Nova Face da Economia (por Dani Rodrik)

Dani Rodrik é professor de economia política internacional da Faculdade de Governo John F. Kennedy, da Universidade de Harvard, é autor de “Straight Talk on Trade: Ideas for a Sane World Economy”. Em artigo (Valor, 13/01/2020) escreveu sobre diversidade de gêneros e etnia na profissão de economistas. Compartilho-o abaixo.

“Em resposta a pressões de dentro e de fora, a profissão de economista está gradualmente mudando para melhor. Não por acaso, o retrocesso populista que varreu as democracias avançadas nos últimos anos produziu um profundo exame de consciência sobre essa área do conhecimento. Afinal, a austeridade, os acordos de livre-comércio, a liberalização financeira e a desregulamentação trabalhista que causaram o populismo se fundamentaram nas ideias dos economistas.

Mas a transformação vai além dos pressupostos da política econômica. No âmbito da disciplina, há finalmente uma avaliação das práticas hierárquicas e da agressiva cultura seminarística que produziram um ambiente inóspito para mulheres e minorias.

Pesquisa de 2019 realizada pela antiga e conceituada entidade de classe profissional American Economic Association (AEA) revelou: quase metade das economistas se sentiam discriminadas ou tratadas injustamente devido ao seu gênero. Quase um terço dos economistas não brancos se sentiam tratados injustamente devido à sua identidade racial ou étnica.

Podemos nos aferrar a estruturas institucionais que sustentam os privilégios e restringem as oportunidades. Ou podemos conceber instituições que são coerentes com a busca não apenas da riqueza compartilhada como também de um conceito ampliado de liberdade

Essas deficiências podem ser correlatas. Uma profissão menos diversificada e menos aberta a identidades diferentes é mais tendente a exibir o pensamento único (ditado pelo desejo de conformidade no grupo) e soberba. Se ela pretende gerar ideias que ajudem a sociedade a alcançar prosperidade inclusiva, terá de começar a se tornar, ela mesma, mais inclusiva.

A nova cara da disciplina ficou em evidência quando a AEA se reuniu para seus encontros anuais em San Diego no começo deste mês. Houve muitos dos habituais simpósios de especialistas sobre tópicos como política monetária, regulamentação e crescimento econômico. Mas havia um sabor inconfundivelmente diferente nos trabalhos deste ano. Continuar a ler

Clichês aborrecidos e Eufemismos inócuos (por Pedro Cafardo)

Pedro Cafardo é editor-executivo do Valor e integra a equipe fundadora do jornal. Foi editor-chefe de “O Estado de S. Paulo” e editor de Economia em várias publicações. Este jornalista sabe escrever com espírito crítico, humor e inteligência. Compartilho abaixo sua coluna publicada no dia 11/02/2020 sobre a Arte de Escrever sem jargão ou lugar-comum vulgar.

Bora alinhar nossas posições, porque as turbulências deste mundo disruptivo nos obrigam a forjar narrativas pedestres. Precisamos focar em performar cada vez melhor.

Assustou-se com as frases acima? De fato, são esquisitas. Lá estão algumas palavras e expressões da moda, inadequadas ou que denotam um certo despreparo do redator. O bom-senso recomenda que sejam evitadas.

“Narrativa” está na moda. Ninguém mais conta uma história, explica uma situação, rememora um evento ou expõe uma opinião. Faz sempre uma narrativa, termo que tem um sentido um pouco mais pomposo do que o empregado pelo povo da moda. É algo que contempla em geral introdução, desenvolvimento e conclusão.

Há alguns clichês muito usados na mídia tradicional e nas redes sociais. “Mais cedo”, por exemplo, está o tempo todo na imprensa. Em vez de dizer a hora, uma informação precisa, o repórter diz apenas que “mais cedo” aconteceu um acidente etc, etc. E depois completa: “No fim do dia”, os envolvidos deixaram o hospital etc., etc. Continuar a ler

Governador do Estado de São Paulo contra as Universidades Estaduais

A Procuradoria Geral do Estado de São Paulo (PGE) apresentou em 24/1 petição ao ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para ser admitida como amicus curiae na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 6.257, ajuizada pelo Partido Social Democrático (PSD) a pedido do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp). Na mesma petição, a PGE solicita nada menos que a revogação da medida cautelar (liminar) decidida uma semana antes (em 18/1) pelo ministro Dias Toffoli, presidente do STF. Ele acatou os argumentos da ADIN e igualou o teto salarial dos docentes das universidades estaduais de todo o país ao teto salarial das universidades federais (cerca de R$ 39 mil).

Após a publicação da liminar, Unicamp anuncia a folha de pagamentos de fevereiro (a ser paga em março) já observará o novo teto de R$ 39 mil.

A PGE representa o Estado de São Paulo nos tribunais. Ainda se for admitida como amicus curiae, seus pedidos referentes ao mérito da ADI — além da revogação da cautelar, medidas como “a inclusão do processo em pauta para apreciação da cautelar deferida” e a “improcedência [definitiva] do pedido” — não necessariamente serão aceitos pelo tribunal.

Obviamente, o intuito da PGE é impedir o aumento do teto salarial nas universidades estaduais paulistas: USP, Unesp e Unicamp. Como o procurador geral do Estado é nomeado pelo governador, esse vínculo invariavelmente gera uma subordinação da PGE ao governo estadual, embora não devesse ocorrer de forma alguma. É difícil imaginar uma iniciativa de tal importância tenha sido tomada pela procuradora geral Maria Lia sem o aval do governador João Doria (PSDB). A decisão de pedir a revogação da cautelar proferida por Toffoli equivale a uma “declaração de guerra” do Palácio dos Bandeirantes aos professores universitários do Estado de São Paulo.

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Economia em Documentários

O objetivo da Disciplina Eletiva “Economia no Cinema” a ser oferecida por mim neste semestre letivo da graduação do IE-UNICAMP, a partir do dia 3 de março de 2020, é delinear uma alternativa ao ensino tradicional de Economia. Usarei filmes para aplicar conhecimento econômico em suas interpretações. No caso deste semestre, usarei documentários.

Organizei uma apostila eletrônica para servir como base das discussões de cada documentário. Eles duram em média 50 minutos. A outra metade da aula será ocupada por um debate sobre o visto, ilustrado pelos textos escolhidos na coletânea. Cada capítulo se refere a um documentário.

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Economia Comportamental: Heterodoxia incorporada ao Mainstream

Tim Harford (Financial Times, 10/01/2020) publicou reportagem sobre o foco dos principais economistas da atualidade. Disciplina vem incluindo diferentes objetos de pesquisa, novas ferramentas e diversidade, embora tímida, de etnia e gênero de estudiosos.

O Prêmio Nobel de Economia Robert Solow disse ter muito tempo desde quando se sentia “incomodado” com o fato de a maioria das pessoas, até as mais estudadas, não ter “uma ideia clara do que é a economia e do que fazem os economistas”.

Solow nasceu no Brooklyn, em 1924, em uma “família de classe média baixa”, como ele descreve, e foi criado durante a Grande Depressão. Embora seu pai não tenha sofrido de falta de trabalho, Solow diz, desde os oito anos, ter consciência da constante preocupação sentida pelos pais e de “que as preocupações deles eram puramente econômicas sobre o que iria acontecer, sobre como conseguiriam chegar ao fim do mês”.

Essa consciência iria modelar sua forma de pensar ao longo da vida. Ele ganhou uma bolsa para Harvard aos 16 anos e começou a carreira acadêmica na qual ele chegaria ao ponto mais alto de seu campo, o Nobel, em 1987, por suas contribuições para a teoria do crescimento econômico. Apesar da aclamação, Solow, hoje com 95 anos, continuava sentindo que, para o público em geral, seu assunto de estudo era frustrantemente nebuloso. Então, há alguns anos, em um jantar com amigos, sentou por acaso ao lado da fotógrafa Mariana Cook. Ela havia concluído pouco tempo antes um projeto fotografando 92 matemáticos, desde vencedores da Medalha Fields até jovens em início de carreira.

Solow sugeriu ela embarcar em uma série similar de retratos, mas de economistas – e Mariana aceitou. Como ele escreve na introdução do livro resultante da conversa (“Economists”, Yale University Press, importado), que contém 90 retratos em preto e branco feitos por Mariana ao longo de três anos: “A ideia solta se tornou uma realidade, e eu me vi envolvido de diversas formas. Naturalmente, tive que me perguntar: Será que fazer um livro de retratos de acadêmicos economistas era algo útil ou razoável ou mesmo são de se fazer?”.

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Precariado do Século XXI

Standing é Ph.D pela Universidade de Cambrigde e pesquisa há décadas como as mudanças estruturais no mercado de trabalho, atreladas à globalização e à revolução tecnológica, constróem um novo grupo social e econômico, o qual ele chama de precariado. O termo, surgido na década de 1980 entre as mudanças do modelo de produção em massa, foi ressignificado em 2011, quando Standing lançou “O Precariado – A nova classe perigosa” – que ganhou edição brasileira pela editora Grupo Autêntica, em 2013. Leia mais sobre na entrevista completa com o economista britânico. Continuar a ler