Complexidade econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações

O próprio Paulo Gala apresenta seu livro Complexidade econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações. Reproduzo sua apresentação abaixo.

“O processo de desenvolvimento sempre intrigou os economistas. Pensadores do passado – como o italiano Antonio Serra, de Nápoles, no início do século XVII; John Cary, de Bristol, no final do século XVII; ou Duarte Ribeiro de Macedo, de Portugal, na mesma época – indagavam sobre o que fazer para acelerar o progresso do reino e alcançar riqueza para todos. Muito antes de Adam Smith ter escrito o livro que se tornou clássico, esses economistas já observavam a questão da riqueza e da pobreza das nações, que perdura até hoje e continua inflamando corações e mentes.

Desde os clássicos da economia, como David Ricardo, Karl Marx e Adam Smith, passando pelos antigos economistas do desenvolvimento da tradição  anglo-saxã, como Ragnar Nurkse, Gunnar Myrdal e Rosestein-Rodan, ou da tradição latino-americana, como Raúl Prebisch e Celso Furtado, ou ainda pelo pensamento mais recente de economistas institucionalistas, como Douglass North, e de economistas mais neoclássicos, como Dani Rodrik e Daron Acemoglu – o que, afinal explica a pobreza e a riqueza das nações? O que explica o desenvolvimento econômico?

O livro procura responder essa questão a partir de duas perspectivas:

(i) a antiga tradição estruturalista em economia, para a qual a chave para a riqueza das nações estava na especialização produtiva em atividades econômicas com retornos crescentes de escala e

(ii) a moderna concepção da complexidade econômica, que parte de um enfoque parecido com o dos estruturalistas, mas usa muito a abordagem empírica, analisando enormes bancos de dados de Big Data e redes para o comércio internacional. Continue reading “Complexidade econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações”

“Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano” (2) por Michael Hudson

A distinção clássica entre rendimento merecido e não merecido

Há uma história falsa e uma história verdadeira. Raramente a história factual é a versão promovida pelos “vencedores” (ou pretensos vencedores – a luta ainda não acabou). Isto também é verdadeiro na teoria económica. Há apenas uma realidade económica, assim em princípio deve haver apenas um corpo de teoria económica: a economia da realidade. Mas interesses especiais (dos vitoriosos de hoje) promovem mistificações e decretam exclusões a fim de se auto-retratarem como heróis económicos, como se os seus ganhos predatórios fossem os da sociedade como um todo. A sua imagem auto-congratulatória caracteriza o que se passa actualmente na teoria económica dominante (mainstream economics).

Ao atuarem em favor da finança, do imobiliário e dos interesses monopolistas defendendo a desregulação e a não aplicação de impostos sobre os seus ganhos, os neoliberais sequestraram os economistas clássicos no seu templo. Eles invocam Adam Smith, enquanto desviam a atenção daquilo que ele e seus seguidores clássicos realmente disseram. Sua reescrita da história do pensamento económico trata a crítica de Smith aos rentistas e ao financiamento por dívida como heresia. Continue reading ““Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano” (2) por Michael Hudson”

“Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano” (1) por Michael Hudson

 Esta é a 1ª parte do capítulo introdutório de “J is for Junk Economics”. Encontra-se em http://resistir.info/ .
o declínio de uma linguagem deve em última análise ter causas políticas e económicas… Ela torna-se disforme e imprecisa porque nossos pensamentos são tolos, mas o desmazelo da nossa linguagem facilita termos pensamentos tolos. Argumento que este processo é reversível… Se alguém se livrar destes hábitos poderá pensar mais claramente e pensar claramente é um primeiro passo necessário rumo à regeneração política.
– George Orwell, “Política e língua inglesa” (1946)
“Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo. São aquelas em que você deveria se concentrar”.
George W. Bush (2001)

“A desordem social começa quando se deixa de chamar as coisas pelos seus nomes correctos. O primeiro passo para reformar um mundo mal estruturado é, portanto, a “retificação dos nomes”. Para Confúcio, isto significava restaurar o significado original das palavras.

A terminologia económica actual tem uma óbvia necessidade de tal renovação. Rejeitando a economia clássica de Adam Smith, John Stuart Mill e os seus críticos contemporâneos dos latifundiários e monopolistas, os defensores rendimento não merecido borraram e obscureceram a terminologia económica com eufemismos a fim de negar que há algo como almoços grátis. Os termos rentista (rentier) e usura (usury), que em séculos passados desempenharam um papel central, soam agora como anacrónicos e foram substituídos pelo “pensamento duplo” orwelliano.

Como sabem os publicitários, dar nome a um produto condiciona a forma como as pessoas o percepcionam. Uma vasta operação de relações públicas foi engendrada para inverter o sentido das palavras e fazer com que o preto pareça branco. Em nenhum outro lado esta táctica é tão política quanto na promoção da ideologia económica.

O vocabulário atual acerca da riqueza e o seu deslize para uma economia de renda e usura é disfarçado com eufemismos como o progresso rumo a uma sociedade de lazer – não de servidão à dívida. Bolhas financeiras que inflacionam os preços para a compra de uma casa ou planos financeiros específicos de aposentadoria são chamadas de “criação de riqueza”, não de “inflação dos preços dos activos alavancados por dívida, ao passo que a contracção de empresas industriais (downsizing), a sua desintegração ou encerramento é chamada de “criação de valor”, não de saqueio. Continue reading ““Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano” (1) por Michael Hudson”

“Um antídoto para o vocabulário de duplo sentido em teoria econômica” por Jamie Morgan [*]

ARTIGO-RESENHA DE DIVULGAÇÃO EM PORTUGUÊS DE PORTUGAL:

Michael Hudson é professor de Teoria Económica na Universidade do Missouri, Kansas City, e do Levy Institute. Talvez seja mais conhecido pelo seu livro recente Matando o Hospedeiro (2015) —  e pelo seus artigos na [revista] Harper (2005, 2006) em que identificou aspectos chave da crise financeira que se iria manifestar em 2007-8. J for Junk Economics (Teoria económica lixo) é ostensivamente um dicionário, mas de um tipo muito inabitual.

Os verbetes típicos não tratam de termos comummente usados na teoria económica mainstream como é costume, mas procuram clarificá-los quanto às falácias e maus entendimentos que contêm e apresenta também verbetes que mostram os fundamentos dos quais decorrem as clarificações. Ou seja, a economia clássica, o pos keynesianismo, a moderna teoria monetária (MMT) e elementos de novas teorias da criação de dinheiro e da actividade do sistema financeiro, assim como certas ideias de Marx.

O âmbito da obra é eclético e pessoal e ainda assim sistemático, em certa medida coerentemente temática em relação à dinâmica estrutural e à lógica das economias contemporâneas actuais. O “dicionário” é de muitas maneiras um trabalho excelente. Contem muitas afirmações vigorosas que exprimem visões importantes de modo conciso. Faz isso de acordo com temas que acompanham directamente as preocupações mais gerais de Hudson e que são estabelecidas na introdução (ver parte 1 e parte 2) e desenvolvidas através dos verbetes (e também em cinco ensaios anexos publicados anteriormente). O prefácio apresenta um resumo do livro e de como foi preparado.

“Organizei o dicionário e os ensaios que o acompanham há mais de uma década, para um livro que seria chamado The Fictitious Economia (A economia fictícia). Não consegui editor. Minhas advertências sobre como a alavancagem da divida levaria a uma crise não o qualificavam como adequado numa altura em que proliferavam manuais de como-ficar-rico da espécie que os editores consideram ser “livros de economia”. A maior parte dos leitores estava a ganhar dinheiro fácil no mercado de acções e imobiliário… Ninguém queria ouvir dizer que os ganhos não podiam ser permanentes” (2017: p. 7)

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Economia Mundial em 7 Gráficos

Martin Wolf (FT, 21/07/17) pergunta: O que acontece com a economia mundial?

Aqui estão algumas respostas, nos sete gráficos acima. Eles revelam um mundo que passa por mudanças profundas.

A transformação mais importante das últimas décadas foi o declínio da peso dos países de alta renda na atividade econômica mundial. A “Grande Divergência” do século XIX e início do XX, quando as economias de alta renda de hoje saltaram à frente do resto do mundo em termos de riqueza e poder, entrou em marcha a ré; e em alta velocidade. Onde antes havia linhas divergindo, agora vemos uma “grande convergência”. Ao mesmo tempo, porém, também se trata de uma convergência de alcance limitado. A mudança se resume à ascensão da Ásia, principalmente, da China.

Nada ilustra melhor o avanço da China do que a sua imensa poupança. Ela é grande assim em parte porque a economia se tornou enorme e, em parte, porque os consumidores e as empresas chinesas poupam muito. É provável que o capital, os mercados de capital e as instituições financeiras da China se tornem tão influentes na economia mundial no século XXI quanto o capital, os mercados de capital e as instituições financeiras dos Estados Unidos o foram no século XX.

Os países emergentes e em desenvolvimento não apenas estão se tornando cada vez mais importantes na produção mundial, mas também cada vez mais importantes na população mundial. O declínio do peso dos países de alta renda é impressionante. Em 2050, a Organização das Nações Unidas (ONU) prevê que a proporção da população da África Subsaariana em relação à população mundial vai ser tão grande quanto a dos países de alta renda era em 1950. Os desafios criados por essa inclinação da balança da população mundial para o lado dos países mais pobres são evidentes. Continue reading “Economia Mundial em 7 Gráficos”

Defesa Ultraliberal da Lei de Say

Per Bylund foi consultor de negócios na Suécia e hoje é Ph.D em economia pela Universidade do Missouri e professor na Hankamer School of Business, da Baylor University, no Texas. Encontra-se no site Mises Brasil seu artigo, postado em 11 de julho de 2017, em que ele defende a Lei de Say como esta fosse natural como a Lei da Gravidade… Mas a reduz à Lei da Oferta e Demanda. 🙂

A ideologia ultraliberal torce (para Mises) e distorce (o pensamento de Keynes) no intuito de apregoar sua fé infinita no Capitalismo de Livre Mercado. Alguém já viu este em algum lugar e/ou em qualquer tempo?! Ele só existe nas cartilhas de seus ideólogos – e nos discursos da casta dos mercadores quando interessa que o Estado lhe ceda mercados sem nenhuma regulação para explorar trabalhadores e consumidores.

Vamos à catilinária ultraliberal com acusação violenta e eloquente contra Keynes. É uma imprecação, denúncia acerba e arrogante, defendendo o indefensável: a Lei de Say em uma economia monetária! Continue reading “Defesa Ultraliberal da Lei de Say”

Pensamento Ultraliberal da Escola Austríaca: Capitalismo de Livre Mercado

Para elaborar uma crítica construtiva, aquela que coloca uma alternativa no lugar da ideologia criticada, no caso, o pensamento de economistas da direita, ou se quiserem, “economistas submissos à crença da casta dos mercadores”, postarei uma série de resumos de ideias dessa gente reacionária. Embora se encontre uma profusão de entrevistas e artigos deles na imprensa brasileira – e praticamente nenhuma manifestação de economista desenvolvimentista ou marxista que pense de maneira distinta deles –, creio que suas ideias não são muitas.

Na verdade, eles são monotônicos, isto é, há monotonia em seus artigos e entrevistas. Eles apresentam sempre o mesmo tom ou ladainha. Não tem variação. O discurso neoliberal é uniforme, invariável, não apresenta variedade, diversidade ou novidade. É enfadonho, mas o que fazer? Se quisermos enfrentar o debate sobre o futuro do País, temos de conhecer as (poucas) ideias adversárias para combatê-las.

Gary North é Ph.D. em História, ex-membro adjunto do Mises Institute. Em pesquisa sobre Capitalismo de Livre Mercado, encontrei um artigo dele no site Mises Brasil, postado em 3 de abril de 2017.

Ele parte do pressuposto ideológico de que, no capitalismo de livre mercado, “quem sempre ganha é o consumidor”. Diz sem pudor que “o objetivo do capitalismo é melhorar a vida do consumidor, e não do empregado ou do empregador”. Não é para rir?! A exploração dos trabalhadores no processo de produção de bens e serviços e dos consumidores no processo de comercialização, para maximização de lucros, é abstraída?!

Seu argumento é que “as empresas se engalfinham em uma brutal guerra de preços”. ‘Tadinhas… Carteis, oligopólios, monopólios, tudo isso é visto como “falhas de mercado”. O Mercado deveria funcionar no mundo real como somente funciona no mundo idealizado em sua mente ideológica. Continue reading “Pensamento Ultraliberal da Escola Austríaca: Capitalismo de Livre Mercado”