ensino superior era de R$ 4.181, o dobro de quem tinha ensino técnico e 150% a mais do que aqueles com ensino médio tradicional.

Os retornos de renda do ensino superior são menores para quem é mais pobre e maiores para quem é mais rico. Comparando com quem tem apenas o ensino médio tradicional, os mais pobres com ensino superior têm renda 38% maior. Enquanto isso, os mais ricos chegam a ganhar 200% mais, já que costumam cursar as melhores universidades do país e ter acesso às carreiras com maiores salários, como medicina, direito e engenharia. Continuar a ler

Educação para Redução da Pobreza ou da Desigualdade?

Thais Carrança (Valor, 07/03/19) informa: a expansão da educação não é suficiente para reduzir sozinha a desigualdade e a pobreza do Brasil. Segundo estudo do economista Marcelo Medeiros e dos sociólogos Rogério Barbosa e Flavio Carvalhaes, apenas intervenções muito radicais e improváveis no ensino poderiam reduzir a desigualdade da renda do trabalho de maneira significativa. Ainda assim, seriam necessárias muitas décadas para que elas tivessem efeito completo.

No estudo, cujos resultados foram publicados no artigo “Educação Redução da Pobreza ou da Desigualdade- TDIPEA-2447“, disponibilizado para discussão no site do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), os autores simulam o que poderia ter acontecido se melhorias substanciais no sistema educacional tivessem acontecido em décadas passadas.

Para isso, são criados cenários hipotéticos em que toda a força de trabalho tivesse no mínimo:

  1. ensino médio completo,
  2. superior incompleto e
  3. superior completo.

Nesse último caso, considerando diferentes cursos por renda média progressiva, como:

  1. Formação de Professores e Ciências da Educação,
  2. Economia, Administração e Negócios,
  3. Direito e
  4. Medicina. Continuar a ler

Pesquisa Anapar Finanças Pessoais e Previdência Brasil 2018

Com o objetivo de compreender a percepção dos brasileiros sobre a previdência e identificar comportamentos que determinam as decisões dos cidadãos quanto a seu futuro, a Associação Nacional dos Participantes dos Fundos de Pensão (ANAPAR) realizou uma pesquisa inédita com a população. Entre as descobertas, uma constatação preocupante: três fatores, combinados, levam a maioria a não guardar dinheiro para a aposentadoria, produzindo um quadro de verdadeiro “desalento previdenciário” no país:

  1. renda insuficiente,
  2. falta de perspectiva e
  3. um elevado grau de endividamento.

Pesquisa ANAPAR Finanças Pessoais e Previdência Brasil 2018, encomendada ao Instituto FSB Pesquisa, realizou entrevistas domiciliares com 2.045 pessoas a partir de 16 anos, em 152 municípios, entre 8 e 13 de novembro. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%. Continuar a ler

Private Banking e Varejo (Tradicional e de Alta Renda) em 2018

O total de recursos alocados nos segmentos private e varejo, sem considerar os recursos destinados à previdência do segmento private, alcançou R$ 2,8 trilhões em dezembro de 2018, um incremento de 9% em relação a 2017. Dentro dos três segmentos o varejo alta renda foi o que apresentou o maior crescimento no ano, de 12%, totalizando R$ 872 bilhões, seguido pelo private com variação de 11% e estoque de R$ 966,2 bilhões. O varejo tradicional registrou elevação de 5% de crescimento encerrando o ano com R$ 958,7 bilhões.

No volume financeiro por aplicações a participação de cada tipo se manteve estável. Os fundos de investimento representaram 40% dos ativos, e os títulos de renda fixa empataram com a poupança, 26% da carteira. Dentro dos fundos de investimento, o volume alocado em fundos de ações apresentou crescimento de 57% em relação a 2017, totalizando R$ 82,9 bilhões contra R$ 52,9 bilhões em 2017. Nos títulos de renda fixa o ativo que apresentou o maior aumento em relação a 2017 foram as debêntures, – elevação de 20% – acumulando R$ 31,1 bilhões.

Confirmou-se, mais uma vez, a economia brasileira ser uma “economia de endividamento”, e não uma “economia de mercado de capitais”, como forçam a casta dos mercadores-especuladores de posse do Ministério da Economia. Quem deseja carregar renda variável em uma Bolsa de Valores sujeita aos investidores estrangeiros? Os investidores optam por carregar um risco soberano dos títulos de dívida pública alocados em fundos de investimentos. Continuar a ler

O vencedor leva tudo: a farsa da elite de mudar o mundo

Tom Metcalf e Simon Kennedy (Valor, 21/01/19) avaliam: a elite global está mais rica do que nunca. Uma década após a crise financeira global, os executivos de colarinho dourado estão com suas finanças pessoais mais do que recuperadas.

David Rubenstein, do Carlyle Group, dobrou sua fortuna desde 2009. Jamie Dimon, CEO do JP Morgan, mais que triplicou seu patrimônio líquido. E Stephen Schwarzman, CEO do Blackstone, aumentou sua riqueza em seis vezes. Trata-se de um desempenho notável, dado o tumulto econômico e político da década passada, do Lehman Brothers ao Brexit a Donald Trump. A fortuna combinada de uma dezena de participantes de 2009 em Davos aumentou em US$ 175 bilhões, enquanto que a mediana da riqueza das famílias americanas ficou estagnada, segundo uma análise da Bloomberg.

Os dados ilustram a distância cada vez maior entre os muito ricos0,1% da população mundial — e os muito pobres da economia global. Dados dos relatórios do UBS e da PwC Billionaires Insights mostram que a riqueza global dos bilionários cresceu de US$ 3,4 trilhões em 2009 para US$ 8,9 trilhões em 2017.

As medidas tomadas pelos bancos centrais globais para combater a crise financeira — derrubar as taxas de juros para próximo de zero e programas de compra de títulos — contribuíram para aumentar a desigualdade ao elevar os preços das ações e de outros ativos. Continuar a ler