25 Anos de Economia Brasileira

Gerson Gomes e Carlos Antônio Silva da Cruz realizam um extraordinário trabalho altruísta — com ausência de egoísmo — de compartilhar gratuitamente as melhores ilustrações gráficas de quase todos os temas relevantes para o conhecimento da Economia Brasileira Contemporânea:

VINTE E CINCO ANOS DA ECONOMIA BRASILEIRA – 2021

É leitura e análise obrigatória por todos economistas (e brasileiros) bem-informados. Ao analisar as tendências em longo prazo (1995-2020) e as oscilações cíclicas entre as Eras Neoliberal I (1995-2002), Social-Desenvolvimentista (2003-2014), Neoliberal II (2015-2020) ilustra por qual razão “o Brasil é… apenas Brasil“.

Sugiro todos compartilharem em suas redes sociais e recomendar: “os números falam por si só. Não brigue contra os números!”

Por exemplo, o gráfico abaixo na página 196 é um retrato do racismo no país ex-escravista. Mostra as faixas de rendimento mensal domiciliar per capita em 2018 distribuídas entre pessoas de cor branca e pessoas de cor preta ou parda.

Sua leitura é 13,5% dos negros e pardos situavam-se no primeiro decil até 10% dos rendimentos totais deles. No caso dos brancos, apenas 5,5% situavam-se nessa primeira faixa.

No outro extremo, 16,4% dos brancos estavam na faixa dos 10% maiores rendimentos deles, enquanto apenas 5% dos negros e pardos se situavam nessa faixa dos maiores rendimentos dos negros.

Nas faixas acima de 50% (mediana), estavam 63,8% dos brancos e 39,4% dos negros e pardos.

Este X é intolerável. Políticas Sociais ativas terão de ser usadas em um próximo governo social-desenvolvimentista a partir de 2023 para o País superar essa herança maldita do escravismo no século XXI!

Curto-Circuito: em 2001, o Brasil quase ficou às escuras e ameaça ficar brevemente

Curto-circuito – quando o Brasil quase ficou às escuras

Roberto Rockmann e Lúcio Mattos 368 págs. R$ 64,90

Eduardo Belo (Valor, 21/05/21) lembra: em 1999, o governo de Fernando Henrique Cardoso preparava uma cartada decisiva para levar adiante o processo de privatização do setor elétrico, na esteira do relativo sucesso da desestatização das telecomunicações, no ano anterior. Mas encontrou resistência dentro de casa.

O vice-presidente Marco Maciel era contra a venda da Chesf nos mesmos parâmetros das demais empresas. Para Maciel, por sua relevância na gestão de recursos hídricos do rio São Francisco, o maior e mais importante para abastecimento do Nordeste, a Companhia Energética do São Francisco deveria seguir um caminho próprio, que levasse em conta o impacto da empresa na vida e na economia da região.

Sem jamais expor publicamente sua posição, Maciel se movia nos bastidores para impedir que a venda da empresa para o setor privado prosperasse. A Chesf nunca foi vendida, e até hoje o sistema Eletrobras continua nas mãos do governo, que ainda procura meios de passá-lo adiante.

O modo como o vice atuou para barrar a privatização da Chesf é uma das histórias até agora inéditas que os jornalistas Roberto Rockmann e Lúcio Mattos trazem em “Curto-circuito – quando o Brasil quase ficou às escuras”.

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Herança Maldita do Bolsonarismo

Fernando Canzian (FSP, 22/05/21) informa: pesar da recuperação prevista para 2021 e 2022, o mercado de trabalho na baixa renda deve manter tendência da última década de crescente informalidade.

Segundo especialistas, essa será uma das principais travas à aceleração do crescimento e para o resgate de milhões de brasileiros que se tornaram miseráveis na pandemia.

Na década passada, o Brasil teve o pior desempenho dos últimos 120 anos, empurrando os menos qualificados para a informalidade —área da economia que paga, produz e cresce menos, comprometendo sua evolução média.

Na pandemia, mesmo o trabalho informal foi dizimado pela paralisia do setor de serviços, responsável por 70% do PIB (Produto Interno Bruto) e dos empregos, metade deles fora da formalidade.

As principais ocupações desse segmento (trabalhadores domésticos e empregados do setor privado sem carteira, conta própria sem CNPJ, entre outros) perderam até 20% das vagas.

Já os menos instruídos, majoritariamente informais e que não chegaram a completar o ensino médio, viram até 17% da renda desaparecer, segundo o Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) com base em pesquisas do IBGE (Pnad e Pnad-Covid-19).

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Retrocesso desde o Fim do Nacional-Desenvolvimentismo e o Início da Era Neoliberal

Simão Davi Silber é professor senior do Departamento de Economia da USP e pesquisador da Fipe. Desta vez, publicou um artigo (Valor, 19/05/21) sem coautoria de seus colegas desenvolvimentistas.

O ano de 1980 representou um divisor de águas importante no desempenho da economia brasileira do pós-Guerra. A renda per capita do brasileiro, que vinha crescendo em média 4,4% ao ano, passou a crescer a 0,8% ao ano, a partir daquele ano, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Entre 1945 e 1980, a renda per capita dobrava a cada 15,9 anos; entre 1980 e 2021, a projeção indica que dobrará a cada 87,5 anos. Ou seja, um brasileiro que nascer hoje, tem a expectativa que seu neto terá o dobro de seu poder aquisitivo.

No primeiro período, saímos de um país pobre e chegamos em 1980 a um país de renda média. A partir de então, o crescimento passou a ser muito modesto. Isto impôs um futuro sombrio para os jovens ao impedir que tenham um padrão de vida material superior ao usufruído por seus pais.

Um país que não cresce adequadamente não consegue criar empregos mais sofisticados para os que chegam ao mercado de trabalho. Criou-se no Brasil a figura do “filho-canguru” (não tem condições de ter uma vida independente ou casar), ou o jovem “nem-nem”, que nem estuda, nem trabalha pela falta de oportunidades.

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Efeitos da Pandemia sobre a Demografia Mundial

Marsílea Gombata (Valor, 17/05/21) informa: a pandemia deve alterar a demografia mundial, levando a um encolhimento da população em muitos países não apenas pelo maior número de mortes, mas também pela queda da taxa de natalidade. Para completar, o fechamento de fronteiras internacionais congelou fluxos migratórios, que ainda não retornaram aos patamares pré-covid-19, contribuindo para a desaceleração do crescimento populacional.

Dados mais consolidados sobre população global de 2020 só devem ser disponibilizados em meados de junho pela Divisão de População do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas. Mas estatísticas dos próprios países apontam para quedas populacionais não vistas há anos e até mesmo décadas.

No ano passado, por exemplo, a Alemanha não teve crescimento da população pela primeira vez desde 2011. O Escritório Federal de Estatística da Alemanha (Destatis) atribui esse cenário à menor imigração por conta da covid-19 e ao aumento do número de mortes. Na Rússia a população encolheu no ano passado pela primeira vez em 15 anos por conta da pandemia. O mesmo em relação ao total de habitantes de Londres, que deve diminuir pela primeira vez em 31 anos, indo de 9 milhões em 2020 para 8,7 milhões, segundo a PricewaterhouseCoopers.

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Imaginação Econômica

Carlos Luque é professor da FEA- USP e presidente da Fipe
Simão Silber é professor da FEA-USP
Francisco Vidal Luna é professor da FEA aposentado
Roberto Zagha foi professor Assistente na FEA-USP nos anos 1970 e no Banco Mundial a partir de 1980, onde encerrou a carreira em 2012 como Secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento, e diretor para a Índia.

Economistas desenvolvimentistas publicarem no jornalismo oficioso é tão raro a ponto de termos de dar-lhes toda a atenção. Compartilho o artigo deles (Valor, 03/05/21).

“Depois de tudo que estudaram, ensinaram, e praticaram, quais são as lições relevantes para nossos tempos?”, perguntou um amigo, cético da ciência econômica e dos economistas.

Discutimos extensivamente e duas nos parecem particularmente importantes e instigantes.

A primeira é que o “Estado mínimo” não é bom para o país. A dicotomia Estado versus mercado, um ou outro, é popular, porem falsa. Precisamos de ambos. O Estado não pode resolver todos os problemas da sociedade. O mercado tampouco.

O mercado é guiado por interesses privados. Três séculos atrás, Adam Smith mostrou como interesses privados podem criar um bem coletivo: a disponibilidade de bens e serviços produzidos eficientemente. Mas não podem resolver problemas com os quais toda sociedade se confronta: pobreza, desigualdade, falta de competição ou produção de bens públicos.

O que exatamente deve ser feito pelo Estado, e o que deve ser feito pelo mercado? Isso depende do que a sociedade deseja em termos de desenvolvimento e de serviços públicos, e o quanto a sociedade está disposta a pagar em impostos ou a se endividar. São decisões complexas e recorrentes. Devem ser revistas e retomadas periodicamente, pragmaticamente e criticamente, à luz da evolução da economia e dos novos valores da sociedade. Não há receitas que podem ser seguidas às cegas ou válidas para sempre.

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Tributação Progressiva e Apoio à Sindicalização: sai Capitalismo de Livre Mercado, entra Capitalismo de Estado de Bem-Estar Social

O principal assessor econômico do governo dos EUA, Brian Deese, confirmou o plano do presidente Joe Biden para aumentar as alíquotas do imposto sobre ganho de capital para quem ganha mais de US$ 1 milhão por ano. Segundo Deese, apenas 0,3% dos contribuintes serão afetados, o equivalente a 500 mil famílias.

O objetivo da medida é ampliar a arrecadação do governo federal para financiar outros projetos, como uma proposta ainda a ser detalhada por Biden para aumentar os investimentos em educação.

“Não há evidências” de a taxação sobre ganhos de capital ter impacto negativo nos investimentos de longo prazo.

Segundo o Financial Times, o governo Biden quer aumentar a maior alíquota do imposto de renda de 37% para 39,6% e aplicar taxas normais de imposto de renda sobre ganhos de capital e pagamentos de dividendos para quem ganha mais de US$ 1 milhão. Lá como cá, renda e ganho do capital são isentos!

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Debate sobre o Fim do Estado Mínimo na Matriz da Ideologia Neoliberal

Economistas tupiniquins autodenominados PhDeuses necessitam de uma reciclagem na matriz, i.é, na Universidade de Chicago, para relerem como dever de casa três vezes a Teoria Geral de Keynes em inglês…

O Governo Grande [Big Government] está de volta. Quatro décadas depois de a receita de Ronald Reagan de redução de impostos e encolhimento do governo ter se consolidado – e culminado com os cortes de impostos de Donald Trump em 2017 – o presidente Joe Biden iniciou uma reversão na política econômica dos EUA.

Ao longo dos últimos 14 meses, o Congresso aprovou três pacotes de auxílio para fazer frente à pandemia. Injetaram quase US$ 5 trilhões na economia. O presidente, pelo seu plano mais recente quer aprovar mais US$ 1,8 trilhão em gastos e benefícios fiscais, para financiar iniciativas desde educação e creches até licenças remuneradas.

Esse plano se segue à proposta de gastos de US$ 2,25 trilhões em infraestrutura, assistência médica domiciliar e outros itens feita em março. Essas novas despesas seriam financiadas por uma série de aumentos de impostos direcionados a empresas e americanos ricos.

Tudo isso visa: 1. elevar a produtividade, 2. expandir a força de trabalho e 3. distribuir os ganhos da economia de forma mais equitativa.

Economistas de esquerda e direita têm opiniões bem diferentes sobre se isso vai beneficiar ou prejudicar a economia dos EUA. E não há muita garantia sobre quanto do seus pacotes Biden conseguirá aprovar no Congresso, dadas as maiorias frágeis dos democratas e a ferrenha oposição republicana.

Mas, mesmo caso as propostas sofram cortes, há uma percepção cada vez maior de uma grande mudança estar em andamento na política americana. Essa mudança está a ponto de acabar com a filosofia de “Governo Pequeno” [Small Government]. Ela teria dominado Washington — e se espalhado pelas elites dos países dependentes neocolonizados culturalmente — por grande parte dos últimos 40 anos.

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Problema do Investimento Público (por Luiz Carlos Bresser-Pereira)

A Terra é Redonda, 12.4.2021

Para retomar o crescimento, o Brasil precisa de uma mudança estrutural. Ao contrário do que pensa a esquerda tradicional, não basta rejeitar a austeridade macroeconômica, investir na infraestrutura e fazer política industrial.

O desenvolvimento econômico, problema fundamental do Brasil, sempre foi o de uma taxa de investimento baixa. No Gráfico 1 temos essa taxa desde 1995. Ela se manteve em torno de 18 por cento do PIB até 2006; cresceu a partir de então e entre 2010 e 2015 permaneceu em um patamar de quase 21 por cento do PIB até 2013. A partir da crise que começa em 2014, caiu, ficando em um patamar muito baixo de 15 por cento do PIB. Desde 2014 a economia brasileira está estagnada.

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Dani Rodrik: Enfrentamento do “Fogo Amigo” de Economistas Midiáticos

Dani Rodrik, professor de Economia Política Internacional da John F. Kennedy School of Government da Universidade Harvard, é autor de “Straight Talk on Trade: Ideas for a Sane World Economy”.  Ele enfrenta a crítica dos novos-keynesianos, tipo Lawrence Summers, às novas ideias do Plano Biden, inspiradas na MMT pós-keynesiana. Compartilho seu artigo (Valor, 12/04/21).

“O plano de infraestrutura de US$ 2 trilhões do presidente Joe Biden deverá ser um momento decisivo para a economia americana, sinalizando claramente que a Era Neoliberal, com sua crença de que os mercados funcionam melhor quando não sofrem interferências, ficou para trás. Mas embora o neoliberalismo possa estar morto, não está claro o que irá substituí-lo.

Os desafios que os Estados Unidos e outras economias avançadas enfrentam hoje são fundamentalmente diferentes daqueles das primeiras décadas do século XX. Aqueles desafios anteriores deram origem ao New Deal e ao Estado do bem-estar social. Os problemas atuais – as mudanças climáticas, a ruptura dos mercados de trabalho por causa das novas tecnologias e a hiperglobalização – exigem soluções novas.

Precisamos de uma nova visão econômica, e não de nostalgia, para uma era mitificada de prosperidade interna amplamente compartilhada e supremacia global fora do país.

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Novo Consenso de Washington: de Neoliberal-Fiscalista a Desenvolvimentista-Crescimentista

Martin Sandbu (Financial Times 12/04/2021) publicou artigo com avaliação da mudança dos ares vindos da América do Norte. Os economistas neoliberais tupiniquins, vulgo PhDeuses, necessitam de uma radical reciclagem lá na matrizO neoliberalismo saiu de moda!

“Qualquer pessoa que, assim como eu, foi estudante na década de 90 vai se lembrar de como era descolado fazer manifestações contra as instituições de governança internacionais. Uma cena da qual não me esqueço é a de uma jovem carregando uma imagem de um monstrinho de três cabeças representando (conforme disse ela, compenetrada, à imprensa) o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio (OMC) pilhando os pobres do mundo.

Fico imaginando o que ela pensaria hoje. Quando o panorama político exibido nas recentes reuniões do FMI e do Banco Mundial é comparado ao que despertava a ira de estudantes um quarto de século atrás, ele parece uma conversão que deixaria até Saulo de Tarso (o nome original de Paulo, um dos apóstolos de Jesus) envergonhado.

O Banco Mundial e o FMI foram duramente criticados, nas décadas de 80 e 90, por fazerem os pobres pagarem por serviços básicos de saúde e presumir que os déficits eram ruins para o crescimento. Isso há muito se foi. Eis o novo consenso de Washington:

Gaste muito com saúde pública. O equilíbrio fiscal por muito tempo muito foi o centro da receita do FMI (uma piada dizia que IMF, a sigla em inglês do Fundo, queria dizer “it’s mostly fiscal”, algo como “trata-se principalmente de uma questão fiscal”). Agora não se trata mais de conter o gasto público e sim de empregar bem o dinheiro – e gastar mais onde se extrai mais valor.

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Crítica ao Plano de Gastos de Biden: Temor de Aumento de Impostos e Morte do Neoliberalismo escondido como Temor de Inflação

A secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, alertou as principais economias globais precisam injetar novo apoio fiscal significativo para garantir uma recuperação robusta da crise causada pela pandemia de covid-19. “O trabalho ainda não está concluído, considerando a elevada incerteza e o risco de cicatrizes permanentes”, afirmou em encontro virtual do Banco Mundial e do FMI.

Para financiar gastos fiscais ambiciosos o suficiente para garantir uma recuperação inclusiva, Yellen tem destacado a proposta do presidente Biden de um imposto mínimo global sobre as grandes multinacionais. A secretária do Tesouro defende o fim da guerra fiscal global e uma repartição justa dos impostos cobrados das empresas. Isso elevaria a arrecadação e daria aos governos mais espaço para medidas fiscais de apoio à economia.

Edward Luce (Financial Times 09/04/2021) escreveu artigo de crítica contra o aumento da carga tributária, mas apelando para o medo da inflação: eutanásia dos rentistas e perda real do poder aquisitivo.

A última vez em que o déficit público dos EUA, como percentual do Produto Interno Bruto (PIB), permaneceu acima de 10% por mais de um ano foi durante a Segunda Guerra Mundial. Joe Biden era um bebê. Poucos tinham ouvido falar de Harry Truman. Num momento em que Biden está próximo de completar seus 100 primeiros dias como presidente, o tamanho de sua arriscada cartada começa a ficar claro. Como parcela da economia dos EUA, a expansão fiscal de Biden é muitas vezes maior que os gastos de Lyndon Johnson em “armas e manteiga”. Prenunciou a mais recente era de inflação alta do país.

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