Noruega: Combate à Desigualdade de Gêneros; Brasil: Combate à “Ideologia de Gêneros”

Ana Conceição (Valor, 04/11/2019) escreveu reportagem sobre o debate na Noruega sobre como ter mais diversidade de gênero, nacionalidade e etnia.

Morador de Oslo há oito anos, o carioca Ricardo Nunes aproveitava, em meados de outubro, as últimas semanas de licença-paternidade após o nascimento da segunda filha. Na Noruega, pai e mãe têm direito, cada um, a 15 semanas de licença – obrigatórias – e mais outras 16 que podem ser divididas entre eles. Nunes, que trabalha como contador em uma instituição do governo, optou por ficar mais oito semanas com a pequena Enid enquanto a mãe trabalha.

Envolver o homem diretamente no cuidado dos filhos é uma das formas de dar mais poder à mulher num país que criou o conceito de “Estado feminino”, entre os anos 1960 e 1970. Na prática, é um conjunto de políticas que facilitavam a combinação entre vida profissional e familiar, num momento em que o país procurava aumentar sua força de trabalho. Trabalhadores, legisladores e pesquisadores apontam que a dobradinha licença parental-vagas em creches – esse também um direito universal no país – é a mais importante medida do sistema que busca promover a igualdade de gênero na Noruega, o segundo país mais avançado do mundo nesse quesito. O primeiro é a Islândia.

As políticas contra a desigualdade levaram a taxa de participação feminina no mercado de trabalho norueguês de quase zero a 75%, uma das mais altas do mundo – ou seja, três quartos das mulheres em idade para trabalhar estão empregadas ou procurando emprego. No Brasil, o percentual é de 53%.

O sistema do país escandinavo também ajuda a combater a ideia de que a criação da prole é tarefa feminina. “Com minha esposa trabalhando, levanto de madrugada para dar mamadeira, trocar fralda. Quando voltar a trabalhar, em novembro, vou dividir tarefas como cozinhar e lavar”, afirma Nunes, que participa de um “clube de pais”, que também estão em período de licença, para trocar experiências. Nos parques, nos supermercados, no centro de Oslo, ver homens sozinhos ou grupos deles empurrando carrinhos de bebês é uma cena comum.

Ainda no contexto do “Estado feminino”, na década de 1980 foi criada a Lei de Igualdade de Gênero exigindo uma cota de no mínimo 40% de mulheres em organizações públicas. A lei foi estendida aos conselhos de empresas estatais em 2004 e conselhos de administração de companhias abertas em 2006. Em 2018, foi revista para incluir minorias. Continuar a ler

Que país é este? Dimensões da Desigualdade Social

Fiz uma compilação das estatísticas recentemente divulgadas e capazes de revelar o quadro atual da desigualdade social no Brasil. Algumas de suas dimensões não são muito conhecidas.

O IE-UNICAMP disponibiliza o Texto para Discussão n. 370, nov. 2019. Favor acessar:

http://www.eco.unicamp.br/images/arquivos/artigos/TD/TD370.pdf

 

Concentração de Renda no Brasil: 2018

Fernando Canzian (FSP, 16/10/19) informa: o rendimento médio mensal obtido com trabalho do 1% mais rico da população brasileira atingiu, em 2018, o equivalente a 33,8 vezes o ganho obtido pelos 50% mais pobres. No topo, o rendimento médio foi de R$ 27.744; na metade mais pobre, de R$ 820.

A diferença entre os rendimentos obtidos pelo 1% mais rico e dos 50% mais pobres (https:/www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/10/premiados-com-nobel-de-economia-fazem-perguntas-muito- simples-sobre-a-pobreza.shtml) no ano passado é recorde na série histórica da PNADC (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua) do IBGE, iniciada em 2012.

A desigualdade aumentou (https:/temas.folha.uol.com.br/desigualdade-global/brasil/super-ricos-no-brasil- lideram-concentracao-de-renda-global.shtml) porque o rendimento real do trabalho da metade mais pobre caiu ou subiu bem menos do que o dos mais ricos, sobretudo nos últimos anos.

O aumento da desigualdade reflete a recessão do mercado de trabalho nos últimos anos. Impacta principalmente aqueles que vivem de ocupações menos formais. Os mais pobres acabam sofrendo mais do que aqueles carteira de trabalho ou os funcionários públicos, por exemplo.

De 2017 para 2018, por exemplo, o ganho dos 10% mais pobres caiu 3,2% (para R$ 153 em média) enquanto o do 1% mais rico aumento 8,4% (para R$ 27.774). Continuar a ler

Fluxos de Rendimentos Familiares e Variação Patrimonial

Os níveis de estoque de riqueza mudam com o tempo, devido ao saldo entre seus fluxos de entradas e de saídas. Com reforços de feedback, quanto mais se tem, mais se ganha. Amplificam o movimento em círculos virtuosos ou viciosos: booms e crashes.

Segundo as diferentes classes de rendimentos e variação patrimonial, a POF (Pesquisa de Orçamento Familiar) 2017-2018 registrou diferenças importantes entre as distribuições de gastos das famílias. Fica patente a desigualdade social ao confrontar as características das famílias por grupos de despesas de consumo e seus impactos nos gastos familiares totais das classes extremas de rendimentos definidas: até R$ 1.908,00 (24% do total de 69 milhões de famílias) e acima de R$ 23.850,00 (1,8 milhões ou menos de 3% do total). O primeiro agrupamento corresponde às famílias até dois salários mínimos de R$ 954, além das sem rendimentos. O mais rico se refere às famílias com renda acima de 25 salários mínimos.

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Relatório sobre Riqueza Global Fictícia do Credit Suisse

Adriana Cotias (Valor, 21/10/2019) informa: o Brasil apresentou uma das taxas de crescimento de riqueza mais elevadas de meados de 2018 para cá, embora os fundamentos macroeconômicos não justifiquem o enriquecimento. Segundo mapeamento global feito pelo Credit Suisse, as famílias brasileiras reuniam ativos da ordem de US$ 3,5 trilhões no fim de junho, com um aumento de US$ 312 bilhões no intervalo de um ano. Esse valor patrimonial equivale quase ao dobro do PIB brasileiro em dólares!

Em paralelo, o número de milionários no país subiu de 217 mil adultos para 259 mil, um incremento de 19,4%, colocando o país no grupo de economias com maior crescimento no período, atrás de Holanda, Alemanha, China, Japão e Estados Unidos.

No Brasil, os ativos financeiros respondiam por 49% do patrimônio bruto das famílias, em comparação a 42% em 2010. É próximo do indicado pelas DIRPF.

As estimativas apontam para um total de 319 mil adultos com patrimônio financeiro acima de US$ 1 milhão no Brasil até 2024, uma elevação de 23%. Trata-se de uma projeção conservadora, porque os pesquisadores do grupo suíço envolvidos no Global Wealth 2019 levaram em conta o crescimento do PIB dos últimos 10 anos, período marcado por taxas modestas e uma Grande Depressão em 2015 e 2016.

Na realidade, como o banco suíço não apresenta sua metodologia, isto é um “chute”! “Se o Brasil ingressar numa fase mais virtuosa como se prenuncia com os juros mais baixos da história, o país pode até somar até 350 mil milionários em cinco anos”, calcula o porta-voz, fazendo apologia enganosa.

“O curioso é que isso é uma Bélgica. No fundo, não é que não tenha um universo fantástico [de indivíduos ricos], mas são 212 milhões de pessoas no país [menos, menos]. O Brasil precisa crescer mais rápido que a média histórica, vai ter mais milionários e reduzir a desigualdade.”

[Fernando Nogueira da Costa: não é um idiota? “Vai ter mais milionários e reduzir a desigualdade”?! Onde esse cara estudou?] Continuar a ler

Grupos Ocupacionais com crescimento entre 2010 e 2017

João Saboia (Valor, 17/10/2019) é professor emérito do Instituto de Economia da UFRJ. Participava comigo do Núcleo dos Economistas do PT, criado antes mesmo da fundação oficial do partido em 1980. Reproduzo seu artigo abaixo.

“Com cerca de 28 milhões de pessoas subutilizadas, o mercado de trabalho vive dificuldades sem precedentes. Após seis anos de recessão e crise na economia brasileira essa é uma consequência inevitável. Desde 2014 o número de desocupados dobrou, saltando de 6,4 para 12,6 milhões. Já os desalentados (que desistiram de procurar emprego) triplicaram, subindo de 1,5 para 4,7 milhões no mesmo período. Enquanto isso, a informalidade não para de crescer e as filas de pessoas em busca de emprego não param de aumentar.

Em um momento como esse uma leitura cuidadosa do mercado de trabalho pode nos trazer algumas dicas de onde estariam sendo gerados empregos no país. Em nosso artigo de 1/7 neste mesmo espaço do Valor – “Os Melhores Empregos são os que mais crescem” – apresentamos os grupos ocupacionais que tiveram o maior crescimento a partir de 2003 até 2017. De forma, até certo ponto surpreendente, concluímos que o maior crescimento do emprego estava associado a trabalhos relativamente bem remunerados, em geral ocupados por profissionais de nível superior ou técnicos de nível médio.

Desta vez voltamos ao mesmo tema, porém analisando as ocupações de forma mais desagregada para obter informações mais detalhadas. A fonte de dados é a mesma, a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) que cobre o mercado formal de trabalho. Segundo a Rais, havia 46,3 milhões de postos de trabalho em 2017. Continuar a ler

Pobreza, Miséria e Desigualdade Social: Resultado da Volta da Velha Matriz Neoliberal

Com a reforma trabalhista dos golpistas a CUT foi arrasada. Somado ao desemprego, entende-se a pobreza e a miséria brasileira ter aumentado.

Bruno Villas Bôas (Valor, 17/10/2019) informa: lentamente e pela informalidade a recuperação do mercado de trabalho foi suficiente para reduzir a pobreza no país em 2018, após três anos seguidos de piora, mostram cálculos da consultoria LCA a partir dos microdados Pnad Contínua, pesquisa domiciliar do IBGE. Porém, a pobreza extrema, de quem passa fome, seguiu crescendo e permanece um grande desafio social não enfrentado pelo atual governo de extrema-direita.

Segundo o levantamento, o Brasil tinha 52,8 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza no ano passado, 1,3 milhão a menos face a 2017 (54,1 milhões), o correspondente a uma queda de 2,4%. Esse resultado interrompe uma sequência de três anos de piora do indicador, mas segue modesta. De 2015 a 2017, 8,3 milhões de brasileiros tornaram-se pobres no país.

Para chegar aos números, a LCA adotou as linhas do Banco Mundial para países de renda média, como o Brasil. Para a pobreza, a linha de corte é a renda de US$ 5,50 por pessoa por dia (R$ 421 por mês). Na pobreza extrema, a linha é de US$ 1,90 por dia (R$ 145 mensais). Os valores foram convertidos pela metodologia do IBGE, que também adota essas faixas. Existem outros critérios de linhas de pobreza, como do Bolsa Família e da FGV Social, que podem sugerir dinâmicas diferentes.

Segundo o autor dos cálculos, a melhora da foi liderada pelo Sudeste. O número de pessoas pobres vivendo na região recuou para 14,4 milhões no ano passado, 6,9% menos que em 2017 (15,5 milhões de pessoas). Nas demais regiões, as variações foram consideradas estatisticamente estáveis, dentro do intervalo de confiança da pesquisa (margem de erro). Continuar a ler