I Seminário Paraense de Estudos sobre John Maynard Keynes

O Grupo de Pesquisa Novo Institucionalismo Econômico e Fronteiras (GNIEF), liderado pelo Prof. André Cutrim Carvalho, junto com o Centro Acadêmico de Economia (CAECON), ambos da UFPA, solicitou minha ajuda no processo de divulgação do “I Seminário Paraense de Estudos sobre John Maynard Keynes“.

O economista John Maynard Keynes continua sendo uma das principais referências intelectuais – se não a mais importante – na compreensão da economia capitalista contemporânea. O I Seminário Paraense de Estudos sobre John Maynard Keynes nasce, portanto, com o intuito de prestar uma justa homenagem ao maior economista do século XX, e vai além ao promover pela primeira vez na Amazônia brasileira um debate sobre a Crise Econômica no Brasil e no Estado Pará na perspectiva de Keynes.

Crescimento Sincronizado na OCDE

Josh Zumbrun (Valor, 25/08/17) informa que, pela primeira vez em dez anos, as maiores economias do mundo estão crescendo em sincronia, resultado dos prolongados estímulos proporcionados pelas baixas taxas de juros dos bancos centrais e do gradual diminuição das crises que reverberaram pelo planeta nos últimos anos, desde os EUA e a Grécia até o Brasil.

Todos os 45 países acompanhados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estão no rumo para crescer neste ano, sendo que 33 deles deverão acelerar-se em comparação a 2016, segundo o grupo. É a primeira vez desde 2007 que todos estão em expansão e é o maior número de países em aceleração desde 2010, quando muitos vivenciaram uma recuperação passageira da crise financeira global.

Em julho, o Fundo Monetário Internacional (FMI) projetava uma expansão de 3,5% da produção econômica global neste ano e de 3,6% em 2018 – de 3,2% em 2016.

Nos últimos 50 anos, foi raro ver um crescimento simultâneo em todos os países acompanhados pela OCDE. Além da década passada, isso aconteceu apenas no fim dos anos 80 e, por poucos anos, antes da crise do petróleo de 1973. Continue reading “Crescimento Sincronizado na OCDE”

Novo Socialismo dos Tolos: Antiglobalização

J. Bradford DeLong, ex-vice-secretário assistente do Tesouro dos EUA, é professor de Economia da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley, e pesquisador adjunto da Agência Nacional de Pesquisa Econômica. Reproduzo abaixo seu artigo (Valor, 08/08/17) em que defende a globalização com argumentos inteligentes, portanto, diferentes neoliberais.

“De acordo com a teoria econômica tradicional, a globalização tende a
beneficiar as empresas e pessoas físicas em todos os níveis e tem pouco efeito sobre a distribuição de renda como um todo. Mas “globalização” não é sinônimo de eliminação de tarifas e de outras barreiras sobre as importações que proporcionam vantagens a produtores domésticos politicamente influentes em busca de rentabilidade.

Como costuma destacar o economista Dani Rodrik, da Universidade de Harvard, a teoria econômica prevê que a eliminação das barreiras tarifárias e não tarifárias produz, efetivamente, ganhos líquidos, mas também resulta em grandes redistribuições, motivo pelo qual eliminar barreiras menores rende redistribuições maiores em relação aos ganhos líquidos.

A globalização, para os nossos fins, é diferente. Deve ser entendida como um processo pelo qual o mundo se torna cada vez mais interconectado por meio de avanços tecnológicos que reduzem os custos com transporte e telecomunicações. Essa forma de globalização, com certeza, permite que os produtores externos exportem produtos e serviços para mercados distantes a um custo mais baixo. Mas também abre os mercados de exportação e reduz os custos para o outro lado. E, no final, os consumidores obtêm mais por menos. Continue reading “Novo Socialismo dos Tolos: Antiglobalização”

Complexidade econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações

O próprio Paulo Gala apresenta seu livro Complexidade econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações. Reproduzo sua apresentação abaixo.

“O processo de desenvolvimento sempre intrigou os economistas. Pensadores do passado – como o italiano Antonio Serra, de Nápoles, no início do século XVII; John Cary, de Bristol, no final do século XVII; ou Duarte Ribeiro de Macedo, de Portugal, na mesma época – indagavam sobre o que fazer para acelerar o progresso do reino e alcançar riqueza para todos. Muito antes de Adam Smith ter escrito o livro que se tornou clássico, esses economistas já observavam a questão da riqueza e da pobreza das nações, que perdura até hoje e continua inflamando corações e mentes.

Desde os clássicos da economia, como David Ricardo, Karl Marx e Adam Smith, passando pelos antigos economistas do desenvolvimento da tradição  anglo-saxã, como Ragnar Nurkse, Gunnar Myrdal e Rosestein-Rodan, ou da tradição latino-americana, como Raúl Prebisch e Celso Furtado, ou ainda pelo pensamento mais recente de economistas institucionalistas, como Douglass North, e de economistas mais neoclássicos, como Dani Rodrik e Daron Acemoglu – o que, afinal explica a pobreza e a riqueza das nações? O que explica o desenvolvimento econômico?

O livro procura responder essa questão a partir de duas perspectivas:

(i) a antiga tradição estruturalista em economia, para a qual a chave para a riqueza das nações estava na especialização produtiva em atividades econômicas com retornos crescentes de escala e

(ii) a moderna concepção da complexidade econômica, que parte de um enfoque parecido com o dos estruturalistas, mas usa muito a abordagem empírica, analisando enormes bancos de dados de Big Data e redes para o comércio internacional. Continue reading “Complexidade econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações”

“Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano” (2) por Michael Hudson

A distinção clássica entre rendimento merecido e não merecido

Há uma história falsa e uma história verdadeira. Raramente a história factual é a versão promovida pelos “vencedores” (ou pretensos vencedores – a luta ainda não acabou). Isto também é verdadeiro na teoria económica. Há apenas uma realidade económica, assim em princípio deve haver apenas um corpo de teoria económica: a economia da realidade. Mas interesses especiais (dos vitoriosos de hoje) promovem mistificações e decretam exclusões a fim de se auto-retratarem como heróis económicos, como se os seus ganhos predatórios fossem os da sociedade como um todo. A sua imagem auto-congratulatória caracteriza o que se passa actualmente na teoria económica dominante (mainstream economics).

Ao atuarem em favor da finança, do imobiliário e dos interesses monopolistas defendendo a desregulação e a não aplicação de impostos sobre os seus ganhos, os neoliberais sequestraram os economistas clássicos no seu templo. Eles invocam Adam Smith, enquanto desviam a atenção daquilo que ele e seus seguidores clássicos realmente disseram. Sua reescrita da história do pensamento económico trata a crítica de Smith aos rentistas e ao financiamento por dívida como heresia. Continue reading ““Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano” (2) por Michael Hudson”

“Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano” (1) por Michael Hudson

 Esta é a 1ª parte do capítulo introdutório de “J is for Junk Economics”. Encontra-se em http://resistir.info/ .
o declínio de uma linguagem deve em última análise ter causas políticas e económicas… Ela torna-se disforme e imprecisa porque nossos pensamentos são tolos, mas o desmazelo da nossa linguagem facilita termos pensamentos tolos. Argumento que este processo é reversível… Se alguém se livrar destes hábitos poderá pensar mais claramente e pensar claramente é um primeiro passo necessário rumo à regeneração política.
– George Orwell, “Política e língua inglesa” (1946)
“Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo. São aquelas em que você deveria se concentrar”.
George W. Bush (2001)

“A desordem social começa quando se deixa de chamar as coisas pelos seus nomes correctos. O primeiro passo para reformar um mundo mal estruturado é, portanto, a “retificação dos nomes”. Para Confúcio, isto significava restaurar o significado original das palavras.

A terminologia económica actual tem uma óbvia necessidade de tal renovação. Rejeitando a economia clássica de Adam Smith, John Stuart Mill e os seus críticos contemporâneos dos latifundiários e monopolistas, os defensores rendimento não merecido borraram e obscureceram a terminologia económica com eufemismos a fim de negar que há algo como almoços grátis. Os termos rentista (rentier) e usura (usury), que em séculos passados desempenharam um papel central, soam agora como anacrónicos e foram substituídos pelo “pensamento duplo” orwelliano.

Como sabem os publicitários, dar nome a um produto condiciona a forma como as pessoas o percepcionam. Uma vasta operação de relações públicas foi engendrada para inverter o sentido das palavras e fazer com que o preto pareça branco. Em nenhum outro lado esta táctica é tão política quanto na promoção da ideologia económica.

O vocabulário atual acerca da riqueza e o seu deslize para uma economia de renda e usura é disfarçado com eufemismos como o progresso rumo a uma sociedade de lazer – não de servidão à dívida. Bolhas financeiras que inflacionam os preços para a compra de uma casa ou planos financeiros específicos de aposentadoria são chamadas de “criação de riqueza”, não de “inflação dos preços dos activos alavancados por dívida, ao passo que a contracção de empresas industriais (downsizing), a sua desintegração ou encerramento é chamada de “criação de valor”, não de saqueio. Continue reading ““Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano” (1) por Michael Hudson”

“Um antídoto para o vocabulário de duplo sentido em teoria econômica” por Jamie Morgan [*]

ARTIGO-RESENHA DE DIVULGAÇÃO EM PORTUGUÊS DE PORTUGAL:

Michael Hudson é professor de Teoria Económica na Universidade do Missouri, Kansas City, e do Levy Institute. Talvez seja mais conhecido pelo seu livro recente Matando o Hospedeiro (2015) —  e pelo seus artigos na [revista] Harper (2005, 2006) em que identificou aspectos chave da crise financeira que se iria manifestar em 2007-8. J for Junk Economics (Teoria económica lixo) é ostensivamente um dicionário, mas de um tipo muito inabitual.

Os verbetes típicos não tratam de termos comummente usados na teoria económica mainstream como é costume, mas procuram clarificá-los quanto às falácias e maus entendimentos que contêm e apresenta também verbetes que mostram os fundamentos dos quais decorrem as clarificações. Ou seja, a economia clássica, o pos keynesianismo, a moderna teoria monetária (MMT) e elementos de novas teorias da criação de dinheiro e da actividade do sistema financeiro, assim como certas ideias de Marx.

O âmbito da obra é eclético e pessoal e ainda assim sistemático, em certa medida coerentemente temática em relação à dinâmica estrutural e à lógica das economias contemporâneas actuais. O “dicionário” é de muitas maneiras um trabalho excelente. Contem muitas afirmações vigorosas que exprimem visões importantes de modo conciso. Faz isso de acordo com temas que acompanham directamente as preocupações mais gerais de Hudson e que são estabelecidas na introdução (ver parte 1 e parte 2) e desenvolvidas através dos verbetes (e também em cinco ensaios anexos publicados anteriormente). O prefácio apresenta um resumo do livro e de como foi preparado.

“Organizei o dicionário e os ensaios que o acompanham há mais de uma década, para um livro que seria chamado The Fictitious Economia (A economia fictícia). Não consegui editor. Minhas advertências sobre como a alavancagem da divida levaria a uma crise não o qualificavam como adequado numa altura em que proliferavam manuais de como-ficar-rico da espécie que os editores consideram ser “livros de economia”. A maior parte dos leitores estava a ganhar dinheiro fácil no mercado de acções e imobiliário… Ninguém queria ouvir dizer que os ganhos não podiam ser permanentes” (2017: p. 7)

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