Anedota Pecuniária (por Machado de Assis)

seus-30-melhores-contosMestiço de origem humilde que frequentou apenas a escola primária e foi obrigado a trabalhar desde a infância, Machado de Assis (1839-1908) obteve a consideração social em uma época em que o Brasil era ainda uma monarquia escravocrata. Autodidata que se formou na biblioteca do Gabinete Português de Leitura, sendo aprendiz de tipógrafo e, depois, revisor, aprendeu tudo sozinho. Precoce — a sua primeira poesia data dos 16 anos —, viu-se consagrado como poeta aos 25 anos com o livro Crisálidas.

Mas o valor do contista e do romancista é mais excepcional que sua poética. É considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos, o mais extraordinário contista do idioma e um dos raros romancistas de interesse universal. Isto é atestado pelas traduções das suas obras mais representativas para os principais idiomas cultos, sem que haja influído nessa preferência a atualidade dos seus livros, mas, sim, a perenidade da sua análise da mentalidade humana.

As Memórias póstumas (1881) e o Dom Casmurro (1900), principalmente, mas também Quincas Borba (1891), Esaú e Jacó (1904), Memorial de Aires (1908) e muitos dos seus contos, incluídos em Papéis avulsos (1882), Histórias sem data (1884), Várias histórias (1896) e Páginas recolhidas (1899), dão-lhe o direito de grande destaque da literatura brasileira.

Uma excelente amostra desse estilo bem-humorado e irônico na crítica de costumes encontra-se na coletânea denominada “Seus trinta melhores contos” de autoria de Machado de Assis (Ed. Especial – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011). Vou reproduzir dois breves contos – relacionados à Economia – para motivar sua indispensável leitura.

O primeiro é o conto “Anedota Pecuniária”, publicado por Machado de Assis, originalmente, na Gazeta de Notícias, 6 de outubro de 1883, isto é, oito anos antes da abolição da escravidão e há nove da Proclamação da República no Brasil das conquistas tardias da cidadania.

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O Retrato de Doria Grey

grafiteiro

Avenida Paulo VI, sem número, Sumaré. Foto por André Deak para o Arte Fora do Museu (http://www.arteforadomuseu.com.br)
Avenida Paulo VI, sem número, Sumaré. Foto por André Deak para o Arte Fora do Museu (http://www.arteforadomuseu.com.br)

grafite-mulher

O Retrato de Dorian Gray ofendeu a sensibilidade moral dos críticos literários britânicos. Alguns dos quais disseram que Oscar Wilde merecia ser acusado de violar as leis que protegiam a moralidade pública.

O novo prefeito de Sampa, o Mauricinho, será doravante conhecido como “Doria Grey“. Falta-lhe, pelo menos, uma pitada de Cultura & Cidadania. Segundo Eliene Percília da Equipe Brasil Escola.com, a arte do grafite é uma forma de manifestação artística em espaços públicos. A definição mais popular diz que o grafite é um tipo de inscrição feita em paredes.

Existem relatos e vestígios dessa arte desde o Império Romano. Seu aparecimento na Idade Contemporânea se deu na década de 1970, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Alguns jovens começaram a deixar suas marcas nas paredes da cidade e, algum tempo depois, essas marcas evoluíram com técnicas e desenhos.

Principais termos e gírias utilizadas nessa arte de rua:

Grafiteiro/writter: o artista que pinta.
• Bite: imitar o estilo de outro grafiteiro.
Crew: é um conjunto de grafiteiros que se reúne para pintar ao mesmo tempo.
Tag: é a assinatura de grafiteiro.
Toy: é o grafiteiro iniciante.
Spot: lugar onde é praticada a arte do grafitismo.

O grafite está ligado diretamente a vários movimentos, em especial à cultura Hip Hop. Para esse movimento social, o grafite é a forma de expressar toda a opressão que a humanidade vive, principalmente os menos favorecidos, ou seja, o grafite reflete a realidade das ruas.

grafite-mulherO grafite foi introduzido no Brasil, no final da década de 1970, em São Paulo. Os brasileiros não se contentaram com o grafite norte-americano, então começaram a incrementar a arte com um toque brasileiro. O estilo do grafite brasileiro é reconhecido entre os melhores de todo o mundo.

grafiteMuitas polêmicas giram em torno desse movimento artístico, pois:

  • do lado “mortadela”, o grafite é apreciado por sua qualidade artística, e
  • do outro lado “coxinha”, não passa de poluição visual e vandalismo.

A elite socioeconômica inculta brasileira resume tudo caracterizado pelo ato de escrever em muros, edifícios, monumentos e vias públicas à pichação ou ao vandalismo. É muito burra! Come angu e arrota peru!

Essa elite burra, tipo o Doria Grey, é descendente daqueles que, no passado, perseguiam sambistas como fossem vagabundos…

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Gregório Duvivier: Emulação de Um Economista de O Mercado

charge-perfil-psicologico-economistaQuerido pessoal de Humanas: a ideia de vocês é ótima. Mas vocês não entendem nada de Economia. Se a gente abolir a escravidão, o país vai quebrar. É claro que a escravidão não é o ideal. O ideal era que todo mundo ganhasse alguma coisa pelo trabalho que faz. Nem que fosse um trocadinho. Mas nem tudo é perfeito. Não existe almoço grátis.

Ninguém estudou a fundo o impacto econômico desse negócio de abolição. Ninguém sentou a bunda na cadeira e fez um “feasibility study“. Esse povo de Humanas nem sabe o que é isso. Ou vai me dizer que alguém escreveu um paper?

Quando você põe a abolição na ponta do lápis, a conta não fecha. De onde é que vai sair o dinheiro pra pagar o escravo? Do bolso do abolicionista é que não é. A resposta você já tem: vai sair do bolso do empresário.

Se o negócio hoje já tá difícil pro jovem empreendedor, imagina se ele tiver que pagar pelo trabalho dos escravos que ele comprou com o suor do próprio rosto! O sujeito vai quebrar. E quem é que se ferra? Só o empresário? Negativo. Quem se ferra é todo mundo. Inclusive o escravo, que agora, além de escravo, vai ser desempregado.

Quer dizer, no caso dele, acho que dá mais ou menos no mesmo. Fora o escravo, que pra ele tanto faz, todo mundo se ferra, porque o investidor vai correr pra um país em que ele não precise pagar pela mão de obra. E o que é que acontece? O país quebra. Fundamentos de Economia, pessoal. Não sou eu quem tá falando. É Adam Smith.

OK. Vocês tinham razão quanto à escravidão. Não quebrou. Mas esse negócio de salário mínimo já é exagero. Coisa de gente que nunca abriu um negócio. A conta não fecha. Sabe o que vai acontecer? O país vai quebrar. O investidor vai preferir os países em que o Estado não se mete no salário do empregado. E o país? Vai quebrar.

Férias remuneradas? A conta não fecha. Décimo terceiro? Vai pra Cuba! PEC das domésticas? Pode declarar bancarrota. Priorizar saúde e educação? Que lindo… Mas sabe o que é lindo também? Pagar as contas. A quem interessa saúde e educação? Ao povo. Muito fácil pensar no povo. Mas e o investidor que chega aqui e vê um país perdulário, que só faz gastar dinheiro com pobre, o que é que eu explico pra ele?

Fonte: FSP, 16/01/2017

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Arte e Ideais de Beleza Feminina ao Longo do Tempo

Elena Rossini apresenta seu curta: I was asked to make a short experimental film for ARTE/the Louvre Museum’s project “4 Semaines” about women and beauty, because of all my work on “The Illusionists.” In the video, I juxtapose the portrayal of women in the arts vs. mass media.

The official page for the video is here:
louvre.arte.tv/2009/12/la-femme-ideale-nexiste-pas/

Tramas da Narrativa

livrosNo livro de Francine Prose, “Para ler como um escritor”, chama a atenção de Ítalo Morriconi a presença do romance no Capítulo 5 (Narração) e no 6 (Personagem). Fazendo uma apreciação sintética das lições que esses capítulos nos passam, constatamos que o elemento central observado é o ponto de vista. Para contar uma história rica de nuances e análises subjacentes, é preciso elaborar o ponto de vista.

Que tipo de olhar vamos lançar sobre o personagem? Que tipo de câmera guiará o olhar do leitor, aproximando-o e afastando-o da interioridade dos personagens, assim como de suas manifestações exteriores?

Prose enfatiza a diversidade possível de olhares, para além dos básicos focos em primeira e em terceira pessoa. Ela também destaca o dinamismo possível do ponto de vista, comentando trechos que ilustram o deslizamento entre pontos de vista diferenciados, às vezes dentro de um único parágrafo.

E aponta para a variedade possível do foco narrativo em primeira pessoa, que tendemos a ver como simplesmente um “eu” narrando, quando na verdade pode fazer parte de jogos mais sofisticados. Continue reading “Tramas da Narrativa”

Ficção Realista: Aparente Contradição em Termos

italo-moriconiNo posfácio do livro “Para ler como um escritor”, Ítalo Morriconi diz que há dois elementos, trabalhados por Francine Prose em dois de seus capítulos mais sugestivos, que são tão importantes quanto o ponto de vista na tarefa de dar ao narrador e à narrativa o poder de impressionar o leitor. São eles o detalhe (Capítulo 8) e o gesto (Capítulo 9).

No terreno da literatura francesa, Roland Barthes analisou o detalhe como técnica fundamental na criação do “efeito de real” pela descrição realista. Entenda-se bem: chamo aqui de realista, em literatura, basicamente uma ficção que fala de coisas reais, portanto como o que se opõe às narrativas oníricas ou fantásticas. Uma ficção realista quer parecer real, apesar de totalmente inventada.

Ora, o que tanto Barthes quanto Francine Prose enfatizam é que uma boa descrição realista não depende da exaustividade de inventário e sim da precisão no detalhe. Morriconi crê que o dado novo trazido por Prose nessa questão está no fato de chamar atenção não apenas para o efeito “de real”, e sim para o sentido de efeito exercido por qualquer narrativa (ficcional ou real) sobre o espírito e o corpo do leitor.

Seja o texto realista ou não, seja a narrativa real ou ficcional, aquilo que fica mais rapidamente guardado na memória de quem lê ou ouve é o detalhe altamente significativo. Somente através do detalhe preciso se poderá criar uma cena perfeitamente visualizável pelo leitor. Continue reading “Ficção Realista: Aparente Contradição em Termos”

Do Clássico ao Cult

para-ler-como-escritor-livro-francine-proseNo posfácio do livro de Francine Prose, “Para ler como um escritor”, escrito por Ítalo Morriconi, este diz que, originadas em qualquer tempo, clássicas são as obras imperdíveis, aquelas que sabemos que vale a pena ler, mesmo não as tendo ainda lido. E vale a pena lê-las a qualquer momento, antes ou depois de outras mais antigas, muito anteriores, pouco anteriores ou posteriores.

Vale até mesmo lê-las em resumos e adaptações, como aperitivo para mergulhos futuros na obra original e completa, a “coisa em si”. Adaptações infantis ou juvenis de grandes clássicos podem ser boas colaboradoras na formação de leitores, embora de jovens bem escolarizados se espere que possam ler a obra original.

Clássicos são eternos, mas alguns envelhecem. Com o tempo, alguns são esquecidos, perdem o apelo, deixam de ser clássicos. Saem das prateleiras e vão para o fundo do baú.

A queda de um ou outro clássico no esquecimento mostra que o desgaste natural, assim como peças pregadas por ironias da história, faz com que o cânone literário de uma língua, nação ou cultura seja algo dinâmico, que sofre alterações. Ocorre não só a eliminação de obras que de repente passam a ser encaradas como caducas demais ou irrelevantes, mas também a agregação de outras, “redescobertas” e “resgatadas” da poeira de velhos arquivos e bibliotecas. Continue reading “Do Clássico ao Cult”