Debate entre o Individualismo e Holismo Ontológico

Segundo Julie Zahle e Finn Collin, editores do livro “Rethinking the Individualism-Holism Debate – Essays in the Philosophy of Social Science”, publicado pela editora Springer International Publishing (2014), o debate entre individualismo-holismo ontológico diz respeito ao status ontológico dos fenômenos sociais (ou fatos) e, como parte disso, sua relação com os indivíduos (ou fatos sobre indivíduos).

Ontológico é relativo a (ou próprio da) ontologia, a investigação teórica do ser. No heideggerianismo, é relativo ao ser em si mesmo, em sua dimensão ampla e fundamental, em oposição ao ser ôntico. Este se refere aos entes múltiplos e concretos da realidade.

Os holistas ontológicos argumentam: os fenômenos sociais existem sui generis, ou acima de indivíduos, enquanto individualistas ontológicos negam isso. Antes de olhar para várias interpretações da ideia de fenômenos sociais existirem de modo sui generis, é instrutivo brevemente caracterizar as noções de fenômenos sociais e indivíduos.

Sui generis é uma expressão em latim com significado “de seu próprio gênero” ou “de espécie única”. Representa a ideia de unicidade, raridade e particularidade de algo ou alguma coisa. Quando se diz, no ramo filosófico, determinada coisa ser sui generis significa ser “especial”, ou seja, dotada de uma particularidade e peculiaridade não comparável a qualquer outra coisa. Continuar a ler

Desgoverno: Nem Estudo, Nem Trabalho, Nem Aposentadoria

A faixa etária adolescente de 14 a 17 anos representa 8,3% da força de trabalho de 105,250 milhões de pessoas. Nela há 44,5% de desocupação. Se ela estuda, está fora da força de trabalho (População Não Economicamente Ativa), não? Está incluída na taxa de desocupação dela somente quem não estuda e nem trabalha? Estou em dúvida.

Dois anos de recessão, desde a volta da Velha Matriz Neoliberal, com a consequente crise no mercado de trabalho — a subutilização da força de trabalho quase dobrou do fim de 2014 (15,3 milhões pessoas) para o início de 2019 (28,3 milhões) –, fizeram crescer rapidamente o número de homens de 50 a 69 anos de idade no país sem ocupação: não trabalham nem procuram emprego, mesmo sem receber aposentadoria ou pensão.

O total de pessoas nessas condições estava em 1,843 milhão em 2017, 11% acima do ano anterior (189 mil pessoas a mais). O contingente representava 9,6% dos homens dessa faixa etária.

Esse fenômeno foi inicialmente identificado por um estudo das pesquisadoras Ana Amélia Camarano e Daniele Fernandes, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Elas observam há anos a tendência desse grupo, batizado de “nem nem maduros“.

Os homens neste perfil “nem nem” representavam:

  • 4,2% da faixa etária em 1992;
  • 6,2% em 2005;
  • 8,3% em 2015;
  • 9,6% em 2017. Continuar a ler

Narrativas como Obras Criativas Essencialmente Humanas

Robert J. Shiller, em Narrative Economics, comenta: prever o sucesso dos trabalhos criativos com o público é uma tarefa extremamente difícil, fundamentalmente relacionada ao desafio de sermos capazes de prever as taxas de contágio das narrativas.

Não observamos com precisão os processos mentais e sociais possíveis de criar contágio. Por exemplo, é amplamente sabido a previsão do sucesso dos filmes, antes de serem lançados, é bastante difícil (Litman, 1983).

Jack Valenti, ex-presidente da Motion Picture Association of America, disse:

“Com toda a experiência, com todos os instintos criativos das pessoas mais sábias em nossos negócios, ninguém, absolutamente ninguém pode lhe dizer o que um filme vai fazer no mercado… Não, até o filme se abrir em um teatro escuro e as luzes surgirem entre a tela e o público, você pode dizer esse filme estar com sucesso garantido.”

Por analogia, a razão pela qual os escritores extraem citações, especialmente as citações de tamanho de parágrafo, e as exibe – como Shiller acabou de fazer é muitas vezes para transmitir uma narrativa, para dar ao leitor um senso histórico de uma narrativa passada. Ela teve impacto e pode ter impacto novamente no leitor, se for repetido, assim como se foi redigido com perfeição.

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Religião, Violência e Loucura (por José Luís Fiori)

O meu anjo irá adiante de ti e te levará aos amoreus, aos heteus, aos ferezeus, aos cananeus, aos heveus e aos jebuseus, e eu os exterminarei. Não adorarás os seus deuses, nem os servirás; não farás o que eles fazem, mas destruirás os seus deuses e quebrarás as suas colunas.

Êxodo, 23, Bíblia de Jerusalém, Edições Paulinas, São Paulo, p.140.

Na segunda década do século XVI, o humanista cristão Erasmo de Roterdã sustentou um famoso debate teológico com Martim Lutero, sobre a “regra da fé”, ou seja, sobre o critério de verdade no conhecimento religioso (Popkin, R, H., “História do cetecismo de Erasmo a Spinoza”, Francisco Alvez. Rio de Janeiro, 2000, cap. 1).

Essa batalha não teve um vencedor, mas ajudou a clarificar a posição revolucionária de Lutero. Este rejeitou a autoridade do Papa e dos Concílios, e defendeu a tese: todo cristão deveria julgar por si mesmo o que fosse certo e o fosse errado no campo da fé.

Para Lutero, como para Calvino, a evidência última da verdade religiosa era a “persuasão” de cada um dos leitores das Escrituras. Esta “persuasão” era concedida aos homens pela “revelação” do Espírito Santo.

Contra este argumento de Lutero, Erasmo levantou uma aporia fundamental: se aceitássemos o argumento de Lutero, como poderíamos decidir entre duas leituras e interpretações diferentes de algumas passagens mais obscuras dos textos sagrados?

Como se poderia escapar da circularidade do raciocínio de Lutero? Ele considerava o critério da verdade religiosa a “persuasão interior” do cristão e, ao mesmo tempo, dizia esta mesma “persuasão” só poderia ser garantida pela “revelação divina”.

Uma “revelação” pessoal e intransferível não tem como ser confrontada com outra “revelação” igual e contrária. Isso caso não seja através do uso do poder e da força capaz de definir e impor:

1.     o que seja certo e

2.     o que seja errado,

3.     o que seja a ortodoxia e

4.     o que seja a heresia.

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Repensando o Debate do Individualismo-Holismo: Ensaios na Filosofia das Ciências Sociais

Julie Zahle e Finn Collin são os editores do livro “Rethinking the Individualism-Holism Debate – Essays in the Philosophy of Social Science”, publicado pela editora Springer International Publishing (2014). Eles escreveram também a introdução. Fornece uma visão geral dos aspectos ontológico e metodológico dos debates sobre individualismo-holismo. Além disso, esses debates são brevemente discutidos em relação a duas disputas semelhantes: a relação micro-macro e a estrutura de agência. Finalmente, as contribuições para este livro são apresentadas resumidamente.

O debate individualismo-holismo é uma velha, mas ainda assim vibrante, disputa dentro da Filosofia das Ciências Sociais e das próprias Ciências Sociais. Ao longo de sua história, existem três fases nas quais a discussão foi particularmente animada.

A primeira foi em torno da virada do século XIX com contribuições significativas de, entre outros, Emile Durkheim e Max Weber.

A segunda fase ocorreu em torno dos anos 50, onde as defesas ardentes do individualismo metodológico por Friedrich Hayek, Karl Popper e J.W.N. Watkins estimularam o debate.

Finalmente, a terceira e última fase se estende a partir da década de 1980 até hoje. Conta com contribuições pioneiras dadas por um número expressivo de teóricos, incluindo Roy Bhaskar, Raymond Boudon, James S. Coleman, Jon Elster, Alan Garfinkel, Daniel Little, Harold Kincaid e Philip Pettit.

O debate individualismo-holismo tem girado em torno de dois problemas:

  1. Qual é o status ontológico – a investigação teórica do ser – dos fenômenos sociais e, como parte disso, seus relacionamentos com os indivíduos?
  2. Até que ponto as explicações científicas sociais devem se concentrar nos indivíduos ou fenômenos sociais, respectivamente?

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Papel das Narrativas em Geral e nas Ciências Sociais e Humanas

Figura 1. JSTOR conta por campo de artigos contendo a palavra “narrativa” como um percentual de todos os artigos no campo, todo o banco de dados deixado e o ano de 2010-2016 apenas, certo.

Robert J. Shiller, em Narrative Economics, narra: “quando nós, como economistas, queremos entender os eventos econômicos mais significativos de nossa história, como a Grande Depressão dos anos 1930, ou recessões subsequentes, ou políticas voltadas à riqueza e à pobreza, raramente nos concentramos nas narrativas predominantes a respeito deles. Temos ficado para trás de outras disciplinas, atendendo à importância das narrativas (Figura 1).

Embora todas as disciplinas usem mais as narrativas, desde 2010, a Economia (e as Finanças) permanecem mais lentas. Isto é apesar dos pedidos de atenção dos economistas à “dinâmica social” e aos “modelos populares” (Shiller 1984); para uma nova “culturnômica” (Michele 2005); ou “humanomics” (McCloskey 2016); ou para mais “narratividade” na economia (Morson e Schapiro 2017). Nós vemos pouco uso de enormes bancos de dados de palavras escritas possíveis de serem usados ​​para estudar narrativas.

O campo da história sempre teve uma apreciação por narrativas. No entanto, os historiadores também precisam ser lembrados algumas vezes: uma compreensão profunda da história requer imputar o que estava na mente das pessoas capazes de construir a história, o que suas narrativas foram.

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Individualismo Metodológico na Economia Neoclássica

A Economia, como as outras Ciências Sociais, e a Psicologia em particular, também era fortemente influenciada pelo “cientificismo”, especialmente a mecânica. A visão mecanicista trouxe para as Ciências Naturais as possibilidades de previsão usando novas ferramentas matemáticas (cálculo) de poder considerável. De todas as Ciências Sociais, seu impacto na Economia foi o maior, e isso continua a ser, embora o newtonismo do equilíbrio geral tenha passado sua hora de glória em Física.

Nenhuma outra ciência ilustra melhor que a Economia o impacto do entusiasmo pela epistemologia mecanicista sobre a sua evolução. Duas grandes tendências na economia neoclássica, ou seja, o individualismo metodológico (MI), liderado pela Escola Austríaca e, posteriormente, a Economia Positivista, defendida pela escola de Chicago, marcou o afastamento da abordagem holística típica de economistas políticos clássicos como Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx.

A economia neoclássica, monopolizando os meios de comunicação, domina o debate sobre teoria econômica, talvez excluindo a Teoria do Desenvolvimento Econômico, elaborada pela heterodoxia latino-americana. A mainstream tenta analisar todos os fatos socioeconômicos, partindo dos comportamentos maximizadores dos indivíduos.

Neste post-resenha do livro de autoria de Vijay Kumar Yadavendu, “Shifting Paradigms in Public Health: From Holism to Individualism”, analisaremos os fundamentos metodológicos da economia neoclássica em oposição à economia política clássica. Continuar a ler