Desconto Hiperbólico

Rolf Dobelli, no livro “A arte de pensar claramente”, cita o ditado popular “Aproveite cada dia como se fosse o último” e afirma que entre todos os lemas latinos que sobreviveram até hoje, carpe diem é provavelmente o preferido. Aproveite ao máximo o dia e não se preocupe com o amanhã. O imediatismo tem muito valor para nós. Quanto? Mais do que é racionalmente justificável.

Você prefere receber dez mil reais em um ano ou R$ 11.000 em um ano e um mês? Se você respondeu como a maioria das pessoas, então escolheu os 11.000 reais em 13 meses. Faz sentido, pois um juro de 10% ao mês (ou 120% por ano) você não vai encontrar em lugar nenhum. Esse juro lhe indeniza por todos os riscos que você correria se esperasse um mês.

Segunda pergunta: você prefere receber dez mil reais hoje ou R$ 11.000 em um mês? Se você respondeu como a maioria das pessoas, então escolheu os dez mil reais hoje. É surpreendente. Em ambos os casos, você tem de aguardar exatamente um mês para receber mil reais a mais. No primeiro caso, você se diz, “se já esperei um ano, posso muito bem esperar mais um mês”. No segundo caso, não. Continue reading “Desconto Hiperbólico”

Sistema Eletrônico de Pagamentos de Varejo: Preços Inflados para Ganho de Lojistas, Bancos e Bandeiras

Claudia Safatle (Valor, 16/03/18) informa que o Banco Central e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) enviaram ao Senado um projeto de lei substitutivo à proposta original (PLS 350) que sela o acordo de gestão compartilhada nos casos de fusões ou aquisições no sistema financeiro. A aprovação desse projeto, quando ocorrer, encerrará vários anos de disputa entre as duas autarquias sobre de quem é a palavra final nos atos de concentração no setor financeiro.

O trabalho compartilhado entre o BC e o Cade pode ser o início de uma atuação para que, em algum momento no futuro, os órgãos reguladores possam começar a estabelecer um ambiente de maior competição no setor. 🙂

Hoje, quatro bancos praticamente dominam o mercado de crédito no país, dois privados (Itaú e Bradesco) e dois estatais (Banco do Brasil e Caixa). A ausência de concorrência pode não ser a única explicação para as elevadas taxas de juros cobradas do tomador final. Mas é, certamente, uma das relevantes.

A Selic caiu para menos da metade desde setembro de 2016 (mês anterior ao do início do ciclo de queda): era de 14,25% ao ano e está atualmente em 6,25% ao ano.

No mesmo período, o juro do cheque especial da pessoa jurídica passou de 337,6% para 330,19% e o da pessoa física praticamente se manteve: era de 324,90 % ao ano em 2016 e de 324,70% ao ano em janeiro, segundo dados do BC.

No cartão de crédito rotativo, a taxa de juros caiu de 491,25% em setembro de 2016 para 327,92% em janeiro para pessoas físicas; e de 355,39% para 234,6% para as empresas. Apesar da modesta redução, trata-se de juro real inexplicável dado que a inflação de 12 meses até janeiro era de 2,86%.

Em nenhum lugar da América Latina existe uma taxa de juros cobrada por empresas de cartão de crédito como a brasileira. Um estudo comparativo dos juros do cartão no Brasil e em diversos outros países do continente e nos Estados Unidos mostra que, aqui, a taxa real do rotativo no fim de 2017 era de 321% ao ano. No Peru, a segunda mais alta, o juro era de 53% e na Argentina, 18,27% ao ano. As diferenças são gritantes. Continue reading “Sistema Eletrônico de Pagamentos de Varejo: Preços Inflados para Ganho de Lojistas, Bancos e Bandeiras”

Dissonância Cognitiva ou Autoengano

Rolf Dobelli, no livro “A arte de pensar claramente”, diz que um dos mais frequentes erros de pensamento ocorre quando a pretensão e o resultado de sua ação não se ajustam. Você pode mitigar essa discrepância (dissonância) desagradável de três maneiras:

  1. continuar tentando alcançar a meta de alguma forma;
  2. admitir que não tem capacidade suficiente para isso;
  3. reinterpretar posteriormente alguma coisa.

Neste último caso, fala-se de dissonância cognitiva ou de sua solução. Continue reading “Dissonância Cognitiva ou Autoengano”

Renda Fixa ou Renda Variável: Basta Proteção da Inflação com Juros Reais

Nathália Larghi (Valor, 07/03/18) informa que, após dois anos com mais saída de recursos do que entrada, a captação líquida da poupança voltou a crescer em 2017 e deve continuar em trajetória positiva neste ano, segundo especialistas, apesar dos saques dos primeiros dois meses. O resultado reflete a recuperação do rendimento médio real, com um pouco mais trabalhadores ocupados informalmente e inflação baixa (2,95%), permitiu que o poder aquisitivo fosse menos corroído e, se comparado com a média  do período anterior de taxas de inflação mais elevadas (10,7% em 2015 e 6,3% em 2016), chegasse ao fim do mês com “sobra” de recursos.

Segundo dados do Banco Central, a captação líquida da poupança – excluindo a caderneta rural – foi de R$ 14,7 bilhões no ano passado. Em 2015, a poupança havia fechado o ano com resgates de R$ 50,1 bilhões e, em 2016, de R$ 31,2 bilhões.

Nos primeiros dois meses de 2018, o fluxo de aplicação voltou a ficar negativo. O movimento é considerado comum em início de ano, quando chegam contas como IPVA, IPTU e matrículas escolares, dizem especialistas. Os volumes, no entanto, foram menores do que nos anos anteriores, o que indica uma tendência de recuperação. Em janeiro, por exemplo, os saques foram de R$ 4,9 bilhões, enquanto no mesmo mês de 2016 e 2017 somaram R$ 9,5 bilhões e R$ 8,7 bilhões, respectivamente.

Em fevereiro deste ano, também houve mais retiradas que depósitos, deixando o saldo de aplicações negativo em R$ 586,2 milhões. Comparado com 2017, houve aumento das saídas, mas os depósitos cresceram. Em relação a 2015 e 2016 – quando os resgates líquidos no mesmo mês alcançaram R$ 4,8 bilhões e R$ 6,7 bilhões, respectivamente – houve uma melhora considerável.

Segundo especialistas, a tendência deve se reverter nos próximos meses. O trabalhador recebe o 13o salário, aplica momentaneamente na poupança e, em janeiro e fevereiro, quando tem várias contas de início do ano, ele tira. Esses meses geralmente têm um saque maior.

A disponibilidade de “sobra de renda do trabalho”, que pode ser transferido para a conta corrente a qualquer momento, faz com que as pessoas optem por depositar na caderneta. Deixar o dinheiro na poupança, contudo, não tem propriamente caráter de investimento. Isso porque as quantias aplicadas geralmente são as sobras do fim do mês.

Estão disponíveis lá como reservas para emergências. Esse comportamento explica a retirada no começo do ano. Vai para a poupança mais pela comodidade, pelo fato de que está sobrando uma quantia. Quando o depositante precisar, ele tira o dinheiro dali. Continue reading “Renda Fixa ou Renda Variável: Basta Proteção da Inflação com Juros Reais”

Sorte do Iniciante

Rolf Dobelli, no livro “A arte de pensar claramente”, tratou do viés de associaçãoa tendência a associar acontecimentos entre si que nada têm a ver um com o outro. Só porque um sujeito, por três vezes seguidas, fez uma brilhante apresentação perante o Conselho de Administração da empresa e, em todas essas vezes, estava usando cuecas de determinada cor, não faz o menor sentido acreditar em cuecas da sorte.

Ele trata também de um caso especialmente espinhoso de viés de associação: a associação (falsa) a êxitos anteriores. Jogadores de cassinos sabem o que é isso e falam de sorte do iniciante. Quem perde na primeira rodada de um jogo tende a desistir de jogar. Quem limpa a mesa tende a continuar. Convencido de que possui capacidades acima da média, o sortudo aumenta a aposta — para logo em seguida se transformar em um azarado, em particular quando as probabilidades se “normalizam”.

Em Administração de Empresas, a sorte do iniciante desempenha um papel em fusões e aquisições: quando uma empresa compra empresas menores as aquisições tendem a se mostrar eficazes. Para a liderança do grupo empresarial, isso reforça a certeza de ter um ótimo tino para comprar empresas. Inspirada, ela compra então uma empresa bem maior. A integração se mostra um desastre. Uma observação objetiva teria permitido intuir esse fracasso, mas a sorte do iniciante ofuscou a negociação.

O mesmo acontece na bolsa de valores. Movidos pelo sucesso inicial, muitos investidores colocam todas as suas economias em ações da “bolha da hora”. Muitos até levantam crédito para fazê-lo. Mas deixam passar um pequeno detalhe. Seus lucros espantosos na época nada têm a ver com suas capacidades de stock picking – seleção de ações com maior poder de acumulação. Continue reading “Sorte do Iniciante”

Caçador de Conexão Wi-Fi

Ivone Santana (Valor, 15/03/18) divulga o estudo Global Mobile Consumer Survey 2017, da Deloitte. Indica que 84% dos 2 mil entrevistados no Brasil se conectaram à internet no ano passado via Wi-Fi e só 16% pela rede celular.

Os pacotes para acessar internet são considerados caros para o bolso da maior parte da população. Na rede fixa, existem apenas 29,1 milhões de contratos de banda larga ativos, de acordo com dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) referentes a janeiro. Na rede móvel, considerando todas as tecnologias, são mais de 189 milhões de acessos. Mesmo assim, o caminho mais usado pelos internautas é Wi-Fi. Não é difícil entender por que.

Os clientes alternam o período de rede móvel e Wi-Fi conforme a capacidade de pagamento, não de vontade, que seria ficar conectado da melhor forma o tempo todo. Cerca de 90% dos acessos são por smartphone. Continue reading “Caçador de Conexão Wi-Fi”

Viés de Associação

Rolf Dobelli, no livro “A arte de pensar claramente”, afirma que nosso cérebro é uma máquina de fazer associações. Como princípio básico, é bom que seja assim: se erramos, em tese, evitamos repetir o erro; se acertamos, repetimos, e repetição é aprendizagem. Assim, via tentativas-e-erros, surge o conhecimento teórico e prático.

Entretanto, assim também surge o falso conhecimento. Ivan Pavlov foi o primeiro a estudá-lo. Originariamente, o pesquisador russo queria apenas medir a salivação nos cães. O método experimental foi estruturado de maneira que um “sino tocasse antes que a ração fosse dada aos cães. Em pouco tempo, só o toque do sino já era suficiente para fazer com que os cães salivassem. Eles associavam as duas coisas, que, do ponto de vista funcional, nada tinham a ver uma com a outra — o toque de um sino e a produção de saliva”.

O método de Pavlov funciona igualmente bem com animais humanos. A publicidade associa produtos a emoções positivas. Continue reading “Viés de Associação”