Nós contra Eles: Reducionismo da Complexidade à Luta Binária

Jorge Luís Borges disse: “Existem somente os indivíduos: tudo o mais – as nacionalidades e as classes sociais – é mera comodidade intelectual”. Ele tinha ½ razão!

Não existem apenas indivíduos como supõe o individualismo metodológico intuitivo: “ver o mundo em torno do próprio umbigo”. Como cada qual possui essa tendência natural, esse método tende a estabelecer as explanações sobre os fenômenos sociais, políticos ou econômicos. Somente são consideradas adequadas pela ortodoxia se colocadas em termos de crenças, atitudes e decisões dos indivíduos.

O princípio do holismo metodológico postula os conjuntos sociais terem objetivos maiores ou funções impróprias a serem reduzidos às crenças, atitudes e ações dos indivíduos. Sua complexidade sistêmica nasce da emergência das interações entre todos seus componentes.

Se as ações humanas são impulsionadas (mas também delimitadas) por normas, estas instituições (formais ou informais) compõem igualmente o campo de estudo da investigação social. A explanação da Ciência Social Aplicada deveria ocorrer em termos das motivações e intenções de indivíduos, moldadas por regras e instituições, mas, em processo de retroalimentação, a visão holística pondera o peso de cada nódulo, dentro de uma rede de fluxos de encadeamentos. Parte da visão do todo para ir às partes.

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Epílogo do Livro “Factfulness: o hábito libertador de só ter opiniões baseadas em fatos”

“Em setembro de 2015, Hans e nós dois decidimos escrever juntos um livro. Em 5 de fevereiro de 2016, Hans recebeu um diagnóstico de câncer incurável no pâncreas. O prognóstico era ruim. Deram a ele dois ou três meses de vida ou, se os tratamentos paliativos tivessem muito sucesso, talvez um ano.

Após o terrível choque inicial, Hans refletiu sobre a situação. A vida continuaria por algum tempo. Ele ainda poderia desfrutar de momentos com a mulher, Agneta, a família e os amigos. Mas, no dia a dia, sua saúde seria imprevisível. Assim, após uma semana, ele cancelou todas as 67 palestras planejadas para o próximo ano, bem como todas as entrevistas de TV e rádio e produções de filmes. Hans ficou triste em fazer isso, mas viu que não tinha alternativa. E essa mudança dramática em sua vida profissional tornou-se suportável por uma coisa: o livro. Após o diagnóstico, houve alegria na tristeza à medida que o livro se transformou de um fardo junto às outras tarefas em algo prazeroso e inspirador intelectualmente para Hans.”

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Sobre Idiotas

Há um ano, quando se iniciava o mandato do capitão, um sábio colega professor universitário me aconselhou: – Não podemos nos rebaixar debatendo com estes idiotas a tomarem posse no governo brasileiro! Baixar até o nível deles é regressão cultural!

Há uma contradição histórica dos atuais idiotas com a etimologia do termo.  “Originalmente, o termo ídhios era usado de maneira depreciativa para definir aqueles que se apartavam da vida pública na antiga Atenas: o cara abria mão da vida em sociedade, com suas regras e anseios civilizatórios, e automaticamente era chamado de idiota. Esse é o idiota ancestral. O tempo passou e o jogo virou. Antes marginalizado, o idiota agora se apossa com facilidade das estruturas de poder. Com essas estruturas nas mãos, constrói um mundo à sua imagem e semelhança – um mundo no qual estamos todos condenados a viver.”

Esta citação é do livro de coautoria de Álvaro Borba e Ana Lesnovski do projeto “Meteoro Brasil”, no livro “Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota” (Planeta, 2019). Eu não resisti à piada com um(a) amigo(a) oculto(a), no caso, também desconhecido(a). Eu só sabia ele(a) pertencer à minha bolha: intelectual de esquerda.

Comprei o livro pela provocação do título – e por saber ser de autoria de criadores de canal no YouTube assistido por mim. Pensei: “perderei um novo(a) amigo(a), mas não perderei a piada!”

Dei-lhe o presente e a amiga antes oculta gentilmente me agradeceu: – Sua leitura servirá para eu lidar com umas colegas bolsonaristas…

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Ciclos de Vida

Ciclos de Vida se referem, em princípio, às fases nas quais se divide o período de vida de um indivíduo. O ciclo se estende do nascimento até a morte, embora religiões o tratem com um ente social antes do nascimento ao condenar o aborto em qualquer situação. Outras religiões têm fé na existência da alma depois da morte – em outro mundo, seja paradisíaco, seja infernal.

Alma penada é o espírito de pessoas falecidas ainda com compromissos por cumprir na vida terrena. Regressam a ela, sob transfigurações do sobrenatural ao natural, apelando ao socorro e à oração de familiares e amigos. Cruz credo!

Extrapola-se o ciclo de vida às etapas definidas em cada sociedade ou civilização. Do individualismo metodológico se dá um passo ao ponto de vista social ou holismo metodológico. As etapas do ciclo de vida de um indivíduo marcam a sua preparação para assumir papéis sociais e institucionais. Porém, de acordo com o grau de desenvolvimento econômico e cultural da sociedade, cada povo tem a delimitação dessas etapas históricas de forma diferente.

A esperança de vida de pessoa nascida no início do século XX, no Brasil, era a “idade de Cristo”: 33 anos. Se nascida em 2018, tinha expectativa de viver, em média, até os 76,3 anos. A expectativa de vida dos homens era 72,8 anos em 2018, enquanto a das mulheres era 79,9 anos. A maior expectativa de vida foi encontrada em Santa Catarina, 79,7 anos, e a menor no Maranhão, 71,1 anos.

Uma pessoa idosa, tendo completado 65 anos em 2018, teria a maior expectativa de vida (20,4 anos) no Espírito Santo. Por outro lado, em Rondônia, a expectativa de vida seria de mais 16,1 anos. Ganhará 4 anos a mais de vida ao se mudar para o Espírito Santo?! Não tem garantia… Temos de lembrar: “enquanto existirmos, a morte não existe, mas, quando a morte existir, não existiremos”.

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Veículos Autônomos: Falência da “Indústria da Multa”?

Patrick McGee (Financial Times, 25/11/2019) afirma: até agora, os Estados Unidos têm sido uma terra sem lei para os veículos autônomos. Só a Califórnia abriga 62 empresas que estão testando veículos sem motorista – e algumas delas pretendem ativar frotas comerciais nos próximos dois anos.

A ideia de a National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA, nas iniciais em inglês), o órgão federal de segurança de tráfego americano, interferir, dificultaria essa transição e foi, em grande medida, descartada. Em vez disso, o NHTSA tem apoiado os esforços, desempenhando um papel reativo de modo as empresas se “autocertificarem” de que cumprem os padrões de segurança. É o sonhado reino da autorregulação de O Mercado! Continuar a ler

Espíritos Animais: como a Psicologia Humana impulsiona a Economia e por que é importante para o Capitalismo Global

O que devemos fazer para sanar a crise mundial?

No livro “Animal Spirits – How Human Psychology Drives The Economy, And Why It Matters For Global Capitalism”, os coautores George A. Akerlof & Robert J. Shiller, falam sobre o papel do governo. Na opinião deles, as sociedades capitalistas têm problemas se não forem vigiadas. Os ciclos de super-otimismo e super-pessimismo, traduzidos em excessos de explosão e queda especulativa, dão ao governo um papel.

Seu primeiro papel é garantir as regras dos mercados financeiros terem o melhor compromisso entre permitir os mercados se movimentarem livremente, com todos os benefícios dos espíritos animais criativos do capitalismo, e controlar os mercados, quando esses espíritos animais ficarem selvagens demais. Além disso, se, como agora, a economia foi longe demais e está em reação exagerada cíclica, também é papel do governo reparar os danos, da melhor maneira possível.

Em Espíritos Animais, explicam: com o colapso do mercado de crédito, devemos buscar duas metas. O primeiro é um objetivo de demanda agregada. A política fiscal e monetária convencional deve buscar níveis de demanda de pleno emprego. Além disso, com o colapso da confiança dos investidores, os mercados de crédito, cumpridores de um importante papel econômico, também precisam de ajuda protética [peça artificial substituta uma parte do corpo] do governo.

Quão bem esses objetivos estão sendo alcançados? Consideram o exemplo dos Estados Unidos após a crise de 2008. O governo Obama e o Federal Reserve adotaram medidas voltadas exatamente para esses dois objetivos.

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Fuga para Dólar e Imóveis… por enquanto, em Buenos Aires

Marina Guimarães (Valor, 23/09/2019) informa: no país onde as transações imobiliárias são feitas em dólar e os salários são em pesos maxidesvalorizados, o sonho de ter a casa própria virou um pesadelo. Mais de 170 mil famílias argentinas correm o risco de perder seus imóveis hipotecados, por causa da disparada do dólar e da inflação.

Com isso, o mercado imobiliário argentino vive um dos seus piores momentos. Em junho, ainda antes da forte desvalorização de agosto, houve queda de 41,3% no registro de escrituras de compra e venda de imóveis em Buenos Aires, em relação ao mesmo mês do ano passado, segundo o Colégio de Escrivães da capital argentina.

A dicotomia desse mercado vem passando de um governo para outro como uma herança maldita. da qual nenhum presidente conseguiu se livrar nas últimas quatro décadas. As primeiras propriedades foram dolarizadas em 1975, quando ocorreu uma das maiores desvalorizações da história do peso, e o dólar passou a ser a unidade de valor. Era uma maneira de preservar o patrimônio e não ter de ficar atualizando o valor em moeda nacional constantemente.

Naquele ano, a Argentina teve o seu primeiro grande ajuste econômico, com uma desvalorização de 100% do peso em relação ao dólar. O plano econômico, conhecido como “El Rodrigazo”, em referência ao então ministro de Economia Celestino Rodrigo, no governo de Isabelita Perón (1974-1976), fracassou e a inflação subiu 183% seis meses depois.

Embora a onda de dolarização dos imóveis venha dessa época, o registro de amor dos argentinos pela moeda americana é mais antigo e começou em 1931, segundo o livro “El dólar – História de una moneda argentina, 1930- 2019”, lançado recentemente.

Os pesquisadores Mariana Luzzi e Ariel Wilkis relatam: em 1931, o então presidente José Félix Uriburu adotou os primeiros controles cambiais, para enfrentar a crise mundial no fim da década de 20, momento em que a entrada de divisas provenientes das vendas externas de carne e grãos já não era suficiente para a economia.

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