André Lara Resende: MMT e o Cenário Macroeconômico

A deterioração da conjuntura econômica, no Brasil de hoje, é resultado da crise política, da sensação de o governo ter um projeto explicitamente antidemocrático e estar disposto a sacrificar a economia e as instituições para colocá-lo em prática, segundo André Lara Resende (FSP, 05/09/21)

A instabilidade causada pela ofensiva do presidente Jair Bolsonaro contra as instituições democráticas é o principal fator responsável pela deterioração da situação econômica do país, afirma o economista André Lara Resende.

“[Ela] é resultado da crise política, da sensação de que o governo tem um projeto explicitamente antidemocrático e está disposto a sacrificar a economia e as instituições para colocá-lo em prática”, diz ele, um dos formuladores do Plano Real.

O economista acha que a pandemia do coronavírus mostrou que até países como o Brasil têm condições de se endividar para financiar seus gastos e não vê relação entre o atual desequilíbrio das contas públicas e as dificuldades que o governo encontra para segurar a inflação.

Crítico do receituário econômico convencional adotado no país nos últimos anos e defensor de políticas que ampliem investimentos públicos para estimular o crescimento, Lara Resende considera equivocada a decisão do Banco Central de elevar os juros para tentar conter o surto inflacionário.

“A verdadeira âncora da inflação é a legitimidade e a credibilidade institucional do governo”, diz o economista. “O que leva à perda de controle sobre as expectativas é a desorganização institucional e a perda de legitimidade do Estado.”

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Iceberg Econômico

Diversidade Econômica: Repensando Economia e 
Representação Econômica (por J. K. Gibson-Graham)

Iceberg Econômico (desenho de Ken Byrne)

O iceberg é uma representação econômica usada em projetos de pesquisa-ação para estimular conversas sobre ‘a economia’. Esta imagem é uma forma de ilustrar o geralmente considerado ‘a economia’: trabalho assalariado, troca de mercadorias no mercado e empresa capitalista

Compreende apenas um pequeno subconjunto das atividades pelas quais produzimos, trocamos e distribuímos valores. Ele exprime nosso conhecimento comum das múltiplas maneiras pelas quais todos nós estamos engajados na atividade econômica. 

Ele coloca pouco acima e muito abaixo da “superfície do mar” ao submergir diversas concepções de economia. Coloca a reputação da Economia [enquanto Ciência nomeado com maiúscula], um corpo de conhecimento abrangente e científico, sob suspeita crítica por ter esse foco estreito com efeitos mistificadores sobre o estritamente capitalista.

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André Lara Resende (ex-PUC-RJ) X José Júlio Senna (IBRE-FGV)

José Júlio Senna é chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV/Ibre e autor do livro “Política Monetária: Ideias, Experiências e Evolução” (Editora FGV, 2010). Foi diretor do Banco Central. Criticou (Valor, 16/04/21) o André Lara Resende e recebeu uma réplica (Valor, 23/04/21).

Dada a importância do debate sobre MMT (Teoria da Moeda Moderna) e a raridade de um debate plural, no jornalismo econômico brasileiro, compartilho os dois artigos abaixo. Ao Lara Resende se colocar como um dissidente da ortodoxia, ele abre espaço para divulgar ideias heterodoxas e os leitores pensarem melhor a respeito das alternativas existentes ao pensamento fiscalista predominante aqui, mesmo em época de Grande Depressão.

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Critiques de l’Economie Politique: Histórico em Entrevista de Pierre Salama (e Todos os Sumários em Apêndice)

Achei uma preciosidade para me lembrar da minha juventude. Compartilho-a com meu companheiros da “geração 68”, nascida no baby-boom, e com os demais para conhecimento dessas experiências passadas e reflexão sobre a inação presente, ou melhor, sobre a dimensão ampliada da ação virtual face à audiência presencial. A geração contemporânea só consegue ler tuítes de 70 letras — e não “textão” de 3 páginas?!

Publier une revue marxiste en économie. Entretien avec Pierre Salama: https://www.contretemps.eu/publier-une-revue-marxiste-en-economie-entretien-avec-pierre-salama/

Pierre Salama 13 juin 2017 Publier une revue marxiste en économie. Entretien avec Pierre Salama  

Pierre Salama é, junto com Jean-Luc Dallemagne e Jacques Valier, fundador da revista Critiques de l’Economie Politique, lançada no final de 1970 em um contexto de grande atividade militante e com a perspectiva de alimentar a ação política de compreensão da dinâmica do capitalismo contemporâneo. Voltamos com ele à história desta revista (e publicamos no apêndice os índices de todos os seus números).

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Ajuste Fiscal só Após a Retomada do Crescimento (por André Lara Resende)

André Lara Resende (Valor, 29/01/2021) publicou um longo artigo acadêmico no Eu&Fim-de-Semana. É bom ele ter seguido sua racionalidade inteligente e se tornado um divulgador da MMT (Teoria Moderna da Moeda) no Brasil. Como ex-professor da PUC-RJ, consegue espaço para publicar quando quiser — e como quiser — no jornalismo oficioso do neoliberalismo econômico. Compartilho abaixo seu artigo.

“A partir da segunda metade dos anos 1990, depois da estabilização da inflação crônica brasileira, passou a haver uma sistemática preocupação de evitar que as contas do setor público saíssem de controle. A preocupação com o descontrole das contas públicas advém da vinculação entre o déficit fiscal e a expansão monetária.

Até o fim do século passado, a Macroeconomia hegemônica considerava que o descontrole dos gastos públicos e a excessiva expansão da moeda estavam por trás de todo processo inflacionário. Como “gato escaldado tem medo de água fria”, no Brasil depois da estabilização, a preocupação com o equilíbrio das contas públicas passou a pautar a política macroeconômica.

No momento em que se discute a suspensão do auxílio emergencial à população em nome do equilíbrio fiscal, justamente quando a epidemia de covid recrudesce, é fundamental entender que a verdadeira responsabilidade fiscal não é o equilíbrio orçamentário em todas as circunstâncias e a qualquer custo. Nas atuais circunstâncias, a insistência no equilíbrio fiscal, além de macroeconomicamente equivocada, é moralmente inaceitável.

O objetivo deste artigo é examinar mais a fundo as raízes dos equívocos da macroeconomia hegemônica. Apesar de revista, continua pautada pela lógica da moeda metálica. É incapaz de incorporar em seu arcabouço analítico a moeda fiduciária e o crédito sem lastro na poupança prévia. Continuar a ler

Teoria da Demanda Endividada

Atif R. Mian, Ludwig Straub, and Amir Sufi no paper Indebted Demand (NBER Working Paper No. 26940. April 2020) propõem uma Teoria da Demanda Endividada, capturando a ideia de grandes dívidas sobrecarregarem famílias e governos diminuírem a demanda agregada e, portanto, as taxas de juros naturais. No centro dessa teoria está a observação simples, porém subestimada, de tomadores de empréstimo e poupadores diferirem em suas propensões marginais a economizar na renda permanente.

Incorporando esse insight em um agente duplo – idosos mais enriquecidos e jovens em início de carreira –, sem sobreposição de gerações, descobriram tendências recentes de desigualdade de renda e a liberalização financeira ter levado à demanda endividada das famílias, reduzindo as taxas de juros naturais.

Além disso, políticas expansionistas populares, como a política monetária acomodatícia e política fiscal com déficit público, geram um boom de curto prazo, financiado por dívidas, às custas da demanda endividada no futuro. Quando a demanda está suficientemente endividada, a economia fica presa em uma armadilha da liquidez, baseada em dívidas, ou armadilha da dívida.

Escapar de uma armadilha da dívida exige a consideração de fatores macroeconômicos e políticas fora do padrão. Por exemplo, as focadas na redistribuição de renda ou as redutoras das fontes estruturais de alta desigualdade social.

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4) O que deve ser feito?

“… desde o início dos anos 80 … a maneira como treinamos as pessoas para pensar … no fluxo principal da economia … deixou-as quase incapazes de distinguir entre a superfície e a realidade subjacente. Não foi apenas a Era de Reagan e o início de fundamentalismo de mercado, surgido no início dos anos 80, e a revolução teórica das expectativas racionais e todo o resto, mas sim uma ruptura fundamental em como realmente treinamos nossos alunos a pensar. (…) Porque os adeptos desse novo tipo de modelagem econômica, ganhadores de quase todos os prêmios Nobel, disseram: – Você não precisa entender o quadro mais profundo… Você realmente não precisa conhecer os mecanismos subjacentes da economia, porque os preços vistos refletem esse mecanismo subjacente” — Jeffrey Sacks, em comentários no Earth Institute (Columbia University), no dia 20 de outubro de 2008.

A teoria econômica clássica foi um produto do Iluminismo, inventada por filósofos desejosos de contribuir para o crescimento da democracia liberal. Eles nos ensinaram como construir sociedades propícias à dignidade humana, com base no equilíbrio entre cooperação e liberdade de perseguir a vida, a liberdade e a felicidade.

O ponto alto do Iluminismo foi a influência mútua entre Newton, Locke e Montesquieu. Estes, por sua vez influenciaram “os pais fundadores” da Nação norte-americana a adotarem princípios de governo os quais eles acreditavam serem provenientes de observações da Natureza. Isto está no espírito de seus valores e idealismo compartilhados. Hoje, pedimos uma renovação da abordagem esclarecedora do Iluminismo para compreender e governar racionalmente as sociedades humanas.

No século passado, a Ciência desenvolveu novas ferramentas para entender complexidades e sistemas em evolução, como a economia. Pedimos a economistas, outros cientistas e elaboradores de políticas públicas trabalharem juntos para desenvolver uma nova abordagem para conceituar e modelar a economia de modo confiável o suficiente para servir de guia para a construção e regulação de mercados.

Como devemos provocar essa transformação na teoria econômica? Vamos separar a discussão no imediato, no próximo e no longo prazo. Continuar a ler

3) A Ciência, incluindo a Ciência Econômica, oferece uma base alternativa para conceituar uma melhor Teoria dos Mercados?

A resposta é sim. Uma crítica ao paradigma neoclássico tem sido desenvolvida, bem como tem evoluído o estudo de sistemas complexos, nos últimos vinte anos. Para isso, podem ser adicionadas outras ideias sobre como descrever mercados, superando as suposições neoclássicas. Estas inovações científicas podem ser combinadas para produzir um novo conhecimento científico.

A Ciência da Complexidade permite nova conceituação de sistemas econômicos. Ela precisa ser desenvolvida antes de produzir modelos detalhados precisos da economia com complexidade suficiente para serem confiáveis. Mas oferece um caminho muito promissor.

Os principais componentes dessa visão e as metodologias subjacentes a ela incluem o seguinte.

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2. Crise da Teoria Econômica inspirada na Física de Isaac Newton

A crise se deve, pelo menos em parte, às deficiências de uma certa teoria econômica inspirada na Física newtoniana de equilíbrio gravitacional, artificialmente, projetado para mercados livres.

Aqueles de nós ao procurar defender o interesse próprio em instituições de crédito para proteger o patrimônio líquido (como eu) está em um estado de descrença chocado… Foi a falha em precificar adequadamente esses ativos de risco a causa da precipitação da crise. Nas últimas décadas, um vasto sistema de gerenciamento de riscos e preços evoluiu, combinando as melhores ideias de matemáticos e especialistas em Finanças, apoiados em grandes avanços na tecnologia de computadores e comunicações. Um Prêmio Nobel foi concedido pela descoberta do modelo de precificação de referência para grande parte do avanço nos mercados de derivativos. Este moderno paradigma de gerenciamento de riscos foi adotado por décadas. Todo o edifício intelectual, no entanto, entrou em colapso, no verão do ano passado, porque os dados inseridos nos modelos de gerenciamento de risco geralmente cobriam apenas as duas últimas décadas, um período de euforia” (Depoimento do Dr. Alan Greenspan, na Câmara dos Deputados dos Estados Unidos perante a Comissão de Supervisão e Reforma do Governo, 23 de outubro de 2008).

Quando economistas e outros cientistas estudam um sistema complexo com múltiplos componentes interativos, começam perguntando sobre quais suposições foram usadas anteriormente para entendê-lo e quão bem elas têm se comportado em comparação com os dados. Então, se abordarmos a crise dessa maneira, teremos de começar perguntando sobre os princípios e premissas utilizados para construir e justificar os instrumentos financeiros complexos, cujo uso contribuiu para a instabilidade atual.

Nos queremos saber como essas ideias teóricas foram testadas. Além disso, se a atual crise está ou não revelando evidência de as ideias nas quais o sistema financeiro foi construído podem precisar ser melhoradas. Continuar a ler

Ciência da Complexidade pode ajudar à Ciência Econômica resolver a Crise Econômica?

Lee Smolin, Stuart A. Kauffman, Zoe-vonna Palmrose, Mike Brown publicaram artigo ( https://www.edge.org/conversation/lee_smolin-stuart_a_kauffman-zoe-vonna_palmrose-mike_brown-can-science-help-solvethe Printed On Sat January 19th 2019), cujo título contém essa indagação. Compartilho sua tradução abaixo.

A crise econômica deve ser estabilizada imediatamente. Isso tem de ser realizado pragmaticamente, sem ideologia indevida e sem confiar nas ideias e suposições fracassadas por terem levado à crise. A Ciência da Complexidade pode ajudar nessa meta. Por exemplo, é errado falar em “restaurar os mercados ao equilíbrio”, porque os mercados nunca estiveram em equilíbrio. Já estaremos muito à frente da ortodoxia econômica se falamos em “restaurar os mercados a um estado crítico auto-organizado estável”.

Um projeto econômico científico significaria reunir um grupo de bons cientistas, alguns muito conhecedores de Economia e Finanças, e outros comprovadamente sábios, em outras áreas da ciência, para trazerem novas mentes e perspectivas para enfrentar o citado desafio. Necessitamos focar no desenvolvimento de conceitos para uma nova teoria e modelagem econômica de modo elas serem confiáveis ​​o suficiente para serem chamadas de Ciência.

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Schumpeter, o Dinheiro e a Moeda (por Luiz Gonzaga Belluzzo)

Meu ex-professor Luiz Gonzaga Belluzzo, professor aposentado da Unicamp e fundador da Facamp, em 2001, foi um dos 100 maiores economistas heterodoxos no Biographical Dictionary of Dissenting Economists. Escreveu artigo defendendo um posicionamento adotado também por mim: “financeirização” não é uma deformação do capitalismo, mas um “aperfeiçoamento” de sua natureza (Valor, 04/02/2020). Compartilho-o abaixo.

“Reconhecido pelos senhores dos mercados depois da crise financeira de 2008, o economista keynesiano Hyman Minsky, falecido em 1996, escreveu em 1992 um artigo intitulado “Schumpeter and Finance”. O artigo narra a temporada de Minsky em Harvard na companhia de Paolo Sylos-Labini, então jovem economista italiano, mais tarde referência no mundo acadêmico ao escrever o clássico Oligopólio e Progresso Técnico.

Os dois chegaram a Harvard para a temporada 1948-49. Labini aportou a Harvard depois de algum tempo em Chicago. “Como completei minha graduação em Chicago, Labini e eu compartilhamos nossas opiniões sobre Chicago e Harvard em animada discussão”.

Minsky graduou-se em Matemática em 1941. Do mestrado (1947) ao PhD (1954), foi supervisionado por Schumpeter, Wassily Leontief e Alvin Hansen. Schumpeter morreu em janeiro de 1950.

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André Lara Resende debate com L. Randall Wray sobre a MMT

À luz da Teoria Monetária Moderna (MMT, na sigla em inglês), a política de cortes orçamentários profundos para reduzir o déficit público no Brasil está equivocada do ponto de vista macroeconômico, porque o país ainda sofre com altas taxas de desemprego e insuficiência de investimentos públicos em setores essenciais. O diagnóstico feito ontem pelo economista André Lara Resende reverberou vários dos pontos defendidos por um dos formuladores dessa relativamente nova vertente teórica, o americano L. Randall Wray.

As premissas básicas fundamentais da MMT foram apresentadas por Wray e Resende em palestra promovida pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), na Casa Firjan, e na Fundação Getulio Vargas (FGV), em evento promovido pelo Cebri em parceria com o Valor e o Centro de Estudos do Novo Desenvolvimentismo, da FGV-SP.

“Alguns dos nossos críticos dizem: ‘Não há nada de novo na MMT’. E eu respondo: ‘Você está certo. Foi o que dissemos o tempo todo’”, ironizou Wray, professor do Bard College, em Nova York, e membro do Levy Institute. Apesar de argumentar a MMT ter agregado fragmentos de estruturas teóricas já estabelecidas, Wray ganhou destaque por suas críticas à teoria e às políticas monetárias ortodoxas.

Para ele, o aumento da relação entre a dívida pública e o PIB, mesmo por longos períodos, não caracteriza por si só uma trajetória econômica insustentável. Wray citou especificamente o exemplo dos Estados Unidos para justificar sua posição: “Até agora, a relação entre a dívida pública e o PIB vem crescendo desde 1791 a uma taxa média de 1,82% [ao ano]”, explicou. “Meu argumento é: se algo vem acontecendo por 200 anos, provavelmente é sustentável.

Entre outros pontos, a MMT preconiza: os governos emissores de sua própria moeda não podem quebrar. O excesso de moeda não provoca necessariamente inflação. “A inflação não é resultado do excesso de moeda, mas do excesso de demanda agregada ou das expectativas de inflação”, afirmou Lara Resende, em artigo publicado pelo Valor em março.

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