Sistemas Adaptativos Complexos

Eric Beinhocker: Muito do nosso trabalho no INET Oxford é enquadrado por uma visão sistêmica da Economia como componente de um Sistema Complexo Adaptativo. Nesse quadro, o comportamento macro emerge de baixo para cima através de interações de agentes em redes e instituições e, portanto, uma compreensão realista do comportamento humano é fundamental para essa agenda. Técnicas como modelos baseados em agentes permitem a incorporação de mais realismo comportamental nos modelos, mas exige o abandono de algumas ideias econômicas básicas, por exemplo, individualismo metodológico e equilíbrio. Quais são seus pensamentos sobre essa agenda e abordagem na fronteira do conhecimento econômico?

Sanjit Dhami: Permitam-me dizer, desde logo, estou muito animado com a agenda e a abordagem de sistemas adaptativos complexos, dos quais os modelos baseados em agentes (Agent Based Models – ABMs) são os principais exemplos em Economia. Em resposta à sua pergunta, devemos seguir as evidências. E se isso requer o abandono de qualquer uma das ideias econômicas centrais, seja feita vossa vontade!

De que outra forma fazemos progresso? Mas essa realização requer treinamento e apreciação da Metodologia e da Filosofia da Ciência. Como observado anteriormente, esse treinamento está faltando entre muitos economistas.

Meu co-autor de longa data Professor Ali al-Nowaihi. Ele e eu estamos escrevendo uma pequena monografia sobre esse assunto com base em nossas palestras em aulas-inaugurais do ano letivo em 2012. Fizemos isso progredir com um rascunho inicial, o que é muito empolgante. Então, aguarde.

Permitam-me agora apontar alguns prós e contras da abordagem da Complexidade, aplicada à Economia. Suponho o leitor ter um conhecimento básico desses conceitos; para uma Introdução à Complexidade, modelos baseados em agentes e aprendizado de máquina, valem as referências para as citações feitas no texto ou consultar Dhami (2019, Vol. 6, Capítulo 4) e as referências bibliográficas citadas nele.

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Programa e Bibliografia de Mercado Bancário – 2019

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE ECONOMIA

CURSO DE EXTENSÃO

ECO-208 – MERCADO BANCÁRIO

Prof. Dr. Fernando Nogueira da Costa

Objetivo: Apresentar fenômenos relacionados ao mercado bancário, tais como política monetária e financiamento; atuação social-desenvolvimentista de bancos públicos; Banco do Brasil e crédito agrícola; Caixa e crédito habitacional; BNDES e crédito à infraestrutura; BNB-BASA e crédito regional. Analisar segmentos do mercado bancário: mercado de reservas bancárias e sistema de pagamentos; mercado de captação de funding; precificação no mercado de crédito. Inovações Tecnológicas das Fintechs e/ou Neobanks. Debater as perspectivas futuras.

Programa e Bibliografia (click no link):

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Bonds Vigilantes: pressão sobre a dívida pública de países sem disciplina fiscal.

Até o editorial do Valor, “chapa-branca” de O Mercado, protestou contra a liberalização do câmbio pelo governo ultraliberal na economia e ultraconservador nos costumes culturais. Veja abaixo.

“O projeto de liberalização cambial a ser encaminhado pelo Banco Central e Ministério da Economia ao Congresso é tão ambicioso a ponto de parecer irreal. Com a intenção secundária, embora importante, de livrar-se de entulhos burocráticos, ele explicita um objetivo muito polêmico na teoria e na prática: a livre movimentação de capitais. Seu artigo 2 é claro: “As operações no mercado de câmbio podem ser realizadas livremente, sem limitação de valor” a partir de sua aprovação, desde que feitas de acordo com a lei e segundo os regulamentos do Banco Central. Na prática, define limites do que poderá ser a política econômica não só do atual governo como dos futuros.

Há a óbvia necessidade de modernizar a legislação cambial atual, dezenas de artigos espalhados por um labirinto de dispositivos legais, alguns deles do início do século XX. Mas a meta final que dá a direção dos passos intermediários é pôr fim ao curso forçado do real, algo que livrou o Brasil de encrencas maiores do que as que enfrentou até agora.

O projeto dispõe a livre movimentação de capitais estar em linha com o que fazem as economias avançadas e as principais economias emergentes, ignorando o exemplo mais importante: o da China, segunda maior economia do mundo, e das dinâmicas economias asiáticas. Elas encontraram formas mais eficientes de adaptação ao mundo globalizado do que a pretensão de tornar conversíveis suas moedas.

O Brasil está longe de possuir as condições econômicas capazes de permitirem essa abertura. A promessa de a liberalização ser feita com “prudência” tem de ser vista com algum ceticismo. As diretorias do Banco Central mudam, assim como seus graus de sensatez, mas as leis ficam.

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Curso Forçado do Real evitará “a Argentina ser aqui”?

Alex Ribeiro (Valor, 09/10/2019) informa: o projeto de lei de liberalização cambial enviado pelo governo ao Congresso flexibiliza algumas restrições históricas do regime cambial brasileiro como a proibição de compensação privada de pagamentos ao exterior e a vedação de pagamentos em dólares em transações dentro do país. O objetivo é facilitar investimentos em infraestrutura e permitir maior integração das empresas às cadeias de produção global.

Essas duas regras remontam a década de 1930 e foram criadas para garantir o curso forçado da moeda nacional. Nos surtos inflacionários, foram essenciais para evitar a dolarização da economia, um mal capaz de afetar países vizinhos, como a Argentina. O governo “ultraliberal” diz não querer abrir mão disso.

A vedação à compensação privada impede uma empresa ter um valor a receber e uma valor a quitar com uma outra empresa no exterior fazer um encontro de contas, pagando ou recebendo a diferença. O sentido dessa vedação é impedir a desintermediação das operações de câmbio. Isso seria uma brecha para usar o dólar nas operações em vez de fechar o câmbio em real.

Hoje, há uma exceção a essa regra para o setor aéreo. Ela permite a empresas nacionais e estrangeiras compensarem o pagamento de passagens de brasileiros voando trechos em empresas estrangeiras e vice-versa.

A Lei no 13.506, de 2017, permitiu ao BC abrir exceções a essa regra para atender, por exemplo, empresas participantes de cadeias globais e, ao mesmo tempo, importando e exportando de suas matrizes. O BC, porém, até agora não abriu nenhuma exceção porque a lei de 2017 não previu mecanismos para a coleta de dados dessas operações para serem monitoradas. O projeto de lei de liberalização cambial preenche essa lacuna ao criar a obrigação de prestar informações. Continuar a ler

Liberalização Cambial: Risco de Dolarização da Economia Brasileira

Alex Ribeiro e Mariana Ribeiro (Valor, 08/10/2019) informam: o projeto de lei de liberalização cambial enviado pelo governo ao Congresso dá o primeiro passo para a abertura às fintechs do mercado de remessas internacionais, quebrando a exclusividade hoje em vigor de perto de duas centenas de bancos com carteira de câmbio.

A proposta também avança nas agendas de:

  1. conversibilidade da moeda, simplificando os fluxos de ingresso e saída de dólares do país;
  2. internacionalização do real, permitindo a atuação de bancos correspondentes; e
  3. permissão para pessoas físicas terem contas em moeda estrangeira.

A legislação hoje em vigor permite o ingresso e a saída de moeda estrangeira do país serem feitos apenas por bancos com autorização para operar no mercado de câmbio. O projeto de lei mantém essa determinação mais geral, mas abre espaço para o BC autorizar outros tipos de instituições a efetuar essas operações, obedecendo a diretrizes baixadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Hoje, são 187 bancos autorizados a operar em câmbio, num sistema restritivo que garante maior controle sobre as remessas. O diretor de regulação do BC, Otávio Damaso, lembrou: em outros países, as fintechs atuam nesse mercado, barateando as operações. Daí, o monopólio de bancos na área cambial vai acabar.

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PNAD Contínua 2018: 10% da população concentram 43,1% da massa de rendimentos do país

O Índice de Gini do rendimento médio mensal real domiciliar per capita, que varia de zero (igualdade) até um (desigualdade máxima), foi estimado em 0,545 em 2018. Entre 2012 e 2015 houve uma tendência de redução (de 0,540 para 0,524), que foi revertida a partir de 2016, quando o índice aumentou para 0,537, chegando a 0,545 em 2018.

Quando calculado para o rendimento médio mensal recebido de todos os trabalhos, o Índice de Gini foi de 0,508 em 2012, caindo até 0,494 em 2015 e voltando a subir até 0,509 em 2018.

Em 2018, o rendimento médio mensal real do 1% da população com maiores rendimentos era de R$ 27.744, o que corresponde a 33,8 vezes o rendimento dos 50% da população com os menores rendimentos (R$ 820).

Essas e outras informações fazem parte do módulo Rendimento de Todas as Fontes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, publicada pelo IBGE. O material de apoio da divulgação está no fim deste post.

A pesquisa também mostrou que a massa de rendimento médio mensal real domiciliar per capita, que era de R$ 264,9 bilhões em 2017, cresceu para R$ 277,7 bilhões em 2018. Os 10% da população com os menores rendimentos detinham 0,8% da massa, enquanto que os 10% com os maiores rendimentos concentravam 43,1%.

O rendimento médio real de todas as fontes teve crescimento de cerca de 5,1% de 2012 (R$ 2.072) a 2014 (R$ 2.177), depois caiu 3,1% em 2015 (R$ 2.110). Em 2016 e 2017, manteve relativa estabilidade e, em 2018, subiu 2,8%, para R$ 2.166. Está ainda abaixo do recebido no fim da Era Social-Desenvolvimentista, antes da volta da Velha Matriz Neoliberal.

O rendimento médio mensal real de todos os trabalhos (calculado para as pessoas de 14 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência), que era de R$ 2.133 em 2012, chegou a R$ 2.279 em 2014 , caindo 4,1% em 2015 e mantendo-se quase estável nos dois anos seguintes, para depois chegar a R$ 2.234 em 2018. Em relação a 2012, o indicador de 2018 representou crescimento real de 4,7%.

A massa de rendimento mensal real de todos os trabalhos da população ocupada era em 2018, de aproximadamente R$ 201,3 bilhões, 9,5% acima do valor registrado em 2012.

De 2012 (R$ 1.390) a 2015 (R$ 1.416) o rendimento médio mensal real proveniente de outras fontes (aposentadorias, pensões, alugueis, programas de transferência de renda etc.) acumulou ganho de 1,9%. Em 2016 (R$ 1.400) registrou perda de 1,1%, que foi revertida nos dois anos seguintes – com expansão de 2,4% e 3,2%, respectivamente – atingindo valor médio de R$ 1.479 em 2018. Regionalmente, o Nordeste (R$ 971) registrou a menor média, enquanto o Sudeste (R$ 1.839), a maior em 2018.

No Brasil, em 2018, entre as categorias que compõem o rendimento de outras fontes, a aposentadoria ou pensão foi o item de maior valor médio (R$ 1.872), destacando-se o Centro-Oeste com o maior valor (R$ 2.191) e o Nordeste, com o menor (R$ 1.473). O crescimento dessa categoria de rendimento entre 2017 e 2018 foi de 3,3% e, em relação a 2012, de 7,3%.

O percentual de domicílios atendidos pelo Bolsa Família caiu de 15,9% em 2012 para 13,7% em 2018.

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