Dependência de Trajetória: Enriquecimento ou Empobrecimento

Homem-animalA definição de instinto está na diferença entre a mente com a qual nascemos e a mente que formamos, via aprendizado, cultura e socialização. Instinto é, essencialmente, a parte do nosso comportamento que não é fruto de aprendizado. Contudo, nosso ambiente (e, portanto, nosso aprendizado) pode ter uma influência poderosa no modo pelo qual nossos instintos se expressam.

O instinto é constituído de elementos humanos, herdados, de ação, desejo, razão e comportamento. Os instintos básicos, no caso dos humanos, são aqueles que se formaram durante nosso tempo na savana: de sobrevivência, de reprodução, de competição e de proteção. A descoberta da sequência completa do genoma humano revelou que as características herdadas são transmitidas por genes.

Ao longo do ciclos da vida humana contemporânea há certa predominância de uns ou outros instintos em indivíduos e/ou agrupamentos. Durante a fase de vida reprodutiva, os instintos sexuais de reprodução se exacerbam e, junto com eles, os de competição são colocados à prova na disputa por parceiros.

O consumismo exibicionista, para atração do sexo oposto, caso não seja controlado, leva a gastos perdulários. É postura contrária às Finanças Racionais, que sugerem a fase de vida profissional ativa ser a de acumulação de reservas para a aposentadoria e a de vida inativa ser a de consumo dessas reservas. Continuar a ler

“O que você pode fazer com US$ 4 bilhões que não pode fazer com US$ 2 bilhões? Do ponto de vista pessoal, nada!”

livros-felicidade-e-altruismo-matthieu-ricardOuvi pela primeira vez o argumento do título deste post de Thomas Piketty, dando um “passa-fora, moleque” no insistente André Lara Resende, no Programa Roda-Viva da TV Cultura, que o importunava repetindo, continuamente, o argumento neoliberal que “o combate ao enriquecimento tira o incentivo da criação da riqueza por inovação”. Retrucou Piketty: “Acho que Bill Gates não perderia o incentivo a impulsionar à criatividade da Microsoft se sua fortuna acima de US$ 1 bilhão fosse tributada…”

Para Matthieu Ricard, monge budista francês de 69 anos, o budismo e a ciência estão próximos. Doutor em Biologia Molecular pelo Instituto Pasteur, aos 26 anos ele encontrou seu lugar nos contrafortes do Himalaia, ao lado de mestres budistas. Permaneceu no anonimato até escrever um livro de diálogos com o pai, “O Monge e o Filósofo” (1997), best-seller na França traduzido para 21 idiomas.

A Palas Athena, associação sem fins lucrativos, está lançando seu livro “A Revolução do Altruísmo” (715 páginas, R$ 82). Esse é o tema que o leva a percorrer o mundo desde 2013, quando a obra foi publicada na França, onde já está na sétima edição. O que tenta provar, após cinco anos de pesquisas e estudos com cientistas, é que a natureza humana é mais generosa e menos egoísta do que se propaga.

Ele tem noção de que, pelo fato de também ser um biólogo, suas ideias encontram outro eco. “Quando falo em altruísmo, em comportamento animal, as pessoas param para escutar pois o fato de ter uma base científica me dá credibilidade – o que não aconteceria com qualquer pessoa.”

Segundo ele, um dos ideais do budismo é diminuir a distância entre as aparências e a realidade. “Isso está no coração do budismo e a meu ver no coração da ciência. É aí que eles se encontram.”

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Reação Política à Associação entre Cristandade e Valores Políticos Conservadores

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Max Weber baseou seu clássico livro “A Ética Protestante e O Espírito do Capitalismo” no protestantismo ascético professado nos Estados Unidos. Isso ocorreu no Século XIX, quando lá não havia ainda se desenvolvido um sistema bancário com rede de agências integradas, portanto, uma Economia de Endividamento. Então, justificava-se, economicamente, a louvação à parcimônia (“dinheiro debaixo-do-colchão”) para o autofinanciamento. Depois, o fundamentalismo de O Mercado levou a América tornar-se a sociedade mais materialista e consumista do mundo

Nate Cohn (The New York Times, 12/05/15) informa que a proporção de cristãos entre os adultos dos Estados Unidos caiu acentuadamente de 2007 para cá, o que afeta quase todas as grandes tradições e denominações do cristianismo no país e cruza linhas de idade, raça e religião, de acordo com uma extensa pesquisa do Pew Research Center.

Em 2014, 71% dos norte-americanos adultos se definiam como cristãos, a menor proporção já registrada em qualquer pesquisa com grande número de respondentes até hoje, e uma queda de cinco milhões de adultos e sete pontos percentuais desde uma pesquisa anterior do Pew sobre o assunto em 2007.

A parcela de cristãos na população dos EUA vem declinando há décadas, e o ritmo desse declínio acompanha ou até excede o das mais significativas tendências demográficas do país, como o crescimento da população hispânica. Além disso, a mudança não se confina às duas costas, às grandes cidades, aos jovens ou a outros grupos mais progressistas e laicos onde seria de esperar que ela se manifestasse.

“O declínio está acontecendo em todas as regiões do país, incluindo o Bible Belt [a região em que o protestantismo evangélico é mais forte, no sudeste e centro-sul dos EUA]”, disse Alan Cooperman, diretor de pesquisa religiosa do Pew Research Center e o autor primário do relatório.

[FNC: Curiosamente, escutei da deputada federal Erika Kokay, uma sindicalista e política que reside em Brasília desde 1975, graduada em Psicologia na Universidade de Brasília, onde participou do movimento estudantil, sendo bancária da Caixa Econômica Federal desde 1982, um discurso em que definiu o atual Congresso Brasileiro como dominado por um BBB: Boi (bancada rural), Bala (bancada direitista) e Bíblia (bancada dos fundamentalistas religiosos). Eu acrescentaria mais um B (bancada da bola que defende a máfia do futebol)…]

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Possíveis Mudanças Econômicas no Caso da Islamização da França

Capa Submissao_Alfaguara para novo padrao.inddE quais serão as possíveis mudanças econômicas no caso da islamização da França?

(…) “de modo geral, a França recuperava um otimismo que não conhecera desde o fim dos Trente Glorieuses [período de grande crescimento econômico que vai de 1945 a 1975], meio século antes. O início do governo de união nacional instalado por Mohammed Ben Abbes foi unanimemente saudado como um sucesso, nunca um presidente da República recém-eleito se beneficiara de tamanho ‘estado de graça’, todos os comentaristas estavam de acordo sobre isso.

Eu costumava repensar no que Tanner me dissera, nas ambições internacionais do novo presidente, e notei com interesse uma informação que passou praticamente despercebida: a retomada das negociações sobre a adesão próxima do Marrocos à União Europeia; quanto à Turquia, já fora definido um calendário. Portanto, a reconstrução do Império romano estava em marcha, e no plano interno Ben Abbes tinha uma trajetória impecável.

A consequência mais imediata de sua eleição foi a diminuição da delinquência, e em proporções enormes: nos bairros mais problemáticos, ela despencou para menos de um décimo do total.

Outro sucesso imediato foi o desemprego, cujas taxas estavam em queda livre. Isso se devia, sem a menor dúvida, à saída maciça das mulheres do mercado de trabalho — e isso estava por sua vez ligado à considerável revalorização dos abonos familiares, primeira medida apresentada, simbolicamente, pelo novo governo. O fato de que o pagamento fosse condicionado à cessação de toda atividade profissional provocara, no início, uma certa chiadeira da esquerda; mas, diante das estatísticas do desemprego, o ranger de dentes logo parou. Continuar a ler

Submissão

Michel HouellebecqOs francófilos amantes dos valores da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – não podem deixar de ler o imperdível livro de ficção política de Michel Houellebecq, “Submissão”. Este título é a tradição de “Islã” em árabe. O protagonista-narrador é um professor universitário de Literatura, especialista em Joris-Karl Huysmans (1848-1907). Este foi um escritor francês e crítico de arte, primeiramente associado a Émile Zola e ao grupo de naturalistas. Depois, juntou-se ao Movimento Decadente Francês. A conversão de Huysmans, do Satanismo ao Catolicismo, da obsessão por sensações bizarras à busca da vida espiritual, pode ser seguida em livros como “A rebours” (1884), “Là-bas” (1891) e “La cathèdrale” (1898).

O professor universitário solteirão torna-se o alter ego – termo cunhado por Freud para conceituar coisas que estão no Ego de uma determinada pessoa, as quais podem ser transferidas para uma outra, que passa a funcionar como se fosse uma duplicata da primeira pessoa – de Huysmans. Vive o tédio de sua crise de meia-idade como observador crítico do cenário político da França a partir da eleição presidencial de 2022. De quebra, converte-se em um participante ativo na mudança de costumes impostas pelo islamismo nos desejados valores libertários, igualitários e fraternos dos franceses.

Em misto de ceticismo, cinismo e niilismo substituído por oportunismo, ele expõe sua verve irônica neste best-seller que seria lançado no dia do ataque do terrorismo islamita ao Charlie Hebdo. Na última edição antes do crime, que definiu “Submissão” como “golpe de mestre”, a capa era uma caricatura de Houellebecq, também ele alvo de blague. Após o atentado, o autor cancelou a divulgação da obra e deixou Paris.

Assim como, provavelmente, todos os leitores franceses, li o pequeno livro de ponta a ponta (225 páginas), em um só fôlego, na viagem de 12 horas em ida-e-volta de avião Campinas- Belém do Pará-Campinas. Fui lá, em um bate-e-volta, para dar uma palestra. É envolvente sua narrativa a respeito da cena política contemporânea da França e da perspectiva geopolítica europeia e islâmica. Imaginem todas as consequências de a centro-esquerda e a centro-direita se aliarem com um candidato islamita contra a candidata Marine Le Pen da Frente Nacional, partido xenófobo de extrema-direita, no segundo turno da eleição presidencial.

Leia pequenos trechos de: Michel Houellebecq, “Submissão”. Continuar a ler

Milionários: Quando o bastante basta? Por que os afortunados não conseguem se livrar da rotina do enriquecimento?

Mobilidade Social dos Milionários

Quem pensa que os milionários têm a vida ganha está muito enganado. Assim como pessoas com um padrão considerado normal, indivíduos de alta renda lutam para manter a riqueza adequada aos seus estilos de vida, que não tendem a ser modestos.

Mas não é só isso. Como alerta a Teoria da Classe Ociosa, livro de autoria de Thorstein Veblen (1857-1929), publicado em 1899, época dos chamados Barões Ladrões nos EUA, dominada por novos magnatas como Vanderbilt (das ferrovias) e Rockfeller (do petróleo), entre outros poucos, é custoso para os milionários demonstrar que não necessitam trabalhar, manualmente, como os servos e escravos, na época, recentemente libertados.

O esnobismo — atitude de quem despreza o relacionamento com gente humilde e imita, geralmente de maneira afetada, o gosto, o estilo e as maneiras de pessoas de prestígio ou alta posição social, e/ou assume ares de superioridade a propósito de tudo com um sentimento de superioridade exacerbado e gosto excessivo pelo que está na moda, inclusive as trivialidades — custa caro, não só em dinheiro e tempo, mas também em termos comportamentais:

  1. pressão para manter o padrão de vida,
  2. preocupação com o impacto da fortuna sobre os valores dos filhos,
  3. arrependimento por não dedicar tempo suficiente à família,
  4. temores em relação ao futuro financeiro das próximas gerações,
  5. busca incessante por aumentar o patrimônio.

Aí, que canseira… Cansei. Mesmo não sendo de direita como os idiotas em voga…

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A Economia em Machado de Assis: O Olhar Oblíquo do Acionista

A Economia em Machado de Assis

Machado de Assis escreveu cerca de seiscentas crônicas entre 1883 e 1900, muitas delas publicadas em jornais da época e que trataram de temas importantes como a Abolição da Escravatura, o Encilhamento e a Proclamação da República. A partir desse material historiográfico, o economista e ex-presidente do Banco Central, Gustavo H.B. Franco, produziu uma seleção inédita de textos do escritor, que tratam de temas econômicos e financeiros da época.

Além da seleção, Franco introduz e comenta os textos de Machado, contextualizando os fatos que ganharam a atenção e o olhar do cronista. A Economia em Machado de Assis é, assim, uma contribuição historiográfica que oferece a chance de visitar o passado econômico brasileiro, na passagem do século XIX para XX, com a companhia de um dos grandes escritores da literatura mundial e um dos economistas cultos do país.

Leia como exemplo da ironia e da crítica de costumes sociais de sua época uma crônica de Machado de Assis publicada em 4 de julho de 1883. Mutatis mutandis (mudando o que tem de ser mudado), adapta-se ao nosso tempo de uso (e abuso) mal-educado dos celulares em espaços públicos… Continuar a ler