Falha Fatal do Neoliberalismo (por Dani Rodrik): experimento dos Chicago Boys no Chile resultou na pior crise econômica em toda a América Latina

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Os bons economistas, diz Dani Rodrik, sabem:
a única resposta correta para qualquer questão em economia é: depende.
(Foto: Jodi Hilton/The New York Times)

O artigo intitulado “Salvando a economia do neoliberalismo”, escrito por Dani Rodrik, professor de Política Econômica Internacional da Escola de Governo John F. Kennedy, de Harvard, divulgado no começo do mês, é objeto de intenso debate na Europa e nos Estados Unidos na mídia convencional, nos sites e nos blogs, tanto os considerados desenvolvimentistas quanto os neoliberais.

O texto “viralizou”, como se diz no jargão da internet, isto é, ganhou enorme e inesperada repercussão, ainda mais surpreendente por tratar de tema árido. O autor acertou na mosca, disse o jornal The Guardian, ao identificar a falha fatal do neoliberalismo: é uma economia de má qualidade, segundo os cânones da dita Ciência Econômica.

Leia original emhttps://www.theguardian.com/news/2017/nov/14/the-fatal-flaw-of-neoliberalism-its-bad-economics

“Neoliberalismo e suas prescrições usuais – sempre mais mercados, sempre menos governo – são de fato uma perversão da economia dominante”, sintetiza o jornal.

CartaCapital (https://www.cartacapital.com.br/revista/980/o-neoliberalismo-e-sua-falha-fatal) selecionou abaixo os excertos do artigo de Rodrik:

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Oposição à Política de Pleno Emprego através de Gastos do Governo

Qual será o resultado prático da oposição a uma política de pleno emprego pelos gastos do governo em uma democracia com economia de mercado? Michal Kalecki, em “Aspectos Políticos do Pleno Emprego”, tenta responder a esta questão com base na análise das razões para essa oposição dadas anteriormente em sua palestra realizada em 1942.

É esperada a oposição dos líderes do setor privado em três planos:

  • a oposição por princípio aos gastos do governo com base em um déficit orçamentário;
  • a oposição ao direcionamento deste dispêndio tanto para o investimento público, prenunciando a intromissão do Estado em novas atividades econômicas sob “reserva de mercado” do setor privado, ou no sentido de subsidiar o consumo popular;
  • a oposição à manutenção do pleno emprego e não apenas à prevenção de depressões profundas e prolongadas.

A fase de “os líderes empresariais” se darem ao luxo de ser oposição a qualquer tipo de intervenção do governo para aliviar a depressão se tornou passado com o pleno emprego alcançado durante a economia de guerra. O slogan “desemprego nunca mais” tornar-se-ia profundamente enraizado na consciência das massas populares caso elas pudessem se manifestar com paralizações da atividade econômica.

Daí, em uma democracia, e não sob o fascismo ou o nazismo, reflete-se nos pronunciamentos dos “líderes da indústria” e seus economistas-chefe. A necessidade de “algo ser feito na depressão” tinha se tornado consensual durante o grande trauma dos anos 30 e 40 do século XX. Continue reading “Oposição à Política de Pleno Emprego através de Gastos do Governo”

Pleno Emprego em Economia de Guerra

A antipatia da casta de líderes empresariais quanto à política de gastos do governo, para alcançar o pleno emprego, se torna mais forte quando ela considera o dinheiro público ser gasto em investimento estatal e/ou em subsídio ao consumo popular. Ela exige o investimento público limitar-se a atividades onde não ocorra concorrência com os interesses das empresas privadas. Afinal, atualmente, se mercantilizaram até a saúde e a educação!

Neste andamento, brevemente, os privatistas acharão suficiente a segurança privada, senão os empreendedores milicianos (ex-militares ou oficiosos) “para matar bandidos”. Buscarão também concessões para o setor privado de autoestradas e aeroportos, enquanto não demoverem a noção da casta dos guerreiros militares de a energia ter o controle nacional como uma estratégia de soberania. Por que não privatizar e desnacionalizar o petróleo e a energia elétrica? O petróleo é nosso? Coisa demodê… Para as mentes colonizadas, melhor seria aqui retroceder de vez a uma colônia…

Caso contrário, alegam, a rentabilidade do investimento privado pode ser prejudicada, e os efeitos positivos do investimento público sobre o emprego serão neutralizados pelo efeito negativo do declínio do investimento privado. Sugerem o subjetivo “estado de confiança” empresarial ser uma emoção tênue com a qual todo cuidado é pouco. Essa concepção se adequa muito bem aos mercadores manterem o Estado sob controle. Continue reading “Pleno Emprego em Economia de Guerra”

Doutrina Kaleckiana do Pleno Emprego

O pleno emprego poderia ser assegurado por um programa de gastos do governo se houvesse um plano adequado para empregar toda a força de trabalho existente em determinada economia nacional? Nesse caso, haveria a disponibilidade necessária de recursos produtivos, tanto em máquinas e equipamentos, quanto à oferta de matérias-primas? Seria viável a importação de estrangeiras em troca de exportações de commodities nacionais de modo a manter certo equilíbrio no balanço de pagamentos e evitar uma crise cambial com efeito inflacionário?

Essas são as questões chaves lançadas inicialmente por Michal Kalecki, economista polonês, em uma palestra dada à Sociedade Marshall em Cambridge na primavera de 1942. Sua compilação adotou o título de “Aspectos Políticos do Pleno Emprego”.

Kalecki responde àquelas questões dizendo a demanda efetiva por bens e serviços poder ser aumentada até alcançar o pleno emprego se o governo:

  1. assumir o investimento público, por exemplo, construindo escolas, hospitais, estradas, etc. e/ou
  2. subsidiar o consumo popular por transferências de renda às famílias e pela redução dos impostos indiretos como subsídios para manter baixos os preços dos bens de primeira necessidade.

Essas despesas teriam de ser financiadas pelo endividamento e não pela tributação, porque esta poderia afetar negativamente o investimento privado e o consumo capitalista. Este gasto governamental aumenta o emprego não só diretamente, como também indiretamente pelo multiplicador: os rendimentos mais elevados dele resultantes implicam em um segundo aumento na demanda por bens de consumo e de investimento, e assim por diante.

Então, Kalecki se pergunta: de onde o público vai tirar o dinheiro para emprestar para o governo se não reduzir o seu investimento e consumo? Continue reading “Doutrina Kaleckiana do Pleno Emprego”

Número de Dunbar: Quantos amigos você consegue ter?

Professor Robin Dunbar, em Oxford, 24 de Fevereiro, 2015. Para Veja Paginas Amarelas. Foto Andre Camara

Quantos amigos você tem na internet? Quinhentos? Mil? Pois bem, não se iluda. O limite das relações humanas é determinado pela biologia. O ser humano tem capacidade de manter uma rede de amizade composta por, em média, 150 pessoas. Conhecido como “número de Dunbar”, ele foi estipulado, na década de 90, pelo antropólogo inglês Robin Dunbar. Aos 67 anos, o professor da Universidade de Oxford, é um dos mais importantes estudiosos da Psicologia Evolutiva.

Segundo ele, esse número se mantém estável desde os primórdios da humanidade e não mudou com a popularização das redes sociais digitais. “Compartilhar informações pessoais com quem não se tem intimidade cria a falsa sensação de amizade”, disse ele.

Dunbar é autor de uma dezena de livros. O mais importante deles, de 2010, é How Many Friends Does One Person Needs? Dunbar´s number and other evolutionary quirks (em tradução livre, Quantos amigos uma pessoa precisa? O número de Dunbar e outras peculiaridades evolucionárias). A seguir, editei a entrevista concedida por Dunbar à Carolina Melo (Veja, 17/03/15).

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Consciência da Ignorância é melhor do que a Ilusão do Conhecimento

Martin Wolf é editor e principal analista econômico do Financial Times. Valor (21/03/18) reproduziu seu artigo crítico à atual Economia ortodoxa intitulado A Decepcionante Teoria Econômica. Compartilho abaixo.

“A Economia, como a Medicina (e ao contrário, por exemplo, a Cosmologia), é uma disciplina prática. Seu objetivo é tornar o mundo um lugar melhor. Isto é particularmente verdadeiro para a Macroeconomia, inventada por John Maynard Keynes em resposta à Grande Depressão.

Testar essa disciplina é verificar se seus praticantes compreendem o que pode dar errado na economia e como corrigir o problema. Quando a crise financeira que irrompeu em 2007 apanhou a profissão quase completamente desavisada, ela falhou no primeiro desses testes. Teve desempenho melhor no segundo. Apesar disso, ela precisa ser reconstruída.

Num blog no ” Financial Times ” em 2009, Willem Buiter, hoje no Citi, argumentou que: “a maioria das principais inovações teóricas da macroeconomia desde a década de 1970… acabaram revelando-se distrações autorreferentes e voltadas para si mesma, na melhor das hipóteses”.

Uma análise excepcionalmente exaustiva, publicada na “Oxford Review of Economic Policy” sob o título “A reconstrução da Teoria Macroeconômica“, leva-me à mesma posição. A abordagem canônica de fato se mostrou gravemente defeituosa. Além disso, economistas de alto nível diferem profundamente sobre o que fazer a respeito. Sócrates poderia dizer que a consciência da ignorância é muito melhor do que a ilusão do conhecimento. Se assim for, a macroeconomia está em boa forma. Continue reading “Consciência da Ignorância é melhor do que a Ilusão do Conhecimento”

Baixo Ritmo de Crescimento da Renda + Consumo Permanente = Poupança Reduzida

Não é admirar que “O Brasileiro” (mas quem é, hein?) não faça poupança, se nem os economistas brasileiros sabem o que é poupança! Os ortodoxos, cegos pelo individualismo metodológico e pela doutrina religiosa, que prega o sacrifício do consumo presente para se chegar ao paraíso do consumo no futuro, acham que, se todos se sacrificarem, a poupança aumentará!

A mente cartesiana obtusa não consegue ter uma visão holística, percebendo o beabá keynesiano — aprendi no meu primeiro dia de aula de Introdução à Economia na FACE-UFMG em 1971 — chamado de Paradoxo da Parcimônia: se todos cortam gastos, o multiplicador de renda será menor e, no final, todos terão menos renda poupadaSofisma da composição é isso: o que é verdade para as partes nem sempre é verídico para o todo, i.é, o sistema. Aristoteles já dizia isso…

Mas a autossuficiência e a auto validação ilusória de só conversar com quem pensa igual e ler apenas os pares impedem os economistas de formação ortodoxa diminuírem a ignorância a respeito de outras correntes de pensamento econômico. É lamentável. Veja a quantidade de asneiras que dizem na reportagem abaixo por causa do desconhecimento de teoria econômica básica.

Sergio Lamucci (Valor, 09/01/18), informa que, depois de ficar abaixo de 14% do PIB em 2016, a taxa de poupança doméstica subiu um pouco, atingindo 14,4% do PIB nos quatro trimestres até setembro do ano passado. O nível, porém, continua muito baixo, inferior ao de grande parte dos países emergentes.

Fernando Nogueira da Costa: Óbvio, com o ritmo de crescimento do PIB muito baixo, ex-post, mantendo-se o padrão de consumo básico, a sobra de renda (resíduo contábil entre o fluxo de renda e o fluxo de consumo) é pouca, né?

Em relatório, o Credit Suisse aponta “dois grupos distintos de países emergentes, identificados com base nos dados do Banco Mundial entre 1980 e 2015″:

  1. as economias de alto crescimento do PIB e taxas de poupança e investimento elevadas e
  2. os de baixo crescimento do PIB e baixas taxas de investimento e poupança.

O Brasil está no segundo grupo, ao lado de economias como México, África do Sul e Argentina. No outro grupo, predominam países asiáticos como China, Índia e Malásia. Ortodoxo, entendeu ou quer que eu desenhe?

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