FEBRABAN X FIESP com Golpistas

Como ex-diretor executivo da FEBRABAN (2003-2007), representando a Caixa Econômica Federal, não posso deixar de congratular sua atitude independente de não se subordinar aos interesses golpistas contra a democracia brasileira. Em contrapartida, a Caixa (assim como o BB) é um órgão de Estado — e não de governo. É uma instituição estatal permanente com a responsabilidade de lidar com dinheiro público de maneira republicana e não fazendo pressão e/ou perseguição política aos críticos de sua atitude, sejam funcionários, sejam demais instituições.

Federação Brasileira de Bancos (Febraban) reafirmou, em nota divulgada na noite de ontem (02/09/21), o apoio conteúdo do manifesto “A Praça é dos Três Poderes”. Defende a democracia e a pacificação na política.

O texto sintetiza a busca de uma saída honrosa para uma crise política, criada artificialmente pelo passageiro presidente da República. Com o manifesto, os bancos privados reiteraram sua posição contrária a uma ruptura institucional, mas deram a senha para a permanência de Caixa e Banco do Brasil (BB) na entidade.

Apesar de o conteúdo da nota não ter agradado, os bancos estatais agora estão dispostos a não sair da Febraban, como ameaçaram, porque o manifesto não foi formalmente publicado e não há certeza de que será nem quando. A divulgação formal do documento era o passo aguardado pelos estatais aguardavam para cumprir a ameaça de deixar a entidade. Com a acomodação, a intenção é a de permanecer na Febraban, menos por convicção e mais para evitar questionamentos do Tribunal de Contas da União (TCU).

Os golpistas, por definição, são covardes! Apelam para a força das armas!

Não entendem: dois sustentáculos da soberania nacional — a moeda e as forças armadas — têm de estarem subordinados ao Estado de Direito democrático. Não podem ser usados em benefício de pequenos grupos de interesses da casta dos militares e da casta dos mercadores.

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Lei do Superendividamento 

Um total de 30 milhões de pessoas terá agora maior chance de pagar suas dívidas. Em vigor desde o dia 2, a Lei do Superendividamento prevê uma espécie de recuperação judicial para pessoas físicas, forçando credores a sentarem à mesa para negociar. São regras com capacidade para injetar R$ 350 bilhões na economia, de acordo com estudo da Ordem dos Economistas do Brasil (OEB) e do Instituto do Capitalismo Humanista.

O valor diz respeito ao que deixa de estar comprometido para o pagamento de dívidas. Hoje, 70% das famílias estão endividadas – a maior proporção em uma década, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). São 60 milhões de pessoas, metade na categoria dos superendividados, estima o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

A lei, de acordo com juízes e especialistas no assunto, traz um mecanismo importante para garantir os acordos. A ausência sem justificativa do credor na mesa de negociação o coloca no fim da fila do recebimento do crédito. Além de gerar a suspensão da cobrança do débito e a interrupção da incidência dos encargos, como juros.

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Cinco Equívocos Sobre a China (por Liszt Vieira)

Todos os sábados temos o prazer de receber políticos e intelectuais convidados para um saudável debate de ideias no Fórum 21. É um fórum de troca de ideias e provocações de reflexões, realizado de maneira remota com participantes de diversos estados brasileiros.

No último sábado (10 de julho de 2021), recebemos o notável intelectual José Luís Fiori, Professor Titular do IE-UFRJ, para falar sobre o tema de seus livros sobre Guerra e Paz, cujo lançamento do segundo volume se dará brevemente. Ele é extremamente culto, mas talvez faça uma demonstração excessiva de erudição. 

Entretanto, é válido provocar o debate como ele faz na crítica ao materialismo excessivo por esquecer o culturalismo destacado por Gramsci. Meu amigo Liszt Vieira lançou ao debate público algumas ideias não totalmente apresentadas como contra-argumentos no tempo limitado de intervenções dos interlocutores. Apresento-as abaixo.

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Oferta de Ações para Capitalização das Empresas

Oferta de ações deve bater recorde, segundo Álvaro Campos (Valor Econômico, 30/06/21)

A atual temporada de ofertas de ações já tem na fila operações que podem movimentar algo em torno de R$ 40 bilhões – ou até mais. Caso esse cenário se confirme, o país deve encerrar julho com cerca de R$ 120 bilhões captados, volume muito próximo dos R$ 119,3 bilhões movimentados em todo o ano passado.

Se a safra encerrada em maio foi marcada por IPOs desistidos e quase 60% das transações saíram no piso ou abaixo da expectativa de preço das companhias, a nova leva tem tudo para ser muito mais positiva.

Para as próximas semanas, estão na fila operações de grande porte. A BR Distribuidora inaugura essa sequência com uma oferta na qual a Petrobras pretende se desfazer dos 37,5% que ainda tem da empresa – um negócio de aproximadamente R$ 11,5 bilhões.

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Baixa Renda com Inflação mais Elevada

Lucianne Carneiro (Valor, 15/06/21) informa: com a pressão principalmente do custo da energia elétrica, a inflação das famílias de baixa renda foi maior que a das famílias de renda mais alta em maio. Foi o segundo mês seguido em que isso ocorreu, segundo o indicador “Inflação por faixa de renda”, do Ipea. Em abril, o maior impacto tinha vindo dos medicamentos.

A inflação maior entre os mais pobres não é um movimento único desses meses: o índice acumulado em 12 meses também é maior, ainda refletindo a forte alta dos alimentos em 2020. São famílias que sentem seu dinheiro valer cada vez menos.

Em maio, a maior taxa de inflação ocorreu entre as famílias de renda muito baixa – com renda domiciliar menor que R$ 1.650,50 -, que registraram alta de 0,92%, ante variação de 0,49% das famílias de renda alta – renda domiciliar acima de R$ 16.509,66. A alta também foi mais expressiva também nas famílias de renda baixa – rendimento domiciliar entre R$ 1.650,50 e R$ 2.471,09 -, com 0,88%, e nas famílias de renda média baixa – entre R$ 2.471,09 e R$ 4.127,41 de renda domiciliar -, com variação de 0,86%.

As famílias de renda mais baixa têm inflação maior pelo segundo mês seguido por motivos diferentes. Em abril, o foco foi medicamentos. Em maio foi a energia elétrica.

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Austeridade contra Aumento da Arrecadação Fiscal

Uma anedota corporativa é a pergunta: qual é a diferença entre contabilistas e economistas? Resposta: hipótese. Aqueles registram dados do passado para verificar se há saldo entre despesas e receitas. Os economistas levantam cenários hipotéticos sobre o futuro fluxo de renda. Pensam ser oniscientes: tudo sabem e conhecem.

Os cristãos acreditam na onipresença, onisciência e onipotência de Deus. Não percebem a contradição lógica entre essas duas últimas virtudes: se sabe e anuncia o futuro, Ele perde o poder de mudá-lo, ou seja, deixa de ser onipotente…

Não existe o saber absoluto. Não há conhecimento certo sobre tudo, inclusive o futuro. Este é incerto por ser resultante de interativas decisões descentralizadas, descoordenadas e desinformadas umas das outras, inclusive por serem defasadas. O diabo é essa sequência DDDDD resultar em complexidade…

Pautados por economistas midiáticos, com cadeira cativa (e exclusiva) na “grande” imprensa brasileira, jornalistas econômicos de ideias afirmam de modo peremptório o seguinte. “O que estimula o crescimento é o ajuste fiscal – equilíbrio entre despesas e receitas de modo a viabilizar o aumento do investimento privado – e para isso torna-se fundamental cortar gastos”.

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Bolsa ganhou 374.822 novas contas de investidores com até 25 anos desde o início de 2019

Aos 23 anos, a estudante de administração de empresas Júlia Abi-Sâmara está ajudando a encorpar as estatísticas de novos jovens investidores no mercado brasileiro, depois de ela mesma se tornar um deles. Após ministrar, em 2019, cursos para cerca de 130 amigas e amigas de amigas, no ano passado, ela resolveu criar um canal no Instagram para disseminar seu conhecimento para ainda mais pessoas, em especial mulheres. O perfil “@as.investidoras” tem hoje mais de 29 mil seguidores.

O empurrão inicial para deixar de ser uma poupadora, uma vez que mantinha todo o dinheiro na caderneta, e passar a investir em títulos públicos, ações, fundos e criptomoedas veio de um observação machista de um colega da faculdade. Ao dizer que gostaria de entender mais sobre investimentos, foi surpreendida com o comentário machista “finanças não é coisa de mulher”. Estimulada por um sentimento de vingança e pela determinação de provar o contrário, ela passou a estudar o assunto.

Mais confiante, começou a dar aula para duas amigas. Elas acabaram trazendo outras colegas e, assim, tornou-se referência no tema para o grupo. Ele percebia a importância de gerir o próprio dinheiro, mas não sabia se tinha recurso suficiente, nem por onde começar e o que fazer.

“Conforme fui estudando, via o quanto aquele conhecimento estava impactando minha vida financeira. Passei a entender onde colocar meu dinheiro para render mais, como estipular metas e como cuidar melhor das minhas finanças. Mas, o mais importante é que melhorei minha autoestima e autoconfiança por estar aprendendo sobre um assunto que eu mesma achava que não seria capaz de aprender”, conta Júlia, em entrevista ao Valor Investe.

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Explicação pelos Interesses dos Detentores do Poder Político

A segunda linha de argumentação, apresentada por John Zysman, no livro Governments, Markets, and Growth (Cornell University Press, 1983), sustenta, enquanto os problemas confrontados por cada país definem os termos pelos quais as escolhas devem ser feitas, as diferentes decisões de ações de um governo dependem das personalidades governantes e da natureza de seus objetivos. Portanto, devemos considerar o papel das coalizões, grupos de interesse e interesses políticos.

Uma coalizão governante – uma “grande maioria” na expressão de Charles Lindbloom – define a gama de finalidades para as quais a máquina estatal pode ser usada. Se as coalizões nacionais devem delimitar a gama de políticas, em um conjunto de setores, deve haver políticas capazes de restringir as escolhas a serem feitas dentro de cada setor ou em uma situação onde muitos dos mesmos atores são envolvidos nas decisões em cada setor. Ambos podem ser o caso. 

Por exemplo, acordos gerais para reduzir as tarifas podem tornar mais difícil para as empresas de uma indústria específica obterem proteção contra as importações.

Em um sistema centralizado como o da França ou do Japão, os mesmos burocratas têm participação na política de muitos setores econômicos. De acordo com esta linha de argumentação, então, as mudanças nas coalizões governantes quanto à filiação partidária ou o poder relativo dos constituintes da coalizão partidária são os elementos explicativos das mudanças nas direções básicas da política.

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Transnacionalização das Corporações

John Zysman, no livro Governments, Markets, and Growth (Cornell University Press, 1983), afirma: na verdade, a década de 1960 foi um momento liberal no comércio externo, onde a acordos de Bretton Woods e os acordos comerciais incorporados em GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) estavam sendo aplicados. A busca por mercados ainda mais livres estava a todo vapor. 

O emblema popular desta Nova Era Internacional era a corporação multinacional. Simbolizava tanto as novas liberdades das corporações gigantes produzidas em todo o mundo e a capacidade diminuída de governos para regular o comportamento das empresas importantes para suas economias nacionais. 

À medida que a década de 1960 avançava, o aumento da internacionalização das finanças também começou a colocar sérias restrições em qualquer capacidade de governo conduzir uma política econômica agregada autônoma.

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Em Defesa de um Novo Plano Marshall

Pedro Cafardo (Valor, 02/02/21) cita John Kenneth Galbraith para explicar porque é necessário um novo Plano Marshall, inclusive porque a vacinação deve acentuar desigualdade e conflitos sociais.

Logo no início da atual pandemia, em março do ano passado, o secretário-geral da OCDE, Ángel Gurría, conclamou as principais economias do mundo a promover ações conjuntas com ambição de um Plano Marshall. Cada vez mais, a recomendação se justifica.

Para quem não se lembra ou nunca leu a respeito, vale explicar o que foi o Plano Marshall. Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, em 1945, os grandes países da Europa e o Japão estavam destruídos. As perdas mais terríveis eram humanas, com cerca de 60 milhões de mortos entre civis e militares. Ferrovias, portos, pontes, casas e a infraestrutura em geral haviam sido arrasados pelos bombardeios. Estima- se que 40% das habitações foram destruídas na Alemanha, 30%, no Reino Unido, e 25%, no Japão.

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“Racha” na Casa das Garças

Alex Ribeiro (Valor, 01/02/21) informa: o economista Edmar Bacha, um dos pais do Plano Real, fez um estudo que mostra os limites de replicar no Brasil a estratégia do presidente americano, Joe Biden, de aproveitar os juros estruturalmente baixos para estimular a economia com um gigantesco programa de gastos públicos.

A base teórica para o pacote fiscal é um recente trabalho do professor de Harvard Jason Furman e do ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos Larry Summers que mostra que, devido a uma queda estrutural dos juros, o governo americano pode ter uma dívida pública mais alta.

Bacha replicou a metodologia de Furman e Summers para o Brasil, levando em conta a queda dos juros ocorrida nos últimos anos e a tendência de alta da dívida pública. Sua conclusão é que, embora o governo tenha ficado mais endividado nos últimos anos, o custo para carregar essa dívida está em níveis historicamente baixos.

Mas essa folga não deve durar muito: o mercado financeiro já espera uma alta de juros por aqui. Bacha calcula que o peso do pagamento de juros, comparado com o tamanho da economia, deverá dobrar até 2023. “Isso significa que o respiro será temporário”, diz o economista, no estudo. “O melhor é se preparar para consertar as contas fiscais antes que o tempo se esgote.”

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Posição relativa do PIB per capita do Brasil entre as maiores economias do mundo

Admiro o trabalho estatístico de Cláudio Considera. Quando fui convidado a palestrar no IBRE-FGV descobri: seus pesquisadores respeitam fatos e dados, não são como os professores de ideologia neoliberal na EPGE-FGV. Compartilho seu importante artigo informativo abaixo.

Recentemente, no artigo “Como o Brasil se situa entre as maiores economias do mundo no pós-Covid”, publicado no Blog do IBRE, mostramos os “rankings” das maiores economias do mundo, com base nos dados do FMI, sob duas métricas: nível do PIB (dólares em preços correntes) e também em dólares, preços correntes, PPP (paridade de poder de compra). Lá concluímos que “em função da queda de atividade econômica do Brasil, somada á forte desvalorização cambial, o Brasil deve perder três posições, e passar a ser a 12º maior economia do mundo em 2020, segundo as projeções do FMI, com base nos dados do PIB em dólar. Já ao se comparar o PIB em US$ PPP, o Brasil deve ser a oitava maior economia do mundo neste ano, ‘melhorando’ duas posições”.

No presente artigo, vamos dar continuidade á discussão anterior, mostrando a posição do Brasil, dentre as maiores economias do mundo, mas com base no PIB per capita de cada país. Para calcularmos o PIB per capita, primeiro calculamos o nível do PIB em US$, PPP, e depois dividimos esse PIB pelo tamanho da população.[1] Diferentemente do post anterior acima mencionado, para o cálculo do PIB, selecionamos, de forma arbitrária, um ano para servir de base (no caso, o ano escolhido foi 2000).[2] Para este ano selecionado, utilizamos o nível do PIB, em US$, PPP (preços correntes), e a partir desse ano, adicionamos as taxas reais de crescimento do PIB de cada país. Com isso, procuramos eliminar o efeito do câmbio ao longo dos anos, com a evolução do nível do PIB dependendo, exclusivamente, da variação da atividade econômica, em moeda local.

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