O discreto medo dos eleitores assombra as castas

Achei muito interessante o artigo de Edward Luce (Financial Times apud Valor, 08/02/2018) para ser submetido a um exercício intelectual de sua releitura sob a ótica da estratificação social por castas de natureza ocupacional. Cada casta destaca seus valores morais e posicionamentos políticos. Permite-nos entender melhor os conflitos de interesses entre elas e os preconceitos mútuos. Com isso, podemos analisar de forma mais adequada o resultado eleitoral nos EUA — e avaliar o possível resultado aqui em Terrae Brasilis.

Começo substituindo o título “O discreto terror que assombra a burguesia dos EUA” por “O discreto terror dos eleitores que assombra as castas dos EUA“. Deixa de fazer a referência ao filme de Luís Bunuel “O Discreto Charme da Burguesia“, mas corresponde mais aos fatos.

As castas são sistemas tradicionais, hereditários ou sociais de estratificação com base em classificações tais como a etnia, a cultura, a ocupação profissional, etc. Casta é uma forma de estratificação social caracterizada pela endogamia (inclusive corporativa entre colegas de profissão), pela transmissão hereditária de um estilo de vida que frequentemente inclui um ofício (profissão), status e ritual relacionado a certa hierarquia. Suas interações sociais são consuetudinárias (habituais), baseadas nos costumes. Faz exclusão social levando em conta artificiais noções culturais de pureza, esnobando os “impuros”.

Tomo a liberdade de reescrever o artigo abaixo, substituindo classes sociais por castas, para terror dos dogmáticos que não abrem mão da categoria marxista “luta de classes”. Mas os fundamentalistas não conseguem explicar o conflito interno entre “as elites norte-americanas” da mesma classe de riqueza.

Antes, vale ter uma informação: Bill Clinton é um ex-aluno da Universidade de Georgetown, onde foi membro das sociedades Kappa Kappa Psi and Phi Beta Kappa e ganhou uma bolsa de estudos Rhodes para estudar na Universidade de Oxford. Ele é casado com Hillary Rodham Clinton. Ambos os Clintons receberam diplomas de Direito da Universidade Yale, onde se conheceram. Portanto, oriundos da casta dos sábios universitários, emigraram para a casta dos oligarcas governantes.

Donald Trump, por sua vez, nasceu e cresceu no Queens, um dos cinco distritos da cidade de Nova York, e recebeu um diploma de bacharel em economia da Wharton School da Universidade da Pensilvânia em 1968. Em 1971, recebeu de seu pai, Fred Trump, o controle da empresa de imóveis e construção Elizabeth Trump & Son, renomeando-a para The Trump Organization.

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Big Data: Estatísticas em Tempo Real

Robin Wigglesworth (Financial Times apud Valor, 02/02/18) informa que, quando Alberto Cavallo era criança na Argentina, no fim dos anos 80, o país latino-americano sofria mais uma de suas crises ocasionais. A inflação era desenfreada, o que tornava uma tarefa simples, como ir ao mercado, uma corrida diária frenética.

Cavallo e sua mãe iam ao banco todos os dias retirar os pesos suficientes para as compras necessárias e mantinham o resto das economias no banco, em dólares. Depois, corriam ao mercado local e compravam o que precisavam o mais rápido possível, na esperança de chegar à caixa registradora antes que o preço fosse remarcado.

“Se não chegássemos à caixa registradora a tempo, então tínhamos que voltar ao banco e começar tudo de novo”, recorda.

Mas a experiência plantou as sementes do que se tornaria uma dos experimentos mais intrigantes no mundo normalmente sossegado da estatística econômica: uma tentativa de usar o surgimento do “big data”, bases com enormes volumes de dados, para aprimorar, complementar e, talvez em algum momento, substituir as formas tradicionais de estatísticas, que ainda informam e moldam os pontos de vista de autoridades econômicas, políticos e acadêmicos e guiam investimentos de trilhões de dólares.

Cavallo hoje é professor de Economia Aplicada no Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde comanda o Billion Prices Project com Roberto Rigobon, outro professor do instituto. O projeto começou em 2006, durante um período em que o governo argentino era acusado de manipular os dados da inflação.

Os professores Cavallo e Rigobon perceberam que, reunindo os dados dos preços na internet, podiam criar um indicador mais preciso e atualizado da inflação real no país. Após a mudança de governo em 2015-2016, a Argentina passou a divulgar um índice mais preciso da inflação. Continue reading “Big Data: Estatísticas em Tempo Real”

Texto Literário e Texto Não Literário

 

   

José Luiz Fiorin e Francisco Platão Savioli, no manual Lições de Texto – Leitura e Redação (São Paulo: Ática, 2011), comentam que “ouvimos muito falar em literatura. Cabe, então, perguntar o que é que distingue o texto literário do não literário”.

Esse assunto já foi objeto de muita discussão e, apesar disso, não há respostas definitivas para ele. Os autores, no entanto, apresentam os critérios mais usados atualmente para caracterizar o texto literário.

Antes de mais nada, é preciso descartar qualquer critério que se fundamente no tema abordado pelo texto. Não há conteúdos exclusivos da literatura nem avessos a seu domínio.

Nesse aspecto, a única coisa que se pode afirmar é que, em certas épocas, os textos literários privilegiam certos temas e uma determinada maneira de figurativizá-los, por exemplo:

  • no barroco, aparece muito nítido o tema da transitoriedade da vida e da inevitabilidade da morte;
  • no simbolismo, não aparecem paisagens com luz chapada, ensolaradas, mas lugares enluarados, com figuras imateriais e etéreas.

Se o conteúdo é questão de preferência de época, não serve de critério para estabelecer a diferença entre texto literário e não literário. Continue reading “Texto Literário e Texto Não Literário”

Estratégias Argumentativas

Como José Luiz Fiorin e Francisco Platão Savioli, no manual Lições de Texto – Leitura e Redação (São Paulo: Ática, 2011), mostraram em sua lição sobre argumentação, seis fatores intervêm no processo de comunicação (emissor, receptor, mensagem, código, canal e referente). Temos diferentes estratégias persuasivas, que se assentam sobre um ou mais de um desses fatores.

Uma estratégia persuasiva baseada no emissor é aquela que o credencia para um dado tipo de comunicação.

No discurso eleitoral, por exemplo, os emissores apresentam-se como dotados de experiência administrativa ou parlamentar. Nessa estratégia discursiva, citam-se realizações, cria-se uma imagem favorável. Dizer, por exemplo, num debate, “esse é um assunto que conheço bem, que já estudei profundamente é identificar-se como voz autorizada a falar”.

No discurso suplicatório, quando se pede uma esmola, por exemplo, alguém se apresenta como digno da ajuda, contando fatos da vida pessoal, desgraças, dificuldades. Com isso, não está exibindo defeitos, mas colocando-se como vítima do destino. Continue reading “Estratégias Argumentativas”

Argumentação

José Luiz Fiorin e Francisco Platão Savioli, no manual Lições de Texto – Leitura e Redação (São Paulo: Ática, 2011), em sua décima nona lição, dizem o que é realmente argumentação. Normalmente, pensa-se que comunicar é simplesmente transmitir informações.

A Teoria da Comunicação diz que, para haver um ato comunicativo, é preciso que seis fatores intervenham:

  1. o emissor (aquele que produz a mensagem),
  2. o receptor (aquele a quem a mensagem é transmitida),
  3. a mensagem (elemento material, por exemplo, um conjunto de sons, que veicula um conjunto de informações),
  4. o código (sistema linguístico, por exemplo, uma língua, ou seja, conjunto de regras que permite produzir uma mensagem),
  5. o canal (conjunto de meios sensoriais ou materiais pelos quais a mensagem é transmitida, por exemplo, o canal auditivo, o telefone) e
  6. o referente (situação a que a mensagem remete).

No entanto, simplifica ela excessivamente o ato de comunicação, pois concebe o emissor e o receptor pura e simplesmente como polos neutros que devem produzir, receber e compreender a mensagem.

As coisas são mais complicadas no ato comunicativo. Há uma diferença bem marcada entre:

  1. comunicação recebida e
  2. comunicação assumida.

Como comunicar é agir sobre o outro, quando se comunica não se visa somente a que o receptor receba e compreenda a mensagem, mas também a que a aceite, ou seja, a que creia nela e a que faça o que nela se propõe.

Comunicar não é, pois, somente um fazer saber, mas também um fazer crer e um fazer fazer. A aceitação depende de uma série de fatores: emoções, sentimentos, valores, ideologia, visão de mundo, convicções políticas etc. A persuasão é então o ato de levar o outro a aceitar o que está sendo dito, pois só quando ele o fizer a comunicação será eficaz. Continue reading “Argumentação”

Dissertação

José Luiz Fiorin e Francisco Platão Savioli, no manual Lições de Texto – Leitura e Redação (São Paulo: Ática, 2011), em sua décima sétima lição, apontam como primeira característica de um texto dissertativo o fato de que ele é temático, pois analisa e interpreta a realidade com termos abstratos (método, prudência, corrupção, discreto, vontade, paixões etc.). Quando se vale de termos concretos (homem, mulher), toma-os em seu valor genérico. Não fala de um homem particular e do que faz para chegar a ser “vitorioso ou perdedor”, como seria em uma narração, mas do homem em geral e, por exemplo, dos métodos que qualquer homem utiliza para chegar ao poder.

A segunda característica é que existe transformação de situação no texto. Por exemplo, a mudança de atitude dos que clamam contra a corrupção no governo, que, quando chegam ao poder, tornam-se corruptos.

A progressão dos enunciados obedece a uma relação lógica e não cronológica. Um enunciado é anterior a outro não por causa de uma progressão temporal, mas por causa de uma concatenação lógica.

Como o texto pretende falar de algo que ele apresenta como uma verdade válida para todos os homens, em todos os tempos e lugares, constrói-se com o presente em seu valor atemporal. Todos os verbos do texto estão nesse tempo.

Dissertação é o tipo de texto que analisa, interpreta, explica e avalia os dados da realidade. Continue reading “Dissertação”

Descrição

José Luiz Fiorin e Francisco Platão Savioli, no manual Lições de Texto – Leitura e Redação (São Paulo: Ática, 2011), em sua décima sexta lição, analisam o texto descritivo.

Descrição é o tipo de texto em que se expõem características de seres concretos (pessoas, objetos, situações etc.) consideradas fora da relação de anterioridade e de posterioridade.

As características do texto descritivo são:

  1. como o texto narrativo, é figurativo;
  2. ao contrário do texto narrativo, não relata propriamente mudanças de situação, mas propriedades e aspectos simultâneos dos elementos descritos, considerados, pois, numa única situação;
  3. como o que se descreve é visto como simultâneo, não existe relação de anterioridade e posterioridade entre seus enunciados;
  4. como a simultaneidade é a característica central da descrição, os tempos verbais básicos nela utilizados são o presente ou o pretérito imperfeito (às vezes, ambos), pois o primeiro expressa concomitância em relação ao momento da fala, e o segundo, em relação a um marco temporal pretérito instalado no enunciado;
  5. como não se organiza o texto em uma progressão temporal, como na narrativa, com muita frequência, sua organização é espacial, descreve-se de cima para baixo, da esquerda para a direita, de dentro para fora, do conteúdo para o continente, etc.

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