Chico Lopes: Dimensionando O Que Se Fala

Dívida Líquida e Indexadores DLSP

Francisco Lafaiete Lopes é PhD por Harvard, sócio da consultoria Macrométrica e ex-presidente do Banco Central (BC). Diferentemente de outros ex-colegas professores da PUC-RIO, ele parece ter mais rigor com o que fala ou escreve. Não fica apenas no plano da Ciência Abstrata, baixando o nível de abstração para a Ciência Aplicada e, daí, para a Arte das Decisões Práticas. Ciência exige medição, ou seja, dimensionar o que está falando, para não falar bobagem como disseram diversos participantes deste debate sobre Política Monetária:

O debate sobre impacto do juro alto na inflação segue com artigo de Francisco Lafaiete Lopes reproduzido abaixo. Desde logo, alerto que discordo quando Chico Lopes diz que “se todos os carregadores da dívida pública chegarem à conclusão de que o valor presente dos superávits futuros não representa lastro adequado para os títulos de dívida pública, então cada um deles vai tentar reduzir sua posição”.

Ele teria de ilustrar se essa possibilidade já ocorreu no passado. Houve alguma fuga de capitais do mercado de títulos que oferecem risco soberano para mercados de risco, tais com os de ações, dólar, imobiliário? Não, esta (falsa) ameaça só serve para sequestrar a vontade da Autoridade Monetária, forçando-a a manter a absurda política de juros reais elevadíssimos no País!

Lopes se pergunta: mas como isso afeta o índice de preços de bens e serviços? “Parece mais razoável supor que o impacto será no mercado secundário de títulos da dívida pública, o que sugere que está faltando algo na equação básica da teoria. O que está faltando é a relação entre o valor nominal [ou “de face”] ao qual a dívida foi emitida pelo governo e seu valor no mercado secundário, que podemos indicar por  um fator de desconto“.

Então, parece-lhe mais razoável supor que a dúvida quanto à futura capacidade de pagamento (solvência) governamental ou resgate do endividamento público vai ser ajustado não por movimentos no índice de preços, mas por movimentos no fator de desconto para a dívida pública. Eu, FNC, digo que isto não exclui a possibilidade de qualquer pequeno vazamento deste imenso mercado de títulos para o diminuto mercado de dólares já provocar um choque cambial e, consequentemente, um choque inflacionário. A reação com um choque de juros provocará MtM: “marcação-a-mercado” dos títulos prefixados (LTNs e NTNs) e risco de eutanásia de rentistas. Daí, “creio em deus-padre”! 🙂

“André Lara Resende publicou no Valor alguns artigos instigantes que estão gerando muita perplexidade e controvérsia. Para o grande público foi surpreendente e perturbador ler que “a hipótese neofisheriana, que vê no juro alto a causa da alta inflação no longo prazo (…) tem sólidas credenciais analíticas”. Isto até encorajou o colunista Ancelmo Gois a brincar que o Banco Central vai ter que devolver os juros elevados que foram praticados no Brasil por tanto tempo.

[FNC: na verdade, as castas — quase todas elas necessariamente rentistas –, cerca de 9,6 milhões de pessoas que aplicam em FIFs/TVMs, que teriam de devolver…]

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Justificativa Oficiosa do Governo Golpista sobre a Disparatada Taxa de Juros

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Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação do jornal Valor. Em sua coluna (Valor, 10/02/17) atuou como “porta-voz oficiosa” ao retransmitir o recado em off de “economista do governo (golpista)” aos debatedores sobre a taxa de juros disparatada no Brasil. Reproduzo a mensagem oficiosa abaixo: quando não tem nenhum resultado presente positivo, ele culpa o passado. Antes, é bom lembrar que a taxa de inflação ficou abaixo do teto da meta anual de 6,50% por 10 anos na Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014).

Metas de Inflação 1999-2013

“No início do regime de metas para a inflação, em 1999, foi traçado um cronograma de rápida redução da meta, que partia de 8% para chegar em 3,25% em 2003. Não deu. As eleições de 2002 geraram muita tensão, forte desvalorização da taxa de câmbio e elevação da inflação. O BC optou por operar com meta ajustada e subiu a taxa básica de juros (Selic) de 18% ao ano para 26,50% ao ano entre outubro de 2002 e fevereiro de 2003, para conter a escalada dos preços. O IPCA encerrou o último ano de FHC na Presidência em 12,53% e caiu para 9,30% no primeiro ano do mandato de Lula.

A gestão da política monetária e certo rigor no trato das contas públicas levaram a inflação para 3,14% em 2006, a menor taxa durante o regime de metas. No ano seguinte, porém, o governo jogou fora um bilhete premiado, ao não aproveitar as expectativas de inflação de 3,6% para 2007 e de 3,99% para 2008, para reduzir a meta de 2009. Ainda assim a inflação ficou abaixo da meta em 2007 e em 2009. Nos cinco anos do governo Dilma, o IPCA subiu, distanciando-se dos 4,5%. Nesse período os juros caíram para 7,25% ao ano.

Em abril de 2013, o BC iniciou uma trajetória de aperto monetário que só terminou com a taxa em 14,25% em julho de 2015, onde permaneceu até outubro de 2016, quando a inflação começou a dar trégua. O IPCA, que em setembro acumulava alta de 8,48%, encerrou 2016 em 6,29%. O preço da desinflação foi a recessão, agravada pelas tremendas incertezas políticas e econômicas do período. O IPCA de 3% é o objetivo de longo prazo do BC, ainda distante do horizonte visível das metas de inflação, que agora decidirá sobre 2019.

A possibilidade de o governo [golpista] de Temer retomar a redução da meta, abandonada desde 2005, seria a prova efetiva de que juros altos derrubam a inflação. Será?

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Taxa de Juros e Inflação

José Júlio Senna

José Júlio Senna é chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV/Ibre, autor do livro “Política Monetária – Ideais, Experiências e Evolução“, Editora FGV, 2010, e ex-diretor do Banco Central. Quando eu fiz um Seminário com os pesquisadores da FGV/IBRE, ele demonstrou toda sua competência, sem faltar com o respeito intelectual, pelo contrário, ele me agraciou com seu livro.

Reproduzo abaixo sua contribuição ao debate recente sobre a alta taxa de juros no Brasil.

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Teoria Quantitativa da Moeda Revisitada e Abandonada!

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Maria Clara R. M. do Prado, colunista do Valor, publicou (09/02/2017) um artigo que é um (auto) elogio aos colunistas midiáticos ao resenhar o debate sobre juros e preços entre economistas ortodoxos, ou seja, sem pluralismo teórico e ideológico como é praxe no debate intelectual brasileiro.

Antes de ler seu artigo, reproduzido abaixo, vale saber que Irving Fisher (1867-1947) foi um economista neoclássico norte-americano. Sua reputação durante a vida foi irreparavelmente prejudicada por suas afirmação, um pouco antes da Terça-Feira Negra, dizendo que o mercado de ações havia alcançado um “patamar permanentemente alto”. Sua subsequente Teoria da Dívida-Deflação como uma explicação para a Grande Depressão foi largamente ignorada em favor do trabalho de John Maynard Keynes. Sua reputação se recuperou, dentro da economia neoclássica, principalmente depois que sua obra – A Teoria dos Juros – foi popularizada, no final da década de 1950, e sobretudo em razão de um crescente interesse sobre deflação da dívida, durante a recente crise econômica de 2008-2011.

A teoria de Fisher sobre o nível de preços era resultante da formulação da Teoria Quantitativa da Moeda que partia de uma identidade contábil e com axiomas ad hoc transformava uma correlação em uma causalidade unidirecional: M => P.

Considera-se M=estoque de moeda, P=nível de preços, T=volume de transações realizadas com dinheiro, e V=velocidade de circulação do dinheiro. Fisher então propôs que essas variáveis eram correlacionadas pela Equação de troca: MV=PT. Economistas posteriores (“antipetistas” 🙂 ) substituíram o T pelo y ou “Q“, produto real, quase sempre medido pelo PIB real.

Fisher também foi o primeiro economista a distinguir claramente entre taxas reais e nominais de juros: r = [( 1 + i ) / ( 1 + P* )] − 1

onde r é a taxa real de juros, i é a taxa nominal de juros e a inflação P* é uma medida da variação no nível de preços.

Quando a inflação é suficientemente baixa, a taxa real de juros pode ser aproximada como a taxa nominal de juros menos a taxa de inflação esperada. A equação resultante é conhecida como a equação de Fisher, em sua homenagem.

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Neofisherianismo: Vai Entender… Tanta Sandice!

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Eduardo Loyo é economista-chefe do Banco BTG Pactual e diretor do Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP). Ele aproveita a oportunidade do Debate Monetário entre Economistas Ortodoxos, nas páginas de um jornal econômico, para demonstrar todo o seu saber. Entra na polêmica entre economistas ortodoxos com o artigo “Neofisherianismo: vai entender” (03/02/2017).

Trazida à baila no Brasil por André Lara Resende (Valor, 13/01/17), a “teoria neofisheriana” suscitou enorme perplexidade:

  • primeiro, pela alegação de que apertos monetários elevam ao invés de reduzir a inflação;
  • além disso, por serem proponentes dessa tese economistas que, no ferramental, são estritamente ortodoxos.

Loyo se faz duas questões:

  1. Em que bifurcação terão neofisherianismo e ortodoxia divergido, para chegar a conclusões opostas?
  2. Voltando os olhos das conclusões para suas hipóteses originárias, o que, na raiz, distingue o neofisheriano do ortodoxo?

“Sem entender isso direito, fica difícil avaliar os méritos de cada lado no debate. É um esforço extra nesse sentido, enfrentando as tecnicalidades indispensáveis, que propomos fazer aqui. Não é exatamente trivial – percebê-lo, porém, faz parte da mensagem”. Nós, meros leigos, nos dobramos frente à sumidade e, humildemente, nos esforçaremosContinue reading “Neofisherianismo: Vai Entender… Tanta Sandice!”

Teoria e Prática Sem Sentido

 

suicidio-de-cobraEm sua réplica – Teoria, Prática e Bom Senso (Valor, 27/01/2017) –, André Lara Resende diz que “ao escrever sobre a alta taxa de juros no Brasil, em artigo para o Valor, eu tinha consciência de que a iniciativa era complexa e potencialmente polêmica”.

Complexa” porque ele possui a arrogância típica dos esnobes economistas ortodoxos brasileiros: “eu me propunha a expor, para um público não especializado, questões que estão sendo discutidas na fronteira da macroeconomia”. Pasmem!

Polêmica” porque ele louva a independência de seus ex-colegas para fazerem o que bem entenderem no COPOM, para si e para os demais rentistas: “o Banco Central está sob permanente pressão política para reduzir o juro, isolado na defesa da estabilidade monetária, em um país onde a demanda por gastos públicos é inesgotável e a irresponsabilidade fiscal é regra. Quando a inflação finalmente dá sinais de ceder e o Banco Central dá início ao corte da taxa básica, pode parecer inoportuno levantar a hipótese de que a política monetária das últimas décadas foi equivocada”.

Diz que “entre os que questionaram a oportunidade do texto, uma vertente sustenta que, como a discussão acadêmica é ainda inconclusiva, seria melhor aguardar antes de abrir a debate”. Ora, esses membros da casta dos sábios-intelectuais acham que ainda o bolo não está pronto para ser servido à plebe rude

“Uma segunda vertente teme que a crítica à teoria monetária dominante, ainda que analiticamente séria e empiricamente fundamentada, possa vir a dar margem para que a profusão de teóricos idiossincráticos que assola o país ganhe espaço na formulação de políticas públicas”.

Leia-se: a ortodoxia acha que economistas com comportamento ou pensamento considerado incomum ou extravagante como eu com minha Tese de Livre-Docência, aprovada em concurso realizado em 1994, em que organizei os postulados de uma Teoria Alternativa da Moeda contra a hegemonia da Teoria Quantitativa da Moeda, constituem mera esquisitice, excentricidadeContinue reading “Teoria e Prática Sem Sentido”

Nada De Novo No Debate Monetário Entre Os Economistas Ortodoxos

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Marcos Lisboa e Samuel Pessoa se preocuparam com a dissidência teórica de André Lara Resende em seu artigo “Juros e Conservadorismo Intelectual” e assumiram as dores da ortodoxia, publicando (Valor, 20/01/17) uma crítica no artigo “Nada de novo no debate monetário no Brasil”.

Surpreendem-se que Lara Resende não sabia que, “desde meados do século XX sabe-se que, dependendo dos parâmetros, os modelos usuais da macroeconomia podem gerar dinâmicas bem diferentes. Juros maiores podem resultar tanto em maior inflação quanto, como ocorre no modelo padrão, em queda da inflação por meio da redução da atividade econômica e aumento do desemprego”.

Teoria econômica, para eles, simplesmente, busca estabelecer todas as possibilidades de quaisquer eventos virem a ocorrer.  “Qualquer trajetória de preços é compatível com os modelos convencionais, mesmo com hipóteses bastante restritivas, como mostram os teoremas conhecidos como Anything Goes. A teoria econômica não limita o que pode ser observado nos mercados, mas, apenas, identifica as condições compatíveis em cada caso e os resultados esperados”.

Corretamente, eles distinguem a economia pura (ou teoria abstrata) e a política econômica, cujo pré-requisito é seus executores saberem fazer uma mediação via a economia aplicada, isto é, reincorporando o antes abstraído para a elaboração da teoria pura. O policy maker tem de circunstanciar seu conhecimento teórico, ou seja, datar e localizar seu implemento na realidade. Continue reading “Nada De Novo No Debate Monetário Entre Os Economistas Ortodoxos”