Riqueza Pessoal de “O Brasileiro”: Quem é, hein? Quanto é?!

Nathalia Larghi e Adriana Cotias (Valor, 06/07/18) publicam matéria jornalística sem questionar a fonte de O Mercado. Não informam a fonte de dados e a metodologia empregada. Sem base científica, extrapolam o crescimento médio anual da riqueza pessoal em 11% até 2022. É erro de pensamento crasso  projetar a média do passado (de 2012 a 2017: + 10% aa) e “mais 10%”. Ora, a política discricionária de juros será a mesma?! O choque de demanda sobre a bolsa de valores com a queda dos juros de 14,25% aa para 6,5% aa se repetirá?!

Fala como houvesse um agente representativo de “o brasileiro“…

Aliás, a matéria é descuidada até na revisão ortográfica: riqueza é per capita (“por cabeça”) e não “per capta“. Existe o verbo “captar”, mas não “capta” em latim…

Sem provas, afirmam: “no Brasil recém saído da recessão, foi a maior atividade do mercado de capitais que possibilitou o crescimento da riqueza no país. Após três anos sem praticamente observar movimentos de multiplicação de capital, operações de fusões e aquisições, ofertas de ações e uma maior distribuição de dividendos permitiram que o patrimônio pessoal de o brasileiro [?!] crescesse 11% no ano passado, com um incremento previsto de mais 10% em 2018, para US$ 1,8 trilhão. Os juros sensivelmente mais baixos também favoreceram a tomada de risco e os aplicadores capturaram bons retornos, pelo menos até a virada recente dos ativos. [Quando os outsiders perderam para os insiders o ganho antes na Bolsa.]

Os dados são da Boston Consulting Group (BCG). Para os próximos cinco anos, a expansão anual estimada é da ordem de 11%, atingindo US$ 2,8 trilhões. Pelo levantamento, no ano passado, a média global foi de 7% e deve seguir nesse ritmo até 2022. A média per capta [sic] da riqueza pessoal na América Latina, no entanto, é de US$ 11 mil, enquanto no mundo é de US$ 29 mil. A América do Norte é o local com maior média da riqueza per capta [sic], de US$ 312 mil.

O recorte de Brasil, disponibilizado ao Valor, compila o conjunto de riquezas dos segmentos de varejo até o topo da pirâmide do private banking, considerando alocação local e no exterior. O BCG entrevista globalmente os principais bancos especializados em gestão de patrimônio para ter uma percepção mais qualitativa, como a preferência dos investidores, daí considerando apenas as faixas de riqueza acima de US$ 250 mil. [“o” brasileiro?!]

Obs.: dados da tabela acima com depósitos de poupança acima de R$ 100 e sem Previdência Aberta.

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Escola Paulista de Sociologia: Octavio Ianni

Octavio Ianni: Diversidade e Desigualdade” é artigo assinado por Elide Rugai Bastos, publicado na coletânea organizada por André Botelho e Lilia Schwartz, “Um enigma chamado Brasil” (São Paulo: Companhia das Letras; 2015).

Desde sua tese de doutorado, publicada em 1962 — As Metamorfoses do Escravo —, busca compreender as raízes do processo de discriminação no Brasil. Volta-se ao estudo da instauração do regime escravista, à dominação senhorial no estado do Paraná e ao modo pelo qual o sistema define o sentido das relações entre negros e brancos.

Essa reconstituição visa à definição do conjunto de atores constituintes da trama das relações sociais, pois o objetivo é analisar a socialização no seio do “antigo regime”. Esse processo funda os comportamentos sociais adaptados às novas condições pós-abolição, porém preserva a assimetria das relações, pois é multiplicador dos ritos de reforço dessa diferença.

Por exemplo, os modos de expressão da cultura africana são coibidos de vários modos. A religiosidade, a dança, a fala, as atividades lúdicas são vistas como subcultura. Essa desvalorização põe o negro diante de uma situação dual:

  1. manter suas raízes culturais e ser excluído dos grupos considerados “civilizados” ou
  2. absorver passivamente a “cultura branca” considerada superior, para “integrar-se”.

Trata-se de herança do período escravocrata. Sendo a socialização definidora da identidade, ela atuou como impeditivo à emergência, no meio escravo, de uma consciência social e histórica que poderia negar o regime. Embora explodissem os conflitos — fugas, assassinatos, quilombos —, estes não definiam diretamente um projeto libertador. Continue reading “Escola Paulista de Sociologia: Octavio Ianni”

Sociedade de Executivos: Desigualdade de Renda

Confira acima os valores dos salários dos executivos mais bem pagos de algumas companhias. Os valores mais altos podem ser pagos ao Presidente da Diretoria Executiva (Estatutária) ou ao Presidente do Conselho Administrativo, isso varia conforme a empresa. Os valores referem-se 2017 e correspondem à soma de todos os salários do ano, além de outras vantagens e benefícios, como bônus e participação nos lucros.

Juliana Schincariol, Fernando Torres, Ivan Ryngelblum e Marcelle Gutierrez (Valor, 28/06/18) informam: antes protegidas por uma liminar que as livrava de divulgar as remunerações máxima, média e mínima de seus executivos e conselheiros, as principais empresas do país tiveram prazo para publicar os dados referentes a salários na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

A divulgação ocorreu após uma disputa judicial que durou oito anos. Por se tratar das principais empresas do país – como Vale, Bradesco, CSN, Braskem, Itaú, GPA e Oi – a divulgação dessas informações é considerada uma vitória dos investidores em termos de governança. O “gerentes de O Capital” extraem boa parte da mais-valia para si e não a distribuem para os acionistas! 🙂

Doze das 25 companhias com maior remuneração ainda estavam protegidas pela liminar (veja tabela acima). Estas empresas gastaram mais de R$ 10 milhões com um único executivo em 2017, sendo que onze pagaram mais de R$ 20 milhões. Entre os valores mais altos estão Vale (R$ 58,5 milhões) e GPA (R$ 49,7 milhões). No setor financeiro, Itaú (R$ 40,9 milhões) e Santander (R$ 29,9 milhões) figuraram entres as maiores remunerações, assim com o Bradesco (R$ 17,02 milhões).

Em recuperação judicial, a Oi foi a empresa do setor de telecomunicações que desembolsou os maiores montantes para seus executivos e conselheiros no ano passado. A empresa pagou R$ 15,5 milhões a um único diretor, 47,6% a mais do que o registrado em 2016. Continue reading “Sociedade de Executivos: Desigualdade de Renda”

Remunerações dos Ativos e Inativos da Casta dos Sábios-Tecnocratas dos Três Poderes

Edna Simão (Valor, 04/06/18) informa: a remuneração média dos aposentados nos Poderes Judiciário, Legislativo e Ministério Público é superior ao dos servidores que estão na ativa. Em algumas situações, como é o caso do Judiciário, a diferença supera a marca dos 80%:

  • a média de provento dos 109.458 trabalhadores ativos no Judiciário é de R$ 9.968,76;
  • a dos aposentados (22.327 pessoas) é de R$ 18.065,40.

As informações constam do relatório de Anexo_IV.7___ Avaliação Atuarial do Regime Próprio de Previdência, anexado à proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2019, e que considerou a base de dados recebida pela Subsecretaria dos Regimes Próprios de Previdência Social da Secretária de Previdência.

No Legislativo, o rendimento médio dos 7.822 ativos chega a R$ 18.605,20, 44,17% menos que os 26.823,48 pagos aos inativos (8.805). Na abertura por gênero, as mulheres têm um remuneração e aposentadoria média superior ao do homem. Enquanto a mulher ganha em média de R$ 19.524,35 e aposentadoria de R$ 27.378,7, o homem recebe R$ 18.132,64 e R$ 26.339,37, respectivamente. Deve ser em função de um divisor da média menor.

No Ministério Público, enquanto os servidores ativos (19.670 pessoas) recebem R$ 11.821,33 em média, os inativos (3.063) ganham R$ 14.656,32.

Os servidores do Poder Executivo (554.392) tem uma remuneração média de R$ 9.258,27 e os aposentados (402.340) ganham R$ 8.477,59.

Pelo levantamento, existem no serviço público federal 1.428.814 segurados, sendo 691.342 servidores públicos (48,4%); 436.535 aposentados (30,6%) e 300.937 pensionistas (21%). O déficit atuarial da previdência dos servidores públicos federais está estimado em R$ 1,199 trilhão. Continue reading “Remunerações dos Ativos e Inativos da Casta dos Sábios-Tecnocratas dos Três Poderes”

Aposentadorias e Pensões da Casta dos Guerreiros-Militares

Verifica-se, no gráfico acima, a diferença entre as despesas por beneficiário do RGPS — Regime Geral de Previdência Social — e as despesas por beneficiário do RPPS – Regime Próprio de Previdência de Servidores Civis e Militares. Pode-se comparar com a elevação nominal da Renda Média Domiciliar per capita. Também se verifica a partir de 2014 as despesas por beneficiário dos militares passarem a ser constantemente maiores do que as despesas por beneficiário do RPPS – Civis.

Outro aspecto percebido no último gráfico acima é a despesa por beneficiário do RGPS ser bastante próxima da renda média domiciliar per capita da população. Isto indica a renda média domiciliar per capita ser fortemente determinada pela renda de aposentadorias e pensões, como já demonstrado em pesquisa do IBGE.

Edna Simão (Valor, 11/06/18) informa: o gasto anual per capita do governo com o pagamento de aposentadorias e pensões dos militares chegou a R$ 137 mil em 2017. Esse valor é sete vezes superior à despesa per capita por beneficiário do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Esta foi de R$ 18,8 mil. No caso do servidor público civil, esse gasto foi de R$ 121 mil no mesmo ano.

Os dados constam do Relatório Contábil do Tesouro Nacional – Uma Análise dos Ativos e Passivos da União. O documento reforça a deterioração gradual da conta da previdência dos servidores públicos, incluindo militares, assim como dos trabalhadores da iniciativa privada nos últimos anos.

Em 2016, conforme o documento, o gasto anual per capita com aposentadoria e pensões de militares foi de R$ 124 mil e dos servidores públicos civis de R$ 108 mil. A despesa per capita do trabalhador que recebe benefício pelo INSS foi de R$ 17,5 mil no mesmo período. Em 2008, os valores eram bem menores. A despesa anual per capita com previdência dos militares era de R$ 61 mil; dos servidores públicos civis, R$ 59 mil, e do aposentado pelo INSS, R$ 8,8 mil. Continue reading “Aposentadorias e Pensões da Casta dos Guerreiros-Militares”

Quem é a Elite?

 

A socióloga política Elisa Pereira Reis aos 20 anos, graduou-se em Sociologia e Política pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (FCE-UFMG), em Belo Horizonte, e em 1979 defendeu seu doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). É Professora Titular da UFRJ.

Quando fez a graduação na FACE da UFMG, em Belo Horizonte, graduando-se em 1967, pensava que Ciência Política, Economia e Sociologia eram o mesmo campo de estudos. Eu, Fernando Nogueira da Costa, também ex-aluno da FACE-UFMG, no início dos anos 70, concordo até hoje com esse pensamento. A complexidade da realidade somente é abarcada pela Sociologia da Economia Política e os fundamentos psicológicos e culturais de indivíduos tomadores de decisões cruciais.

Ela desenvolveu estudos inovadores sobre desigualdade social. A partir de análises comparativas da situação de diferentes nações, seus trabalhos têm influenciado o modo de pensar o desequilíbrio na distribuição de recursos, não apenas no Brasil como também no mundo.

Ao se debruçar sobre as perspectivas que as elites têm do problema, Elisa propiciou o desenvolvimento de uma nova compreensão acerca das disparidades sociais. Em sua concepção, constituem a elite pessoas que ocupam altos postos em determinadas instituições, controlando recursos materiais e simbólicos. Logo, não possuem apenas dinheiro, mas também a capacidade de influenciar decisões alicerça o poder das elites.

Em entrevista à Cristina Queiroz, publicada na Revista FAPESP de abril de 2018, ela diz, depois da tese de doutorado, ter continuado a trabalhar sobre a relação entre governo e mercado, disposta a entender como interesses econômicos fizeram parte da construção do Estado no Brasil. Aos poucos, seu foco foi mudando por causa da inquietação em estudar a desigualdade. Sempre teve uma preocupação macro histórica muito teórica, diferentemente da tradição do Rio de Janeiro e de São Paulo. Continue reading “Quem é a Elite?”

Outlier: Milionário mora ao lado

Em terra de pobre, quem tem dinheiro é um outlier!

Bruno Villas Bôas e Thais Carrança (Valor, 30/04/18) noticia um acontecimento interessante na estatística brasileira: um milionário do ramo de transportes – com renda declarada de mais de R$ 1 milhão por mês – deixou a base de amostra da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE em março e pode ter provocado uma distorção na estatística do rendimento médio real dos trabalhadores do país no primeiro trimestre deste ano.

Segundo a MCM Consultores, esse “outlier” — como são chamadas as observações anormais da pesquisa, que provocam distorções — passou a integrar a amostra da Pnad Contínua em dezembro de 2016. Naquele quarto trimestre, a renda dos trabalhadores subiu 1,4% frente ao mesmo período do ano anterior. De acordo com a consultoria, se o milionário fosse expurgado da amostra, a renda teria crescido apenas 0,2%.

Em uma pesquisa que engloba 70 mil domicílios por mês, observações individuais são geralmente diluídas e não afetam as estatísticas gerais. Desta vez isso ocorreu porque moradores de bairros de alta renda tendem a ter menor peso na pesquisa ao representarem parcela menor da população. O milionário, porém, mora num bairro de baixa renda e acabou com peso maior que o previsto na pesquisa.

No primeiro trimestre deste ano, o milionário finalmente deixou de fazer parte da amostra da Pnad Contínua. Sua saída provocou, porém, um efeito contrário nas estatísticas. O rendimento dos trabalhadores ficou estável no primeiro trimestre deste ano, frente ao mesmo período do ano passado. Sem a distorção gerada por ele, a renda teria crescido 0,7%, segundo a MCM. Continue reading “Outlier: Milionário mora ao lado”