Para onde foram as vagas da indústria?

J. Bradford DeLong, ex-vice-secretário-assistente do Departamento de Tesouro dos EUA, é professor de economia da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley, e pesquisador adjunto da Agência Nacional de Pesquisa Econômica dos EUA. Publicou artigo (Valor, 04/05/17) se perguntando: para onde foram as vagas da indústria?

“Nas duas décadas entre 1979 e 1999, o número de postos de trabalho na indústria de transformação dos Estados Unidos recuou de 19 milhões para 17 milhões. Mas nos dez anos seguintes, entre 1999 e 2009, o número despencou para 12 milhões. Essa queda mais drástica originou a ideia de que a economia americana teria deixado, repentinamente, de funcionar – pelo menos para operários do sexo masculino – na virada do século.

Mas é equivocado sugerir que tudo estava bem na indústria antes de 1999. Os empregos industriais vinham sendo fechados naquelas décadas iniciais também. Mas os empregos perdidos em uma região e em um setor eram, geralmente, substituídos – em termos absolutos, se não como parcela da população economicamente ativa – por novos empregos em outra região ou setor. Continue reading “Para onde foram as vagas da indústria?”

Trabalho na Era da Automação

Laura Tyson, ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente dos EUA, é professora da Haas School of Business da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e assessora sênior do Rock Creek Group. Publicou excelente artigo (Valor, 12/05/17) sobre a nova onda de automação.

Os avanços em inteligência artificial e robótica estão provocando uma nova onda de automação, com máquinas que combinam ou superam os seres humanos numa rapidamente crescente gama de tarefas, inclusive algumas que exigem capacidades cognitivas complexas e educação de nível superior. Esse processo superou as expectativas dos especialistas; não é de surpreender que seus possíveis efeitos negativos sobre a quantidade e a qualidade do emprego levantaram sérias preocupações.

Ouvindo o governo do presidente Donald Trump, poderíamos pensar que o comércio continua a ser o principal motivo para a perda de empregos de manufatura nos EUA. O secretário do Tesouro de Trump, Steven Mnuchin, declarou que o possível deslocamento tecnológico dos trabalhadores “sequer está na tela do radar [do governo]”.

Entre os economistas, porém, o consenso é de que cerca de 80% da perda de empregos na indústria de transformação americana nas últimas três décadas foi resultado de mudanças tecnológicas que poupam mão de obra e incrementam a produtividade, ficando o comércio em distante segundo lugar. A questão, então, é se estamos rumando para:

  1. um futuro de desemprego, em que a tecnologia deixa muita gente desempregada, ou
  2. um “bom futuro sem empregos“, no qual um número crescente de trabalhadores não pode mais auferir uma renda de classe média, independentemente de educação e habilidades.

A resposta pode ser: um pouco de cada coisa. O estudo mais recente sobre o tema descobriu que, de 1990 a 2007, a penetração de robôs industriais prejudicou tanto o emprego como os salários. Continue reading “Trabalho na Era da Automação”

Brasil: o maior produtor de petróleo da América Latina

Marsílea Gombata (Valor, 21/06/17) informa que, com a queda de produção de petróleo na Venezuela e no México, o Brasil se tornou o maior produtor de petróleo da América Latina. Desde o ano passado, a produção nacional tem superado a dos principais países exportadores de petróleo da região. Essa tendência deve se reforçar neste ano.

Segundo a edição de 2017 do “BP Statistical Review of World Energy“, lançada recentemente, o Brasil superou a produção da Venezuela e do México em 2016 (veja gráfico acima). Enquanto o Brasil registrou média diária de 2,6 milhões de barris/dia, a Venezuela encerrou o ano em 2,41 milhões, e o México em 2,45 milhões. Em 2015 a produção venezuelana era de 2,64 milhões de barris/dia e ainda superava a do México (2,58 milhões) e do Brasil (2,52 milhões).

Essa troca de posições ocorreu tanto pelo aumento da produção brasileiro quanto principalmente pela queda de produção venezuelana e mexicana. E a tendência é o Brasil continuar liderando o ranking regional neste ano. Continue reading “Brasil: o maior produtor de petróleo da América Latina”

Manifesto Trabalhista

Recebi uma mensagem do admirável Professor Ladislau Dowbor. Dada sua utilidade para nossa reflexão, eu a compartilho abaixo. Entretanto, desde já, advirto que penso que a esquerda deve mudar da velha tática de “combater o inimigo-do-povo”, encarnado na chamada “financeirização“, pois senão, lutando só contra esse tigre-de-papel, se tornará cada vez mais anacrônica, senão reacionária ao reagir contra o avanço da história. O capitalismo industrial não era melhor do que o capitalismo contemporâneo, denominado apressadamente de “capitalismo financeirizado“. 

A esquerda deveria dirigir seus esforços para a conquista de direitos e o exercício de deveres da cidadania. Assim, conseguirá a mudança social de modo-de-vida (e não apenas de modo-de-produção), por exemplo, diminuindo a jornada de trabalho semanal para 4 dias de 9 horas de trabalho alienante, com a manutenção dos salários e encargos trabalhistas, sobrarão 3 dias para o trabalho criativo!

Caros,

Nos últimos tempos têm aparecido trabalhos de fundo repensando o sistema. Queria aqui fazer um tipo de comentário de leitura sobre textos que têm em comum a convicção de que não se trata mais apenas do problema de Trump nos EUA, de Temer no Brasil, de Macri na Argentina, de Erdogan na Turquia, do Brexit na Inglaterra, do fato dos dois grandes partidos (socialista e republicano) que repartiram o poder na França não terem chegado, nem um nem outro, sequer ao segundo turno.

A Europa está se cobrindo de muros e cercas de arame farpado. Discute-se seriamente erguer um gigantesco muro de mais de mil quilómetros entre o México e os Estados Unidos. Os países mais poderosos estão se dotando de instrumentos sofisticados de invasão de privacidade e de controle das populações que assustam tanto pela amplitude da invasão como pela indiferença das populações.

E naturalmente o caos que se avoluma não diz respeito apenas à política e aos governos: os gigantes financeiros planetários geram um nível de desigualdade e de desmandos ambientais que tornam o mundo cada vez mais inseguro e o universo corporativo cada vez mais irresponsável. Continue reading “Manifesto Trabalhista”

Planejamento do Setor Energético no Brasil: O petróleo não é nosso?!

O ciclo de maturação de investimento em petróleo leva dez anos. No bicentenário da independência política do Brasil, em 2022, será o início de sua independência econômica? O superávit no balanço de transações correntes permitirá estabilizar a taxa de câmbio e, com ela, a taxa de inflação? O Fundo Soberano de Riqueza investirá os royalties sobre extração de petróleo em Educação (75%) e Saúde (25%)? Ou haverá mais desnacionalização no extrativismo de petróleo em benefício de capital estrangeiro?

André Ramalho (Valor, 08/06/17) informa sobre a futura transformação da economia brasileira em Economia do Petróleo. Este é o futuro que os estudos recentes da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam para a próxima década:

  1. uma produção de petróleo menos concentrada nas mãos da Petrobras e cada vez mais direcionada para exportações;
  2. uma recuperação lenta no consumo de combustíveis entre os veículos leves pelos próximos cinco anos e
  3. uma matriz veicular mais limpa, baseada na retomada dos investimentos no setor de etanol.

Responsável pelo planejamento do setor energético no Brasil, compilado no Plano Decenal de Energia (PDE), a EPE está revendo suas premissas econômicas e setoriais. José Mauro Coelho, diretor de Estudos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis da empresa, diz que o grande desafio da instituição é traçar projeções “mais críveis” e “coladas à realidade”, o que passa por assumir:

  1. uma participação menor da Petrobras nos investimentos em óleo e gás e
  2. um cenário de crescimento mais modesto da demanda interna.

Os estudos mais recentes da EPE indicam que:

  1. a participação da Petrobras na produção nacional de petróleo deve cair, dos atuais 78% para 70% até 2026, e
  2. o Brasil se tornará um “player muito importante” nas exportações. Continue reading “Planejamento do Setor Energético no Brasil: O petróleo não é nosso?!”

Capitalismo de Estado Republicano contra Capitalismo Neoliberal de Livre-Mercado

O Instituto de Economia da UNICAMP recebeu o maior evento de Economia Política do Brasil. Mais de mil pessoas se inscreveram no XXII Encontro Nacional de Economia Política (ENEP) que aconteceu entre os dias 30 de maio e 02 de junho. Nos debates de trabalhos de pesquisa de dados e uso analítico de teorias e conceitos para pensar “fora-da-caixa” do mainstream neoliberal, que monopoliza todo o espaço na mídia brasileira, novos ângulos das mais importantes questões nacionais foram apresentados.

No Grupo de Trabalho sobre Economia Política e Macroeconomia, em debate plural e livre, deu-se um passo adiante da Economia Positiva – o que é – para se esboçar propostas de Economia Normativa – o que deveria ser. Partiu-se do consenso social do “primeiramente, fora Temer” para as trocas de ideias sobre um possível programa eleitoral à espera de um candidato de oposição. Mas, desta vez, com a vantagem de usar as lições negativas da experiência social-desenvolvimentista brasileira para superá-las, retomando tudo o que foi positivo, por exemplo, uma política social ativa.

A linha-de-partida é a verificação que sem maioria qualificada no Congresso Nacional não se conseguirá a reversão da PEC dos gastos fiscais que pretende imobilizar quaisquer experiências de atuação anticíclica do Estado brasileiro contra a atual Grande Depressão econômica. Na verdade, esta é a prioridade número um: retomar um crescimento sustentado da renda e do emprego. Ao eleitorado com 14 milhões de desempregados, cujo multiplicador afeta pelo menos 60% dos domicílios brasileiros, interessa antes-de-tudo isso. O programa econômico se dedicará, prioritariamente, a lhes oferecer ocupações e não a cortar direitos trabalhistas como age o atual governo golpista sustentado pela dupla PMDB-PSDB e partidos satélites conservadores. Continue reading “Capitalismo de Estado Republicano contra Capitalismo Neoliberal de Livre-Mercado”

Tortura de Números para O Brasileiro Confessar Amor pelo Livre-Mercado!

Professores da EPGE-FGV, como Pedro Cavalcanti Ferreira, Renato Fragelli Cardoso e Armando Castelar, continuam sua campanha canhestra em busca de “erradicação do mal pela raiz”, para eles, retirar o Estado da cena brasileira! Os sábios neoliberais não hesitam em torturar números, torcer ideologicamente e distorcer a história brasileira em suas costumeiras panfletagens no jornal onde escrevem sob encomenda para seu público-alvo — a casta dos mercadores.

Dizem, por exemplo, que no estertor do regime militar ditatorial, sob decisões de políticas econômicas tomadas por Delfim Neto, “em 1980, estagnação não era um destino inescapável. Foi uma escolha. Tome-se o exemplo de dois países que, no pós-guerra, eram semelhantes ao Brasil: Chile e Coreia do Sul. A figura acima apresenta as trajetórias dos produtos por trabalhador desses dois países, do Brasil e de um Brasil imaginário, denominado “BrasilQDC” – o Brasil que poderia ter dado certo.

Em 1950, o Chile era cerca de 60% mais produtivo que o Brasil, mas foi alcançado pelo Brasil no começo dos anos 1980. Hoje, entretanto, o produto por trabalhador chileno é quase o dobro do brasileiro. Até o início dos anos 1980, a Coreia do Sul era mais pobre e menos produtiva que o Brasil, mas hoje sua produtividade média é uma vez e meia a brasileira. O Brasil ficou muito para trás.

[Curiosamente, entrou no ranking dos dez maiores PIBs mundiais ao contrário dos outros citados países.]

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