John Cochrane: Passa Fora, Moleques! (Uso de Argumento de Autoridade por parte dos Tapuias Colonizados Culturalmente)

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A discussão que as ideias de John H. Cochrane geraram nas páginas do Valor entre economistas brasileiros ortodoxos termina de maneira muito engraçada: o próprio autor desautoriza o uso de seu exercício dedutivo-racional, no plano da Teoria Pura ou Abstrata, para a tomada de decisões práticas por parte seja do FED, seja do BCB!

Ele reconhece que o uso desse método dedutivo-racional sem acrescentar o método histórico-indutivo, baixando progressivamente o nível de abstração, é uma irresponsabilidade intelectual! É conhecido como vício ricardiano pular do alto de uma construção teórica pura diretamente para o chão-duro da realidade concreta… É um suicídio econômico.

Autor do trabalho acadêmico que deu origem a uma polêmica entre economistas brasileiros sobre a receita pouco ortodoxa de o Banco Central cortar os juros para baixar a inflação, o professor John H. Cochrane, da Universidade de Stanford, é taxativo: “Desaconselharia veementemente“.

O trabalho para discussão de Cochrane, com 153 páginas recheadas de equações matemáticas, virou a leitura do verão dos interessados nos intrigantes juros altos do Brasil. A polêmica começou com um artigo publicado no Valor pelo economista André Lara Resende, em 13 de janeiro, com o título “Juros e conservadorismo intelectual“, que cita as pesquisas do professor de Stanford. Esse artigo deu origem a outros quatro neste jornal, sem falar no debate que se espalhou para outros veículos de comunicação.

Em entrevista por telefone, Cochrane, de 59 anos, relata os conflitos que ele mesmo sente com as conclusões de seu próprio trabalho, que numa tradução livre tem o nada atrativo título de “Michelson-Morley, Occam and Fisher: As Implicações Radicais da Inflação Estável com Juros Perto de Zero“.

“Não sei se acredito nas conclusões, mas de certa forma estou sendo compelido pela lógica do que eu estou vendo”, disse o professor de Stanford. “Como economista, tenho que trabalhar com os fatos.”

Ele examina a condução da política monetária pelas economias avançadas desde a crise financeira mundial de 2008, quando os juros ficaram perto de zero e os bancos centrais imprimiram muito dinheiro sem causar as tragédias da deflação ou da hiperinflação que muitos temiam.

O trabalho de Cochrane põe em xeque as teorias em uso pelos bancos centrais de que subir juros leva inevitavelmente a uma inflação menor. Na verdade, seria o contrário: existiria uma relação de longo prazo entre juros altos e inflação alta. É o que se chama hipótese neofisheriana, em uma referência ao economista americano Irving Fisher (1867-1947).

Aos achados de Cochrane, juntaram-se visões dos economistas brasileiros que colocaram a colher na polêmica, tropicalizando as conclusões.

  • Será que temos inflação alta no Brasil apenas porque os juros são altos?
  • Não seria prudente estudar melhor essas conclusões antes de colocar em prática?
  • O ponto essencial do trabalho de Cochrane não seria a política fiscal, não a monetária?

Faltava saber como o autor do trabalho original via as suas próprias conclusões.

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Porque é que a Inflação dos Estados Unidos é tão baixa?

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  • Os dados acima confirmam a hipótese neofisheriana de André Lara Resende, “vanguarda do pensamento econômico mundial” (sic)? 
  • Porque é que a flexibilização quantitativa tem coexistido com a estabilidade de preços nos Estados Unidos?
  • Porque é que a emissão monetária por parte da Reserva Federal não provocou uma inflação mais elevada?

Martin Feldstein, professor de Economia em Harvard, foi presidente do Conselho de Assessores de Economia de Ronald Reagan. Ele é também ex-presidente do National Bureau for Economic Research dos Estados Unidos.

Para responder essas intrigantes questões, naturalmente, ele não faz uma abordagem estruturalista a la Escola Desenvolvimentista Latino-Americana. Assim, não alerta sobre a especificidade da capacidade de emissão monetária por parte do governo dos EUA. Imprime papéis pintados de “dólar”, para fazer a monetização da dívida pública ou “afrouxamento monetário, e o resto mundo os aceita em troca de mercadorias! Além disso, os títulos de dívida pública norte-americanos são absorvidos em reservas cambiais dos países emergentes como China, Japão, Rússia, Brasil, Petro-Estados, etc. Logo, o resto do mundo financia o imenso déficit comercial norte-americano.

Obviamente, esta experiência é única e não pode ser generalizada como uma “nova teoria monetária”!

Os Estados Unidos fecharam 2016 com um déficit no balanço comercial de US$ 502,3 bilhões, o maior dos últimos quatro anos. Por países, o saldo negativo no comércio com a China caiu 5,5% em 2016, ficando em US$ 347 bilhões, abaixo do recorde de US$ 367 bilhões de 2015. Já com o México, as importações superaram as exportações em US$ 63,2 bilhões, uma alta de 4,2% e o valor mais alto desde 2011, de acordo com o Departamento de Comércio.

O presidente dos EUA, Donald Trump, prometeu penalizar países como China e México, que acusa de práticas comerciais injustas, responsáveis pela perda de milhões de empregos americanos. Trump pretende renegociar o mais rápido possível o Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), assinado há mais de 20 anos com o México e o Canadá. Resta a simples pergunta: com o fim do livre-comércio global a inflação nos EUA permanecerá baixa?!

Reproduzo abaixo o artigo de Martin Feldstein.

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Chico Lopes: Dimensionando O Que Se Fala

Dívida Líquida e Indexadores DLSP

Francisco Lafaiete Lopes é PhD por Harvard, sócio da consultoria Macrométrica e ex-presidente do Banco Central (BC). Diferentemente de outros ex-colegas professores da PUC-RIO, ele parece ter mais rigor com o que fala ou escreve. Não fica apenas no plano da Ciência Abstrata, baixando o nível de abstração para a Ciência Aplicada e, daí, para a Arte das Decisões Práticas. Ciência exige medição, ou seja, dimensionar o que está falando, para não falar bobagem como disseram diversos participantes deste debate sobre Política Monetária:

O debate sobre impacto do juro alto na inflação segue com artigo de Francisco Lafaiete Lopes reproduzido abaixo. Desde logo, alerto que discordo quando Chico Lopes diz que “se todos os carregadores da dívida pública chegarem à conclusão de que o valor presente dos superávits futuros não representa lastro adequado para os títulos de dívida pública, então cada um deles vai tentar reduzir sua posição”.

Ele teria de ilustrar se essa possibilidade já ocorreu no passado. Houve alguma fuga de capitais do mercado de títulos que oferecem risco soberano para mercados de risco, tais com os de ações, dólar, imobiliário? Não, esta (falsa) ameaça só serve para sequestrar a vontade da Autoridade Monetária, forçando-a a manter a absurda política de juros reais elevadíssimos no País!

Lopes se pergunta: mas como isso afeta o índice de preços de bens e serviços? “Parece mais razoável supor que o impacto será no mercado secundário de títulos da dívida pública, o que sugere que está faltando algo na equação básica da teoria. O que está faltando é a relação entre o valor nominal [ou “de face”] ao qual a dívida foi emitida pelo governo e seu valor no mercado secundário, que podemos indicar por  um fator de desconto“.

Então, parece-lhe mais razoável supor que a dúvida quanto à futura capacidade de pagamento (solvência) governamental ou resgate do endividamento público vai ser ajustado não por movimentos no índice de preços, mas por movimentos no fator de desconto para a dívida pública. Eu, FNC, digo que isto não exclui a possibilidade de qualquer pequeno vazamento deste imenso mercado de títulos para o diminuto mercado de dólares já provocar um choque cambial e, consequentemente, um choque inflacionário. A reação com um choque de juros provocará MtM: “marcação-a-mercado” dos títulos prefixados (LTNs e NTNs) e risco de eutanásia de rentistas. Daí, “creio em deus-padre”! 🙂

“André Lara Resende publicou no Valor alguns artigos instigantes que estão gerando muita perplexidade e controvérsia. Para o grande público foi surpreendente e perturbador ler que “a hipótese neofisheriana, que vê no juro alto a causa da alta inflação no longo prazo (…) tem sólidas credenciais analíticas”. Isto até encorajou o colunista Ancelmo Gois a brincar que o Banco Central vai ter que devolver os juros elevados que foram praticados no Brasil por tanto tempo.

[FNC: na verdade, as castas — quase todas elas necessariamente rentistas –, cerca de 9,6 milhões de pessoas que aplicam em FIFs/TVMs, que teriam de devolver…]

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Justificativa Oficiosa do Governo Golpista sobre a Disparatada Taxa de Juros

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Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação do jornal Valor. Em sua coluna (Valor, 10/02/17) atuou como “porta-voz oficiosa” ao retransmitir o recado em off de “economista do governo (golpista)” aos debatedores sobre a taxa de juros disparatada no Brasil. Reproduzo a mensagem oficiosa abaixo: quando não tem nenhum resultado presente positivo, ele culpa o passado. Antes, é bom lembrar que a taxa de inflação ficou abaixo do teto da meta anual de 6,50% por 10 anos na Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014).

Metas de Inflação 1999-2013

“No início do regime de metas para a inflação, em 1999, foi traçado um cronograma de rápida redução da meta, que partia de 8% para chegar em 3,25% em 2003. Não deu. As eleições de 2002 geraram muita tensão, forte desvalorização da taxa de câmbio e elevação da inflação. O BC optou por operar com meta ajustada e subiu a taxa básica de juros (Selic) de 18% ao ano para 26,50% ao ano entre outubro de 2002 e fevereiro de 2003, para conter a escalada dos preços. O IPCA encerrou o último ano de FHC na Presidência em 12,53% e caiu para 9,30% no primeiro ano do mandato de Lula.

A gestão da política monetária e certo rigor no trato das contas públicas levaram a inflação para 3,14% em 2006, a menor taxa durante o regime de metas. No ano seguinte, porém, o governo jogou fora um bilhete premiado, ao não aproveitar as expectativas de inflação de 3,6% para 2007 e de 3,99% para 2008, para reduzir a meta de 2009. Ainda assim a inflação ficou abaixo da meta em 2007 e em 2009. Nos cinco anos do governo Dilma, o IPCA subiu, distanciando-se dos 4,5%. Nesse período os juros caíram para 7,25% ao ano.

Em abril de 2013, o BC iniciou uma trajetória de aperto monetário que só terminou com a taxa em 14,25% em julho de 2015, onde permaneceu até outubro de 2016, quando a inflação começou a dar trégua. O IPCA, que em setembro acumulava alta de 8,48%, encerrou 2016 em 6,29%. O preço da desinflação foi a recessão, agravada pelas tremendas incertezas políticas e econômicas do período. O IPCA de 3% é o objetivo de longo prazo do BC, ainda distante do horizonte visível das metas de inflação, que agora decidirá sobre 2019.

A possibilidade de o governo [golpista] de Temer retomar a redução da meta, abandonada desde 2005, seria a prova efetiva de que juros altos derrubam a inflação. Será?

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Taxa de Juros e Inflação

José Júlio Senna

José Júlio Senna é chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV/Ibre, autor do livro “Política Monetária – Ideais, Experiências e Evolução“, Editora FGV, 2010, e ex-diretor do Banco Central. Quando eu fiz um Seminário com os pesquisadores da FGV/IBRE, ele demonstrou toda sua competência, sem faltar com o respeito intelectual, pelo contrário, ele me agraciou com seu livro.

Reproduzo abaixo sua contribuição ao debate recente sobre a alta taxa de juros no Brasil.

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Teoria Quantitativa da Moeda Revisitada e Abandonada!

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Maria Clara R. M. do Prado, colunista do Valor, publicou (09/02/2017) um artigo que é um (auto) elogio aos colunistas midiáticos ao resenhar o debate sobre juros e preços entre economistas ortodoxos, ou seja, sem pluralismo teórico e ideológico como é praxe no debate intelectual brasileiro.

Antes de ler seu artigo, reproduzido abaixo, vale saber que Irving Fisher (1867-1947) foi um economista neoclássico norte-americano. Sua reputação durante a vida foi irreparavelmente prejudicada por suas afirmação, um pouco antes da Terça-Feira Negra, dizendo que o mercado de ações havia alcançado um “patamar permanentemente alto”. Sua subsequente Teoria da Dívida-Deflação como uma explicação para a Grande Depressão foi largamente ignorada em favor do trabalho de John Maynard Keynes. Sua reputação se recuperou, dentro da economia neoclássica, principalmente depois que sua obra – A Teoria dos Juros – foi popularizada, no final da década de 1950, e sobretudo em razão de um crescente interesse sobre deflação da dívida, durante a recente crise econômica de 2008-2011.

A teoria de Fisher sobre o nível de preços era resultante da formulação da Teoria Quantitativa da Moeda que partia de uma identidade contábil e com axiomas ad hoc transformava uma correlação em uma causalidade unidirecional: M => P.

Considera-se M=estoque de moeda, P=nível de preços, T=volume de transações realizadas com dinheiro, e V=velocidade de circulação do dinheiro. Fisher então propôs que essas variáveis eram correlacionadas pela Equação de troca: MV=PT. Economistas posteriores (“antipetistas” 🙂 ) substituíram o T pelo y ou “Q“, produto real, quase sempre medido pelo PIB real.

Fisher também foi o primeiro economista a distinguir claramente entre taxas reais e nominais de juros: r = [( 1 + i ) / ( 1 + P* )] − 1

onde r é a taxa real de juros, i é a taxa nominal de juros e a inflação P* é uma medida da variação no nível de preços.

Quando a inflação é suficientemente baixa, a taxa real de juros pode ser aproximada como a taxa nominal de juros menos a taxa de inflação esperada. A equação resultante é conhecida como a equação de Fisher, em sua homenagem.

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Neofisherianismo: Vai Entender… Tanta Sandice!

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Eduardo Loyo é economista-chefe do Banco BTG Pactual e diretor do Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP). Ele aproveita a oportunidade do Debate Monetário entre Economistas Ortodoxos, nas páginas de um jornal econômico, para demonstrar todo o seu saber. Entra na polêmica entre economistas ortodoxos com o artigo “Neofisherianismo: vai entender” (03/02/2017).

Trazida à baila no Brasil por André Lara Resende (Valor, 13/01/17), a “teoria neofisheriana” suscitou enorme perplexidade:

  • primeiro, pela alegação de que apertos monetários elevam ao invés de reduzir a inflação;
  • além disso, por serem proponentes dessa tese economistas que, no ferramental, são estritamente ortodoxos.

Loyo se faz duas questões:

  1. Em que bifurcação terão neofisherianismo e ortodoxia divergido, para chegar a conclusões opostas?
  2. Voltando os olhos das conclusões para suas hipóteses originárias, o que, na raiz, distingue o neofisheriano do ortodoxo?

“Sem entender isso direito, fica difícil avaliar os méritos de cada lado no debate. É um esforço extra nesse sentido, enfrentando as tecnicalidades indispensáveis, que propomos fazer aqui. Não é exatamente trivial – percebê-lo, porém, faz parte da mensagem”. Nós, meros leigos, nos dobramos frente à sumidade e, humildemente, nos esforçaremosContinue reading “Neofisherianismo: Vai Entender… Tanta Sandice!”