Vínculos entre Complexidade Econômica, Instituições e Desigualdade de Renda

Assisti, no IE-UNICAMP, no dia 9 de agosto de 2017, interessante palestra de Dominik Hartmann da The MIT Media Lab de Cambridge – USA, Fraunhofer Center for International Management and Knowledge Economy IMW de Leipzig – Germany, e da University of Leipzig – Germany. Em coautoria com Miguel R. Guevara e Cristian Jara-Figueroa (ambos da Universidad de Playa Ancha, Valparaíso – Chile e Universidad Técnica Federico Santa María de Valparaíso – Chile), Manuel Aristaran e César Hidalgo (ambos do MIT), todos assinaram o texto Linking Economic Complexity Insitutions and Income Inequality. WD_May2017 [Vinculando Complexidade Econômica, Instituições e Inequidade de Renda], em maio de 2017.

Defendem com uso de big data (mega banco de dados) e bons argumentos que a mistura de produtos de um país prevê o seu subsequente padrão de diversificação e crescimento econômico. Eles se colocam a seguinte pergunta-chave: esse mix de produtos também pode prever a desigualdade de renda do país?

Para responde-la, eles combinam métodos de Econometria, Ciência da Rede e Complexidade Econômica. Mostram que os países que exportam produtos complexos, com maior valor agregado propiciado por conhecimento tecnológico e múltiplos encadeamentos de insumos-produtos, medidos pelo Índice de Complexidade Econômica, têm níveis mais baixos de desigualdade de renda que os países que exportam produtos mais simples.

Com a análise de regressão multivariada, mostram que a complexidade econômica é, significativamente, previsora da desigualdade de renda – quanto menor aquela, pior esta última. Essa relação é robusta ao controle de medidas agregadas de renda, instituições, concentração na pauta de exportação e capital humano.

Além disso, apresentam uma medida que associa um produto a um nível de desigualdade de renda igual ao Índice de Gini médio dos países que exportam esse produto, ponderada pela participação do produto na pauta de exportação do país. Usam essa medida junto com a rede de produtos relacionados, ou “espaço de produtos”, para ilustrar como o desenvolvimento de novos produtos está associado a mudanças na desigualdade de renda.

Essas descobertas mostram que a Complexidade Econômica captura informações sobre o nível de desenvolvimento de uma economia que é relevante para as formas como uma economia gera e distribui sua renda. Além disso, esses achados sugerem que a estrutura produtiva de um país pode limitar seu alcance de bem-estar pela desigualdade de renda. Para socialização desse novo conhecimento, os autores colocaram seus resultados disponíveis para consulta através de um recurso on-line que permite aos usuários visualizar a transformação estrutural de mais de 150 países e suas mudanças associadas na desigualdade de renda durante 1963-2008. Continue reading “Vínculos entre Complexidade Econômica, Instituições e Desigualdade de Renda”

Horizontes 2030: Igualdade no Centro do Desenvolvimento Sustentável

Horizontes 2030: a igualdade no centro do desenvolvimento sustentável

O mundo vive uma mudança de época. A comunidade internacional, respondendo aos desequilíbrios econômicos, distributivos e ambientais do estilo de desenvolvimento dominante, aprovou recentemente a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e seus 17 Objetivos.

Este documento, que a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) apresenta aos Estados membros no trigésimo sexto período de sessões, complementa analiticamente essa Agenda com base na perspectiva estruturalista do desenvolvimento e sob o ponto de vista dos países da América Latina e do Caribe. Continue reading “Horizontes 2030: Igualdade no Centro do Desenvolvimento Sustentável”

Modernização em Ondas por David Kupfer

David Kupfer é diretor do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do Grupo de Indústria e Competitividade (GIC-IE/UFRJ). Publicou artigo (Valor, 22/06/17) sobre as ondas de inovações tecnológicas. Reproduzo-o abaixo.

“Observada pelo chamado lado real, a economia brasileira exibe uma marcante regularidade histórica expressa na tendência a experimentar processos de modernização em ondas. Trata-se do fato de atravessar longos períodos de imobilismo, nos quais se acumulam grandes defasagens tecnológicas, expressas em crescentes hiatos de produtividade e competitividade em relação às melhores práticas internacionais, seguidos de períodos de modernização concentrados em um curto intervalo de tempo.

Grosso modo, no pós-Segunda Guerra Mundial ocorreram três ondas de modernização.

A primeira, cuja característica mais proeminente foi a implantação de uma indústria de bens duráveis no país, teve lugar durante, aproximadamente, os anos em torno do Plano de Metas na segunda metade da década de 1950.

A segunda concentrou-se em período um pouco mais longo, de cerca de sete anos, ocorridos durante os 1o e 2o PND nos anos 1970, quando se incorporou setores modernos de produção de commodities agrícolas, metálicas, químicas e energéticas.

Por fim, uma terceira onda, com duração aproximada de quatro anos, verificou-se após o Plano Real, na segunda metade dos anos 1990. Diferentemente das anteriores, não se caracterizou pela adição de novos setores ao tecido produtivo, limitando-se estritamente a um ciclo de atualização tecnológica de produtos e processos pré-existentes. Continue reading “Modernização em Ondas por David Kupfer”

Advogado-do-Diabo em defesa da “Desindustrialização”

Os “fortes e não-oprimidos” necessitam de defesa?! Evidentemente, dispensam-na. No entanto, a postura científica exige seguidas tentativas de falsear hipóteses para verificar se elas se sustentam. Senão, trocamos por outra. Não há fidelidade no mundo da Ciência.

Iconoclasta é nome dado ao membro do movimento de contestação à veneração de ícones religiosos que surgiu no século VIII denominado Iconoclastia. Este termo significa literalmente “quebrador de imagem”. Engloba os indivíduos que não respeitam tradições e crenças estabelecidas ou se opõem a qualquer tipo de culto ou veneração seja de imagens ou outros elementos. O termo abrange ainda aqueles que destroem monumentos, obras de arte e símbolos. Principalmente, rejeitam a veneração de imagens religiosas por considerar o ato como idolatria.

Luddismo é o movimento ocorrido na Inglaterra no século XIX, liderado pelo operário Ned Ludd, contrário à introdução de máquinas na indústria têxtil, pela crença de que isso levaria ao desemprego dos artesãos e, consequentemente, ao caos social. Por extensão, refere-se à posição contrária a qualquer avanço tecnológico, por considerá-lo socialmente prejudicial.

Então, esta é a contenda aqui apresentada: Iconoclastia versus Luddismo! Atuarei em defesa da “desindustrialização” contra os contrários (sic) à introdução de automação robótica na indústria, pela crença de que isso levaria ao desemprego de operários. A posição contrária a qualquer avanço tecnológico, por considerá-lo socialmente prejudicial, reage contra o progresso histórico, portanto, é reacionária, isto é, contrária às ideias de um processo de transformação da sociedade. Continue reading “Advogado-do-Diabo em defesa da “Desindustrialização””

Concentração das Atividades Tecnológicas

No artigo Transformações na estrutura produtiva global, desindustrialização e desenvolvimento industrial no Brasil, publicado na Revista de Economia Política, vol. 37, nº 1 (146), pp. 189-207, janeiro-março/2017, os coautores Célio Hiratuka e Fernando Sarti mostram que:

  • por um lado, a crescente internacionalização, mensurada por dados de comércio, investimento e produção manufatureira, mostra sinais de crescente participação de países em desenvolvimento, embora de um conjunto relativamente restrito de países;
  • por outro lado, as informações sobre a capacidade de comando através de redes de propriedade das grandes corporações globais apontam para um processo de maior concentração e centralização do capital.

Quando se observam os dados de internacionalização das atividades tecnológicas das empresas transnacionais (ETN), que justamente conferem a estas empresas a capacidade para absorver grande parte do valor criado ao longo dessas cadeias globais, também se observa uma situação de grande concentração. Em relação a esse último aspecto, Hiratuka e Sarti destacam que os gastos em P&D permanecem muito concentrados nos países desenvolvidos e dominados por um grupo reduzido de ETN.

Considerando as informações das 1.500 maiores empresas em termos de gastos em P&D, estas foram responsáveis por cerca de 45% dos gastos mundiais (inclusive os realizados fora do setor privado) em 2011. Considerando apenas as 100 maiores, estas representaram cerca de ¼ do total global e quase 60% das 1.500 maiores.

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Emergência da China como Potência Industrial

No artigo Transformações na estrutura produtiva global, desindustrialização e desenvolvimento industrial no Brasil, publicado na Revista de Economia Política, vol. 37, nº 1 (146), pp. 189-207, janeiro-março/2017, os coautores Célio Hiratuka e Fernando Sarti citam dados da UNIDO (2011), segundo os quais a China representava em 1980 cerca de 1,4% do valor adicionado manufatureiro e 1% das exportações globais. Em 2010, esses indicadores passaram a 15,4% e 10,3%, respectivamente.

A economia chinesa soube aproveitar o movimento de deslocamento de atividades manufatureiras ocorrido ao longo dos anos 1980 e 1990 para alavancar seu processo de desenvolvimento industrial, inicialmente com as etapas mais simples do processo de montagem dentro das cadeias das ETN, mas avançando rapidamente para etapas mais complexas e com participação crescente de empresas nacionais e estatais.

O nível de desenvolvimento econômico atingido pela China, refletido também em suas elevadas escalas de produção e consumo, tem posicionado o país não apenas como um grande produtor de manufaturas industriais, mas também como um grande importador de insumos e matérias-primas industriais e de bens de capital, além de crescente consumidor de manufaturas, alimentos e matérias-primas minerais e energéticas. Continue reading “Emergência da China como Potência Industrial”

Estratégias Globais das Empresas Transnacionais

 

Em relação às estratégias globais das ETN, no artigo Transformações na estrutura produtiva global, desindustrialização e desenvolvimento industrial no Brasil, publicado na Revista de Economia Política, vol. 37, nº 1 (146), pp. 189-207, janeiro-março/2017, os coautores Célio Hiratuka e Fernando Sarti argumentam que  a mudança na gestão e nas formas de operação internacional foi alavancada pelas estratégias das corporações americanas, pressionadas pela competição acirrada levada a cabo por empresas da Europa Continental e do Japão.

No período do pós-guerra, a partir de um parque industrial renovado e de políticas industriais ativas, principalmente as empresas da Alemanha e do Japão passaram rapidamente a desafiar a superioridade das grandes empresas americanas. No caso do Japão, a estrutura organizacional mais flexível e com maior capacidade de organizar e coordenar as relações intra e interfirmas para o aprendizado e a inovação representou uma vantagem importante, dado o cenário típico de instabilidade prevalecente a partir dos anos 1970.

De outro lado, a grande empresa americana encontrou-se pressionada também pelo crescente questionamento acerca da eficiência do modelo gerencial da grande corporação multidivisional diversificada. Para os críticos desse modelo, a autonomia exagerada dos gerentes para alocar os lucros acumulados havia criado corporações excessivamente diversificadas, com a implementação de projetos de investimentos que não necessariamente geravam retornos aos acionistas, resultando em perda de eficiência e competitividade internacional.

Acionistas mais ativos, remunerações atreladas ao desempenho das ações e o movimento de fusões e aquisições hostis seriam as formas de disciplinar e implementar um novo modelo de gestão, mais alinhado com o interesse dos acionistas, nessas grandes corporações. Continue reading “Estratégias Globais das Empresas Transnacionais”