Afinal, Quanto o Agronegócio representa no PIB brasileiro?

Nicole Rennó Castro

Professora da Esalq/USP e pesquisadora do Cepea

cepea@usp.br

Data de publicação: 05/10/2022

Uma dúvida que frequentemente chega até nós, do Cepea, é: qual é, afinal, a participação do agronegócio no PIB brasileiro? Seria por volta de 5 a 6%, como aponta o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)? Ou entre 25 e 30%, como diz o Cepea? A dúvida existe por uma falta de compreensão sobre os conceitos, que busco esclarecer a seguir.

O IBGE é a instituição responsável pelas Contas Nacionais do Brasil e adota uma série de recomendações e padrões internacionais, inclusive no que diz respeito à classificação de atividades econômicas – aspecto principal de interesse deste texto. Uma atividade econômica é descrita e classificada segundo algumas de suas características, como o tipo de bem ou serviço que produz, o tipo de insumo que utiliza, a sua técnica de produção ou, ainda, os usos de seu produto (System of National Accounts – SNA, 2008[1]).

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Indiferença do Desgoverno com o Meio-Ambiente

Se o Brasil adotar políticas de combate ao desmatamento ilegal, erradicar os lixões e ampliar práticas já existentes na agropecuária, pode chegar em 2030 cortando em 36% as emissões de metano, um poderoso gás-estufa. Se continuar como está, contudo, a estimativa é que em oito anos emita 7% mais metano do que em 2020. Portanto, não à reeleição!

Os cálculos são de novo relatório do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg), do Observatório do Clima, principal rede da sociedade brasileira sobre agenda do clima com 77 organizações.

O estudo, de 82 páginas, analisa o quadro atual das emissões nacionais de metano e aponta soluções.

Em 2021, na conferência do clima da ONU de Glasgow, a COP 26, o Brasil se comprometeu com um corte de 30% nas emissões de metano até 2030.

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Fatos e Dados contra Mentiras Eleitoreiras

Dossier ou dossiê é uma coleção de documentos ou um pequeno arquivo de dados relativos a determinado assunto. Um dossiê geralmente contém informações detalhadas para análise sobre um interesse em especial, no caso, o atual estado da economia brasileira.

Aqui se refere a um pequeno relatório de pesquisa, onde coleto fatos e dados sobre esse assunto. A pesquisa foi realizada em bancos de dados oficiais e publicações jornalísticas, em especial, da Folha de S.Paulo e do Valor Econômico.

Esse documento me servirá para apresentar informações em uma entrevista em live do canal da Carta Capital no YouTube na véspera (16:00 do dia 28/10/22 – sexta-feira) da eleição presidencial.

Compartilho-o com os interessados, ou seja, com todos os eleitores na véspera de uma decisão crucial: aquela capaz de mudar o contexto de maneira irreversível a não ser à custa de um grande retrocesso histórico na democracia e na sociedade brasileira.

Download do Dossier:

Fernando Nogueira da Costa – Fatos e Dados contra Mentiras Eleitoreiras. out 2022

Comparações entre Resultados dos Últimos 8 Governos: 1990-2022

Pedro Cafardo (Valor 12/07/22) publicou números-chave para fazer o comparativo entre governos e perceber o Governo Lula ter obtido os melhores resultados entre todos! Dados básicos indicam a conduta de governos desde 1990.

Dias atrás, um candidato à Presidência fez afirmações equivocadas ou mesmo mentirosas sobre dados de governos passados. Cada vez mais, à medida que a campanha eleitoral avança, “fake news” serão jogadas no colo dos eleitores.

Nesta coluna, pretende-se apresentar números básicos objetivos, sem qualificação, sobre os oito governos desde a volta das eleições diretas, em 1989. São alguns indicadores macroeconômicos e sociais geralmente utilizados para avaliar o desempenho de um governo, como inflação, PIB, dívida externa, mortalidade infantil, desemprego etc.

Como o colunista não dará sua opinião, caberá ao leitor observar os números e tirar conclusões. Alguns ex-presidentes ou correligionários deles, para justificar maus desempenhos, poderão sempre apelar para a velha tese da herança maldita. Outros, como já fizeram muitas vezes, argumentarão que resultados posteriores positivos se devem à herança bendita, aquela decorrente de medidas tomadas por governos que precederam àquele que apresenta bons indicadores.

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André Lara Resende: Camisa de Força Ideológica

Célia Gouvea Franco (Valor, 03/06/22) entrevistou André Lara Resende a propósito do seu livro recém-lançado.

Teoria macroeconômica e democracia. Taxas de juros e o papel do Estado. Liberalismo e inflação. O impacto da estagnação e da desigualdade na radicalização da população. Temas como estes, aparentemente sem estreita relação entre si, são o cerne do novo livro de André Lara Resende, um dos economistas mais conhecidos do Brasil, em parte pela sua participação fundamental na criação do Plano Real, mas também por ter passado, nos últimos, a defender a tese de ser preciso repensar a teoria macroeconômica preponderante – em especial a política monetária.

“Camisa de força ideológica” foi lançado pelo selo Portfolio-Penguin da Companhia das Letras. É um livro curto, de apenas 128 páginas.

Nas últimas semanas, circularam informações de André Lara Resende ter sido procurado para participar da campanha petista à Presidência. “Não fui procurado. Tive contato e conversas informais com pessoas ligadas ao presidente Lula. Não tenho intenção de participar de nenhuma campanha. Eu me vejo como um intelectual público com obrigação de conversar e colaborar para o entendimento de como organizar a economia para o desenvolvimento do país diante dos desafios do século XXI.”

Em 11 de fevereiro, o Valor publicou um ensaio de Lara Resende, “extraído” por ele do livro agora lançado. São textos bem diferentes. Toda uma discussão sobre os atuais riscos à democracia, por exemplo, consta do livro e não fazia parte do artigo publicado no jornal.

Camisa de força ideológica” foi escrito antes do artigo. Resolveu editar um ensaio a partir do livro para ser publicado mais rapidamente. A nova obra é um resumo das críticas feitas à teoria macroeconômica, mas vai além disso.

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Fim do Grupo do BRIC

Pedro Cafardo (Valor, 08/03/22) avalia:

A humanidade não merecia isso. Depois de enfrentar durante dois anos uma guerra mundial sanitária, provocada pela covid-19, depara-se agora com uma guerra convencional, detonada pela vontade do autocrata russo Vladimir Putin.

A invasão da Ucrânia pela Rússia era uma das ameaças que pairavam sobre o planeta, capaz de impedir a recuperação global iniciada com a redução da pandemia. Analistas não acreditavam que Putin fosse tão insano a ponto de autorizar uma invasão no momento em que o mundo começa a superar a pandemia. Ele provou que é.

A despeito de suas reservas de US$ 630 bilhões, já parcialmente bloqueadas, e de seu poderio nuclear, herança da ex-União Soviética, a Rússia tem um desempenho econômico pífio nas duas últimas décadas. Jim O’Neill, em entrevista ao Valor de quarta-feira (2/3), disse que a Rússia está querendo ser “mais do que seu peso econômico lhe permite”, 2% do PIB global.

O’Neill é o economista criador, quando trabalhava na Goldman Sachs, do célebre acrônimo Bric, dando origem ao grupo que reuniu a princípio os grandes emergentes – Brasil, Rússia, Índia e China – e que posteriormente ganhou um “s” ao incorporar a África do Sul. Em 2001, ao concluir seu estudo, O’Neill previa que os quatro emergentes deveriam se tornar, até 2050, a maior força econômica mundial, superando em valor do PIB os países do G6, que são EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França e Itália.

Na entrevista ao Valor, O’Neill observou que Rússia e Brasil foram uma “grande decepção” nas duas últimas décadas: não conseguiram fazer crescer suas economias de acordo com o nível previsto pelo trabalho.

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Desde o início da pandemia, em março de 2020, o Fed mais que dobrou seu balanço patrimonial de US$ 4,1 trilhões para US$ 9 trilhões. Antes da crise de 2008, o balanço somava US$ 900 bilhões.

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O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) vai iniciar uma redução significativa em seu balanço patrimonial – que já atinge US$ 9 trilhões – a partir da próxima reunião de seu Comitê de Mercado Aberto, o Fomc, em maio. É um esforço concentrado, junto com a alta de juros, para combater a inflação, que já chega perto dos 8%, a maior em quatro décadas.

A sinalização foi dada ontem pela conselheira do Fed, Lael Brainard, em conferência virtual da regional de Mineápolis do BC dos EUA. Brainard espera confirmação do Senado americano para assumir a vice-presidência do Fed.

Disse: a redução do balanço, aliada à elevação dos juros, vai levar a política monetária para uma posição mais neutra – que não acelera nem desacelera a economia – até o fim do ano.

Desde o início da pandemia, em março de 2020, o Fed mais que dobrou seu balanço patrimonial de US$ 4,1 trilhões para US$ 9 trilhões, por meio da compra de títulos do Tesouro e papéis atrelados a hipotecas, para dar suporte aos mercados financeiros nos dois anos após o início da pandemia. Antes da crise de 2008, o balanço somava US$ 900 bilhões.

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Uso do Mercado como Arma

O ex-presidente do Banco Central da Índia Raghuram Rajan defende uma nova arquitetura global que comece com a reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) após a invasão da Rússia na Ucrânia. O uso de ferramenta financeiras como arma nesta guerra, diz, é a prova de que o sistema internacional não está mais funcionando.

É neste contexto, segundo o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), que se deve discutir uma nova ordem financeira mais democrática e métricas claras para que empresas decidam se querem, ou não, manter-se presentes em determinados países. Mais de 200 companhias anunciaram a suspensão ou encerramento de operações na Rússia nos últimos dias.

“Há circunstâncias em que a justiça e o Estado de direito importam mais. Mas temos de ter um sistema que determine quando isso ocorre. Não podemos depender da raiva que se tenha de um determinado país. Isso levaria ao colapso dos investimentos transnacionais globais, porque neste caso poderia haver um tipo de sanção que levaria companhias a fazerem complôs umas contra as outras, para eliminar a concorrência”, afirma o professor da Universidade de Chicago em entrevista ao Valor (14/03/22).

Rajan, 59 anos, critica o que chama de hipocrisia dos países ricos para lidar com o dinheiro sujo de cleptocratas. “Os grandes países são cúmplices nisso. Falam de corrupção, paraísos fiscais e países emergentes, mas sabem perfeitamente que oligarcas não querem manter seus ativos em países do Terceiro Mundo. Querem manter seu dinheiro em Londres, Miami ou Milão.” Rajan destaca que a pandemia ainda é um dos principais desafios da economia global e que a guerra deve aprofundar a preocupação com a inflação.

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Consequências Econômicas da Guerra

Gabriel Galípolo, mestre em Economia Política pela PUC-SP, é sócio da Galípolo Consultoria.
Luiz Gonzaga Belluzzo é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Escreveram artigo (Valor, 08/03/22) com título de célebre artigo de Keynes.

Entre as sanções anunciadas no dia 26 de fevereiro para isolar a Rússia do sistema financeiro internacional, concentraram as atenções a remoção de bancos russos selecionados do SWIFT e as medidas restritivas para impedir o BC russo de usar suas reservas internacionais.

Não é a primeira vez que o SWIFT é utilizado como instrumento de poder geopolítico. Em 2006, o sistema foi alvo de divergências envolvendo EUA e União Europeia, após a descoberta do chamado “acordo swift”. Por meio de um software, os EUA acessam a base de dados (informações confidenciais) sobre transferências bancárias, sem o conhecimento de bancos e seus clientes, em um esforço secreto do “Terrorist Finance Tracking Program”, criado pela política de “Guerra ao Terror” da administração Bush.

Ainda em 2006, o governo belga (o SWIFT é sediado em Bruxelas) declarou que o acordo violava as leis do país e da UE. Em 11 de fevereiro de 2010 o “acordo swift” foi rejeitado pelo Parlamento Europeu, com a perda de seus efeitos jurídicos na Europa para preservar os direitos dos cidadãos europeus.

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Indústria Automobilística no Brasil

A direção da Anfavea prepara-se, agora, para entregar aos candidato à eleição presidencial detalhes das três prioridades que, entende, devem estar no programa do próximo governo: reforma tributária, redução do custo Brasil e descarbonização. Mas esse é um trabalho que fica, agora, para o mineiro Márcio de Lima Leite, diretor jurídico e de relações institucionais da Stellantis, que assumirá a presidência da Anfavea a partir de maio. Moraes continuará no cargo de diretor de assuntos governamentais da Mercedes-Benz. Abaixo, os principais trechos da entrevista que Moraes concedeu a Marli Olmos (Valor, 08/04/22).

No fim de 2020 começaram a faltar aço, borracha, resina plástica. Aí se percebeu o verdadeiro impacto da pandemia na desorganização da cadeia global de produção. Entramos em 2021 com a falta de semicondutores, que se agravou depois. Por falta desses componentes, em 2021 se deixou de vender 300 mil veículos no Brasil e 10 milhões no mundo.A prova está nas filas de espera e no aumento de procura por carros usados.

Na previsão conservadora, haverá crescimento de 8,5% nas vendas internas e 9,4% na produção. Percebemos que mesmo que tivéssemos o abastecimento de peças regularizado agora teríamos o efeito da alta nos juros, da renda que não cresceu, de um desemprego ainda elevado… E agora entrou um fato novo: a guerra na Ucrânia. Isso confirma que a recuperação ainda será lenta no nosso setor.

Reajustes em itens como pneus, aço e resinas afetaram o custo e repassamos parte disso aos preços. Além disso, os veículos hoje têm mais conteúdo.

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Empresas Multinacionais Exportadoras de Commodities Produzidas no Brasil

A soja foi o produto no topo do ranking das exportações brasileiras em 2020. A soja reina e divide o pódio com outros dois produtos mais vendidos que se revezaram nas segundas e terceiras posições nos últimos dois anos: o minério de ferro e do petróleo. As informações integram o sistema de dados do comércio exterior brasileiro Comex Stat, organizado pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

De acordo com o acompanhamento mensal do Comex Stat, compilador da base gerada pelo Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex), e dados declarados por exportadores e importadores, 10 produtos se destacaram entre os itens brasileiros mais comercializados para outros países no ano 2020:

  • 1º – Soja – 14%
  • 2º – Minério de ferro e concentrados – 12%
  • 3º – Óleos brutos de petróleo ou de minerais betuminosos crus – 9,4%
  • 4º – Açúcares e melaços – 4,2%
  • 5º – Carne bovina – 3,6%
  • 6º – Farelos de soja e outros alimentos para animais – 3,0%
  • 7º – Celulose – 2,9%
  • 8º – Demais produtos – Industria da transformação – 2,7%
  • 9º – Carnes de aves – 2,7%
  • 10º Óleos combustíveis de petróleo – 2,3%

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Nomenklatura à Brasileira: PT-PSDB

Cristiano Romero (Valor, 31/03/22) narra alguns fatos desconhecidos sobre nomeação de sábios-tecnocratas, no primeiro governo Lula.

No início do segundo ano do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Presidência da República, estourou o primeiro caso ruidoso de corrupção do governo petista. O escândalo envolvia assessor direto do então poderoso ministro José Dirceu.

Ainda que se soubesse da ocorrência de malfeitorias em gestões do partido em prefeituras, o episódio surpreendeu petistas, simpatizantes e oposicionistas. A ética, como ocorre com frequência em eleições no Brasil, foi a principal bandeira das campanhas do PT nos pleitos de 1989 a 2002.

O desgaste foi debitado inteiramente na conta de Zé Dirceu, que, além de exercer o papel tradicional do chefe da Casa Civil (coordenação de todos os ministérios, análise prévia dos principais atos de governo, formatação de projetos de lei, medidas – provisórias etc.), era o responsável pela articulação política. Por essa razão, o ministro era o principal alvo da oposição para enfraquecer Lula.

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