Mundo Religioso e Conservador, portanto, Inculto

Anna Virginia Balloussier (FSP, 08/11/22) informa: já somos 8 bilhões no planeta, diz a ONU. E Deus não só continua em alta como estará mais pop do que nunca quando nos aproximarmos dos 10 bilhões de humanos, algo previsto para pouco mais de 30 anos.

A questão é: qual Deus será esse? Contrariando prognósticos passados, que falavam numa secularização em massa, o mundo tende a ficar ainda mais religioso, segundo projeções do Pew Research Center, organização americana que aborda questões de fé em suas pesquisas. Ficará, também, mais muçulmano.

A crença com mais afiliados ainda será a cristã, mas o islamismo crescerá mais rapidamente do que qualquer outra das grandes religiões. Até 2050, o bloco muçulmano será apenas residualmente menor do que o cristão —se arredondada a estatística, ambos reunirão 3 em cada 10 pessoas vivendo na Terra.

Outra consequência desse movimento será o encolhimento do grupo que, até pouco tempo, simbolizava o enfraquecimento desse arcabouço de fé, aquele dos que não declaram nenhuma crença em particular.

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Economia da Felicidade: Religião causa mais felicidade ou infelicidade?

Célia de Gouvêa Franco (Valor, 04/11/22) resenha o livro do historiador inglês Peter N. Stearns. Po rmeio de entrevista ele procura responder se e como o conceito de felicidade mudou ao longo dos anos e se tornou agora globalizado.

O que é felicidade? Fatores como renda, religião, tendência política, sexo, país onde se vive ajudam ou não uma pessoa a ser mais feliz?

Questões como essas são analisadas por estudiosos dos mais variados campos do conhecimento e matizes há séculos – é só lembrar os filósofos gregos. Levantamentos indicam que é enorme o interesse pelo tema, como se mostra, por exemplo, pelo grande e duradouro sucesso de vendas de livros que tentam ensinar como ser – mais – feliz, seja com cuidados da saúde, seja com dicas de como ganhar dinheiro. Ou pelo sucesso de cursos dados por universidades sobre a matéria.

Com novos instrumentos de pesquisa, a felicidade passou, mais recentemente, a ser também um tema econômico, com centenas de economistas se dedicando a estudar o que torna pessoas e países mais felizes, como medir a felicidade e debatendo se o dinheiro aumenta ou não a sensação de bem-estar e a partir de quais valores a renda deixa de ser um fator relevante.

Mais um ingrediente interessante foi acrescentado a esse panorama de debates com o lançamento nos Estados Unidos, em dezembro de 2020, do livro “História da Felicidade”, do historiador inglês Peter N. Stearns, que a editora Contexto (tradução de Roberto Cataldo, 368 págs., R$ 79,90) acaba de publicar no Brasil, com prefácio do também historiador e best-seller Leandro Karnal.

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Persistência ou Desistência: Qual é a Atitude Mais Sábia?

Tim Harford (Financial Times, 09/11/22) escreveu bom artigo sobre por qual razão muitas vezes o melhor é simplesmente desistir. Serve para minha reflexão: devo ou não me aposentar?

“Sou uma lutadora, não uma desistente”, disse Liz Truss, ex-primeira-ministra do Reino Unido, um dia antes de desistir. Ela estava ecoando palavras proferidas há mais de 20 anos pelo parlamentar Peter Mandelson, embora Mandelson tenha mostrado o bom senso de expressá-las depois de ter vencido uma luta política, e não perdido uma.

É uma questão intrigante, no entanto. Ser um “lutador” não é inteiramente um elogio. Em certas circunstâncias, é uma qualidade premiada, mas não é uma palavra que eu usaria no meu currículo ou, mais particularmente, no meu perfil no Tinder.

Já quanto ao termo “desistente”, no entanto, não há grandes dúvidas. Trata-se, inequivocamente, de um insulto. É estranho, porque além de termos brigas demais no mundo, a frequência de desistências está longe de ser a ideal. Somos teimosos demais, apegando-nos a uma ideia, um trabalho ou um parceiro romântico, mesmo quando fica claro que cometemos um erro.

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Elisabeth Roudinesco: ‘Estamos em plena época da loucura’

Elisabeth Roudinesco_ concedeu entrevista ao Diogo Viana (Eu & _ Valor Econômico (11/11/22).

O último livro da historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco, biógrafa de Sigmund Freud e Jacques Lacan, provocou reações fortes, sobretudo à esquerda. “O eu soberano: Ensaio sobre as derivas identitárias” (Zahar) identifica um fundo comum às pautas nacionalistas da extrema direita e às demandas sociais fundadas no gênero e na raça: uma paulatina expansão do individualismo que, para a autora, reduz o espaço para a atuação pública e as reivindicações sociais e políticas.

Os críticos acusaram o livro de recair em seu próprio tipo de identitarismo: aquele dos brancos, heterossexuais e europeus. O uso do termo “epidemia” para se referir à expansão das transições de sexo entre jovens foi um dos principais alvos. Também recaíram críticas sobre o que foi identificado como nostalgia de um universalismo que seria, na verdade, expressão do ponto de vista europeu sobre o mundo.

Em outubro, Roudinesco apresentou a palestra “Tecnologia, pulsão de morte e derivas identitárias” no evento Fronteiras do Pensamento. A apresentação retoma alguns dos principais temas do livro, acrescentando o papel de dispositivos técnicos contemporâneos na expansão do individualismo e do narcisismo. Nesta entrevista, a pensadora comenta as críticas que recebeu e esclarece algumas de suas posições.

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Crime Político: Armamentismo Paramilitar

Marcos de Moura e Souza (Valor, 11/09/22) informa: um número sem precedentes de armas de fogo chegou ao Brasil nos últimos dois meses. Foram 40.303 revólveres e pistolas em julho e 39.389 em agosto. Nunca, em 25 anos, segundo as estatísticas disponibilizadas pelo Ministério da Economia, tantas armas de fogo foram trazidas ao país por mês. Pelos números de julho e agosto, o equivalente a mais de 1.200 armas de fabricantes estrangeiros entrou por dia no Brasil no ao longo desses meses.

Os dados disponíveis não informam as razões por trás da alta nas importações, mas na avaliação de cinco pessoas envolvidas no debate sobre armas de fogo, pode ter relação direta com a perspectiva de derrota eleitoral do presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de outubro.

Os compradores estariam antecipando as importações por temor de que elas sejam fechadas. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato que lidera as pesquisas de intenção de voto ao Planalto este ano, tem sido um crítico da expansão da circulação de armas por civis.

“Minha impressão é que com as pesquisas eleitorais e com as declarações do candidato que lidera as pesquisas, as pessoas estão estocando armas”, disse Ivan Marques, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, organização que reúne acadêmicos e integrantes de forças de segurança, e que tem adotado uma postura crítica em relação à flexibilização das regras de acesso a armas no Brasil adotadas pelo governo Bolsonaro.

Movimento parecido ocorreu nos EUA. Antes da eleição de Barak Obama (em 2008) e da de Joe Biden (2020), americanos adeptos das armas ampliaram seus arsenais diante da perspectiva de adoção de regras mais restritivas sob governos do Partido Democrata.

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Economia da Felicidade

Armando Castelar (Valor, 02.09.22) escreveu artigo sobre Economia e Felicidade, linha analítica há anos incorporada em meu curso de Finanças Comportamentais no IE-UNICAMP.

Ele informa sobre a liderança dos países nórdicos no World Happiness Report publicado esta semana (worldhappiness.report/). A Finlândia aparece mais uma vez como o país mais feliz dentre os 146 países analisados, seguida pela Dinamarca e Islândia. A Suécia e Noruega estão na sétima e na oitava posições, respectivamente. O Brasil aparece relativamente bem, na 38a colocação.

Nesta sua décima edição, o relatório busca aprofundar uma série de questões sobre o tema da felicidade, inclusive a permanente pergunta sobre o que faz as pessoas felizes. Dois temas mais relacionados à economia me pareceram especialmente interessantes:

1. a felicidade como alternativa ao PIB, enquanto métrica de progresso, e

2. como foco das políticas públicas, em lugar do crescimento econômico.

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Aprender a Pensar

O que significa “aprender a pensar”?

Seria uma questão de aprender certas habilidades intelectuais, como a leitura fluente, a lógica ou a expressar-se claramente?

Exigiria familiaridade com alguns textos transcendentais ou fatos históricos?

Talvez consista em corrigir certos preconceitos capazes de obscurecerem nosso discernimento?

Recentemente, Tim Harford (Financial Times apud Valor, 19/06/22) leu um ensaio instigante do psicólogo Barry Schwartz, mais conhecido pelo livro “O Paradoxo da Escolha”. Escrevendo há alguns anos no jornal “The Chronicle of Higher Education”, Schwartz argumentou: um dos objetivos do ensino universitário, em especial o ensino de artes liberais, é ensinar os alunos a pensar. O problema é: “ninguém sabe realmente significado disso”.

Schwartz propõe suas próprias ideias. Ele mostra mais interesse em virtudes intelectuais em lugar de habilidades cognitivas. “Todos os traços que discutirei têm uma dimensão moral fundamental”, diz, antes de argumentar a respeito de nove virtudes:

1. amor à verdade;

2. honestidade quanto às próprias deficiências;

3. imparcialidade;

4. humildade e vontade de procurar ajuda;

5. perseverança;

6. coragem;

7. ouvir com atenção;

8. empatia e olhar por meio de outros pontos de vista; e, por fim,

9. sabedoria quando não se peca pelo excesso em nenhuma dessas outras virtudes.

Se uma pessoa é altamente versada e brilhantemente racional, mas deixa a desejar nessas outras virtudes, por ser 1. indiferente à verdade, 2. negar os próprios erros, 3. preconceituosa, 4. arrogante, 5. facilmente desencorajada, 6. covarde, 7. desdenhosa, 8. narcisista e 9. propensa a todo tipo de excesso.

Poderia essa pessoa realmente ser descrita como alguém com a sabedoria de pensar?

Sem dúvida, seria o tipo de pessoa inadequada para colocar no comando de qualquer coisa.

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Como falta de dinheiro prejudica inteligência e afeta decisões

  • Shin Suzuki (BBC News Brasil em São Paulo, 29 maio 2022) escreveu reportagem sobre Finanças Comportamentais.

O cérebro precisa arrumar uma saída: atrasa algumas contas para garantir o dinheiro do mecânico? Faz só o pagamento mínimo do cartão de crédito no mês? Pede um empréstimo para socorrer as finanças que já vinham pressionadas?

Independente do caminho escolhido, os esforços para se livrar de apuros financeiros – ou simplesmente sobreviver, caso de mais e mais famílias brasileiras – têm significativas consequências sobre a cognição.

É algo explicado pelo cientista comportamental Eldar Shafir, da universidade Princeton, nos EUA, e o economista Sendhil Mullainathan, de Harvard, em um livro de 2013 chamado Escassez – Uma Nova Forma de Pensar a Falta de Recursos na Vida das Pessoas e nas Organizações (editora Best Business).

A dupla emprega o termo “banda larga mental” para ilustrar a capacidade cerebral em situações assim.

Um computador com muitos programas abertos vai ter dificuldades para processar informação. A internet fica lenta. Os vídeos vão travar o tempo inteiro.

Da mesma forma, uma cabeça cheia de problemas financeiros terá a performance prejudicada: ficará sobrecarregada e levará a decisões ruins.

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Comentários sobre Neuroeconomia (por Ariel Rubinstein)

ARIEL RUBINSTEIN (The University of Tel Aviv Cafes and Department of Economics, New York University) escreveu os seguintes comentários, traduzidos parcialmente.

A Neuroeconomia é examinada criticamente usando dados sobre os tempos de resposta de indivíduos solicitados a expressar suas preferências no contexto do Paradoxo de Allais. Diferentes padrões de escolha são encontrados entre os respondedores rápidos e lentos. Isso sugere tentarmos identificar tipos de agentes econômicos pelo tempo usado para fazer suas escolhas. No entanto, Rubintstein argumenta ainda estar longe de ser claro se e como a Neuroeconomia mudará a Economia com essa descoberta.

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Influenciadores Digitais em Finanças Pessoais

O comportamento do dólar, a volatilidade das ações e as  tendências para criptomoedas são temas cada vez mais presentes nas mesas de bar e nas redes sociais. Não à toa, o FMuíednrdicaaoedsoMBaritkceotingnúmero de influenciadores digitais que falam sobre investimentos só cresce.

Levantamento realizado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) identificou 277 perfis ativos de influenciadores no país entre 6 de fevereiro e 31 de dezembro do ano passado, 11 a mais do que no rastreamento anterior, feito entre setembro de 2020 e fevereiro de 2021. Mas o número que de fato chama atenção é o de seguidores, que alcançou a marca dos 91,5 milhões, crescimento de 23,6% na mesma base de comparação.

Os dados da segunda edição da pesquisa “FInfluence: quem fala de investimentos nas redes sociais, cujos resultados foram antecipados para Daniele Camba (Valor, 24/02/22)

De acordo com o estudo, os influenciadores foram responsáveis por 406 mil publicações em seus perfis, o que representa um

aumento de 153% em relação à primeira pesquisa. Do total das publicações, 62,5% foram no Twitter, vindo bem abaixo o Instagram e o Facebook, com 15,6% e 12%, respectivamente.

Apesar de terem participação ainda baixa, as redes sociais da Meta, controlada por Mark Zuckerberg, ganharam um pedaço do mercado do Twitter de um ano para outro. Enquanto o Twitter perdeu 8,5 pontos percentuais, o Facebook ganhou 3,6 pontos (indo de 8,4% para 12%) e o Instagtram, 3,8 pontos.

Os números consideram dados públicos dos perfis dos influenciadores. Informações de engajamento e audiência são privados e, portanto, somente o dono do perfil tem acesso a eles.

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Ciências Comportamentais para Políticas Públicas

Richard Thaler 

Pablo Acosta é economista líder de Desenvolvimento Humano para o Brasil do Banco Mundial e doutor em Economia pela Universidade de Illinois (EUA). Sua coluna (FSP, 21/02/22) foi escrita em colaboração com seus colegas do Banco Mundial Juliana Neves Soares Brescianini, analista de operações, e Luis A. Andrés, líder de programa do setor de Infraestrutura. Compartilho-a abaixo.

Tradicionalmente, os gestores elaboram políticas públicas tendo como base um agente econômico racional, ou seja, uma pessoa capaz de avaliar cada decisão, maximizando sua utilidade para interesse próprio. Ignoram, porém, as poderosas influências psicológicas e sociais que afetam o comportamento humano e desconsideram que pessoas são falíveis, inconstantes e emocionais: têm problemas com autocontrole, procrastinam, preferem o status quo e são seres sociais. É com base nesse agente “não tão racional” que as ciências comportamentais se apresentam para complementar a forma tradicional de fazer política.

Por exemplo: já nos aproximamos da marca de dois anos desde a declaração pela Organização Mundial da Saúde de estado de pandemia da Covid-19 em 11 de março de 2020. Foram anos desafiadores para governos, empresas e indivíduos.

Mas apesar de 2021 ter apresentado sinais de recuperação, há ainda um longo e árduo caminho a ser percorrido para retornar ao menos às condições pré-pandemia. Não apenas na saúde, mas também no equilíbrio das economias, no aumento da produtividade, na retomada de empregos, na recuperação das lacunas de aprendizagem, na melhora do ambiente de negócios, no combate às mudanças climáticas, etc.

Obviamente, essa não é uma tarefa simples para governos e organizações. Poderíamos encarar esses desafios de forma diferente e adaptar a maneira de fazer políticas públicas para torná-las mais eficientes e custo-efetivas, aumentando seus impactos e alcance?

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Recordes de Divórcios e Inventários em Cartórios

O movimento nos cartórios foi intenso em 2021. Em meio à pandemia da covid-19, registraram números recordes77,1 mil divórcios 226 mil inventários. Os volumes são os maiores desde 2007, quando passou a ser possível realizar esses procedimentos fora do Judiciário – a autorização está na Lei no 11.441, que completou neste mês 15 anos.

Os recordes não são creditados pelos especialistas apenas à pandemia, que elevou os registros de mortes e acirrou a convivência entre casais, mas também à popularização da lei. Os números, de acordo com o Colégio Notarial do Brasil – Seção São Paulo (CNB-SP), crescem desde 2007.

O período de reclusão, dizem os especialistas, também incentivou as pessoas a colocarem a casa em ordem: inventários antigos foram, enfim, levados aos tabeliães. Nos últimos dois anos, foram 385,7 mil – 159, 6 mil em 2020.

Metade dos inventários no país já é feita em cartórios. Uma das explicações é a rapidez. Podem levar de uma a duas semanas para serem concluídos.

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