Rendas Per Capita Comparadas no Tempo e no Espaço

Sergio Lamucci (Valor, 21/05/19) informa: o Brasil perdeu terreno em relação a outros emergentes nas últimas décadas, distanciando-se do nível de renda dos países desenvolvidos, em vez de se aproximar. Com o baixíssimo crescimento da produtividade, o PIB per capita brasileiro corresponde hoje a pouco mais de um quarto do americano. Em 1980, equivalia a quase 40%. Nesse período:

  • o PIB per capita do Chile passou de 27,4% para 41,5% do indicador dos EUA;
  • o da China, de 2,5% para 28,9%; e
  • o da Coreia do Sul, de 17,5% para 66%.

Os números levam em conta o critério de paridade do poder de compra (PPP, na sigla em inglês), com base em estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Coordenador de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Armando Castelar diz: o Brasil está ficando mais pobre em termos relativos, na comparação com outros países. O país fica mais distante dos países de renda alta, como os EUA, em vez de ficar mais próximo. Nesse sentido, é um processo inverso ao desenvolvimento. “É um processo de subdesenvolvimento não em relação a si mesmo, mas em relação ao resto do mundo.” O critério de paridade de poder de compra busca eliminar as diferenças de custo de vida, facilitando a comparação entre os países.

Em 1980, o PIB per capita brasileiro era de US$ 11.372, equivalendo a 39% do americano. Em 2018, era apenas 26% maior do que em 1980. Os US$ 14.359 do ano passado equivalem a 25,8% do PIB per capita dos EUA. No mesmo período, o PIB per capita sul-coreano cresceu 623%, e o chileno, 189%. O indicador americano, mesmo partindo de um nível bem mais alto em 1980, aumentou 91% nesse intervalo.

O desempenho do PIB per capita brasileiro recente tem sido ainda pior. Nos últimos anos, o país sofreu uma gravíssima recessão, que durou do segundo trimestre de 2014 ao quarto trimestre de 2016, e a economia cresceu apenas 1,1% em 2017 e também em 2018. Depois de bater no pico de US$ 15.562 em 2014, o PIB per capita do Brasil recuou nos três anos seguintes, ficando praticamente estável no ano passado, quando subiu 0,4%. Continuar a ler

Empresas Não-Financeiras: Sem Desalavancagem Financeira

O ano de 2018 poderia ter sido o momento de uma retomada mais consistente do crescimento econômico. Não foi o que aconteceu e os balanços patrimoniais das empresas de capital aberto mostram as consequências disso:

  1. a melhora da rentabilidade foi tímida e muito desigual entre os setores,
  2. o endividamento permaneceu elevado e
  3. pouco se avançou a redução das despesas financeiras.

Esta Carta IEDI 927 analisa indicadores dos balanços de 318 grandes corporações não financeiras de capital aberto em 2018. As empresas foram agregadas de tal maneira que podemos avaliar o desempenho dos grandes setores da economia: indústria, serviços e comércio, isolando os efeitos de gigantes como Petrobras, Vale e Eletrobras.

De modo geral, a evolução foi mais favorável no segundo semestre de 2018 do que no primeiro semestre, quando a paralização dos caminhoneiros perturbou muito a produção e a distribuição de mercadorias.

Em boa medida a melhora esteve relacionada à vigência de patamares mais elevados dos preços de commodities e às mudanças na Petrobras. No agregado da amostra de empresas, a margem líquida de lucro saltou de 4,3% em 2017 para 7,6% em 2018. Excluídas as gigantes Petrobras, Vale e Eletrobras, a margem passou de 4,5% para 5,9%, retornando ao nível de 2014 (5,6%). Mas isso não ocorreu para todos.

Para a indústria (excluídas a Petrobras e a Vale), o quadro progrediu apenas parcialmente. A margem líquida de lucro subiu de 3,7% em 2017 para 4,6% em 2018, mas esse movimento não foi capaz de restaurar a rentabilidade aos patamares anteriores à crise recente. Em 2014 a margem tinha sido de 5,7%.

Além de modesto, este movimento positivo na indústria foi muito concentrado em poucos ramos, principalmente na extrativa e em alguns segmentos de insumos básicos. O grupo de bens de consumo não duráveis e semiduráveis, por sua vez, contribuiu negativamente para a recomposição da rentabilidade média do setor.

Quem apresentou, de fato, melhorias significativas na rentabilidade em 2018 foram as empresas dos setores de comércio e serviços. Na indústria, a lucratividade aumentou de maneira limitada, fazendo com que o endividamento e as despesas financeiras permanecessem fardos importantes. Esta é mais uma dimensão do pífio desempenho industrial, cuja produção física voltou ao vermelho desde o final do ano passado.

Para o agregado das empresas como um todo, o endividamento bancário manteve a tendência de crescimento em 2018, variando +6,7% e atingindo a cifra de R$ 1,5 trilhão, impulsionado, entre outros fatores, pela desvalorização do real do período, na faixa de 20%. A indústria, por sua vez, viu seu endividamento subir mais intensamente: +11% em relação a 2017, chegando a R$ 414,6 bilhões, quando excluídas as gigantes Petrobras e Vale. Continuar a ler

Seminários para Debate de um Projeto Nacional

Cristian Klein e Francisco Góes (Valor – Eu&Fim-de-Semana, 26/04/19) escreveram reportagem sobre um Seminários para Debate de um Projeto Nacional.

Brasil acima de tudo” está no bordão repisado pelo presidente da República, mas é uma casa de shows no bairro do Catete, no Rio, que tem se transformado, semanalmente, no QG da defesa de um projeto nacional — distante do ideário da nova direita bolsonarista. Em meio à onda conservadora, políticos, artistas, acadêmicos e diplomatas, reunidos no Casarão Ameno Resedá, estão se dedicando a debater o país em 36 seminários. Até dezembro de 2019, pretendem apontar rumos para a nação que, em três anos, completará o bicentenário da Independência.

É com esse marco histórico em mente que o professor e consultor Darc Costa, de 70 anos, presidente do Instituto Brasilidade, decidiu reunir um time de especialistas em diversas áreas – da infraestrutura e energia, passando por música, cinema e arquitetura, à política externa – para achar respostas ao dilema da questão nacional. Mais uma vez, a empreitada é em parceria com o amigo e economista Carlos Lessa, com quem fundou o instituto e de quem foi vice-presidente na gestão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) entre 2003 e 2004.

Estudioso de questões estratégicas, Darc Costa tem como principal preocupação a retomada de um projeto nacional que, afirma, o Brasil perdeu a partir dos anos 80, mas cuja articulação depende agora de um ex-capitão do Exército. Em sua visão, Jair Bolsonaro representa uma ruptura ao predomínio do pensamento liberal paulista, vigente desde a redemocratização de 1985 e que já havia dado as cartas na República Velha, entre 1889 e 1930. “Só que Bolsonaro não tem escopo teórico para conduzir o processo. Não tem a formação, por exemplo, de um general Mourão [vice-presidente], que demonstra ser muito mais sólida”, compara.

Costa afirma que apenas quando o Brasil reconstruir o seu projeto de país, como houve entre as décadas de 30 e 80, é que haverá solução para grandes problemas, como o crescimento e a redução da desigualdade social. Cita a importância do marechal Mário Travassos (1891-1973), que escreveu quando ainda era capitão, em 1935, o livro “Projeção Continental do Brasil”, que “lastreou toda a política externa do Brasil durante cinco décadas, a partir da era Vargas”.

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Retrocesso Industrial: Excepcionalidade Brasileira

A indústria brasileira não precisou passar por uma de suas piores crises no período 2014-2016 – da qual ainda não se restabeleceu completamente – para retroceder na estrutura produtiva do país. Ao contrário, o setor industrial vem perdendo participação no PIB do Brasil desde os anos 1980.

As dificuldades dos últimos anos apenas aprofundaram o problema, levando ao menor patamar em que a nossa indústria já ocupou desde 1947, como mostrou a Análise IEDI de 26/03/2019. Em 2018, a indústria de transformação representou apenas 11,3% do PIB, isto é, quase a metade dos 20% registrados em 1976 a preços constantes. Temos passado por um processo de regressão industrial dos mais intensos do mundo, o que tem resultado em baixo crescimento econômico e atrasos tecnológicos importantes.

Esta Carta IEDI, realizada a partir do estudo dos economistas Paulo Morceiro (USP) e Joaquim J. M. Guilhoto (OCDE), disponibilizado na íntegra no site no IEDI, analisa em maior detalhe a chamada “desindustrialização” brasileira, pela qual temos passado há décadas. Regra geral, este processo não significa o encolhimento absoluto da indústria, mas sua perda de participação na economia, decorrente de seu baixo crescimento.

Os autores avaliaram o declínio relativo da indústria de transformação setorialmente, comparando-o com a evolução do restante do mundo. Isto é, todos os setores manufatureiros perderam participação no PIB? Todos ao mesmo tempo e na mesma intensidade? Recuaram mais os de alta intensidade tecnológica ou os de baixa? O encolhimento relativo da indústria brasileira é mais uma de nossas “jabuticabas”?

Algumas das evidências empíricas da análise de Morceiro e Guilhoto podem ser resumidas nos seguintes pontos: Continuar a ler

Gráfico Dinâmico: Top 10 Maiores PIBs de 1960-2017

Confira no gráfico dinâmico acima a ascensão e a queda recente do PIB do Brasil (barra amarela). Países entram em decadência e/ou regressão histórica. Basta adotar o neoliberalismo. Os maiores crescimentos do PIB brasileiro foram durante governos desenvolvimentistas.

Observe também o da China tinha o mesmo tamanho do PIB do Brasil no início da série temporal. O Capitalismo de Estado lá desenvolveu o país. Aqui os neoliberais privatizaram e/ou desmancharam o Estado desenvolvimentista. O país ficou para trás.

Perda de Intensidade Tecnológica e Déficit Comercial na Indústria Brasileira

Ana Conceição (Valor, 04/02/19) informa: a indústria brasileira vem perdendo participação no Produto Interno Bruto (PIB) há décadas. Um estudo mostra seus segmentos mais avançados tecnologicamente terem tido uma perda de peso prematura – e por isso mais grave.

O peso dos setores industriais de alta intensidade tecnológica chegou a quase 10% do PIB em 1980, no seu melhor momento, e caiu a 5,8%, a preços de 2016. O segmento de elétrica, informática e eletrônicos saiu de 1,1% do PIB e caiu para 0,9% no mesmo período. Esse setor, que nunca chegou a ter grande fatia na economia nacional, caminhou na contramão global, já que ganhou importância na indústria e no comércio internacionais nas últimas décadas.

No agregado, o peso da indústria brasileira no PIB chegou a 21,3% em 1980 e reverteu a tendência a partir de 1981. Desde então, deixou de ser “o motor” do crescimento. Em 2016, chegou a 12,5%.

Os números foram calculados pelo economista e pesquisador Paulo César Morceiro, do Núcleo de Economia Regional e Urbana da Universidade de São Paulo (Nereus/USP), autor do estudo ao lado de Joaquim José Martins Guilhoto. O trabalho criou séries inéditas, a preços constantes, da participação de 13 segmentos no PIB entre 1970 e 2016, a partir de dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Eles foram reunidos em dois grupos, de alta e baixa intensidade tecnológica. Continuar a ler