Taxa de Câmbio e Política Cambial no Brasil

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Pedro Rossi, um dos mais talentosos colegas da nova geração de professores do IE-UNICAMP, acaba de lançar seu primeiro livro, Taxa de Câmbio e Política Cambial no Brasil, pela FGV Editora. Para um professor universitário, ter seu livro lançado por editora de outras Universidades ou Faculdades é motivo de orgulho, pois significa que o reconhecimento profissional vai além dos seus colegas-amigos mais próximos. Pedro Rossi possui não só o saber teórico, mas reúne uma personalidade cativante, porque é muito educado e cordial no trato pessoal. Encontrar economista acadêmico sem arrogância não é tão fácil…

O livro é excepcional em sua capacidade de síntese de assunto que se situa entre os mais complexos encontrados no conhecimento profissional dos economistas. Na Parte I, trata da taxa de câmbio em seus aspectos teóricos, históricos e conceituais. Na Parte II, refere-se ao sistema monetário internacional e as taxas de câmbio. Na Parte III, apresenta a taxa de câmbio e a política cambial no Brasil.

Humildemente, porém não sendo correto, Pedro diz que “as eventuais contribuições deste livro se encontram principalmente nos capítulos 6 [O Mercado de Câmbio Brasileiro], 8 [Especulação e Arbitragem no Brasil: Um Estudo de Caso] e 9 [Política Cambial no Brasil], que derivam diretamente de artigos publicados em revistas acadêmicas”. Talvez seja o viés desta nova “geração Qualis”, que acha bom só o que foi publicado por revistas acadêmicas, ou seja, só observa o sucesso de crítica e não o sucesso de público. Para ser lido por público mais amplo, os artigos-sínteses, os artigos-resenhas e os artigos-de-combate em rede social são muito mais apreciados.

Na verdade, todo o livro de Pedro Rossi é extraordinário (fora-do-comum) em sua capacidade de síntese de temas intricados como derivativos, cupom cambial e especulação. Apresenta os diferentes mercados: primário, interbancário, derivativos e offshore de reais. Mostra o significado do preço do dólar futuro e a relação entre arbitragem e o cupom cambial. Revela a motivação dos agentes no mercado futuro de câmbio. Focaliza, especialmente, o circuito especulação-arbitragem.

Como amostra de sua excelência, apresentarei abaixo o resumo e as conclusões do primeiro capítulo. Resumir é a forma que uso para estudar e atualizar-me sobre matéria em que fui professor durante mais de uma década: os determinantes da taxa de câmbio em uma macroeconomia aberta. Recomendo enfaticamente a leitura deste livro por todos que desejam conhecer mais profundamente tanto a economia brasileira quanto o sistema monetário internacional. Continue reading “Taxa de Câmbio e Política Cambial no Brasil”

Confuncionismo e Igualdade de Oportunidades

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Discordo de Ha-Joon Chang quando ele afirma, no livro “23 Coisas que não nos Contaram sobre o Capitalismo”, que “o confuncionismo foi uma ideologia tipicamente feudal até ser adaptada às exigências do capitalismo moderno na segunda metade do século XX”.

Na verdade, como sintetiza a Wikipedia, Confúcio, forma latina de Kung Fu Tsé, filósofo chinês do século VI a.C, compila e organiza antigas tradições da sabedoria chinesa e elabora uma doutrina assumida como oficial na China por mais de 25 séculos. Combatido como reacionário durante a Revolução Cultural chinesa (1966-1976), o confucionismo toma novo impulso após as recentes mudanças políticas no país. Atualmente, 25% da população chinesa declara-se adepta do confucionismo. Confúcio deu caráter moral a funcionários ascendentes na carreira com base na meritocracia a obrigação de apoiar o governo e seus representantes.

O confucionismo é um sistema filosófico chinês criado por Kung-Fu-Tsé que se tornaria a doutrina oficial do império chinês durante a dinastia Han (séculos III a. C. – III d. C.), encontrando continuadores ao longo deste período que se destacaram em vários campos diferentes. Donz Zhong shu, por exemplo, buscou revigorar e reinterpretar o confucionismo através das teorias cosmológicas dos cinco elementos (Terra, Madeira, Fogo, Metal e Água). Wang Chong utilizou-se de um ceticismo lógico para criticar as crenças infundadas e os mitos religiosos. Embora tivesse perdido um certo vigor após a dinastia Han, o confucionismo seria novamente desenvolvido no movimento conhecido como neoconfucionismo, datado do século X d.C., através da figura de personagens como os irmãos Cheng e Zhuxi, o grande comentador confucionista.

De qualquer modo, já na Antiguidade o confucionismo atingiu um pleno sucesso, tornando-se uma filosofia moral de profundo impacto na estrutura social e cotidiana da sociedade. O valor ao estudo, à disciplina, à ordem, à consciência política e ao trabalho são lemas do confucionismo incorporado na vida da civilização chinesa da Antiguidade aos dias de hoje. Continue reading “Confuncionismo e Igualdade de Oportunidades”

Igualdade de Oportunidades: Necessária, Mas Não Suficiente

Animais

Ha-Joon Chang, no livro “23 Coisas que não nos Contaram sobre o Capitalismo”, alerta que “a igualdade de oportunidades pode não ser justa”.

O que os neoliberais dizem é que muitas pessoas ficam irritadas com a desigualdade. No entanto, existe “igualdade” e igualdade. Quando recompensamos as pessoas da mesma maneira independentemente dos seus esforços e realizações, os mais talentosos e os mais esforçados perdem o incentivo para ter um bom desempenho. Isso equivale à igualdade do resultado. É uma má ideia, como foi comprovado pela queda do comunismo. Devemos buscar a igualdade de oportunidades. Por exemplo, não apenas era injusto como também ineficaz que um estudante negro no apartheid da África do Sul não pudesse frequentar melhores universidades dos “brancos”, mesmo se ele fosse um aluno com um desempenho mais satisfatório. As pessoas devem ter oportunidades iguais. Entretanto, é igualmente injusto e ineficaz introduzir uma ação afirmativa e começar a aceitar alunos de qualidade inferior simplesmente porque eles são negros ou têm uma origem desprivilegiada. Ao tentar igualar os resultados, não apenas distribuímos erroneamente os talentos mas também penalizamos os mais talentosos e esforçados.

O que os neoliberais não dizem é que a igualdade de oportunidades é o ponto de partida para uma sociedade justa, mas não é suficiente. É claro que as pessoas devem ser recompensadas por um desempenho “melhor, mas a questão é se elas estão efetivamente competindo sob as mesmas condições que os seus concorrentes. Se uma criança não tem um bom desempenho na escola porque está com fome e não consegue se concentrar na aula, não podemos dizer que ela não está se saindo bem por ser inerentemente menos capaz. A concorrência justa só pode ser alcançada quando a criança está bem alimentada — em casa por meio do apoio da renda familiar e na escola por intermédio de um programa de refeições gratuitas. A não ser que exista alguma igualdade no resultado (p. ex., a renda de todos os pais está acima de um certo limite mínimo, o qual possibilita que as crianças não passem fome), as oportunidades iguais (p. ex., a instrução gratuita) não são realmente significativas. Continue reading “Igualdade de Oportunidades: Necessária, Mas Não Suficiente”

Instrução não importa tanto no aumento da produtividade de uma economia

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Ha-Joon Chang, no livro “23 Coisas que não nos Contaram sobre o Capitalismo”, afirma que “mais instrução por si só não tornará um país mais rico”.

O que os neoliberais dizem é que uma força de trabalho instruída é absolutamente necessária para o desenvolvimento econômico. A melhor prova disso é o contraste entre o sucesso econômico dos países do Leste Asiático, com o seu famoso desempenho na área da instrução superior, e a estagnação econômica dos países da África subsaariana, que têm um dos registros educacionais mais baixos do mundo. Além disso, com o aumento da chamada “economia do conhecimento”, na qual o conhecimento se tornou a principal fonte de riqueza, a instrução, especialmente a instrução superior, tornou-se a chave para a prosperidade.

O que os neoliberais não dizem é que existem pouquíssimas evidências que demonstrem que um povo mais instruído acarrete uma maior prosperidade nacional. Grande parte do conhecimento adquirido na escola na realidade não é relevante para o aumento da produtividade, embora isso possibilite que as pessoas tenham uma vida mais gratificante e independente. Além disso, a concepção de que o surgimento da economia do conhecimento tenha aumentado decisivamente a importância da instrução é enganosa. Para começar, a ideia da economia do conhecimento em si é problemática, já que o conhecimento sempre foi a principal fonte de riqueza. Além disso, com a crescente desindustrialização e mecanização, as exigências de conhecimento talvez tenham até mesmo diminuído na maioria das ocupações nos países ricos. Mesmo quando se trata da instrução superior, que se presume seja mais importante na economia do conhecimento, não existe um relacionamento simples entre ela e o crescimento econômico. O que realmente importa na determinação da prosperidade nacional não é o nível de instrução das pessoas e sim a capacidade da nação de organizar pessoas em empreendimentos com uma elevada produtividade. Continue reading “Instrução não importa tanto no aumento da produtividade de uma economia”

Racionalidade Limitada

Racionalidade Limitada

Ha-Joon Chang, no livro “23 Coisas que não nos Contaram sobre o Capitalismo”, fala a respeito de Herbert Simon, ganhador do Prêmio Nobel de economia em 1978. Ele foi possivelmente o último Homem da Renascença na terra. Ele começou como cientista político e depois passou a estudar administração pública, escrevendo o clássico livro na área, Administrative Behaviour. Apresentando ao longo do caminho alguns trabalhos na área da física, ele passou então a estudar comportamento organizacional, administração de empresas, economia, psicologia cognitiva e inteligência artificial (IA). Se alguém já entendeu como as pessoas pensam e se organizam, essa pessoa foi Simon.

Ele argumentava que a nossa racionalidade é “delimitada”. Ele não acreditava que fôssemos inteiramente irracionais, embora ele próprio e muitos outros economistas da escola behaviorista (bem como muitos psicólogos cognitivos) tenham documentado de um modo convincente o quanto o nosso comportamento é irracional. De acordo com Simon, nós tentamos ser racionais, mas a nossa capacidade de sê-lo está gravemente limitada. O mundo é complexo demais, argumentava Simon, para que a nossa inteligência limitada possa compreendê-lo plenamente. Isso significa que, com muita frequência, o principal problema que enfrentamos para tomar uma boa decisão não é a falta de informações, mas sim a nossa capacidade limitada de processar essas informações — um ponto que é belamente ilustrado “pelo fato que o celebrado advento da era da internet não parece ter melhorado a qualidade das nossas decisões, a julgar pela confusão na qual nos encontramos hoje. Continue reading “Racionalidade Limitada”

O que os neoliberais dizem e o que não dizem

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Ha-Joon Chang, no livro “23 Coisas que não nos Contaram sobre o Capitalismo”, afirma que “os executivos americanos são caros demais”.

O que os neoliberais dizem é que algumas pessoas são muito mais bem pagas do que outras. Especialmente nos Estados Unidos, as empresas pagam aos seus alto-executivos quantias que algumas pessoas consideram obscenas. No entanto, isso é exigido pelas forças do mercado. Considerando-se que o acervo de talentos é limitado, simplesmente temos que pagar grandes quantias para atrair os melhores talentos. A partir do ponto de vista de uma corporação gigante com um volume de negócios de bilhões de dólares, decididamente vale a pena pagar milhões de dólares adicionais, ou até mesmo dezenas de milhões de dólares, para conseguir os melhores talentos, já que a capacidade dessas pessoas de tomar melhores decisões do que os seus equivalentes em empresas concorrentes poderá gerar uma receita adicional de centenas de milhões de dólares. Por mais injustos que esses níveis de remuneração possam parecer, não devemos nos envolver em atos de inveja e despeito, e tentar reprimi-los artificialmente. Essas tentativas seriam simplesmente contraproducentes.

O que os neoliberais não dizem é que os executivos americanos são excessivamente caros em mais de um sentido. Primeiro, eles são caros demais em comparação com os seus antecessores. Em termos relativos (ou seja, como uma proporção da remuneração do trabalhador médio), os CEOs americanos de hoje recebem cerca de dez vezes mais do que os seus predecessores da década de 1960, apesar do fato de estes últimos administrarem empresas que eram muito mais bem-sucedidas, em termos relativos, do que as empresas americanas de hoje. Os executivos americanos também são caros demais em comparação com os seus equivalentes em outros países ricos. Em termos absolutos, eles recebem, dependendo do critério que utilizarmos e do país com o qual fizermos a comparação, até vinte vezes mais do que os seus concorrentes que administram empresas igualmente grandes e bem-sucedidas. Os dirigentes americanos não apenas são caros demais como também são excessivamente protegidos no sentido que não são punidos pelo mau desempenho. E tudo isso não é, ao contrário do que muitas pessoas argumentam, puramente determinado pelas forças do mercado. A classe empresarial nos Estados Unidos obteve um tal poder econômico, político e ideológico, que tem sido capaz de manipular as forças que determinam a sua remuneração. Continue reading “O que os neoliberais dizem e o que não dizem”

Ascensão e Queda das Políticas Pró-Ricos

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Ha-Joon Chang, em seu livro “23 Coisas que não nos Contaram sobre o Capitalismo”, prossegue dissertando sobre a ascensão e queda das políticas pró-ricos.

Entre o final do século XIX e o início do século XX, os piores receios dos liberais se concretizaram, e quase todos os países da Europa e as chamadas “ramificações ocidentais” (os Estados Unidos “, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia) estenderam o sufrágio aos pobres (naturalmente, apenas para os homens). No entanto, a temida tributação excessiva dos ricos e a resultante destruição do capitalismo não aconteceu. Nas décadas que se seguiram à introdução do sufrágio universal masculino, a tributação sobre os ricos e os gastos sociais não aumentaram muito. Desse modo, afinal de contas, os pobres não eram tão impacientes…

Além disso, quando a temida tributação excessiva dos ricos realmente começou, ela não destruiu o capitalismo, na realidade, ela o tornou ainda mais forte. Depois da Segunda Guerra Mundial, houve um rápido crescimento na tributação progressiva e nos gastos com o bem-estar social na maioria dos países capitalistas ricos. Apesar disso (ou, mais exatamente, em parte por causa disso), o período entre 1950 e 1973 presenciou as mais elevadas taxas de crescimento já vistas nesses países, e ficou conhecido como a “Era de Ouro do Capitalismo”.

Antes da Era de Ouro, a renda per capita das economias capitalistas ricas costumava ter um crescimento de 1 a 1,5% ao ano. Durante a Era de Ouro, ela cresceu de 2 a 3% nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, 4-5% na “Europa Ocidental e 8% no Japão. Depois disso, esses países nunca mais conseguiram crescer mais do que isso. Continue reading “Ascensão e Queda das Políticas Pró-Ricos”