Brasil: Paciente em Estado de Negação

Amália Safatle (Valor, 21/05/21) escreveu reportagem com certa repercussão. O Brasil já nutria uma péssima autoimagem, que agora está evoluindo para um comportamento autodestrutivo.

Fosse o Brasil uma pessoa, dificilmente se levantaria do berço esplêndido para se deitar em um divã. É preciso admitir a existência de problemas para buscar um tratamento psicanalítico, mas esse sujeito se encontra em estado de negação. O negacionismo, palavra tão em voga, decorre da tentativa de fugir do trauma, um núcleo perturbador, constitutivo do sujeito, que portanto todo mundo tem, em maior ou menor grau. Mas, em vez de atravessar seu trauma, essa pessoa prefere contornar o sofrimento e optar por ideias exógenas, que lhe são mais convenientes.

Essa saída cobra seu preço. O sujeito age como um adolescente, embora já esteja envelhecendo, tendo acumulado questões não resolvidas de um passado doloroso, marcado por violência, autoritarismo e desilusões em série. A idade adulta chegou da pior forma, tornando esse indivíduo melancólico ou até mesmo depressivo. Mas há caminhos de cura – se o paciente aceitar ajuda terapêutica.

Este é um conjunto de visões descritas por psicanalistas convidados pelo Valor a imaginar um certo paciente Brasil, seus traços de personalidade, dores e crises. O exercício de imaginação foi encarado como um jogo por alguns, como Ricardo Goldenberg. Outros, como Sérgio de Castro, membro da Escola Brasileira de Psicanálise, viram como válida a extensão da psicologia individual para uma dimensão social.

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Raio-X do Investidor: 2017-2020

Os depósitos de poupança, com mais de R$ 1 trilhão, ainda são a preferência nacional, mas cada vez mais o brasileiro mostra conhecer e utilizar outros produtos financeiros. Ações, títulos privados e fundos ganharam participação nas carteiras ao longo de 2020, enquanto a caderneta perdeu espaço nas menções pela primeira vez em quatro anos, segundo a pesquisa “Raio-X do Investidor Brasileiro”, da Associação Nacional das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

No levantamento, em parceria com o Datafolha, foram ouvidas 3.408 pessoas das classes A, B e C em todo o país, que fazem parte da população economicamente ativa, a partir dos 16 anos – representando 103 milhões de brasileiros. A coleta foi realizada entre 17 de novembro e 17 de dezembro de 2020.

Embora olhe pelo retrovisor, a pesquisa dá pistas sobre o comportamento do investidor adiante: o foco no retorno, intenções de consumo e pouca inclinação a pensar em reservas para a aposentadoria. O aconselhamento financeiro presencial também segue entre as preferências, apesar de todo avanço digital.

Dentre os brasileiros que conseguiram fazer alguma reserva em 2020, 53% colocaram o dinheiro em produtos financeiros, 11 pontos percentuais a mais do que se viu no mapeamento anterior. Pela primeira vez, esse conjunto ultrapassa a soma de todos os outros destinos dados para as economias, abrangendo uma população estimada em 20 milhões de brasileiros.

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Modelo dos Ciclos de Vida Financeira

Fernando Torres (Valor, 27/05/21) entrou em crise de meia-idade.

Quem tem 40 está longe de ser velho, mas é inevitável o início dos “enta” nos forçar a uma reflexão sobre o que fizemos de bom (ou mau), o que ainda queremos fazer e o que já não poderemos fazer.

Essa reflexão perpassa diferentes aspectos da vida, claro, e, felizmente, minha percepção geral é positiva em relação a todos eles.

Não que a vida tenha sido apenas um mar de rosas até aqui. Mas os aspectos positivos seguramente são preponderantes, sendo o ponto mais alto, sem dúvida nenhuma, a alegria de ser pai do Dudu. E até mesmo os pontos negativos foram ou estão sendo superados da melhor maneira que eu poderia imaginar. E isso graças ao apoio e companhia de familiares (naturais ou agregados) e amigos incríveis que tenho a sorte de ter. Obrigado a todos e todas.

Mas sei que a vida pessoal dos jornalistas não é de tamanho interesse para os assinantes do Valor e leitores do Valor Investe. O que eu quero, na verdade, é me valer deste gancho para tratar de dois temas ligados a investimentos e educação financeira.

O primeiro deles é bem geral. “Ainda dá para começar a investir aos 40?”

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Conduzir para não ser Conduzido

Para dar fundamentos à minha crítica da literatura de denúncia da “financeirização”, reuni uma coletânea de estudos sobre Finanças em um livro digital, cujo título é o deste artigo. Aqui, desejo analisar por qual razão misteriosa essa ideia me ocorre quando leio essa denúncia, recorrentemente realizada por meus companheiros esquerdistas. 

Non Ducor Duco é uma expressão em latim com significado de “não sou conduzido, conduzo”. O lema está presente no brasão da cidade de São Paulo.

Penso: é necessária a Educação Financeira para entender – e usar em próprio proveito – esse fenômeno típico de uma fase do ciclo de endividamento, quando a taxa de acumulação de riqueza financeira se descola da taxa de crescimento da renda. Em geral, ocorre durante a fase de desalavancagem financeira, depois de uma expansão-boom-crash-depressão. 

Passada aquela, estamos vivenciando a fase de “empurrar corda”, quando a política monetária fica inoperante. Quando o investimento público produtivo arrastar os gastos privados, virá a normalização. Conduziremos em vez de sermos conduzidos

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Curto-Circuito: em 2001, o Brasil quase ficou às escuras e ameaça ficar brevemente

Curto-circuito – quando o Brasil quase ficou às escuras

Roberto Rockmann e Lúcio Mattos 368 págs. R$ 64,90

Eduardo Belo (Valor, 21/05/21) lembra: em 1999, o governo de Fernando Henrique Cardoso preparava uma cartada decisiva para levar adiante o processo de privatização do setor elétrico, na esteira do relativo sucesso da desestatização das telecomunicações, no ano anterior. Mas encontrou resistência dentro de casa.

O vice-presidente Marco Maciel era contra a venda da Chesf nos mesmos parâmetros das demais empresas. Para Maciel, por sua relevância na gestão de recursos hídricos do rio São Francisco, o maior e mais importante para abastecimento do Nordeste, a Companhia Energética do São Francisco deveria seguir um caminho próprio, que levasse em conta o impacto da empresa na vida e na economia da região.

Sem jamais expor publicamente sua posição, Maciel se movia nos bastidores para impedir que a venda da empresa para o setor privado prosperasse. A Chesf nunca foi vendida, e até hoje o sistema Eletrobras continua nas mãos do governo, que ainda procura meios de passá-lo adiante.

O modo como o vice atuou para barrar a privatização da Chesf é uma das histórias até agora inéditas que os jornalistas Roberto Rockmann e Lúcio Mattos trazem em “Curto-circuito – quando o Brasil quase ficou às escuras”.

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Debêntures e Fundos de Crédito Privado: Mercado de Capitais Natimorto X Desintermediação Bancária + BNDES

Ana Paula Ragazzi (Valor, 24/05/21) informa: a indústria independente de fundos de crédito privado registrou em abril captação expressiva de recursos pela primeira vez desde agosto de 2019. Conforme dados da Quantum Finance, a entrada líquida de recursos nesses produtos foi de R$ 3,1 bilhões – a amostra leva em consideração carteiras com o mínimo de 50% do patrimônio líquido em ativos de crédito privado. Se forem considerados novos fundos criados ao longo do período, o montante sobe para R$ 4 bilhões.

A retomada da atratividade pode ser explicada pela alta da taxa básica de juros e também pelo desempenho passado.

Desde agosto de 2019, o patrimônio desse segmento caiu 43%, para R$ 161 bilhões. Nesse intervalo, a indústria conviveu com duas grandes crises, potencializadas pela captação acelerada em fundos que ofereciam liquidez diária, apesar de investirem em debêntures, papéis pouco líquidos.

Primeiro, a demanda em excesso acabou barateando o custo de captação para as empresas com as melhores notas de crédito (“high grade”) até o momento em que os spreads caíram tanto que, do ponto de vista do investidor, o produto deixou de fazer sentido. Assim, no segundo semestre de 2019, veio a primeira onda de resgates.

A segunda, igualmente relevante, foi no início da pandemia e deixou o mercado disfuncional: gestores venderam papéis a qualquer preço para honrar compromissos com os cotistas e isso acabou afetando toda a cadeia de crédito.

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Alta da Inflação e dos Juros provoca Fuga da Renda Variável

Olívia Bulla (Valor, 24/05/21) informa: investidores pessoa física retiraram R$ 2,7 bilhões da bolsa em cinco pregões, enquanto estrangeiros ingressaram com R$ 4 bilhões no período, resgatando uma narrativa em relação à renda variável esquecida.

O fluxo chama a atenção quando o Banco Central sinaliza (BC) a taxa básica de juros dever continuar subindo. Ainda é cedo para avaliar se a alta da Selic – em 3,5% e podendo superar os 5,5% no fim do ano, segundo economistas – vai alterar a migração do investidor pessoa física para a renda variável. Mas, sem dúvida, o ciclo de aumento dos juros básicos no país e, mais adiante, nos Estados Unidos, são fatores que colocarão esse apetite à prova.

No mercado doméstico, é conhecida a cultura de que o investidor local é historicamente “rentista”, mas migrou recursos da renda fixa para a variável quando o rendimento pago pelos títulos públicos perdeu atratividade. Muito do dinheiro da bolsa é de gente sem alternativa de investimento.

Tal movimento ganhou força à medida que a Selic foi caindo, passando a entregar juros reais negativos (taxa nominal descontada a inflação pelo IPCA projetada em 12 meses). Agora, com os juros subindo, esse pessoal volta para a renda fixa ou gostou da variável?

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Contaminação da Irresponsabilidade Individual e Social: Contágio em Aglomerações Bolsonaristas

Ricardo Mendonça (Valor, 24/05/21) informa: existe uma correlação entre bolsonarismo e casos de covid-19 no Brasil. No conjunto dos 5.570 municípios brasileiros, quanto maior o percentual de votos obtido pelo presidente Jair Bolsonaro em 2018, maior é a taxa de contaminação pelo coronavírus. Quanto menor a adesão a extrema-direita teve, menos frequentes são os casos de covid-19.

Os dados sugerem o discurso negacionista de Bolsonaro influenciar mais intensamente seus eleitores e ampliar os danos.

Em confronto com as principais evidências e recomendações científicas, o boçal tem desprezado orientações para uso de máscara e medidas de isolamento social, promovido aglomerações, propagandeado medicamentos sem eficácia, desqualificado especialistas, minimizado a gravidade da doença e posto em dúvida a qualidade de vacinas.

O presidente genocida, em um passeio de moto no Rio, voltou a gerar aglomeração e a criticar medidas restritivas. Estava sem máscara.

Nos 215 municípios em que Bolsonaro teve mais de 80% dos votos válidos no segundo turno 2018, a taxa de contaminação pelo coronavírus supera 10.400 casos por 100 mil habitantes. Nesse conjunto de municípios moram 8,9 milhões de pessoas. Em São Martinho (SC) a contaminação chegou a 22.579 por 100 mil.

Se esse apanhado de municípios fosse um país, essa nação apareceria hoje na oitava posição do ranking dos locais mais perigosos do mundo para covid-19, atrás apenas de um grupo de principados e pequenas repúblicas com taxas extraordinariamente altas de transmissão, como Andorra e Montenegro.

Já nos 108 municípios onde o presidente teve menos de 10% dos votos válidos no segundo turno de 2018, a taxa é de 3.781 casos por 100 mil habitantes. Essa “nação oposicionista” apareceria no 79o lugar do ranking internacional da covid- 19, próxima do padrão de países como Grécia e Canadá.

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Luto da Nação e Comemoração do Genocida

João Luiz Rosa (Valor, 20/05/21) avalia: com mais de 440 mil brasileiros mortos pela covid-19 desde o início da pandemia, não são apenas as famílias das vítimas que precisam enterrar seus mortos. O Brasil também deve contar as perdas simbólicas e viver o luto, diz o psiquiatra e psicanalista Mario Eduardo Costa Pereira, professor livre-docente de psicopatologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Precisamos fazer o luto de tudo que aconteceu no país: de como encaramos a pandemia, de nossa atitude mental e de solidariedade, de nossa postura científica, política.”

O processo de luto não é apenas individual, explica Pereira. “Existe o luto coletivo. E esses são momentos potencialmente importantes para a história de uma nação”. O passo mais importante é reconhecer as perdas. É só depois disso que se abre a possibilidade – para o indivíduo ou sociedade – de avançar e alcançar novos patamares. “Ao assimilar o que perdeu, você pode repatriar o que estava colocado naqueles objetos e trazer tudo novamente para dentro [de si]. É um resgate da energia mental a ser reinvestida em novas maneiras. Mas antes é preciso encarar a perda, fazer um balanço do que aconteceu, no que acertamos, no que erramos gravemente.”

Mesmo em relação a companheiros dos Brics, cujo cenário econômico e social é mais parecido com o brasileiro, a comparação é bastante desfavorável: na Índia, por exemplo, a média foi de 2,97 no mesmo período.

Esses números vêm se traduzindo, nos últimos meses, em cenas que os brasileiros assistem estarrecidos da sala de casa. São imagens de doentes morrendo por falta de oxigênio, cemitérios abrindo covas às pressas e familiares que não conseguem se despedir das vítimas. O que antes parecia distante, tornou-se próximo. “É difícil, hoje, encontrar uma família que não tenha alguém que ficou gravemente ferido ou morreu. Não é só um número vazio, de estatística”, diz Pereira. “Estamos em um momento de impacto, de trauma.”

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Crítica à Ideia de “Financeirização”

A “financeirização” é definida, por autores denunciantes do pressuposto fenômeno, como “um padrão sistêmico de acumulação de riqueza, correspondente a uma certa etapa histórica do capitalismo”. Nela, o capital financeiro constitui a forma de capital preponderante, exercendo dominância financeira sobre as variáveis econômicas.

Pressuposto é o que se supõe antecipadamente. É aquilo imaginado ou pensado sobre determinada situação antes de ter conhecimento profundo sobre ela. Não pode ser apresentado como indiscutível para o ouvinte, não permitindo contestações ao falante.

A “financeirização” é uma ideia possível de ser presumida, mas não é verdadeira. Sempre a lógica financeira racionalizou todas as decisões econômicas porque levam em conta o custo de oportunidade: o deixado de ganhar ao optar por um em lugar de outro.

Ou trazer a valor presente os estimados fluxos de renda futuros de investimentos alternativos para decidir por qual deles optar. Ou diversificar as formas de manutenção de riqueza em ativos para compensar eventuais perdas com ganho. Ou acompanhar um valor médio ponderado de mercado ao invés de tentar superá-lo sistematicamente.

Todas essas ideias brotam de uma racionalidade econômico-financeira. Mas as Finanças Comportamentais demonstram elas nem sempre serem usadas em situações de stress emocional em tomadas de decisões.

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População Subutilizada: 33,2 milhões de pessoas!

taxa de desocupação (14,7%) do trimestre móvel de janeiro a março de 2021 foi recorde da série histórica, iniciada em 2012, com alta de 0,8 pontos percentuais (p.p.) frente ao trimestre de outubro a dezembro de 2020 e alta de 2,5 p.p. ante ao mesmo trimestre de 2020.

Indicador/PeríodoJan-Fev-Mar 2021Out-Nov-Dez 2020Jan-Fev-Mar 2020
Taxa de desocupação14,7%13,9%12,2%
Taxa de subutilização29,7%28,7%24,4%
Rendimento real habitual R$ 2.544R$ 2.566R$ 2.524
Variação do rendimento real habitual em relação a:-0,9 (estável)0,8 (estável)

população desocupada (14,8 milhões de pessoas) também é recorde da série histórica, crescendo 6,3% (mais 880 mil pessoas desocupadas) ante o trimestre de outubro a dezembro de 2020 (13,9 milhões de pessoas) e subindo 15,2% (mais 1,956 milhão de pessoas) frente ao mesmo trimestre móvel do ano anterior (12,9 milhões de pessoas).

população ocupada (85,7 milhões de pessoas) ficou estável em relação ao trimestre móvel anterior e caiu 7,1%, (menos 6,6 milhões de pessoas) frente ao mesmo trimestre de 2020.

nível da ocupação (percentual de pessoas ocupadas na população em idade de trabalhar) chegou a 48,4%, caindo 0,5 p.p. frente ao trimestre móvel de outubro a dezembro (48,9%) e recuando 5,1 p.p. em relação a igual trimestre de 2020 (53,5%).

taxa composta de subutilização (29,7%) subiu 0,9 p.p. frente ao trimestre móvel anterior (28,7%) e subiu 5,3 p.p. frente ao mesmo trimestre de 2020 (24,4%).

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Herança Maldita do Bolsonarismo

Fernando Canzian (FSP, 22/05/21) informa: pesar da recuperação prevista para 2021 e 2022, o mercado de trabalho na baixa renda deve manter tendência da última década de crescente informalidade.

Segundo especialistas, essa será uma das principais travas à aceleração do crescimento e para o resgate de milhões de brasileiros que se tornaram miseráveis na pandemia.

Na década passada, o Brasil teve o pior desempenho dos últimos 120 anos, empurrando os menos qualificados para a informalidade —área da economia que paga, produz e cresce menos, comprometendo sua evolução média.

Na pandemia, mesmo o trabalho informal foi dizimado pela paralisia do setor de serviços, responsável por 70% do PIB (Produto Interno Bruto) e dos empregos, metade deles fora da formalidade.

As principais ocupações desse segmento (trabalhadores domésticos e empregados do setor privado sem carteira, conta própria sem CNPJ, entre outros) perderam até 20% das vagas.

Já os menos instruídos, majoritariamente informais e que não chegaram a completar o ensino médio, viram até 17% da renda desaparecer, segundo o Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) com base em pesquisas do IBGE (Pnad e Pnad-Covid-19).

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