André Lara Resende debate com L. Randall Wray sobre a MMT

À luz da Teoria Monetária Moderna (MMT, na sigla em inglês), a política de cortes orçamentários profundos para reduzir o déficit público no Brasil está equivocada do ponto de vista macroeconômico, porque o país ainda sofre com altas taxas de desemprego e insuficiência de investimentos públicos em setores essenciais. O diagnóstico feito ontem pelo economista André Lara Resende reverberou vários dos pontos defendidos por um dos formuladores dessa relativamente nova vertente teórica, o americano L. Randall Wray.

As premissas básicas fundamentais da MMT foram apresentadas por Wray e Resende em palestra promovida pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), na Casa Firjan, e na Fundação Getulio Vargas (FGV), em evento promovido pelo Cebri em parceria com o Valor e o Centro de Estudos do Novo Desenvolvimentismo, da FGV-SP.

“Alguns dos nossos críticos dizem: ‘Não há nada de novo na MMT’. E eu respondo: ‘Você está certo. Foi o que dissemos o tempo todo’”, ironizou Wray, professor do Bard College, em Nova York, e membro do Levy Institute. Apesar de argumentar a MMT ter agregado fragmentos de estruturas teóricas já estabelecidas, Wray ganhou destaque por suas críticas à teoria e às políticas monetárias ortodoxas.

Para ele, o aumento da relação entre a dívida pública e o PIB, mesmo por longos períodos, não caracteriza por si só uma trajetória econômica insustentável. Wray citou especificamente o exemplo dos Estados Unidos para justificar sua posição: “Até agora, a relação entre a dívida pública e o PIB vem crescendo desde 1791 a uma taxa média de 1,82% [ao ano]”, explicou. “Meu argumento é: se algo vem acontecendo por 200 anos, provavelmente é sustentável.

Entre outros pontos, a MMT preconiza: os governos emissores de sua própria moeda não podem quebrar. O excesso de moeda não provoca necessariamente inflação. “A inflação não é resultado do excesso de moeda, mas do excesso de demanda agregada ou das expectativas de inflação”, afirmou Lara Resende, em artigo publicado pelo Valor em março.

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Economistas a dar com pau…

Binyamin Appelbaum, autor de “Hora dos Economistas” [The Economists’ Hour: How the False Prophets of Free Markets Fractured Our Society], publicado em 2019, afirma: os economistas são um grupo diversificado. Qualquer lista razoável inclui Milton Friedman e Karl Marx, ou seja, a associação de economistas não pode ser definida em termos de apoio a nenhum conjunto específico de políticas. Ao descrever a influência dos economistas nas políticas públicas, Appelbaum está ciente de alguns economistas se opor, vigorosamente, a cada uma das mudanças descritas neste livro. De fato, é bem provável poucos economistas terem apoiado todas as mudanças descritas neste livro.

Ainda Appelbaum acha possível falar de economistas, particularmente nos Estados Unidos na segunda metade do século XX, como uma comunidade homogênea. A maioria dos economistas americanos – e em particular aqueles participantes midiáticos influentes nos debates sobre políticas públicas – ocupavam uma parte estreita do espectro ideológico.

Ora, lá como cá… Economistas midiáticos são conservadores – e “chapa-branca”. Louvam em todos seus artigos O Mercado. Aguardam, em consequência, convites para palestras e consultorias muito bem remuneradas por empresas.

Os economistas americanos às vezes são divididos em dois campos, um dos quais com sede em Chicago e favorecendo os mercados em tudo, enquanto o outro com sede em Cambridge, Massachusetts, e favorecendo a mão pesada do governo. Esses campos são algumas vezes referidos como “água doce” e “água salgada”.

Muito é feito com essas distinções primárias. Os principais membros de ambos os grupos favoreceram as principais mudanças descritas neste livro de Appelbaum. Embora a natureza tenda à entropia, eles compartilhavam a confiança de as economias de mercado tenderem ao equilíbrio. Eles concordaram sobre o objetivo principal da política econômica ser o aumento do valor em dólar da produção econômica do país. Eles tinham pouca paciência com os esforços para combater a desigualdade.

As diferenças entre os economistas norte-americanos liberais e neoliberais eram questões de grau. Embora essas diferenças sejam consequenciais – e sejam descritas nas páginas deste livro resenhado aqui – o grau de consenso também é consequencial.

Críticas ao capitalismo, o ponto principal do debate na Europa, raramente eram ouvidas nos Estados Unidos. A diferença é bem resumida pelo cientista político Jonathan Schlefer: “Cambridge, Inglaterra, via o capitalismo como inerentemente perturbado; Cambridge, Massachusetts, passou a ver o capitalismo apenas como questão de ‘ajuste fino’.”

Com o tempo, o consenso americano mudou também as fronteiras do debate em outros países. Por exemplo, os economistas tupiniquins se submetem, voluntariamente, à lavagem cerebral no centro do Império. Acham a rede de relacionamentos com editores de revistas ranqueadas no Qualis ser benéfica para suas carreiras profissionais.

Portanto, “esqueçam o escrito antes, viva o Primeiro Mundo! O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil!”. Aliás, este discurso de servidão voluntária não é muito diferente do proferido pela casta dos militares reformados e formados na ideologia da Guerra Fria… Insistem, de forma anacrônica, em “lamber as botas” dos de lá… Supõem ascenderem socialmente, embora sejam esnobados por tal submissão, não têm vergonha. I love you!

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Discurso da Servidão Voluntária dos Economistas a O Mercado

Binyamin Appelbaum, autor de “Hora dos Economistas” [The Economists’ Hour: How the False Prophets of Free Markets Fractured Our Society], publicado em 2019, afirma: os economistas conservadores tinham uma relação mais complicada com o conservadorismo social da “direita religiosa” e com os opositores dos direitos civis das minorias. Alguns dos mais importantes defensores da fé nos mercados, notadamente Milton Friedman, vítima de discriminação antissemita em sua própria carreira acadêmica, argumentaram: os grupos minoritários deveriam adotar a competição por méritos nos mercados como a melhor defesa disponível contra a perseguição majoritária.

Em mercados perfeitos é mais fácil para acomodar diversas necessidades e preferências, inibindo a discriminação de qualquer outra forma além da não capacidade de pagamento, i.é, restrição orçamentária. Friedman, e outros economistas importantes, também expressaram opiniões capazes de espantar os conservadores sociais, incluindo apoio à imigração, legalização de drogas e direitos dos gays.

Muitos sociólogos conservadores hesitaram sobre a campanha presidencial de 1964 do libertário Barry Goldwater. Muitos economistas conservadores foram afetados pela agenda racista da campanha presidencial de George Wallace em 1968.

No entanto, na década de 1970, os dois campos – as áreas de conhecimento da Sociologia e da Economia – haviam encontrado um pedaço de terreno comum suficiente: conservadores sociais temiam por seus valores morais e conservadores econômicos temiam por seus valores de propriedade, ambos se sentiam profundamente ameaçados pela expansão do governo.

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O sonho acabou, quem não dormiu no sleeping-bag sequer sonhou…

Binyamin Appelbaum, autor de “Hora dos Economistas” [The Economists’ Hour: How the False Prophets of Free Markets Fractured Our Society], publicado em 2019, afirma: os economistas começaram a entrar em serviços governamentais em grande número durante o New Deal e a Segunda Guerra Mundial. Eles ajudaram a calcular onde estradas e pontes deveriam ser construídas e, em seguida, ajudaram a calcular quais estradas e pontes deveriam ser destruídas.

Enquanto os formuladores de políticas e os burocratas lutavam para gerenciar a rápida expansão do governo federal, eles começaram a contar com economistas para racionalizar a administração das políticas públicas. Gradualmente, os economistas também começaram a exercer influência sobre os objetivos das políticas públicas.

Os discípulos de Keynes começaram a convencer os formuladores de políticas de o governo poder aumentar a prosperidade, desempenhando um papel maior na economia. O apogeu dessa “economia ativista” nos Estados Unidos ocorreu em meados da década de 1960 sob os presidentes John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson. Eles implementaram cortes de impostos e aumentos de gastos em um esforço agressivo para estimular o crescimento econômico e reduzir a pobreza.

Por alguns anos, o efeito pareceu quase mágico. Então o desemprego e a inflação começaram a subir juntos. No início da década de 1970, a economia americana estava vacilando – e o Japão e a Alemanha Ocidental estavam ressurgindo. “Não podemos competir na fabricação de carros, na fabricação de aço ou em aviões”, disse o presidente Nixon. “Então, vamos acabar fazendo papel higiênico e pasta de dente?”

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Acerto de Contas com Economistas Conservadores

Binyamin Appelbaum, no livro “A Hora dos Economistas” [The Economists’ Hour: How the False Prophets of Free Markets Fractured Our Society; 2019], afirma: na busca da eficiência, os formuladores de políticas econômicas também incluíram os interesses dos americanos como produtores nos interesses dos americanos como consumidores, trocando empregos bem pagos por produtos eletrônicos de baixo custo. Isso, por sua vez, enfraqueceu o tecido da sociedade e a viabilidade da governança local.

As comunidades atenuam as consequências das perdas individuais de empregos. Uma das razões pelas quais as demissões em massa são tão dolorosas é a comunidade também ser frequentemente destruída. A perda excede a soma de suas partes.

A ênfase no crescimento, agora, chegou às custas do futuro: os cortes nos impostos geraram pequenas explosões de alta prosperidade em açúcar, por exemplo, às custas dos gastos em educação e infraestrutura. Limites à regulamentação ambiental preservam os lucros das empresas, mas não o meio ambiente.

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Hora dos Economistas

Binyamin Appelbaum escreve sobre Economia e Negócios para a página editorial do New York Times. De 2010 a 2019, ele foi correspondente em Washington para o Times, cobrindo a política econômica após a crise de 2008. Ele trabalhou anteriormente para o Washington Post, o Boston Globe e o Charlotte Observer, onde seus relatórios sobre empréstimos subprime ganharam o Prêmio George Polk e foram finalistas do Prêmio Pulitzer. Ele mora com sua esposa e filhos em Washington, DC. Traduzo parcialmente seu último livro recém publicado.

Uma revolução conservadora ocorreu entre os economistas quando a profissão se massificou. Surgiu, nos anos 70, aqueles capazes de acreditar no poder e na glória dos mercados estarem à beira de uma ascensão à influência empresarial e governamental. Transformaria os negócios do governo, a conduta dos negócios e, como resultado, os padrões da vida cotidiana.

À medida que o quarto de século de crescimento seguinte à Segunda Guerra Mundial chegou ao fim na década de 1970, esses economistas convenceram os líderes políticos a reduzir o papel do governo na economia. Passaram a confiar nos mercados serem capazes de produzirem melhores resultados em relação aos burocratas.

A economia é frequentemente chamada de “ciência sombria” por sua insistência em as escolhas serem feitas em trade-off, porque os recursos são limitados. Mas a mensagem real da economia, e a razão de sua popularidade, é a promessa tentadora de ela ajudar a humanidade a afrouxar essas circunstâncias de escassez. Alquimistas prometeram fazer ouro com chumbo; economistas disseram poderem fazê-lo ex nihilo, isto é, do nada criar alguma apenas através de uma melhor formulação de políticas!

Nas quatro décadas entre 1969 e 2008, período chamada por Binyamin Appelbaum de “Hora dos Economistas” [The Economists’ Hour: How the False Prophets of Free Markets Fractured Our Society], publicado em 2019, emprestando uma frase do historiador Thomas McCraw, os economistas desempenharam um papel de liderança na redução de impostos e gastos públicos, desregulamentando grandes setores da economia e limpando o caminho para a globalização. Continuar a ler