Política Pró-Negócios Estratégicos versus Política Pró-Mercado Livre

Depois de ficar apenas com O Globo, sediado no Rio de Janeiro, descartando sua parceria com a Folha de S.Paulo, o jornal Valor se superou! No mesmo dia, em páginas vizinhas, publicou outro panfleto neoliberal, além do criticado no post anterior deste modesto blog pessoal, o de Pedro Cavalcanti Ferreira, professor da EPGE-FGV e diretor da FGV Crescimento e Desenvolvimento, e Renato Fragelli Cardoso, professor da EPGE-FGV. O criticado abaixo (Valor, 19/04/17) tem como autor Roberto Castello Branco, também pesquisador do Centro de Estudos em Crescimento e Desenvolvimento Econômico da Fundação Getulio Vargas.

Risível é que ele parte da linha-de-chegada de seus colegas, em coluna publicada na página ao lado, citando um guru da Universidade de Chicago, matriz das crias tupiniquins colonizadas culturalmente. A arrogância dessa gente é tão desmesurada que seu orgulho se manifesta por atitude de prepotência ou desprezo com relação aos outros. Demonstra falta de respeito com os desenvolvimentistas e uma liberdade desrespeitosa com os homens práticos. Na realidade, este atrevimento, insolência e ousadia, revela apenas uma altivez, presunção e soberba de gente que ostenta arrogância de novo-rico. Confira abaixo. Os conceitos reducionistas e as críticas contumazes, destacados em negrito ou itálicos, se repetem.

“A interação entre políticos populistas e capitalistas inimigos do capitalismo tem como consequência as políticas pró-negócios. Como definiu Luigi Zingales, da Universidade de Chicago, políticas pró-negócios usam a intervenção do Estado para favorecer alguns eleitos discricionariamente. Podem produzir bons resultados no curto prazo, são ricas em oportunidades para rent-seeking e no longo prazo implicam crescimento econômico anêmico e mais desigualdade. Em contraste, políticas pró-mercado não envolvem favoritismo a setores e/ou empresas e proporcionam crescimento econômico sustentável e mobilidade social e econômica, com redução de desigualdade e pobreza.” Continue reading “Política Pró-Negócios Estratégicos versus Política Pró-Mercado Livre”

Necessidade de Retomada do Crescimento Econômico Sustentado em Longo Prazo

Carlos Luque é professor da FEA/USP e presidente da Fipe. Simão Silber é professor da FEA-USP. Roberto Zagha foi secretário da comissão sobre o crescimento e o desenvolvimento organizada pelo Banco Mundial. Para evitar o viés heurístico da auto validação ilusória das próprias ideias, é necessário ler autores de outras escolas de pensamento econômico. Eles publicaram um artigo bem didático (Valor, 11/04/17), onde expõem seus pontos de vista a respeito da possibilidade de retomada do crescimento econômico sustentado no Brasil. Reproduzo-o abaixo.

 “Após 30 anos de crescimento excepcional, a partir de 1980 a economia brasileira parou. Episódios de crescimento alto: 8% em 1985-86, ou 7,5% em 2010, foram efêmeros. O que o país perdeu a partir de 1980 foi a capacidade de manter taxas altas por décadas. Esta capacidade permitiu ao país quadruplicar sua renda per capita entre 1950 e 1980. Tivesse esta capacidade se mantido, a renda do brasileiro seria hoje metade da americana, em vez de 12%. Perder esta capacidade não foi acidente. Foi consequência de políticas que desindustrializaram, desglobalizaram e descapitalizaram o país.

Nos anos 80 e 90, o país teve que lidar com uma dívida externa insustentável e episódios de hiperinflação. O longo prazo perdeu importância frente à necessidade de estabilizar a economia, somente conseguida em meados dos 90 com a reestruturação da dívida externa e do Plano Real. Em 1999, turbulências financeiras internacionais levaram o governo a introduzir o tripé da política macroeconômica que permanece até hoje: superávits primários, metas de inflação, e taxas de câmbio flutuantes, assim flexibilizando parâmetros rígidos do Plano Real.

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Tudo Azul em um País com Sentimento de Blues

O blues é mais do que um mero estilo musical. O blues é um sentimento, é uma manifestação pura do sentimento de um povo que recém liberto da escravidão clamava por igualdade, respeito e consideração. O blues nasceu do lamento dos negros africanos escravizados e carrega em si toda a dor e angústia pelo qual este povo de imigração forçada passou nos anos de escravidão nas Américsa.

É interessante ser “testemunha ocular”, como consumidor, de um empreendimento empresarial com inovação bem sucedida: popularizar voos de companhia de aviação aérea. Tem seu plano de negócio baseado em rotas regionais que alimentam alguns “hubs” (terminais de conexão), principalmente em Campinas e Belo Horizonte. Esta é minha cidade-natal, aquela é minha cidade-residencial, talvez por isso eu viajo praticamente só pela Azul desde 2009.

João José Oliveira (Valor, 11/04/17) conta que a Azul foi a quarta companhia de aviação criada pelo empresário David Neeleman, filho de pai holandês e mãe americana, nascido em São Paulo, mas que cresceu no Estado americano de Utah. Antes, ele fundou a americana Morris Air, em 1984 – vendida à Southwest por US$ 130 milhões em 1993 -, a canadense WestJet e a JetBlue, que abriu capital em 2002, levantando US$ 158 milhões, e atualmente é a quinta maior do setor nos Estados Unidos.

Esse histórico ajudou Neeleman a atrair US$ 150 milhões de fundos de investimento – como os brasileiros Gávea e Bozano, ou os americanos Pequot Capital e Weston Presidio – para criar uma companhia aérea no Brasil.

O empreendedor via no território brasileiro um grande mercado mal explorado. De fato, das quase 300 cidades brasileiras que eram atendidas pela aviação de passageiros nos anos 70, restavam menos de 100 com voos regulares no início dos anos 2000.

Em dezembro de 2008, quando David Neeleman fez o primeiro voo da Azul, o mercado doméstico brasileiro que atendia 57 milhões de pessoas era dominado por TAM e Gol, que detinham 93% da demanda nacional. Com a estratégia de operar rotas mal servidas e aeroportos abandonados, como o Viracopos, em Campinas (SP), e cortando preços para atrair quem usava ônibus ou não viajava, a Azul começou a ganhar fatias de mercado.

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Queda nas Reservas de Petróleo

Rodrigo Polito (Valor, 10/04/17) informa que a queda do volume de reservas de petróleo e gás natural da Petrobras em 2016, ante o ano anterior, não é algo específico da estatal brasileira. Levantamento feito pelo Valor com dados das principais petroleiras mundiais indica que praticamente todas as grandes empresas do setor tiveram redução do número de reservas no ano passado, em comparação com 2015. A exceção foi a petroleira anglo-holandesa Shell, que adquiriu no ano passado a britânica BG e registrou aumento de 12,7% do volume de reservas em 2016, para 13,2 bilhões de barris de óleo equivalente (boe) de petróleo e gás.

Em janeiro, a Petrobras reportou o total de suas reservas em 31 de dezembro de 2016, de 12,5 bilhões de boe, pelo critério da Agência Nacional do Petróleo Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e da Society of Petroleum Engineers (SPE), e de 9,6 bilhões de boe, pelo critério da Securities and Exchange Commission (SEC). Os números representaram quedas, em relação a 2015, de 5,7% e 8%, nos dois critérios, respectivamente.

Entre as grandes petroleiras mundiais, o destaque em termos de queda foi a gigante americana ExxonMobil, cujas reservas em 2016 recuaram expressivos 19,3%, para 19,974 bilhões de boe. Já a também americana Chevron, a francesa Total e a norueguesa Statoil, sofreram reduções mais leves de suas reservas de 0,4%, 0,5% e 0,9%, respectivamente.

Segundo especialistas, o principal motivo para a redução do volume de reservas das petroleiras foi a queda do nível de investimentos em exploração de petróleo e gás, que resulta em menos descobertas. De acordo com dados da consultoria Bain & Company, os investimentos globais em exploração de petróleo recuaram de US$ 148 bilhões, em 2014, para US$ 71 bilhões, em 2016.

A redução dos investimentos é explicada pelo baixo preço do petróleo, sobretudo no início de 2016. De acordo com dados do Valor Data, a média de preços do barril do Brent em 2016 (US$ 45,68) foi 16% inferior em relação a de 2015 (US$ 54,33).

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Brasil eleva contribuição para oferta global de petróleo

Renato Rostás (Calor, 23/03/17) informa que o Brasil foi um dos principais contribuintes para o excesso de oferta global do petróleo nos últimos 12 meses. A excetuar o Irã – um caso específico pois volta ao mercado após anos de sanções do Ocidente -, a média de aumento mensal na produção do país foi a maior do mundo, mostram dados da Agência Internacional de Energia (AIE).

Em um ano até fevereiro de 2017, a extração brasileira da commodity subiu, em média, 27 mil barris por dia a cada mês. Depois do Brasil aparecem gigantes como a Rússia – que elevou o volume em 18 mil barris por dia todo mês – e os principais produtores não convencionais – como o Canadá, com 16 mil barris diários.

Ao mesmo tempo, maior participante de um acordo costurado entre a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e outras nações de alta relevância no mercado global, a Arábia Saudita cortou, em média, 30 mil barris por dia a cada mês dessa análise. Mais que ela, considerando os protagonistas internacionais, só aparece a Nigéria, com 34 mil barris diários.

Dois motivos podem explicar o status de produtor em ascensão:

  1. a atividade de extração de petróleo em águas profundas se acelerou em um momento de maturação dos investimentos feitos nos Governos Lula e Dilma;
  2. o mercado doméstico encolheu com a Grande Depressão, provocada pela volta da Velha Matriz Neoliberal, o que fez com que as exportações subissem.

Protecionismo através de Tarifas de Importação

Marta Watanabe (Valor, 10/04/17) avalia que o clima mais positivo em relação a um acordo entre União Europeia (UE) e Mercosul pode trazer também novas perspectivas para a evolução das tarifas brasileiras de importação. Em 20 anos a tarifa média de importação no Brasil caiu 0,76 ponto percentual, o que dá ao país a menor redução dentro de um grupo de 25 países, atrás somente da Bolívia, que na verdade teve elevação de 0,44 ponto percentual na taxa.

O número mostra tendência inversa em relação a países importantes como parceiros comerciais para o Brasil. No mesmo grupo, doze países tiveram redução de tarifas entre 3,2 e 8,5 pontos percentuais em igual período. Um dos fatores que facilitam a redução de tarifas, apontam especialistas, são os acordos comerciais.

O levantamento que mostra a evolução do Brasil e dos parceiros comerciais importantes é do Bradesco. O estudo compara tarifa média de 1996 ou 1997 com a de 2015 ou o último dado disponível. Os dados são do Banco Mundial e levam em consideração somente o imposto de importação.

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Plano Made in China 2025: meta de tornar o país autossuficiente no desenvolvimento de tecnologia de ponta

Louise Lucas e Emily Feng (apud Valor, 24/03/17) avaliam que Tim Byrnes é um símbolo improvável do esforço da China para se tornar uma superpotência mundial no ramo da alta tecnologia. Para começar, ele é australiano. Mesmo assim, a decisão desse físico quântico de 39 anos de trocar um cargo de pesquisa em Nova York por Xangai, explica de certa forma até onde Pequim está indo em seus esforços para alterar a ordem mundial.

“A física quântica é muito forte na China”, diz Byrnes. “Os principais grupos são tão bons quanto em qualquer outra parte do mundo… e estão fazendo algumas coisas incríveis.”

Byrnes está trabalhando no desenvolvimento de novas tecnologias que, acredita, ajudarão a criar o Santo Graal do setor: um computador quântico.

Sua posição de professor assistente de Física da New York University Shangai é resultado de um esforço global de recrutamento que almeja a contratação de 10.000 das mentes mais brilhantes do planeta. O recrutamento é parte de uma estratégia mais ampla para construir o poder tecnológico da China, juntamente com os esforços para reestruturar sua política industrial por meio de um esquema conhecido como Made in China 2025.

Bilhões de dólares já foram injetados em pesquisas e na aquisição de ativos internacionais, preocupando concorrentes globais. Só nos últimos dois anos, a China anunciou acordos de fusão e aquisição no setor tecnológico avaliados em mais de US$ 110 bilhões, segundo a Dealogic, desencadeando temores de segurança nacional por causa do papel desempenhado por Pequim em alguns dos negócios.

O Plano Made in China 2025 foi caracterizado por Robert Atkinson, presidente da Information Technology and Innovation Foundation, ao Congresso dos Estados Unidos, em janeiro, como “uma agressiva estratégia ‘custe o que custar’ que envolve manipulações sérias de mercado, roubos arbitrários e transferência coercitiva de know-how americano”.

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