Pastiche do Caçador-de-Marajá

Matéria jornalística escandalosa, como é típica na imprensa brasileira, “não coloca o dedo na ferida” de maneira correta: o teto do governador tucano de São Paulo está artificialmente congelado para ferrar os servidores públicos que têm uma carreira docente baseada na meritocracia, avaliada por concursos públicos e defesas de teses acadêmicas. Geraldo Alckmin tem as benesses de poder não ter custos de manutenção, então, congela seu salário em cerca de 2/3 do nível dos Poderes Judiciário, Legislativo e Executivo federais, não acompanhando sequer os de outros governadores. Imaginem o que ocorreria no País caso esse sujeito fosse eleito Presidente da República como pleiteou em 2006…

No entanto, Diego Iwata Lima (FSP, 11/07/15) destaca não esse problema político, mas sim a infeliz declaração de um profissional ligado ao Poder Judiciário, que sabe se defender. Ele é o detentor do segundo maior salário da Unicamp: Octacílio Machado Ribeiro, procurador-geral da universidade. Ele diz não entender por que seus vencimentos brutos, de R$ 60,3 mil, continuam sendo reajustados. Desse montante, o procurador recebe R$ 39,7 mil líquidos mensais. Por que ele e não os professores titulares em final de carreira meritocrática?

“Eu não entendo por que o meu salário bruto continua sendo reajustado. O meu salário bruto sobe, mas as reduções também sobem proporcionalmente, de modo que meus vencimentos não se alteram”, afirma o procurador.

“Não há efeito prático, mas os recursos humanos da Unicamp decidiram que os salários brutos continuarão sendo reajustados, mesmo que isso não implique em ganhos para os servidores”, diz ele.

Congelado por força de decisão judicial, desde maio do ano passado, o salário do procurador não precisa obedecer ao teto de R$ 21.631,05 brutos válido para os professores. Os procuradores podem receber até R$ 30,3 mil. Por que?!

Reportagem da Folha mostrou que a Unicamp paga salários acima do teto a cerca de mil professores e técnicos, segundo dados da própria universidade divulgados nesta semana. Por que ela não mostrou que esse teto está congelado, artificialmente, por causa da política tucana de ajuste fiscal à custa dos salários de servidores públicos? Continuar a ler

Ler é Aprender

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Certas vezes, e não sempre, a sabedoria se realiza pela leitura: a aquisição de conhecimentos, mas, não, de habilidade. Se concluirmos, entretanto, que a espécie de leitura que resulta em maior erudição ou compreensão é idêntica à espécie de aprendizado que resulta em mais conhecimento – estaremos cometendo um grande erro. Estaremos dizendo que ninguém pode adquirir conhecimento a não ser através da leitura, o que é falso.

Mortimer J. Adler, em “A Arte de Ler”, afirma que, na historia da educação, os homens sempre fizeram distinção entre a instrução e a descoberta, como fontes de conhecimentos. A instrução ocorre quando um homem ensina a outro, mediante a fala ou a escrita. Podemos, no entanto, adquirir conhecimento, sem que ninguém nos ensine. Se não fosse assim, e se cada professor tivesse um mestre naquilo que, por sua vez, ensina a outros, nunca se teria começado a adquirir conhecimento. Daí, a descobertaprocesso de aprender graças à pesquisa, à investigação, ao raciocínio, sem mestre de espécie alguma.

A descoberta está para a instrução, assim como aprender sem professor está para aprender com sua ajuda. Em ambos os casos, a atividade é de quem aprende. Seria um grave erro supor que a descoberta é ativa, e a instrução passiva. Não há aprendizado passivo, assim como não há leitura inteiramente passiva. Continuar a ler

Critérios da Boa e da Má Leitura

AArtee(aMagia)deLerPara classificar as etapas de uma leitura séria temos que esclarecer os critérios do melhor e do pior. Que critérios são esses?

O primeiro critério refere-se ao quando dizemos que um homem lê melhor do que outro quando o critério de ler refere-se a um assunto mais difícil. Muitas vezes medimos a aptidão de um homem pela dificuldade do trabalho que ele pode realizar. A agudeza de tal medida depende, sem dúvida, da precisão independente com que classificamos os trabalhos conforme sua dificuldade crescente.

Estaríamos em um circulo vicioso se disséssemos, por exemplo, que o livro mais difícil é aquele que só o melhor leitor domina. Isto é verdade, mas não ajuda. Para se compreender por que uns livros são mais difíceis do que outros, temos de saber o que eles exigem da habilidade do leitor. Por outras palavras, a dificuldade do assunto de leitura é sinal evidente e objetivo dos graus de habilidade em ler, mas não nos diz que diferença existe no tocante à habilidade do leitor.

Entretanto, o primeiro critério tem certa aplicação, pois quanto mais difícil é um livro, tanto menos leitores terá em qualquer época. Há certa dose de verdade nisso, porque geralmente, à medida em que se sobe na escala da perfeição em uma habilidade, o número de peritos diminui: quanto mais alto se está, mais raros são eles. Assim, ao contar as cabeças de leitores peritos, teremos a noção precisa da dificuldade de uma leitura qualquer. Continuar a ler

Ensinar: Dar Senha Para Aprender a Aprender Por Conta Própria

arte-de-lerPodemos ter ocupações que não nos obriguem a ler o tempo todo, sem deixar de admitir que esse tempo seria amenizado, em seus momentos de folga, por alguma instruçãoa que adquirimos, por nós mesmos, através da leitura. Nossa profissão pode exigir a leitura de determinado assunto técnico, ao correr do trabalho. Não importa se a leitura é para aprender ou para ganhar dinheiro. Pode ser bem ou mal feita.

Como alunos do colégio – e candidatos, talvez, a um diploma superior – compreendemos que o que nos estão dando é empanturramento e não, educação. Há muitos alunos que, ao se licenciarem, reconhecem ter levado quatro anos ouvindo e se descartando das lições nos exames. A destreza que se atinge nesse processo não depende das matérias, mas da personalidade do professor. Se o aluno se lembra razoavelmente do que lhe foi ensinado nas aulas e nos compêndios e se conhece as manias do professor, passa de ano, sem gastar energias. Mas deixa passar, também, a educação…

Podemos ensinar em uma escola, um colégio ou uma universidade. Como professores, torna-se obrigatório que saibamos que não lemos bem. Que não só nossos alunos são incapazes de o fazer; nós, também, não vamos muito além deles. Continuar a ler

Arte de Ler (por Mortimer J. Adler)

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Há várias espécies de leitura e vários graus de habilidade em ler. Não é contradição afirmar que este livro de Mortimer J. Adler, “A Arte de Ler”, é para os que querem ler melhor ou ler de um modo diferente do que lhes é habitual.

Então, para quem não foi ele escrito? O autor pode responder, simplesmente, à pergunta falando nos dois casos extremos. Há os que não sabem ler de todo: as crianças, os imbecis e outros inocentes. E há os que talvez sejam mestres na arte de ler – fazem qualquer espécie de leitura tão bem quanto é humanamente possível.

Muitos autores não achariam nada melhor do que escrever para tais mestres. Mas um livro como este, que trata da arte de ler propriamente dita, e que procura ajudar seus leitores a lerem melhor, não pretende exigir a atenção dos experientes. Continuar a ler

Por Que Ler?

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Ninguém deveria ser obrigado a “gostar de ler”. Nada desestimula mais a se aproximar de um livro do que tais pressões. Que cada um seja livre para preferir os trabalhos manuais, os esportes ou o jogo à leitura e/ou à escrita. Estamos, nesse caso, no campo dos “lazeres”, socialmente construído, onde as inclinações pessoais prevalecem. Todavia, cada um deveria poder ter a experiência de que a apropriação da cultura escrita é desejável, e de que ela é possível, por pelo menos três motivos. Continuar a ler

Como Resistir à Adversidade Lendo e Escrevendo

A Arte de Ler

Michèle Petit dá lições sobre “A arte de ler: ou como resistir à adversidade”. É melhor iniciar lendo textos que não fazem referência direta ou explícita à situação dos leitores. Os protagonistas dos textos escritos para pobres lerem não podem ser pobres! Livros que só falam de infelicidade e desgraças, empregando um léxico cru, próximo do que utilizam esses pobres, são proximidade demais. Diante de tanta desolação, os pobres interrompem a leitura.

Quando são iniciados nos diferentes gêneros literários, a rejeição ao realismo é explicitamente formulada. O realismo já sabem o que é, e não lhes agrada. Porém, se a rejeição ao realismo parece amplamente compartilhada quando este não permite nenhum distanciamento, nenhum exílio, nenhuma saída, em certos contextos, combinado a outros escritos de ficção, contribui para uma formalização do que foi dolorosamente vivido.

Em contextos de crise, a leitura de um conto, de uma lenda, de um poema, de um livro ilustrado pode permitir falar as coisas de outra maneira, a uma certa distância — particularmente no caso daqueles que viveram uma guerra, uma catástrofe, um trauma. Um pouco por toda a parte, reconhece-se a importância da mediação de um texto estético reconhecido, compartilhado, de modo a objetivar a história pessoal, a circunscrevê-la do exterior. É necessário destacar a força da metáfora, do desvio mediante o distanciamento temporal ou geográfico. Continuar a ler