Possíveis Mudanças Econômicas no Caso da Islamização da França

Capa Submissao_Alfaguara para novo padrao.inddE quais serão as possíveis mudanças econômicas no caso da islamização da França?

(…) “de modo geral, a França recuperava um otimismo que não conhecera desde o fim dos Trente Glorieuses [período de grande crescimento econômico que vai de 1945 a 1975], meio século antes. O início do governo de união nacional instalado por Mohammed Ben Abbes foi unanimemente saudado como um sucesso, nunca um presidente da República recém-eleito se beneficiara de tamanho ‘estado de graça’, todos os comentaristas estavam de acordo sobre isso.

Eu costumava repensar no que Tanner me dissera, nas ambições internacionais do novo presidente, e notei com interesse uma informação que passou praticamente despercebida: a retomada das negociações sobre a adesão próxima do Marrocos à União Europeia; quanto à Turquia, já fora definido um calendário. Portanto, a reconstrução do Império romano estava em marcha, e no plano interno Ben Abbes tinha uma trajetória impecável.

A consequência mais imediata de sua eleição foi a diminuição da delinquência, e em proporções enormes: nos bairros mais problemáticos, ela despencou para menos de um décimo do total.

Outro sucesso imediato foi o desemprego, cujas taxas estavam em queda livre. Isso se devia, sem a menor dúvida, à saída maciça das mulheres do mercado de trabalho — e isso estava por sua vez ligado à considerável revalorização dos abonos familiares, primeira medida apresentada, simbolicamente, pelo novo governo. O fato de que o pagamento fosse condicionado à cessação de toda atividade profissional provocara, no início, uma certa chiadeira da esquerda; mas, diante das estatísticas do desemprego, o ranger de dentes logo parou. Continuar a ler

Submissão

Michel HouellebecqOs francófilos amantes dos valores da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – não podem deixar de ler o imperdível livro de ficção política de Michel Houellebecq, “Submissão”. Este título é a tradição de “Islã” em árabe. O protagonista-narrador é um professor universitário de Literatura, especialista em Joris-Karl Huysmans (1848-1907). Este foi um escritor francês e crítico de arte, primeiramente associado a Émile Zola e ao grupo de naturalistas. Depois, juntou-se ao Movimento Decadente Francês. A conversão de Huysmans, do Satanismo ao Catolicismo, da obsessão por sensações bizarras à busca da vida espiritual, pode ser seguida em livros como “A rebours” (1884), “Là-bas” (1891) e “La cathèdrale” (1898).

O professor universitário solteirão torna-se o alter ego – termo cunhado por Freud para conceituar coisas que estão no Ego de uma determinada pessoa, as quais podem ser transferidas para uma outra, que passa a funcionar como se fosse uma duplicata da primeira pessoa – de Huysmans. Vive o tédio de sua crise de meia-idade como observador crítico do cenário político da França a partir da eleição presidencial de 2022. De quebra, converte-se em um participante ativo na mudança de costumes impostas pelo islamismo nos desejados valores libertários, igualitários e fraternos dos franceses.

Em misto de ceticismo, cinismo e niilismo substituído por oportunismo, ele expõe sua verve irônica neste best-seller que seria lançado no dia do ataque do terrorismo islamita ao Charlie Hebdo. Na última edição antes do crime, que definiu “Submissão” como “golpe de mestre”, a capa era uma caricatura de Houellebecq, também ele alvo de blague. Após o atentado, o autor cancelou a divulgação da obra e deixou Paris.

Assim como, provavelmente, todos os leitores franceses, li o pequeno livro de ponta a ponta (225 páginas), em um só fôlego, na viagem de 12 horas em ida-e-volta de avião Campinas- Belém do Pará-Campinas. Fui lá, em um bate-e-volta, para dar uma palestra. É envolvente sua narrativa a respeito da cena política contemporânea da França e da perspectiva geopolítica europeia e islâmica. Imaginem todas as consequências de a centro-esquerda e a centro-direita se aliarem com um candidato islamita contra a candidata Marine Le Pen da Frente Nacional, partido xenófobo de extrema-direita, no segundo turno da eleição presidencial.

Leia pequenos trechos de: Michel Houellebecq, “Submissão”. Continuar a ler

Milionários: Quando o bastante basta? Por que os afortunados não conseguem se livrar da rotina do enriquecimento?

Mobilidade Social dos Milionários

Quem pensa que os milionários têm a vida ganha está muito enganado. Assim como pessoas com um padrão considerado normal, indivíduos de alta renda lutam para manter a riqueza adequada aos seus estilos de vida, que não tendem a ser modestos.

Mas não é só isso. Como alerta a Teoria da Classe Ociosa, livro de autoria de Thorstein Veblen (1857-1929), publicado em 1899, época dos chamados Barões Ladrões nos EUA, dominada por novos magnatas como Vanderbilt (das ferrovias) e Rockfeller (do petróleo), entre outros poucos, é custoso para os milionários demonstrar que não necessitam trabalhar, manualmente, como os servos e escravos, na época, recentemente libertados.

O esnobismo — atitude de quem despreza o relacionamento com gente humilde e imita, geralmente de maneira afetada, o gosto, o estilo e as maneiras de pessoas de prestígio ou alta posição social, e/ou assume ares de superioridade a propósito de tudo com um sentimento de superioridade exacerbado e gosto excessivo pelo que está na moda, inclusive as trivialidades — custa caro, não só em dinheiro e tempo, mas também em termos comportamentais:

  1. pressão para manter o padrão de vida,
  2. preocupação com o impacto da fortuna sobre os valores dos filhos,
  3. arrependimento por não dedicar tempo suficiente à família,
  4. temores em relação ao futuro financeiro das próximas gerações,
  5. busca incessante por aumentar o patrimônio.

Aí, que canseira… Cansei. Mesmo não sendo de direita como os idiotas em voga…

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A Economia em Machado de Assis: O Olhar Oblíquo do Acionista

A Economia em Machado de Assis

Machado de Assis escreveu cerca de seiscentas crônicas entre 1883 e 1900, muitas delas publicadas em jornais da época e que trataram de temas importantes como a Abolição da Escravatura, o Encilhamento e a Proclamação da República. A partir desse material historiográfico, o economista e ex-presidente do Banco Central, Gustavo H.B. Franco, produziu uma seleção inédita de textos do escritor, que tratam de temas econômicos e financeiros da época.

Além da seleção, Franco introduz e comenta os textos de Machado, contextualizando os fatos que ganharam a atenção e o olhar do cronista. A Economia em Machado de Assis é, assim, uma contribuição historiográfica que oferece a chance de visitar o passado econômico brasileiro, na passagem do século XIX para XX, com a companhia de um dos grandes escritores da literatura mundial e um dos economistas cultos do país.

Leia como exemplo da ironia e da crítica de costumes sociais de sua época uma crônica de Machado de Assis publicada em 4 de julho de 1883. Mutatis mutandis (mudando o que tem de ser mudado), adapta-se ao nosso tempo de uso (e abuso) mal-educado dos celulares em espaços públicos… Continuar a ler

Shakespeare e a Economia ou Economia e Teatro

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Busco ensinar Economia utilizando-me do Cinema como um instrumento instrutivo. É possível fazer isso com outras formas de Arte. Talvez a mais óbvia seja a Literatura. Gustavo Franco e Henry Farnam abordam outro tema multidisciplinar – Economia e Teatro – de diferentes formas. São métodos didáticos complementares, baseados em Artea representação e transmissão da habilidade de tomar decisões práticas em determinados contextos econômicos –, que revelam uma nova e interessante maneira de ensinar e/ou aprender Economia.

Shakespeare e a Economia (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora; 2009) reúne, em um só volume, dois ensaios complementares – escritos em épocas distintas (1931 e 2009) – que surpreendem ao mostrar como as finanças e os aspectos econômicos e empresariais estavam presentes na obra e na vida do dramaturgo inglês William Shakespeare.

Em A Economia de Shakespeare, Gustavo Franco fala sobre a economia do teatro, da linguagem e das companhias teatrais, sua organização e seus resultados financeiros. Mostra como Shakespeare conquistou uma fortuna considerável – cerca de 1500 libras na época, o que hoje equivaleria, em uma estimativa hipotética, a 14 milhões de libras. “O fato é que metade ou mesmo 10% disso são suficientes para que se tenha clareza de que Shakespeare morreu rico… enriqueceu como ator, autor e principalmente como empresário de um dos ramos especialmente dinâmicos da economia elisabetana, o entretenimento de massa.”

A Economia em Shakespeare, de Henry Farnam, discorre sobre a economia no interior das peças – na voz de diversos personagens, nas metáforas ou alegorias, e nas referências a comércio, profissões, agricultura, tributação ou distribuição de riqueza. O leitor encontrará nesse ensaio pioneiro de 1931 um interessante painel sobre o surgimento do capitalismo. Continuar a ler

Sabedoria e Amizade (Máximas de Epicuro – Ética)

epicuro X dios

Se queres enriquecer alguém, não lhe acrescentes riquezas: diminui-lhe os desejos.

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Encontro-me cheio de prazer corpóreo quando vivo a pão e água e cuspo sobre os prazeres da luxúria, não por si próprios, mas pelos inconvenientes que os acompanham.

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A quem não basta pouco, nada basta.

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Não deves corromper o bem presente com o desejo daquilo que não tens; antes, deves considerar também que aquilo que agora possuis se encontrava no número dos teus desejos. Continuar a ler

Objetivo da Filosofia segundo Epicuro

Fragmeto da Carta de Epicuro a Meneceu

Todo desejo incômodo e inquieto se dissolve no amor da verdadeira Filosofia o amor pela sabedoria, experimentado apenas pelo ser humano consciente de sua própria ignorância.

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Nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma.

E quem diz que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz.

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Deves servir à Filosofia para que possas alcançar a verdadeira Liberdade. Continuar a ler