Armadilhas da Pobreza

A revolução keynesiana na HPE (História do Pensamento Econômico) foi propiciar uma visão macro sistêmica aos economistas, diferenciando-a da visão microeconômica dos homens de negócios. Estes — e os economistas não dotados dessa visão holística — padecem do individualismo metodológico e extrapolam as experiências vivenciadas para o todo.

Não percebem as interações entre os agentes econômicos resultarem em um todo distinto da mera agregação das partes porquanto elas se alteram em suas interdependências e/ou interconexões. Consequência disso foi Keynes mostrar o desemprego não ser responsabilidade individual de trabalhadores, embora um compete com outro quando há poucas vagas, mas sim da criação massiva de empregos por gastos de investimentos dos capitalistas, expandindo capacidade produtiva.

Observe como o viés do individualismo metodológico prejudica a análise da chamada “armadilha da pobreza” no artigo compartilhado abaixo de autoria do Tiago Cavalcanti (Valor, 05/01/22), professor de Economia da Universidade de Cambridge e da FGV-SP.

Em artigo de 2007 publicado no Journal of Economic Perspectives, Abhijit Banerjee e Esther Duflo, vencedores do prêmio Nobel de Economia de 2019, investigaram de forma detalhada a vida de pessoas que vivem na extrema pobreza em um conjunto de 13 países.

Verificou-se serem indivíduos que vivem em famílias numerosas, gastando de 56 a 75% da renda com alimentação. Cerca de 10% dos gastos dessas famílias são com ritos sociais, a exemplo de casamentos e velórios, enquanto, em média, 10% dos gastos são com álcool ou cigarro. Tais famílias quase não investem em educação e dependem do Estado ou de organizações não governamentais para receberem algum tipo de investimento em capital humano.

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Custo Unitário do Trabalho: Muito Abaixo do Pleno Emprego da Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014)

Salário baixo não cria empregos! Este é um beabá do keynesianismo: quem cria empregos é a taxa de investimentos com expansão da capacidade produtiva não poupadora de mão-de-obra!

Mesmo com recuperação neste ano, a mão de obra brasileira ainda está com um custo bem barato em termos históricos. Calculado pelo Banco Central, o chamado Custo Unitário do Trabalho (CUT) fechou outubro de 2021 em 90,6 pontos.

A alta é de 26,3% em 2021, mas está bem abaixo da média histórica (110,1 pontos) e também do período entre 2015 e a pandemia (118,4 pontos), quando esse indicador já teve um ajuste relevante para baixo.

O CUT é um dos elementos de análise do ambiente de negócio para as empresas em um país. Seu movimento reflete uma combinação de fatores.

Um dos motivos para o indicador seguir abaixo dos seus níveis históricos (ver gráfico acima) é a taxa de câmbio, pois ele é calculado em relação ao dólar. A outra razão é a perda de renda de boa parte dos trabalhadores que segue em curso, mesmo parcialmente dissipada neste ano com o arrefecimento da pandemia.

Diante dos números , é natural se questionar se o ajuste no mercado de trabalho não foi longe demais. A pergunta vale até para quem se beneficia de mão de obra barata, cujo reverso é um trabalhador com pouca capacidade de consumo. Salário não é só custo, é também demanda!

World Inequality Report 2022: Desigualdade Social no Brasil

Marsílea Gombata (Valor, 08/12/21) informa: a pandemia junto com um governo inerte aumentou a desigualdade em todo o mundo, com os mais ricos enriquecendo ainda mais e o total de pobres crescendo. No Brasil, a parcela 10% mais rica detinha 58,6% da renda nacional em 2019; hoje, concentra 59%, segundo o “World Inequality Report 2022”, divulgado ontem. A metade mais pobre, por sua vez, possuía 10,1% antes da pandemia e hoje concentra 10%.

O documento, elaborado pelo World Inequality Lab, codirigido pelo economista Thomas Piketty, mostra ainda, no Brasil, a parcela 1% mais rica ser dona de cerca de metade (50%) da riqueza nacional. A metade mais pobre detém menos de 1% da riqueza nacional – muito abaixo de vizinhos como a Argentina, onde os 50% mais pobres possuem 6% da riqueza nacional.

O World Inequality Lab utiliza dois conceitos para medir desigualdade: renda e riqueza. A renda considera a soma de toda a renda recebida por indivíduos de um país, como o salário ao longo de um ano, antes de pagar Imposto de Renda. A riqueza é a soma de valores de todos os ativos detidos por indivíduos em um país, o estoque de acumulação de capital, como poupança e rendimentos.

Atualmente, mostra o documento, a desigualdade no Brasil é mais alta se comparada à dos EUA, onde os 10% mais ricos capturam 45% da renda nacional, ou na China, onde essa parcela mais rica detém 42%.

Na América Latina, o Brasil é o segundo país mais desigual depois do Chile, onde os 10% mais ricos detêm 58,9% da renda total. Em ambos os países, porém, os 10% mais ricos ganham 30 vezes mais do que os 50% mais pobres – na Argentina e no Canadá essa proporção é de 13%, nos EUA, de 17%, e, na França, 6%.

No G-20 (grupo que reúne algumas das maiores economias globais), o Brasil também ocupa o segundo lugar na lista dos mais desiguais, atrás somente da África do Sul. No país africano, a parcela dos 10% mais ricos possui 66,5% da renda nacional e ganha 60 vezes mais do que a metade mais pobre.

No ranking mundial, o Brasil é o 11o mais desigual, atrás de Chile, África do Sul, República Centro-Africana, Moçambique, Namíbia, Zâmbia, Guiné Bissau, Botsuana, Zimbábue e Iêmen.

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Em 2019, ¼ do PIB do país vinha de apenas oito municípios

Em 2019, ¼ do PIB do país vinha de apenas oito municípios e o líder em participação era São Paulo (SP) responsável por 10,3% do PIB do país que, naquele ano, chegou a R$ 7,4 trilhões. Já o município com o maior PIB per capita foi Presidente Kennedy (ES), com R$ 464.883,49.

A densidade econômica do país era de R$ 870 mil por quilômetro quadrado (R$/km²). Osasco (SP) era o município com a maior densidade, gerando R$ 1,3 bilhão/km².

Entre 2018 e 2019, os municípios com maior ganho de participação no PIB do país foram São Paulo (SP), Maricá (RJ), Saquarema (RJ), Parauapebas (PA), Brasília (DF) e São José dos Pinhais (PR), cada um com acréscimo de 0,1 ponto percentual (p.p.).

A atividade econômica na Cidade-região de São Paulo, que reúne 92 municípios adjacentes com forte interação, gerava o equivalente a quase 1/4 do PIB do país e, ainda, 20,4% do valor adicionado bruto da indústria nacional.

Em 48,9% dos municípios do país, a administração pública foi a principal atividade econômica em 2019. Esse predomínio ocorria em mais de 90% dos municípios do Acre, Roraima, Amapá, Piauí e Paraíba e em apenas 9,9% dos municípios paulistas.

>Essas são algumas informações do Produto Interno Bruto (PIB) dos Municípios 2019, elaboradas em parceria com os Órgãos Estaduais de Estatística, Secretarias Estaduais de Governo e Superintendência da Zona Franca de Manaus – SUFRAMA. Os mapas sobre este estudo estão disponíveis na Plataforma Geográfica Interativa do IBGE.

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Desigualdade entre Gêneros no Brasil

Em todas as instâncias, observa-se desigualdade entre gêneros no Brasil.

Após a revisão nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) indicar ter havido fechamento, e não criação, de 191,5 mil posto de trabalho com carteira assinada em 2020, outra base mais ampla do governo federal, a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), aponta: o Brasil perdeu 480,3 mil vínculos empregatícios formais no primeiro ano da pandemia.

A Rais exige dados sobre todas as movimentações de emprego do ano e de todos os tipos de contrato, enquanto o Caged recolhe admissões e demissões apenas sob regime da CLT.

Segundo a Rais, foram encerrados, no ano passado, 254,2 mil postos celetistas, 215,1 mil estatuários (servidores da administração pública direta ou indireta, não efetivos etc.) e 11 mil “outros”. Nessa última categoria, enquanto houve redução de quase 104 mil vagas para aprendiz, os temporários cresceram em 92,2 mil postos.

Os dados da Rais mostram, na última década, o ano de 2020 só não foi pior que 2015 e 2016, período de forte ajuste no mercado de trabalho formal brasileiro, com reduções de 1,5 milhão e 2 milhões de trabalhadores no estoque de empregos formais, respectivamente.

Da perda dos 480,3 mil trabalhadores formais totais em 2020, as mulheres representaram 96,4%. Com isso, a proporção de mulheres no estoque de empregos formais em 2020 (43,6%) foi a menor desde 2014 (43,2%), após ganho contínuo de espaço na última década.

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1% mais rico tem 35 vezes a renda dos 50% mais pobres

Alessandra Saraiva e Lucianne Carneiro (Valor, 22/11/21) informam: em 2020, o rendimento médio mensal das pessoas do grupo de 1% com melhor rendimento foi de R$ 15.816 por mês, em média, o que correspondeu a 34,9 vezes o rendimento dos 50% com os menores rendimentos (rendimento médio de R$ 453). O retrato da desigualdade de renda no Brasil está na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua 2020 – Rendimento de Todas as Fontes, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A despeito da enorme diferença, essa distância foi na verdade reduzida em 2020, porque a razão havia chegado ao recorde da série histórica em 2019, de 40 vezes. Esta razão entre o rendimento médio dos mais pobres e os mais ricos mostrou trajetória de redução de 2012 (38,3 vezes) até 2014 (33,5 vezes), a partir de quando voltou a crescer até alcançar o pico da série em 2019.

Isso ocorreu porque houve redução de 9,4% da renda mensal real domiciliar per capita do 1% mais rico, que caiu de R$ 17.448 em 2019 para R$ 15.816 em 2020.

Houve aumento de 3,9% entre os 50% mais pobres, cuja renda média passou de R$ 436 para R$ 453, com pagamento de auxílio emergencial em meio à crise.

A renda per capita nos domicílios das famílias mais pobres, para as quais tinham alguma ajuda de programa social em meio à pandemia, subiu 12,2% entre 2019 e 2020, de R$ 688 para R$ 722. O IBGE comentou: essa alta ocorreu em um contexto quando, em 2020, o rendimento médio mensal real domiciliar per capita total do país caiu 4,3% ante 2019, para R$ 1.349.

Carga Tributária para Emigrante e Planejamento Tributário

Muitos brasileiros alimentam o sonho de morar nos Estados Unidos. Porém, alguns desistem quando sabem o que é viver naquele país em termos tributários. O imposto sobre a renda é considerável – bem superior ao teto brasileiro, de 27,5% – e pode ser exigido pelo governo federalEstados municípios.

“É uma “armadilha tributária”, diz o tributarista Gustavo Haddad. A sócia dele no Lefosse Advogados, Andréa Caliento, confirma: “Clientes que desejavam morar em Miami desistiram da ideia”. E no Estado da Flórida, o imposto sobre a renda nem é dos maiores. Cobra-se 37%, a alíquota federal. No Estado de Nova York, por exemplo, alcança 50% – somando-se a federal e a estadual, de 13%.

Cada vez mais, o custo tributário do país do destino é colocado na balança para a escolha do local da nova residência – sobretudo para quem deixa patrimônio no Brasil. Advogados e consultores financeiros têm orientado potenciais expatriados a, antes de fazer as malas, traçarem planos pré-emigração e colocarem tudo no papel.

“Devido aos diversos regimes tributários dos países, fazer o preparo e o planejamento tributário antes da viagem é essencial. Serve para evitar tributações excessivas”, afirma a tributarista Sabrina Lawder, líder de internacional tax da consultoria Grant Thornton Brasil.

Anualmente, milhares de brasileiros fazem as malas para deixar o país. Até setembro, 15,2 mil pessoas entregaram comunicações de saída definitiva à Receita Federal. O documento é obrigatório para quem deixa o Brasil. No ano passado, foram 20,9 mil declarações. Em 2018 e 2019, no pré-pandemia, o número de saídas definitivas comunicadas foi praticamente igual: 23,8 mil 23,7 mil, respectivamente.

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Poupança de 2020 usada para Sobrevivência em 2021 e 2022 até Posse de Governo Progressista

A poupança financeira das famílias voltou a crescer com mais força no segundo trimestre de 2021, segundo levantamento inédito do Centro de Estudos de Mercados de Capitais (Cemec) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). A variação foi de R$ 117 bilhões, abaixo dos R$ 171 bilhões do segundo trimestre de 2020, mas revertendo a tendência de desaceleração dos meses anteriores (R$ 74,19 bilhões no quarto trimestre de 2020 e R$ 23,52 bilhões no primeiro trimestre de 2021). Com isso, o fluxo acumulado desde o primeiro trimestre de 2019 chegou a R$ 473,4 bilhões. O elevado estoque corrobora os dados das Contas Nacionais, que mostram que a taxa de poupança atingiu recorde de 20,6% do Produto Interno Bruto (PIB).

As restrições mantidas no segundo trimestre por causa da segunda onda da pandemia, o aumento das incertezas e a alta da inflação e dos juros seguraram mais uma vez o consumo, apontam especialistas, a despeito da expectativa inicial de que haveria uma reação de mais demanda por parte das famílias. A avaliação entre economistas é que alguns desses fatores devem permanecer como obstáculos para a volta do consumo a curto prazo, comprometendo a retomada.

O aumento da poupança desde o início da pandemia está ligado a dois fatores, apontam Carlos Antonio Rocca, coordenador do Cemec-Fipe: circunstancial – devido ao isolamento social, que restringe alternativas de consumo, especialmente de serviços- e precaucional, por causa das incertezas.

Neste movimento, tiveram destaque as famílias de renda mais alta sem perderem o emprego na pandemia. Em geral, os serviços representam uma parcela maior do orçamento dessas famílias. Viagens, idas a restaurantes e a academias de ginástica, por exemplo, ficaram restritas, liberando recursos para poupar.

Por outro lado, as famílias de mais baixa renda não só têm menor propensão a poupar como foram mais atingidas pela crise no mercado de trabalho, que acabou com ocupações informais.

“Havia uma expectativa de que se reduzisse essa poupança extra das famílias e esses recursos pudessem ser direcionados para o consumo em 2021. Mas não foi isso o que aconteceu”, afirma Rocca. O consumo das famílias ficou estável no segundo trimestre, em relação ao primeiro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

Sérgio Tauhata (Valor, 19/10/21) avalia: os fluxos de recursos para a poupança contam, de maneira assustadoramente certeira, a história de como a desigualdade tem pautado a crise econômica trazida pela pandemia. Nos últimos meses, os resgates líquidos – quando se comparam os aportes e saques – se tornaram uma constante para a tradicional caderneta, conforme dados do Banco Central (BC).

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Impactos de Políticas Empresariais nas Diferenças Raciais dos Salários no Brasil

Lucianne Carneiro (Valor, 14/10/21) escreveu uma resenha sobre um dos artigos mais recentes de David Card, um dos três premiados com o Nobel de Economia 2021, trata da desigualdade racial de renda nas empresas brasileiras. O estudo conclui: as empresas exacerbam as desigualdades raciais existentes no país.

Com base em indicadores do Rais (Relação Anual de Informações Sociais), o texto “Combinação sortida ou contratação excludente? O impacto das políticas empresariais nas diferenças raciais dos salários no Brasil”, em tradução livre, é assinado ao lado de outros três pesquisadores: o brasileiro Edson Severnini, François Gerard e Lorenzo Lagos, além de ser coeditado por Esther Duflo, Nobel de Economia 2019, e foi publicado na edição de outubro da “American Economic Review”.

Diante do resultado, os pesquisadores defendem amplo investimento em educação para reduzir essas disparidades de rendimentos, com foco não apenas no momento anterior à contratação mas também nos treinamentos internos das companhias no país.

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Estratificação Social e Moradia em São Paulo

Ana Luiza Tieghi (FSP, 17/10/21) informa: em São Paulo, apenas os 10% mais ricos conseguem comprar um imóvel de valor mediano. Custa cerca de R$ 600 mil.

Os dados são da plataforma de inteligência de mercado Urbit. Criou um índice para verificar a acessibilidade financeira dos imóveis na cidade, comparando a renda dos paulistanos com o valor dos apartamentos.

Segundo a pesquisa, um casal com dois filhos com uma renda mediana consegue comprar um imóvel de até R$ 190 mil. Uma pessoa ao morar sozinha tem poder de compra para um imóvel de até R$ 110 mil.

Nenhum bairro da cidade tem apartamentos com três ou quatro quartos que caibam nesse orçamento, e a oferta de imóveis de até R$ 190 mil está concentrada em apartamentos de um dormitório.

A renda mediana, ou seja, no meio entre a porção de renda mais baixa e mais alta da cidade, foi estimada em R$ 3.887 para um casal com dois filhos e em R$ 2.390,93 para quem vive sozinho. Na média de São Paulo, uma pessoa que vive só precisa acumular o equivalente a 14 anos de salário para comprar um imóvel de um quarto. A situação é ainda pior para o casal com dois filhos, que precisa juntar 25 anos de trabalho, sem outros gastos, para comprar um imóvel de 3 ou 4 quartos.

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Risco de Pobreza

Crianças e adolescentes pobres no Brasil sofrem não apenas por causa da renda mais baixa, mas por causa da fragilidade dessa renda. Estudo do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social, a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, mostra que os domicílios pobres apresentam características que deixam a renda da família ainda mais vulnerável, se comparados com os lares dos 20% com mais renda no país. São questões como parcelas maiores de trabalhadores ocupados sem carteira assinada e por conta própria, menor fatia dos que contribuem para Previdência e uma menor participação da renda proveniente do trabalho.

Nesses domicílios com crianças pobres, 31,2% dos trabalhadores ocupados de 18 a 64 anos eram contribuintes de instituto de previdência em 2019, frente a taxa de 87% nos lares de maior renda. Já o percentual de trabalhadores sem carteira assinada era de 34,7%, ante 6,5% do outro grupo. A parcela dos que trabalham por conta própria também é bem superior: 35,1% contra 18,6%.

Existe uma outra dimensão de pobreza que precisa ser acompanhada no país – que vai além dos brasileiros hoje atendidos pelos programas sociais, como o Bolsa Família. Um dos aspectos que preocupam especialistas é a instabilidade de rendimentos dos brasileiros de renda mais baixa, o que traz consequências não apenas naquele momento de dificuldades, mas também para as perspectivas de futuro dessas famílias.

Há um grupo enorme não incluído dentro dos critérios de elegibilidade de programas sociais, mas com grande volatilidade de renda. Vimos isso na pandemia.

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Motor da Desigualdade: o Fed e o Futuro da Riqueza na América

A primeira semana de outubro de 2021 se iniciou com “O Mundo” (sic) sem boa parte da comunicação digital. Cerca de 2,9 bilhões de pessoas ficaram sem acesso ao WhatsApp e às redes Instagram e Facebook por uma falha em manutenção de rotina em seu data center. O volume de usuários mensais de seus serviços saltou de 5,2% da população mundial, em 2009, para 35,9%, em 2020, segundo dados da consultoria Statista.

O pior apagão da história da rede social provocou uma queda de 4,89% (de US$ 343/ação para US$ 326/ação) nas ações do Facebook na segunda-feira. Equivaleu uma perda de valor de mercado de US$ 47,3 bilhões. A big tech não se recuperou totalmente, no dia seguinte, embora suas ações tenham fechado em alta de 2,06% (US$ 333/ação).

Antes, seu valor de mercado era US$ 920 bilhões ou cerca de 2/3 do PIB do Brasil. Em poucas horas, a fortuna pessoal de Mark Zuckerberg, cofundador e CEO do Facebook, encolheu quase US$ 7 bilhões. Com US$ 120,9 bilhões, passou a ocupar o 5º lugar no ranking de maiores fortunas mundiais, atrás de Bill Gates, da Microsoft.

O episódio, mais uma vez, revela a volatilidade da avaliação de riqueza acionária por “expectativas dos acionistas a respeito das próprias expectativas”. Qualquer factoide leva ao acionamento do stop loss, isto é, parar logo a perda com a venda das ações para as recomprar logo adiante com a cotação bem mais baixa, registrando um ganho de capital. 

Esse comportamento de manada, baseado em impressões, sem maior análise dos fundamentos microeconômicos, setoriais ou macroeconômicos da empresa, revela uma diferença fundamental entre a Economia de Mercado de Capitais e a Economia de Endividamento, seja público, seja privado. A possibilidade de acumulação de riqueza pessoal, ao conduzir o rebanho de acordo com seus interesses, é muito maior naquela.

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