Cisão ou Fusão de Duas Culturas?

José Eli da Veiga é professor sênior do IEE/USP (Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo) e autor de O Antropoceno e a Ciência do Sistema Terra (Editora 34, 2019). Mantém dois sites: http://www.zeeli.pro.br e http://www.sustentaculos.pro.br. Sempre esbanja cultura em seus artigos, como no reproduzido abaixo (Valor, 24/04/19), intitulado originalmente “A Cisão das Duas Culturas”. Em Ciência Interdisciplinar, prefiro o conceito de “fusão” entre nichos do mercado de trabalho dos cientistas.

“Duas novas ciências têm a ousadíssima proposta de romper com inclinação comum às Ciências Naturais e às Ciências Sociais de só olharem para o próprio umbigo. Querem construir pontes que superem a histórica cisão entre humanidades e ciências. Mais: pretendem integrar os conhecimentos necessários ao estudo conjunto e simultâneo das quatro dinâmicas históricas da Terra:

  1. do planeta,
  2. da vida,
  3. da natureza humana e
  4. da civilização.

A mais consolidada é a “Ciência do Sistema Terra“. Ela tomou corpo em meados dos anos 1980 por clarividente iniciativa da Nasa. Até 2015, avançou muito, graças ao trabalho estratégico dos pesquisadores do Programa Internacional Geosfera- Biosfera (IGBP).

Há quem exagere ao afirmar que tal ciência já teria emergido no início dos anos 1970, com a famosa “Hipótese Gaia” de James Lovelock e Lynn Margulis. Ou exorbite recuando até mesmo à lenta virada paradigmática que acabou por levar a velha Geologia a admitir a teoria dos movimentos globais da litosfera, ou “tectônica de placas”. Mas são visões que menosprezam a envergadura do desafio transdisciplinar, que só começou a ser realmente enfrentado em 1986, com o relatório da Nasa intitulado “Earth System Science“.

A segunda, bem mais audaciosa, chama-se “Ciência da Sustentabilidade“. Entre 2001 e 2011, ela só engatinhou nas páginas do periódico “PNAS” (Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America). A partir de 2012, ganhou forte impulso com o surgimento da organização global “Future Earth” (http://www.futureearth.org/), em substituição à duvidosa “ESSP” (Earth System Science Partnership). E, em janeiro de 2018, foi autenticada pela primeira edição mensal da super-revista Nature Sustainability. Continuar a ler

Automação Robótica e Substituição de Administradores de Empresas

Letícia Arcoverde (Valor, 25/03/19) pergunta: qual será o papel do gestor no futuro? Muitos administradores de empresas podem achar seu trabalho, mais baseado nas habilidades comportamentais, ainda não poder ser reproduzido por robôs. Porém, não vai mudar muito com o desenvolvimento de novas tecnologias e o avanço da automação.

No entanto, gestores terão de mudar sua maneira de administrar equipes para redefinir o papel do chefe em um mundo no qual a busca por mais eficiência será responsabilidade das máquinas. Continuar a ler

Software como Serviço: Automação de Escritórios

Softwares de negócios são cada vez mais usados pelos Departamentos Administrativos das empresas. John Donahoe, CEO da ServiceNow, cujas ações se valorizaram mais de 30% desde o início do ano, resumiu bem o motivo da alta: “Os investidores valorizam, primeiro e antes de tudo, o crescimento.”

Em particular, Wall Street está apostando em vários aplicativos de crescimento explosivo, mas em sua maioria ainda deficitários. Eles poderão tornar-se ferramentas essenciais na vida dos trabalhadores de escritório.

Até se compara a importância desses programas ao domínio das empresas de tecnologia voltadas aos consumidores. Estão tendo no trabalho o mesmo impacto fundamental das FAANGS [Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Google] nos lares.

A recuperação levou rapidamente os valores dessas empresas para a estratosfera. As ações das empresas de aplicativos de negócios – cujo mercado de atuação é chamado de “software como serviço” (SaaS, na sigla em inglês), normalmente, eram negociadas a um valor seis ou sete vezes maior do que a receita, mas agora isso aumentou para dez vezes ou até mais na atual onda de valorização.

O modelo de negócios dessas empresas, altamente previsível, ajudou a sustentar a valorização. A maioria gasta quase 50% da receita em vendas e marketing, dando prejuízo enquanto cresce, porque a receita de contratos de longo prazo assinados agora apenas vai poder ser contabilizada nos anos futuros.

Ainda assim, se tornaram algumas das apostas favoritas dos investidores, graças a:

  1. seus fortes fluxos de caixa e
  2. a crença de mais clientes pagarão pelas assinaturas, mesmo em tempos de crise econômica. Continuar a ler

Lançamento de Novos Produtos Eletrônicos de Consumo

Tim Bradshaw (FT, 08/01/19) comenta: “prometeram-nos carros voadores, mas, em vez disso, nos deram banheiros inteligentes“.

A Feira de Produtos Eletrônicos de Consumo (CES, na sigla em inglês), a celebração anual do mundo da tecnologia é algo esquisito. Alardeada como um vislumbre do futuro, frequentemente acaba se revelando uma corrida pelas profundezas da cadeia de abastecimento de Shenzhen – como visto com o novo vaso sanitário Numi 2.0, da Kohler. Ela tem um sistema Alexa, da Amazon, integrado e oferece iluminação “dinâmica”, assento aquecido e descarga com controle de voz.

A explosão de inovações em artefatos em exibição em Las Vegas em todos os meses de janeiro costuma produzir mais esquisitices do que inovações, desde TVs com telas curvas e geladeiras com internet até travesseiros-robôs, roupa íntima “inteligente” e bagagens autônomas.

No entanto, depois de o alerta recente de desaceleração nas vendas da Apple ter colocado em evidência a situação perigosa vivida pelo mercado de telefones celulares, a busca pela próxima novidade torna-se cada vez mais premente. Continuar a ler

Combate ao Lado Maléfico da Internet para Avanços Tecnológicos Positivos

João Luiz Rosa e Gustavo Brigatto (Valor, 02/01/19) avaliam: as empresas de tecnologia, em especial de internet, se acostumaram a ser vistas como forças positivas que beneficiam o consumidor, dão voz aos indivíduos e, em última análise, fortalecem a democracia. Nos últimos tempos, porém, parece ter emergido o lado sombrio da força.

Sucessivos vazamentos de dados e denúncias de manipulação das informações dos usuários levaram companhias como Facebook, Google e Twitter a despertar a desconfiança do público, das autoridades e dos investidores. De rebeldes corporativos em busca de uma ordem mundial mais justa, essas empresas se tornaram, para muitos, as facetas de um império dissimulado e autocentrado.

Reflexo dessa mudança, quase todas as FAANGS – o grupo de empresas formado por Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Alphabet (holding que controla o Google) – terminaram 2018 no pantanoso território do “bear market“. Isto ocorre quando uma ação chega perto de se desvalorizar 20% em relação a seu pico mais recente.

A imagem negativa das gigantes de internet dá o tom das 10 tendências tecnológicas do Valor para 2019.

A lista anual, em sua nona edição, destaca problemas como o vazamento de dados e as notícias falsas. Elas tendem a se agravar nos próximos meses.

A relação também inclui a aprovação de leis específicas de controle dos dados pessoais, uma tentativa de muitos países para reduzir o impacto do uso indevido das informações on-line.

Completam a lista de tendências para 2019 os seguintes temas, bem mais positivos:

  1. streaming de vídeo,
  2. esportes eletrônicos,
  3. 5G,
  4. blockchain,
  5. comércio eletrônico,
  6. superaplicativos e
  7. “unicórnios”, como são chamadas as startups cujo valor de mercado supera US$ 1 bilhão. Continuar a ler

10 Anos Depois: Inovações Tecnológicas em 2018

Ed Crooks (FT, 02/01/19) avalia os avanços tecnológicos de 2018. O crescimento da produção de petróleo nos EUA, os embates com a Opep, uso de carvão na China, o aumento da geração renovável e o desafio da armazenagem de energia foram destaques em 2018 e vão continuar nas agendas dos debates.

A seguir os cinco pontos na pauta desse avanço tecnológico.

  1. A produção de petróleo dos EUA disparou além das expectativas

Um ano atrás, a Administração de Informações sobre Energia do
Departamento de Energia dos EUA previu que a produção americana de petróleo bruto subiria pouco menos de 600 mil barris/dia em 2018, de dezembro a dezembro. Isso acabou se revelando uma tremenda subestimativa: o aumento real foi de cerca de 1,6 milhão de b/d, e estima-se que a produção corrente dos EUA tenha chegado a cerca de 11,6 milhões de b/d neste período de encerramento de 2018.

Esse índice é bem superior ao pico anterior, alcançado em 1970, e também está um pouco à frente do da Rússia, o segundo maior produtor mundial. Ela divulgou sua produção recorde de cerca de 11,4 milhões de b/d correspondente a outubro de 2018. Continuar a ler

Previsões de Avanços Tecnológicos Antes da Crise de 2008

A revista Technology Review, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), trouxe na edição bimestral de março/abril de 2008, lista das dez tecnologias emergentes de 2008. Passada uma década, vale conferir se houve os avanços anunciados capazes de mudar o modo de vida das pessoas no mundo inteiro.

Confira os inventos, divulgados pela agência Magnet:

1 – MODELAGEM DE SURPRESAS: WAZE

Cientistas do Microsoft Research estavam pesquisando modelos de softwares capazes de prever situações até então consideradas como “imprevistos”. Um destes modelos em testes seria capaz de prever, baseado em uma série de fatores, como estaria o trânsito nas ruas.

O SmartPhlow já vinha sendo desenvolvido e testado desde 2003 e utilizava um mapa da cidade para alertar motoristas sobre vias e alternativas. Porém, em vez de dizer apenas o que o usuário já sabe, como “evite vias principais na hora do rush”, o aplicativo para computadores desktop e dispositivos PocketPC alertava para diversas outras surpresas como gargalos em ruas e pontos de dispersão do tráfego.

Para a mágica funcionar, o grupo de Horvitz analisava diversos anos de dados da dinâmica do trânsito de Seattle e adicionou qualquer evento possível de afetá-los: acidentes, clima, feriados, eventos esportivos e até mesmo visitas oficiais ocasionais. Continuar a ler