Casta X Aristocracia

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Para se entender de maneira mais aprofundada as ideias de Florestan Fernandes, apresentadas em seu livro A Revolução Burguesa no Brasil, vale uma consulta ao Dicionário de Política, elaborado por uma equipe coordenada pelo Norberto Bobbio. Além de consultar os verbetes referentes a Estamento, Ordem e Classe, acrescento a pesquisa à Casta.

Parece-me que esta estratificação de natureza ocupacionalcasta –, ampliada e adaptada em relação a seu conceito original (indiano), pode ser frutífero para a historiografia rever a história do Brasil a partir da formação das demais castas, além das predominantes até os anos 60 do século XX:

  1. a casta dos guerreiros,
  2. a casta dos aristocratas latifundiários governantes,
  3. a casta dos comerciantes-industriais, e
  4. a casta dos sábios-pregadores (sacerdotes ou intelectuais formados no exterior).

A sub-casta dos sábios-universitários e, especialmente, a casta dos trabalhadores organizados, seja em partidos políticos, seja em sindicatos, além da sub-casta dos comerciantes-financistas, colocam novos elementos para a análise do que ocorre na sociedade brasileira após a modernização-conservadora, propiciada pelo golpe de 1964 e pelo neoliberalismo de 1988 a 2002. Continue reading “Casta X Aristocracia”

Porque é que a Inflação dos Estados Unidos é tão baixa?

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  • Os dados acima confirmam a hipótese neofisheriana de André Lara Resende, “vanguarda do pensamento econômico mundial” (sic)? 
  • Porque é que a flexibilização quantitativa tem coexistido com a estabilidade de preços nos Estados Unidos?
  • Porque é que a emissão monetária por parte da Reserva Federal não provocou uma inflação mais elevada?

Martin Feldstein, professor de Economia em Harvard, foi presidente do Conselho de Assessores de Economia de Ronald Reagan. Ele é também ex-presidente do National Bureau for Economic Research dos Estados Unidos.

Para responder essas intrigantes questões, naturalmente, ele não faz uma abordagem estruturalista a la Escola Desenvolvimentista Latino-Americana. Assim, não alerta sobre a especificidade da capacidade de emissão monetária por parte do governo dos EUA. Imprime papéis pintados de “dólar”, para fazer a monetização da dívida pública ou “afrouxamento monetário, e o resto mundo os aceita em troca de mercadorias! Além disso, os títulos de dívida pública norte-americanos são absorvidos em reservas cambiais dos países emergentes como China, Japão, Rússia, Brasil, Petro-Estados, etc. Logo, o resto do mundo financia o imenso déficit comercial norte-americano.

Obviamente, esta experiência é única e não pode ser generalizada como uma “nova teoria monetária”!

Os Estados Unidos fecharam 2016 com um déficit no balanço comercial de US$ 502,3 bilhões, o maior dos últimos quatro anos. Por países, o saldo negativo no comércio com a China caiu 5,5% em 2016, ficando em US$ 347 bilhões, abaixo do recorde de US$ 367 bilhões de 2015. Já com o México, as importações superaram as exportações em US$ 63,2 bilhões, uma alta de 4,2% e o valor mais alto desde 2011, de acordo com o Departamento de Comércio.

O presidente dos EUA, Donald Trump, prometeu penalizar países como China e México, que acusa de práticas comerciais injustas, responsáveis pela perda de milhões de empregos americanos. Trump pretende renegociar o mais rápido possível o Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), assinado há mais de 20 anos com o México e o Canadá. Resta a simples pergunta: com o fim do livre-comércio global a inflação nos EUA permanecerá baixa?!

Reproduzo abaixo o artigo de Martin Feldstein.

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Chico Lopes: Dimensionando O Que Se Fala

Dívida Líquida e Indexadores DLSP

Francisco Lafaiete Lopes é PhD por Harvard, sócio da consultoria Macrométrica e ex-presidente do Banco Central (BC). Diferentemente de outros ex-colegas professores da PUC-RIO, ele parece ter mais rigor com o que fala ou escreve. Não fica apenas no plano da Ciência Abstrata, baixando o nível de abstração para a Ciência Aplicada e, daí, para a Arte das Decisões Práticas. Ciência exige medição, ou seja, dimensionar o que está falando, para não falar bobagem como disseram diversos participantes deste debate sobre Política Monetária:

O debate sobre impacto do juro alto na inflação segue com artigo de Francisco Lafaiete Lopes reproduzido abaixo. Desde logo, alerto que discordo quando Chico Lopes diz que “se todos os carregadores da dívida pública chegarem à conclusão de que o valor presente dos superávits futuros não representa lastro adequado para os títulos de dívida pública, então cada um deles vai tentar reduzir sua posição”.

Ele teria de ilustrar se essa possibilidade já ocorreu no passado. Houve alguma fuga de capitais do mercado de títulos que oferecem risco soberano para mercados de risco, tais com os de ações, dólar, imobiliário? Não, esta (falsa) ameaça só serve para sequestrar a vontade da Autoridade Monetária, forçando-a a manter a absurda política de juros reais elevadíssimos no País!

Lopes se pergunta: mas como isso afeta o índice de preços de bens e serviços? “Parece mais razoável supor que o impacto será no mercado secundário de títulos da dívida pública, o que sugere que está faltando algo na equação básica da teoria. O que está faltando é a relação entre o valor nominal [ou “de face”] ao qual a dívida foi emitida pelo governo e seu valor no mercado secundário, que podemos indicar por  um fator de desconto“.

Então, parece-lhe mais razoável supor que a dúvida quanto à futura capacidade de pagamento (solvência) governamental ou resgate do endividamento público vai ser ajustado não por movimentos no índice de preços, mas por movimentos no fator de desconto para a dívida pública. Eu, FNC, digo que isto não exclui a possibilidade de qualquer pequeno vazamento deste imenso mercado de títulos para o diminuto mercado de dólares já provocar um choque cambial e, consequentemente, um choque inflacionário. A reação com um choque de juros provocará MtM: “marcação-a-mercado” dos títulos prefixados (LTNs e NTNs) e risco de eutanásia de rentistas. Daí, “creio em deus-padre”! 🙂

“André Lara Resende publicou no Valor alguns artigos instigantes que estão gerando muita perplexidade e controvérsia. Para o grande público foi surpreendente e perturbador ler que “a hipótese neofisheriana, que vê no juro alto a causa da alta inflação no longo prazo (…) tem sólidas credenciais analíticas”. Isto até encorajou o colunista Ancelmo Gois a brincar que o Banco Central vai ter que devolver os juros elevados que foram praticados no Brasil por tanto tempo.

[FNC: na verdade, as castas — quase todas elas necessariamente rentistas –, cerca de 9,6 milhões de pessoas que aplicam em FIFs/TVMs, que teriam de devolver…]

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A Revolução Burguesa no Brasil

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Gabriel Cohn, no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), resenha o livro clássico da Sociologia brasileira, A Revolução Burguesa no Brasil, de autoria de Florestan Fernandes.

Este livro, publicado em 1974 (ano em que me graduei em Economia), em plena ditadura militar, foi pouco entendido por causa de seu hermetismo teórico-metodológico. “Para o mal (academicismo), para o bem (rigor científico)”, demarca a entrada no debate político brasileiro da casta de sábios-universitários, isto é, docentes de um Ensino Superior um pouco mais massificado em comparação com a elite formada outrora.

Em 1941, Florestan ingressou na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, formando-se em Ciências Sociais. Iniciou sua carreira docente em 1945, como assistente do professor Fernando de Azevedo, na cadeira de Sociologia II. Na Escola Livre de Sociologia e Política, obteve o título de mestre com a dissertação “A organização social dos Tupinambá“. Em 1951, defendeu, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, a tese de doutoramento “A função social da guerra na sociedade tupinambá”, posteriormente consagrado como clássico da etnologia brasileira, que explora o método funcionalista. Uma linha de trabalho característica de Florestan nos anos 50 foi o estudo das perspectivas teórico-metodológicas da Sociologia.

Durante o período, foi Assistente Catedrático, Livre Docente e Professor Titular na cadeira de Sociologia, substituindo o sociólogo e professor francês Roger Bastide em caráter interino até 1964, ano em que se efetivou na cátedra, com a tese “A integração do negro na sociedade de classes“. Como o título da obra permite entrever, o período caracteriza-se pelo estudo da inserção da sociedade nacional na civilização moderna, em um programa de pesquisa voltado para o desenvolvimento de uma Sociologia brasileira.

Em 1986, foi eleito deputado constituinte pelo Partido dos Trabalhadores, tendo atuação destacada em discussões nos debates sobre a educação pública e gratuita. Em 1990, foi reeleito para a Câmara. Continue reading “A Revolução Burguesa no Brasil”

Música Popular Brasileira sobre Economia

Será inédito (e original) no Curso de Economia no Cinema – Cidadania & Cultura Brasileira, escrever um trabalho sobre Economia inspirado pela leitura da trilogia de Franklin Martins: Quem Foi Que Inventou o Brasil? A música popular conta a história da República. Vol. I – de 1902 a 1964. Vol. II – de 1964 a 1985. Vol. III – de 1985 a 2002. RJ, Nova Fronteira, 2015.

Visite o site: http://quemfoiqueinventouobrasil.com/. Soma-se a essa inspiração a audição do playlist do Spotify (12142604272), Economia em Letras de Música, com músicas populares brasileiras que reportam à economia. Foram selecionadas por mim.

Segundo Martins, “não há fato relevante da política brasileira, no século XX, que nãotenha provocado a criatividade de nossos compositores e que não tenha sido cantado pelo povo, em uma resposta quase simultânea aos acontecimentos. As pouquíssimas exceções a essa regra deram-se em períodos de ditaduras ou em conjunturas nas quais os fatos políticos desenrolaram-se com rapidez tão vertiginosa que, em pouco tempo, acabaram sendo superados por novos desdobramentos, ainda mais significativos”.

Encontra-se letras de músicas com temas econômicos em quase todos os gêneros cantados pelo povo brasileiro. Entre outros, dos sambas à bossa-nova, das cançonetas às músicas de protestos, dos baiões aos rocks, dos repentes aos raps, dos frevos aos funks, todas as variantes abrigadas na chamada MPB (Música Popular Brasileira) podem ser pesquisadas.

Além de análise por gêneros musicais, cabe classificar os temas econômicos abordados que forneceram inspiração aos compositores. Eles estiveram atentos aos principais eventos macroeconômicos ou expressaram apenas os fenômenos microeconômicos? Continue reading “Música Popular Brasileira sobre Economia”

Conciliação e Reforma no Brasil

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Alberto da Costa e Silva, no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), resenha o livro clássico da historiografia brasileira, Conciliação e Reforma no Brasil, de autoria de José Honório Rodrigues.

Ele expõe uma tese para a qual o conduziram todas as suas experiências de historiador que meditou sobre o passado com liberdade, imaginação e sentimento do presente. Suas escavações no passado revela-nos o segredo de como fizemos e continuamos a fazer nossa história. A chave para entender-nos é a conciliação.

Entre os que se foram tornando o povo brasileiro – os índios convertidos e os selvagens, os negros escravos, libertos, africanos e crioulos, os brancos reinóis e os mazombos, os mamelucos, os mulatos e os cafuzos, tão diversos entre si, tantas vezes conflitantes e na aparência irredutíveis –, venceram os conciliadores sobre a violência dos intransigentes. Foi um processo em que não faltaram os pelourinhos, quilombos, motins, revoltas, repressões sangrentas, fuzilamentos, enforcamentos, esquartejamentos, guerras e mais guerras, mas no qual, se foi importante, nos momentos em prevaleceram, o papel das elites conciliadoras, muito mais decisivo foi o das maiorias que se miscigenavam, “os indígenas vencidos, os negros cativos, os mestiços de todas as cores”.

A essa conciliação efetuada no seio do povo devemos o fato de ter o Brasil, desde cedo, deixado de ser “uma caricatura de Portugal” nos trópicos, e possuir um substrato novo, “apesar do europeísmo e lusitanismo vitorioso e dominante na aparência das formas sociais”. Continue reading “Conciliação e Reforma no Brasil”

Justificativa Oficiosa do Governo Golpista sobre a Disparatada Taxa de Juros

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Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação do jornal Valor. Em sua coluna (Valor, 10/02/17) atuou como “porta-voz oficiosa” ao retransmitir o recado em off de “economista do governo (golpista)” aos debatedores sobre a taxa de juros disparatada no Brasil. Reproduzo a mensagem oficiosa abaixo: quando não tem nenhum resultado presente positivo, ele culpa o passado. Antes, é bom lembrar que a taxa de inflação ficou abaixo do teto da meta anual de 6,50% por 10 anos na Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014).

Metas de Inflação 1999-2013

“No início do regime de metas para a inflação, em 1999, foi traçado um cronograma de rápida redução da meta, que partia de 8% para chegar em 3,25% em 2003. Não deu. As eleições de 2002 geraram muita tensão, forte desvalorização da taxa de câmbio e elevação da inflação. O BC optou por operar com meta ajustada e subiu a taxa básica de juros (Selic) de 18% ao ano para 26,50% ao ano entre outubro de 2002 e fevereiro de 2003, para conter a escalada dos preços. O IPCA encerrou o último ano de FHC na Presidência em 12,53% e caiu para 9,30% no primeiro ano do mandato de Lula.

A gestão da política monetária e certo rigor no trato das contas públicas levaram a inflação para 3,14% em 2006, a menor taxa durante o regime de metas. No ano seguinte, porém, o governo jogou fora um bilhete premiado, ao não aproveitar as expectativas de inflação de 3,6% para 2007 e de 3,99% para 2008, para reduzir a meta de 2009. Ainda assim a inflação ficou abaixo da meta em 2007 e em 2009. Nos cinco anos do governo Dilma, o IPCA subiu, distanciando-se dos 4,5%. Nesse período os juros caíram para 7,25% ao ano.

Em abril de 2013, o BC iniciou uma trajetória de aperto monetário que só terminou com a taxa em 14,25% em julho de 2015, onde permaneceu até outubro de 2016, quando a inflação começou a dar trégua. O IPCA, que em setembro acumulava alta de 8,48%, encerrou 2016 em 6,29%. O preço da desinflação foi a recessão, agravada pelas tremendas incertezas políticas e econômicas do período. O IPCA de 3% é o objetivo de longo prazo do BC, ainda distante do horizonte visível das metas de inflação, que agora decidirá sobre 2019.

A possibilidade de o governo [golpista] de Temer retomar a redução da meta, abandonada desde 2005, seria a prova efetiva de que juros altos derrubam a inflação. Será?

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