Delfim Netto: “Em Economia, toda ideia nova é, por definição, heterodoxa”

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Nosso economista decano, velho golpista e de novo conselheiro de golpista velho, como o Temer, foi ministro da Fazenda durante o período da ditadura militar. O ex-deputado federal Antônio Delfim Netto disse “não se arrepender de ter assinado, em 1968, o Ato Institucional número 5, que extinguiu direitos civis e levou ao período de maior repressão no país”!

Ele (Valor, 20/09/16) fez mais uma típica descoberta do óbvio — aquilo que todo economista heterodoxo há muito tempo já sabia e ficava boquiaberto dos colegas ortodoxos não saberem: a vanguarda intelectual em Economia é heterodoxa!

Delfim usa (e abusa da) ironia. Por meio da qual se passa uma mensagem diferente, muitas vezes contrária, à mensagem literal, geralmente com objetivo de criticar ou promover humor. Por isso, seu texto é atraente em forma, embora seja muitas vezes repetitivo em conteúdo. Reproduzo a última auto complacência abaixo, onde ele descobre o óbvio e, como sempre, “joga para a plateia” (ou “dança conforme a música”) com seguidas tentativas de humor, em uma mixórdia de frases-feitas e seus costumeiros clichês.

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Neoliberalismo: vendido a um preço superior ao seu valor real?

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Quem lê e relê sempre os mesmos textos ortodoxos tarda a descobrir o óbvio. Quando o percebe, crê ter feito uma descoberta. Mas é a descoberta do óbvio, ou seja, daquilo que o heterodoxo conhecia há muito tempo e se pasmava por os ortodoxos não o descobrirem

Em vez de gerar crescimento, algumas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade, colocando em risco a duração de eventual expansão econômica. Hoje isto é reconhecido até pelo FMI! Só que, no Brasil, os PhDeuses estão desatualizados com a nova agenda em favor do crescimento sustentável e contra a estagnação infinita, provocada pela prioridade total dada ao ajuste fiscal e à colocação da taxa de inflação no centro da meta. Enquanto isso, os rentistas agradecem os próceres da política monetária, entre os quais eles próprios, pelo maior enriquecimento. E a desigualdade social se agrava.

Meu colega Miguel Bacic enviou-me, gentilmente, uma prova dessa nova postura do FMI. Eu o traduzi (rapidamente e sem revisão) e reproduzo abaixo o artigo de Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani, and Davide Furceri:

Neoliberalism: Oversold? FINANCE & DEVELOPMENT, June 2016, Vol. 53, No. 2

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Obras (Quase) Completas

FNC. Ensino e Pesquisa em Economia 2014

Prezados seguidores,

comemorando as 5 milhões de visitas recebidas, renomeei a Página “Livro Brasil dos Bancos“, na coluna à esquerda, para “Obras (Quase) Completas“, onde coloquei à disposição meus livros, teses e dissertação com edições esgotadas que estavam aqui postados em capítulos separados. Consolidei-os.

Download dos Livros (com Edições Esgotadas) em PDF:

Fernando Nogueira da Costa – Ensino e Pesquisa em Economia (Memorial do Concurso para Professor Titular em 2015)

Costa, F.N. (coord.), Costa, C.A.N., Oliveira, G.C. – Mercado de Cartões de Pagamento no Brasil – 10.09.2010

Fernando Nogueira da Costa – Banco do Brasil 200 Anos 1964-2008

Fernando Nogueira da Costa – Economia em 10 Lições (2000)

Fernando Nogueira da Costa – Economia Monetária e Financeira – Uma Abordagem Pluralista (1999)

Fernando Nogueira da Costa – Por Uma Teoria Alternativa da Moeda – Tese de Livre Docência (1994)

Fernando Nogueira da Costa – Bancos em Minas Gerais 1889-1964 – Dissertação de Mestrado (1978)

Obs.: não  disponho de minha Tese de Doutoramento — Banco do Estado: O Caso Banespa (1988) — e meu primeiro livro — “Ensaios de Economia Monetária” (Educ, 1992) — em arquivo digital. Tentarei achá-los escaneados. Brevemente, será publicado um outro livro: “Bancos Públicos no Brasil“.

Capítulos de livros recentes podem ser encontrados em:

Fernando Nogueira da Costa – Capítulo do Livro “Agenda Desenvolvimentista” – Financiamento Interno em Longo Prazo set 2013

Santana, C. & Iglecias, W. (org.) – Estado, burocracia e controle democrático (2014) – Capítulo de FNC

Matos, Macambira e Cacciamali (org.) – A Atividade e a Politica de Microcredito no Brasil (2014) – Capítulo de FNC

Previsões de Negócios

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Por Rachel Emma Silverman, Joann S. Lublin e Rachel Feintzeig (WSJ, 13/07/16) avaliam que as previsões de negócios hoje estão nebulosas.

Executivos recorrem a consultores, prognósticos de especialistas e pesquisas sobre condições políticas e de mercado para tomar decisões. Mas a surpreendente decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia, a ascensão do empresário Donald Trump como potencial candidato à presidência dos Estados Unidos e a frequente revisão de projeções econômicas têm exposto erros nas análises de especialistas – e agravado a ansiedade de líderes de negócios.

A incerteza é norma no mundo empresarial desde a crise financeira, mas os líderes de negócios dizem que os eventos recentes diminuíram sua confiança nas previsões. Alguns estão recorrendo a novas fontes de dados para guiar decisões e gastos, enquanto outros optaram por manter suas operações flexíveis para estar preparados para mudanças repentinas.

Os “chamados especialistas e economistas globais” têm errado tanto quanto acertado recentemente.

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Taxa de Câmbio e Política Cambial no Brasil

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Pedro Rossi, um dos mais talentosos colegas da nova geração de professores do IE-UNICAMP, acaba de lançar seu primeiro livro, Taxa de Câmbio e Política Cambial no Brasil, pela FGV Editora. Para um professor universitário, ter seu livro lançado por editora de outras Universidades ou Faculdades é motivo de orgulho, pois significa que o reconhecimento profissional vai além dos seus colegas-amigos mais próximos. Pedro Rossi possui não só o saber teórico, mas reúne uma personalidade cativante, porque é muito educado e cordial no trato pessoal. Encontrar economista acadêmico sem arrogância não é tão fácil…

O livro é excepcional em sua capacidade de síntese de assunto que se situa entre os mais complexos encontrados no conhecimento profissional dos economistas. Na Parte I, trata da taxa de câmbio em seus aspectos teóricos, históricos e conceituais. Na Parte II, refere-se ao sistema monetário internacional e as taxas de câmbio. Na Parte III, apresenta a taxa de câmbio e a política cambial no Brasil.

Humildemente, porém não sendo correto, Pedro diz que “as eventuais contribuições deste livro se encontram principalmente nos capítulos 6 [O Mercado de Câmbio Brasileiro], 8 [Especulação e Arbitragem no Brasil: Um Estudo de Caso] e 9 [Política Cambial no Brasil], que derivam diretamente de artigos publicados em revistas acadêmicas”. Talvez seja o viés desta nova “geração Qualis”, que acha bom só o que foi publicado por revistas acadêmicas, ou seja, só observa o sucesso de crítica e não o sucesso de público. Para ser lido por público mais amplo, os artigos-sínteses, os artigos-resenhas e os artigos-de-combate em rede social são muito mais apreciados.

Na verdade, todo o livro de Pedro Rossi é extraordinário (fora-do-comum) em sua capacidade de síntese de temas intricados como derivativos, cupom cambial e especulação. Apresenta os diferentes mercados: primário, interbancário, derivativos e offshore de reais. Mostra o significado do preço do dólar futuro e a relação entre arbitragem e o cupom cambial. Revela a motivação dos agentes no mercado futuro de câmbio. Focaliza, especialmente, o circuito especulação-arbitragem.

Como amostra de sua excelência, apresentarei abaixo o resumo e as conclusões do primeiro capítulo. Resumir é a forma que uso para estudar e atualizar-me sobre matéria em que fui professor durante mais de uma década: os determinantes da taxa de câmbio em uma macroeconomia aberta. Recomendo enfaticamente a leitura deste livro por todos que desejam conhecer mais profundamente tanto a economia brasileira quanto o sistema monetário internacional. Continue reading “Taxa de Câmbio e Política Cambial no Brasil”

Confuncionismo e Igualdade de Oportunidades

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Discordo de Ha-Joon Chang quando ele afirma, no livro “23 Coisas que não nos Contaram sobre o Capitalismo”, que “o confuncionismo foi uma ideologia tipicamente feudal até ser adaptada às exigências do capitalismo moderno na segunda metade do século XX”.

Na verdade, como sintetiza a Wikipedia, Confúcio, forma latina de Kung Fu Tsé, filósofo chinês do século VI a.C, compila e organiza antigas tradições da sabedoria chinesa e elabora uma doutrina assumida como oficial na China por mais de 25 séculos. Combatido como reacionário durante a Revolução Cultural chinesa (1966-1976), o confucionismo toma novo impulso após as recentes mudanças políticas no país. Atualmente, 25% da população chinesa declara-se adepta do confucionismo. Confúcio deu caráter moral a funcionários ascendentes na carreira com base na meritocracia a obrigação de apoiar o governo e seus representantes.

O confucionismo é um sistema filosófico chinês criado por Kung-Fu-Tsé que se tornaria a doutrina oficial do império chinês durante a dinastia Han (séculos III a. C. – III d. C.), encontrando continuadores ao longo deste período que se destacaram em vários campos diferentes. Donz Zhong shu, por exemplo, buscou revigorar e reinterpretar o confucionismo através das teorias cosmológicas dos cinco elementos (Terra, Madeira, Fogo, Metal e Água). Wang Chong utilizou-se de um ceticismo lógico para criticar as crenças infundadas e os mitos religiosos. Embora tivesse perdido um certo vigor após a dinastia Han, o confucionismo seria novamente desenvolvido no movimento conhecido como neoconfucionismo, datado do século X d.C., através da figura de personagens como os irmãos Cheng e Zhuxi, o grande comentador confucionista.

De qualquer modo, já na Antiguidade o confucionismo atingiu um pleno sucesso, tornando-se uma filosofia moral de profundo impacto na estrutura social e cotidiana da sociedade. O valor ao estudo, à disciplina, à ordem, à consciência política e ao trabalho são lemas do confucionismo incorporado na vida da civilização chinesa da Antiguidade aos dias de hoje. Continue reading “Confuncionismo e Igualdade de Oportunidades”

Igualdade de Oportunidades: Necessária, Mas Não Suficiente

Animais

Ha-Joon Chang, no livro “23 Coisas que não nos Contaram sobre o Capitalismo”, alerta que “a igualdade de oportunidades pode não ser justa”.

O que os neoliberais dizem é que muitas pessoas ficam irritadas com a desigualdade. No entanto, existe “igualdade” e igualdade. Quando recompensamos as pessoas da mesma maneira independentemente dos seus esforços e realizações, os mais talentosos e os mais esforçados perdem o incentivo para ter um bom desempenho. Isso equivale à igualdade do resultado. É uma má ideia, como foi comprovado pela queda do comunismo. Devemos buscar a igualdade de oportunidades. Por exemplo, não apenas era injusto como também ineficaz que um estudante negro no apartheid da África do Sul não pudesse frequentar melhores universidades dos “brancos”, mesmo se ele fosse um aluno com um desempenho mais satisfatório. As pessoas devem ter oportunidades iguais. Entretanto, é igualmente injusto e ineficaz introduzir uma ação afirmativa e começar a aceitar alunos de qualidade inferior simplesmente porque eles são negros ou têm uma origem desprivilegiada. Ao tentar igualar os resultados, não apenas distribuímos erroneamente os talentos mas também penalizamos os mais talentosos e esforçados.

O que os neoliberais não dizem é que a igualdade de oportunidades é o ponto de partida para uma sociedade justa, mas não é suficiente. É claro que as pessoas devem ser recompensadas por um desempenho “melhor, mas a questão é se elas estão efetivamente competindo sob as mesmas condições que os seus concorrentes. Se uma criança não tem um bom desempenho na escola porque está com fome e não consegue se concentrar na aula, não podemos dizer que ela não está se saindo bem por ser inerentemente menos capaz. A concorrência justa só pode ser alcançada quando a criança está bem alimentada — em casa por meio do apoio da renda familiar e na escola por intermédio de um programa de refeições gratuitas. A não ser que exista alguma igualdade no resultado (p. ex., a renda de todos os pais está acima de um certo limite mínimo, o qual possibilita que as crianças não passem fome), as oportunidades iguais (p. ex., a instrução gratuita) não são realmente significativas. Continue reading “Igualdade de Oportunidades: Necessária, Mas Não Suficiente”