Aprendizagem Proativa

No meu curso de graduação, na FACE-UFMG, eu já criticava o método didático puramente expositivo adotado por professores. Quando tomei conhecimento do Método Paulo Freire, elevou minha consciência a respeito do método “bancário”, aquele que faz depósitos na mente do aluno para tentar sacar nas provas de memorização. O educador Paulo Freire desenvolveu um método para a alfabetização de adultos que alfabetizou 300 cortadores de cana-de-açúcar em apenas 45 dias. O processo educativo se deu em apenas quarenta horas de aula e sem cartilha.

Freire criticava o sistema tradicional de alfabetização, o qual utilizava a cartilha como ferramenta central da didática para o ensino da leitura e da escrita. As cartilhas ensinavam pelo método da repetição de palavras soltas ou de frases criadas de forma forçosa ou fonética, por exemplo, “Ivo (ou Eva) viu a uva”.

As etapas do Método Paulo Freire são três:

  • Primeira, investigação, é a busca conjunta do professor e do aluno das palavras e temas mais significativos da vida do aluno, dentro de seu universo vocabular e da comunidade onde ele vive.
  • Segunda, tematização: é o momento da tomada de consciência do mundo, através da análise dos significados sociais dos temas e palavras.
  • Finalmente, problematização: etapa em que o professor desafia e inspira o aluno a superar a visão acrítica do mundo, adotando uma postura consciente frente a ele.

Na minha primeira experiência docente, no primeiro semestre do meu curso de Mestrado, fui como professor-convidado a Poços de Caldas. O sucesso foi tão grande junto aos alunos rebeldes e o fracasso tão retumbante junto aos conservadores que fui logo convidado a nunca mais voltar à Poços de Caldas! Continue reading “Aprendizagem Proativa”

Por Uma Estratégia Eleitoral para Conquista de Maioria no Congresso Nacional

No livro “Porque as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” (Rio de Janeiro: Elsevier, 2012), Daron Acemoglu e James A. Robinson afirmam que os países apresentam diferenças em termos de êxito econômico em virtude de:

  1. instituições distintas,
  2. regras que regem o funcionamento da economia e
  3. incentivos que motivam a população.

Instituições econômicas inclusivas são aquelas que:

  1. possibilitam e estimulam a participação da grande massa da população em atividades econômicas que façam o melhor uso possível de seus talentos e habilidades e
  2. permitam aos indivíduos fazer as escolhas que bem entenderem.

Para serem inclusivas, as instituições econômicas devem incluir:

  1. segurança da propriedade privada,
  2. sistema jurídico imparcial e
  3. uma gama de serviços públicos que proporcionem condições igualitárias para que as pessoas possam realizar intercâmbios e estabelecer contratos, além de
  4. possibilitar o ingresso de novas empresas e
  5. permitir a cada um escolher sua profissão.

Daron Acemoglu e James A. Robinson chamam as instituições capturadas por grupos de interesses das castas, cujas propriedades são opostas às daquelas ditas “inclusivas”, de instituições econômicas extrativistas. Elas têm como finalidade a extração da renda e da riqueza de um segmento da sociedade para benefício de outro.

Há uma forte sinergia entre as instituições econômicas e políticas. As instituições políticas extrativistas concentram poder nas mãos de uma pequena elite e impõem poucas restrições ao exercício de seu poder.

As instituições econômicas são então, em geral, estruturadas por essa elite, de modo a extorquir recursos do restante da sociedade. As instituições econômicas extrativistas, assim, naturalmente acompanham suas congêneres políticas. Com efeito, sua sobrevivência será inerentemente dependente de instituições políticas extrativistas.

As instituições políticas inclusivas tenderiam a erradicar as instituições econômicas que:

  1. expropriam recursos da maioria,
  2. erguem barreiras alfandegárias, e
  3. suprimem o funcionamento dos mercados de modo que apenas uns poucos deles se beneficiam.

Essa relação sinérgica entre instituições econômicas e políticas extrativistas engendra um arraigado círculo vicioso, porque essas instituições políticas extrativistas:

  1. conferem às elites o poder político de selecionar aquelas instituições econômicas com menos restrições ou forças contrárias;
  2. permitem também que elas estruturem as futuras instituições políticas e sua evolução.

As instituições econômicas extrativistas, por sua vez, vêm enriquecer essas mesmas elites, cuja riqueza e poder econômico ajudam a consolidar seu domínio político.

A Economia Interdisciplinar (Comportamental, Institucionalista, Evolucionária e Complexa) analisa as formas como uma economia gera e distribui sua renda. Há várias razões pelas quais as estruturas produtivas de países poderiam estar associadas não apenas ao crescimento econômico, mas também à desigualdade de renda.

Primeiro, a mistura de produtos de uma economia influencia as escolhas ocupacionais, oportunidades de aprendizagem e poder de barganha de seus trabalhadores e sindicatos. Notavelmente, em várias economias emergentes, a inovação tecnológica e a industrialização fornecem novos empregos e oportunidades de aprendizado para os trabalhadores, contribuindo para o surgimento de uma nova classe média.

Há uma correlação forte entre o nível de complexidade econômica de um país e seu nível de desigualdade de renda. Esta correlação é robusta, pois envolve outros fatores que explicam variações entre países na desigualdade de renda, como:

  1. o nível de educação,
  2. as instituições e
  3. a concentração na pauta de exportação.

Países que experimentam aumentos na complexidade econômica são mais propensos a experimentar diminuição no nível de desigualdade de renda. O nível de desigualdade de renda de um país é condicionado por sua estrutura produtiva.

Instituições políticas e econômicas inclusivas são necessárias para permitir que os países:

  1. usem novas tecnologias,
  2. sustentem processos de destruições criadoras, e
  3. alcancem níveis de complexidade econômica de médio a longo prazo.

Elas tendem a incluir maiores segmentos da população. Estes, devido ao maior poder de barganha, propiciado pelo conhecimento especializado, se tornam participantes ativos nos processos de desenvolvimento econômico e conquistas da cidadania. Isso ocorreu nas economias industrialmente mais avançadas.

A industrialização foi crucial para o desenvolvimento do movimento trabalhista, o que levou a exigências para a expansão dos direitos de voto e, eventualmente, a criação do Estado de bem-estar social. A negociação entre a casta dos mercadores e a casta dos trabalhadores organizados, seja em sindicatos, seja em partidos, desempenhou um papel crucial no desenvolvimento da democracia, pois impôs uma pauta de conquistas democráticas da cidadania à casta dos oligarcas governantes eleitos pela população.

Hoje, a desindustrialização prematura pode levar ao enfraquecimento político da casta de trabalhadores organizados nos países de baixa ou média renda per capita. Isso pode significar um retrocesso no caminho de desenvolvimento político propício à democracia ocidental liberal.

A análise da Economia como Sistema Complexo sugere que os países exportadores de produtos mais complexos tendem a ter níveis significativamente mais baixos de desigualdade de renda do que os países que exportam apenas produtos de extração e processamento simples como commodities agrícolas, minerais e petróleo. Nestes primário-exportadores, grupos de interesses capturam e/ou corrompem mais facilmente o Estado para atender apenas os próprios desígnios.

Será que o eleitorado brasileiro, no próximo ano, irá eleger deputados federais para o Congresso Nacional de modo a satisfazer os desejos da opinião pública predominante? A população brasileira deseja que:

  1. apenas uma reeleição de modo a se transmitir a experiência parlamentar dos veteranos de uma legislatura para os novatos de outra,
  2. o deputado não tenha nenhum tipo de benesses especiais em relação ao cidadão comum,
  3. os representantes populares ajam como cidadãos comuns e não como políticos profissionais subordinados a Poderes Dinásticos com financiamento eleitoral corrupto.

Apresento abaixo o resultado de pesquisa na web sobre o tamanho das bancadas de grupos de interesse que capturaram o Estado brasileiro, tanto o Poder Legislativo no Congresso Nacional quanto o Poder Executivo pelo golpe semi-parlamentarista. Continue reading “Por Uma Estratégia Eleitoral para Conquista de Maioria no Congresso Nacional”

Houve Bolha Imobiliária no Brasil?

O artigo sobre “Riqueza Imobiliária” foi o trabalho vencedor do I PRÊMIO LARES IBAPE/SP. O prêmio foi conferido na XVII Conferência Internacional da LARES 2017, onde foi apresentado. Os alunos do curso de Doutoramento do IE-UNICAMP na disciplina Economia Interdisciplinar oferecida no segundo semestre de 2016 – Tatiana Rimoli Gzvitauski, Marcel Roberto Santos Dias, Rafael Bertazzi Costa Rosa, Daniel Herrera Pinto – e o professor Fernando Nogueira da Costa foram coautores. O artigo foi publicado como Texto para Discussão 284 do IE-UNICAMP.

Além de apresentar uma visão holística sobre o mercado imobiliário brasileiro, com base no método de análise propiciado pela Economia da Complexidade, o trabalho diagnostica se houve, de fato, a emergência de “bolha imobiliária” no Brasil a partir de 2008. A possibilidade de existência de “bolha” especulativa no mercado imobiliário brasileiro foi levantada por analistas na imprensa em virtude das diversas notícias divulgadas acerca de elevação significativa do preço dos imóveis. Continue reading “Houve Bolha Imobiliária no Brasil?”

Chora, Direita! Maioria do Eleitorado não é nem Conservadora nem Neoliberal!

Como a mídia brasileira é unilateral, não apresentando um debate público entre as diversas posições políticas e ideológicas existentes na sociedade brasileira, ela “vende” uma ideia de que “tá tudo dominado” pelo conservadorismo. Faz, cotidianamente, o maior esforço para os tucanos elitistas e esnobes não se dividirem em torno da candidatura do governador paulista, “naturalmente”, mas como nem ele nem o prefeito coxinha sobem nas pesquisas eleitorais, já está propagando a ideia de que Boçalnaro dá para ser transformado em um neoliberal manipulável e palatável por O Mercado. Prefere a extrema-direita do que “o populismo” (sic) de Lula. Popularidade para ela é “populismo”, ou seja, não sacanear o povo.

Pior, como já se vê há três anos a campanha da extrema-direita organizada em espalhar o discurso de ódio antipetista por parte dos “haters“, em todos os comentários de qualquer notícia referente ao Lula ou à Dilma, só se lê analfabetos que maltratam o vocábulo para os desancar. Haters é uma designação de origem inglesa e que significa “os que odeiam” ou “odiadores” na tradução literal para a língua portuguesa. O termo hater é bastante utilizado na internet para classificar algumas pessoas que praticam “bullying virtual” ou “cyber bullying“. São aquelas pessoas que provam que o animal humano não evoluiu muito em autocontrole de sua selvageria. Os que odeiam são odientos ou odiosos!

 

Ricardo Mendonça (Valor, 17/11/17) informa que uma pesquisa recém-concluída pelo instituto Ideia Big Data sobre temas comportamentais e econômicos sugere, conforme os formuladores do levantamento, que as posições dos brasileiros são bem menos conservadoras do que tem aparecido nas análises políticas, nos discursos de parlamentares e em manifestações em redes sociais. Continue reading “Chora, Direita! Maioria do Eleitorado não é nem Conservadora nem Neoliberal!”

Economia Interdisciplinar e Riqueza Imobiliária

O artigo sobre “Riqueza Imobiliária”, que os alunos – Tatiana Rimoli Gzvitauski, Marcel Roberto Santos Dias, Rafael Bertazzi Costa Rosa, Daniel Herrera Pinto – e eu fomos coautores, como trabalho de avaliação no curso de Doutoramento no segundo semestre de 2016, foi o trabalho vencedor do I PRÊMIO LARES IBAPE/SP. O prêmio foi conferido na XVII Conferência Internacional da LARES 2017, onde foi apresentado. Nos tínhamos o publicado como Texto para Discussão 284 do IE-UNICAMP (TDIE).

Essa é uma experiência didática que se tem revelado frutífera. Na primeira vez, o artigo – “Economia Interdisciplinar” –, cujos coautores foram Taciana Santos, Daniel Pereira da Silva, Samir Luna de Almeida e eu, foi selecionado como o número 1 da primeira revista da UFABC. Esta Universidade, que busca fazer pesquisa na vanguarda tecnológica, queria criar uma revista para a Agência de Inovação da UFABC.

Seu editor me disse que o perfil editorial seria inovação, empreendedorismo, startups, negócios. Queria imprimir um perfil de artigos baseados mais nos modelos da complexidade e do evolucionismo. Estava procurando membros para o Conselho Editorial e artigos para o primeiro número. Solicitou-me sugestões.

Coincidentemente, na ocasião, meus alunos e eu estávamos debatendo e pretendendo publicar uma breve resenha sobre tema do curso Economia Interdisciplinar: Comportamental, Institucionalista, Evolucionária e Complexa. Enviamos e recebemos parecer nos parabenizando “pelo excelente artigo. Era exatamente o que precisávamos para o primeiro número, um artigo que mostra o perfil pretendido da revista no campo teórico. O resumo do artigo é perfeito para o foco que pretendemos. Este artigo também vai ajudar muito as nossas disciplinas ligadas à C&T”. Continue reading “Economia Interdisciplinar e Riqueza Imobiliária”

Gravidez na Adolescência

Ana Conceição (Valor, 17/10/17) informa que, no Brasil, um em cada cinco bebês é filho de mãe adolescente, com 10 a 19 anos. Sete em cada dez mães nessa faixa etária são afrodescendentes e aproximadamente metade mora nas regiões Norte e Nordeste. São números que refletem uma situação de grande desigualdade no acesso à saúde e aos direitos reprodutivos, cenário que tem potencial para comprometer o desenvolvimento econômico do país na medida em que restringe o acesso dessas jovens à educação e ao trabalho.

Entre essas meninas-mães, de cada cinco, três não trabalham nem estudam. A vulnerabilidade dessa parcela da população à pobreza, à exclusão e à violência e a necessidade de implementar políticas públicas direcionadas a ela no mundo é o tema do relatório “Situação da População Mundial 2017“, lançado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Com o subtítulo “Mundos Distantes – Saúde e Direitos Reprodutivos em Uma Era de Desigualdade“, o relatório indica que a demanda não atendida por serviços de saúde, incluindo o planejamento reprodutivo, “pode enfraquecer as economias e sabotar o progresso já alcançado para o cumprimento do primeiro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), o de eliminação da pobreza”. A desigualdade na saúde, diz o estudo, também pode prejudicar todos os outros 16 ODS pactuados na ONU em 2015, entre eles igualdade de gênero, segurança alimentar e educação.

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Estatísticas Fiscais do Governo Geral: Consolidação das Três Esferas de Governo

A partir do trabalho de depuração e reconstrução das séries de receitas e despesas das três esferas de governo da federação, Sérgio Wulff Gobetti & Rodrigo Octávio Orair, no Texto para Discussão do IPEA 2288 (Brasília, abril de 2017), intitulado Resultado Primário e Contabilidade Criativa: Reconstruindo as Estatísticas Fiscais “Acima Da Linha” do Governo Geral, conseguiram consolidar o resultado primário “acima da linha” do governo geral – federal, estadual e municipal.

Essa consolidação, sintetizada em uma imensa tabela detalhada para os valores anuais entre 2002 e 2015, foi feita com uma desagregação que busca seguir a classificação econômica do Sistema de Estatísticas Fiscais de FMI (2014). Nela, as receitas primárias foram agrupadas por simplicidade em três grupos – três tipos de receitas: tributos na definição geral do SEF (FMI, 2014), que inclui contribuições sociais; as transferências intergovernamentais; e as demais receitas (concessões, dividendos etc.) – e as despesas em seis grupos, a saber.

  1. Remuneração de empregados: corresponde não só aos salários de servidores, mas também a outras remunerações por prestação de serviços (como as bolsas para estudantes, alfabetizadores e pesquisadores que não possuem caráter assistencial), incluindo os encargos sociais incidentes sobre eles.
  2. Uso de bens e serviços: corresponde ao gasto com pagamento por prestação de serviços, inclusive os de utilidade pública (energia elétrica, telecomunicações e água), aluguéis e manutenção de prédios públicos, bem como aquisição de quaisquer bens que não sejam ativos fixos e sejam utilizados em atividades meio ou fim da administração pública – do papel higiênico ao medicamento de alta complexidade.
  3. Subsídios: corresponde ao custo arcado pelo governo ao financiar diretamente ou por meio de bancos públicos o consumo ou os investimentos do setor privado (empresas e famílias), o que pode se dar tanto pela equalização de taxas de juros, quanto de preços e tarifas, de forma explícita (com previsão e repercussão no orçamento público) ou de forma implícita (fora do orçamento, com operações para-fiscais, como os empréstimos do Tesouro ao BNDES).
  4. Benefícios sociais: corresponde aos gastos com pagamento de benefícios de natureza assistencial ou previdenciária, sendo estes últimos divididos entre os do regime geral (setor privado) e os do regime próprio dos servidores públicos (RPPS). Os benefícios assistenciais incluem todos os tipos de bolsas e auxílios financeiros a pessoas físicas que não se impliquem alguma espécie de contraprestação de serviços, mas a pura transferência de renda para reparar alguma situação de vulnerabilidade social (Bolsa Família, Bolsa de Volta para Casa, Bolsa Jovens Vulneráveis e Auxílio Desastre, por exemplo).
  5. Investimentos em ativos fixos: corresponde à parcela dos investimentos realizada diretamente pelos governos, ou seja, exclui as transferências de capital para outros entes.
  6. Demais despesas: inclui todas as despesas primárias não enquadradas antes, como transferências de capital para setor privado e exterior, inversões financeiras e determinados gastos de custeio.

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