Como a Estatística Perdeu seu Poder

O seguidor deste blog pessoal percebe que sempre tento mostrar estatísticas para comprovar meus argumentos. Aprendi isto com a mestra Maria da Conceição Tavares: “Nunca afirme nada sem ter evidências empíricas para embasar sua afirmação”. E pratiquei no meu primeiro emprego: IBGE de 1978 a 1985.

Porém, nesta tenebrosa Era da Pós-Verdade, deparamo-nos com algo inesperado desde o Iluminismo racionalista do Século XVIII. Pós-verdade é um neologismo que descreve a situação na qual, na hora de criar e modelar a opinião pública, os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais.

Na cultura política, se denomina política da pós-verdade (ou política pós-factual) aquela na qual o debate se enquadra em apelos emocionais, desconectando-se dos detalhes da política pública. Apela para reiterada afirmação de pontos de discussão nos quais as réplicas fáticas – os fatos revelados pela evidência estatística – são ignoradas.

A pós-verdade difere da tradicional postura científica em busca da falsificação da hipótese, dando-lhe uma “importância secundária”. Resume-se à ideia de que “algo que aparente ser verdade é mais importante que a própria verdade”.

Para cientistas, a pós-verdade é simplesmente mentira, fraude ou falsidade encobertas com o termo politicamente oportunista de “pós-verdade”. Simplesmente, ocultaria a tradicional propaganda política.

Portanto, está declinando a capacidade que a estatística tem de representar o mundo com precisão. Como consequência, uma nova Era de Dados (big data) controlados por empresas privadas está assumindo o controle – e colocando a democracia em perigo. William Davies (The Guardian) publicou o artigo “Como a estatística perdeu seu poder – e por que devemos temer o que virá“. Vinicius Duarte Figueira (IBGE/GPR) fez a tradução abaixo. Continue reading “Como a Estatística Perdeu seu Poder”

Oferta de Moeda Endógena por Forças do Mercado: Multiplicação Monetária no Sistema Bancário

Meu colega, Miguel Bacic, enviou-me gentilmente um artigo que pode ser do interesse dos seguidores deste modesto blog pessoal:

Bancos privados é que criam 97% de todo o dinheiro – não os governos ou os bancos centrais

por George Washington

Quem cria a moeda?

A maior parte das pessoas supõe que a moeda é criada por governos… ou talvez pelos bancos centrais.

Na realidade – como foi observado pelo Banco da Inglaterra, o banco central britânico – 97% de toda a moeda em circulação é criada pelos bancos privados.

Empréstimos bancários = Criação de moeda a partir do ar [FNC: na verdade, da alavancagem do capital próprio pelo banco que recebeu autorização da Autoridade Monetária.]

Mas como é que os bancos privados criam moeda?

Fomos ensinados que os bancos primeiro captam depósitos e a seguir eles emprestam esses depósitos às pessoas que querem contrair empréstimos.

Mas isto é um mito… O Banco da Inglaterra e o banco central alemão já explicaram que os empréstimos são concedidos antes de os depósitos existirem… e que os empréstimos criam depósitos.

A afirmação acima é de um vídeo oficial divulgado pelo Banco da Inglaterra. O Banco da Inglaterra explica :

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Sobre a Eficácia da Política Monetária

Dólares em voo

Luciano Coutinho, economista, foi presidente do BNDES e Professor Titular do IE-UNICAMP. Embora eu seja seu ex-aluno e admirador de sua capacidade profissional com sólida formação teórica e histórica, permita-me discordar da mensagem principal de seu artigo abaixo (Valor, 02/03/17). Saliento que sou amplamente minoritário entre os economistas desenvolvimentistas a respeito da tese de que é necessário eliminar a LFT (Letras Financeiras do Tesouro), títulos de dívida pública pós-fixados.

Eu, FNC, entendo que meus colegas argumentam sob o ponto de vista da boa condução das Finanças Públicas. Eu argumento sob o ponto de vista das Finanças Pessoais, ou seja, as dos trabalhadores assalariados que ganham acima do teto do INSS (R$ R$ 5.531,31) — ou de todos aqueles que contam com o seu patrimônio no FGTS ou em Fundos de Previdência (Fechados ou Abertos) para a aposentadoria — e têm de defender o poder aquisitivo de suas reservas financeiras para a fase de vida inativa.

Historicamente, a economia brasileira se caracteriza pela instabilidade cambial e inflacionária, enfrentada através da variação dos juros. Outras economias não sofrem tanta volatilidade na taxa de juros que impõe risco de perda da riqueza financeira que tanto custa aos trabalhadores para acumularem e poderem se aposentar mantendo o padrão de vida. Aqui, imagine sem títulos pós-fixados para se defender da arbitrariedade da casta de sábios-tecnocratas incrustados no COPOM!

Discordo dos meus companheiros de esquerda quanto à imposição forçada de perda ao capital financeiro. Não se pode fazer desaforo ao capital — ou épater les bourgeois! Senão, aqui, ele foge para o dólar paralelo. Com a dolarização da economia brasileira, o sistema bi-monetário levaria à hiperinflação. A LFT desestimula essa fuga de capital do mercado financeiro formal, onde os investidores carregam a dívida pública, para o informal, onde especulam com dólar. Graças a essa “jabuticaba”, não tivemos hiperinflação aberta e descontrolada.

Reproduzo o artigo do meu caro Professor Luciano abaixo. Continue reading “Sobre a Eficácia da Política Monetária”

Taxa real de juro: Evolução e Perspectivas

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Nelson Barbosa, professor titular da Escola de Economia de São Paulo (FGV) e professor visitante da Universidade de Brasília, foi ministro da Fazenda e ministro do Planejamento no governo Dilma. Publicou artigo (Valor, 24/02/17), dentro do debate sobre a política de juros no Brasil, que reproduzimos abaixo.

O Brasil tem a mais alta taxa básica de juro do mundo em termos reais. Essa jabuticaba econômica tem sido motivo de debate desde meados da década de 1990. O recente artigo de André Lara Resende (publicado no Valor) reacendeu o interesse sobre o tema 1, sobretudo porque estamos em um momento de intensa discussão monetária nos EUA e de redução da taxa Selic no Brasil.

A partir da chamada Teoria Fiscal do Nível de Preço (TFNP), Lara Resende argumentou que a causalidade entre taxa de juro e inflação poderia ser no sentido contrário ao normalmente atribuído pela teoria convencional. Ao invés de a taxa de inflação determinar a taxa nominal de juro para atingir uma taxa real de juro pré-definida, a taxa nominal de juro poderia determinar a inflação devido à sua influência sobre solvência do setor público.

O sentido intuitivo da TFNP para o caso brasileiro seria que, dada uma taxa real de juro muito superior ao crescimento da economia e um nível elevado de endividamento do governo, o aumento da taxa básica de juro levaria à expansão do déficit público além da demanda do setor privado por títulos do Tesouro. Essa diferença teria, então, que ser preenchida pela expansão da quantidade de moeda ou quase-moeda (operações compromissadas), o que geraria mais inflação e completaria a causalidade da taxa de juro para o nível de preços.

O raciocínio acima é a base da hipótese da “dominância fiscal”, segundo a qual, em condições especiais de baixo crescimento e elevada dívida pública, a política monetária perderia sua eficácia sobre a inflação, pois aumentos da taxa básica de juro acabariam gerando mais – ao invés de menos – inflação.

A discussão dessa hipótese ganhou importância diante da recente recessão e aumento da dívida pública no Brasil, mas até o momento nada indica que nossa economia está ou esteve sob dominância fiscal. A evolução dos acontecimentos indica exatamente o oposto.

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John Cochrane: Passa Fora, Moleques! (Uso de Argumento de Autoridade por parte dos Tapuias Colonizados Culturalmente)

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A discussão que as ideias de John H. Cochrane geraram nas páginas do Valor entre economistas brasileiros ortodoxos termina de maneira muito engraçada: o próprio autor desautoriza o uso de seu exercício dedutivo-racional, no plano da Teoria Pura ou Abstrata, para a tomada de decisões práticas por parte seja do FED, seja do BCB!

Ele reconhece que o uso desse método dedutivo-racional sem acrescentar o método histórico-indutivo, baixando progressivamente o nível de abstração, é uma irresponsabilidade intelectual! É conhecido como vício ricardiano pular do alto de uma construção teórica pura diretamente para o chão-duro da realidade concreta… É um suicídio econômico.

Autor do trabalho acadêmico que deu origem a uma polêmica entre economistas brasileiros sobre a receita pouco ortodoxa de o Banco Central cortar os juros para baixar a inflação, o professor John H. Cochrane, da Universidade de Stanford, é taxativo: “Desaconselharia veementemente“.

O trabalho para discussão de Cochrane, com 153 páginas recheadas de equações matemáticas, virou a leitura do verão dos interessados nos intrigantes juros altos do Brasil. A polêmica começou com um artigo publicado no Valor pelo economista André Lara Resende, em 13 de janeiro, com o título “Juros e conservadorismo intelectual“, que cita as pesquisas do professor de Stanford. Esse artigo deu origem a outros quatro neste jornal, sem falar no debate que se espalhou para outros veículos de comunicação.

Em entrevista por telefone, Cochrane, de 59 anos, relata os conflitos que ele mesmo sente com as conclusões de seu próprio trabalho, que numa tradução livre tem o nada atrativo título de “Michelson-Morley, Occam and Fisher: As Implicações Radicais da Inflação Estável com Juros Perto de Zero“.

“Não sei se acredito nas conclusões, mas de certa forma estou sendo compelido pela lógica do que eu estou vendo”, disse o professor de Stanford. “Como economista, tenho que trabalhar com os fatos.”

Ele examina a condução da política monetária pelas economias avançadas desde a crise financeira mundial de 2008, quando os juros ficaram perto de zero e os bancos centrais imprimiram muito dinheiro sem causar as tragédias da deflação ou da hiperinflação que muitos temiam.

O trabalho de Cochrane põe em xeque as teorias em uso pelos bancos centrais de que subir juros leva inevitavelmente a uma inflação menor. Na verdade, seria o contrário: existiria uma relação de longo prazo entre juros altos e inflação alta. É o que se chama hipótese neofisheriana, em uma referência ao economista americano Irving Fisher (1867-1947).

Aos achados de Cochrane, juntaram-se visões dos economistas brasileiros que colocaram a colher na polêmica, tropicalizando as conclusões.

  • Será que temos inflação alta no Brasil apenas porque os juros são altos?
  • Não seria prudente estudar melhor essas conclusões antes de colocar em prática?
  • O ponto essencial do trabalho de Cochrane não seria a política fiscal, não a monetária?

Faltava saber como o autor do trabalho original via as suas próprias conclusões.

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Chico Lopes: Dimensionando O Que Se Fala

Dívida Líquida e Indexadores DLSP

Francisco Lafaiete Lopes é PhD por Harvard, sócio da consultoria Macrométrica e ex-presidente do Banco Central (BC). Diferentemente de outros ex-colegas professores da PUC-RIO, ele parece ter mais rigor com o que fala ou escreve. Não fica apenas no plano da Ciência Abstrata, baixando o nível de abstração para a Ciência Aplicada e, daí, para a Arte das Decisões Práticas. Ciência exige medição, ou seja, dimensionar o que está falando, para não falar bobagem como disseram diversos participantes deste debate sobre Política Monetária:

O debate sobre impacto do juro alto na inflação segue com artigo de Francisco Lafaiete Lopes reproduzido abaixo. Desde logo, alerto que discordo quando Chico Lopes diz que “se todos os carregadores da dívida pública chegarem à conclusão de que o valor presente dos superávits futuros não representa lastro adequado para os títulos de dívida pública, então cada um deles vai tentar reduzir sua posição”.

Ele teria de ilustrar se essa possibilidade já ocorreu no passado. Houve alguma fuga de capitais do mercado de títulos que oferecem risco soberano para mercados de risco, tais com os de ações, dólar, imobiliário? Não, esta (falsa) ameaça só serve para sequestrar a vontade da Autoridade Monetária, forçando-a a manter a absurda política de juros reais elevadíssimos no País!

Lopes se pergunta: mas como isso afeta o índice de preços de bens e serviços? “Parece mais razoável supor que o impacto será no mercado secundário de títulos da dívida pública, o que sugere que está faltando algo na equação básica da teoria. O que está faltando é a relação entre o valor nominal [ou “de face”] ao qual a dívida foi emitida pelo governo e seu valor no mercado secundário, que podemos indicar por  um fator de desconto“.

Então, parece-lhe mais razoável supor que a dúvida quanto à futura capacidade de pagamento (solvência) governamental ou resgate do endividamento público vai ser ajustado não por movimentos no índice de preços, mas por movimentos no fator de desconto para a dívida pública.

Eu, FNC, digo que isto não exclui a possibilidade de qualquer pequeno vazamento deste imenso mercado de títulos para o diminuto mercado de dólares já provocar um choque cambial e, consequentemente, um choque inflacionário. A reação com um choque de juros provocará MtM: “marcação-a-mercado” dos títulos prefixados (LTNs e NTNs) e risco de eutanásia de rentistas. Daí, “creio em deus-padre”! 🙂

“André Lara Resende publicou no Valor alguns artigos instigantes que estão gerando muita perplexidade e controvérsia. Para o grande público foi surpreendente e perturbador ler que “a hipótese neofisheriana, que vê no juro alto a causa da alta inflação no longo prazo (…) tem sólidas credenciais analíticas”. Isto até encorajou o colunista Ancelmo Gois a brincar que o Banco Central vai ter que devolver os juros elevados que foram praticados no Brasil por tanto tempo.

[FNC: na verdade, as castas — quase todas elas necessariamente rentistas –, cerca de 9,6 milhões de pessoas que aplicam em FIFs/TVMs, que teriam de devolver…]

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Justificativa Oficiosa do Governo Golpista sobre a Disparatada Taxa de Juros

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Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação do jornal Valor. Em sua coluna (Valor, 10/02/17) atuou como “porta-voz oficiosa” ao retransmitir o recado em off de “economista do governo (golpista)” aos debatedores sobre a taxa de juros disparatada no Brasil. Reproduzo a mensagem oficiosa abaixo: quando não tem nenhum resultado presente positivo, ele culpa o passado. Antes, é bom lembrar que a taxa de inflação ficou abaixo do teto da meta anual de 6,50% por 10 anos na Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014).

Metas de Inflação 1999-2013

“No início do regime de metas para a inflação, em 1999, foi traçado um cronograma de rápida redução da meta, que partia de 8% para chegar em 3,25% em 2003. Não deu. As eleições de 2002 geraram muita tensão, forte desvalorização da taxa de câmbio e elevação da inflação. O BC optou por operar com meta ajustada e subiu a taxa básica de juros (Selic) de 18% ao ano para 26,50% ao ano entre outubro de 2002 e fevereiro de 2003, para conter a escalada dos preços. O IPCA encerrou o último ano de FHC na Presidência em 12,53% e caiu para 9,30% no primeiro ano do mandato de Lula.

A gestão da política monetária e certo rigor no trato das contas públicas levaram a inflação para 3,14% em 2006, a menor taxa durante o regime de metas. No ano seguinte, porém, o governo jogou fora um bilhete premiado, ao não aproveitar as expectativas de inflação de 3,6% para 2007 e de 3,99% para 2008, para reduzir a meta de 2009. Ainda assim a inflação ficou abaixo da meta em 2007 e em 2009. Nos cinco anos do governo Dilma, o IPCA subiu, distanciando-se dos 4,5%. Nesse período os juros caíram para 7,25% ao ano.

Em abril de 2013, o BC iniciou uma trajetória de aperto monetário que só terminou com a taxa em 14,25% em julho de 2015, onde permaneceu até outubro de 2016, quando a inflação começou a dar trégua. O IPCA, que em setembro acumulava alta de 8,48%, encerrou 2016 em 6,29%. O preço da desinflação foi a recessão, agravada pelas tremendas incertezas políticas e econômicas do período. O IPCA de 3% é o objetivo de longo prazo do BC, ainda distante do horizonte visível das metas de inflação, que agora decidirá sobre 2019.

A possibilidade de o governo [golpista] de Temer retomar a redução da meta, abandonada desde 2005, seria a prova efetiva de que juros altos derrubam a inflação. Será?

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