Capacitação Artesanal Pragmática

Trabalho manual

Na Parte Dois do livro O Artífice (Rio de Janeiro; Record, 5a. Edição; 2015), Richard Sennett passa a tratar das maneiras como o artífice adquire e desenvolve habilidades físicas e mentais específicas para fazê-lo. A linha-mestra é o progresso no desenvolvimento de uma capacitação. No artesanato, as pessoas podem melhorar com o desenvolvimento de uma “mão inteligente”.

Sennett descreve três ferramentas expressivas capazes de proporcionar orientações para raciocinar sobre o tato, abordar os problemas de coordenação, aprender as lições da força mínima, trabalhar com os olhos para antecipar o que vem pela frente e sustentar a concentração em uma sucessão de etapas:

  1. a ilustração solidária que se identifica com as dificuldades encontradas por um neófito;
  2. a narrativa da cena que coloca o aprendiz em uma situação estranha; e
  3. a instrução pela metáfora que estimula o aprendiz a reconfigurar pela imaginação o que está fazendo.

A necessidade da imaginação manifesta-se no uso das ferramentas. A inventividade permite certo tipo de trabalho de reparação quando elas se revelem limitadas, ou seja, um reparo ou conserto dinâmico.

A imaginação é também necessária para entender e fazer bom uso das ferramentas potentes ou multiuso, cheias de possibilidades inexploradas e talvez arriscadas. Sennett explica a estrutura de um salto intuitivo. Continue reading “Capacitação Artesanal Pragmática”

Artesanato Coletivo: Contradição em Termos?

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Karl Marx, segundo Richard Sennett em O Artífice (Rio de Janeiro; Record, 5a. Edição; 2015), enfatizou que as relações individuais e sociais desenvolvem-se pela confecção de objetos físicos, permitindo “o desenvolvimento completo do indivíduo”. A dignidade do trabalho seria natural às pessoas como parte de uma comunidade. Após o trabalho alienado no capitalismo, o comunismo despertaria novamente o espírito da habilidade artesanal.

A etimologia de devenir é “tornar-se, começar a ser o que não era antes”. Devir é vir a ser, tornar-se, transformar-se, devenir. Refere-se ao fluxo permanente, movimento ininterrupto, atuante como uma lei geral do universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes. Marx concebia um devir otimista, baseado em uma visão do passado pessimista. Por que esse determinismo histórico contraditório?

Na prática, a economia de planejamento central da URSS parece explicar as ruínas do marxismo. As autoridades burocráticas reagiam com alarme a quaisquer iniciativas nos canteiros de obras, temendo que a autogestão local gerasse uma resistência generalizada ao Estado totalitário.

Por estes motivos, o imperativo moral “Faça um bom trabalho por seu país!” soava vazio. Operários desiludidos, tanto em economia centralizada, quanto em economia de livre mercado, resultam em baixa produtividade. Se os trabalhadores qualificados são tratados com indiferença, o espírito de iniciativa é desestimulado. Continue reading “Artesanato Coletivo: Contradição em Termos?”

O Artífice

O Artífice

Artífice é um substantivo de dois gêneros. Refere-se ao trabalhador, operário, artesão que produz algum artefato ou que professa alguma das artes, executando sua arte consoante as encomendas que recebe. Em sentido figurado, é quem inventa ou cria alguma coisa. Portanto, todo autor, seja de trabalho artesanal, seja de trabalho intelectual criativo, pode ser considerado um artífice, desde que seja mestre em sua arte, ou seja, que faça algo com arte.

alienado é aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam. Fica alheado aquele que vive sem conhecer ou compreender os fatores sociais, políticos e culturais que o condicionam e os impulsos íntimos que o levam a agir da maneira que age.

Karl Marx fala a respeito do trabalho alienado no sistema capitalista: o que ou aquele que sofre de alienação. É um contraponto ao trabalho artesanal do modo de produção anterior em transição para a manufatura.

Richard Sennett publicou originalmente em inglês (The Craftsman; 2008) o livro O Artífice, cuja 5a. Edição pela Record foi lançada em 2015 e tive agora a oportunidade de lê-la. A ele parece falsa a divisão estabelecida por Hannah Arendt entre Animal laborens e Homo faber. O primeiro toma o trabalho como um fim em si mesmo. Em contraste, o segundo – “homem que faz” – é o juiz do labor e da prática materiais, não um colega do Animal laborens, mas seu superior. Enquanto o Animal labores está fixado na pergunta “Como?”, o Homo faber pergunta: “Por que?”.

Ele busca falsear a hipótese de Arendt porque ela menospreza o homem prático que trabalha. O pensamento e o sentimento estão contidos no processo de fazer. As pessoas podem aprender sobre si mesmas através das coisas que fazem, a cultura material é importante. O trabalhador intelectual não deve tratar com esnobismo o trabalhador manual. Continue reading “O Artífice”

Pessoas não ouvem as suas próprias vozes como os outros as ouvem

Som de Vozes

Uma voz forte e calma pode melhorar suas chances de chegar ao cargo de diretor-presidente. E uma voz gemida e nasalada, um tom rouco ou um volume estridente pode acabar distraindo os interlocutores.

“As pessoas podem ficar tentadas a dizer: ‘Você pode calar a boca?’, mas elas deixam a questão de lado porque não querem machucar os sentimentos de ninguém”… Continue reading “Pessoas não ouvem as suas próprias vozes como os outros as ouvem”

Confiança, Gratificação e Investimentos (por Aquiles Mosca)

Projeto Iliberal

Aquiles Mosca é estrategista de investimentos pessoais e superintendente executivo comercial do Santander Asset Management. É autor dos livros “Investimentos sob medida” e “Finanças Comportamentais“. Preside o Comitê de Educação de Investidores da Anbima. Publicou (Valor, 11/02/16) mais um artigo interessante sobre esse tema. Compartilho-o abaixo. 

“A cadeira de Neuroeconomia estuda a atividade cerebral das pessoas enquanto estão tomando uma decisão. Decisões individuais e coletivas são cuidadosamente monitoradas com o uso de scanners cerebrais, como a ressonância magnética. Ao analisar as regiões do cérebro que são estimuladas e as substâncias químicas que atuam durante a decisão, os pesquisadores conseguem jogar luz sobre as reais motivações de uma série de comportamentos, muitos deles aparentemente irracionais sob a ótica da teoria econômica e financeira tradicional.

Pesquisas recentes se voltaram à questão da confiança e reciprocidade, particularmente quando recorremos a completos estranhos para cuidar de nosso dinheiro (Zak, Paul J. – 2012). Em tais estudos, ganhou evidência uma substância química existente no cérebro chamada oxitocina. Sua liberação é responsável por gerar sensação de empatia com outros e, consequentemente, confiança. A injeção intencional de oxitocina em participantes do estudo, por meio de spray nasal, aumentou em 80% o comportamento generoso durante um jogo cujo objetivo era mensurar a capacidade de retribuir e recompensar os demais participantes.

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Extinção em Massa

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Elizabeth Kolbert, em “A sexta extinção: Uma história não natural”, cita que David Wake, da Universidade da Califórnia em Berkeley, e Vance Vredenburg, da Universidade do Estado de São Francisco, observaram que “houve cinco grandes extinções em massa ao longo da história da vida em nosso planeta”. Eles descreviam essas extinções como acontecimentos que levaram “a uma perda profunda de biodiversidade”.

A primeira ocorreu no fim do período ordoviciano, cerca de 450 milhões de anos atrás, quando a maioria das criaturas vivas se restringia apenas ao ambiente aquático.

A mais devastadora aconteceu no fim do período permiano, há cerca de 250 milhões de anos, e quase esvaziou o planeta inteiro. Esse evento às vezes é chamado de “a mãe das extinções em massa” ou “o grande extermínio”.

A mais recente ― e famosa ― extinção ocorreu no fim do período cretáceo: além dos dinossauros, foram varridos da face da Terra os plesiossauros, mosassauros, as amonites e os pterossauros.

Qualquer evento que tenha ocorrido apenas cinco vezes desde o surgimento do primeiro animal com espinha dorsal, há cerca de quinhentos milhões de anos, deve ser qualificado como excepcionalmente raro. A ideia de que um sexto evento como esse estaria ocorrendo neste exato momento, mais ou menos diante dos nossos olhos, deixou Elizabeth Kolbert muito impressionada.

Com certeza essa história ― a maior, mais sombria e mais significativa ― também merecia ser narrada. Nós que vivemos hoje em dia somos não apenas testemunhas de um dos eventos mais raros na história da vida, mas também um de seus causadores, p.ex., pelo transporte com “uma pequena ajuda de um amigo”, o Homo sapiens, de uma espécie daninha: o fungo. Continue reading “Extinção em Massa”

A Sexta Extinção

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O livro A Sexta Extinção: Uma História Não Natural (Rio de Janeiro; Editora Intrínseca; original de 2014), de autoria de Elizabeth Kolbert, é vencedor do Prêmio Pulitzer de 2015.

“Houve o surgimento de uma nova espécie de animal humano há mais ou menos duzentos mil anos. A espécie ainda não tem nome ― nada tem nome ―, mas tem a capacidade de nomear as coisas.

Como acontece com qualquer espécie jovem, a situação dessa é precária. Tem poucos membros, que se restringem a uma fatia da África Oriental. A população cresce lentamente, mas é bem provável que logo diminua outra vez ― alguns afirmam que de maneira quase fatal ―, reduzida a apenas alguns milhares de casais.

Os membros da espécie não são particularmente ágeis, fortes nem férteis. Demonstram, contudo, uma engenhosidade singular. Aos poucos, avançam para regiões com climas, predadores e presas diferentes. Nenhum dos obstáculos mais comuns em relação a hábitat ou geografia parece detê-los. Eles atravessam rios, planícies e cadeias de montanhas. Nas regiões costeiras, coletam moluscos; longe do mar, caçam mamíferos.

Em todos os lugares onde se estabelecem, se adaptam e inovam. Ao chegarem à Europa, encontram criaturas muito parecidas com eles mesmos, porém mais robustas e possivelmente mais fortes, que vivem há muito mais tempo no continente. Eles se miscigenam com essas criaturas até, no fim das contas, dizimá-las.”

Este ponto é controverso. O livro de Yuval Noah Harari, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade (São Paulo; Editora L± 2015) apresenta a controvérsia entre a Teoria da Miscigenação e a Teoria da Substituição. Continue reading “A Sexta Extinção”