Revolução Monetária Digital

Entre os ex-professores da PUC-RJ, apesar das minhas divergências ideológicas, leio o André Lara Resende. Apesar dele ser chatinho como todo esnobe, é criativo, atualizado, e faz pensar, diferentemente de outros colegas. Estes são apenas “pregadores de ideologia“. Por exemplo, entre outros, Pérsio Arida: quanto mais envelhece, mais obtuso fica quanto ao neoliberalismo. Passou a pregar a privatização de tudo: o FGTS, a Petrobras… e o Pão-de-Açúcar! 🙂

André Lara Resende (Valor, 27/04/18) publicou artigo sobre “A Moeda do Futuro“. Discordo de algumas afirmações ideológicas dele, mas vale a pena ler para ver o que os adversários estão pensando. Debater — e combater — as divergências.

Detalhe importante: a pré-candidata à Presidência da República Marina Silva (Rede) foi pautada a dizer que o Brasil precisa do chamado tripé macroeconômico para voltar a crescer com sustentabilidade e também de um programa social de alcance do Bolsa Família para reduzir pobreza. O tripé é formado por metas de inflação, câmbio flutuante e controle fiscal. O primeiro é uma marca do governo do PSDB e, o segundo, da gestão do PT. Ficar em cima do muro, achando ser o centro uma virtude, é erro de pensamento comum.

“Não vamos reinventar a roda. Em termos de política macroeconômica, vamos manter o tripé do Plano Real [de 1994?!] com ajustes que precisam ser feitos”, disse ela, de acordo com seu lugar-comum sem substância de sempre. Marina é assessorada por Eduardo Gianetti da Fonseca e André Lara Resende. Eles estão à frente da pauta econômica de sua campanha. Entendeu, né?

Economistas neoliberais de agrado de O Mercado, de maneira oportunista, viram parasitas dos candidatos de centro-direita. Como estes não sabem o que dizer, são pautados por eles para louvar O Livre-Mercado e receber financiamento de pessoas físicas herdeiras de grandes fortunas. Por isso, entre outros fatores, o Brasil é (ou está) esta *****! Continue reading “Revolução Monetária Digital”

Consciência da Ignorância é melhor do que a Ilusão do Conhecimento

Martin Wolf é editor e principal analista econômico do Financial Times. Valor (21/03/18) reproduziu seu artigo crítico à atual Economia ortodoxa intitulado A Decepcionante Teoria Econômica. Compartilho abaixo.

“A Economia, como a Medicina (e ao contrário, por exemplo, a Cosmologia), é uma disciplina prática. Seu objetivo é tornar o mundo um lugar melhor. Isto é particularmente verdadeiro para a Macroeconomia, inventada por John Maynard Keynes em resposta à Grande Depressão.

Testar essa disciplina é verificar se seus praticantes compreendem o que pode dar errado na economia e como corrigir o problema. Quando a crise financeira que irrompeu em 2007 apanhou a profissão quase completamente desavisada, ela falhou no primeiro desses testes. Teve desempenho melhor no segundo. Apesar disso, ela precisa ser reconstruída.

Num blog no ” Financial Times ” em 2009, Willem Buiter, hoje no Citi, argumentou que: “a maioria das principais inovações teóricas da macroeconomia desde a década de 1970… acabaram revelando-se distrações autorreferentes e voltadas para si mesma, na melhor das hipóteses”.

Uma análise excepcionalmente exaustiva, publicada na “Oxford Review of Economic Policy” sob o título “A reconstrução da Teoria Macroeconômica“, leva-me à mesma posição. A abordagem canônica de fato se mostrou gravemente defeituosa. Além disso, economistas de alto nível diferem profundamente sobre o que fazer a respeito. Sócrates poderia dizer que a consciência da ignorância é muito melhor do que a ilusão do conhecimento. Se assim for, a macroeconomia está em boa forma. Continue reading “Consciência da Ignorância é melhor do que a Ilusão do Conhecimento”

Questões Básicas da Filosofia Política

Yuval Levin, na conclusão de seu livro “O grande debate: Edmund Burke, Thomas Paine e o nascimento da esquerda e direita”, mostra que a tensão entre essas duas disposições se resume a algumas questões básicas da Filosofia Política:

  • Nossa sociedade deve ser capaz de responder às demandas de inflexíveis e abstratos compromissos com ideais como a igualdade social ou aos padrões de suas próprias e concretas tradições e bases políticas?
  • O relacionamento dos cidadãos com a sociedade deve ser definido acima de tudo pelo direito de livre escolha do indivíduo ou por uma rede de obrigações e convenções não inteiramente de sua escolha?
  • Os grandes problemas públicos são resolvidos mais satisfatoriamente por meio de instituições criadas para aplicar o conhecimento técnico explícito dos especialistas ou por meio daquelas instituições que canalizam o conhecimento social implícito da comunidade?
  • Devemos ver as falhas de nossa sociedade como um grande problema a ser resolvido pela transformação compreensiva ou como um conjunto de imperfeições pontuais que devem ser eliminadas por meio da construção sobre o que funciona toleravelmente bem para corrigir o que não funciona?
  • Que autoridade o caráter do mundo dado deve exercer sobre nosso senso do que gostaríamos de ser?

Essas questões se constroem umas sobre as outras e se transformam em maneiras bastante distintas de pensar a Política. Cada pessoa olha para seu país e vê uma mistura de coisas boas e más.

  • Mas quais nos atingem mais poderosamente?
  • Ao confrontar a sociedade, ficamos antes gratos pelo que funciona bem e motivados a reforçar e construir a partir daí ou ultrajados com o que funciona mal e motivados a destruir e transformar?

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Dilema das Gerações Em Uma Sociedade Liberal

Yuval Levin, em seu livro “O grande debate: Edmund Burke, Thomas Paine e o nascimento da esquerda e direita”, se pergunta:

  • Qual é a relação adequada entre as gerações em uma sociedade?
  • Apenas porque a geração de nossos antepassados fazia algo de certa maneira, precisamos fazer o mesmo ou podemos pôr de lado suas práticas e abrir nosso próprio caminho?
  • Devemos a nossos filhos a preservação das instituições sociais e políticas que herdamos, a fim de que possam viver como vivemos, ou devemos a eles a liberdade de escolherem seu próprio caminho?
  • É possível entender nossa vida civil em termos de consentimento e liberdade de escolha se ela envolve uma ordem política que herdamos ao nascer e de cuja escolha não participamos?
  • A sociedade que herdamos e nosso lugar nessa sociedade possuem qualquer autoridade legítima sobre o modo como vivemos nossas vidas?

O debate Burke–Paine tem muito a nos dizer sobre como e por que devemos pensar nessas difíceis questões. O dilema das gerações em uma sociedade liberal se agiganta em seu pensamento político e está presente, logo abaixo da superfície, em muitas das disputas que os dividem. Eles abordam o assunto frequentemente e em uma ampla variedade de contextos. Desse modo, mais que apenas outro ponto de disputa, ele forma uma espécie de corrente unificadora entre os temas que discutiram.

Paine busca entender o homem separadamente de seu contexto social, ao passo que Burke acha que ele é incompreensível longe das circunstâncias em que nasceu e que foram criadas pelas gerações anteriores.

Burke descreve um todo social densamente estratificado que define o lugar de cada um de seus membros, enquanto Paine pensa que cada pessoa nasce com o mesmo direito de moldar seu destino.

A política da razão defendida por Paine pede recurso direto aos princípios em face de práticas antigas, mas pouco razoáveis. A prescrição defendida por Burke é baseada na continuidade geracional. Continue reading “Dilema das Gerações Em Uma Sociedade Liberal”

Quem ganhou o mais famoso duelo da história da Economia?

Nicholas Wapshott, no último capítulo do livro “Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história”, se pergunta: então, oitenta anos depois que Hayek e Keynes cruzaram os sabres pela primeira vez, quem ganhou o mais famoso duelo da história da Economia?

Embora o keynesianismo tenha sido declarado morto inúmeras vezes desde meados de 1970, o reconhecimento de Friedman em 1966, de que, “em certo sentido, todos somos keynesianos agora; em outro, ninguém é mais keynesiano”, é uma avaliação, na opinião de Wapshott, da qual discordo, “mais precisa, senão importunamente ambígua, do estado da Economia no início do século XXI”.

Uma diferença decisiva entre os dois homens, se uma Economia é mais bem compreendida de cima para baixo ou de baixo para cima, por meio da macroeconomia ou da microeconomia, deixou Keynes em situação dominante. Sua abordagem generalizada é universalmente usada hoje, da mesma forma que conceitos como Produto Interno Bruto —, ferramentas importantes com as quais os economistas medem a economia. Como Friedman colocou: “Todos usamos muitos dos detalhes analíticos da General Theory; todos aceitamos, no mínimo, uma grande parte da mudança de pauta para análise e pesquisa que a General Theory introduziu.”

Com suas prescrições monetárias, Friedman refinou Keynes, mas não o substituiu. “O [monetarismo] beneficiou-se muito do trabalho de Keynes”, escreveu Friedman em 1970. “Se Keynes fosse vivo hoje, estaria, sem dúvida, à frente da contrarrevolução [monetarista].”  🙂 Continue reading “Quem ganhou o mais famoso duelo da história da Economia?”

Era de Hayek sucedeu a Era de Keynes

Nicholas Wapshott, no livro “Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história”, conta que as duas décadas seguintes (1989-2008) viram crescer em popularidade a advertência de Hayek sobre o potencial para tirania na intervenção do governo. O colapso da União Soviética, em 1991, encerrou 75 anos de experimento de economia planejada contra o livre mercado na vida dos russos.

Com o recuo das ideias keynesianas e a volta às ideias do livre mercado, na Era Neoliberal, e a queda do marxismo-leninismo, Hayek viveu tempo suficiente para se sentir vingado. Observando os acontecimentos se desenrolarem, observou: “Eu disse isso a vocês.” Ele morreu aos 92 anos, em 23 de março de 1992, em Freiburg im Breisgau, Alemanha.

Nos Estados Unidos, no debate sobre o papel do governo nos assuntos nacionais, as escolhas preto ou branco da discussão acadêmica, que outrora se travava, inicialmente, assumiram tons de cinza. O pragmatismo de governo, que deseja entregar resultado social para os eleitores, em um curto mandato de quatro anos, chega a misturar doutores, receitas e remédios de distintas correntes. Continue reading “Era de Hayek sucedeu a Era de Keynes”

Reaganomics

Nicholas Wapshott, no livro “Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história”, conta que a imposição de aperto monetário para refrear a inflação foi apenas um elemento em uma cesta de políticas que, juntas, tornaram-se conhecidas como “Reaganomics”, cada uma das quais devia sua inspiração a alguma parte de Hayek ou Friedman.

A “curva de Laffer” mostrava que havia uma alíquota ótima de imposto de renda que colheria a receita máxima. Ela se tornou o recurso rapidamente esboçado por economistas em torno de Reagan para convencer outros de que os cortes de impostos estimulariam as receitas. Grandes cortes nos impostos, argumentavam os “reaganistas”, aumentariam os gastos privados, que, por sua vez, aumentariam a demanda por meio de um efeito “trickle-down para toda a economia. Era uma derivação keynesiana também esboçada na lógica do multiplicador de Richard Kahn.

Um terceiro elemento decisivo da “Reaganomics”, também promovido por Laffer, foi a “economia do lado da oferta”. Era a noção de que o crescimento acelerado de uma economia poderia ser mais bem conquistado estimulando-se a produção de bens em maior quantidade e mais baratos, cortando-se as regulações das indústrias e os impostos das corporações, em vez de apoiar-se em um crescimento comandado pela demanda, o aumento da demanda impelido por gasto público keynesiano. Continue reading “Reaganomics”