Crítica à Teoria Convencional do Consumo e da Poupança

Economistas ortodoxos criticam os autores heterodoxos porque, supostamente, subscreveriam o modelo de formação de hábito, que sugere que o consumo não responde às elevações da renda que sejam percebidas como permanentes, como sugerido pelo modelo tradicional. Os “dissidentes da corrente principal” (sic) achariam que há um componente do consumo associado ao hábito.

Na verdade, hábito é muito distinto do impulso emocional que a heterodoxia contemporânea pesquisa. O desejo de consumo pode ser comparado a um novo caso de amor narcisista: se ver belo(a) nos olhos de outro(a). Quem disse isso foi o sociólogo inglês Colin Campbell, estudioso das mudanças culturais, religiosas e sociológicas do consumo no livro “The romantic ethic and the spririt of modern consumerism”.

“A base da atração é a novidade. As pessoas se enamoram por quem não conhecem. Ninguém se apaixona por um velho conhecido. Sabe por que? É preciso encontrarmos um estranho para projetarmos o sonho, o que desejamos, mas não temos. Trata-se do mesmo sentimento de novidade que induz ao consumo. (…) O que você comprou ou viveu nunca será exatamente como idealizou. (…) O realizado perde a sensação de novidade. É como uma relação de amor. (…) O ser humano é insatisfeito, precisa tentar sempre”.

Quando alguém vai ao shopping center, ao invés de consumir bens, em sua opinião, consome experiências. A experiência nada mais é do que a sensação que a compra lhe dá. Através do consumo, as pessoas conquistam novas experiências, uma vivência diferente, uma nova sensação. Não compram bens, compram novidades. Ficar na moda não é suprir a necessidade de vestir, mas sentir a novidade que aquela determinada roupa proporciona. Da mesma forma ocorre no consumo de turismo: quando se procura um lugar ao qual nunca se foi, está se buscando uma novidade, uma nova sensação.

Segundo Campbell, “a maior parte da teoria econômica não tem muito o que dizer sobre o consumo, apenas aborda a questão da produção. Assume apenas que as pessoas têm necessidades de consumo. Tudo que os economistas acham importante saber é se há recursos para satisfazê-lo ou não. Eu me preocupei com os problemas que os economistas não analisam, que é de onde vêm os desejos, como eles são criados. (…). Na sociedade moderna, a maior parte dos nossos recursos não é destinada àquilo que precisamos e sim ao que queremos. (…) É do desejo que estamos falando”.

Ele tem uma percepção de que o simbólico é fundamental, na economia. A heterodoxia atual faz uma certa “culturalização” da Economia, projetando no campo simbólico problemas comuns à Psicanálise, à Antropologia e à Economia. Continue reading “Crítica à Teoria Convencional do Consumo e da Poupança”

Repensando a Política Macroeconômica

https://piie.com/events/rethinking-macroeconomic-policy

O Instituto Peterson realizou uma conferência intitulada “Repensando a Política Macroeconômica“, coordenada por Olivier Blanchard, PIIE C. Fred Bergsten Senior Fellow e Lawrence H. Summers, membro do Comitê Executivo do Instituto, de 12 a 13 de outubro de 2017. A conferência é a quarta de uma série que Blanchard começou no Fundo Monetário Internacional.

Os especialistas acadêmicos e os formuladores de políticas abordaram os desafios para o pensamento macroeconômico e a formulação de políticas que o ambiente econômico mundial de hoje exige, entre outros aspectos:

  1. inflação baixa, apesar do baixo desemprego,
  2. as interações emergentes do aumento da desigualdade e da estagnação da produtividade e
  3. a falta de resposta das taxas de juros de longo prazo ao aumento da dívida pública.

O Instituto Peterson co-publicou os trabalhos da conferência com o MIT Press no início de 2018. Os links para download estão abaixo: Continue reading “Repensando a Política Macroeconômica”

Redescoberta pelos Neoliberais da Teoria da Inflação Acelerada dos Desenvolvimentistas

Deus pode não jogar dados, mas O Mercado Onisciente, Onipotente e Onipresente joga sim, para a Autoridade Monetária lhe servir…

A overdose dos juros resultou em elevação da concentração de riqueza financeira no Brasil. Com a Selic acumulada de 14% no ano de 2016, o varejo tradicional (6,5 milhões de contas FIFs e TVMs) elevou em R$ 2.804 sua riqueza per capita (para R$ 49.213); o varejo de alta renda (3,5 milhões de contas) elevou em R$ 10.652 sua riqueza per capita (para R$ 174.445). O Private Banking (112 mil CPFs), enquanto isso, elevou em R$ 939 mil (quase um milhão de reais) sua riqueza per capita, atingindo R$ 7,422 milhões per capita. Isto em um ano de queda de -4,4% na renda per capita. A elevação percentual da riqueza financeira dos ricaços foi exatamente 14%, enquanto a da classe média baixa foi 6% e a da alta, 7%.

Alex Ribeiro (Valor, 29/09/17) informa que, acusado de excesso de conservadorismo na condução da política monetária, o Banco Central está se socorrendo da literatura econômica para provar que não é culpado pela queda da inflação a patamares perigosamente próximos do piso da meta em 2017.

O presidente da instituição, Ilan Goldfajn, passou a citar nos seus discursos três trabalhos acadêmicos para sustentar a tese de que, sem uma política austera de juros em fins do ano passado, a recessão sozinha não teria sido capaz de controlar a inflação. A estabilização e retomada gradual da economia, sustenta, talvez nem tivesse ocorrido.

[Fernando Nogueira da Costa: Ah, é? Banco Central do Brasil neutro, imparcial, técnico, eficiente, competente… Boa piada… Conta outra! 🙂 ] Continue reading “Redescoberta pelos Neoliberais da Teoria da Inflação Acelerada dos Desenvolvimentistas”

I Seminário Paraense de Estudos sobre John Maynard Keynes

O Grupo de Pesquisa Novo Institucionalismo Econômico e Fronteiras (GNIEF), liderado pelo Prof. André Cutrim Carvalho, junto com o Centro Acadêmico de Economia (CAECON), ambos da UFPA, solicitou minha ajuda no processo de divulgação do “I Seminário Paraense de Estudos sobre John Maynard Keynes“.

O economista John Maynard Keynes continua sendo uma das principais referências intelectuais – se não a mais importante – na compreensão da economia capitalista contemporânea. O I Seminário Paraense de Estudos sobre John Maynard Keynes nasce, portanto, com o intuito de prestar uma justa homenagem ao maior economista do século XX, e vai além ao promover pela primeira vez na Amazônia brasileira um debate sobre a Crise Econômica no Brasil e no Estado Pará na perspectiva de Keynes.

Pré-keynesianos: Felizes como Pinto no Lixo

Os economistas ultraliberais, no governo temeroso, conseguiram submeter a economia brasileira à Lei de Say: sem conceder crédito “em excesso” (sic), supostamente, os bancos agiram exatamente como intermediários financeiros apenas canalizando poupança para investimento. O resultado, segundo essa concepção pré-keynesiana, é que, aparentemente, conseguiram o desejado acima de tudo: equilíbrio entre a oferta agregada e a demanda agregada. Em decorrência, não há mais inflação de demanda – e a queda dos preços de alimentos colabora bastante para um processo de desinflação. Porém, há um “detalhe” para eles não saborearem a “vitória” completa: a grande depressão (a maior da história econômica brasileira) e o imenso desemprego.

A atual política econômica de curto prazo demonstra o analfabetismo econômico do mainstream, isto é, da “corrente principal da Economia” — autodenominação dos economistas ortodoxos. Estes são fiéis seguidores da Ética Protestante e do Espírito do Capitalismo do século XIX, quando ainda se guardava “poupança” debaixo do colchão.

A economia do endividamento bancário não tinha evoluído, há dois séculos, para o uso generalizado de cheques, a câmara de compensação, a expansão da rede de agências e a carteira de redesconto, ou seja, os empréstimos de liquidez contra corridas bancárias. Essas instituições propiciaram ao sistema bancário o multiplicador de moeda contábil, apenas no século seguinte, quando o processo urbano-industrial superou a sociedade tipicamente rural. Continue reading “Pré-keynesianos: Felizes como Pinto no Lixo”

O Mundo Idealizado Com Equilíbrio

O que nós, economistas, aprendemos nas cartilhas ortodoxas é simplório. Parece dar-nos status científico, pois, inspirado no método de análise mecanicista da Física newtoniana, é lógico-racional, tipo causa-e-efeito que seguimos em uma série sequencial de variáveis agregadas. Nesse método estático-comparativo, hipoteticamente, saltamos de um espaço a outro, isto é, pulamos entre equilíbrios, sem considerarmos o tempo processual dessas transições. Fechando a economia dentro de um modelo de equilíbrio geral, simplesmente, abstraímos 50% das duas dimensões físicas: espaço e tempo!

Então, a Ciência Econômica ainda não chegou ao método da Teoria da Relatividade, ou seja, ao século XX. Einstein observou o deslocamento relativo, deduzindo que o tempo e a posição são conceitos relativos. Observadores em movimento relativo, uns aos outros, vivenciam o espaço e o tempo de forma diferente. Não há simultaneidade absoluta. O universo é constituído por relações. Nós, economistas, ficamos parados no tempo: a visão mecanicista do mundo que a Ciência Econômica continua a adotar foi substituída por uma interpretação baseada nas interações entre diversos componentes de um sistema complexo.

Economia como sistema complexo é muito difícil de ser reduzida a equações matemáticas. Logo, estas estão sendo substituídas por ferramentas computacionais de visualização de redes, cadeias e interconexões que ajudam a desvendar sua complexidade. Em uma visão holística, observamos todo o sistema complexo e daí escolhemos os nódulos-chave da rede de relacionamentos e as esferas de influência que mais importam. Continue reading “O Mundo Idealizado Com Equilíbrio”

O que fazemos com todos esses dados importantes?

Susan Etlinger, em Palestra TED (What do we do with all this big data?) defende o uso inteligente, bem considerado e ético dos dados. Necessitamos ter cuidado, pois é possível pegar dados e dá-los qualquer significado. Torturando os números eles confessam qualquer coisa!

O desafio é que nós temos a oportunidade de tentar fazer sentido disso nós mesmos, porque, francamente, dados não criam significado. Nós criamos. Então como pessoas de negócios, como consumidores, como pacientes, como cidadãos, temos uma responsabilidade, acredita Susan Etlinger, de passar mais tempo focando nossas habilidades de pensamento crítico. Continue reading “O que fazemos com todos esses dados importantes?”