Brasil atrasado na corrida da automação industrial

Gabriel Vasconcelos e Bruno Villas Bôas (Valor, 29/07/19) informam: o Brasil ficou para trás em automação industrial nos dez anos entre 2008 e 2017, quando se olha para esse movimento na comparação internacional, e terá dificuldade para ingressar na quarta revolução industrial, dizem especialistas. Um dos motivos é seu pequeno estoque de robôs industriais.

Segundo a consultoria Idados, que teve acesso aos últimos números divulgados pela Federação Internacional de Robótica (IFR, na sigla em inglês), o país tinha 12.373 máquinas desse tipo em 2017, apenas 0,6% dos robôs então instalados no mundo. O número coloca o Brasil na 18a posição no ranking das nações mais automatizadas. Hoje as três principais fornecedoras de robôs para o mercado brasileiro – Fanuc, ABB e Yaskawa – estimam que esse estoque gire em torno de 16 mil autômatos.

Além de pequeno para uma economia do tamanho da brasileira, a oitava do mundo, mais da metade desse estoque de robôs (54%) está concentrado na indústria automobilística, restando poucas máquinas desse tipo ou mesmo vácuos de automação nos demais setores.

Robôs industriais são máquinas automáticas, reprogramáveis e capazes de realizar mais de uma atividade em pelo menos três eixos de movimento. Embora tenham surgido no final dos anos 1970, ainda estão no centro da chamada indústria 4.0. Ela prevê a integração e refinamento das atividades dessas máquinas por meio de tecnologias como internet das coisas (IOT, na sigla em inglês), inteligência artificial e sistemas ciberfísicos, nada mais que sistemas computacionais capazes de controlar objetos com precisão.

Na fronteira do desenvolvimento, estão os chamados robôs colaborativos (cobots), que convivem lado a lado com a mão de obra humana. Os cobots já existem em fábricas brasileiras, mas em iniciativas pontuais, quase sempre ligadas à verificação do padrão de qualidade de bens duráveis. Nem seus irmãos mais antigos, robôs tradicionais, que operam isolados por grades, são tão numerosos no Brasil. Continuar a ler

Superinteligência: Estado da Arte da Inteligência Artificial

Nick Bostrom, no livro “Superinteligência: Caminhos, perigos, estratégias”, afirma a inteligência artificial já superar a inteligência humana em vários domínios. No estágio atual da inteligência artificial para jogos, as IAs atualmente superam campeões humanos em uma gama variada de jogos.

Essas conquistas podem não nos impressionar hoje. Mas isso é porque adaptamos nosso critério daquilo impressionante aos avanços já alcançados. A maestria no xadrez já foi considerada o epítome do intelecto humano. Na opinião de vários especialistas no fim dos anos 1950: “Se alguém pudesse elaborar uma máquina capaz de jogar xadrez, essa pessoa teria, supostamente, penetrado no âmago da empreitada intelectual humana”. Mas, atualmente, isso não é mais verdade. Há quem concorde com John McCarthy, que lamentou: “Quando algo funciona, ninguém mais chama isso de IA”…

Há um sentido importante, no entanto, no qual as IAs jogadoras de xadrez se mostraram um triunfo menor em relação ao imaginado por muitos cientistas. Anteriormente se supunha, não totalmente sem razão, para um computador jogar xadrez no nível de um grande mestre, teria de ser dotado com um alto grau de inteligência geral. Imaginava-se, por exemplo: jogar xadrez requeria capacidade de aprender conceitos abstratos, pensar de forma inteligente sobre estratégia, compor planos flexíveis, empregar uma ampla gama de deduções lógicas complexas e talvez até mesmo modelar o pensamento do seu oponente. Mas isso não é verdade.

Confirmou-se ser possível construir um mecanismo de xadrez perfeitamente bom em torno de um algoritmo de propósito específico. Quando esse algoritmo foi implementado nos processadores rápidos, disponíveis no fim do século XX, resultou em um excelente jogo. Mas uma IA construída dessa forma é limitada. Ela não faz nada além de jogar xadrez.

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Brasil Acima de Todos, Deus Acima de Tudo: Lema Fascista

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), avalia: todas as histórias de deuses em que as pessoas hoje acreditam — seja a lista de divindades (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_divindades), a Nação ou a Revolução — estão incompletas, cheias de buracos e eivadas de contradições. Por isso as pessoas raramente depositam toda sua fé numa única narrativa. Em vez disso, mantêm um portfólio com várias narrativas e diversas identidades, passando de uma para outra quando surge necessidade. Essas dissonâncias cognitivas são inerentes a quase todas as sociedades e movimentos.

Considere um típico adepto do ultraconservador norte-americano Tea Party. Ele de algum modo concilia isso com uma fé ardente em Jesus Cristo, com uma firme objeção a políticas de bem-estar social do governo e um firme apoio à National Rifle Association.

Jesus não foi mais incisivo quanto a ajudar os pobres em lugar de quanto a armar você até os dentes? Isso pode parecer incompatível, mas o cérebro humano tem muitos nichos e compartimentos, e alguns neurônios [Tico e Teco] simplesmente não falam com outros. Continuar a ler

Aproveitamento da Crença para Imposição de Sacrifícios

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), afirma: as narrativas capazes de nos proverem de sentido e identidade são todas ficcionais, mas os humanos precisam acreditar nelas. Então como fazer que a narrativa pareça real? É óbvio por que humanos querem acreditar na narrativa, mas como vão efetivamente fazer isso? Já milhares de anos atrás sacerdotes e xamãs acharam a resposta: rituais. Um ritual é um ato mágico que faz o abstrato virar concreto e o ficcional, real. A essência do ritual é o feitiço mágico.

“Quase tudo pode ser transformado em um ritual, ao se dar a gestos mundanos, como acender velas, tocar um sino ou contar contas um profundo significado religioso. O mesmo vale para gesticulações físicas, como curvar a cabeça, prostrar-se de corpo inteiro, ou juntar as mãos.”

Rituais semelhantes também têm sido usados para finalidades políticas. Durante milhares de anos, coroas, tronos e cetros representaram reinos e impérios inteiros, e milhões de pessoas morreram em guerras brutais travadas pela posse do “trono” ou da “coroa” de uma monarquia dinástica. Continuar a ler

Economia Comunitária Gratuita

Reuni resumos da literatura recente de não-ficção em um livro eletrônico para download gratuito: Fernando Nogueira da Costa – A Vida está Difícil. Lide com Isso. São narrativas da crise mundial na atual transição histórica.

Entre outras, uma reflexão interessante diz respeito à razão da elaboração e distribuição gratuita desse livro, onde resenho 43 livros de autores estrangeiros publicados nos últimos anos. Existe um modelo de negócio onde se dá artigos científicos, mas cobra dos autores para publicá-los (Public Library of Science e https://www.atenaeditora.com.br/).

No caso, não é assim, embora eu tenha passado muitas horas de trabalho lendo e escrevendo. A diferença é este trabalho ser criativo, ou seja, não alienante. Quando aliena ou transfere para outro o domínio ou a propriedade do fruto de seu trabalho e não se interessa pelo resultado de seu esforço, o trabalhador se torna alienado. Um trabalho alienante não se distingue pela aptidão intelectual para criar. Diferentemente, o indivíduo se sente criador ou inovador ao organizar uma obra original a partir de diversos insumos (pensamentos) produzidos por outros autores criativos.

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Sentido da Vida: uma Narrativa Histórica?

quatro pilares de uma vida com sentido, isto é, pertencer e servir a algo além de si mesmo:

  1. Pertencimento: relacionamentos afetivos cultivados por ser quem somos e valorizar os outros por suas virtudes;
  2. Propósito (meta, objetivo): servir os outros com trabalho não alienado e buscar sempre novos conhecimentos.
  3. Transcendência ou êxtase: ir além de nós mesmo, conectados a uma realidade maior;
  4. Contar ou compartilhar histórias pessoais: criação de uma narrativa sobre como nos tornamos quem somos.

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), trata desse último ponto em referência às narrativas históricas – reais ou ficcionais – do animal humano.

Quem sou eu? O que deveria fazer na vida? Qual o significado da existência? Humanos têm feito estas perguntas desde tempos imemoriais. Cada geração precisa de uma nova resposta, porque o que sabemos ou não sabemos está em constante mudança. Considerando tudo o que sabemos e não sabemos sobre a ciência, sobre Deus, sobre política e sobre religião — qual é a melhor resposta que podemos dar hoje?

Que tipo de resposta as pessoas esperam? Em quase todos os casos, quando pessoas perguntam sobre o significado da vida, elas esperam que lhes contem uma história.

O Homo sapiens é um animal contador de histórias. Ele pensa em narrativas e não em números ou gráficos. Acredita o próprio universo funcionar como uma narrativa, repleta de heróis e vilões, conflitos e soluções, clímax e finais felizes. Continuar a ler