UNCTAD dá recado heterodoxo

A Agência para o Comércio e o Desenvolvimento da ONU (Unctad) alerta: a economia global passará por tempos turbulentos, com “risco claro” de recessão em 2020, o que exige “medidas audaciosas” para recolocar os países em trajetória de expansão.

Em seu “Relatório Sobre Comércio e Desenvolvimento 2019”, divulgado no dia 25/09/19, a agência defende expansão fiscal — viu, Guedes? — e um grande “acordo ecológico mundial” para:

  1. impulsionar o investimento público,
  2. evitar uma catástrofe ambiental e
  3. promover crescimento puxado pelos salários, em vez de expansão apoiada no setor financeiro.

Por que cortar gastos não é a solução para o Brasil ter crescimento vigoroso?

Para meus colegas, economistas desenvolvimentistas, a nova literatura econômica recomenda o inverso da receita neoliberal dos professores do INSPER e economistas de consultorias de O Mercado: mais investimento públicoEsther Dweck é professora do IE-UFRJ e ex-secretária de Orçamento Federal, Fernando Maccari Lara é professor da Unisinos, Guilherme Mello é professor do IE-Unicamp, Julia Braga é professora da Faculdade de Economia da UFF, e Pedro Rossi é professor do IE-Unicamp. Reproduzo o artigo-resposta (FSP, 15/09/19) abaixo. Pelo menos a Folha está percebendo a ameaça da aliança entre o neoliberalismo e o neofascismo no Brasil… e abrindo espaço, ainda timidamente, para um debate plural com contraponto.

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Sobre a Floresta Amazônica (por Geraldo Luís Lino)

Geraldo Luís Lino é Geólogo, ex-consultor ambiental e cofundador e diretor do Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa). Enviou-me, gentilmente, o texto abaixo compartilhado, originalmente publicado no link https://msiainforma.org/o-que-todo-o-mundo-brasileiros-inclusive-precisa-saber-sobre-a-floresta-amazonica/.

1) A Floresta Amazônica é um bioma, uma grande comunidade biológica estável e desenvolvida, com extensão de 6,7 milhões de quilômetros quadrados, compartilhados entre o Brasil, Bolívia, Colômbia, Peru, Equador, Venezuela, Guiana, Suriname e a Guiana Francesa. Cerca de 62% dela encontram-se no Brasil, onde 84% da sua área original existente na chegada dos portugueses estão preservados. Esta área predominantemente intocada equivale em tamanho à França, Alemanha, Reino Unido, Irlanda, Noruega, Finlândia, Suécia, Holanda, Itália, Espanha e Portugal juntos; se fosse um país, seria o sétimo do mundo em extensão, maior que a Índia.

2) A Floresta Amazônica não deve ser confundida com a Amazônia Legal, uma região geográfica delimitada para fins de estabelecimento de incentivos fiscais para atividades econômicas nos nove estados do Norte do Brasil. Compreendem 61% do território nacional, mas menos de 13% da população e representam menos de 8% do PIB do Brasil.

Os seus baixos níveis de vida podem ser avaliados pelos fatos de apenas 13% dos seus habitantes urbanos terem acesso a sistemas de esgoto, e de ali viverem grande parte dos mais de 4 milhões de brasileiros que não têm um simples vaso sanitário em casa. A região também abriga partes significativas de dois outros biomas brasileiros, o Cerrado e o Pantanal.

A Amazônia Legal tem uma área de 5,1 milhões de quilômetros quadrados. A parte brasileira da Floresta Amazônica, 4,2 milhões de km2.

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Ecossistema Complexo

A etimologia das palavras Economia e Ecossistema tem em comum o grego oikos (casa).  No caso da primeira, nomos significa “costume ou lei”, ou também “gerir, administrar, regular”: daí se entende Economia como as “regras da casa” ou a “administração doméstica” do nosso lar, seja o país, seja o planeta. No caso da segunda palavra, sistema define o conjunto formado por comunidades bióticas habitantes e interativas em determinada região e pelos fatores abióticos, cuja influência afeta essas comunidades. Logo, o ecossistema é constituído por dois elementos inseparáveis, uma área (biótopo) e um conjunto de seres, ocupantes de um território em uma contínua interação mútua.

Biocenose é o conjunto de organismos viventes e interagentes entre si em um mesmo habitat ou área. Deste componente biótico emerge um ecossistema complexo.

Ecologia Política é o estudo da relação entre os grupos sociais e o ecossistema onde estão inseridos. Desarmonia surge quando alguns se apropriam dos recursos naturais e outros sofrem mais com os impactos da poluição e/ou os desastres ambientais.

Possui um caráter de transdisciplinaridade tal como a Geopolítica. Esta última estuda aspectos ecológicos, geológicos e geográficos do ambiente e a interferência dos Estados nacionais nesses aspectos, incluindo os fatores políticos, econômicos e sociais.

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Era da Inflação e dos Juros Baixos

Conheci em debate no COFECON, em Brasília, o Carlos Luque, professor da FEA- USP e presidente da Fipe. Ele é desenvolvimentista. Escreve bons artigos em coautoria com Simão Silber, também professor da FEA-USP, e Roberto Zagha. Este foi professor Assistente na FEA-USP nos anos 1970 e no Banco Mundial a partir de 1980, onde encerrou a carreira em 2012 como Secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento, e diretor para a Índia. Reproduzo seu artigo (Valor, 27/08/19) abaixo.

“Nossa inflação foi um problema por mais de um século. Chegou a 16% ao ano durante 1889-93 com um pico de 25% em 1891. Este surto inflacionário foi seguido por muitos outros. Períodos de estabilidade de preços: poucos e curtos. A partir dos anos 1980, com o segundo choque do petróleo, a inflação se descontrolou, chegando a 100% ao ano. Depois de vários planos que deram resultados temporários, a estabilização fiscal de 1993, o Plano Real e o “tripé” conseguiram estabilizar os preços de maneira durável.

Mas o espectro da inflação continuou dominando o país. Como explicar a política de taxas de juros do Banco Central? Com a retomada decepcionante dos últimos anos seria adequado o BC seguir o exemplo dos bancos centrais dos EUA, Europa e Japão. Estes bancos centrais reduziram suas taxas de juros reais para níveis negativos e sinalizaram que a política monetária por si só não poderia reanimar suas economias: políticas fiscais e monetárias expansionistas ambas são necessárias.

A decisão de reduzir a Selic a 6% indicando possíveis reduções adicionais é excelente. Mas não podemos esquecer que o excesso de juros pagos ao longo dos últimos anos comprometeu as finanças públicas e inibiu por completo os investimentos públicos. Certamente a trajetória de crescimento teria sido diferente. É importante agora que a redução de juros seja acompanhada por políticas fiscais expansionistas que permitam estimular nossa economia.

Como no caso dos EUA, UE e Japão a prioridade no Brasil é de fato a adoção de políticas fiscais e monetárias expansionistas. As condições são favoráveis para uma expansão dos gastos privados e públicos em nossa dilapidada infraestrutura, financiados por um programa ambicioso de privatização e concessões e emissão de títulos do governo de longo prazo. A “regra de ouro” permite este endividamento e o Tesouro pode se endividar a taxas de longo prazo que estão em queda. Continuar a ler

Livro “Alternativas para o Desenvolvimento Brasileiro”

O Instituto de Economia da UNICAMP convida para a leitura do livro “Alternativas para o desenvolvimento brasileiro – Novos horizontes para a mudança estrutural com igualdade”, organizado por Marcos Vinicius Chiliatto Leite, oficial de assuntos econômicos da Cepal em Brasília.

A publicação, comemorativa dos 70 anos da Cepal, traz artigos de professores e doutores pelo Instituto e permite uma ampla análise sobre temas como desigualdade, desenvolvimento, políticas sociais, agenda climática, câmbio, inserção produtiva periférica, vulnerabilidade externo do Brasil, inflação e muito mais.

O livro é gratuito e pode ser baixado no repositório da Cepal (ou clicando aqui).

Vinte Anos de Economia Brasileira – Atualização 2018

 

Gerson Gomes me enviou um dos trabalhos de economistas brasileiros mais importante e colaborativo com o exercício da profissão (clique para download): VINTE ANOS DE ECONOMIA 2018 – julho de 2019

Abnegado, aliás, como o Informe JRA do José Roberto Afonso — este envia diariamente por e-mail links com publicações recém-lançadas –, Gerson, com a colaboração de Carlos Antônio Silva da Cruz, contribui com a interpretação estatística da economia brasileira. O leitor visualiza todos os ciclos de 1994 a 2018. Com as teorias corretas qualquer pessoa com alguma formação em Economia consegue fazer análises profundas com base nos gráficos. Conceitos são importantes para não ficar no empirismo descritivo — ou como um “ascensorista” do sobe-e-desce.

Aprendemos com nossa mentora, a Professora Maria da Conceição Tavares: “nunca diga nada sobre a realidade brasileira sem comprovar com dados e informações objetivas, senão o criticarão como sendo mera ideologia o dito por você!

Esta nova edição dos “Vinte Anos de Economia Brasileira”, a sexta desde 2014, incorpora os dados de 2018, cobrindo praticamente todo o período pós-Plano Real.

Esse período se inicia com a intensificação das políticas de corte neoliberalprivatizações e limitação do papel do Estado, abertura comercial e financeira da economia, desregulamentação  das relações capital/trabalho, esvaziamento das organizações de representação dos trabalhadores e redução dos direitos sociais. Foram  implantadas no País nos anos 90.

Conclui, depois de um ciclo social-desenvolvimentista de crescimento, inclusão social e consolidação democrática, com o retorno, em 2016, ao fundamentalismo de mercado, no bojo da crise político-institucional  desencadeada após as eleições de 2014.