Estratificação Social da Riqueza e Renda no Brasil

TDIE 270

Coloco para download um Texto para Discussão de minha autoria — TD270 Estratificação Social da Riqueza e Renda no Brasil –, postado ontem no site do IE-UNICAMP. Contém resultados da minha pesquisa sobre distribuição da riqueza e renda entre as castas conforme dados das DIRPF 2014 – AC 2013 e da ANBIMA.

No caso de análise com base em castas, a sociedade não é vista como um aglomerado de indivíduos atomizados, como os individualistas tendem a enxergar, nem como composta das classes econômicas dos coletivistas, segundo as quais as pessoas são categorizadas conforme suas propriedades. A sociedade é analisada sim como composta de grupos profissionais, cada um dos quais gerando seu próprio ethos, isto é, espírito, caráter, mentalidade.

Nesse sentido, o conceito de casta será útil para uma análise distinta daquela de “luta de classes”, colocando o foco na dinâmica dojogo de alianças entre castas” como construtor da longa história da civilização. Creio que uma reflexão sobre o tema é importante para análise da conjuntura que vivemos no Brasil.

TDIE 270

Estratificação social da riqueza e renda no Brasil

AUTOR: Fernando Nogueira da Costa
5/2016

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Inovação Financeira e Tecnológica: Fintech

Fintech-Basics

Contra a pretensa ameaça de “desintermediação bancária” os grandes bancos brasileiros de varejo reagem também fornecendo aplicativos aos clientes para “mobile banking”, tanto para acesso a conta corrente e investimentos quanto para consultas e pagamentos com cartão de crédito.

Sérgio Tauhata (Valor, 09/05/16) avalia que o maior pesadelo dos bancos tradicionais hoje está bem aí no seu bolso ou bolsa. A chamada tecnologia financeira – ou, no jargão do mercado, “fintech“, uma contração dos termos em inglês “financial technology” – usa e abusa da mobilidade e da internet para implementar de modo eficiente e conveniente serviços antes restritos às instituições financeiras. Os principais palcos onde essa disputa tem sido travada são justamente os smartphones e tablets.

O que assusta os executivos é a possibilidade de o consumidor pular a intermediação, ou seja, o próprio serviço das instituições financeiras. Ainda é cedo para saber se os bancos têm motivos para preocupações, mas, em alguns poucos anos, as respostas estarão ao alcance de suas mãos.

O canal móvel avança a passos largos no Brasil. Pesquisa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) com os sete maiores grupos financeiros do país, divulgada em dezembro, mostra que, no primeiro semestre do ano de 2015, 21% das transações se originaram de smartphones e tablets. No fim de 2014, as operações por meio de dispositivos móveis representavam apenas 14% do total.

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Dica de Comédia de Costumes: “Ele está de volta”

Ele está de volta

Dica de uma navegação ao acaso no Netflix: assisti uma inteligente comédia alemã de costumes para adultos. Não é infanto-juvenil debiloide como costuma ser comédia norte-americana. Trata-se de “Ele está de volta”, que estreou nos cinemas da Alemanha em 2015 e agora chega à Netflix, satirizando a volta de Adolf Hitler à Berlim contemporânea.

No filme, baseado em livro de mesmo título, Hitler é teria se mantido conservado em seu bunker na Alemanha nazista até despertar na Alemanha democrática e governada por uma mulher. Também uma mulher dirige a rede de TV sem escrúpulos de o promover, em busca de audiência, tal como no filme clássico “Rede de Intrigas”. Aliás, o filme faz citações hilariantes de outros filmes, até da conhecida cena de explosão emocional de Hitler no filme “A Queda“.

A comédia política ironiza o nazifascismo latente no animal humano predador de concorrentes exatamente como merece: com um tom de escárnio providencial contra o xenofobismo, o racismo e a violência dos seres humanos desmemoriados ou desmiolados. A figura de Hitler renasce no Século XXI com uma legião de seguidores na rede social e nos programas de auditórios nos canais de TV. Até que se revela que ele matou um cãozinho… O ódio aos homens “diferentes” (judeus, muçulmanos, gays, esquerdistas, etc.) é tolerado, mas não ao puppy

Obs.: legendas acima em português — e humor com pessoas — de Portugal.

Nathali Macedo — colunista, autora do livro “As Mulheres que Possuo“, feminista, poetisa, aspirante a advogada e editora do portal Ingênua, que canta blues nas horas vagas — aproveita a resenha do filme no Diário do Centro do Mundo para o inserir no contexto nacional. Reproduzo seu comentário abaixo. Depois, postei o trailer do filme e uma notícia sobre recorde de ataques de extrema­ direita na Alemanha no ano passado.

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Trauma do Desemprego

Salários nos EUABen Leubsdorf (WSJ, 11 de Maio de 2016) avalia que “a recessão acabou nos Estados Unidos sete anos atrás, mas o desemprego e o subemprego persistentes prejudicaram a expansão econômica que se seguiu. Um número crescente de estudos sugere que o trauma econômico deixou cicatrizes financeiras e psicológicas em muitos americanos e que estas marcas vão durar décadas.

Cerca de um em cada seis trabalhadores americanos ficaram desempregados durante os anos da recessão, em 2007, 2008 e 2009. Hoje, cerca de 14 milhões de pessoas ainda estão procurando emprego no país ou só têm empregos de meio período porque não conseguem encontrar trabalho em tempo integral.

Mesmo para os milhões de americanos que voltaram a trabalhar, os efeitos de ter perdido o emprego ainda se fazem sentir, indicam os estudos. Essas pessoas vão ainda ganhar menos durante anos e terão menos chances de possuir uma casa própria. Muitas vão sofrer com problemas psicológicos. Seus filhos irão ter um desempenho pior na escola e muitos deles, possivelmente, vão ganhar menos quando tiverem seus próprios empregos. Continue reading “Trauma do Desemprego”

Jogo de Alianças entre Castas e Golpe contra Domínio Irrestrito

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Decretado o fim do governo social-desenvolvimentista pelos golpistas neoliberais, a resistência democrática passa a ser defensiva na tentativa de evitar a regressão das conquistas de direitos (civis, políticos, sociais e econômicos) do período de mobilidade social. Sendo assim, há o reconhecimento implícito que houve, de fato, algo de novo na sociedade brasileira entre 2003 e 2014. Na verdade, no primeiro ano (2015) do segundo mandato da Presidenta reeleita, democraticamente, quando se adotou o ajuste fiscal neoliberal com tratamento de choque tarifário e sinalização de depressão econômica, a Era Social-desenvolvimentista findou.

Fim da hegemonia de uma casta, seja por crise econômica, seja por guerra ou revolução, ocorre em simultâneo como uma crise ideológica, onde se parte para “mudanças” a qualquer custo. A ordem social desmorona quando o governante passa a acreditar que está fracassando e, sob pressão, adota o programa de adversário, indo contra o ideário de sua base de apoio político-eleitoral.

A Era Social-desenvolvimentista (2003-2014) representou, a la socialdemocracia europeia, a aliança entre a casta de trabalhadores e a de sábios-criativos, com apoio da casta de “comerciantes-brandos”: empresários e financistas com tolerância política e liberalismo cultural. O apoio da casta dos sábios-tecnocratas oscila de acordo com “o governo de plantão”, pois cada administrador técnico concursado, seja do Poder Executivo, seja do Poder Judiciário, sabe que “os governos passam, mas ele fica”. Os valores predominantes, nessa Era, foram solidariedade, coletivismo, regulação e igualitarismo social.

A nova Era Neoliberal em gestação se ergue sobre uma aliança golpista entre as castas dos “comerciantes firmes”, ou seja, empresários nacionais e pequeno-burgueses sob pressão da concorrência internacional que passam a sobrevalorizar disciplina fiscal (corte de gastos e impostos), regras e autoridade, com as castas de governantes oligárquicos (herdeiros de aristocratas e/ou proprietários rurais) e de guerreiros (PF, MP, TCU, etc.). Os valores  culturais divulgados pela grande mídia são livre-mercado, competitividade, meritocracia e individualismo. Os intelectuais direitistas insistem no discurso da competência, eficácia e eficiência dos próprios pares: autoengano somado à validação ilusória…

Os grupos sociais, vistos como castas, não são só organismos que buscam
o interesse próprio e a vantagem econômica. Também constituem encarnações de ideias e estilos de vida, que procuram impor às outras. Quando tentam impor domínio irrestrito de seus valores, as ordens sociais tornam-se menos inclusivas e as alianças das castas excluídas ganham maioria em nova eleição ou partem para o golpe de Estado, seja parlamentarista, seja militar.

Então, se a Dilma representou a presunção arrogante típica dos especialistas da casta dos sábios-tecnocratas, Lula liderou a casta dos trabalhadores com forte espírito comunitário ou corporativista, que excluem “os de fora” em seu culto à personalidade e na indicação política para o aparelhamento do Estado. Porém, a casta dos guerreiros atiça guerras e processos judiciais intermináveis por honra e vingança, e adota discurso de ódio que incentiva a intolerância extremista contra os adversários. E a casta dos mercadores, se deixada livre de regulação, logo provocará a instabilidade econômica e a elevação das desigualdades sociais.

À luz dessa reflexão sociopolítica, leia e avalie o seguinte Editorial do PIG (Valor, 20/05/16) ainda em campanha política para decretar o fim definitivo do PT. Personaliza uma instituição. Fazer autocrítica ou mea culpa deve ser por parte de dirigentes que cometeram o crime de buscar financiar o PT como os demais partidos e não por parte de uma instituição partidária com milhares de militantes e simpatizantes inocentes. Isso também não exclue continuar a fazer a crítica à deslealdade dos adversários, muitos ex-aliados. Introjetar toda a culpa é típico de uma cultura cristã que crê na redenção pelo auto sacrifício. Continue reading “Jogo de Alianças entre Castas e Golpe contra Domínio Irrestrito”

Excesso de Polarização entre Centro-Esquerda e Centro-Direita: Ascensão da Extrema-Direita

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Quando um(a) companheiro(a) reclama da ascensão da direita no Brasil, que “saiu do armário”, onde se meteu envergonhada depois da defesa dos 20 anos de ditadura militar (1964-1984), olhamos para o resto-do-mundo e chegamos à conclusão que vivemos uma crise da humanidade. Talvez análoga à que ocorreu após a Grande Depressão dos anos 30 do século XX, quando ascendeu o nazifascimo na Europa (Alemanha, Itália, Espanha e Portugal) e ele se aliou com o Império bélico japonês na Segunda Guerra Mundial.

Gideon Rachman (FT apud Valor, 10/05/16) fez um balanço sobre o crescimento da extrema-direita. Reproduzo-o abaixo, seguido de outra avaliação sobre o que significa a vitória de Donald Trump sobre o establishment do Partido Republicano nos Estados Unidos.

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Passado como Guia do Futuro Imprevisível

Retomada da Recessão

Temos uma dependência de trajetória caótica, onde gradualmente vamos nos afastando das condições iniciais, desde setembro de 2011, quando explodiu a “bolha de commodities“. Como política compensatória (“bolsa-industrial”) adotou-se desoneração fiscal, corte de tarifas elétricas, crise hídrica (seca no tucanês), quebra de oferta, baixa-e-alta da taxa de juros que levou à “eutanásia de rentistas” com títulos prefixados, lockout empresarial com corte de gastos em investimentos e consumo para recomposição patrimonial, ajuste fiscal, choque tarifário, depressão… golpe na democracia!

Henrique Meirelles já começou a mitificação ilusória, afirmando que “primeiro tem de piorar para depois melhorar”. Isso não é ciência, mas sim um contorcionismo verbal para evitar afirmar que sua política econômica agravará a depressão e o desemprego para arrochar mais os salários de maneira que, no futuro, fique barato contratar trabalhadores sem poder de barganha!

Essa ainda é a visão neoclássica ou pré-keynesiana de retomada de crescimento após uma depressão. Os neoliberais dizem que “antes de começar a crescer, o país ainda terá mais dois a três trimestres de queda (além do primeiro trimestre deste ano que foi negativo em relação ao fim do ano passado)”.

A retomada será mais difícil no atual ciclo porque a recessão está sendo mais profunda (dois anos consecutivos com queda próxima a 4%), todo setor público (União, Estados, municípios e estatais) está sem capacidade de fazer política anticíclica e, ao atingir fortemente o investimento, a crise afetou a própria capacidade de recuperação da economia, em um mundo que cresce pouco. O lockout empresarial foi um “tiro-no-pé”!

Muitos empresários, liderados pela FIESP golpista, se dispuseram ao boicote ao governo social-desenvolvimentista, inclusive perdendo dinheiro, para criar as condições recessivas para golpeá-lo politicamente. Agora, tentarão passar o ônus maior para os trabalhadores.

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