Nota de Pesar com o Falecimento do Regis Bonelli

Apesar de ser um leitor e admirador de sua obra, eu só tive três oportunidades de encontrar, pessoalmente, o Regis Bonelli. Minha primeira chefe, no IBGE, era sua amiga e me convidou para um almoço com ele, especialmente para me apresentá-lo. Tive ótima impressão de sua gentileza e educação.

Depois, foram em duas oportunidades de falar no IBRE-FGV em 2015. Eu o lembrei daquele nosso encontro, no final dos anos 70, e ele me tratou com a maior consideração.

Fica o seu exemplo de que um verdadeiro intelectual deve ser uma pessoa cortês e aberta para o diálogo, especialmente com quem não comunga de todas suas ideias.

Reproduzo abaixo os links enviados por JRA (José Roberto Afonso) com sua obra. Continue reading “Nota de Pesar com o Falecimento do Regis Bonelli”

Chora, Direita! Maioria do Eleitorado não é nem Conservadora nem Neoliberal!

Como a mídia brasileira é unilateral, não apresentando um debate público entre as diversas posições políticas e ideológicas existentes na sociedade brasileira, ela “vende” uma ideia de que “tá tudo dominado” pelo conservadorismo. Faz, cotidianamente, o maior esforço para os tucanos elitistas e esnobes não se dividirem em torno da candidatura do governador paulista, “naturalmente”, mas como nem ele nem o prefeito coxinha sobem nas pesquisas eleitorais, já está propagando a ideia de que Boçalnaro dá para ser transformado em um neoliberal manipulável e palatável por O Mercado. Prefere a extrema-direita do que “o populismo” (sic) de Lula. Popularidade para ela é “populismo”, ou seja, não sacanear o povo.

Pior, como já se vê há três anos a campanha da extrema-direita organizada em espalhar o discurso de ódio antipetista por parte dos “haters“, em todos os comentários de qualquer notícia referente ao Lula ou à Dilma, só se lê analfabetos que maltratam o vocábulo para os desancar. Haters é uma designação de origem inglesa e que significa “os que odeiam” ou “odiadores” na tradução literal para a língua portuguesa. O termo hater é bastante utilizado na internet para classificar algumas pessoas que praticam “bullying virtual” ou “cyber bullying“. São aquelas pessoas que provam que o animal humano não evoluiu muito em autocontrole de sua selvageria. Os que odeiam são odientos ou odiosos!

 

Ricardo Mendonça (Valor, 17/11/17) informa que uma pesquisa recém-concluída pelo instituto Ideia Big Data sobre temas comportamentais e econômicos sugere, conforme os formuladores do levantamento, que as posições dos brasileiros são bem menos conservadoras do que tem aparecido nas análises políticas, nos discursos de parlamentares e em manifestações em redes sociais. Continue reading “Chora, Direita! Maioria do Eleitorado não é nem Conservadora nem Neoliberal!”

Perfis dos Investidores Financeiros no Brasil

A pesquisa da ANBIMA sobre a trajetória financeira do brasileiro ganhou dados quantitativos. Uma rápida olhada acima dá para verificar que a diferença substantiva de Educação Financeira entre o Ensino Fundamental e o Ensino Superior é que, entre estes, há mais “sonhadores”. E entre as gerações é de se esperar pela “ordem natural de amadurecimento” que os jovens até 21 anos sejam proporcionalmente mais “sonhadores”. E os velhos baby-boomers planejam menos, afinal, entre 53 e 72 anos, estão na fase de desfrute (consumo) e não de acumulação.

Na primeira etapa, a pesquisa identifica as cinco formas mais comuns das pessoas se relacionarem com dinheiro (veja a descrição e a distribuição de cada um deles no material para download no final do post) que deram origem aos perfis:

  1. despreocupado: 11%,
  2. camaleão: 29%,
  3. construtor: 30%,
  4. sonhador: 8%,
  5. planejador: 22%.

Na segunda fase, os pesquisadores foram às ruas, com ajuda do DataFolha, para saber quantos somos em cada um desses segmentos. Ouviram 2.653 pessoas das classes A, B e C de 130 municípios do Brasil.

O levantamento identificou que para apenas 22% da população, os chamados planejadores, guardar dinheiro é um compromisso. Essas pessoas são consideradas organizadas e têm uma relação forte e sadia com o dinheiro.

O trabalho é parte de uma iniciativa maior, liderada pela área de Educação da ANBIMA, que teve como ponto de partida buscar explicações para a baixa poupança do brasileiro.

[Fernando Nogueira da Costa: simples, posso explicar ou desenhar de graça, é por causa do crescimento em ritmo muito baixo da renda agregada em comparação com o padrão de consumo das diversas classes de renda.] Continue reading “Perfis dos Investidores Financeiros no Brasil”

Educação Financeira: Necessária, Mas Não Suficiente para a Boa Vida

Acho impressionante a capacidade reducionista que tem a “opinião especializada” brasileira, predominantemente, com formação ortodoxa em Economia, de “analisar o mundo a partir do próprio umbigo”!

Essa formação é tão precária a ponto de pessoas incultas — “que se acham superiores aos heterodoxos (sic)” — desconhecerem a diferença entre individualismo metodológico e holismo metodológico. O primeiro estabelece que as explanações sobre os fenômenos sociais, políticos ou econômicos somente devem ser consideradas adequadas se colocadas em termos de crenças, atitudes e decisões dos indivíduos. O segundo, pelo contrário, postula que os conjuntos sociais têm fenômenos sistêmicos que não podem ser reduzidos a crenças, atitudes e ações dos indivíduos que os fazem.

Evidentemente, o conhecimento específico de um macroeconomista “heterodoxo” o dota de uma visão holística que o microeconomista “ortodoxo” desconhece. Exemplo mais comum disso diz respeito ao Paradoxo da Parcimônia: se todos poupam, i.é, cortam gastos, caem as vendas e, em consequência, a renda se torna menor. Como o padrão básico de consumo permanece, ao fim e ao cabo, a posteriori, ex-post, etc., cairá a poupança ao contrário do que esperava a visão individualista e era a intenção da pessoa inicialmente.

Outro equívoco rudimentar dos economistas ortodoxos: não diferenciar entre poupadores — aqueles que, passivamente, verificam a sobra de renda no fim do mês — e investidores — aqueles sujeitos ativos que planejam seu “débito automático” e/ou seu “consignado” (desconto do fluxo de renda recebida) mensal para realizar investimentos. Estes sabem que têm de investir durante 360 meses 20% da renda recebida para, após esses trinta anos, já obter uma renda do capital financeiro suficiente para substituir sua renda do trabalho, isso considerando a taxa de juros média mensal de 0,5%. No Brasil “neoliberal”, esta costuma ser a taxa de juro real…

Adriana Cotias (Valor, 09/11/17) avalia que “as iniciativas de Educação Financeira no país nos últimos anos têm sido insuficientes para incrementar a poupança do brasileiro“. É o que sugere sua leitura de um levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que mostra que apenas cerca de um quarto da população economicamente ativa (24%) faz algum tipo de investimento. Entre os que guardam dinheiro, a maioria pertence à classe A (42%), com a classe C na ponta oposta (18%). E o instrumento preferido daqueles que deram esse passo é a caderneta de poupança, uma via de eficiência questionável.

Esses dados constam na pesquisa “Relatório ANBIMA – Debate-Relação do Brasileiro com Dinheiro“. Na coleta, feita pelo Datafolha em junho, foram ouvidas 2.653 pessoas com mais de 16 anos das classes A, B e C, em 130 municípios de todo o Brasil. O recorte sobre investimentos foi aberto pela Anbima. O estudo confirma um diagnóstico feito pelo Banco Mundial, que em 2014 apontava que os poupadores representavam 28% da população brasileira, metade do percentual em outras economias. Regionalmente, no Brasil se guarda menos dinheiro do que em países com renda per capta menor na América do Sul, caso de Bolívia ou Paraguai.

[Fernando Nogueira da Costa: para se ver o baixo nível da formação ortodoxa brasileira, os economistas, convencionalmente, tomam o dado de poupança na Contabilidade Social para diagnosticar as reservas financeiras individuais! Ora, uma economia depressiva e/ou rastejante, como está a brasileira atualmente, o ritmo de crescimento do fluxo da renda está inferior ao do fluxo de consumo, portanto, a variável contábil residual “poupança macroeconômica ex-post” está muito baixa. E daí? Os haveres financeiros, segundo o indicador M4/PIB, estão em torno de 100% do PIB!] Continue reading “Educação Financeira: Necessária, Mas Não Suficiente para a Boa Vida”

Economia da Felicidade

Aloisio Campelo Junior é economista e Superintendente de Estatísticas Públicas da FGV/IBRE. Publicou artigo (Valor, 21/09/17) sobre tema que dei palestras recentemente: Conversa com Fernando Nogueira da Costa – Economia da Felicidade e da Boa Vida. Registro sua resenha da literatura abaixo.

“O historiador israelense Yuval Harari argumenta em seu best seller “Homo Deus” que a busca pela felicidade será um dos três grandes temas da agenda humana para este século. Ele tem boa chance de estar correto em sua previsão.

Nos últimos 20 anos, medidas de bem-estar subjetivo tornaram-se populares na avaliação do progresso social e econômico das nações, na forma de informação suplementar a indicadores tradicionais como PIB e IDH. A profusão de estudos sobre o assunto levou ao batismo de um novo ramo, a Economia da Felicidade. A relevância dos resultados obtidos até aqui e esperados para o futuro pode ser atestada pelos diversos projetos conduzidos por nações e órgãos multilaterais voltados à compreensão dos fatores determinantes do bem-estar e suas consequências para a política econômica, muitos deles envolvendo prêmios Nobel. Continue reading “Economia da Felicidade”

Do avarento

Os utopianos, habitantes da ilha Utopia, na concepção de Thomas More, em 1516, chamam volúpia todo o estado ou todo movimento da alma e do corpo, nos quais o homem experimenta uma deleitação natural.

Não é sem razão que eles acrescentam a palavra natural, porque não é semente a sensualidade, é também a razão que nos atrai para as coisas naturalmente deleitáveis. Por isto, devemos compreender os bens que se podem procurar sem injustiça, os gozos que não privem de um prazer mais vivo e que não arrastem consigo nenhum mal.

coisas fora da natureza, que os homens, por uma convenção absurda, intitulam prazeres (como se tivessem o poder de transformar a essência tão facilmente como modificam as palavras). Essas coisas, longe de contribuir para a felicidade, são outros tantos obstáculos em seu caminho. Aos que seduzem, elas impedem gozarem satisfações puras e verdadeiras, viciam o espírito, preocupando-o com a ideia de um prazer imaginário.

Há, com efeito, uma quantidade de coisas, às quais a natureza não juntou nenhuma doçura, as quais ela chegou até a misturar de amargura. No entanto, os homens as olham como altas volúpias de algum modo necessárias à vida, apesar de, na sua maioria, serem essencialmente más e só estimular as paixões perversas.

Os utopianos classificam nessa espécie de prazeres bastardos, a vaidade daqueles que se crêem melhores porque usam uma roupa mais bonita. A vaidade desses tolos é duplamente ridícula. Continue reading “Do avarento”

Da Sabedoria dos Utopianos

Nossos insulares da Utopia, segundo Thomas Morus, adquirem tais sentimentos de desprezo da riqueza, parte no estudo das letras, parte na educação que recebem no seio de uma República cujas instituições são formalmente opostas a todas as nossas espécies e gêneros de extravagância.

É verdade que um número muito pequeno é dispensado dos trabalhos materiais [manuais], entregando-se exclusivamente à cultura do espírito. São, como já disse, aqueles que, desde a infância, demonstraram aptidões raras, um gênio penetrante, vocação científica. Mas nem por isso se deixa de dar uma educação liberal a todas as crianças. E a grande massa dos cidadãos – homens e mulheres – consagra, cada dia, seus momentos de repouso e liberdade aos trabalhos intelectuais.

Os utopianos aprendem as ciências em sua própria língua, rica e harmoniosa intérprete fiel do pensamento. Ela é difundida, mais ou menos alterada, sobre uma grande extensão do globo.

Os utopianos nunca tinham ouvido falar de filósofos tão famosos no mundo. Entretanto, fizeram as mesmas descobertas que os visitantes estrangeiros, no terreno da música, da aritmética, da dialética, da geometria. Continue reading “Da Sabedoria dos Utopianos”