Quais os motivos para se fazer Ciência?

Um dos objetivos do livro de Ronaldo Pilati, “Ciência e pseudociência: por que acreditamos naquilo em que queremos acreditar”, é fornecer argumentos para desmistificar a ampla visão de a ciência tratar apenas de assuntos áridos e acaba por deixar o sentido das coisas no universo e da própria vida destituído de beleza. Essa concepção é cheia de preconceito e perde de vista a real natureza e significado da Ciência para nossas vidas. Essa característica atribuída à Ciência é mais um dos argumentos de racionalização dos Escaninhos Mentais (EM).

De um lado, está a padronicidade. Ela motiva a buscar conhecimento estável, no qual as predições de compreensão do mundo sejam seguras e certas. Do outro, está o caráter incerto e provisório fornecido pelo conhecimento científico. Tais sistemas de crença são incompatíveis por sua natureza. Como lidamos com esta incompatibilidade? Como acomodar sistemas de crença de bases tão distintas na mesma mente?

A manutenção de sistemas de crença incoerentes começa a ser esclarecida quando nos debruçamos sobre os processos cognitivos da mente. Observa-se a intuitiva adesão de pessoas ignorantes sobre o natural a ideologias infalsificáveis ou sobrenaturais.

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Ciência versus Caráter Infalível da Religião

Louvo todas as religiões, bebo meu bom vinho e deixo o mundo ser mundo…

Afinal, de qual Deus estamos falando? Há quase 5000 nomes de deuses distintos, surgidos ao longo da história humana (Quadro de deuses). Carl Sagan, em um capítulo do livro Variedades da experiência científica, colocou a questão da seguinte forma: se estamos discutindo a ideia de Deus e ficarmos restringido aos argumentos racionais, então é útil saber o que estamos querendo dizer quando falamos “Deus.”

Para os romanos, os cristãos eram ateus. Eles não acreditavam nas entidades dos deuses do Olímpio. Nesse sentido, quando alguém diz não crer em um Deus determinado, ele é ateu com relação a esta divindade. Qual o motivo, portanto, de um Deus em particular ser mais ou menos provável que os Deuses do Olímpio, ou qualquer outro dos 5000 catalogados?

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Pilares de uma Visão Científica e Racional do Universo

Ronaldo Pilati, no livro “Ciência e pseudociência: por que acreditamos naquilo em que queremos acreditar”, aborda o essencial para uma boa compreensão do conhecimento adjetivado como científico. Porém, existem cinco posturas que considero relevantes descrever aqui.

Essas cinco características referem-se a uma postura perante tudo o que você pode saber sobre a realidade e são pilares de uma visão científica e racional do universo. Continuar a ler

Característica Central do Conhecimento Científico

Ronaldo Pilati, no livro “Ciência e pseudociência: por que acreditamos naquilo em que queremos acreditar”, aponta a crescente complexidade do empreendimento científico. Graças aos avanços teóricos, metodológicos e tecnológicos, a ciência feita hoje é diferente daquela feita no passado.

No entanto, apesar das mudanças, há uma característica central, base para todas suas outras características. Esse pilar é a falseabilidade ou falseamento, isto é, ele ser um “conhecimento falseável ou falsificável”. Qualquer conhecimento que tenha por base uma abordagem científica, cética e racional preserva essa característica.

O filósofo da ciência Karl Popper expressou de forma sintética e clara o princípio da falseabilidade como o critério capaz de qualificar um conhecimento como científico. Nessa concepção, qualquer conhecimento não falseável é não científico. Popper definiu o falseamento como o critério para demarcar o conhecimento científico do não científico. Por mais racional e lógico que possa aparecer, o conhecimento não falseável não pode ser considerado científico.

Mas o que viria a ser conhecimento falseável? A falsificação é a possibilidade de confrontar o que sabemos com um critério externo ao nosso pensamento. É colocar à prova nosso entendimento, confrontando nossas crenças que explicam o mundo por meio da observação e da experimentação.

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Apreender a Ciência

Ronaldo Pilati, no livro “Ciência e pseudociência: por que acreditamos naquilo em que queremos acreditar”, pergunta: O que você sabe sobre ciência? O que caracteriza a ciência e o que torna o estudo relatado na notícia científico? Você conhece conceitos científicos e é capaz de avaliar os princípios pelos quais aquele conhecimento adjetivou-se como científico? Como pode um estudo contrariar os resultados de outros? Isso lá pode ser considerado conhecimento científico se os cientistas não conseguem se entender nos resultados de suas pesquisas?

Compreender o que é o conhecimento científico vai bem além de compreender conceitos e ideias científicas ou conhecer a história e a obra de cientistas importantes. Apreender a ciência significa ter uma noção, ao menos básica, de como o conhecimento científico se estrutura e se diferencia de outros sistemas de crença.

Foram dois os propósitos motivadores da redação deste livro.

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Ciência e pseudociência: por que acreditamos naquilo em que queremos acreditar

Ronaldo Pilati apresenta seu livro “Ciência e pseudociência: por que acreditamos naquilo em que queremos acreditar”: “esta obra procura contribuir para a divulgação científica, mais especificamente para divulgar como a ciência funciona e a relação desse funcionamento com a psicologia do conhecimento. Quais as propriedades do conhecimento científico? Como ele se diferencia de outros sistemas de crença explicativos do universo onde vivemos? Quais as características da psicologia do conhecimento? Como a psicologia humana se beneficia do fazer científico para compreender a realidade? Ao longo das páginas deste livro, explico as características do conhecimento científico e sua relação com a psicologia do conhecimento”.

Em primeiro lugar, diferencia conhecimento científico do conhecimento não científico. Existe uma enorme quantidade de publicações e divulgadores (livros, revistas, palestrantes, programas de TV, rádio, instituições etc.) pretendentes a serem lidos e vistos como científicos. Mas apesar da aura acadêmica criada por currículos invejáveis, boa parte desses meios se afasta, de forma intencional ou não, do caráter fundamental do conhecimento científico.

O que caracteriza o conhecimento científico não é o currículo acadêmico de quem lhe transmite o conhecimento, mas sim o fato de sempre reconhecer: o que sabemos pode ser falho. Mas, mesmo eventualmente falho, é útil naquele momento porque existem evidências capazes de sustentarem aquele conhecimento.

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Metas Estratégicas dos Políticos Evangélicos

Afinal, o que querem os políticos evangélicos? Andrea Dip, no livro “Em nome de quem?: A bancada evangélica e seu projeto de poder”, diz não haver uma resposta única para essa pergunta, a verdade absoluta ou um objetivo que seja comum a todos os políticos evangélicos. Mas, a partir da atuação da bancada no Congresso, nos estados e nos municípios do país nas últimas legislaturas, é possível traçar algumas hipóteses.

O desejo de controlar os corpos (principalmente os femininos) e a sexualidade pela religião é antiga e não é exclusividade da Igreja Evangélica. O uso político desse controle também não é novidade. Mas na esfera política atual, principalmente dentro das Casas Legislativas brasileiras, essa tentativa de controle tem sido capitaneada pelos políticos evangélicos de forma coesa e barulhenta:

  1. a proibição do aborto, mesmo em caso de estupro e risco de vida para a mulher – com projetos como a PEC 181/2011, implicando a proibição do uso de Levonorgestrel, conhecido como “pílula do dia seguinte”;
  2. o endurecimento de penas que recairiam sobre as mulheres que realizassem aborto;
  3. a apresentação de projetos que visam a retroceder com os direitos LGBTQ (como o Estatuto da Família, a proibição do uso do nome social por travestis e transexuais, a proibição do casamento e adoção de crianças por casais homoafetivos, a “cura gay”); e
  4. a tentativa de acabar com toda e qualquer discussão sobre gênero nas escolas têm sido as principais proposições dos parlamentares da bancada evangélica.

Os evangélicos só pensam em sexo? Na realidade, as bases culturais cristãs ocidentais, sob o domínio patriarcal, estabeleceram o corpo e o ato sexual como elementos com finalidade exclusiva para a procriação. Elas descartaram a dimensão da corporeidade e da sexualidade relacionada à realização plena do prazer, o que teria resultado na submissão do corpo da mulher e no rechaço à homoafetividade.

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