Interações entre Componentes e Emergência de Economia como Sistema Complexo

Alan P. Kirman, autor do ensaio “Comportamento individual e agregado: de formigas e homens”, revela a situação tornar-se ainda mais complicada, no nível individual, quando os indivíduos interagem e negociam com outros agentes. Pode muito bem acontecer nos mercados atuais, mas isso não pode interferir no comportamento agregado.

Naturalmente, o que estamos observando não é uma curva de demanda no sentido estrito. E se esquecermos o modelo competitivo, por um momento, então poderíamos argumentar, simplesmente: quando menos de um bem está disponível no mercado, o preço médio pago por esse bem aumenta.

Se voltarmos às preferências, consideradas a base de demanda, podemos ver os outros pressupostos quanto à racionalidade serem difíceis de justificar. A transitividade, eminentemente razoável como postulado, não pode ser testada, na realidade, porque os indivíduos nunca são confrontados com as mesmas alternativas duas vezes.

Claro, pode-se perguntar aos indivíduos o que eles fariam preferir entre certas alternativas. De fato, se alguém faz isso, é fácil levar pessoas em intransitividade.

Curiosamente, quando se faz isso, uma reação típica é pedir desculpas e desejar alterar algumas das preferências declaradas. Portanto, os indivíduos, de alguma forma, acreditam deverem ter preferências transitivas mesmo se suas escolhas mostrarem o contrário. Continuar a ler

Pressuposição da Racionalidade dos Agentes Econômicos: Autoestima do Animal Humano

Alan P. Kirman, autor do ensaio “Comportamento individual e agregado: de formigas e homens”, considera outra visão do mundo, onde os indivíduos funcionam em um local limitado e a maioria de suas informações vem daqueles com quem eles interagem. Além disso, suas capacidades de raciocínio são limitadas e eles se adaptam ao invés de otimizar. Não é possível, em tal mundo, o resultado coletivo ter certas propriedades desejáveis?

O que ele descreve tem grande correspondência com a situação em um ninho de formigas ou em uma colmeia. Isso é muito diferente de um mundo onde, pela dotação de inteligência, indivíduos calculistas antecipam eventos futuros racionalmente.

Uma visão da economia como uma colônia de insetos sociais é um anátema para aqueles convencidos de os animais humanos, ao contrário das formigas, terem intenções conscientes a respeito de o que eles querem fazer. Embora isso seja verdade até certo ponto, também é verdade as escolhas feitas por qualquer entidade econômica serem fortemente restringidas pelo lugar onde essa entidade ocupa na estrutura econômica. Continuar a ler

Comportamento individual e agregado: de formigas e homens

Alan P. Kirman é autor do ensaio, “Comportamento individual e agregado: de formigas e homens”. Consta da coletânea The evolution of economic institutions : a critical reader (edited by Geoffrey M. Hodgson; Edward Elgar; 2007).

Ele afirma: os principais avanços na ciência consistem frequentemente em descobrir como os fenômenos da macro escala reduzem a seus constituintes em microescala. Estes últimos são frequentemente:

  1. contra intuitivos conceitualmente,
  2. invisível observacionalmente e
  3. problemático experimentalmente.

O conhecimento dos níveis moleculares e celulares é essencial, mas por si só é não é suficiente, rico e completo. Efeitos complexos, como representar o movimento visual, são o resultado da dinâmica das redes neurais.

Embora as propriedades de rede sejam dependentes das propriedades dos neurônios na rede, eles não são, no entanto, idênticos às propriedades celulares, nem combinações simples de propriedades celulares. Interação de neurônios em redes é necessário para efeitos complexos, mas é dinâmico, não um simples caso de “boneco de se dar corda”.

Há duas visões concorrentes de como a economia funciona. Continuar a ler

A Insuportável Leviandade dos Economistas “Duros”: Ciência Econômica com Conteúdo Religioso e Moralizador

Meu colega Miguel Bacic enviou-me um artigo do Walter Graziano, publicado em site argentino. Dada sua originalidade esclarecedora, editei-o abaixo.

“O problema impeditivo para a economia não crescer é o alto gasto público… Precisamos fazer reformas mesmo sendo politicamente impopulares: uma profunda reforma trabalhista… de modo a substituir a compensação por demissão por outro esquema e acabe com a litigiosidade. Devemos impor uma reforma tributária compatível com o crescimento econômico e simplificar o sistema tributário. Fazer a reforma do setor externo, tornar mais flexível Mercosul. Antes de tudo, a reforma da Previdência Social tornando os critérios para aposentadoria mais exigentes, e daí faremos a reforma do Estado de modo a fazer sua retração de maneira abrangente”.

O que esse discurso-ladainha de economistas “duros” expressa diariamente na mídia, tanto na Argentina, quanto no Brasil e demais países subdesenvolvidos? Em “bom português”, devemos

  1. reduzir os gastos públicos e os impostos,
  2. reduzir os salários, as indenizações e as aposentadorias, e
  3. ganhar competitividade com outros países perante o flexível Mercosul.

Os “duros” estão certos quando dizem “essas reformas não são muito vendáveis ​​politicamente”. Nenhuma das partes, nem o neoliberal Macri, nem o peronismo federal, nem kirchnerismo, nem a esquerda, acredita na viabilidade eleitoral da agenda do “Partido Libertário” [aqui Partido Novo]. Eles a escondem do debate antes da eleição — e depois a adotam sob pressão da mídia hegemônica. Continuar a ler

Debate sobre a MMT no Brasil: Intolerância com a Heterodoxia

O “debate” sobre a “Moderna Teoria Monetária” (Modern Monetary Theory: MMT) aqui não foge à prática usual da mídia brasileira. De cara, os economistas heterodoxos não têm suas posições consideradas na nossa “grande” imprensa. Logo, o debate não é plural se ele se resume a rapapés entre colegas-amigos da PUC-Rio.

O Viés do Argumento da Autoridade, como apresentado no artigo publicado na revista The Economist e traduzido no post anterior, é exacerbado pelos colegas tupiniquins. A verdade é: em relação às opiniões de especialistas, somos muito menos cautelosos do que em relação a outras opiniões, inclusive a nossa.

Confira o que Edmar Bacha falou da MMT em seu comentário. Disse não conhecer a teoria, mas, depois de algumas pesquisas lendo seus gurus ganhadores de Nobel da Economia, chegara a algumas conclusões por conta deles. “A MMT já existe há algum tempo, mas era visível apenas para quem descesse por assim dizer ao andar de baixo da academia americana“. Desse modo, ela “não chamava a atenção dos papas da profissão nos EUA”. Citou então quatro desses “papas” – o Nobel Paul Krugman, o ex-secretário do Tesouro Larry Summers e dois ex-economistas- chefes do FMI, Kenneth Rogoff e Olivier Blanchard, mostrando as críticas à MMT feitas pelos três primeiros.

Ao responder, Lara Resende disse bem: “invocar uma autoridade é uma retórica indigente (…). A injustiça cometida por Bacha com a MMT, se não é justificável, é compreensível, pois como ele mesmo afirma, seu desconhecimento sobre o assunto é completo“.

Lara Resende escreveu ainda: “Já a sugestão de que eu apenas importei e requentei uma tese de alguns párocos do ‘segundo andar’ da academia americana, decretadas falsas pelos cardeais do ‘primeiro andar’ é imperdoável para quem convive profissionalmente comigo desde os tempos em que eu dividia os bancos da academia americana com três dos quatro ‘papas’ invocados por ele”. Obviamente, ele demonstra um esnobismo academicista similar ao de Bacha — e típico dos ex-professores da PUC-Rio autodenominados de “pais do Cruzado, Real, e tudo mais de bom feito na política econômica brasileira”, há 25 anos.

De maneira análoga, eles tratam seus colegas heterodoxos conhecedores de uma Teoria Alternativa da Moeda, há 25 anos, como membros do andar de baixo da academia brasileira. O sonho de cada qual parece ser virar um “imortal” da ABL: Academia Brasileira de Letras em tertúliasreuniões de amigos para debater e se distrair em pequena agremiação literária.

O debate abusa da Falácia Genética: o apego emocional, seja negativo, seja positivo, à origem do emissor de uma ideia. Por exemplo, economistas da UNICAMP não são publicados nem entrevistados liminarmente. Essa falácia aparece quando um argumento é desvalorizado ou defendido não por seu mérito, mas somente por causa de origem histórica do economista atuando em sua defesa.

Os debatedores sem pluralismo – ou com intolerância por ideias de economistas não tratados como “celebridades midiáticas” – fazem contínuo apelo à opinião de uma autoridade “célebre”, quando não apelam à pretensa sabedoria antiga da ortodoxia.

Uma ideia é presumida como verdadeira somente porque foi originada em um passado distante. É espécie de “prova social”: o apelo à popularidade é o fato de a maioria dos economistas mal formados  acreditar em alguma ideia ser apresentado como uma prova de ela ser verdadeira.

Embasar um argumento na opinião de uma autoridade reconhecida nos Estados Unidos é um apelo à modéstia das pessoas e ao bom senso de sempre haver outros com maior conhecimento? Isso pode até ser verdade, mas nem sempre é. No caso, é apenas submissão voluntária ao colonialismo cultural norte-americano.

Por sua vez, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto dizer o recente artigo de André Lara Resende sobre política fiscal e política monetária ser “um trabalho embrionário” mesmo para países desenvolvidos e “não cabe muito explorar isso aqui”, em seguida passando a palavra para o diretor de Política Econômica, Carlos Viana de Carvalho, quem tinha lido o texto com maior atenção, demonstra a típica indigênciamediocridade intelectual e moral — da equipe do governo do capitão. “Compartilho da visão de que é um debate acadêmico, válido, e pode ser até produtivo. Mas é mais apropriado para a academia do que para debate de política econômica“, arrematou ele sobre a tertúlia. É como qualquer nova ideia não ser respeitável se for proveniente da academia.

Confira na reportagem abaixo publicada por Sergio Lamucci e Bruno Villas Bôas (Valor, 26/03/19). Continuar a ler

A Teoria Monetária Moderna [MMT] é insana ou essencial?

The Economist (Finance and Economics) – 14 de março de 2019

“Moderna Teoria Monetária” (Modern Monetary Theory: MMT) soa como o assunto de uma palestra destinada a colocar alunos de graduação para dormir. Mas entre macroeconomistas está longe de ser soporífico.

Stephanie Kelton, uma das principais estudiosas da MMT, na Stony Brook University, aconselhou Bernie Sanders, senador e candidato à presidência. A congressista Alexandria Ocasio-Cortez, uma jovem porta-bandeira da esquerda americana, cita a MMT quando perguntada sobre como ela planeja pagar por um Green New Deal.

Como o estoque político de MMT aumentou, a temperatura do debate também aumentou. Paul Krugman, um ganhador do prêmio Nobel e colunista de jornal, recentemente reclamou seus devotos se envolvem em “Calvinball”. Este é um jogo da história em quadrinhos “Calvin and Hobbes”, no qual os jogadores podem mudar as regras por capricho.

Larry Summers, ex-secretário do Tesouro da Universidade de Harvard, recentemente chamou a atenção para a nova “economia vodu”, um insulto anteriormente reservado à noção de que os cortes de impostos pagam por si mesmos.

Esses argumentos são de “alto coturno”, espalhados e difíceis de pesar. Eles também falam muito sobre Macroeconomia.

[Fernando Nogueira da Costa: muitos neste debate são maus argumentos ad hominem (ao homem), isto é, desqualificação do interlocutor
por por ele não ser especialista ou 
por um apriorístico juízo negativo de suas intenções. Ataca a pessoa, em vez da 
opinião dela, com a intenção de 
desviar a discussão e desacreditar a proposta desse oponente “por ele pensar fora do mainstream”. Que “debate” dogmático e sectário é este?!]

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Estado da Arte da Economia: Defesa de Prosperidade Inclusiva

Diego Viana (Valor, 22/03/19) avalia uma certa desconfiança pairar sobre o pensamento econômico desde a crise dos subprimes. Para o economista turco Dani Rodrik, professor em Harvard, essa desconfiança é injusta, porque associa o que faz a teoria econômica às políticas de desregulamentação que levaram à crise, como se fossem sua aplicação direta. Mas essas políticas, diz Rodrik, são na verdade uma “degeneração” do trabalho acadêmico de pesquisadores em Economia.

Rodrik é um dos coordenadores do projeto Economistas pela Prosperidade Inclusiva (https://econfip.org/), lançado no mês passado, que visa recuperar a boa imagem pública da pesquisa em economia. O projeto lista propostas de políticas públicas e legislação baseadas na teoria e na observação empírica.

O economista reconhece o estudo da economia e sua prática nas universidades estarem concentrados demais no lado da “prosperidade”, ignorando o lado da “inclusão”. É um reflexo dessa limitação a associação entre:

  1. os mercados desregulamentados, as crises financeiras, a explosão das desigualdades e
  2. as ideias dos economistas.

No entanto, argumenta as ferramentas desenvolvidas pela economia nas universidades permitirem ir além dos modelos de equilíbrio centrados na maximização de ganhos individuais. Este é o princípio do projeto, expresso nas dez propostas presentes no livro eletrônico “EfIP: An Introduction” (Get the eBook). Além de Rodrik, também são coordenadores do projeto Suresh Naidu, de Columbia, e Gabriel Zucman, de Berkeley.

“Nossos ensaios fornecem um conjunto abrangente de temas que, juntos, formam uma visão coerente de política econômica, e podem ser uma alternativa genuína ao fundamentalismo de mercado”, afirma Rodrik. Naidu é especialista em mercado de trabalho e desenvolve uma pesquisa que envolve história e economia política. Zucman é autor de “The Hidden Wealth of Nations” (A Riqueza Escondida das Nações) — download em: Gen.lib.rus.ec. Trata de paraísos fiscais.

Download dos demais ensaios:

EfIP Member Policy Briefs

  • POLICY BRIEF 1:

    Economics for Inclusive Prosperity: An Introduction ONLINE PDF

    Suresh Naidu, Dani Rodrik, and Gabriel Zucman 

    February 2019

  • POLICY BRIEF 2:

    Towards a Better Financial System ONLINE PDF

    Anat R. Admati 

    February 2019

  • POLICY BRIEF 3:

    An Expanded View of Government’s Role in Providing Social Insurance and Investing in Children ONLINE PDF

    Sandra E. Black and Jesse Rothstein

    February 2019

  • POLICY BRIEF 4:

    Using Wage Boards to Raise Pay ONLINE PDF

    Arindrajit Dube, University of Massachusetts Amherst 

    February 2019

  • POLICY BRIEF 5:

    Election Law and Political Economy ONLINE PDF

    Ethan Kaplan 

    February 2019

  • POLICY BRIEF 6:

    Labor in the Age of Automation and Artificial Intelligence ONLINE PDF

    Anton Korinek, University of Virginia and Darden GSB 

    February 2019

  • POLICY BRIEF 7:

    How to think about finance? ONLINE PDF

    Atif Mian, Princeton University

    February 2019

  • POLICY BRIEF 8:

    Worker Collective Action in the 21th Century Labor Market ONLINE PDF

    Suresh Naidu

    February 2019

  • POLICY BRIEF 9:

    Towards A More Inclusive Globalization: An Anti-Social Dumping Scheme ONLINE PDF

    Dani Rodrik

    February 2019

  • POLICY BRIEF 10:

    Taxing Multinational Corporations in the 21st Century ONLINE PDF

    Gabriel Zucman

    February 2019 Continuar a ler