O Mundo Idealizado Com Equilíbrio

O que nós, economistas, aprendemos nas cartilhas ortodoxas é simplório. Parece dar-nos status científico, pois, inspirado no método de análise mecanicista da Física newtoniana, é lógico-racional, tipo causa-e-efeito que seguimos em uma série sequencial de variáveis agregadas. Nesse método estático-comparativo, hipoteticamente, saltamos de um espaço a outro, isto é, pulamos entre equilíbrios, sem considerarmos o tempo processual dessas transições. Fechando a economia dentro de um modelo de equilíbrio geral, simplesmente, abstraímos 50% das duas dimensões físicas: espaço e tempo!

Então, a Ciência Econômica ainda não chegou ao método da Teoria da Relatividade, ou seja, ao século XX. Einstein observou o deslocamento relativo, deduzindo que o tempo e a posição são conceitos relativos. Observadores em movimento relativo, uns aos outros, vivenciam o espaço e o tempo de forma diferente. Não há simultaneidade absoluta. O universo é constituído por relações. Nós, economistas, ficamos parados no tempo: a visão mecanicista do mundo que a Ciência Econômica continua a adotar foi substituída por uma interpretação baseada nas interações entre diversos componentes de um sistema complexo.

Economia como sistema complexo é muito difícil de ser reduzida a equações matemáticas. Logo, estas estão sendo substituídas por ferramentas computacionais de visualização de redes, cadeias e interconexões que ajudam a desvendar sua complexidade. Em uma visão holística, observamos todo o sistema complexo e daí escolhemos os nódulos-chave da rede de relacionamentos e as esferas de influência que mais importam. Continue reading “O Mundo Idealizado Com Equilíbrio”

O que fazemos com todos esses dados importantes?

Susan Etlinger, em Palestra TED (What do we do with all this big data?) defende o uso inteligente, bem considerado e ético dos dados. Necessitamos ter cuidado, pois é possível pegar dados e dá-los qualquer significado. Torturando os números eles confessam qualquer coisa!

O desafio é que nós temos a oportunidade de tentar fazer sentido disso nós mesmos, porque, francamente, dados não criam significado. Nós criamos. Então como pessoas de negócios, como consumidores, como pacientes, como cidadãos, temos uma responsabilidade, acredita Susan Etlinger, de passar mais tempo focando nossas habilidades de pensamento crítico. Continue reading “O que fazemos com todos esses dados importantes?”

Três Modos de Identificar uma Estatística Ruim

Mona Chalabi fez uma Palestra TED sobre estatísticas. Quando o assunto é números, principalmente agora, seja cético. Mas você precisa saber diferenciar números confiáveis de números não confiáveis.

Então Chalabi dá ferramentas para fazer isso. Mas antes disso, quer esclarecer sobre quais números está falando. Hoje, as pessoas questionam estatísticas como: “A taxa de desemprego nos EUA é de 5%”. Este dado é diferente porque ele não vem de uma empresa privada, mas sim do governo.

Cerca de quatro entre dez americanos não confia nos dados econômicos fornecidos pelo governo. Entre os apoiadores do presidente Trump, esse número é ainda maior: cerca de sete entre dez. Temos muitas linhas divisórias em nossa sociedade hoje, e muitas delas começam a fazer sentido, quando se entende o relacionamento das pessoas com os números do governo.

Por um lado, há aqueles que dizem que as estatísticas são cruciais. Precisamos delas para entender a sociedade como um todo, a fim de deixar de lado questões emocionais e medir o progresso de forma objetiva. Há outros céticos incultos que dizem que as estatísticas são elitistas, talvez até manipuladas. Para eles, elas não fazem sentido e realmente não mostram o que está acontecendo no dia a dia das pessoas.

Parece que este último grupo do “pós-verdade” está vencendo a discussão. Vivemos em “um mundo de fatos alternativos”, onde não há um consenso sobre as estatísticas serem um ponto de partida para os debates. Isso é um problema. Continue reading “Três Modos de Identificar uma Estatística Ruim”

“Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano” (2) por Michael Hudson

A distinção clássica entre rendimento merecido e não merecido

Há uma história falsa e uma história verdadeira. Raramente a história factual é a versão promovida pelos “vencedores” (ou pretensos vencedores – a luta ainda não acabou). Isto também é verdadeiro na teoria económica. Há apenas uma realidade económica, assim em princípio deve haver apenas um corpo de teoria económica: a economia da realidade. Mas interesses especiais (dos vitoriosos de hoje) promovem mistificações e decretam exclusões a fim de se auto-retratarem como heróis económicos, como se os seus ganhos predatórios fossem os da sociedade como um todo. A sua imagem auto-congratulatória caracteriza o que se passa actualmente na teoria económica dominante (mainstream economics).

Ao atuarem em favor da finança, do imobiliário e dos interesses monopolistas defendendo a desregulação e a não aplicação de impostos sobre os seus ganhos, os neoliberais sequestraram os economistas clássicos no seu templo. Eles invocam Adam Smith, enquanto desviam a atenção daquilo que ele e seus seguidores clássicos realmente disseram. Sua reescrita da história do pensamento económico trata a crítica de Smith aos rentistas e ao financiamento por dívida como heresia. Continue reading ““Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano” (2) por Michael Hudson”

“Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano” (1) por Michael Hudson

 Esta é a 1ª parte do capítulo introdutório de “J is for Junk Economics”. Encontra-se em http://resistir.info/ .
o declínio de uma linguagem deve em última análise ter causas políticas e económicas… Ela torna-se disforme e imprecisa porque nossos pensamentos são tolos, mas o desmazelo da nossa linguagem facilita termos pensamentos tolos. Argumento que este processo é reversível… Se alguém se livrar destes hábitos poderá pensar mais claramente e pensar claramente é um primeiro passo necessário rumo à regeneração política.
– George Orwell, “Política e língua inglesa” (1946)
“Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo. São aquelas em que você deveria se concentrar”.
George W. Bush (2001)

“A desordem social começa quando se deixa de chamar as coisas pelos seus nomes correctos. O primeiro passo para reformar um mundo mal estruturado é, portanto, a “retificação dos nomes”. Para Confúcio, isto significava restaurar o significado original das palavras.

A terminologia económica actual tem uma óbvia necessidade de tal renovação. Rejeitando a economia clássica de Adam Smith, John Stuart Mill e os seus críticos contemporâneos dos latifundiários e monopolistas, os defensores rendimento não merecido borraram e obscureceram a terminologia económica com eufemismos a fim de negar que há algo como almoços grátis. Os termos rentista (rentier) e usura (usury), que em séculos passados desempenharam um papel central, soam agora como anacrónicos e foram substituídos pelo “pensamento duplo” orwelliano.

Como sabem os publicitários, dar nome a um produto condiciona a forma como as pessoas o percepcionam. Uma vasta operação de relações públicas foi engendrada para inverter o sentido das palavras e fazer com que o preto pareça branco. Em nenhum outro lado esta táctica é tão política quanto na promoção da ideologia económica.

O vocabulário atual acerca da riqueza e o seu deslize para uma economia de renda e usura é disfarçado com eufemismos como o progresso rumo a uma sociedade de lazer – não de servidão à dívida. Bolhas financeiras que inflacionam os preços para a compra de uma casa ou planos financeiros específicos de aposentadoria são chamadas de “criação de riqueza”, não de “inflação dos preços dos activos alavancados por dívida, ao passo que a contracção de empresas industriais (downsizing), a sua desintegração ou encerramento é chamada de “criação de valor”, não de saqueio. Continue reading ““Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano” (1) por Michael Hudson”

“Um antídoto para o vocabulário de duplo sentido em teoria econômica” por Jamie Morgan [*]

ARTIGO-RESENHA DE DIVULGAÇÃO EM PORTUGUÊS DE PORTUGAL:

Michael Hudson é professor de Teoria Económica na Universidade do Missouri, Kansas City, e do Levy Institute. Talvez seja mais conhecido pelo seu livro recente Matando o Hospedeiro (2015) —  e pelo seus artigos na [revista] Harper (2005, 2006) em que identificou aspectos chave da crise financeira que se iria manifestar em 2007-8. J for Junk Economics (Teoria económica lixo) é ostensivamente um dicionário, mas de um tipo muito inabitual.

Os verbetes típicos não tratam de termos comummente usados na teoria económica mainstream como é costume, mas procuram clarificá-los quanto às falácias e maus entendimentos que contêm e apresenta também verbetes que mostram os fundamentos dos quais decorrem as clarificações. Ou seja, a economia clássica, o pos keynesianismo, a moderna teoria monetária (MMT) e elementos de novas teorias da criação de dinheiro e da actividade do sistema financeiro, assim como certas ideias de Marx.

O âmbito da obra é eclético e pessoal e ainda assim sistemático, em certa medida coerentemente temática em relação à dinâmica estrutural e à lógica das economias contemporâneas actuais. O “dicionário” é de muitas maneiras um trabalho excelente. Contem muitas afirmações vigorosas que exprimem visões importantes de modo conciso. Faz isso de acordo com temas que acompanham directamente as preocupações mais gerais de Hudson e que são estabelecidas na introdução (ver parte 1 e parte 2) e desenvolvidas através dos verbetes (e também em cinco ensaios anexos publicados anteriormente). O prefácio apresenta um resumo do livro e de como foi preparado.

“Organizei o dicionário e os ensaios que o acompanham há mais de uma década, para um livro que seria chamado The Fictitious Economia (A economia fictícia). Não consegui editor. Minhas advertências sobre como a alavancagem da divida levaria a uma crise não o qualificavam como adequado numa altura em que proliferavam manuais de como-ficar-rico da espécie que os editores consideram ser “livros de economia”. A maior parte dos leitores estava a ganhar dinheiro fácil no mercado de acções e imobiliário… Ninguém queria ouvir dizer que os ganhos não podiam ser permanentes” (2017: p. 7)

Continue reading ““Um antídoto para o vocabulário de duplo sentido em teoria econômica” por Jamie Morgan [*]”

Re-evolução

O instinto da competição predomina entre os capitalistas? O instinto da cooperação entre os socialistas? Há tais predominâncias nas bagagens genéticas de seres humanos?

A definição de “instinto” está na diferença entre a mente com a qual nascemos e a mente que formamos via aprendizado, cultura e socialização. Então, instinto é essencialmente a parte do nosso comportamento que não é fruto de aprendizado. Contudo, nosso meio-ambiente socioeconômico e institucional e, portanto, nosso aprendizado, podem ter influência no modo pelo qual nossos instintos se expressam.

O instinto é constituído de elementos humanos herdados de ação, desejo, razão e comportamento. Esses instintos especificamente humanos são aqueles que se formaram durante nosso tempo na savana. Essas características são genéticas.

Nossa linguagem singular evoluiu como um meio de compartilhar informações sobre o mundo e os demais humanos, por exemplo, quem é confiável e quem não é.  Evoluiu como uma forma de fofoca. Esta é uma habilidade informativa muito difamada que, na realidade, é essencial para a cooperação ou a aliança entre inúmeros seres humanos. Continue reading “Re-evolução”