“Engenheiro de Obra-feita” ou “A Fácil Sabedoria ex-post”

Investimentos da 7 Brasil

José Goldemberg foi reitor da Universidade de São Paulo (1986 – 1990) e presidente da Sociedade Brasileira de Física de 1975 a 1979. No governo federal, foi secretário da Ciência e Tecnologia (1990 – 1991), ministro da Educação (1991 – 1992) e secretário do Meio Ambiente (março a julho de 1992), durante o governo de Fernando Collor de Mello. No estado de São Paulo, foi secretário do Meio Ambiente de 2002 a 2006. Em agosto de 2015 foi nomeado presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Embora tenha esse currículo brilhante, descontando as nódoas de ter sido “collorido” e das nomeações feitas por governos tucanos, escreveu artigo (Valor, 29/0716) como “engenheiro de obra-feita”, ou seja, com a fácil sabedoria ex-post. Após os fatos transcorridos é muito fácil criticar o passado. Se tivesse prevenido na época dos acontecimentos, poderia agora, justamente, indagar: “eu não disse?”.

Então, valer ler o artigo dele apenas para criticar a linha do raciocínio neoliberal e seu desprezo pelo planejamento estratégico, que resultou no “apagão de 2001”. A crise do apagão foi uma grande crise ocorrida no Brasil por causa do não planejamento do fornecimento e distribuição de energia elétrica. Ocorreu entre 1 de julho de 2001 e 19 de fevereiro de 2002, durante o segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, sendo causada por falta de planejamento e investimentos em geração de energia, deixando tudo para o livre-mercado. Por que o “tucano-de-carteirinha” não advertiu e/ou criticou os erros de seus colegas ou amigos?

O vidente é a pessoa que faz profecias, adivinhações, previsões, sem base em elementos da realidade, e sim por visão sobrenatural. Goldemberg é  profeta, adivinho, ou  apenas uma pessoa que tem muita intuição, perspicácia e tornou-se clarividente depois que o mundo atual tornou-se evidente? Continue reading ““Engenheiro de Obra-feita” ou “A Fácil Sabedoria ex-post””

Causação Ascendente e Descendente

Neuroeconomia em Plugs

Encerro o resumo das ideias-chave do artigo de Geoffrey M. Hodgson, What Is the Essence of Institutional Economics?, publicado em Journal of Economic Issues, vol. 34 (June 2000): 317–29.

Tendo identificado o tema comum mais importante no velho institucionalismo, é necessário indagar mais profundamente a respeito de seu significado. Várias versões desta doutrina têm surgido ao longo dos anos. Também é necessário lidar com alguns possíveis mal-entendidos e refutações.

Talvez o ataque mais frequente à noção de que os gostos individuais e preferências são moldadas pelas circunstâncias é a crítica de que isso leva a algum tipo de determinismo estrutural ou cultural. O indivíduo, como é dito, é feito um autômato de circunstâncias sociais ou culturais.

Autômato é indivíduo de comportamento maquinal, executando tarefas ou seguindo ordens como se destituído de consciência, raciocínio, vontade ou espontaneidade. Nessa concepção, ele parece se mover ou funciona por meios puramente mecânicos. Será que ele funciona por si, dispensando operadores, ou sua operação independe da intervenção consciente da vontade, sendo maquinal, não deliberado? Se o comportamento humano for automático, ele necessariamente se realiza, sem intervenção de novas causas.

É certo que, alguns velhos institucionalistas promoveram tal visão determinística. Quando se escreveu que “não há tal coisa como um indivíduo”, isso estava dando apoio a essas ideias. Continue reading “Causação Ascendente e Descendente”

Formação do Economista no Brasil Contemporâneo

tdie-279

Resumo: O objetivo deste artigo — TDIE-279 – Formação do Economista no Brasil Contemporâneo — é apresentar alternativas metodológicas para o ensino de Economia no Brasil contemporâneo.

A análise do conteúdo dos cursos é realizada em três níveis de abstração:

  1. Ciência Econômica Abstrata ou Economia Pura,
  2. Economia Aplicada,
  3. Arte da Economia.

Cada um deles se divide entre:

  1. Economia Positivao que é – e
  2. Economia Normativao que deveria ser.

A principal proposta é de superação da formação “ortodoxa” dos economistas brasileiros por uma atualizada com a nova fronteira teórica pluralista e interdisciplinar.

Como argumentação em defesa da hipótese de que a formação contemporânea, em tempos de crise, deve ser mais generalista, exigindo maior abertura teórica e tolerância ideológica, faz uma breve análise da história do pensamento econômico brasileiro e examina a situação dos cursos e do profissional formado por eles.

MotivaçãoCarta Convite da ANGE ao Fernando Nogueira da Costa

cartaz_ange_2016Programação do XXXI Congresso da ANGE

É melhor alugar ou comprar um imóvel à vista?

duvida-imobiliaria

Débora Agonilha é planejadora financeira pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF). Respondeu a uma consulta (Valor, 19/09/16) que é uma dúvida comum em decisões financeiras/imobiliárias: “vendi minha casa por R$ 950 mil e, então, posso comprar um apartamento no mesmo valor. Minha dúvida é a seguinte: é melhor comprar um apartamento por esse valor ou aplicar o dinheiro e alugar um similar por R$ 4 mil mensais?

Essência da Economia Institucional

Buy

Geoffrey M. Hodgson (1946-) é um professor da pesquisa em Estudos de Negócios no da Universidade de Hertfordshire (Reino Unido), Editor-in-Chief da Journal of Institutional Economics e foi, em 2006, presidente da Association for Evolutionary Economics. Ele é o autor de mais de uma dúzia de livros e quase duzentos acadêmicos artigos. Sua investigação centrou-se sobre as instituições. Ele também teve um longo interesse na História e Metodologia da Economia Institucional e Evolucionária. Resumo abaixo as ideias-chave do seu artigo publicado em Journal of Economic Issues, vol. 34 (June 2000): 317–29.

O termo “Economia Institucional” foi anunciada pelo Walton Hamilton em uma reunião da American Economic Association, em 1918. Institucionalismo foi dominante no pensamento econômico de norte-americanos, pelo menos até o ano de 1940. Listando um número de atributos percebidos nesta escola, Hamilton afirmou que “só a Economia Institucional poderia unificar a Ciência Econômica, mostrando como as partes do sistema econômico estão relacionadas com o todo”.

Entretanto, a Economia Institucional não foi definida em termos de Economia Normativa, ou seja, não tinha nenhuma proposição de o que deveria ser a economia. Hamilton [1919, 313] declarou: “Não é a pretensão da Economia Institucional fazer julgamentos sobre propostas concretas”. No entanto, seu apelo como teoria era que, alegadamente, poderia ser utilizada como uma base de referência para a proposição política.

De acordo com Hamilton [1919, 314-18], os economistas institucionais reconhecem que: “o objeto adequado de teoria econômica é o foco em instituições (…). A teoria econômica está em causa por focalizar apenas questões de processo (…). A teoria econômica deve basear-se em uma aceitável Teoria do Comportamento Humano”. Continue reading “Essência da Economia Institucional”

Ranking Universitário Folha 2016

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Pela primeira vez desde que o RUF (Ranking Universitário Folha) foi criado, a USP perde a liderança na lista de universidades brasileiras e também na de cursos.

O ranking, que existe há cinco anos, classifica nesta edição 195 universidades, identificadas por Estado, natureza administrativa, tamanho e idade. O caderno da Folha de S.Paulo (19/09/2016) traz também 40 rankings das instituições de ensino superior com os cursos de maior demanda nacional, como por exemplo Medicina e Design.

Com 97,46 pontos – 0,43 a mais que a USP –, a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) ultrapassa a estadual paulista na avaliação de universidades.

O RUF é calculado a partir de cinco indicadores: pesquisa, ensino, mercado, inovação e internacionalização.

É a USP que lidera o indicador que avalia a qualidade da pesquisa científica das universidades no RUF, seguida da Unicamp e da UFRJ.

A USP zera em um dos componentes do indicador do ensino que vale dois pontos, e que se baseia na nota do Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes). A universidade não participa da prova. Se tivesse a mesma nota da UFRJ (3,17) no Enade, a USP voltaria ao topo do ranking.

A USP também perdeu a liderança nos rankings de cursos do RUF. Ocupa o 1º lugar em nove carreiras, como jornalismo e relações internacionais – contra 29 em 2015.

A Unicamp é campeã nos rankings de cursos, à frente de 14 deles, entre os quais o de Economia (abaixo).

“Os cães ladram, a caravana passa… Su. Sorry, periferia. Ademã, que eu vou em frente!”

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Jabuti não sobe em árvore: como o MBL se tornou líder das manifestações pelo impeachment (por Marina Amaral)

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Marina Amaral, no livro de Ivana Jinkings, Kim Doria , Murilo Cleto (orgs), “Por que gritamos golpe?”, descreve muito bem a mobilização dos jovens direitistas, fascistas e golpistas para atuarem como agitadores da rede social e levar os reaças da classe média decadente às passeatas, vestidos com a camiseta da CBF (antro de corruptos) e/ou do pato amarelo da FIESP golpista. Ela já tinha investigado esse movimento direitista em: Marina Amaral, “A nova roupa da direita“, Pública, 23 jun. 2016; disponível online.

“Depois que os protestos contra a alta nas tarifas de ônibus e metrô tomaram o país, em junho de 2013, uma juventude que não costumava se manifestar nas ruas começou a aparecer nos jornais. Os novos integrantes, logo apelidados de “coxinhas” pela juventude de esquerda, repudiavam as bandeiras vermelhas a pretexto de impedir a “partidarização” do movimento, e assumiam o verde-amarelo “de todos os brasileiros”. Condenavam os black blocs e exaltavam a polícia militar, que reprimira com violência os protestos convocados pelo Movimento Passe Livre. Suas principais bandeiras eram contra a “roubalheira” e contra “tudo isso que está aí”, paulatinamente substituídos por um simples “Fora PT”.

A imprensa foi atrás de entrevistas com as novas lideranças, sem esclarecer sua origem.

  • Alguns grupos eram fáceis de rastrear, como o Vem Pra Rua, de Rogério Chequer, ligado à juventude do PSDB e ao senador Aécio Neves.
  • Ou o Revoltados Online, francamente autoritário, que pedia a volta da ditadura militar enquanto faturava com a venda online de camisetas e bonecos contra o PT.
  • O mais obscuro deles era o Movimento Brasil Livre (MBL), que parecia ter brotado da terra para assumir a liderança daquele que se tornaria o movimento pró-impeachment nos anos seguintes.

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