Teoria da Demanda Endividada

Atif R. Mian, Ludwig Straub, and Amir Sufi no paper Indebted Demand (NBER Working Paper No. 26940. April 2020) propõem uma Teoria da Demanda Endividada, capturando a ideia de grandes dívidas sobrecarregarem famílias e governos diminuírem a demanda agregada e, portanto, as taxas de juros naturais. No centro dessa teoria está a observação simples, porém subestimada, de tomadores de empréstimo e poupadores diferirem em suas propensões marginais a economizar na renda permanente.

Incorporando esse insight em um agente duplo – idosos mais enriquecidos e jovens em início de carreira –, sem sobreposição de gerações, descobriram tendências recentes de desigualdade de renda e a liberalização financeira ter levado à demanda endividada das famílias, reduzindo as taxas de juros naturais.

Além disso, políticas expansionistas populares, como a política monetária acomodatícia e política fiscal com déficit público, geram um boom de curto prazo, financiado por dívidas, às custas da demanda endividada no futuro. Quando a demanda está suficientemente endividada, a economia fica presa em uma armadilha da liquidez, baseada em dívidas, ou armadilha da dívida.

Escapar de uma armadilha da dívida exige a consideração de fatores macroeconômicos e políticas fora do padrão. Por exemplo, as focadas na redistribuição de renda ou as redutoras das fontes estruturais de alta desigualdade social.

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4) O que deve ser feito?

“… desde o início dos anos 80 … a maneira como treinamos as pessoas para pensar … no fluxo principal da economia … deixou-as quase incapazes de distinguir entre a superfície e a realidade subjacente. Não foi apenas a Era de Reagan e o início de fundamentalismo de mercado, surgido no início dos anos 80, e a revolução teórica das expectativas racionais e todo o resto, mas sim uma ruptura fundamental em como realmente treinamos nossos alunos a pensar. (…) Porque os adeptos desse novo tipo de modelagem econômica, ganhadores de quase todos os prêmios Nobel, disseram: – Você não precisa entender o quadro mais profundo… Você realmente não precisa conhecer os mecanismos subjacentes da economia, porque os preços vistos refletem esse mecanismo subjacente” — Jeffrey Sacks, em comentários no Earth Institute (Columbia University), no dia 20 de outubro de 2008.

A teoria econômica clássica foi um produto do Iluminismo, inventada por filósofos desejosos de contribuir para o crescimento da democracia liberal. Eles nos ensinaram como construir sociedades propícias à dignidade humana, com base no equilíbrio entre cooperação e liberdade de perseguir a vida, a liberdade e a felicidade.

O ponto alto do Iluminismo foi a influência mútua entre Newton, Locke e Montesquieu. Estes, por sua vez influenciaram “os pais fundadores” da Nação norte-americana a adotarem princípios de governo os quais eles acreditavam serem provenientes de observações da Natureza. Isto está no espírito de seus valores e idealismo compartilhados. Hoje, pedimos uma renovação da abordagem esclarecedora do Iluminismo para compreender e governar racionalmente as sociedades humanas.

No século passado, a Ciência desenvolveu novas ferramentas para entender complexidades e sistemas em evolução, como a economia. Pedimos a economistas, outros cientistas e elaboradores de políticas públicas trabalharem juntos para desenvolver uma nova abordagem para conceituar e modelar a economia de modo confiável o suficiente para servir de guia para a construção e regulação de mercados.

Como devemos provocar essa transformação na teoria econômica? Vamos separar a discussão no imediato, no próximo e no longo prazo. Continuar a ler

3) A Ciência, incluindo a Ciência Econômica, oferece uma base alternativa para conceituar uma melhor Teoria dos Mercados?

A resposta é sim. Uma crítica ao paradigma neoclássico tem sido desenvolvida, bem como tem evoluído o estudo de sistemas complexos, nos últimos vinte anos. Para isso, podem ser adicionadas outras ideias sobre como descrever mercados, superando as suposições neoclássicas. Estas inovações científicas podem ser combinadas para produzir um novo conhecimento científico.

A Ciência da Complexidade permite nova conceituação de sistemas econômicos. Ela precisa ser desenvolvida antes de produzir modelos detalhados precisos da economia com complexidade suficiente para serem confiáveis. Mas oferece um caminho muito promissor.

Os principais componentes dessa visão e as metodologias subjacentes a ela incluem o seguinte.

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2. Crise da Teoria Econômica inspirada na Física de Isaac Newton

A crise se deve, pelo menos em parte, às deficiências de uma certa teoria econômica inspirada na Física newtoniana de equilíbrio gravitacional, artificialmente, projetado para mercados livres.

Aqueles de nós ao procurar defender o interesse próprio em instituições de crédito para proteger o patrimônio líquido (como eu) está em um estado de descrença chocado… Foi a falha em precificar adequadamente esses ativos de risco a causa da precipitação da crise. Nas últimas décadas, um vasto sistema de gerenciamento de riscos e preços evoluiu, combinando as melhores ideias de matemáticos e especialistas em Finanças, apoiados em grandes avanços na tecnologia de computadores e comunicações. Um Prêmio Nobel foi concedido pela descoberta do modelo de precificação de referência para grande parte do avanço nos mercados de derivativos. Este moderno paradigma de gerenciamento de riscos foi adotado por décadas. Todo o edifício intelectual, no entanto, entrou em colapso, no verão do ano passado, porque os dados inseridos nos modelos de gerenciamento de risco geralmente cobriam apenas as duas últimas décadas, um período de euforia” (Depoimento do Dr. Alan Greenspan, na Câmara dos Deputados dos Estados Unidos perante a Comissão de Supervisão e Reforma do Governo, 23 de outubro de 2008).

Quando economistas e outros cientistas estudam um sistema complexo com múltiplos componentes interativos, começam perguntando sobre quais suposições foram usadas anteriormente para entendê-lo e quão bem elas têm se comportado em comparação com os dados. Então, se abordarmos a crise dessa maneira, teremos de começar perguntando sobre os princípios e premissas utilizados para construir e justificar os instrumentos financeiros complexos, cujo uso contribuiu para a instabilidade atual.

Nos queremos saber como essas ideias teóricas foram testadas. Além disso, se a atual crise está ou não revelando evidência de as ideias nas quais o sistema financeiro foi construído podem precisar ser melhoradas. Continuar a ler

Ciência da Complexidade pode ajudar à Ciência Econômica resolver a Crise Econômica?

Lee Smolin, Stuart A. Kauffman, Zoe-vonna Palmrose, Mike Brown publicaram artigo ( https://www.edge.org/conversation/lee_smolin-stuart_a_kauffman-zoe-vonna_palmrose-mike_brown-can-science-help-solvethe Printed On Sat January 19th 2019), cujo título contém essa indagação. Compartilho sua tradução abaixo.

A crise econômica deve ser estabilizada imediatamente. Isso tem de ser realizado pragmaticamente, sem ideologia indevida e sem confiar nas ideias e suposições fracassadas por terem levado à crise. A Ciência da Complexidade pode ajudar nessa meta. Por exemplo, é errado falar em “restaurar os mercados ao equilíbrio”, porque os mercados nunca estiveram em equilíbrio. Já estaremos muito à frente da ortodoxia econômica se falamos em “restaurar os mercados a um estado crítico auto-organizado estável”.

Um projeto econômico científico significaria reunir um grupo de bons cientistas, alguns muito conhecedores de Economia e Finanças, e outros comprovadamente sábios, em outras áreas da ciência, para trazerem novas mentes e perspectivas para enfrentar o citado desafio. Necessitamos focar no desenvolvimento de conceitos para uma nova teoria e modelagem econômica de modo elas serem confiáveis ​​o suficiente para serem chamadas de Ciência.

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Schumpeter, o Dinheiro e a Moeda (por Luiz Gonzaga Belluzzo)

Meu ex-professor Luiz Gonzaga Belluzzo, professor aposentado da Unicamp e fundador da Facamp, em 2001, foi um dos 100 maiores economistas heterodoxos no Biographical Dictionary of Dissenting Economists. Escreveu artigo defendendo um posicionamento adotado também por mim: “financeirização” não é uma deformação do capitalismo, mas um “aperfeiçoamento” de sua natureza (Valor, 04/02/2020). Compartilho-o abaixo.

“Reconhecido pelos senhores dos mercados depois da crise financeira de 2008, o economista keynesiano Hyman Minsky, falecido em 1996, escreveu em 1992 um artigo intitulado “Schumpeter and Finance”. O artigo narra a temporada de Minsky em Harvard na companhia de Paolo Sylos-Labini, então jovem economista italiano, mais tarde referência no mundo acadêmico ao escrever o clássico Oligopólio e Progresso Técnico.

Os dois chegaram a Harvard para a temporada 1948-49. Labini aportou a Harvard depois de algum tempo em Chicago. “Como completei minha graduação em Chicago, Labini e eu compartilhamos nossas opiniões sobre Chicago e Harvard em animada discussão”.

Minsky graduou-se em Matemática em 1941. Do mestrado (1947) ao PhD (1954), foi supervisionado por Schumpeter, Wassily Leontief e Alvin Hansen. Schumpeter morreu em janeiro de 1950.

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André Lara Resende debate com L. Randall Wray sobre a MMT

À luz da Teoria Monetária Moderna (MMT, na sigla em inglês), a política de cortes orçamentários profundos para reduzir o déficit público no Brasil está equivocada do ponto de vista macroeconômico, porque o país ainda sofre com altas taxas de desemprego e insuficiência de investimentos públicos em setores essenciais. O diagnóstico feito ontem pelo economista André Lara Resende reverberou vários dos pontos defendidos por um dos formuladores dessa relativamente nova vertente teórica, o americano L. Randall Wray.

As premissas básicas fundamentais da MMT foram apresentadas por Wray e Resende em palestra promovida pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), na Casa Firjan, e na Fundação Getulio Vargas (FGV), em evento promovido pelo Cebri em parceria com o Valor e o Centro de Estudos do Novo Desenvolvimentismo, da FGV-SP.

“Alguns dos nossos críticos dizem: ‘Não há nada de novo na MMT’. E eu respondo: ‘Você está certo. Foi o que dissemos o tempo todo’”, ironizou Wray, professor do Bard College, em Nova York, e membro do Levy Institute. Apesar de argumentar a MMT ter agregado fragmentos de estruturas teóricas já estabelecidas, Wray ganhou destaque por suas críticas à teoria e às políticas monetárias ortodoxas.

Para ele, o aumento da relação entre a dívida pública e o PIB, mesmo por longos períodos, não caracteriza por si só uma trajetória econômica insustentável. Wray citou especificamente o exemplo dos Estados Unidos para justificar sua posição: “Até agora, a relação entre a dívida pública e o PIB vem crescendo desde 1791 a uma taxa média de 1,82% [ao ano]”, explicou. “Meu argumento é: se algo vem acontecendo por 200 anos, provavelmente é sustentável.

Entre outros pontos, a MMT preconiza: os governos emissores de sua própria moeda não podem quebrar. O excesso de moeda não provoca necessariamente inflação. “A inflação não é resultado do excesso de moeda, mas do excesso de demanda agregada ou das expectativas de inflação”, afirmou Lara Resende, em artigo publicado pelo Valor em março.

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Pós-keynesianos, Teoria da Regulação e Institucionalismo

Concluo a tradução do artigo LAS CORRIENTES TEÓRICAS Y LOS FUNDAMENTOS DEL ANÁLISIS POST-KEYNESIANO, publicado na revista equatoriana Cuestiones Económicas Vol. 27, No. 2:2, 2017, de autoria de Jean-François Ponsot.

A proximidade entre PK e reguladores franceses foi discutida por Lavoie (2014) e Boyer (2011). Os dois concordam: certos temas de Pascal Petit, Robert Boyer e Jacques Mazier são similares aos dos Kaldorianos e dos PKs institucionalistas. Os modelos de crescimento ou acumulação, de um e do outro, para os quais a distribuição de renda é muito importante, particularmente, naqueles capazes de levar em consideração os aumentos de produtividade, são altamente vinculados.

De acordo com Lynne Chester e Joy Paton (Chester & Paton, 2011), os PKs estariam interessados em colaborar mais com especialistas em Karl Polanyi e reguladores. Seus quadros teóricos estão, evidentemente, de acordo. É totalmente simbólico a primeira edição da Revue de la Régulation, em 2007, incluir uma longa entrevista com Marc Lavoie.

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Modelagem Pós-keynesiana comparada à Econometria das Escolas Ortodoxas

Continuo a tradução do artigo LAS CORRIENTES TEÓRICAS Y LOS FUNDAMENTOS DEL ANÁLISIS POST-KEYNESIANO, publicado na revista equatoriana Cuestiones Económicas Vol. 27, No. 2:2, 2017, de autoria de Jean-François Ponsot.

Os pós-keynesianos (PK) têm sido relutantes em métodos empíricos e instrumentos econométricos Nesse ponto, eles foram leais a Keynes, a quem a econometria nascente de Tinbergen atribuía “alquimia”. Esta posição crítica do PK pode ser entendido por alguns trabalhos do Programa de Pesquisa Científico ortodoxo: apenas validam ou confirmam empiricamente a teoria ortodoxa como um “artefato” simples, segundo Lavoie (2014).

Os resultados são parciais, devido ao fato de adotarem procedimentos fracos. A ferramenta Econometria é usada como um “instrumento mágico”. Mas não é porque a Economia Ortodoxa abusa de técnicas quantitativas a razão de dever ser rejeitada. Pelo contrário, algumas PKs, principalmente Kaldorianos ou Kaleckianos, consideram os trabalhos heterodoxos necessitam ser usados ​​mais cientificamente, na medida em que se baseiam em hipóteses realistas, ao contrário dos trabalhos ortodoxos.

Este é o caso particular do processo de modelagem de empresas de Godley e Lavoie (Godley & Lavoie, 2007) no final dos anos 90, com modelagem SFC (Fluxos e Estoque Coerentes). Hoje amplamente desenvolvido, esta modelagem PK tenta superar a confusão entre fluxos e estoques, é considerada o “pecado original” da Macroeconomia, de acordo com Kalecki. Através de seus desenvolvimentos mais recentes, em particular a Mobilização de Modelos Multiagentes (ABM), isso abre a modelagem para vários problemas.

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Preceitos estritamente Pós-keynesianos

Continuo a tradução do artigo LAS CORRIENTES TEÓRICAS Y LOS FUNDAMENTOS DEL ANÁLISIS POST-KEYNESIANO, publicado na revista equatoriana Cuestiones Económicas Vol. 27, No. 2:2, 2017, de autoria de Jean-François Ponsot.

Um método histórico nos permite ir além na explicação dos fundamentos da PK. Para simplificar, a constituição de seu corpo teórico, depois da consolidação do paradigma pós-keynesiano, pode ser resumida na tabela acima.

A abordagem PK começa afirmando a economia de mercado ser imperfeita e ineficiente. Isso não tende a se corrigir automaticamente, com tendência a subutilizar e abusar das capacidades produtivas da economia. As empresas raramente trabalham com todo o seu potencial. Elas subutilizam sua usabilidade e produzem desemprego involuntário.

Como postulado central das Teorias do PK, a economia depende crucialmente da demanda efetiva, pouco importa o nível dos salários, tanto em curto como em longo prazo. Pelo contrário, são as antecipações dos empresários em relação ao nível futuro de demanda agregada (e, em seguida, decisões de investimentos) os determinantes do nível de demanda efetiva.

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Fundamentos da Análise Pós-Keynesiana

Continuo a tradução do artigo LAS CORRIENTES TEÓRICAS Y LOS FUNDAMENTOS DEL ANÁLISIS POST-KEYNESIANO, publicado na revista equatoriana Cuestiones Económicas Vol. 27, No. 2:2, 2017, de autoria de Jean-François Ponsot.

Uma das principais dificuldades na definição do pós-keynesianismo vem de da falta de preocupação em discutir os fundamentos de um novo paradigma entre os membros fundadores PK (Pasinetti, 2007). Eichner e Kregel (1957) foram os primeiros PK a tentar compilar sistematicamente os pilares do novo paradigma PK. A tarefa não é fácil.

Lavoie (2014, p. 34) lista quinze características específicas da análise PK, mas indica imediatamente o escopo limitado neste trabalho: essas listas combinam diferentes registros, misturando preceitos metodológicos, hipóteses teóricas e prescrições políticas.

Para facilitar a tarefa, dois processos são frequentemente usados ​​para evitar essa dificuldade:

  1. identificar o que a análise PK tem em comum com heterodoxia,
  2. esclarecer o que a análise PK rejeita da análise econômica padrão.

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Correntes Teóricas e Fundamentos da Análise Pós-keynesiana

O artigo LAS CORRIENTES TEÓRICAS Y LOS FUNDAMENTOS DEL ANÁLISIS POST-KEYNESIANO, publicado na revista equatoriana Cuestiones Económicas Vol. 27, No. 2:2, 2017, é de autoria de Jean-François Ponsot, Doctor en Ciencias Económicas de la Université de Bourgogne y University of Ottawa, Director del Centro de Investigaciones en Economía de Grenoble CREG – Université Grenoble Alpes.

Ele trata da herança de Keynes na análise econômica pós-keynesiana e sua contribuição na heterodoxia contemporânea. Também propõe uma análise da Escola Pós-Keynesiana com base nas cinco correntes: Fundamentalistas, Kaleckianos, Sraffianos, Institucionalistas e Kaldorianos. Mostra a existência de uma base comum dessas abordagens em torno de de cinco pressupostos brevemente expostos. Finalmente, questiona a crítica pós-keynesiana a modelos macroeconômicos padrão de críticos neo-keynesianos. Estes, em conjunto com regulacionistas e institucionalistas, radicalizaram seu discurso desde a crise financeira global (Stiglitz, Krugman, Blanchard).

O pós-keynesianismo (PK) é uma escola heterodoxa de pensamento econômico. Ela se desenvolve em meados da década de 1950. Suas origens estão nas reações críticas às obras de John Maynard Keynes. Foram, em especial, reações à Teoria Geral, obra publicada em 1936, mas antes ainda com as reflexões críticas contribuídas por um grupo de jovens economistas de Cambridge agrupados em The Circus, depois da publicação do livro A Treatise on Money, em 1930. No entanto, é necessário esperar, até início da década de 1970, para essa escola de pensamento assumir o nome de pós-keynesianismo.

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