Sistemas Adaptativos Complexos

Eric Beinhocker: Muito do nosso trabalho no INET Oxford é enquadrado por uma visão sistêmica da Economia como componente de um Sistema Complexo Adaptativo. Nesse quadro, o comportamento macro emerge de baixo para cima através de interações de agentes em redes e instituições e, portanto, uma compreensão realista do comportamento humano é fundamental para essa agenda. Técnicas como modelos baseados em agentes permitem a incorporação de mais realismo comportamental nos modelos, mas exige o abandono de algumas ideias econômicas básicas, por exemplo, individualismo metodológico e equilíbrio. Quais são seus pensamentos sobre essa agenda e abordagem na fronteira do conhecimento econômico?

Sanjit Dhami: Permitam-me dizer, desde logo, estou muito animado com a agenda e a abordagem de sistemas adaptativos complexos, dos quais os modelos baseados em agentes (Agent Based Models – ABMs) são os principais exemplos em Economia. Em resposta à sua pergunta, devemos seguir as evidências. E se isso requer o abandono de qualquer uma das ideias econômicas centrais, seja feita vossa vontade!

De que outra forma fazemos progresso? Mas essa realização requer treinamento e apreciação da Metodologia e da Filosofia da Ciência. Como observado anteriormente, esse treinamento está faltando entre muitos economistas.

Meu co-autor de longa data Professor Ali al-Nowaihi. Ele e eu estamos escrevendo uma pequena monografia sobre esse assunto com base em nossas palestras em aulas-inaugurais do ano letivo em 2012. Fizemos isso progredir com um rascunho inicial, o que é muito empolgante. Então, aguarde.

Permitam-me agora apontar alguns prós e contras da abordagem da Complexidade, aplicada à Economia. Suponho o leitor ter um conhecimento básico desses conceitos; para uma Introdução à Complexidade, modelos baseados em agentes e aprendizado de máquina, valem as referências para as citações feitas no texto ou consultar Dhami (2019, Vol. 6, Capítulo 4) e as referências bibliográficas citadas nele.

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Interação Estratégica entre Jogadores, Operadores ou Agentes

Foi publicado, em 9 de agosto de 2019, um artigo reproduzindo uma versão editada de uma entrevista conduzida pelo Professor Eric Beinhocker, diretor executivo do INET (Institut New Economic Thinking) da Oxford University, com o professor Sanjit Dhami da Universidade de Leicester, autor de Análise dos Fundamentos da Economia Comportamental. Este livro foi lançado em 9 de maio de 2019 na Universidade de Oxford.

A ​​Teoria dos Jogos forma a base da teoria econômica moderna. Herb Gintis (2009, 2017) argumenta: ela deveria ser a base para todas as Ciências Sociais, mas sua visão para a Teoria dos Jogos é bastante diferente da atualmente praticada em Economia Neoclássica. A evidência sugere duas amplas conclusões (Camerer, 2003; Dhami, 2019, Vol. 4).

Primeiro, as previsões de economista neoclássico, baseadas em Teoria dos Jogos, são rotineiramente rejeitadas pela evidência em muitos jogos / domínios diferentes, quando a racionalidade limitada parece ser um fator e mesmo onde não é.

Segundo, quando as previsões estão em conformidade com a evidência, então, modelos comportamentais concorrentes dependem de suposições cada vez menos realistas. Eles também são capazes de fazer as mesmas previsões (por exemplo, no jogo de entrada no mercado; consulte Dhami, 2019, Vol. 4, Seção 2.4.4).

Existem alguns tópicos emergentes particularmente interessantes e empolgantes em Economia Comportamental, referida à Teoria dos Jogos.

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Desafios para Desenvolvimento da Economia Comportamental

Foi publicado, em 9 de agosto de 2019, um artigo reproduzindo uma versão editada de uma entrevista conduzida pelo Professor Eric Beinhocker, diretor executivo do INET (Institut New Economic Thinking) da Oxford University, com o professor Sanjit Dhami da Universidade de Leicester, autor de Análise dos Fundamentos da Economia Comportamental. Este livro foi lançado em 9 de maio de 2019 na Universidade de Oxford.

É sempre difícil prever de onde virão os desenvolvimentos futuros, mas aqui está uma lista de alguns problemas amplos necessitados de serem resolvidos:

  • Explicar a aversão à ambiguidade provou ser um dos problemas mais desafiadores para teorias comportamentais e neoclássicas, embora as teorias comportamentais (por exemplo, preferências dependentes da fonte) se saem melhor. No entanto, nenhum dos dois pode explicar a descoberta de, nas experiências de Ellsberg, haver ambiguidade na busca de baixas probabilidades e aversão à ambiguidade por altas probabilidades. Ver Dhami (2019, Vol. 1, Seções 4.4, 5.3).

Esse é um achado empírico robusto, mas geralmente não é destacado. Um novo pensamento é necessário, talvez uma Teoria Quântica da Decisão possa explicar esses dois fenômenos (al-Nowaihi e Dhami, 2017; Wei et al., 2019).

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Fundamentos Comportamentais do Novo Pensamento Econômico

Foi publicada em 9 de agosto de 2019 um artigo reproduzindo uma versão editada de uma entrevista conduzida pelo Professor Eric Beinhocker, diretor executivo do INET (New Economic Thinking) da Oxford University, com o professor Sanjit Dhami da Universidade de Leicester, autor de Análise dos Fundamentos da Economia Comportamental. Este livro foi lançado em 9 de maio de 2019 na Universidade de Oxford.

As questões propostas pelo professor Beinhocker cobrem um amplo terreno interdisciplinar. Trata de:

  • as importantes contribuições da Economia Comportamental e o caminho a seguir;
  • a inércia na profissão de economistas dificultando aceitar a nova pesquisa interdisciplinar;
  • o método científico;
  • a interação entre cultura, comportamento e instituições;
  • o papel das normas; e
  • uma crítica da Ciência da Complexidade aos modelos baseados em agentes.

A publicação desta entrevista contribui como fosse um documento de trabalho para promover o debate e a reflexão entre economistas e outros cientistas a respeito de algumas das questões “gerais” nas Ciências do Comportamento. Destaca o papel poderoso da Economia Comportamental ser capaz de desempenhar na iluminação de uma compreensão mais profunda da Economia e de outros sistemas sociais complexos. Faz uma avaliação da Economia Comportamental e seus desenvolvimentos. Continuar a ler

Sincronização de Ciclos de Negócios Endógenos

A palestra acima discute como décadas de pesquisa e a crise financeira de 2008 expuseram graves deficiências no modelo econômico neoclássico ortodoxo e levantaram questões sobre políticas e ideologias políticas derivadas desse modelo. Eric Beinhocker argumenta a Economia não ser o sistema de equilíbrio estático da teoria tradicional, mas é sim, de fato, um “sistema adaptativo complexo“.

Ele discute o significado dessa perspectiva e como esse entendimento muda radicalmente nossas noções de como a economia funciona e como ela pode funcionar melhor para mais pessoas. Eric também conclui com algumas reflexões sobre as implicações dessa perspectiva para a política, a política e o futuro do capitalismo.

O módulo de graduação Repensando o Capitalismo fornece aos alunos do INET uma perspectiva crítica sobre esses “grandes desafios” e os apresenta a novas abordagens de economia e política capazes de desafiarem o pensamento padrão.

O módulo baseia-se no livro “Repensando o capitalismo” [Rethinking Capitalism – Economics and Policy for Sustainable and Inclusive Growth], editado por Mariana Mazzucato (diretora do IIPP) e Michael Jacobs (pesquisador visitante na Escola de Políticas Públicas da UCL). Possui palestras acadêmicas de alguns dos autores do capítulo.

Sincronização de Ciclos de Negócios Endógenos é um paper escrito por Marco Pangallo na área de Economia da Complexidade [Complexity Economics] e apresentado em Seminário para Pesquisadores do INET [Institute for New Economic Thinking].

A sincronização é um dos fenômenos mais fascinantes nas ciências naturais e sociais. É a tendência de sistemas tão diversos como pêndulos oscilantes, vaga-lumes piscantes, neurônios disparadores e aplausos do público para alinhar suas dinâmicas não lineares de maneira a operar em sincronia.

Apesar das muitas aplicações da Teoria da Sincronização, até agora ela teve pouco impacto na Economia. Isso se deve a três razões principais:

  • supostas evidências contra a dinâmica não linear em séries temporais econômicas;
  • dificuldade em associar mecanismos econômicos a modelos de sincronização de cavalos de batalha;
  • relativamente pouca atenção a choques exógenos na teoria da sincronização.

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Fase de Desalavancagem Financeira

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O mercado de capitais doméstico registrou captação de R$ 240,1 bilhões neste ano até agosto, 38,7% superior ao volume captado de R$ 173,0 bilhões no mesmo período do ano passado. A expectativa dos agentes é de a boa performance deste ano se manter nos próximos meses diante do volume expressivo de emissões ainda em análise pela Comissão de Valores   Mobiliários (CVM).  As debêntures representam quase metade deste total emitido com 48,9% do total — equivalente a um montante de R$ 117,4 bilhões –- seguido da distribuição secundária de ações (follow-on) com 21% do total (R$ 49,5 bilhões).

Os investidores institucionais são os principais demandantes nas ofertas públicas de debêntures, com 62,9%, seguido dos intermediários e demais participantes ligados à oferta, com 33,0%. Nas operações 476, predominantes no mercado, a participação dos investidores institucionais representa 64,8%, um avanço relevante na comparação com a parcela do mesmo período do ano passado, que era de 59,4%.

Em relação às ofertas das debêntures de infraestrutura, emitidas através da Lei nº 12.431, os investidores institucionais representam 48,3% do volume enquanto as pessoas físicas. Elas têm isenção de Imposto de Renda. Detêm 30,5% das emissões colocadas.

Até agosto de 2019, o volume emitido dos Fundos de Investimentos Imobiliários em 2019 foi de R$ 16,3 bilhões contra R$10,5 bilhões do mesmo período, o que corresponde a um aumento de 56,0%. Os maiores detentores nas ofertas públicas deste instrumento foram as pessoas físicas com 53,8%, seguido dos investidores institucionais com parcela de 41,1%.

Até o fechamento das captações em agosto, o total de emissões totalizou R$ 16,8 bilhões, uma queda de 59,0% em relação a julho que registrou R$ 40,9 bilhões de volume emitido. A participação das debêntures ainda é a predominante com 76,5% do volume colocado em agosto. Outros destaques foi a participação dos Fundos de Investimentos Imobiliários (FIIs), com 12,6% do total captado (R$ 2,1 bilhões) e a ausência de emissões de ações, sobretudo das follow-ons que vinham registrando o maior ritmo de aumento de colocações este ano, já respondendo por 21,0% das emissões de 2019.

Refletindo as incertezas do cenário econômico externo e a péssima imagem brasileira no exterior, devido ao sujeito ocupante do cargo maior da República, nas operações no mercado externo foi registrada apenas uma operação em agosto, correspondente a um volume de US$ 500 milhões em bonds de renda fixa O total captado foi de US$ 16,2 bilhões, 5,7% superior ao volume de 2018 (US$ 15,4 bilhões).

André Lara Resende: Brasil de Hoje e o Conservadorismo Vitoriano

André Lara Resende (Valor-Eu&Fim-de-Semana, 21/06/19) publica mais um artigo inspirado em literatura heterodoxa. Antes tarde em vez de nunca. Encontra-se uma leitura dessa literatura sobre a Teoria Monetária na minha tese de Livre-Docência: Fernando Nogueira da Costa – Por Uma Teoria Alternativa da Moeda – Tese de Livre Docência (1994)

But, soon or late, it is ideas, not vested interests, which are dangerous for good or evil”

J.M. Keynes

1. Sugestão controversa

“A economia não dá sinais de que sairá tão cedo do atoleiro em que se encontra. Há consenso de que as finanças públicas estão em frangalhos. Embora o diagnóstico seja praticamente consensual, há discordância quanto à melhor forma de enfrentar o problema e repor a economia nos trilhos.

Em uma série de artigos recentes, sustento que a opção por equilibrar o orçamento a curto prazo é um equívoco. Em conjunto com uma reforma que garantisse o reequilíbrio a longo prazo da Previdência, deveria-se organizar:

  1. um ambicioso programa de investimentos públicos de infraestrutura e
  2. uma revisão simplificadora da estrutura fiscal para estimular o investimento privado.

Para isso, seria preciso:

  1. abandonar o objetivo de equilibrar imediatamente as contas e
  2. aceitar o aumento da dívida por mais alguns anos enquanto a economia se recupera.

Provoquei indignação ao sugerir que tentar o equilíbrio orçamentário no curto prazo é contraproducente, pois:

  1. agravará a recessão e
  2. poderá levar ao aumento da relação entre a dívida e o produto interno.

A visão dominante entre os analistas financeiros é que o governo não tem como manter as suas despesas, pois as fontes de financiamento, seja através dos impostos, seja do endividamento, se esgotaram. Seria imperioso equilibrar o quanto antes o orçamento e reduzir o endividamento, sob risco de asfixiar os investimentos privados e levar a economia ao colapso.

O argumento é duplamente falacioso.

  • Primeiro, porque desconsidera o fato de que a União, como todo governo que tem uma moeda fiduciária, não tem restrição financeira.
  • Segundo, porque pressupõe que a economia esteja próxima do pleno emprego. Continuar a ler