Grandes Erros da Antiglobalização

Martin Wolf (FT, 22/06/22) defendeu em artigo: A globalização não morreu. Pode nem estar morrendo. Mas está mudando.

No processo, as instituições que lhe deram forma, mais notavelmente a Organização Mundial do Comércio (OMC), também estão sendo obrigadas a mudar. Estamos rumando a um mundo diferente, muito mais difícil. Mas, enquanto definimos o rumo a seguir, precisamos evitar alguns erros. Aqui estão sete.

O primeiro é voltar as atenções apenas ao comércio exterior. Como destacado por Maurice Obstefeld, ex-executivo-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), os atuais mercados de capital mundiais, de grande fluidez, geraram ondas de crises financeiras, mas trouxeram benefícios de pouca visibilidade. Não se presta atenção suficiente a essa realidade porque, em grande medida, os interesses a favor do livre fluxo de capitais são muitos poderosos, enquanto o impacto econômico desse fluxo é de muito difícil compreensão para a maioria.

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Guarda-da-Esquina à Solta

Faz parte da lenda política brasileira o episódio da edição do AI-5, quando Pedro Aleixo, político civil e vice-presidente de Costa e Silva, teria dito ao ditador militar qual era sua preocupação. “O problema é o guarda da esquina”.

Hoje, o país colhe os frutos de discurso de ódio intolerante dos “órfãos da ditadura militar” contra a oposição democrática. Rejeitado por 60% dos eleitores, o atual mandatário “solta os cachorros”. Significa brigar com muita raiva contra opositores. O militar só age de forma agressiva, por meio de insultos, sem pensamento racional.

Quando informações falsas são constantemente divulgadas em redes sociais, precisamos estar cientes de nossa vulnerabilidade mental. Pelo Efeito Ancoragem, o sujeito emocional fica apegado a referências falsas ao fazer uma avaliação ou julgamentos necessários de serem feitos, racionalmente, “a sangue frio”. Divulga-se informação comprovadamente incorreta para distorcer essa avaliação.

O cérebro humano é incapaz de ignorar quaisquer informações, caso tenha acesso a elas, verdadeiras ou falsas. Estas também afetam as avaliações, opiniões e decisões.

Autoilusão é pensar estar acima dessa falsa impressão. O militar imagina ter senso crítico e capacidade de discernimento, em situação de abordagem de “gente popular vista como inimiga”, mas sua vulnerabilidade mental é diferente dessa autoimagem.

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Marcação-a-Mercado dos Afoitos e Prazos de Vencimentos dos Conservadores em Finanças Pessoais

O Crash de Março de 2020, depois do início do pandemônio da pandemia, mostrou na prática o dano da Marcação a Mercado (MtM) até em Fundos RF DI (pós-fixados) e FCP (Fundos de Crédito Privado carregadores de Debêntures indexadas a CDI). Motivou a fuga dos investidores com grande volume de recursos a perder (mais idosos) para os CDB 100% do CDI sem MtM.

Isso se deu quando havia tendência firme de baixa dos juros básicos (CDI/SELIC). Agora, com tendência inversa, dado o encarecimento do passivo bancário, os “conselheiros financeiros” sugerem os investidores saltarem fora para beneficiar seus patrões…

No entanto, o mercado de crédito privado começa a se preparar para uma importante mudança que será implementada no início do próximo ano, com potencial para provocar ajustes nas decisões de investimento. De acordo com resolução da Anbima, títulos de dívida privada que estão nas carteiras de pessoas físicas terão que ser marcadas a mercado a partir do dia 2 de janeiro de 2023. Isso significa que as oscilações de preço que esses papéis sofrem terão de ser informadas aos clientes.

A medida vale para debêntures – incentivadas ou tradicionais -, CRAsCRIs títulos públicos comprados por meio do sistema Selic. A nova regra pode até dar um susto em alguns investidores, menos acostumados à dinâmica de preços desses ativos. Mas é considerada muito oportuna, ao conferir mais transparência e permitir que o investidor decida se deve ou não seguir na posição

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Falso Conflito entre O Mercado e O Governo

Carlos Luque é professor da FEA- USP e presidente da Fipe
Simão Silber é professor da FEA-USP
Francisco Vidal Luna é professor da FEA aposentado
Roberto Zagha foi professor Assistente na FEA-USP nos anos 1970 e no Banco Mundial a partir de 1980, onde encerrou a carreira em 2012 como Secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento, e diretor para a Índia.

Os desenvolvimentistas honram a tribuna encontrada no Valor (19/04/22).

O governo brasileiro tem sido muito criticado. Artigos nos jornais, pronunciamentos oficiais e análises econômicas o apontam como a fonte dos males que assolam o país: gasta muito e mal, tributa muito e tributa mal, intervém quando não deve e não intervém quando deve e, muito importante, prejudica o desempenho macroeconômico. O funcionalismo público recebe salários acima do mercado, goza de vantagens das quais o cidadão comum não se beneficia e não atende bem ao público.

A voz pública aponta à impossibilidade do governo em servir o bem comum devido aos problemas de “agência” inerentes à delegação de poderes. O governo é um agente do público ao qual se delegam poderes sem que haja possibilidade de controle de como esse poder é utilizado. Os agentes podem tomar decisões em benefício próprio, potencialmente contrários ao interesse público. Os problemas de agência são causa, por exemplo, de corrupção, ou captura de processos de decisão que geram políticas econômicas que beneficiam grupos influentes ainda que contrárias ao bem geral do país.

Essa perspectiva do papel do governo também vigora em vários países do mundo ocidental. O neoliberalismo de Margareth Thatcher e de Ronald Reagan pode ser resumido na famosa frase de um de seus proponentes numa entrevista ao Wall Street Journal: “Não quero abolir o governo. Quero simplesmente reduzi-lo a um tamanho que me permita afogá-lo na banheira”. A redução do tamanho do governo, pari passu com a desregulação da economia, seria uma forma de reduzir os problemas de agência e o custo de seu desempenho.

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Meritocracia dos Laços (Resenha de Cesar Locatelli)

Está excelente a resenha do César Locatelli sobre a tese de Elisa Kluger, citada em artigo meu postado anteriormente. Recomendo sua leitura.

ELISA KLUGER – Meritocracia de Laços – Espaço dos Economista no Brasil – FFLCH-USP 2017

Origens e reconfigurações do espaço dos economistas no Brasil

O que determina a ascensão de economistas a posições de poder e prestígio no Brasil? Seus méritos e conhecimentos? Suas diferentes dotações de capitais sociais, econômicos, culturais, simbólicos, políticos etc.? Seus laços sociais com outros economistas? Suas ligações com instituições e governos alienígenas? Suas confluências de interesses com detentores de poder?

Para entender tais processos, Elisa Klüger, em sua extensa pesquisa para construção de sua tese de doutorado, Meritocracia de laços: gênese e reconfigurações do espaço dos economistas no Brasil, começou por investigar os laços familiares dos economistas que chegaram a altos cargos da administração pública, de instituições públicas e privadas, com influência nos rumos das políticas adotadas no país. Pesquisou as ligações construídas nos anos de graduação e pós-graduação e no trabalho, especialmente em universidades, centros de pesquisa e no setor público.

Para compor a narrativa histórica, ela mesclou os dados obtidos em cerca de 50 entrevistas com outros disponíveis em fontes secundárias como biografias, dicionários histórico-biográficos, DVDs comemorativos etc. Avisa: “Na narrativa, são enfatizadas a origem social dos economistas, a formação de vínculos entre eles – sendo destacadas as similaridades e contrastes entre indivíduos e grupos, no que concerne às suas propriedades sociais e às suas visões de mundo –, o surgimento e as transformações das instituições do espaço dos economistas e a teia de conexões internacionais em que os agentes e instituições estão imersos”.

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Inadimplência no Financiamento Imobiliário com FGTS

Alex Ribeiro (Valor, 10/12/21) informa: o Banco Central (BC) está monitorando os riscos dos créditos imobiliários com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), um mercado dominado pela Caixa Econômica Federal, devido ao aumento dos ativos problemáticos – ou seja, operações inadimplentes ou que foram renegociadas depois que clientes atrasaram o pagamento de parcelas do financiamento.

As operações problemáticas saltaram de R$ 14,428 bilhões em dezembro de 2018, fim do governo Temer, para R$ 29,334 bilhões em setembro passado. Já a taxa de inadimplência das operações subiu de 1,47% para 2,45% no mesmo período.

O alerta do Banco Central foi dado no Relatório de Estabilidade Financeira (REF) do primeiro semestre. Ele notou os ativos problemáticos do crédito imobiliário com recursos do FGTS continuarem a crescer, na contramão do ocorrido com as carteiras de crédito total do conjunto dos bancos.

“Houve aumento relevante de materialização de risco para os empréstimos com recursos do FGTS”, afirma o documento, que faz um mapeamento de todos os riscos do sistema financeiro. “O maior aumento em termos de ativos problemáticos ocorre para os tomadores com renda inferior a dois salários mínimos. Mesmo com a melhoria do cenário econômico, o nível de ativos problemáticos dessa linha manteve-se em patamar elevado, e, portanto, essa é uma carteira a ser observada em termos de cenário prospectivo de risco.”

O Banco Central, no relatório, faz uma referência ao sistema de crédito imobiliário do FGTS como um todo, sem citar instituições financeiras em particular. Mas a Caixa detém 93,8% desse mercado. Sua carteira somava, em setembro, R$ 332 bilhões, ante uma carteira total de R$ 354 bilhões, incluindo instituições financeiras públicas e privadas.

A alta dos ativos problemáticos pode estar ligada aos efeitos da pandemia. “As famílias de baixa renda são as mais afetadas pela perda de emprego e renda”, diz Bolivar Moura Neto, ex-secretário-executivo do Conselho Curador do FGTS. “A atividade econômica se recuperou num primeiro momento, mas agora se arrefeceu, e isso tem impacto na renda das famílias.”

O FGTS é a principal fonte de recursos dos programas habitacionais sociais.

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Redução da Jornada de Trabalho Semanal para 4 Dias Úteis

Veja: https://www1.folha.uol.com.br/webstories/cotidiano/2021/05/a-cultura-da-semana-de-4-dias/

Simon Kuper (FT, 07/11/21) avalia: o problema de pedir às pessoas para desacelerarem as mudanças climáticas com um novo estilo de vida se trata de uma proposição terrível.

O que está sendo dito, essencialmente, é: deixe de viajar de avião, de dirigir, de comprar roupa, ter férias etc. Em troca, o planeta poderá ser um pouco menos inabitável daqui a cem anos. Não é surpresa que a ideia não caia bem.

Ninguém gosta de autoflagelação. No momento em que as vidas dos eleitores sofrem algum tipo de inconveniência — como acontece agora com a alta nos preços das fontes de energia —, os governos deixam de lado o ativismo climático e lutam para deixar-nos continuar aquecendo o planeta.

Os políticos vêm se atendo a sua promessa tradicional: aumentos anuais do Produto Interno Bruto (PIB) que permitam às pessoas fazer mais compras.

Essa, no entanto, não tem mais como ser a prioridade. Fabricar e consumir coisas aquece o planeta. Em vez de fabricar mais, os governos precisam oferecer mais tempo às pessoas. Mais especificamente, nos países desenvolvidos, onde as pessoas têm o suficiente para viver, deveríamos cortar horas de trabalho para salvar o planeta.

Uma semana de quatro dias de trabalho seria um bom começo. As premissas são dois fatos tristes.

Primeiro, a maioria das pessoas não gosta de seus empregos. Um estudo mundial da Gallup estimou que apenas um em cada cinco funcionários em horário integral se vê engajado no trabalho. Muitos trabalhadores também se sentem sem tempo, em parte por ter cada vez mais deveres a cumprir com os filhos.

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FEBRABAN X FIESP com Golpistas

Como ex-diretor executivo da FEBRABAN (2003-2007), representando a Caixa Econômica Federal, não posso deixar de congratular sua atitude independente de não se subordinar aos interesses golpistas contra a democracia brasileira. Em contrapartida, a Caixa (assim como o BB) é um órgão de Estado — e não de governo. É uma instituição estatal permanente com a responsabilidade de lidar com dinheiro público de maneira republicana e não fazendo pressão e/ou perseguição política aos críticos de sua atitude, sejam funcionários, sejam demais instituições.

Federação Brasileira de Bancos (Febraban) reafirmou, em nota divulgada na noite de ontem (02/09/21), o apoio conteúdo do manifesto “A Praça é dos Três Poderes”. Defende a democracia e a pacificação na política.

O texto sintetiza a busca de uma saída honrosa para uma crise política, criada artificialmente pelo passageiro presidente da República. Com o manifesto, os bancos privados reiteraram sua posição contrária a uma ruptura institucional, mas deram a senha para a permanência de Caixa e Banco do Brasil (BB) na entidade.

Apesar de o conteúdo da nota não ter agradado, os bancos estatais agora estão dispostos a não sair da Febraban, como ameaçaram, porque o manifesto não foi formalmente publicado e não há certeza de que será nem quando. A divulgação formal do documento era o passo aguardado pelos estatais aguardavam para cumprir a ameaça de deixar a entidade. Com a acomodação, a intenção é a de permanecer na Febraban, menos por convicção e mais para evitar questionamentos do Tribunal de Contas da União (TCU).

Os golpistas, por definição, são covardes! Apelam para a força das armas!

Não entendem: dois sustentáculos da soberania nacional — a moeda e as forças armadas — têm de estarem subordinados ao Estado de Direito democrático. Não podem ser usados em benefício de pequenos grupos de interesses da casta dos militares e da casta dos mercadores.

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Lei do Superendividamento 

Um total de 30 milhões de pessoas terá agora maior chance de pagar suas dívidas. Em vigor desde o dia 2, a Lei do Superendividamento prevê uma espécie de recuperação judicial para pessoas físicas, forçando credores a sentarem à mesa para negociar. São regras com capacidade para injetar R$ 350 bilhões na economia, de acordo com estudo da Ordem dos Economistas do Brasil (OEB) e do Instituto do Capitalismo Humanista.

O valor diz respeito ao que deixa de estar comprometido para o pagamento de dívidas. Hoje, 70% das famílias estão endividadas – a maior proporção em uma década, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). São 60 milhões de pessoas, metade na categoria dos superendividados, estima o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

A lei, de acordo com juízes e especialistas no assunto, traz um mecanismo importante para garantir os acordos. A ausência sem justificativa do credor na mesa de negociação o coloca no fim da fila do recebimento do crédito. Além de gerar a suspensão da cobrança do débito e a interrupção da incidência dos encargos, como juros.

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Cinco Equívocos Sobre a China (por Liszt Vieira)

Todos os sábados temos o prazer de receber políticos e intelectuais convidados para um saudável debate de ideias no Fórum 21. É um fórum de troca de ideias e provocações de reflexões, realizado de maneira remota com participantes de diversos estados brasileiros.

No último sábado (10 de julho de 2021), recebemos o notável intelectual José Luís Fiori, Professor Titular do IE-UFRJ, para falar sobre o tema de seus livros sobre Guerra e Paz, cujo lançamento do segundo volume se dará brevemente. Ele é extremamente culto, mas talvez faça uma demonstração excessiva de erudição. 

Entretanto, é válido provocar o debate como ele faz na crítica ao materialismo excessivo por esquecer o culturalismo destacado por Gramsci. Meu amigo Liszt Vieira lançou ao debate público algumas ideias não totalmente apresentadas como contra-argumentos no tempo limitado de intervenções dos interlocutores. Apresento-as abaixo.

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Oferta de Ações para Capitalização das Empresas

Oferta de ações deve bater recorde, segundo Álvaro Campos (Valor Econômico, 30/06/21)

A atual temporada de ofertas de ações já tem na fila operações que podem movimentar algo em torno de R$ 40 bilhões – ou até mais. Caso esse cenário se confirme, o país deve encerrar julho com cerca de R$ 120 bilhões captados, volume muito próximo dos R$ 119,3 bilhões movimentados em todo o ano passado.

Se a safra encerrada em maio foi marcada por IPOs desistidos e quase 60% das transações saíram no piso ou abaixo da expectativa de preço das companhias, a nova leva tem tudo para ser muito mais positiva.

Para as próximas semanas, estão na fila operações de grande porte. A BR Distribuidora inaugura essa sequência com uma oferta na qual a Petrobras pretende se desfazer dos 37,5% que ainda tem da empresa – um negócio de aproximadamente R$ 11,5 bilhões.

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