André Lara Resende: Brasil de Hoje e o Conservadorismo Vitoriano

André Lara Resende (Valor-Eu&Fim-de-Semana, 21/06/19) publica mais um artigo inspirado em literatura heterodoxa. Antes tarde em vez de nunca. Encontra-se uma leitura dessa literatura sobre a Teoria Monetária na minha tese de Livre-Docência: Fernando Nogueira da Costa – Por Uma Teoria Alternativa da Moeda – Tese de Livre Docência (1994)

But, soon or late, it is ideas, not vested interests, which are dangerous for good or evil”

J.M. Keynes

1. Sugestão controversa

“A economia não dá sinais de que sairá tão cedo do atoleiro em que se encontra. Há consenso de que as finanças públicas estão em frangalhos. Embora o diagnóstico seja praticamente consensual, há discordância quanto à melhor forma de enfrentar o problema e repor a economia nos trilhos.

Em uma série de artigos recentes, sustento que a opção por equilibrar o orçamento a curto prazo é um equívoco. Em conjunto com uma reforma que garantisse o reequilíbrio a longo prazo da Previdência, deveria-se organizar:

  1. um ambicioso programa de investimentos públicos de infraestrutura e
  2. uma revisão simplificadora da estrutura fiscal para estimular o investimento privado.

Para isso, seria preciso:

  1. abandonar o objetivo de equilibrar imediatamente as contas e
  2. aceitar o aumento da dívida por mais alguns anos enquanto a economia se recupera.

Provoquei indignação ao sugerir que tentar o equilíbrio orçamentário no curto prazo é contraproducente, pois:

  1. agravará a recessão e
  2. poderá levar ao aumento da relação entre a dívida e o produto interno.

A visão dominante entre os analistas financeiros é que o governo não tem como manter as suas despesas, pois as fontes de financiamento, seja através dos impostos, seja do endividamento, se esgotaram. Seria imperioso equilibrar o quanto antes o orçamento e reduzir o endividamento, sob risco de asfixiar os investimentos privados e levar a economia ao colapso.

O argumento é duplamente falacioso.

  • Primeiro, porque desconsidera o fato de que a União, como todo governo que tem uma moeda fiduciária, não tem restrição financeira.
  • Segundo, porque pressupõe que a economia esteja próxima do pleno emprego. Continuar a ler

Falta Esgoto, Água e Gás Encanado no País: Está um Lixo!

Bruno Villas Bôas e Alessandra Saraiva (Valor, 23/05/19) informam: mesmo ainda distante da universalização, o saneamento básico ficou estagnado no país no ano passado. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua divulgados pelo IBGE mostram que 72,4 milhões de brasileiros viviam em domicílios sem acesso à rede coletora de esgoto em 2018, resultado pior que no ano anterior (72,1 milhões). É uma população da França.

De acordo com a pesquisa, 66,3% dos domicílios brasileiros estavam diretamente conectados com a rede geral ou tinham fossa ligada à rede de coleta. No ano anterior, a proporção era de 66% – a diferença, de 0,3 ponto, é considerada estabilidade pelo instituto. A pesquisa não aprofundou, porém, se esse esgoto está sendo mais bem tratado ou se recebia tratamento melhor anteriormente.

A estagnação tem a ver com a falta de investimentos a partir de 2015, com a volta da Velha Matriz Neoliberal, quando a crise econômica começou. O setor depende de recursos públicos para expandir e o que vimos foi a falta de capacidade de investimento dos Estados. Eles tiveram perdas de receita e estão sem espaço de endividamento.

Além da estagnação no acesso à rede de esgoto, o levantamento mostra que a coleta de lixo não avançou. Cerca de 20 milhões de pessoas – 9,7% da população brasileira – viviam em residências sem serviço de coleta de lixo, estável na comparação ao ano anterior. Já a proporção de lares com água pela rede geral de distribuição está em 88,3%, mesmo nível do ano anterior. Continuar a ler

Crise Profissional na Meia-idade

Emma Jacobs (Valor, 25/02/19) escreveu reportagem sobre a crise profissional na meia-idade.

Jane Lockwood teve uma pequena epifania no ano passado. Ela percebeu que sua idade – 54 – afetou sua autoconfiança profissional. “Tendo a ser menos confiante quanto a promoções… Eu me limitei e comecei a pensar que as promoções são apenas para jovens. Sempre pensei em subir na carreira, mas perdi essa aspiração.”

A revelação dessa gerente de operações foi feita durante um check-up de
carreira organizado por seu empregador, a companhia de seguros Aviva. O
evento foi parte de um projeto piloto para 100 funcionários com mais de 45 anos que cobriu três áreas: carreira, bem-estar e finanças. Após o elevado nível de participação, a companhia decidiu que este ano vai ampliá-lo para todos os funcionários com mais de 45 anos.

Programas parecidos, ao lado de inciativas como coaching e períodos sabáticos, podem ajudar os trabalhadores a fazer um balanço e planejar suas carreiras. A maior longevidade e os déficits previdenciários indicam que muitos vão trabalhar por mais tempo e se aposentar mais tarde.

Os trabalhadores na meia-idade se sentem espremidos entre a vida profissional e a vida familiar. Iniciativas voltadas para aqueles que estão na faixa dos 40 e dos 50 podem ajudar a energizar os que se sentem pouco valorizados em uma cultura que privilegia os mais jovens e baratos. Essa atitude foi resumida de maneira memorável na afirmação de Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook, de que “os jovens são simplesmente mais espertos”.

Para as empresas, o benefício é a conservação de habilidades importantes e conhecimento. A Aviva, por exemplo, vai monitorar a retenção entre os que têm mais de 45 anos quando o programa for lançado. Jonathan Rauch, autor do livro “The Happiness Curve: Why Life Gets Better After Midlife” (“A curva da felicidade: Por que a vida melhora após a meia- idade”), diz que tradicionalmente a meia-idade é um período negligenciado. Continuar a ler

Cuidados com Idosos: Problema de Finanças Públicas e Pessoais

Damien Ng (Valor, 24/05/19) analisa o envelhecimento populacional. O mundo está à beira de uma transformação demográfica verdadeiramente notável. Pela primeira vez na história humana, espera-se que o número de pessoas com 60 anos ou mais ultrapasse o de crianças com menos de 10 anos, até 2030.

Havia cerca de 962 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2017 em todo o mundo, mais que o dobro de 1980 (382 milhões). Este número, de acordo com o Relatório sobre o Envelhecimento Populacional das Nações Unidas 2017, deverá crescer para quase 1,41 bilhão até 2030 e para cerca de 2,1 bilhões até 2050. Em comparação, a fatia de pessoas com mais de 80 anos deve crescer ainda mais rapidamente, de 137 milhões para 425 milhões em 2050, um aumento de três vezes.

Esse crescimento é resultado principalmente de quatro fatores:

  1. taxas de fertilidade mais baixas,
  2. queda na taxa de mortalidade em todas as faixas etárias,
  3. melhores tratamentos médicos e
  4. mudanças no estilo de vida e dieta. Continuar a ler

Características Gerais dos Moradores no Brasil – 2018

Bruno Villas Bôas e Alessandra Saraiva (Valor, 23/05/19) informam: a população brasileira com 65 anos ou mais cresceu 26% de 2012 a 2018, ao passo que a população de até 13 anos recuou 6%, mostram dados da pesquisa “Características Gerais dos Domicílios e dos Moradores 2018“, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A população residente no Brasil no ano passado foi estimada em 207,8 milhões de pessoas, 5,1% a mais do que em 2012. As pessoas com 65 anos ou mais de idade representavam 10,5% desse total, o correspondente a 21,9 milhões de pessoas. A parcela de crianças era 18,6% do total, o equivalente a 38,6 milhões de pessoas. isso.

Apesar de o contingente de crianças permanecer muito superior ao de idosos, o envelhecimento da população reforça a necessidade de políticas voltadas aos idosos. É preciso observar se o Estado e a sociedade estão se preparando.

O mudança do perfil demográfico também reforça a importância da reforma da Previdência. Com o declínio da população em idade ativa, a tendência é de menor número de contribuintes para sustentar os benefícios dos aposentados. Vai precisar aumentar a produtividade desses jovens para compensar.

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Envelhecimento da População Asiática, exceto na Índia e Indonésia

Mitsuru Obe (Valor, 16/04/19) informa: o século asiático será grisalho. Do Japão à Coreia do Sul, da China a alguns países do sudeste asiático, o envelhecimento das populações está prestes a provocar transformações profundas nas sociedades, nas políticas governamentais e nas estratégias empresariais. A tendência também pode inclinar a balança de equilíbrio do poder mundial e regional, pois alguns países estão estagnados, enquanto outros continuam a crescer graças à mão de obra ainda abundante.

A ameaça do envelhecimento tem sido discutida há anos, mas sinais recentes indicam que os piores temores da região começam a se tornar realidade.

“Quero um filho”, disse uma mulher sul-coreana, casada, na faixa dos 30 anos. “Mas ainda não temos uma casa e, quando pensamos no dinheiro, nos sentimos incapazes de mergulhar nisso.”

Muitos sul-coreanos pensam parecido e evitam ter filhos. A população economicamente ativa, que vai dos 15 aos 64 anos, caiu pela primeira vez em 2017 no país. Agora, também se prevê queda na população total, talvez já a partir de 2020, segundo alerta da agência de estatística do país de março.

Em 2065, Coreia do Sul deverá se tornar o país desenvolvido com a população mais idosa.

Na China, o governo abandonou a política do filho único em 2016, mas parece ter sido muito pouco e tarde demais. A taxa de nascimentos continuou caindo.

O número de chineses com idade entre 16 e 59 começou a cair em 2014, segundo a ONU. Em 2018, pela primeira vez essa faixa ficou abaixo de 900 milhões de pessoas. Para piorar esse cenário, a taxa de casamentos na China caiu pelo quarto ano seguido em 2017.

Cada vez mais, as empresas precisam pensar em como atender uma nação de solteiros. Em 2018, o site de comércio eletrônico Tmal, do Alibaba, constatou que seus produtos mais vendidos eram destinados para uma pessoa, como garrafas de vinho tinto de 200 ml e pacotes de arroz de 100 gramas.

O Japão está à frente nesse processo. Sua população entre 15 e 65 anos começou a cair em 1995, na mesma época em que o país entrava nas “décadas perdidas” de deflação e estagnação. A população total está em queda desde 2008.

As projeções de longo prazo para os três países são ainda mais sombrias: de 2020 a 2060, a população economicamente ativa (PEA) deverá encolher 30% no Japão, 26% na Coreia do Sul e 19% na China, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Essas estimativas se baseiam numa faixa etária ainda mais ampla, dos 15 aos 74 anos.

Os aposentados com 65 anos ou mais deverão ser mais de 30% das populações desses países em 2060. Hong Kong, Cingapura e Tailândia devem seguir trajetória similar. Continuar a ler

Metodologia Finlandesa de Ensino Superior

Stela Campos (Valor, 27/06/19) apresenta a proposta do curso de especialização “Ensino e Aprendizagem na Educação Superior”, programa da Universidade da Finlândia realizado em parceria com o Instituto Ânima: ensinar os professores brasileiros de cursos superiores a desenvolver metodologias próprias de ensino baseadas na experiência de seus pares da Finlândia –– referência mundial na área educacional.

O programa começa em setembro de 2019, com a primeira etapa on-line e a etapa presencial será ministrada na Universidade Judas Tadeu (USJT), em São Paulo e na UniBH, em Belo Horizonte. Ele será em português e terá o corpo docente formado por professores brasileiros treinados na Finlândia e por finlandeses, que serão responsáveis por dois módulos presenciais do curso, que soma 360 horas de aulas. Os participantes receberão dupla titulação pela USJT e pela Universidade de Tampere, na Finlândia.

A maior diferença entre a forma de ensinar na Finlândia e no Brasil é que no país nórdico os docentes têm muito mais flexibilidade para pensar pedagogicamente, segundo Kaisu Malkki, PhD e professora da Universidade de Tampere. Aqui os professores preparam alunos para provas porque as instituições [privadas] de ensino querem isso. Os finlandeses pensam em uma avaliação de modo a dar suporte a um aprendizado mais profundo e útil para a vida prática no trabalho.

Os números do ensino na Finlândia impressionam. O país tem 5,5 milhões de habitantes, onde 99% dos jovens concluem o ensino médio, maior índice do mundo. No teste educacional da OCDE, o Pisa, que avalia a competência de jovens de 15 anos em matemática, leitura e ciências, há anos os finlandeses figuram nas primeiras colocações. Este é um indicador de que o trabalho inovador dos professores tem surtido efeito. Até para dar aulas no ensino básico os professores precisam ter feito um mestrado,.

A ideia do programa não é apresentar teoricamente como se ensina na Finlândia, mas ajudar os brasileiros a desenvolverem as próprias práticas. A base do ensino finlandês está nas vivências em grupo, em trabalhos por projeto e no contato mais direto com os alunos.

Se estiverem em um ambiente estressante, muito hierárquico, em que precisam ser perfeitos o tempo todo, os estudantes não se desenvolvem. Eles precisam relaxar enquanto aprendem. Não significa eles poderem fazer o que bem entenderem, mas terem responsabilidade sobre o próprio aprendizado. Isto é significativo e respeitoso.

Um diferencial dos finlandeses em sala de aula é eles não cobrarem nem desconfiarem do aluno. Não existem provas ou notas mas “avaliações formativas e longitudinais”. A aprendizagem acompanha o ritmo de cada um. Cerca de 79 professores do instituto fizeram uma versão compacta desse curso, com 270 horas, em inglês.