Raízes Institucionais do Consumismo

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Desde a última década do século 17, mudanças sociais na Europa começaram a criar os fundamentos para o surgimento do consumismo. O aumento populacional e uma base fundiária fixa, aliados ao enfraquecimento de fontes tradicionais de autoridade, tal como a igreja e estruturas sociais comunitárias, fizeram com que o percurso usual de um jovem rumo ao progresso social – herdar o pedaço de terra familiar ou o ofício do pai – deixasse de ser o caminho óbvio. As pessoas passaram a buscar novos canais de identificação e autossatisfação, sendo que a aquisição e uso de bens passaram a ser substitutos admirados.

Enquanto isso, os empreendedores rapidamente tiraram proveito dessas mudanças para estimular a compra de seus artigos: utilizando novas modalidades de propaganda e aprovação de gente de prestígio, expondo produtos à venda, vendendo produtos abaixo do preço de custo como forma de atrair clientes para a loja, recorrendo a opções criativas de financiamento, inclusive pesquisa com o consumidor, e atiçando novas modas passageiras. Continue reading “Raízes Institucionais do Consumismo”

Consumismo em Diferentes Culturas

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Continuamos apresentando os argumentos expressos no capítulo “Ascensão e Queda das Culturas de Consumo“, escrito por Erik Assadourian, no relatório Estado do Mundo em 2010, publicado pela WorldWatch.

Para entender o que é consumismo, é necessário primeiramente entender o que é cultura. Cultura não se resume simplesmente às artes, ou aos valores, ou aos sistemas de crença. Não é uma instituição distinta funcionando ao lado de sistemas econômicos ou políticos. Ao contrário, são todos esses elementos – valores, crenças, costumes, tradições, símbolos, normas e instituições – combinados para criar as matrizes abrangentes que forjam o modo como os homens percebem a realidade.

Em função de existirem sistemas culturais distintos, uma pessoa pode interpretar um ato como insultante e outra pode considerálo amável – como por exemplo, fazer um sinal com o “polegar para cima” é um gesto extremamente vulgar em certas culturas. A cultura leva algumas pessoas a crer que os papéis sociais são designados pelo nascimento, determina onde os olhos da pessoa devem focar ao conversar com outra, e até mesmo dita que formas de relacionamentos sexuais (como monogamia, poliandria, ou poligamia) são aceitáveis.

As culturas, como sistemas mais amplos, são provenientes de interações complexas entre muitos elementos diferentes de comportamentos sociais e guiam os homens em um nível quase invisível. Elas são, nas palavras dos antropólogos Robert Welsch e Luis Vivanco, a soma de todos os “processos sociais que fazem com que aquilo que é artificial (ou construído pelos homens) pareça natural”. São esses processos sociais – a interação direta com outras pessoas e com artefatos ou “coisas” culturais, a exposição na mídia, leis, religiões e sistemas econômicos – que constroem as realidades dos povos. Continue reading “Consumismo em Diferentes Culturas”

Ausência de Sustentabilidade dos Atuais Padrões de Consumo

https://i0.wp.com/www.wwiuma.org.br/estado_2010.pdf
http://www.wwiuma.org.br/estado_2010.pdf

Desenvolvimentismo e Ambientalismo têm discordâncias a respeito do consumismo. Para os primeiros, o crescimento da demanda fomenta o desenvolvimento. Para os últimos, esse desenvolvimento não seria sustentável. Para os social-desenvolvimentistas, os ecologistas necessitam de, em vez de propor crescimento zero e manutenção do status quo, imaginar uma solução para alterar a condição de miséria social com políticas de emprego e distribuição de renda e sem regressão histórica a um suposto idílico passado sem consumismo.

Vamos ter empatia e nos colocar no lugar dos ambientalistas. Leiamos seus argumentos expressos no capítulo “Ascensão e Queda das Culturas de Consumo“, escrito por Erik Assadourian, no relatório Estado do Mundo em 2010, publicado pela WorldWatch ( WWW.WORLDWATCH.ORG.BR).

Em 2006, pessoas no mundo todo gastaram US$ 30,5 trilhões em bens e serviços (em dólares de 2008). Esses dispêndios incluíram necessidades elementares, como alimentação e moradia. No entanto, com o aumento da renda discricionária, as pessoas passaram a gastar mais em bens de consumo: alimentos mais pesados, moradias maiores, televisões, carros, computadores e viagens de avião. Só em 2008, pessoas no mundo todo compraram 68 milhões de veículos, 85 milhões de geladeiras, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhão de telefones móveis (celulares).

O consumo teve um crescimento tremendo nos últimos cinquenta anos, registrando um aumento de 28% em relação aos US$ 23,9 trilhões gastos em 1996 e seis vezes mais do que os US$ 4,9 trilhões gastos em 1960 (em dólares de 2008). Parte desse aumento é resultante do crescimento populacional, mas o número de seres humanos cresceu apenas a uma razão de 2,2 entre 1960 e 2006. Sendo assim, os gastos com consumo por pessoa praticamente triplicaram. Continue reading “Ausência de Sustentabilidade dos Atuais Padrões de Consumo”

Fone Antirruído

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Geoffrey A. Fowler (WSJ, 24 de Junho de 2016) publicou uma reportagem que compartilho abaixo, dado o interesse de todos os “urbanoides” e de gente como eu, que mora “quase-na-roça” (ao lado do Campus da Unicamp), mas possui como vizinhos cachorros cujos donos viajam e abandonam os infelizes latindo, dia-e-noite, continuamente, para a infelicidade de todos que os escutam…

Às vezes, tudo o que você quer é que o mundo se cale.

O estrondo de um jato, o barulho de uma estação de metrô e o murmúrio de um escritório conspiram para tirar a sua concentração. Suas opções:

1) Mudar para a floresta e deixar os aviões, metrôs e colegas de trabalho para trás.

2) Ficar surdo, aumentando o volume de seu fone de ouvidos para 11.

3) Usar a tecnologia para superar a cacofonia.

Recomendo os fones de ouvido que bloqueiam ruídos, já utilizado por pilotos e motoristas e que são tão convenientes que merecem ser avaliados por passageiros de metrô e moradores de pequenos apartamentos.

  • Os fones de ouvidos normais apenas cobrem seus ouvidos e tentam ser mais barulhentos que tudo o mais.
  • Os que bloqueiam ruídos externos usam microfones e software para detectar e eliminar o som, antes que ele atinja seus ouvidos.

O resultado: paz e silêncio — ou um áudio limpo. Continue reading “Fone Antirruído”

10 Feirinhas Culturais em São Paulo

Feira Boliviana

Assim como o Brasil é multi-étnico — embora já tenha sido mais democrático entre 1985 e 2015, antes do golpe de 2016 –, São Paulo é uma cidade multicultural, tem feira livre e feirinha gastronômica de vários povos através de seus imigrantes italianos, japoneses, bolivianos, árabes, africanos, etc.  Conheça as 10 melhores feiras com comida típica em SP segundo o site Momondo:

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Difusão da Pressão pela Previdência e Autocontrole

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Norbert Elias, no segundo tópico da Sinopse “O Processo civilizador: volume 2 – Formação do Estado e Civilização”, afirma que o que empresta ao processo civilizador no Ocidente seu caráter especial e excepcional é o fato de que, aqui, a divisão de funções atingiu um nível, os monopólios da força e tributação uma solidez, e a interdependência e a competição uma extensão, tanto em termos de espaço físico quanto do número de pessoas envolvidas, que não tiveram iguais na história mundial.

Até então, redes extensas de moeda ou comércio, com monopólios razoavelmente estáveis de força física em seus centros, haviam se desenvolvido quase exclusivamente ao longo de vias navegáveis, isto é, acima de tudo nas margens de rios e costas de oceanos. As grandes áreas do interior permaneciam mais ou menos no nível da economia de troca, isto é, as pessoas continuavam na maior parte autárquicas e eram curtas suas cadeias de interdependência, mesmo quando algumas artérias de comércio cruzavam as áreas e existiam alguns grandes mercados.

Tendo a sociedade ocidental como ponto de partida, desenvolveu-se uma teia de interdependência que não só abrange os oceanos em maior extensão do que em qualquer tempo no passado, mas se estende às terras aráveis mais distantes do interior remoto.

Correspondendo a tudo isso, surgiram a necessidade de sincronização da conduta humana em territórios mais amplos e a de um espírito de previsão no tocante a cadeias mais longas de ações como jamais haviam existido. Ocorreu ainda o fortalecimento do autocontrole e a permanência das compulsõesa inibição de paixões e o controle de pulsões — impostas pela vida no centro dessas redes. Continue reading “Difusão da Pressão pela Previdência e Autocontrole”

O Processo Civilizador: Volume 2 – Formação do Estado e Civilização

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Na apresentação do livro “O Processo civilizador: volume 2 – Formação do Estado e Civilização”, Renato Janine Ribeiro informa que o autor “Norbert Elias demorou a ser reconhecido, ou sequer conhecido, no mundo acadêmico. Ele faleceu a 1º de agosto de 1990, em idade avançada — menos de dois meses antes, completara noventa e três anos. E no entanto, embora tenha escrito este Processo Civilizador na década de 1930 (primeira edição, 1939, na Suíça), somente nos anos 70 é que ele alcançou um reconhecimento mais amplo, começando sua obra a ser citada e a inspirar novas pesquisas. Com efeito, muitas questões que se consideravam menores, por exemplo a da etiqueta ou das boas maneiras, adquiriram, graças ao uso que Elias fez da ideia de “processo”, um sentido. Provavelmente, aliás, é a questão do sentido que deve nortear uma apreciação das indicações mais notáveis desse sociólogo de vocação interdisciplinar”.

O Volume I de O Processo Civilizador intitula-se Uma história dos Costumes. Ele consiste de dois capítulos. O Volume II, publicado em inglês pela primeira vez em 1982, consistia inicialmente do Capítulo 3 (em duas Partes) e de uma Sinopse. Essas divisões são designadas na edição da Zahar como Parte I (composta de dois capítulos) e Parte II: Sinopse.

Ao olhar para o passado, não devemos nunca nos esquecer que a sociedade humana se torna predominantemente urbana há pouco tempo. Em dimensão planetária, isso ocorreu em 2010, quando a população urbana chinesa ultrapassou a rural. No Brasil, o Censo Demográfico de 1970 registrou essa ultrapassagem. Na Índia, com apenas cerca de 1/3 de sua população morando em cidades, embora tenha o maior número de grandes metrópoles do mundo, isso ainda demorará algumas décadas para ocorrer.

Antes, em uma sociedade rural, a riqueza predominante era constituída pela posse de terras. Houve época em que a conquista de terras se dava pela força da violência…

As lutas entre a nobreza, a Igreja e os príncipes por suas respectivas parcelas no controle e produção da terra prolongaram-se durante toda a Idade Média. Nos séculos XII e XIII, emerge mais um grupo como participante nesse entrechoque de forças: os privilegiados moradores das cidades, a “burguesia”. Continue reading “O Processo Civilizador: Volume 2 – Formação do Estado e Civilização”