Luta Coletiva pela Cidadania: Conquista de Direitos e Cumprimento de Deveres

Mark Lilla é historiador, cientista político e professor da Universidade Columbia, nos Estados Unidos. Autor de O progressista de ontem e o do amanhã (Companhia das Letras), participou do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre e São Paulo. Ruan de Sousa Gabriel (Época, n. 1066, 03/12/18) o entrevistou. Compartilho abaixo para a reflexão e a renovação do pensamento da esquerda democrática.

1. O que é liberalismo identitário e por que o senhor argumenta que ele é despolitizador?

Na história recente dos Estados Unidos, houve dois tipos de política identitária. A primeira, dos anos 50 a 70, defendia os direitos de afro-americanos, mulheres e gays. Lutava por igualdade, cidadania e solidariedade. Exigia reparação histórica, mas era também generosa. Por isso, conquistou a solidariedade de pessoas que não pertenciam a esses grupos. Um segundo tipo de política identitária floresceu a partir dos anos 80, obcecada pela identidade pessoal, com o que diferencia você dos outros.

A primeira dizia “somos todos iguais e queremos ser tratados com igualdade”. Já essa segunda política identitária se baseia na afirmação da diferença e na exigência de respeito à singularidade. Ninguém pode falar em nome de ninguém. Isso jogou as pessoas umas contra as outras.

Quando eu era estudante, nos anos 60, e o marxismo ainda estava por aí, nós nos interessávamos por um pouco de tudo: política, economia, raça, classes sociais. Hoje, os jovens só se interessam pelo que os afeta pessoalmente e não enxergam a necessidade de se engajar numa luta comum com outras pessoas. São despolitizados no sentido de não saber como ganhar o poder político. Continue reading “Luta Coletiva pela Cidadania: Conquista de Direitos e Cumprimento de Deveres”

Cartas de Amor aos Livros Por Luiz Schwarcz

O livro no Brasil vive seus dias mais difíceis. Nas últimas semanas, as duas principais cadeias de lojas do país entraram em recuperação judicial, deixando um passivo enorme de pagamentos em suspenso. Mesmo com medidas sérias de gestão, elas podem ter dificuldades consideráveis de solução a médio prazo. O efeito cascata dessa crise é ainda incalculável, mas já assustador. O que acontece por aqui vai na maré contrária do mundo.

Ninguém mais precisa salvar os livros de seu apocalipse, como se pensava em passado recente. O livro é a única mídia que resistiu globalmente a um processo de disrupção grave. Mas no Brasil de hoje a história é outra. Muitas cidades brasileiras ficarão sem livrarias e as editoras terão dificuldades de escoar seus livros e de fazer frente a um significativo prejuízo acumulado.

As editoras já vêm diminuindo o número de livros lançados, deixando autores de venda mais lenta fora de seus planos imediatos, demitindo funcionários em todas as áreas. Com a recuperação judicial da Cultura e da Saraiva, dezenas de lojas foram fechadas, centenas de livreiros foram despedidos, e as editoras ficaram sem 40% ou mais dos seus recebimentos— gerando um rombo que oferece riscos graves para o mercado editorial no Brasil. Continue reading “Cartas de Amor aos Livros Por Luiz Schwarcz”

O Lugar da Lógica na Filosofia

Desidério Murcho, no livro “O Lugar da Lógica na Filosofia”, afirma haver “uma incompreensão da natureza da Lógica e do seu lugar na filosofia. Este livro procura clarificar e remover algumas incompreensões frequentes acerca de ambas, as quais dificultam o seu ensino e estudo. Não pretende, contudo, ensinar Lógica — para isso há outros livros bons.”

Um professor competente tem de saber muito mais em relação à ementa obrigatória de ensinar em uma disciplina.

  • Só assim pode responder adequadamente aos desafios levantados pelos estudantes.
  • Só assim tem um domínio seguro das matérias mais simples porque lhes conhece os fundamentos e as ramificações.
  • Só assim tem a autonomia intelectual para escolher as matérias importantes e deixar as acessórias.

“A argumentação é um instrumento sem o qual não podemos compreender melhor o mundo nem intervir nele de modo a alcançar os nossos objetivos”.

Quando argumentamos podemos enganar-nos. Podemos argumentar bem ou mal. É por isso que a Lógica é importante. A Lógica permite-nos fazer o seguinte:

  1. Distinguir os argumentos corretos dos incorretos;
  2. Compreender por que razão uns são corretos e outros não; e
  3. Aprender a argumentar corretamente.

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Debate Político ou Ideológico entre Discursos de Ódios Mútuos

Person about to bash someone with quotes

Apelo à Popularidade ou Prova Social

Ali Almossawi, em “O livro ilustrado dos maus argumentos”, diz também conhecido como apelo ao povo, este argumento utiliza o fato de muitas pessoas (ou até mesmo a maioria delas) acreditarem em algo como se fosse prova de que a ideia é verdadeira. Esse tipo de falácia muitas vezes dificultou a aceitação maior de teorias pioneiras.

Por exemplo, na época de Galileu, a maioria das pessoas acreditava o Sol e os planetas orbitarem em torno da Terra, porque o viam “de um lado ao outro do céu”. Daí o astrônomo foi ridicularizado por apoiar o modelo de Copérnico. Corretamente, como se comprovou , ele coloca o Sol no centro do nosso sistema solar.

A publicidade frequentemente tenta convencer as pessoas a usar um produto somente pelo motivo de ser popular. Embora entrar na moda seja uma oferta atraente, isso não basta para sustentar o imperativo de que alguém deva comprar o produto anunciado.

Políticos também adotam muito essa retórica usando a popularidade como se fosse evidência de que uma proposta é correta – a fim de impulsionar suas campanhas e influenciar eleitores. O fato da maioria acreditar em determinada coisa não transforma essa ideia errada em certa. Continue reading “Debate Político ou Ideológico entre Discursos de Ódios Mútuos”

Argumentos Ilógicos

Causa Inquestionável

Ali Almossawi, em “O livro ilustrado dos maus argumentos”, alerta essa falácia. Ser também conhecida como causa falsa. Ela define como causa de um evento, sem provas, uma ocorrência anterior ou simultânea àquele evento. A correlação entre os dois eventos pode ser pura coincidência ou resultado de algum outro fator. Mas sem evidências não é possível concluir que um evento causou o outro.

“O terremoto aconteceu porque nós desobedecemos ao rei” não é um argumento válido.

Esta falácia tem dois tipos específicos:

  1. “depois disso, logo, por causa disso” (post hoc ergo propter hoc) e
  2. “com isso, logo, por causa disso” (cum hoc ergo propter hoc).

No primeiro tipo, o evento anterior é considerado causa do que vem depois.

No cum hoc, como os eventos ocorrem ao mesmo tempo, um deles é escolhido como causa do outro. Em várias disciplinas, especialmente pesquisas científicas, esse erro é conhecido como confundir correlação com causalidade. Continue reading “Argumentos Ilógicos”

Maus Argumentos

Argumento a partir das Consequências

Ali Almossawi, em “O livro ilustrado dos maus argumentos”, afirma o argumento a partir das consequências consistir em defender ou refutar a veracidade de uma declaração apelando às suas consequências caso ela fosse verdadeira (ou falsa). Mas o fato de uma proposição levar a um resultado desfavorável não significa ela ser falsa.

Da mesma forma, o simples fato de ter consequências positivas não torna a afirmação automaticamente verídica. “Não se deduz que uma qualidade ligada a um efeito seja transferível à sua causa.”

Se as consequências forem positivas, o argumento pode alimentar esperanças, por vezes tomando a forma de pensamento positivo. Já se forem negativas, o argumento pode suscitar temores.

Analise a citação de Dostoievski: “Se Deus não existe, então tudo é permitido.” Deixando de lado as discussões morais, o apelo às consequências sombrias de um mundo puramente materialista não prova nada sobre a existência ou não de Deus.

É preciso perceber, porém, tais argumentos serem falaciosos somente quando usados para afirmar ou negar a veracidade de uma declaração, e não quando dizem respeito a decisões ou políticas públicas. Por exemplo, um parlamentar pode logicamente se opor ao aumento de impostos por receio de haver um impacto negativo na vida de seus eleitores.

A falácia do argumento a partir das consequências pode ser reconhecida como uma pista falsa ou manobra de distração, porque sutilmente desvia a discussão da proposição original – neste caso, em direção ao resultado e não ao mérito da proposta em si. Continue reading “Maus Argumentos”

Arte de Argumentar

A epígrafe de “O livro ilustrado dos maus argumentos”, escrito por Ali Almossawi, traz uma advertência fundamental ao citar Richard P. Feynman: “O primeiro princípio é não enganar a si mesmo – e você é a pessoa mais fácil de ser enganada.”

Este livro é dedicado aos iniciantes na área do raciocínio lógico, principalmente àqueles que – para usar uma expressão de Pascal – são feitos de tal maneira que aprendem melhor por meio de imagens. Ali Almossawi selecionou os 19 erros de argumentação mais comuns. Sua expectativa é o leitor aprender nestas páginas algumas das principais armadilhas encontradas em discursos e debates, para então conseguir identificá-las e evitá-las na prática.

A literatura sobre lógica e falácias lógicas é ampla e variada. Existem diversos livros com proposta de ensinar o leitor a utilizar as ferramentas e paradigmas sustentáculos de um bom raciocínio, de forma a produzir debates mais construtivos. No entanto, ler sobre o que não se deve fazer também é muito útil.

Este livro trata fundamentalmente de o que não se deve fazer em uma argumentação. Continue reading “Arte de Argumentar”