Especialista, Mestre ou Doutor: Quanto Vale Cada Título?

Mestre e DoutoresExistem duas modalidades distintas de pós-graduação no Brasil: stricto sensu e lato sensu.

Os cursos stricto sensu destinam-se à formação de mestres e doutores. Eles fazem parte de programas com forte viés acadêmico, sempre apoiados em pesquisas que aplicam a metodologia científica.

Os cursos lato sensu destinam-se à formação de especialistas e têm viés mais prático, voltado à realidade do ambiente de trabalho.

Nos cursos stricto sensu, o que distingue um mestrado de um doutorado é a profundidade e a intensidade dos estudos, sendo que o doutorado busca um ineditismo nos assuntos pesquisados.

Uma variação dos cursos é o mestrado profissional, que tem as características do mestrado acadêmico, mas sua pesquisa é voltada para aplicação prática, exigindo uma aproximação intensa ao ambiente empresarial. O mestrado profissional forma pessoas para trabalhar em empresas. Os diplomas conferidos aos concluintes dos cursos stricto sensu os habilitam a lecionar em cursos de graduação e de pós-graduação. O Ministério da Educação controla os programas de mestrado e doutorado e prol da qualidade dos cursos.

Cursar pós-graduação strictu sensu numa escola particular não é barato. O mestrado executivo de gestão empresarial, da Fundação Getulio Vargas (FGV), custa R$ 69.027 à vista – com esse dinheiro é possível comprar dois Fiat Palio 1.0 novos, e ainda guardar algum dinheiro para investir. Na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, a mensalidade dos cursos de mestrado varia de R$ 1.200 a R$ 1.500 – os alunos de doutorado recebem bolsas integrais, mas só são aprovados depois de passar por prova escrita, entrevistas e ter domínio de língua estrangeira.

Nas instituições públicas pode-se ganhar para estudar: em 2013 foram concedidas 87.678 bolsas por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior (Capes) para cursos de mestrado e doutorado.

O preço dos cursos de pós lato sensu, oferecidos por instituições particulares, varia muito. Há escolas, como a Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em que as mensalidades vão de R$ 200 a R$ 500. No Mackenzie, em São Paulo, elas custam entre R$ 700 e R$ 1.100; na FGV, o MBA de gestão empresarial sai por R$ 35.921 à vista; curso similar, na FAE, de Curitiba, pode ser feito em 24 mensalidades de R$ 904,38; e na ESPM de São Paulo, R$ 200 de inscrição, R$ 1.400 de matrícula e R$ 1.687,23 durante 30 meses.

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O Começo do Fim (por José Tadeu Jorge)

Campus UNICAMPO reitor da UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas, José Tadeu Jorge, 62 anos, doutor em Ciência de Alimentos, depois de muito tempo batalhar,  obteve “direito à resposta” na Folha de S.Paulo. Esta publicou uma reportagem leviana ao obter na Justiça o direito de publicar os nomes e salários de todos os professores da Unicamp. Não publicou nada sobre o ponto-chave da questão do teto salarial artificial.

Para que? Só serviu para mostrar como a política de “caçador de marajás” (sic), trazida por Collor ao imaginário nacional, encontra hoje um adepto na figura do Governador de São Paulo, potencial candidato à Presidente na eleição de 2018. O subsídio atual do governador paulista, de R$ 21.600, é o terceiro mais baixo da Federação, superior apenas aos do Ceará e do Espírito Santo. Com essa ruptura da carreira meritocrática, um Professor em Universidade Federal pode ganhar cerca de R$ 12 mil a mais do que um docente de mesmo nível em Universidade Estadual Paulista.  Reproduzo o artigo publicado na FSP, em 27 de agosto de 2015, abaixo. Continuar a ler

Formar Cidadãos, Novos-Ricos ou Mão-de-Obra Barata?

TraineeOs programas de trainee das “Big Four“, grandes consultorias formadoras de pretendentes a se tornarem “novos-ricos”, atraem milhares de jovens todos os anos. Na EY, são cerca de cem mil inscritos para aproximadamente 800 vagas. Na PwC, a média é de 35 mil interessados a cada edição, para até 700 vagas. Na Deloitte o número de inscritos fica em cerca de 50 mil e, desses, mais ou menos 600 ingressam na consultoria a cada ano. Já na KPMG, a última edição do programa reuniu 27 mil interessados para 560 vagas.

Após o término do programa de trainee, 95% permanecem nas consultorias e, após esse período, o “turnover” na empresa fica em torno de 18%. Para quem fica, o cargo gerencial chega entre seis e sete anos e com 11 anos de carreira é possível se tornar sócio ou diretor executivo. Quantos restaram de sua turma com um turnover de quase 1/5 por ano?

E em que tipo de cidadão o “sobrevivente” novo-rico tende a se transformar? Veja, leia, e reflita.

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Teto Salarial nas Universidades Paulistas (por Alcir Pécora e Francisco Foot Hardman)

Salários da Unicamp

Neste último mês, a questão do teto salarial dos servidores na USP, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” (Unesp) tem sido apresentada da mesma forma forçada e escandalosa – da qual, até agora, O Estado de S. Paulo tem sido uma grata exceção. Mais do que isso, já em editorial de 19/4/2014 (página A3)– disponível em http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,os-salarios-da-usp-imp-,1155916 – apresentava argumentos sólidos para inibir qualquer tentativa demagógica de tratar o assunto. Infelizmente, não foi o bastante. Quando há má-fé e tendenciosidade, é difícil que a razão prevaleça.

O primeiro ponto a considerar quando se fala em teto para os servidores universitários paulistas é que, segundo a Constituição federal, a matéria da educação pública superior deve ser tratada em termos nacionais, para a toda Federação, e não de forma regional. É o que está reforçado em extenso parecer, de 2013, do ex-ministro do STF Eros Grau. A prevalecerem como critério para tetos federal, estaduais e municipais os subsídios respectivos dos juízes do Supremo, dos governadores e dos prefeitos, poderia haver, em tese, 27 tetos estaduais e 5.600 tetos municipais – um contrassenso lógico, jurídico e social.

Ponderando, entre outros aspectos, o caráter nacional do conceito de educação pública superior, o Congresso Nacional aprovou a Emenda Constitucional n.º 47, em 2005, revendo a Emenda n.º 41, de 2003, que havia estabelecido aquela plêiade contraditória de tetos e subtetos. Facultava-se agora às unidades federativas, mediante emenda estadual, por decisão soberana de cada Assembleia Legislativa, ter como parâmetro o teto nacional, mas limitado a 90,25% deste, que equivalia ao subsídio máximo estabelecido para desembargadores dos Tribunais de Justiça dos Estados.

Pois bem, nestes dez anos de vigência da Emenda n.º 47, nada menos que 20 das 27 unidades federativas aprovaram a revisão constitucional dos tetos estaduais. São Paulo ficou de fora, ao lado de mais seis Estados: Alagoas, Ceará, Espírito Santo, Rondônia, Pará e Paraíba. Note-se ainda que nestes dois últimos Estados o subsídio do governador está em situação de paridade com o dos desembargadores, tornando desnecessária qualquer alteração. Portanto, a situação mais discrepante concentra-se apenas em cinco estados, entre eles, São Paulo. O subsídio atual do governador paulista, de R$ 21.600, é o terceiro mais baixo da Federação, superior apenas aos do Ceará e do Espírito Santo. Continuar a ler

Pastiche do Caçador-de-Marajá

Matéria jornalística escandalosa, como é típica na imprensa brasileira, “não coloca o dedo na ferida” de maneira correta: o teto do governador tucano de São Paulo está artificialmente congelado para ferrar os servidores públicos que têm uma carreira docente baseada na meritocracia, avaliada por concursos públicos e defesas de teses acadêmicas. Geraldo Alckmin tem as benesses de poder não ter custos de manutenção, então, congela seu salário em cerca de 2/3 do nível dos Poderes Judiciário, Legislativo e Executivo federais, não acompanhando sequer os de outros governadores. Imaginem o que ocorreria no País caso esse sujeito fosse eleito Presidente da República como pleiteou em 2006…

No entanto, Diego Iwata Lima (FSP, 11/07/15) destaca não esse problema político, mas sim a infeliz declaração de um profissional ligado ao Poder Judiciário, que sabe se defender. Ele é o detentor do segundo maior salário da Unicamp: Octacílio Machado Ribeiro, procurador-geral da universidade. Ele diz não entender por que seus vencimentos brutos, de R$ 60,3 mil, continuam sendo reajustados. Desse montante, o procurador recebe R$ 39,7 mil líquidos mensais. Por que ele e não os professores titulares em final de carreira meritocrática?

“Eu não entendo por que o meu salário bruto continua sendo reajustado. O meu salário bruto sobe, mas as reduções também sobem proporcionalmente, de modo que meus vencimentos não se alteram”, afirma o procurador.

“Não há efeito prático, mas os recursos humanos da Unicamp decidiram que os salários brutos continuarão sendo reajustados, mesmo que isso não implique em ganhos para os servidores”, diz ele.

Congelado por força de decisão judicial, desde maio do ano passado, o salário do procurador não precisa obedecer ao teto de R$ 21.631,05 brutos válido para os professores. Os procuradores podem receber até R$ 30,3 mil. Por que?!

Reportagem da Folha mostrou que a Unicamp paga salários acima do teto a cerca de mil professores e técnicos, segundo dados da própria universidade divulgados nesta semana. Por que ela não mostrou que esse teto está congelado, artificialmente, por causa da política tucana de ajuste fiscal à custa dos salários de servidores públicos? Continuar a ler

Ler é Aprender

A-Arte-de-Ler-Mortimer-J-Adler

Certas vezes, e não sempre, a sabedoria se realiza pela leitura: a aquisição de conhecimentos, mas, não, de habilidade. Se concluirmos, entretanto, que a espécie de leitura que resulta em maior erudição ou compreensão é idêntica à espécie de aprendizado que resulta em mais conhecimento – estaremos cometendo um grande erro. Estaremos dizendo que ninguém pode adquirir conhecimento a não ser através da leitura, o que é falso.

Mortimer J. Adler, em “A Arte de Ler”, afirma que, na historia da educação, os homens sempre fizeram distinção entre a instrução e a descoberta, como fontes de conhecimentos. A instrução ocorre quando um homem ensina a outro, mediante a fala ou a escrita. Podemos, no entanto, adquirir conhecimento, sem que ninguém nos ensine. Se não fosse assim, e se cada professor tivesse um mestre naquilo que, por sua vez, ensina a outros, nunca se teria começado a adquirir conhecimento. Daí, a descobertaprocesso de aprender graças à pesquisa, à investigação, ao raciocínio, sem mestre de espécie alguma.

A descoberta está para a instrução, assim como aprender sem professor está para aprender com sua ajuda. Em ambos os casos, a atividade é de quem aprende. Seria um grave erro supor que a descoberta é ativa, e a instrução passiva. Não há aprendizado passivo, assim como não há leitura inteiramente passiva. Continuar a ler

Critérios da Boa e da Má Leitura

AArtee(aMagia)deLerPara classificar as etapas de uma leitura séria temos que esclarecer os critérios do melhor e do pior. Que critérios são esses?

O primeiro critério refere-se ao quando dizemos que um homem lê melhor do que outro quando o critério de ler refere-se a um assunto mais difícil. Muitas vezes medimos a aptidão de um homem pela dificuldade do trabalho que ele pode realizar. A agudeza de tal medida depende, sem dúvida, da precisão independente com que classificamos os trabalhos conforme sua dificuldade crescente.

Estaríamos em um circulo vicioso se disséssemos, por exemplo, que o livro mais difícil é aquele que só o melhor leitor domina. Isto é verdade, mas não ajuda. Para se compreender por que uns livros são mais difíceis do que outros, temos de saber o que eles exigem da habilidade do leitor. Por outras palavras, a dificuldade do assunto de leitura é sinal evidente e objetivo dos graus de habilidade em ler, mas não nos diz que diferença existe no tocante à habilidade do leitor.

Entretanto, o primeiro critério tem certa aplicação, pois quanto mais difícil é um livro, tanto menos leitores terá em qualquer época. Há certa dose de verdade nisso, porque geralmente, à medida em que se sobe na escala da perfeição em uma habilidade, o número de peritos diminui: quanto mais alto se está, mais raros são eles. Assim, ao contar as cabeças de leitores peritos, teremos a noção precisa da dificuldade de uma leitura qualquer. Continuar a ler