Democracia, Populismo e Nacionalismo

Hélio Schwartsman, no livro “Pensando Bem… um olhar original a respeito de liberdade, religião, história, política, violência, comportamento, educação, ciência”, diz a ideia mestra da democracia é ela constituir uma espécie de autogestão coletiva– o tal do governo do povo, para o povo e pelo povo.

“Não se pode, por outro lado, desprezar os riscos de um entrosamento muito profundo entre governantes e a população. O mais óbvio é o populismo, no qual se sacrificam objetivos de longo prazo em troca de aprovações momentâneas, geralmente programadas para coincidir com eleições. Embarcar nesse tipo de lógica compromete a racionalidade econômica de um governo, que se torna incapaz de definir prioridades e passa a perseguir metas inconciliáveis, gerando pequenos e grandes desastres.

Isso significa que a democracia é uma miragem? A pergunta é capciosa.”

Hélio Schwartsman pensa ela funcionar, mas não porque maiorias sejam portadoras da verdade. A democracia vem dando certo porque consegue canalizar os conflitos sociais para formas não violentas de disputa. Tem ainda o dom de fazer com as visões mais extremadas do espectro político se anularem pelo voto, deixando a decisão para os setores moderados. [Esta hipótese sem comprovação por evidências talvez seja falsa.] Ela também transforma a sociedade em um grande experimento cujos atores podem aprender com seus erros.”

Percebe-se também em Hélio Schwartsman a expressão do atávico medo da elite intelectual paulistana em relação ao chamado por ela de “populismo”. O argumento esnobe contra qualquer coisa favorável ao povo é clássico na retórica reacionária. Continue reading “Democracia, Populismo e Nacionalismo”

Complexidade da História

Hélio Schwartsman, no livro “Pensando Bem… um olhar original a respeito de liberdade, religião, história, política, violência, comportamento, educação, ciência”,  é mais feliz ao interpretar a complexidade da história.

“Durante boa parte do século XX, prevaleceram concepções que enfatizam os grandes movimentos. Aí se incluem os marxistas, com a luta de classes e o materialismo histórico, a turma dos Annales, com sua ‘longue durée’ e o pessoal da geopolítica, para quem características topográficas, climáticas e demográficas são decisivas. Somam-se a eles os chamados institucionalistas ao destacarem o papel de estruturas como tipo de governo, grau de liberdade, eficiência do Judiciário etc.”

Representantes de todas essas escolas produziram boas análises, com grande poder explicativo e geradoras de interessantes insights. Todos os elementos citados e outros não citados têm sua importância. Mas isso é tudo?

No rastro dos proponentes da chamada história contrafactual as if [e se] –, Hélio Schwartsman levanta a hipótese imaginária: se o nacionalista sérvio Gavrilo Princip não tivesse assassinado o arquiduque Francisco Ferdinando em 1914, não teria havido a Primeira Guerra, nem consequentemente a tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia, nem a assunção de Hitler na Alemanha. Princip, sozinho, responde pelas mortes de milhões de pessoas.

[Fernando Nogueira da Costa: é regra compulsória em jornalismo a individualização, baseada no argumento “não existe história sem rosto”. Por exemplo, a seleção brasileira joga coletivamente todo o jogo, porém, os jornais destacam “o craque do jogo”; um setor de atividade econômica tem bom desempenho, mas os jornalistas louvam um empresário; a economia sofre um problema macro-social, mas o “bode-expiatório” é um fulano, em geral, o(a) Presidente(a); etc.]

Se os achados dos cientistas estudiosos de sistemas complexos valem para a história, pequenas variações podem produzir resultados dramáticos – e isso sem contrariar as tais das forças profundas da História. Trata-se da dependência de trajetória caótica. Continue reading “Complexidade da História”

Luditas contra Desemprego Tecnológico: Luta Perdida em Anacronismo

Hélio Schwartsman, no livro “Pensando Bem… um olhar original a respeito de liberdade, religião, história, política, violência, comportamento, educação, ciência”, diz: “entre os interesses de uma classe e os da sociedade, são os segundos que devem prevalecer”.

Vai um pouco mais longe e afirma: “deveria ser obrigatório para o poder público disponibilizar na internet e de forma gratuita todos os serviços hoje ofertados por profissionais e instituições que podem ser condensados em algoritmos. Isso vale para obrigações fiscais, previdenciárias, registros públicos e procedimentos jurídicos. É ridículo obrigar as partes a contratarem advogados para realizar inventários extrajudiciais e divórcios consensuais, por exemplo”.

Se essas facilidades ao cidadão se disseminassem, precisaríamos de menos contadores, escriturários, cartórios e advogados, para ficar apenas no mundo da burocracia). Haveria desemprego nessas categorias. É duro, mas é assim que o capitalismo funciona.

Como já descrevera Joseph Schumpeter em meados do século passado, a chegada de novas tecnologias destrói velhas empresas, antigos modelos de negócios e até mesmo profissões. Pode ser ruim para essas pessoas, mas das inovações, em última instância, a sociedade extrai a prosperidade. Continue reading “Luditas contra Desemprego Tecnológico: Luta Perdida em Anacronismo”

Trindade Impossível: Liberdade, Igualdade e Paternidade

Hélio Schwartsman em seu livro “Pensando Bem… um olhar original a respeito de liberdade, religião, história, política, violência, comportamento, educação, ciência”(São Paulo: Editora Contexto, 2016. 304 p.) informa: “A manter-se o atual ritmo de queda da desigualdade entre homens e mulheres no Brasil, elas só vão ganhar o mesmo que eles em 2085. A igualdade nos cargos de diretoria e conselho de grandes empresas só virá em 2213, e, na Câmara dos Deputados, no ainda mais longínquo 2254.” O que está acontecendo?

A explicação padrão das alas mais radicais do movimento feminista é conhecida: discriminação. Hélio Schwartsman até acha o preconceito responder por uma parte do fenômeno, mas ela é pequena. O argumento dele é mercantil: “se empresas pudessem mesmo obter de um funcionário o mesmo rendimento pagando 30% menos, como quer a narrativa feminista, não há muita dúvida de que apenas mulheres seriam contratadas. O compromisso das firmas com o lucro tende a ser maior do que com o machismo”.

Daí deduz o mais provável ser o rendimento feminino não ser o mesmo do masculino. Aqui temos duas possibilidades:

  1. ou mulheres não são tão boas quanto homens no que fazem;
  2. ou não dão ao emprego a mesma prioridade deles.

A segunda alternativa parece mais verossímil, para o autor, a crer no desempenho escolar. Argumenta ele ser uma prévia do preparo para o trabalho e “elas são na média bem melhores do que eles”. Não indica sua fonte de informações para afirmar tal coisa. Principalmente, ele se esquece de analisar o conceito de média, ou seja, os expoentes com altos cargos hierárquicos podem ter se destacado com melhor desempenho escolar e profissional.

De fato, Hélio Schwartsman reconhece “quando se levam em conta fatores como jornada de trabalho, tipo de emprego escolhido, intervalos para a gravidez, disponibilidade para viagens, para horas extras etc., a diferença entre [mulheres e homens] cai bastante”. Continue reading “Trindade Impossível: Liberdade, Igualdade e Paternidade”

Livre Arbítrio entre a Liberdade de Escolha e o Prejuízo a Terceiros

Hélio Schwartsman, no livro “Pensando Bem… um olhar original a respeito de liberdade, religião, história, política, violência, comportamento, educação, ciência”, discute a ideia fundamental do livro “Big Data: uma revolução que transformará vidas, trabalho e pensamento”, de Viktor Mayer-Schonberger e Kenneth Cukier.

A dificuldade de obter dados sempre foi um obstáculo para a Ciência. Para contorná-la, desenvolvemos conceitos como amostragem e as ferramentas estatísticas para interpretá-los. Mas hoje, com o avanço das tecnologias da informação, é relativamente fácil armazenar quantidades antes inimagináveis de dados e analisá-los, descobrindo correlações das quais nem suspeitávamos.

Isso muda a forma de fazer ciência e de ganhar dinheiro. O sucesso da Amazon, Spotfy, Netflix, YouTube, Google, etc. está em oferecer ao cliente aquilo sugerido por seu algoritmo como objeto de desejo para consumo ou desfrute.

Os autores, embora reconheçam virtudes no big data, apontam os muitos riscos envolvidos. No plano epistemológico, correlação não é causa. Para descobrir o porquê das coisas, ainda precisaremos de teorias e experimentos controlados.

No campo da filosofia, as coisas são mais inquietantes. Os modelos se sofisticam e ficam melhores em prever comportamentos. Já conseguimos identificar motoristas com maior probabilidade de provocar acidentes, pessoas mais propensas a ficar doentes e criminosos com mais chance de reincidir. “Como devemos usar essas informações? Podemos punir preventivamente o sujeito que está prestes a cometer um delito? Será que a autonomia e o livre-arbítrio sobrevivem à era do big data?Continue reading “Livre Arbítrio entre a Liberdade de Escolha e o Prejuízo a Terceiros”

Pensando Bem… um olhar original a respeito de liberdade, religião, história, política, violência, comportamento, educação, ciência

Gostei de ler as ideias para reflexão divulgadas por Hélio Schwartsman em seu livro “Pensando Bem… um olhar original a respeito de liberdade, religião, história, política, violência, comportamento, educação, ciência”(São Paulo: Editora Contexto, 2016. 304 p.). Suas colunas diárias para a Folha de S.Paulo, a convite da Editora Contexto, foram selecionadas e repartidas sob esses temas: liberdade, religião, história, política, violência, comportamento, educação, ciência. Ficaram os textos pouco datados e, ao mesmo tempo, recentes.

“Para todo problema complexo existe uma solução clara, simples e errada.”A frase do jornalista norte-americano H. L. Mencken (1880-1956) vem bem a calhar, diz Hélio, em um mundo que parece tornar-se a cada dia mais polarizado.

A polarização exacerba os raciocínios ideológicos, cuja marca é justamente oferecer soluções claras e simples para nossos problemas. A dificuldade é problemas complexos frequentemente exigirem abordagens complexas, o que torna necessariamente erradas as supostas soluções simples oferecidas pelo pensamento ideológico.

Se há uma fórmula geral para tratar problemas, ela passa pelo reconhecimento de eles poderem ser complexos, exigindo respostas complexas. É possível até mesmo não comportarem uma solução. Nessa hipótese, se tomarmos atitudes para lidar com eles, devemos estar cientes de o resultado ser, no melhor dos casos, só parcialmente satisfatório.

Há vantagens nesse caminho menos cômodo de aceitar a complexidade. A mais óbvia delas é nos tornarmos menos vulneráveis aos charmes da ideologia. E os pensamentos de manada prescritos pela ideologia de esquerda ou de direita, embora ofereçam conforto intelectual e possam eventualmente dar respostas corretas a uma ou outra questão específica, mais cegam do que nos fazem ver. Nenhuma teoria é tão boa que produza soluções antes mesmo de o problema ter sido formulado. Continue reading “Pensando Bem… um olhar original a respeito de liberdade, religião, história, política, violência, comportamento, educação, ciência”

Vida Comunitária e Relações de Afeto

Em Sobre A Arte De ViverRoman Krznaric deduz a vida simples envolver mais que:

  1. reduzir as próprias despesas diárias ou
  2. repensar os próprios termos de comparação social.

É também uma questão de vida comunitária.

O florescimento humano é algo que dificilmente se alcança sozinho. Um dos resultados deletérios da ideologia consumista foi encorajar uma cultura extrema de individualismo possessivo, em que estamos interessados nos nossos próprios prazeres e de olho no Número Um.

No Ocidente, o único objetivo é acumular riqueza pessoal e propriedades. Cinquenta e cinco por cento dos americanos com menos de trinta anos pensam que acabarão ficando ricos. “E se você vai ser rico, para que precisa de qualquer outra pessoa?”

Essa obsessão pelo interesse pessoal nos cegou para o papel que a comunidade desempenha na criação de vínculos sociais que muito contribuem para o nosso senso de bem-estar. Deveríamos lembrar o que Aristóteles nos disse: somos animais sociais, tão gregários quanto abelhas. Continue reading “Vida Comunitária e Relações de Afeto”