Ignorância: você sabe menos de o que pensa que sabe

Yuval Noah Harari, no livro “21 lições para o século 21” (São Paulo: Companhia das Letras; 2017), examina alguns dos problemas e desenvolvimentos mais importantes da era atual, desde o exagero midiático em torno da ameaça de terrorismo até a subapreciada ameaça de disrupção tecnológica. Se você ficou com a sensação perturbadora de que é demais, e se acha incapaz alguém processar tudo isso, você está absolutamente certo. Ninguém é.

Nos séculos recentes, o pensamento liberal depositou uma confiança imensa no indivíduo racional. Ele descrevia indivíduos humanos como agentes racionais independentes, e fez dessas criaturas míticas a base da sociedade moderna. A democracia fundamenta-se na ideia de:

  1. o eleitor sabe o que é melhor,
  2. o livre mercado capitalista acredita que o cliente tem sempre razão, e
  3. a educação liberal ensina os estudantes a pensarem por si mesmos.

No entanto, é um erro depositar tanta confiança no indivíduo racional. Pensadores pós-coloniais e feministas destacaram que esse “indivíduo racional” pode muito bem ser uma fantasia chauvinista ocidental, glorificando a autonomia e o poder de homens brancos de classe alta.

Como observado por Harari, anteriormente, economistas comportamentais [eu! eu! eu! 🙂 ] e psicólogos evolucionistas demonstraram a maioria das decisões humanas ser baseada em reações emocionais e atalhos heurísticos e não em análise racional. Enquanto nossas emoções e nossa heurística talvez fossem adequadas para lidar com a vida na Idade da Pedra, são lamentavelmente inadequadas na Idade do Silício. Continuar a ler

Tese implícita em “A vida está difícil. Lide com isso.”

Reuni resumos da literatura recente de não-ficção, postadas no meu blog Cidadania & Cultura, em um livro eletrônico para download gratuito: Fernando Nogueira da Costa – A Vida está Difícil. Lide com Isso. São narrativas da crise mundial na atual transição histórica.

Qual é a tese defendida com as diversas hipóteses apresentadas na literatura sobre o tempo presente? Estamos vivenciando um período de vida difícil devido à transição histórica de um sistema (capitalista) complexo porquanto emergente de interações de diversos componentes.

Entre eles, há:

  1. fator estrutural como o fim do bônus demográfico,
  2. fator conjuntural como a crise econômica mundial em vigor há uma década. S
  3. fator tecnológico como a 4ª Revolução Industrial, quando máquinas de predição juntam inteligência artificial, algoritmos e robôs, e tem como contrapartida a desocupação dos trabalhadores desqualificados em termos de tecnologia digital.

A reação política ao desemprego tecnológico tem sido uma postura conservadora (saudosa de um passado idílico), antissistema, anti-establishment, antiglobalização, populista, neofascista, contra o liberalismo, contra as políticas identitárias, adepta da pós-verdade, disseminadora através de rede social da estrutura mental de direita.

Vivemos tempos turbulentos, cujas saídas vão desde uma redistribuição tecnológica e social até uma conversão do capitalismo de compadrio para o capitalismo de mercado competitivo a partir de política afirmativa de igualdade de oportunidades até atingir igualdade de resultados.

O nacionalismo cívico em lugar do nacionalismo-populista visa criar outro modo de vida comunitário menos difícil. Com maior produtividade, devido ao auxílio da inteligência artificial, será possível também novo modo de produção com a jornada semanal de trabalho alienante mais curta, embora com vida ativa mais longa. O trabalho criativo propiciará maior felicidade cotidiana.

Examino em seguida, brevemente, cada um desses componentes interativos. Eles configuram o estado da arte, isto é, nossa difícil condição presente e desafiante agenda para construirmos um futuro melhor.

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Download Gratuito do Livro “A vida está difícil. Lide com isso.”

Download: Fernando Nogueira da Costa – A Vida está Difícil. Lide com Isso.

Reuni resenhas da literatura recente de não-ficção postadas neste blog. São narrativas da crise mundial na atual transição histórica. Li e resumi 43 livros de autores estrangeiros — veja a bibliografia abaixo –, em geral publicados nos últimos anos, exceto os de Metodologia. Apresento as explicações sobre crise financeira, metodologia econômica, transição histórica devido à revolução tecnológica, consequências políticas vivenciadas e propostas políticas para evitar a atual polarização destrutiva. Continuar a ler

Cisão ou Fusão de Duas Culturas?

José Eli da Veiga é professor sênior do IEE/USP (Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo) e autor de O Antropoceno e a Ciência do Sistema Terra (Editora 34, 2019). Mantém dois sites: http://www.zeeli.pro.br e http://www.sustentaculos.pro.br. Sempre esbanja cultura em seus artigos, como no reproduzido abaixo (Valor, 24/04/19), intitulado originalmente “A Cisão das Duas Culturas”. Em Ciência Interdisciplinar, prefiro o conceito de “fusão” entre nichos do mercado de trabalho dos cientistas.

“Duas novas ciências têm a ousadíssima proposta de romper com inclinação comum às Ciências Naturais e às Ciências Sociais de só olharem para o próprio umbigo. Querem construir pontes que superem a histórica cisão entre humanidades e ciências. Mais: pretendem integrar os conhecimentos necessários ao estudo conjunto e simultâneo das quatro dinâmicas históricas da Terra:

  1. do planeta,
  2. da vida,
  3. da natureza humana e
  4. da civilização.

A mais consolidada é a “Ciência do Sistema Terra“. Ela tomou corpo em meados dos anos 1980 por clarividente iniciativa da Nasa. Até 2015, avançou muito, graças ao trabalho estratégico dos pesquisadores do Programa Internacional Geosfera- Biosfera (IGBP).

Há quem exagere ao afirmar que tal ciência já teria emergido no início dos anos 1970, com a famosa “Hipótese Gaia” de James Lovelock e Lynn Margulis. Ou exorbite recuando até mesmo à lenta virada paradigmática que acabou por levar a velha Geologia a admitir a teoria dos movimentos globais da litosfera, ou “tectônica de placas”. Mas são visões que menosprezam a envergadura do desafio transdisciplinar, que só começou a ser realmente enfrentado em 1986, com o relatório da Nasa intitulado “Earth System Science“.

A segunda, bem mais audaciosa, chama-se “Ciência da Sustentabilidade“. Entre 2001 e 2011, ela só engatinhou nas páginas do periódico “PNAS” (Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America). A partir de 2012, ganhou forte impulso com o surgimento da organização global “Future Earth” (http://www.futureearth.org/), em substituição à duvidosa “ESSP” (Earth System Science Partnership). E, em janeiro de 2018, foi autenticada pela primeira edição mensal da super-revista Nature Sustainability. Continuar a ler

Automação Robótica e Substituição de Administradores de Empresas

Letícia Arcoverde (Valor, 25/03/19) pergunta: qual será o papel do gestor no futuro? Muitos administradores de empresas podem achar seu trabalho, mais baseado nas habilidades comportamentais, ainda não poder ser reproduzido por robôs. Porém, não vai mudar muito com o desenvolvimento de novas tecnologias e o avanço da automação.

No entanto, gestores terão de mudar sua maneira de administrar equipes para redefinir o papel do chefe em um mundo no qual a busca por mais eficiência será responsabilidade das máquinas. Continuar a ler

Software como Serviço: Automação de Escritórios

Softwares de negócios são cada vez mais usados pelos Departamentos Administrativos das empresas. John Donahoe, CEO da ServiceNow, cujas ações se valorizaram mais de 30% desde o início do ano, resumiu bem o motivo da alta: “Os investidores valorizam, primeiro e antes de tudo, o crescimento.”

Em particular, Wall Street está apostando em vários aplicativos de crescimento explosivo, mas em sua maioria ainda deficitários. Eles poderão tornar-se ferramentas essenciais na vida dos trabalhadores de escritório.

Até se compara a importância desses programas ao domínio das empresas de tecnologia voltadas aos consumidores. Estão tendo no trabalho o mesmo impacto fundamental das FAANGS [Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Google] nos lares.

A recuperação levou rapidamente os valores dessas empresas para a estratosfera. As ações das empresas de aplicativos de negócios – cujo mercado de atuação é chamado de “software como serviço” (SaaS, na sigla em inglês), normalmente, eram negociadas a um valor seis ou sete vezes maior do que a receita, mas agora isso aumentou para dez vezes ou até mais na atual onda de valorização.

O modelo de negócios dessas empresas, altamente previsível, ajudou a sustentar a valorização. A maioria gasta quase 50% da receita em vendas e marketing, dando prejuízo enquanto cresce, porque a receita de contratos de longo prazo assinados agora apenas vai poder ser contabilizada nos anos futuros.

Ainda assim, se tornaram algumas das apostas favoritas dos investidores, graças a:

  1. seus fortes fluxos de caixa e
  2. a crença de mais clientes pagarão pelas assinaturas, mesmo em tempos de crise econômica. Continuar a ler

Lançamento de Novos Produtos Eletrônicos de Consumo

Tim Bradshaw (FT, 08/01/19) comenta: “prometeram-nos carros voadores, mas, em vez disso, nos deram banheiros inteligentes“.

A Feira de Produtos Eletrônicos de Consumo (CES, na sigla em inglês), a celebração anual do mundo da tecnologia é algo esquisito. Alardeada como um vislumbre do futuro, frequentemente acaba se revelando uma corrida pelas profundezas da cadeia de abastecimento de Shenzhen – como visto com o novo vaso sanitário Numi 2.0, da Kohler. Ela tem um sistema Alexa, da Amazon, integrado e oferece iluminação “dinâmica”, assento aquecido e descarga com controle de voz.

A explosão de inovações em artefatos em exibição em Las Vegas em todos os meses de janeiro costuma produzir mais esquisitices do que inovações, desde TVs com telas curvas e geladeiras com internet até travesseiros-robôs, roupa íntima “inteligente” e bagagens autônomas.

No entanto, depois de o alerta recente de desaceleração nas vendas da Apple ter colocado em evidência a situação perigosa vivida pelo mercado de telefones celulares, a busca pela próxima novidade torna-se cada vez mais premente. Continuar a ler