Todos Contra Todos: O Ódio Nosso de Cada Dia

Leandro Karnal, no livro “Todos contra todos: O ódio nosso de cada dia”, diz ter havido uma regra desde o golpismo instalado após a reeleição da Dilma: “Não apenas me oponho a você, mas você é o obstáculo para o progresso brasileiro.” Ou: “O Brasil seria um bom lugar se você não existisse.” Daí cresce o ódio diante das mazelas políticas, porque se interpreta tudo de ruim a ocorrer no Brasil nascer do outro.

Em determinado momento do processo de golpe contra a Dilma, Karnal disse nas redes sociais e em palestras: “ele seria a pessoa mais feliz do momento se acreditasse a corrupção no Brasil estar ligada, exclusivamente, a uma pessoa ou a um partido”. Algo tão óbvio poderia ser considerado uma platitude. No entanto, foi atacado por centenas de pessoas, acusando-lhe de ser pró-governo Dilma e um petista.

Caiu o governo do PT, subiu o grupo oposto, e as denúncias de corrupção continuaram. É evidente a corrupção não ter terminado com o rito aparentemente legal do impeachment. Apesar de todos os governos terem casos de corrupção – Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer – Karnal estava dizendo os atos corruptos, denúncias e escândalos não se restringirem a um partido, ainda se, eventualmente, um ou outro partido se destacassem em dado momento.

Mas a corrupção é institucional e endêmica. Portanto, não seria a solução a queda de uma pessoa para resolver o problema da corrupção. Continue reading “Todos Contra Todos: O Ódio Nosso de Cada Dia”

Argumentar e Escrever

Antônio Suarez Abreu, no livro “A Arte de Argumentar – Gerenciando Razão e Emoção”, indica: argumentar não é tentar provar o tempo todo que temos razão, impondo nossa vontade. Aqueles que agem assim não passam de pessoas irritantes e quase sempre mal-educadas.

Argumentar é, em primeiro lugar, convencer, ou seja, vencer junto com o outro, caminhando ao seu lado, utilizando, com ética, as técnicas argumentativas, para remover os obstáculos que impedem o consenso.

Argumentar é também saber persuadir, preocupar-se em ver o outro por inteiro, ouvi-lo, entender suas necessidades, sensibilizar-se com seus sonhos e emoções. A maior parte das pessoas, neste mundo, só é capaz de pensar em si mesma. Por isso, o indivíduo que procura pensar no outro, investir em sua autoestima, praticamente não enfrenta concorrência.

Argumentar é motivar o outro a fazer o que queremos, mas deixando que ele faça isso com autonomia, sabendo que suas ações são frutos de sua própria escolha. Afinal, as pessoas não são máquinas esperando ser programadas.

Persuadir é ter certeza de que o outro também ganha com aquilo que ganhamos. É saber falar menos de si e do que se quer, e mais do outro e do que é importante para ele.

Argumentar é também saber dosar, “na medida certa”, o trabalho com ideias e emoções. A “medida certa” é gastar mais tempo em persuadir do que em convencer. Uma boa proporção é utilizar trinta por cento do tempo convencendo e setenta por cento persuadindo.

É preciso o educador, em primeiro lugar, ouvir os alunos, conhecer suas histórias pessoais, seus desejos e sonhos, procurando saber o que os está motivando intrinsecamente. O que as crianças querem é respeito, atenção, ver sentido naquilo que estão aprendendo. O que elas não querem é ser vigiadas e controladas como se fossem vagabundos ou delinquentes em potencial.

Afinal, educadores devem procurar mostrar às crianças um mundo mais livre, mais atraente e humano – e não se aliar à repressão doméstica de muitos pais. Por mais absurdo que pareça, as maiores violências contra as crianças são cometidas pelos próprios pais. Violência de toda ordem: física, moral, sexual etc.

Outra tarefa dos educadores é ensinar a ler e escrever. Estimulados, os alunos deverão sentir o prazer da criação – e se desenvolverão por conta própria. Continue reading “Argumentar e Escrever”

Hierarquia de Valores

Antônio Suarez Abreu, no livro “A Arte de Argumentar – Gerenciando Razão e Emoção”, distingue os valores. Eles podem ser concretos, como os bens ou os ativos, ou abstratos, como justiça, amizade e honestidade. Esses últimos são valores ao mesmo tempo sensíveis e úteis.

Um outro dado fundamental é os mesmos valores não serem impostos a todo mundo. Eles estão ligados à multiplicidade de grupos e de emoções. Quem quer persuadir deve saber previamente quais são os verdadeiros valores de seu interlocutor ou do grupo constituinte do seu auditório.

Os valores de uma pessoa não têm, obviamente, todos eles a mesma importância. Tanto A expressão HIERARQUIA DE VALORES é largamente utilizada. Em um processo persuasivo, a maneira como o auditório hierarquiza os seus valores chega a ser, às vezes, até mais importante do que os próprios valores em si.

Na verdade, o que caracteriza um auditório não são os valores que ele admite, mas como ele os hierarquiza. De fato, se dois grupos de pessoas possuem os mesmos valores, mas em escalas diferentes, acabam por configurar dois grupos diferentes.

As hierarquias de valores variam de pessoa para pessoa, em função da cultura, das ideologias e da própria história pessoal. Não se deve falar em corda na casa de um enforcado.

A exploração das hierarquias é um campo extraordinário. Em um processo persuasivo, é mortal rejeitar um valor do auditório. Imagine alguém, diante de uma assembleia de boçalnazis, dizer que “o mito” deles não tem condições morais e intelectuais de ganhar a eleição!

Mas, como descobrir a hierarquia de valores do outro? Pela intensidade de adesão a eles. A intensidade de adesão a valores diferentes sinaliza uma escolha hierárquica. Fatores culturais, históricos e ideológicos influem na elaboração dos valores e hierarquias.

A casta dos guerreiros-militares tem como valores a competição, a glória, a fama, a violência, a vingança, a honra, e coisas como tais desdenhadas pela casta dos sábios-universitários. Estes hierarquizam no topo de seus valores morais: educação, especialização de conhecimento, autonomia, auto expressão, liberalismo cultural e de costumes. Continue reading “Hierarquia de Valores”

Cuidado com as Falácias Não Formais

Antônio Suarez Abreu, no livro “A Arte de Argumentar – Gerenciando Razão e Emoção”, adverte: muitas vezes, somos levados a acreditar em argumentos falsos, mas que têm um certo poder de nos atingir psicologicamente. São as Falácias não Formais. É muito importante que aprendamos a nos defender delas. As principais são as seguintes.

A Conclusão Inatingente é um argumento capaz de tirar uma conclusão indevida de um fato ou princípio. Por exemplo, a Teoria do Domínio do Fato foi levianamente usada para criminalizar o PT e o Lula.

Ora, imaginar um crime – financiamento eleitoral com dinheiro de empresa estatal – poder ter sido cometido por uma pessoa notável, pressuposta “ter conhecimento de causa”, pode ser mais chocante, emocionalmente, do que o cometido por pessoas estranhas, mas não se pode tirar daí a conclusão de que o réu acusado desse crime seja culpado.

Isso só pode ser feito levantando provas, testemunhos sem “delação premiada”, etc., mas não por esse tipo de raciocínio. O réu só poderá ser condenado se, de fato, comprovadamente, tiver cometido o crime que lhe é imputado. Continue reading “Cuidado com as Falácias Não Formais”

Processo Argumentativo

Antônio Suarez Abreu, no livro “A Arte de Argumentar – Gerenciando Razão e Emoção”, ensina: “ao iniciar um processo argumentativo, visando ao convencimento, não devemos propor de imediato nossa tese principal, a ideia que queremos ‘vender’ ao nosso auditório. Devemos, antes, preparar o terreno para ela, propondo alguma outra tese, com a qual nosso auditório possa antes concordar.”

Essa tese preparatória chama-se TESE DE ADESÃO INICIAL. Se o auditório concordar com ela, a argumentação ganha estabilidade, pois é fácil partir dela para a tese principal. As teses de adesão inicial fundamentam-se em FATOS ou em PRESUNÇÕES. As presunções são suposições fundamentadas dentro do normal ou verossímil.

Técnicas argumentativas são os fundamentos capazes de estabelecerem a ligação entre as teses de adesão inicial e a tese principal. Essas técnicas compreendem dois grupos principais:

  1. os argumentos quase lógicos e
  2. os argumentos fundamentados na estrutura do real.

Utilizando essa técnica, o argumentador procura demonstrar a tese de adesão inicial, com a qual o auditório previamente concordou, ser compatível ou incompatível com a tese principal. Continue reading “Processo Argumentativo”

Condições da Argumentação

Antônio Suarez Abreu, no livro “A Arte de Argumentar – Gerenciando Razão e Emoção”, ensina: “a primeira condição da argumentação é ter definida uma tese e saber para que tipo de problema essa tese é resposta. Se queremos vender um produto, nossa tese é o próprio produto. Mas isso não basta. É preciso saber qual a necessidade que o produto vai satisfazer. Um bom vendedor é alguém capaz de identificar necessidades e satisfazê-las.”

Fernando Nogueira da Costa: a paz se elevou quando houve divisão do trabalho e os comerciantes tiveram de negociar com seus fornecedores – e não lhes matar para conquistar seus territórios e produzir por conta própria. Era necessária a empatia: saber se colocar no lugar do outro para lhe fazer uma proposta aceitável por ambos negociantes.

No plano das ideias, as teses são as próprias ideias defendidas com argumentos válidos, mas é preciso saber quais as perguntas estão em sua origem. Se eu quero vender a ideia de ser preciso sempre poupar um pouco de dinheiro, eu tenho de saber qual é a resposta à pergunta básica: – O que eu faço com o dinheiro que recebo? Para saber isso, é necessária a Educação Financeira.

Muitas pessoas se queixam de suas boas ideias nunca serem levadas em consideração. Essas pessoas não percebem essas ideias serem respostas a perguntas feitas a si mesmas, dentro de suas cabeças. Ora, de nada adianta lançar uma ideia para um grupo se ele não conhece a pergunta para a qual ela é a resposta. Continue reading “Condições da Argumentação”

Retórica

A retórica, ou arte de convencer e persuadir, surgiu em Atenas, na Grécia antiga, por volta de 427 a.C., quando os atenienses estavam vivendo a primeira experiência de democracia de que se tem notícia na História. Ora, dentro desse novo estado de coisas, sem a presença de autoritarismo de qualquer espécie, era muito importante que os cidadãos conseguissem dominar a arte de bem falar e de argumentar com as pessoas, nas assembleias populares e nos tribunais.

Para satisfazer essa necessidade, afluíram a Atenas mestres itinerantes que tinham competência para ensinar essa arte. Eles se autodenominavam SOFISTAS, sábiosprofessavam a sabedoria.

Como mestres itinerantes, os sofistas faziam muitas viagens e, por esse motivo, conheciam diversos usos e costumes. Isso lhes dava uma visão de mundo muito mais abrangente do que tinham os atenienses da época e lhes permitia mostrar a seus alunos uma questão poder admitir diferentes pontos de vista. Alertavam: muitos dos comportamentos humanos não eram naturais, mas criados sim pela sociedade.

O verdadeiro sábio é capaz de julgar as coisas segundo as circunstâncias em que elas se inserem – e não quem pretende expressar verdades absolutas.

A retórica, ao contrário da filosofia da época, professada principalmente por Sócrates e Platão, trabalhava, pois, com a teoria dos pontos de vista ou paradigmas, aplicados sobre os objetos de seu estudo. Por esse motivo, foi inevitável o conflito entre retóricos ou sofistas, de um lado, e os filósofos, de outro, pensadores de dicotomias como verdadeiro/falso, bom/mau etc. O pensamento preto ou branco já existia. Continue reading “Retórica”